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Não acordem os pássaros II

Tags:  pássaros  
 
O tempo alterou rapidamente, forçando-me a um recolhimento indesejado.
Torrencial, a princípio, a chuva abrandou e cedeu espaço a uma leve e bem-vinda garoa.
Esta desabara no exato instante em que adentrava a sacada, carregando a rede, onde, há pouco, embalado em leve dormência, vasculhava episódios de uma vida repleta de belas passagens.
Assim têm decorrido os meus dias: prolongados, intermináveis. Nem mesmo os passeios pelo quintal enorme, repleto de ervas que, a cada dia, se multiplicam, me são possíveis.
As pernas cambaleiam, dando origem a passos indecisos e sem firmeza. Não distingo sons. Desconexas, chegam-me as vibrações captadas por um subconsciente que, adormecido em recordações, cavalga outros tempos.
Felisberto dorme no sofá. Os olhos, por vezes se abrem, mas, incapazes de assim se manterem, voltam ao estágio inicial.
Sempre o hábito de cognome humano aos animais de estimação.
Quando conheci Madalena, esta, no início, estranhara este insólito proceder. Parecia-lhe um tanto quanto sem sentido. Mudara, com o decorrer dos dias, de opinião, chegando a usar o meu nome para denominar a sua última aquisição: um cão sem raça e maltratado que encontrara vagando pela cidade.
Outrossim, dedicara-lhe uma homenagem: uma linda gata siamesa de pelos brilhantes que luziam ao sol.
Geraldo, Bruna, Frederico e tantos outros...
Todos se foram.
Hoje, Felisberto e eu a compartilhar deste espaço enorme.
Por vezes, sinto mais a falta destes seres, do que dos familiares.
Assaltam-me remorsos, nessas ocasiões, pois tal procedimento denota uma distância em relação aos mesmos.
Consola-me, no entanto, a certeza de que estão bem, cada qual em seu mundo. Pouco aparecem, ainda mais agora...


*******************

Quando da morte de Francisco, atropelado pelo veículo do gás, convivi com dias de insegurança e medo. Grande fora o impacto.
Ainda lá permanecem, ao pé da goiabeira, os restos mortais que se fazem lembrar, através da cruz alusiva ao fatídico dia. Tivera, por parte de Madalena, um enterro à altura.
Já à época, o temor pela morte me espreitava, pois, pareceu-me ser aquele o meu próprio funeral.
Madalena, entretanto, resolvera partir antes.
Mas estas lembranças não me devem perturbar. Não agora, em que, finalmente, uma paz espiritual paira no ar, além do arco-íris que se delineia no céu.
Felisberto, neste momento, me observa, como a fitar um tabuleiro onde pedras de um intrincado jogo permanecem inertes.
Não serei capaz de fazer-lhe carinho, faltam-me forças e disposição para tal.
Quantos dias, quantas horas..., até que os últimos fios de uma vida que, teimosamente, se prolonga, sejam cortados.
Não careço de rezas, pois se não indigno, merecedor das mesmas não me acho. Se, por completo não me abstive, não me aprofundei nos pormenores de algo mais crível.
Com a chuva os meninos não vieram. Certamente navegam, pelas águas da enxurrada, seus barcos que exalam vida.
O odor de terra molhada se espalha pelo ar, onde pássaros adormecidos alçam voos imaginários.
Consola-me a certeza de um sono profundo e sem volta...




Do livro "Não acordem os pássaros" - 1994




http://www.mariomassari.no.comunidades.net
http://www.espelhos-do-tempo.blogspot.com

Autor
Massari
Autor Massari
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Data 27/03/2010 18:32:16
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Nudez - ÔNIX
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Enviado por Tópico
eduardas
Publicado: 27/03/2010 20:50  Atualizado: 27/03/2010 20:50
Colaborador
Usuário desde: 19/10/2008
Localidade: Lisboa
Mensagens: 3839
 Re: Não acordem os pássaros II p/Massari
Um passeio pelas emoções e as coisas boas e más que nos trazem a vida.

bj
Eduarda

Enviado por Tópico
Massari
Publicado: 29/03/2010 02:33  Atualizado: 29/03/2010 02:33
Colaborador
Usuário desde: 07/12/2009
Localidade: Sertãozinho/SP
Mensagens: 1098
 Re: Não acordem os pássaros II p/Massari
Obrigado Eduarda
uma ótima semana para ti
bj

Enviado por Tópico
Conceição Bernardino
Publicado: 29/03/2010 02:36  Atualizado: 29/03/2010 02:36
Colaborador
Usuário desde: 22/08/2009
Localidade: Porto
Mensagens: 3284
 Re: Não acordem os pássaros II
olá Massari,

forte, bem escrito e de extrema criatividade...
parabéns

beijo

Enviado por Tópico
Massari
Publicado: 29/03/2010 15:17  Atualizado: 29/03/2010 15:17
Colaborador
Usuário desde: 07/12/2009
Localidade: Sertãozinho/SP
Mensagens: 1098
 Re: Não acordem os pássaros II
obrigado Conceição
pela leitura e comentário
bj

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 29/03/2010 04:10  Atualizado: 29/03/2010 04:10
 Re: Não acordem os pássaros II
Intenso, infelizmente o tempo altera o curso, altera os sonhos, as lembranças estas, resistem, gosto de te ler, bjus Massari.

Enviado por Tópico
Massari
Publicado: 29/03/2010 15:18  Atualizado: 29/03/2010 15:18
Colaborador
Usuário desde: 07/12/2009
Localidade: Sertãozinho/SP
Mensagens: 1098
 Re: Não acordem os pássaros II
obrigado Marcia
boa semana pra ti
bj

Enviado por Tópico
Vania Lopez
Publicado: 30/03/2010 02:22  Atualizado: 30/03/2010 02:22
Colaborador
Usuário desde: 25/01/2009
Localidade: Pouso Alegre - MG
Mensagens: 14687
 Re: Não acordem os pássaros II
Aqui não há chuva, nem vou tirar a rede, o texto vai continuar por dentro. Maravilhoso! bj

Enviado por Tópico
Massari
Publicado: 31/03/2010 02:14  Atualizado: 31/03/2010 02:14
Colaborador
Usuário desde: 07/12/2009
Localidade: Sertãozinho/SP
Mensagens: 1098
 Re: Não acordem os pássaros II
Obrigado Vania, pelo carinho de sempre
bj

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Frase

É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
( Era folha de papel)
Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
A caneta começa a tremer
Soluça.
O meu olhar constrói
O que meu pensamento rejeita
Esta sou eu,
A doce mulher
A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)


vaga-lume

... beijar-te

- era ser
pássaro azul
dedilhando ugabe

era levitar
beber das nuvens
e desfolhar os céus

era um doce caminhar
sem tocar o chão
estirpes desaguando
em aljôfar...

era dédalo a calar-me
se acontecia
cascata de sonhar-me
na boca que feliz
se fenecia

- e era livre
sendo chama
toda asas
vaga-lume
brilhante
como quem ama.

(RoqueSilveira)


Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

"Amor" é o presente dado sem esperança de retorno,
e o que esperamos é apenas que não seja rejeitado

(Junior A.)



Frase

Como posso explicar
Esta dor
Invasora
Da minha alma
Senão dizer
Que és a mentira
Mais verdadeira
Da minha vida...?

(Raquel Naranjo)



Frase

O amor é como a justiça:
Injusto e cego.

(TrabisDeMentia)



guardanapos

do nosso beijo,
muralhas

do nosso amor,
migalhas

do nosso verbo,
mortalhas

dos nossos papos
poemas
em guardanapos

(Niké)



Sexto sentido

Tenta ouvir o silêncio...
Ver a luz na escuridão profunda...
Cheirar o aroma da mais pura água...
Sentir a textura do vento...
Saborear a doçura do sal...
Quando o conseguires...
Irás te descobrir...

(gera)



Só saudade

Dor que sente
Dor que não se mede
Que vai e vem

Com a vida vou rolando
Com a dor vou buscando
Talvez alívio...

Quando doer que seja
Sem deixar morrer
Só saudade...

(amasol)



A foz

Se cada coisinha que eu sei correspondesse a um rio... E se cada um deles desaguasse na mesma foz...Esta não teria senão o tamanho de uma bacia bem pequenina na qual eu refresco os meus cansados pés. Os rios seriam tão curtos quanto a minha felicidade, tão estreitos quanto a minha existência, tão secos quanto a minha solidão. Mas talvez, talvez bem no fundo da bacia, talvez para lá das lágrimas turvas, e para que eu me possa orgulhar, talvez sorriam dois peixinhos, que eu, apesar da distância possa contemplar! E quem sabe... Uma flor se incline e faça nascer, na foz uma flor que eu possa colher!

(TrabisDeMentia)

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