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MINHA ATI, JACAMIM, FILHOTE DE PASSARINHO
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
“Mãeeee, pulei de bump jump!!!!! 60 metros!!!! Yuhuuuuuuuuuu!!!”. Era esta a mensagem no meu celular. No meio da rua, sem me lembrar dos transeuntes , pensei alto:
_ puta que pariu! Que menina ousada! Passou um filme na minha cabeça... Aquela bebê linda, de olhos-bolinhas-de-gude, que arrastava o papel higiênico do banheiro até a sala, aos nove meses, pensa que pode voar. Literalmente. Deu medo. Mãe que se preza tem que exagerar nos sentimentos de proteção e medo sobre os perigos que envolvem os filhos, ou pensa que tem.., Já melhorei muito. Mas a minha filhote de passarinho (o outro é da terra), sempre deu mostras dessa ousadia, que agora aos vinte anos, exerce sem o menor pudor. Que bom que não conseguimos conter o seu potencial saudável de transgredir e de derrubar barreiras, e aceitar desafios. Sempre anunciou esses desejos audaciosos: “Vou fazer 18 anos, e vou aprender a dirigir”, e aprendeu. Quero trabalhar, e trabalha. Vou tatuar uma “maori” na perna. Vai ver lá o seu desejo concretizado na pele... Agora, eu acho lindo. Depois, “Vou voar de asa delta, saltar de paraquedas, pular de bump jump”. Oh, céus! Haja céus!
Lembro que meu irmão, o Néo, saltava de paraquedas, quando ainda morava em Montes Claros. Eu admirava a sua coragem e invejava a sensação de liberdade que imaginava conter essa “loucura”. Minha mãe, às vezes, ia assistir o filho “pular”, e sempre pedia, sem sucesso: “Ô meu filho, não pula não.” Ele respondia debochado: “Não vou pular não, mãe, vou saltar”.
Eu penso que nasci marcada pelo medo, e em muitos momentos da vida fui por ele tomada. Um penoso caminho, desconstruindo as barreiras, trincheiras, armaduras que jamais me protegeram de fato. Paradoxalmente, e identificada com minha filha “voadora”, cultivo na poesia meus desejos secretos de voar. Mas apenas no voo seguro das palavras.
Então, mais aliviada, posso dizer que quando minha avezinha adulta, minha Ati, Jacamim, filhote de passarinho, forte e segura o suficiente para voar, o fez, levou junto partes incipientes dessas minhas asas imaginárias.
Voei junto. Foi libertador.
60 metros!!!!
Yuhuuuuuuuuuuu!!

PS_ Mas, olha filha, já tá bom, né?

Sandra Fonseca


Do tupi-Guarani:
*Ati: gaivota pequena
*Jacamim: ave ou gênio, pai de muitas estrelas (Yacamim)

Criado em: 23/3 16:28
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MORTE POR SINCERICÍDIO
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
Criança não mente. Mesmo que seja por medo do seu nariz crescer. Quando eu era criança costumava colocar minha mãe em verdadeiras “saias-justas”, desmentindo-a ou entregando –a à frente de todos. Que eu me lembre, numa ocasião em que ela recebia a assinatura de uma revista de moda, e esperava com ansiedade a chegada do correio, vi minha mãe guardando-a novinha e cheirosa (sim, eu também cheirava revistas) no alto do armário. A filha de uma vizinha, apaixonada por roupas, não lhe dava sossego. E lá vinha ela, pela décima vez perguntar se a revista havia chegado. Minha mãe, toda séria (a pessoa quando mente fica séria), disse: “ Não minha filha, até hoje não recebi.” Eu, atenta, e desde então uma “ pagadora de micos”, entreguei: “Mas mãe, você recebeu sim a revista, e a colocou lá no alto do armário”, e virando-me para a moça: “Ela recebeu sim, e está guardada.” Minha mãe, imediatamente me desmentiu, pegando-me pelo braço: “Não Sandra, não é a revista que estamos esperando”. Não adiantou. Até me ofereci para buscá-la. Então, senti as unhas fantásticas da minha mãe, passarem de um aperto para uma implacável unhada, ou melhor, o que a gente, meninada, chamava de um “beliscão debaixo da asa.” Ai então, eu entendia. Calava e ia remoer minha falta de entendimento das convenções adultas.
Cresci e até incorporei pequenas mentirinhas sociais. Sabe aquelas coisas? Como tem passado? Oh, como você está magra! Adorei o presente! Folgo em sabê-lo! Saudações, minha cara! E outras tantas frases tão lugar-comum, que não é possível que ambos os interlocutores não pensem (quase alto), ai, que mentira!
Ainda bem. Sinal de que o superego está presente. O superego é essa instância do aparelho psíquico, descrita por Freud, e que tem a função de conter nossos mais primitivos impulsos. Então aprendemos a viver em sociedade. Incorporamos conceitos morais, e portanto, mentiras, mentirinhas, e mentironas.
O fato é que eu além de tudo o mais, tenho o riso frouxo, então imaginem a situação da pessoa , uma “ pagadora de micos” que basta o assunto vir à tona, e todos da família querem contar sua versão desses momentos surreais, que penso que só acontecem comigo.
A maturidade já me ajudou muito à equilibrar essas forças (será?). O fato é que sou uma candidata, muitas vezes à morte por sincericídio. Espero só nunca perder um amigo por isso. Mas, não perco um amigo por uma piada. Jamais.
E muitas vezes, sinto falta das unhas da minha mãe. Porque é a vida que, hoje, volta e meia, me dá um beliscão debaixo da asa.

Sandra Fonseca




Nota: Merece um glossário:

Glossário fonsequiano:

Morte por sincericídio : morte (simbólica, tá?) por excesso de sinceridade.

Saias-justas: situações difíceis, situações no limite.

Pagadora de micos: pessoa que se envolve em situações ridículas, engraçadas.

Beliscão debaixo da asa: unhada debaixo do braço. Ó como dói! Autora: Dona Tereza.



Criado em: 26/2 23:45
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Re: Júlio Saraiva
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
Incrível, não é Cleo? Esta tudo dito ao longo da poesia dele. A vida no limite, a saudades dos grandes poetas, da sua mãe, os ensaios de morrer em tantos poemas como esse que também me impressionou. O tom irônico, quase debochado... O fato é que ele era todo desapego, e tudo o que o prendia eram as palavras, os amores e as palavras.

Bj.

Criado em: 22/2 23:42
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Re: Júlio Saraiva
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
Esse poema do Júlio diz bem dessa despedida. E ele morreu ontem...


SE EU MORRER ONTEM

se eu morrer ontem
e você por acaso acordar
hoje cedo com vontade
de chorar
chore não
esquece
não vou estar por perto
e ninguém vai reparar
ouça um samba do adoniran
ou do paulo vanzoline
coloque um vestido indiano
não passe de 2 dry martines
pra coisa não desandar
pense que vivi o bastante
pra quem viveu por engano
como um sincero farsante
poeta não fui dos piores
menos príncipe mais sapo
alaranjei meus horrores
se eu morrer ontem
diga
aos interessados
que os convites para o
enterro
estão todos esgotados.

Júlio Saraiva

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/ne ... ryid=164754#ixzz2LffdJfGd
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

Criado em: 22/2 22:52
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Re: Júlio Saraiva
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
Estou verdadeiramente chocada com essa notícia, Caio.
Nem sei o que dizer. Ou melhor, não há nada a dizer.
Bj.

Criado em: 22/2 16:49
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Re: Comentários
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
Isso virou um grande confusão. Exagero e injustiça vejo do Frank Mike, que parece ter um lugar privilegiado, pois quer a solução dos seus problemas de imediato. Concordo plenamente com a Roque. Os textos que aqui foram apresentados por dois novos usuários incitavam ao incesto, à pedofilia e abuso sexual. Achei lamentável o Frank Mike a comentar dando as boas vindas à "Poetisa" e autora. Certamente que o site sofre sanções. Eu não sei se é inocência em demasia ou identificação com essa categoria de textos, que nunca teve classificação possível no site. O site corre mesmo risco é de ser bloqueado, com a permissão e acolhimento de tais publicações.
Acho que houve um "surto" no site, por um lado pornô, por outro psicótico. Ficou difícil de entender o que está sendo reivindicado, e o motivo das acusações.

Fiquem bem,

Sandra.


Criado em: 16/2 22:57
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Re: 1.º Concurso Literário AlenCriativos- Comunidade Escolar- tema Audaz Fantasia
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
È uma iniciativa muito louvável patrocinar eventos literários. Que outros, pessoas jurídicas ou físicas sigam esse exemplo.
Parabéns Ana, pelo evento.

Bj.

Criado em: 31/1 22:46
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Re: A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
Clique para ver a imagem original em uma nova janela

"Hoje o Patrão Velho resolveu deixar o céu um pouco mais gaudério...

Levou uma gurizada pra matear com ele e deixou a nossa Querência tapada de tristeza e dor.

Patrão Velho esperamos que esta gurizada tão faceira e cheia de sonhos alegre teus pagos e que eles encontrem no aconchego do teu poncho luz e paz.

Guarde-os contigo para que muito em breve o céu vire um Fandango de Galpão e não te esqueças de amparar aqueles que aqui ficaram sofrendo por ter de matear sozinhos..."

Foto e texto da páginaa do: Friolândia

Na linguagem única do Rio Grande do Sul:

gaudério: leve, alegre, despreocupado
gurizada: meninada, putos, jovens.
Querência: lugar querido, onde se vive.
Pagos: domínios, espaços.
Poncho: Espécie de capa, roupa típica do R. G. do Sul.
Fandango: Dança típica gaúcha.

Criado em: 28/1 19:40
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Re: A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
O escritor Fabrício Carpinejar, do Rio Grande do Sul, fala nesta crônica, da tragédia acontecida nesta madrugada de domingo, em que centenas de jovens,a maioria universitários, morreram numa boate incendiada, em Santa Maria - RS.
Fala por nós, que também morremos um pouco, porque somos pais, porque dá para nos imaginar neste lugar, de esperar um filho, ou filha da balada... mas que não vai voltar. Celulares de vítimas tocavam enquanto os bombeiros retiravam seus corpos da boate... Que cena triste!

Criado em: 27/1 17:29
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A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS
Colaborador
Membro desde:
15/8/2006 23:48
De Brasil
Mensagens: 2423
Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.

A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

Fabrício Carpinejar

Criado em: 27/1 17:23
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