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Poemas : 

O DIA EM QUE MEU PAI MORREU

 
Desperto, confuso e apavorado
com o estertor que rasga a alvorada,
no pulsar do telefone estremunhado
escuto o rugir da derrocada.
O medo e o pavor atiçados
chamam do outro lado da linha,
o frio e os ventos gelados
ostentam a gadanha rainha.

À pressa visto o blusão,
os sapatos e a calça fria,
ainda agarrado à ilusão
devoro a longa escadaria.
Corro na noite, atordoado,
atravessando a estrada deserta,
meu coração bate, desvairado,
nó que se agiganta e me aperta.

No quarto de mágoas pintado,
encontro teu corpo sem chama,
a morte, brinca com o baralho viciado,
sentada na borda da cama.
Sacudo-te, grito, chamo por ti, aflito,
buscando tua luz perdida,
mas, neste jogo maldito,
já não tinhas o ás da vida.

O médico que viste crescer,
chega em menos de uma hora,
sem nada poder fazer
senta-se no sofá e chora.
Almas tristes vão chegando,
para teu derradeiro acto,
vendo o gelo galopando,
à pressa, vestimos-te o melhor fato.

Atiram teu corpo num caixão
e a tampa é cerrada,
choro e comoção
acompanham tua retirada.
À rua, sai o cortejo,
em dolorosa agonia,
nas janelas cresce o rumorejo,
ainda mal começou o dia.

Deslizando no nevoeiro
volto a casa para me recompor,
sob as aguas do chuveiro,
em lágrimas, lavo minha dor.
Recuperando o fôlego perdido,
de luto saio trajado,
ainda confuso e aturdido
volto para junto de teu corpo algemado.


Envolto em silêncio ameno
repousas em lençóis rendados,
teu rosto, agora sereno,
permanece de olhos vendados.
Acordar-te queria eu poder,
mas sinto que não sou capaz,
resta-me consolo por saber
que finalmente dormes em paz.

O tempo arrasta-se, lento,
o sol vai rumando ao poente,
esforçando-se por doar alento
de todo o lado chega gente.
A noite apossa-se do dia,
cresce o rumor da multidão,
negros véus na ventania,
uns vêm, outros vão.

Quando a multidão se esvai nas vielas,
dorido, o silêncio retorna,
flores cansadas e luz de velas
decoram a saudade que nos adorna.
Pela fadiga acossado e mordido
fecho olhos a triste dia,
entregando meu corpo rendido
às sombras pungentes da sacristia.



RUNA
http://seguindooescoardotempo.blogspot.com/

Autor
Runa
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Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
rosafogo
Publicado: 27/04/2010 21:57  Atualizado: 27/04/2010 21:57
Colaborador
Usuário desde: 28/07/2009
Localidade:
Mensagens: 9607
 Re: O DIA EM QUE MEU PAI MORREU
Tua poesia promete, primorosas rimas e detalhado
teu sentimento pela perda de quem te deu vida.
Está excelente meus parabéns.

abraço
rosa

Enviado por Tópico
Runa
Publicado: 27/04/2010 22:54  Atualizado: 27/04/2010 22:54
Colaborador
Usuário desde: 24/04/2010
Localidade: Santo Antonio Cavaleiros
Mensagens: 1177
 Re: O DIA EM QUE MEU PAI MORREU
Obrigado pelas tuas palavras. Verdadeiramente, este foi o dia mais triste e também o mais longo da minha vida.

Felicidades.

Enviado por Tópico
Avozita
Publicado: 27/04/2010 23:05  Atualizado: 27/04/2010 23:05
Colaborador
Usuário desde: 08/07/2009
Localidade: Casal de Cambra - Lisboa
Mensagens: 4526
 Re: O DIA EM QUE MEU PAI MORREU
Trite mas belo o teu poema.
Como te compreendo amigo/a
Beijo
Antonieta

Enviado por Tópico
Runa
Publicado: 27/04/2010 23:13  Atualizado: 27/04/2010 23:13
Colaborador
Usuário desde: 24/04/2010
Localidade: Santo Antonio Cavaleiros
Mensagens: 1177
 Re: O DIA EM QUE MEU PAI MORREU
É amigo. Obrigado pelos teus comentários.

Felicidades.

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Frase

É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
( Era folha de papel)
Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
A caneta começa a tremer
Soluça.
O meu olhar constrói
O que meu pensamento rejeita
Esta sou eu,
A doce mulher
A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)


vaga-lume

... beijar-te

- era ser
pássaro azul
dedilhando ugabe

era levitar
beber das nuvens
e desfolhar os céus

era um doce caminhar
sem tocar o chão
estirpes desaguando
em aljôfar...

era dédalo a calar-me
se acontecia
cascata de sonhar-me
na boca que feliz
se fenecia

- e era livre
sendo chama
toda asas
vaga-lume
brilhante
como quem ama.

(RoqueSilveira)


Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

"Amor" é o presente dado sem esperança de retorno,
e o que esperamos é apenas que não seja rejeitado

(Junior A.)



Frase

Como posso explicar
Esta dor
Invasora
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Frase

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guardanapos

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do nosso amor,
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mortalhas

dos nossos papos
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em guardanapos

(Niké)



Sexto sentido

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(gera)



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(TrabisDeMentia)
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