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Como escrever um Haiku ou haikai?
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De Lisboa (arredores)
Mensagens: 1082
Haiku ou haikai, é um género de poesia tradicional japonesa formalmente caracterizado por um poema de 17 sílabas, dividido em três frases de 5, 7 e 5 sílabas (morae). A forma tradicional justapõe duas imagens contrastantes, uma simbolizando o tempo e outra sugerindo uma observação ou uma revelação. Os grandes mestres do haiku foram Matsuo Basho, Yosa Buson, Kobayashi Issa e Masaoka Shiki. (informação tirada da “infopédia”)

Sendo que Matsuo Bashô é quase sempre o citado e referido, trago outro mestre e os seus exemplos de verdadeiros haikus.

• "Pousada/ Sobre o sino do tempo,/ Dormita uma mariposa."
• "Linha de pássaros em voo./ Atrás da colina,/ A lua está."
• "A planície está nublada/ E as águas mantêm silêncio./ É o entardecer."
• "Ia eu às cerejeiras em flor,/ Dormia em baixo delas./ Era esse o meu passatempo."
• "A montanha se escurece,/ Assumindo uma magnífica cor púrpura/ Nas folhas das árvores quando chega o outono."
• "Ainda mais tocantes à luz de lampiões,/ Nas noites frias,/ São as nossas orações."
(Yosa Buson)

O haiku é uma forma de poesia que não dá honra e glória ao seu autor, nos tempos que correm. O haiku serve para apurar a nossa sensível observação do mundo e para puro prazer de quem o escreve e de quem o saiba ler.
A realidade de outros tempos no antigo Japão, nada tem a ver com o nosso quotidiano, somos agora sufocados por uma pressão e opressão de extremos, a velocidade dos dias embrutece-nos, o egotismo sobrepõe-se aos princípios fundadores das mais belas utopias de comunidade. A Poesia também sofre com esta era abrupta e densa.
O prazer dum simples haiku, escrevendo ou lendo-o pode ser libertador, apaziguador e anti-stress.
Um escritor de grande espontaneidade, Jack Kerouac, fora os mitos criados á sua volta como representante da Beat Generation e etc, tirava prazer em conceber haikus. Na sua famosa última entrevista pela revista “Paris Review”, em 1968, ensina-nos como escrever um bom haiku. Saibamos tirar da sua lição a nossa riqueza.

“A entrevista da "Paris Review"

“Os Kerouacs não têm telefone. Ted Berrigan contatou Kerouac alguns meses antes e o convenceu a dar a entrevista. Quando sentiu que a hora do encontro havia chegado, simplesmente apareceu na casa dos Kerouacs. Dois amigos, os poetas Aram Saroyan e Duncan McNaughton, o acompanharam. Kerouac respondeu a seu chamado; Berrigan rapidamente disse a ele seu nome e o propósito de sua visita. Kerouac saldou os poetas, mas antes que pudesse convidá-los a entrar, sua esposa, abraçou-o pelas costas e disse para o grupo sair imediatamente. Jack e eu começamos a falar ao mesmo tempo, dizendo “Paris Review!” “Entrevista!”, enquanto Duncan e Aram começaram a retirar-se na direção do carro. Todos pareciam perdidos, mas eu continuei falando de modo civilizado, aceitável, calmo e num tom de voz amigável, e logo a Sra. Kerouac concordou em nos deixar entrar por dez minutos, na condição de não haver bebidas. Uma vez dentro, quando ficou mais evidente que estávamos em busca de algo sério, a Sra. Kerouac ficou mais amigável, e pudemos começar a entrevista. Parece que as pessoas ainda costumam aparecer na casa dos Kerouacs procurando pelo autor de “On the Road”, e ficam lá por dias, bebendo todo o licor e desviando Jack de suas ocupações sérias. Enquanto a tarde passava, a atmosfera mudava consideravelmente, e a Sra. Kerouac, Stella, se mostrava uma graciosa e encantadora anfitriã. A coisa mais incrível de Jack Kerouac é sua voz mágica, que soa exatamente como suas obras. Sua voz é capaz das mais assombrosas e desconcertantes mudanças já vistas. Ela dita tudo, inclusive esta entrevista. Após a conversa, Kerouac, que se sentou numa cadeira estilo “Presidente Kennedy” durante a entrevista, se mudou para uma grande poltrona e disse, “Então, garotos, vocês são poetas, não é? Bem, vamos ouvir algumas de suas poesias”. Ficamos por mais de uma hora. Aram e eu lemos algumas de nossas coisas. Finalmente, ele deu a cada um de nós um poema recente com uma dedicatória, e então partimos.

— Ted Berrigan, 1968”

(…)

“TED BERRIGAN — Você disse que haiku (haikai) não é escrito espontaneamente, mas trabalhado várias vezes e revisado. Isso se aplica a toda a sua poesia? Por que o método para escrever poesia se diferencia do método para escrever prosa?

KEROUAC — Não, primeiramente, escrever em haiku fica melhor quando se revisa e trabalha várias vezes. Eu sei, eu tentei. Deve ser completamente econômico, sem floreios e linguagem rítmica, deve ser como uma simples foto com três linhas. Pelo menos foi assim que os mestres mais velhos fizeram, gastando meses em três linhas, e dizendo:

No barco abandonado,
O granizo
Bate violentamente.

Isso é Shiki. Mas para o meu verso regular em inglês, eu fiz como uma prosa corrida, e para obter isso, usei um caderno do tamanho do manuscrito original de “Vanity of Duluoz”. O rolo é feito de um papel fino de centenas de metros, para a forma e comprimento do poema, assim como um músico de jazz tem que colocar sua letra numa determinada quantidade de barras, dentro de um refrão, que se repete ao longo do texto, mas neste caso o refrão não para quando a folha termina. E finalmente, na poesia você pode ser completamente livre para dizer o que quiser, você não precisa contar uma história, pode usar trocadilhos secretos.


TED BERRIGAN — Como você escreve haikai?

KEROUAC — Haikai? Você quer ouvir haikai? Veja, você tem que comprimir em três linhas uma história enorme. Primeiro você começa com uma situação haikai — então você vê uma folha, como eu tinha dito a ela (Stella) outra noite, caindo nas costas de um pardal durante uma forte tempestade de inverno em Outubro. Uma grande folha cai nas costas de um pequeno pardal. Como você pode comprimir isso em três linhas? Agora, em japonês você tem que comprimir em 17 sílabas. Não precisamos fazer isso em inglês, pois não temos o mesmo sistema silábico que o Japonês. Então você diz: “Pequeno pardal” — você não tem que dizer “pequeno” todo mundo sabe que um pardal é pequeno, então você diz:

Pardal
Com grande folha em suas costas —
tempestade

Não está bom, não funciona, esqueça.

Um pequeno pardal
Quando repentinamente uma folha toca suas costas
Do vento.

Hah, assim que se faz. Não, está um pouco longo. Viu? Já está um pouco longo, Berrigan, entende o que quero dizer?


TED BERRIGAN — Parece haver uma palavra extra. Que tal tirar o “quando”? Ficaria:

Um pardal
Uma folha de outono repentinamente toca suas costas —
Do vento!

Hey, isso está bom. Acho que “quando” era a palavra extra. Você pegou a ideia aqui, “Um pardal, uma folha de outono de repente”— não temos que dizer “de repente” não é?

Um pardal
Uma folha de outono toca suas costas —
Do vento!

[Kerouac escreve a versão final em um caderno de espiral].“

(…)

Esta entrevista está disponível numa edição recente da editora “Tinta da China”, num livro de recolhas das melhores entrevistas da conceituada revista, organizada pelo jornalista Carlos Vaz Marques.

(Dez.11)

by Carlos Teixeira Luís

Criado em: 5/12/2011 15:50
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Carlos Teixeira Luis

http://carlosteixeiraluis.blogspot.com

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Re: Como escrever um Haiku ou haikai?
Colaborador
Membro desde:
6/8/2009 20:29
De Sorocaba - SP - Brasil
Mensagens: 1833
Olá, Carlos adorei as informações do seu tópico. Existem estilos literários que ainda não aprendi. Este espaço "Teoria Literária", criado pelo Caíto, será um grande portal para vários assuntos ligados à Literatura e sua história.

Agradecemos desde já, sua contribuição.

Helen De Rose.

Criado em: 6/12/2011 15:09
_________________
Helen De Rose
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Re: Como escrever um Haiku ou haikai?
Super Participativo
Membro desde:
14/10/2011 14:51
Mensagens: 133
este espaço, assim, é que é bem usado. mas sem novelas e sem polémicas ninguém lhe pega... é uma pena.

parabéns carlos teixeira luís

reconhecido
nac

Criado em: 6/12/2011 22:39
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Re: Como escrever um Haiku ou haikai?
Colaborador
Membro desde:
28/7/2009 10:35
De
Mensagens: 8906
Francamente também gostava de aprender, li e tirei algumas conclusões, mas não haverá uma maneira mais simples, mais reduzida, mais acessível a quem mete os pés p'las mãos em toda esta leitura?


Criado em: 6/12/2011 23:09
_________________
Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira.
Johann Wolfgang Von Goethe

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Re: Como escrever um Haiku ou haikai?
Colaborador
Membro desde:
8/9/2009 17:29
De Lisboa
Mensagens: 2600
Carlos, terei que reservar algum tempo, para aprender

Obrigada pelo tópico

Criado em: 6/12/2011 23:45
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