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11º Concurso Literário - O Vinho : Carta ao meu velho e querido soro dos afectos
Enviado por flavio silver em 31/05/2008 22:00:00 (674 leituras) Poemas deste autor

Podes ter saúde, uma casa de campo no centro da cidade.
Podes ter um canudo e seres digno de uma inteligência.
Mas se não tens bons tintos sobre a mesa,
Copo cheio de sangue da terra,
Textura como quem sente a mulher que se ama,
É o mesmo que não teres nada.
Ó vinho, ó Deus do paladar! Qual Bach para os ouvidos! Qual linho nos corpos!
Tu és a ciência das tabernas. Dos homens que vão ao mar e à noite se amam em redor das mesas.
Um bago teu desonra qualquer mestre de joalharia. Porque és cristal descendente do orvalho. Relíquia que Baco arrancou do peito.
Nas tuas ramadas fiz um poema triste que se alegrou à tua nascença.
Esperei por ti no mês de Novembro qual mãe já tem nome para criança antes de lhe saber a cor do sexo.
Só tu me tocas nos lábios em doce sabedoria e falo de astros como ninguém.
O teu húmus é a minha oração. Sobre a tua levedura erguem-se altares luminosos. E eu não sou mais que um poeta com palavras feitas em mosto,
um homem como o Ti Manel e a Dona Tiana que trocam os pés debaixo da mesa antes e depois de tingerem os cantos da boca com um sol poente.
Podes ter um pássaro livre ou um passaporte para voar.
Podes ter um colar que dê três voltas ao pescoço.
Mas se não tens nobreza dentro de um copo de vidro,
Calor natural idêntico ao bafo dos animais,
É o mesmo que não teres nada.
Ó vinhos! Ó ponte dos homens rijos! Sem ti não havia amanhecer, os corpos murchariam devagavar e a jorna seria os fios que atam os fardos.
Gosto do teu silêncio prateado, da forma como bailas no côncavo da minha boca, dos segredos que trazes da terra.
Fosse os meus braços uma videira que dá uva todo o ano.
Assim, abraçaria todos os homens da terra,
falava-lhes de promessas verdadeiras e, à noite,
quando os pirilampos se confundem com os contornos dos teus bagos,
amaria todas as árvores sacrificadas para haver mesas e, sobre elas,
tocávamos os lábios e matávamos a sede aos peixes que nadam no supremo cálice do amor.
Ó vinhos capazes de retirar os espinhos de Cristo!
Senhor dos frutos que do sangue da terra fez um império!
O teu pecado original é o corpo que encerra o verão e abrigas os amantes na sombra das tuas ramadas.
Ó vinhos! Ó túnicas do amor que me lembram reis!
Ó dor! Ó sorte! Na tua concepção o vento não tem nada a dizer!
És poema universal, ópio que aquece os corações. Até os corações dos bandidos!
Todos te querem, ó vinhos que explusas meu sangue! Sorver a tua longa luz onde o sol é senhor mandatário.
Agora é noite, as estrelas estão a chegar, o cão está a guardar a casa.
Tenho silêncio, tenho filhos que dormem e sonham com casas no mar.
E tenho vinte minutos que são vinte mil voltas ao coração. Vou encher o copo com a tua líquida semente. Com o sangue das coisas vivas.
Vou deitar a cabeça na mesa. Vou sonhar que amanhã será outro dia igual a este. Vou dizer-te o quão me tocas na fantasia, ó meu velho e querido soro dos afectos!








meu blog:
www.teoriadoscalhaus.blogspot.com

minha casa (em obras):
www.flavio.blogtok.com

Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
josetorres
Publicado: 04/06/2008 14:01  Atualizado: 04/06/2008 14:01
Colaborador
Usuário desde: 28/2/2007
Localidade: Minho
Mensagens: 6192
 Re: Carta ao meu velho e querido soro dos afectos
Prosa intensa, de corpo rubro, que se dá ao leitor de forma liquida e não obcessiva.
Gostei muito desta prosa e admiro muito o seu autor.

Enviado por Tópico
Carolina
Publicado: 09/06/2008 02:22  Atualizado: 12/06/2008 00:57
Colaborador
Usuário desde: 04/7/2007
Localidade: Santo Tirso
Mensagens: 3690
 Re: Carta ao meu velho e querido soro dos afectos

Enviado por Tópico
Bruno Sousa Villar
Publicado: 17/06/2008 22:13  Atualizado: 17/06/2008 22:13
Colaborador
Usuário desde: 09/3/2007
Localidade:
Mensagens: 1476
 Re: Carta ao meu velho e querido soro dos afectos
Muito interessante.

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