HILDA HILST: UMA OBSCENA SENHORA |
||
|---|---|---|
|
Colaborador
![]()
Membro desde:
15/8/2006 23:48 De Brasil
Mensagens:
2423
|
"Deus pode ser uma negra noite escura, mas também um flambante sorvete de cerejas”. Frase de Hilda, dita ao escritor Caio Fernando Abreu.
Sobre Hilda Hilst: 1930/2004 O temperamento e a linguagem inovadora e transgressora era impossível para os padrões dos anos 50. Hilda Hilst propõe em sua obra uma nova forma de escrever poesia, através da revitalização da linguagem, busca a desestruturação, a desordem, para depois construir uma idéia (de homem) dentro de novos paradigmas. Na ficção, Hilda Hilst escreveu a “Obscena Senhora D”, em que nomeia Deus como um “Menino-porco construtor do mundo” e cujas bases do texto são o corpo, Deus e o porco, numa autêntica transgressão, quebrando os limites entre o profano e o sagrado. É então que revela o que de maravilhoso e divino há nestas três instâncias: o corpo, Deus, e a palavra erótica. Outras obras como a chamada trilogia obsceno-pornográfica de Hilda Hilst, à época, pasmem, aos 60 anos de idade - O caderno rosa de Lori Lamby (1990), Contos d’escárnio e Textos grotescos (1990) e Cartas de um sedutor (1991). Em 54 anos de carreira literária, muitas premiações e livros traduzidos em outras línguas, Hilda Hilst foi colocada à margem da literatura “séria” e dividiu a opinião dos críticos, sendo classificada como pornógrafa por sua linguagem clara, direta e erótica. Conforme, Queiroz: "Dificilmente o público leitor brasileiro, conservador e mediano em seus gostos literários, brutalizado por uma cultura televisiva de baixíssima qualidade e bastante precária, consegue digerir uma obra cuja engrenagem discursiva é movida pela fúria iconoclasta, pela quebra dos padrões do “bem escrever” e pela vontade de dobrar os limites da palavra, da sintaxe e das convenções banalizadas, sejam elas literárias, ou morais. Além disso, a fúria do seu discurso, que mescla os mais terríveis palavrões, as cenas mais escabrosas ao mais profundo lirismo e à quase epifania religiosa, parece não caber nas regras da nossa pedagogia acadêmica". Muitas características da teoria sobre o erotismo, de Georges Bataille, especialmente a transgressão, destituição da figura divina, a aproximação entre o profano e o sagrado, a descontinuidade permeiam a obra. Um poema... AMAVISSE
Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco À espera da tua fome, permita-me a pergunta Senhor de porcos e de homens: Ouviste acaso, ou te foi familiar Um verbo que nos baixios daqui muito se ouve O verbo amar?
Porque na cegueira, no charco Na trama dos vocábulos Na decantada lâmina enterrada Na minha axila de pêlos e de carne Na esteira de palha que me envolve a alma
Do verbo apenas entrevi o contorno breve: É coisa de morrer e de matar mas tem som de sorriso. Sangra, estilhaça, devora, e por isso De entender-lhe o cerne não me foi dada a hora.
É verbo? Ou sobrenome de um deus prenhe de humor Na péripla aventura da conquista?
Bataille diz do Erotismo como forma de aproximação com o sagrado. A complexidade do erotismo baseia-se na luta pela continuidade, de um “religare” (religião no seu sentido mais puro) com o ser. A essência do erotismo por Bataille, reside no “interdito criado do desejo”. O desejo de transpor os limites. E isso Hilda faz em cada verso de seus poemas eróticos e em grande extensão de sua obra em prosa. É a expressão ao mesmo tempo do sublime e do grotesco, do divino e do animalesco. Transcende, pela poesia, a privação do prazer imposta pela religiosidade quando tem acesso ao erotismo e à Deus. Outra característica da poesia erótica de Hilda Hilst é a descontinuidade. São partes como osso, carne, que ela por vezes, apresenta como simbolismo dessa fragmentação. Mesmo essa descontinuidade, segundo George Bataille em O erotismo (1987, p.15), “somos seres descontínuos, indivíduos que morrem isoladamente numa aventura ininteligível, mas temos a nostalgia da continuidade perdida”. Em "Do desejo", Hilda blasfema, profana, mas também se eleva, voz feminina, à altura da divindade. Disse em uma entrevista: “Posso blasfemar muito, mas o meu negócio é o sagrado. É Deus mesmo, meu negócio é com Deus.” Transita dessa maneira com, não sem o desconforto dessa poesia erótica entre o profano e o sagrado. Revela, desafiadora, o deus-porco( de Bataille). Desafia-o, mas não o subestima. Até mesmo o abraça no maravilhoso da linguagem, e se eleva como poeta-deusa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: HILST, Hilda. Do desejo. São Paulo: Editora Globo, 2004 QUEIROZ, Vera. Hilda Hilst e a arquitetura de escombros. Disponível em www.apebfr.org/passagesdeparis Acesso em 23/11/11. BATAILLE, Georges. O Erotismo. Porto Alegre: L & PM Editores, 1987
Nota: Parte de trabalho acadêmico apresentado à disciplina “Erotismo e Nomadismo na Literatura Brasileira” da Professora Dra. Vera Casa Nova – Curso de Letras – UFMG - 2011
Criado em: 6/12/2011 21:55
|
|
|
_________________
CRÔNICAS NESTE SITE: http://www.luso-poemas.net/modules/newbb/viewforum.php?forum=112 http://estoyprosa.blogspot.com.br/ |
||
Transferir
|
||




Transferir