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Partilhar Crónicas :  O filme
 
O filme estava bom.
os actores a fazerem amor e eu a dar à manivela. pelo menos isso. também gosto de filmes com muita pancadaria.
isso faz-me forte e pensar que não sou o único a apanhar.
desde que a helena se foi que tenho ido assistir a filmes porno. a minha mente necessita de uma boa gramagem de depravações. fá-la correr mais depressa e sinto-me um poço de desejos.
pena é que a da fila da frente, com os seus cabelos longos, me tape um pouco as vistas. o gajo que está com ela deve-lhe ter o dedo lá dentro, pela forma como se mexe, aposto que sim. são sessenta minutos de sexo sem tirar fora. eu próprio me senti cansado e não era nada comigo. vim embora quase no final. e prometi a mim mesmo deixar-me destas merdas. a partir de hoje vou viver saudável, mente sã, corpo a regenar, e se possível arranjar uma tipa que seja certinha e que tenha o gosto que eu tenho por moedas antigas.

já disse, em último caso viro para o budismo e faço uma limpeza carnal bem a fundo. o wisky está a dar cabo de mim. a biópsia o dirá.
as madrugadas já não nem acendem um único desejo. fico em frente ao computador sem conseguir escrever um corno.
há dias assim. levanto o cu da cadeira e saio à rua. os autocarros vão cheios e está bom para gamar umas carteiras, tenho essa vontade mas falta-me vocação. tenho cinco euros no bolso e espero que renda uma boa bebedeira. o que se torna um castigo é que as mulheres daqui só aceitam falar comigo se lhes pagar um copo. e o problema é que elas só gostam do bom e do caro. a solução passa em me dedicar à pesca.

e assim foi. investi em dois anzóis, vinte metros de poleiro, cacei umas moscas, passei pelo canavial de um amigo e pedi-lhe uma cana jeitosa. no rio, o açude corria com uma certa violência, as lampreias deviam anda por ali, a desovar. com sorte e tal, arrancaria das águas dois almoços e três jantares, a minha experiência de outros anos assim o diz. uma hora no combate aos peixes e nada, nem lampreia nem truta nem tainhas nem a puta que o pariu!, o anzol só amarrava em lixo doméstico e de vez em quando umas camisas de vénus. o meu azar notava-se a milhas.

pensei em desistir, mas como sou chato como um chato, resolvi ficar, até que a sorte fizesse a sua justiça. quase amanhecendo, a minha barriga com um desassossego de criar zumbidos lá dentro, as minhas costas a perder o porte atlético e a ficarem curvas, tão curvadas que mais uns cêntimetros eu seria capaz de fazer um auto-broche, um peixe saltou-me para o colo. achei isto uma brincadeira de mau gosto, porque, normalmente, tudo o que me cai no colo, eu como.

mas, a compaixão fez de mim um ser porreiro. e levei-o para casa, meti-o num aquárizito e passei a dedicar o meu tempo ao peixe.
tornámo-nos amigos, confidentes, até. o peixe foi crescendo e tive de o mudar para uma bacia das grandes. eu não sei a que espécie pertence o peixe, pois eu de peixes só percebo é de os comer, nada mais. com o tempo, a miséria a apertar, o aspecto delicioso do peixe, a dar-me vontades de o cozinhar era cada vez maior.

por duas vezes coloquei-o sobre o tacho mas faltou-me coragem para acender o lume. apesar da fome, a minha compaixão era quase divina. alguém enviara aquele peixe para o meu colo por motivos bem fortes. eu nunca quis ver deus pelas costas, por isso trincava armários para matar a fome. e o peixe tão gordinho... tive de ser forte e olhar para o animal apenas com amizade.

e foi o que foi, brincava com ele, às vezes ele vinha ter bem pertinho da minha boca mas eu não tinha aqueles pensamentos de outrora. o meu espírito estava limpo como um caneco de vidro depois de ter ido à máquina de lavar loiça. a minha fome predadora transformou-se em palavras de renovação, palavras de amigo, inclusive, muitos amigos por estranharem esta minha nova forma de ser, pensaram que estava dando em bicha.

expliquei-lhes que foi uma luz. eles não entenderam e tive de explicar por gestos. logo aqui dispenso palavras. eles lá entenderam que deus aponta o dedo a uma ovelha e que depois temos a obrigação de o seguir. mais ou menos isto. eles riram. insistiram a perguntar se eu não voltei às drogas. eu fiz um ó com a boca e desandei para outros caminhos. a carlota, que agora não valhe um pentelho, quis meter treta comigo mas eu mandei-a de volta ao mar, como quem diz, ir chupar na quinta pata de um cavalo.

o problema é que não existe remédio para a incompreensão. mais duas voltas ao quarteirão e regressei a casa. fui para dar o boa-noite ao peixe e vi que ele estava desmaiado, melhor dizendo, morto. chorei. não vou descrever o choro porque os choros não se descrevem, o choro é tão nosso que, se somos apanhados em flagrante lágrimas, ainda escorre mais. três comprimidos com um gole de cerveja para dormir foi a melhor forma de resistir à noite e chegar e avistar a manhã pela manhãzinha.

vim à varanda cumprimentar o sol e dar um grito daqueles capazes de se ouvir dentro da imaginação de todos os homens. um autocarro cheio de gente parou. pessoas começaram a sair e outras a entrar. o motorista fez-me um gesto. por eu não ligar, ele repetiu-o. fui ter com ele. sem responder a qualquer formulário entrei no autocarro e levou-me para junto de um rio. nesse rio havia um único peixe que estava preso numa rocha. entrei dentro de água para o salvar e salvei-o. nunca mais o vi. nem peixe nem motorista.
coisas esquisitas aconteceram por ali que não sei traduzir. súbitamente uma nuvem negra deu lugar a um sol de praia entre as nove e as onze da manhã.
de quaisquer das formas deixei-me estar por ali, à cata de algum sossego, pois nessa hora tinha a sensação que ressucitara de uma morte por acontecer.

a vida, sei lá que caralho é a vida.
adormeci.
e tão depressa acordei numa sala de cinema, vazia, só a luz branca do projector na tela.
saí com uma ânsia entre os ossos. cá fora comentavam o filme sobre o amor incondicional de um homem e de um peixe, e o borburinho aumentou assim que me viram. e olhavam-me, e olhavam-me, que tanto que me olhavam que me apeteceu mandá-los para aquele sítio.

ignorar é sempre bom e foi o que eu fiz. desandei dali. corri várias ruas à procura de nada, os sinos entravam-me por um ouvido e saiam pelo outro, até que passei por uma montra de vestidos de noiva onde só havia dois manequins: um era um peixe com longas escamas brilhantes e o outro ia jurar que era parecido comigo.

caguei no assunto e rumei em direção a casa, à minha cama cheia de vestígios de sexo e borralhas de cigarro. farto de coincidências e interrogações, farto dos dias de pagamentos, farto dos dias sem criatividade, esgalhei uma e adormeci, profundamente ateu.








meu blog:
www.teoriadoscalhaus.blogspot.com

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www.flavio.blogtok.com

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flavio silver
Autor flavio silver
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Data 15/03/2010 13:58:20
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 15/03/2010 14:08  Atualizado: 15/03/2010 14:08
 Re: O filme
ficamos sem saber se é filme ou realidade, ou se foi um sonho dentro doutro sonho.

Gostei da cronica em forma de critica parabens

Enviado por Tópico
joseluislopes
Publicado: 15/03/2010 14:10  Atualizado: 15/03/2010 14:10
Colaborador
Usuário desde: 22/3/2009
Localidade:
Mensagens: 3480
 Re: O filme
Num cinema perto de si.

O filme do ano,

só não gostei da maneira como o peixe morreu e também de esgalhares a alta velocidade, um dia tens um acidente.

Abraço
JLL

Enviado por Tópico
flavio silver
Publicado: 15/03/2010 14:13  Atualizado: 15/03/2010 14:13
Colaborador
Usuário desde: 24/9/2007
Localidade: barcelos
Mensagens: 1520
 Re: O filme\joseluislopes
boa tarde!
como diz a cantiga, o peixe é só para enganar
eehe
abraço
e muito gosto te ter conhecido
ou, espera lá, ou será, em ter-te conhecido?

há algum professor na sala?

:)

Enviado por Tópico
AnaMartins
Publicado: 15/03/2010 14:18  Atualizado: 15/03/2010 14:18
Colaborador
Usuário desde: 25/5/2009
Localidade: Porto
Mensagens: 1973
 Re: O filme
Hehehe! Que belos cromos me saíram vocês os dois! Sim , isto também é para ti, Zé Luís!

Flávio, andas a precisar de ver um filme 3D. Recomendo o Avatar. Vais ver que nada vale perante este que nos descreves! Ou será descreves-nos?

beijo!

Enviado por Tópico
Francisco Boaventura
Publicado: 15/03/2010 14:22  Atualizado: 15/03/2010 14:22
Colaborador
Usuário desde: 07/3/2008
Localidade: Guimarães
Mensagens: 625
 Re: O filme
pode ser do filme domar tubaronas...
ao toque do acordeão da banda sonora...
sempre bom ler as cenas que descreves.
cumprimentos.

Enviado por Tópico
EROTIKA*
Publicado: 15/03/2010 14:25  Atualizado: 15/03/2010 14:25
Participativo
Usuário desde: 11/12/2009
Localidade:
Mensagens: 16
 Re: O filme
Ainda tem lugar no colo? rsrsr
Amei sua forma de expressar-se.

Enviado por Tópico
Alberto da fonseca
Publicado: 15/03/2010 14:34  Atualizado: 15/03/2010 14:34
Colaborador
Usuário desde: 01/12/2007
Localidade: Natural de Sacavém,residente em Les Vans sul da Ardéche França
Mensagens: 7540
 Re: O filme
Flávio, tem a certeza que também não esgalhou uma ao peixe e foi por isso que ele morreu?´

Belo filme

Abraço Flávio

A. da fonseca

Enviado por Tópico
josetorres
Publicado: 15/03/2010 15:01  Atualizado: 15/03/2010 15:02
Colaborador
Usuário desde: 28/2/2007
Localidade: Minho
Mensagens: 6109
 Re: O filme
A crónica está como sempre. Tua.
Lê-se com imenso prazer, só comparável a um esgalhar por mão «alheira».
Agora que já está aqui na «mesa de luz», aproveita para corrigir várias gralhas que o texto tem, e uma ou outra palavra mal escrita.
Sei que sou um chato daqueles que vivem para os lados de, mas rais me parta se não sou teu amigo até à medula.
Abraço meu velho.

Enviado por Tópico
luciusantonius
Publicado: 15/03/2010 15:13  Atualizado: 15/03/2010 15:13
Colaborador
Usuário desde: 01/9/2008
Localidade:
Mensagens: 811
 Re: O filme
Flávio
Escangalhamo-nos a rir consigo. Ainda desempenha as funções de cinematógrafo, com todos os riscos que isso implica?
Para a próxima não fique atrás de um par de namorados, sobretudo se ele está inclinado…
Um abraço para o nosso grande cronista do humor.
Antonius/Olema

Enviado por Tópico
HorrorisCausa
Publicado: 15/03/2010 16:40  Atualizado: 15/03/2010 16:45
Colaborador
Usuário desde: 15/2/2007
Localidade: Porto
Mensagens: 3345
 Re: O filme
uma viagem de fantasias cinematográficas, algo surrealista? eheheh!, desvenda-se um universo de estranhas criaturas forjadas a um elenco algo desajustado que projectam os sentimentos humanos de alienação, faz.me rir de uma consciencia quotidiana que se pensa deixada para trás e pois claro, fez-me lembrar "big fish" tim burton.
beijo

Enviado por Tópico
Alexis
Publicado: 15/03/2010 17:20  Atualizado: 15/03/2010 17:20
Administrador
Usuário desde: 29/10/2008
Localidade: guimarães
Mensagens: 6965
Online!
 Re: O filme para flávio
o filme estava bom e o texto excelente.é com enorme prazer que te leio.obrigada,flávio,por mais uma viagem.

alex

Enviado por Tópico
freitasantero
Publicado: 15/03/2010 17:22  Atualizado: 15/03/2010 17:22
Colaborador
Usuário desde: 16/6/2007
Localidade:
Mensagens: 1022
 Re: O filme
Espectacular, Flávio!
Destas gosto eu de ler.

Abraço

Enviado por Tópico
jomasipe
Publicado: 15/03/2010 20:41  Atualizado: 15/03/2010 20:41
Colaborador
Usuário desde: 28/9/2009
Localidade: Vila Nova de Gaia
Mensagens: 1527
 Re: O filme
muito bom mesmo, revi-me em algumas das cenas do "filme",
descreves a intensidade do viver de uma forma magistral,
parabéns, amigo,
JS

Enviado por Tópico
RoqueSilveira
Publicado: 15/03/2010 20:50  Atualizado: 15/03/2010 20:50
Colaborador
Usuário desde: 31/3/2008
Localidade: Braga - Vila Verde
Mensagens: 6292
 Re: O filme
Melhor que o Avatar. E nem precisaste de óculos rs
para fazer tudinho.
Beijo

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Frase

É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
( Era folha de papel)
Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
A caneta começa a tremer
Soluça.
O meu olhar constrói
O que meu pensamento rejeita
Esta sou eu,
A doce mulher
A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)



Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

"Amor" é o presente dado sem esperança de retorno,
e o que esperamos é apenas que não seja rejeitado

(Junior A.)



Frase

Como posso explicar
Esta dor
Invasora
Da minha alma
Senão dizer
Que és a mentira
Mais verdadeira
Da minha vida...?

(Raquel Naranjo)



Frase

O amor é como a justiça:
Injusto e cego.

(TrabisDeMentia)



Sexto sentido

Tenta ouvir o silêncio...
Ver a luz na escuridão profunda...
Cheirar o aroma da mais pura água...
Sentir a textura do vento...
Saborear a doçura do sal...
Quando o conseguires...
Irás te descobrir...

(gera)



Só saudade

Dor que sente
Dor que não se mede
Que vai e vem

Com a vida vou rolando
Com a dor vou buscando
Talvez alívio...

Quando doer que seja
Sem deixar morrer
Só saudade...

(amasol)



A foz

Se cada coisinha que eu sei correspondesse a um rio... E se cada um deles desaguasse na mesma foz...Esta não teria senão o tamanho de uma bacia bem pequenina na qual eu refresco os meus cansados pés. Os rios seriam tão curtos quanto a minha felicidade, tão estreitos quanto a minha existência, tão secos quanto a minha solidão. Mas talvez, talvez bem no fundo da bacia, talvez para lá das lágrimas turvas, e para que eu me possa orgulhar, talvez sorriam dois peixinhos, que eu, apesar da distância possa contemplar! E quem sabe... Uma flor se incline e faça nascer, na foz uma flor que eu possa colher!

(TrabisDeMentia)