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Poemas : 

POEMA DA FOICE E DO MARTELO

 
a meu pai, em memória - consagro.


a foice fere o fogo
a foice faz o fogo
a foice faz e fere
o inimigo que com ferro fere
quem foi que disse
que a foice foi-se
- não!
a foice fere e finda a fome
a foice mata o fim da fome
- sim!

(que legado é este que recebi de ti meu pai?
ossadas humanas espalhadas no caminho
urubus fartados das carnes magras
da gente miserável do país onde nasci
o vento vinha & varia & arrastava para longe
o cheiro dos mortos
& havia um velho louco com cacos de dentes
na boca que nas noites estreladas - só nas noites
estreladas nas outras não - saía na varanda acen-
dia um cigarro cantava a Internacional
e me contava histórias da Revolução Cubana
o velho tinha lágrimas nos olhos
no brasil vivíamos dias podres
de matanças e torturas
& o velho me contava as proezas de Guevara e Fidel
& eu achava que aqui também podíamos
fazer uma revolução como a Revolução Cubana
nunca dei um tiro na vida
mas achei que - fosse o caso - também pegaria em arma
pela causa vale tudo

o martelo e a foice matariam a morte
o medo
mudariam os modos
dariam fim à miséria
mudariam também as manhãs
os miolos
fariam funcionar os moinhos de novo
o martelo e a foice esmagariam
as mãos canalhas
que torturavam e matavam
o martelo mais a foice
esmagariam as migalhas atiradas ao povo

maldito capitalismo!

________________

júlio


Júlio Saraiva

 
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Julio Saraiva
 
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Enviado por Tópico
Grapilho
Publicado: 13/03/2010 19:31  Atualizado: 13/03/2010 19:31
Colaborador
Usuário desde: 11/11/2009
Localidade:
Mensagens: 695
 Re: POEMA DA FOICE E DO MARTELO
Caro Júlio,


MALDITO CAPITALISMO!!!

Abraço

"Grapilho"


Enviado por Tópico
rosafogo
Publicado: 13/03/2010 19:44  Atualizado: 13/03/2010 19:46
Colaborador
Usuário desde: 28/07/2009
Localidade:
Mensagens: 9599
 Re: POEMA DA FOICE E DO MARTELO
Bela homenagem.
O velho louco que fala no poema me trouxe à memória um primo que às mãos da PIDE ficou louco
e poucos anos depois gritando contra a ditadura,
morreu na rua,vítima dos maus tratos que lhe haviam feito na
prisão.
Alguém teve que sofrer tanto e será que valeu?

Na minha aldeia há histórias infernais desse
tempo.
Olhe amigo Saraiva aqui onde estou hoje na aldeia
de Stª Justa, levaram também as mulheres presas só porque reclamavam dos grandes agrários um pequeno
aumento. Foram bravas estas mulheres, mas hoje estão acabadas, dá pena, a vida não foi justa,
para além da pouca instrução ainda comeram o
pão que o diabo amassou.

Também me causa revolta, é difícil calar.

Abraço e me desculpe o desabafo.

rosa


Enviado por Tópico
Antónia Ruivo
Publicado: 13/03/2010 21:14  Atualizado: 13/03/2010 21:14
Colaborador
Usuário desde: 08/12/2008
Localidade: Vila Viçosa
Mensagens: 3906
 Re: POEMA DA FOICE E DO MARTELO
Vi-me menina com oito, nove anos, a ouvir longas conversas a meia voz, sobre temas que só alguns anos mais tarde descobri do que se tratava, mas que me aguçavam os sentidos e a necessidade de saber sempre mais,obrigado por este belo momento de poesia. Beijinhos Poeta.


Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 13/03/2010 22:46  Atualizado: 13/03/2010 22:47
 Re: POEMA DA FOICE E DO MARTELO
a história contada assim, com poesia; dá até mais arrepio. e o nó na garganta; sempre.

beijo amiguirmão.

zésilveira

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