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Elegia para o Gato Morto

 
Com os olhos pregados no infinito,
no mais fundo de si, já revirados,
e os bigodes suspensos pelo grito
que alvoroça as pombas nos telhados,

e com o céu da boca, se aflito,
mesmo à beira do fim, agoniado,
e o pêlo sedoso, tão esquisito,
de súbito a ficar amarrotado,

na procura apressada de outra vida
renascida das sete que viveu,
que não vê, não encontra, pois perdida
como alma penada lá no céu

dos gatos: foi assim, quase descrente,
que vi o gato morto, de repente.


Domingos da Mota

publicado também no blogue http://domingosdamota.blogspot.com



«Entre a taça e o lábio muitas coisas acontecem.»

Páladas de Alexandria

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fogomaduro
Autor fogomaduro
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Texto
Data 29/05/2010 13:49:04
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[Tem o poeta uma fisga] - Xavier_Zarco
ata-nos em nós de coração - RoqueSilveira
pág.73 - Margarete
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Beija-Flor76
Publicado: 29/05/2010 22:32  Atualizado: 29/05/2010 22:32
Colaborador
Usuário desde: 23/02/2010
Localidade: PORTUGAL
Mensagens: 2097
 Re: Elegia para o Gato Morto
Muito inteligente este poema.
De facto quando as sete vidas se perdem, nada mais há a fazer...
Grande abraço poeta.

Enviado por Tópico
fogomaduro
Publicado: 30/05/2010 18:02  Atualizado: 30/05/2010 18:02
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Usuário desde: 06/08/2008
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Mensagens: 1876
 Re: Elegia para o Gato Morto/Re: Beija-Flor76
Caro Poeta,

Obrigado pela leitura e pelo comentário.

DM

Enviado por Tópico
laroche_l
Publicado: 30/05/2010 20:39  Atualizado: 30/05/2010 20:39
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Usuário desde: 26/02/2010
Localidade:
Mensagens: 717
 Re: Elegia para o Gato Morto
Uma metáfora que me vai ficar na memória. Gato indepedência, gato confiança, é essa a minha associação.

Enviado por Tópico
fogomaduro
Publicado: 30/05/2010 22:40  Atualizado: 31/05/2010 00:10
Colaborador
Usuário desde: 06/08/2008
Localidade:
Mensagens: 1876
 Re: Elegia para o Gato Morto/Re:Laroche_I
Poeta,

Felizmente que os poemas sobre gatos (ou gatas) permitem muitas leituras.
Obrigado,

DM

Enviado por Tópico
Nanda
Publicado: 30/05/2010 23:01  Atualizado: 30/05/2010 23:01
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Usuário desde: 14/08/2007
Localidade: Setúbal
Mensagens: 11214
 Re: Elegia para o Gato Morto
Domingos,
quando o sopro da vida se esgota...
Explêndido!
Beijo
Nanda

Enviado por Tópico
fogomaduro
Publicado: 30/05/2010 23:50  Atualizado: 30/05/2010 23:50
Colaborador
Usuário desde: 06/08/2008
Localidade:
Mensagens: 1876
 Re: Elegia para o Gato Morto/Re:Nanda
Cara Nanda,

Obrigado pela gentileza.

DM

Enviado por Tópico
Margarete
Publicado: 03/06/2010 10:53  Atualizado: 03/06/2010 10:53
Colaborador
Usuário desde: 10/02/2007
Localidade: braga.
Mensagens: 1203
 Elegia para o Gato Morto ao domingos.
sobre gatos recordo dois poetas portugueses.
o Mário Cesariny

"Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato"

e o Vasco Gato:

"estive tão longe de ti
que não pensei sequer lembrar o teu nome
percorri distâncias escuras, estradas imóveis
onde circulava o peso sem cor do esquecimento
e se curvavam as pedras à boca do destino

vezes houve em que dormi sem estrelas
num vazio de astros que me congelava as veias
e me amortecia a vida em poços de água
que a vida não podia tocar - rondavam os lobos

e contava os dias, riscando a minha loucura
nas folhas secas do caminho, escondendo a réstia de sonho
entre as raízes ainda vibrantes das árvores rugosas
conhecia por vezes o movimento quase imperceptível
das grandes estações internas, o estalar da seiva,
o tambor duro onde vinha cantar a melancolia

a solidão assustava-me, queimava-me a pele
no vermelhíssimo lume das mãos dos mortos
quero dizer-te que não mais vi ternura
que os meus pés ganharam idade a um ritmo
que não pude conter, acompanhar, escrever-te

sim, fiz-me não te escrever
para que o meu corpo não ouvisse o vento
e as ondas fossem quebrar ao centro dos oceanos
para que uma palavra não pousasse no teu rosto
e levasse a luz dos teus olhos e a vida nos teus lábios

arranquei de mim a morada que eras tu
desisti dos pássaros, afundei barcos, lâminas,
apaguei o calor dos porões como se uma vela
pudesse perigosamente insistir na permanência
desse mundo que era a minha voz, éramos nós

éramos nós, choro
sinto no enrolar dos dedos o ínfimo do teu nome
a abertura impossível de uma janela de avelãs
as avelãs que nos escutavam (lembras-te?)
enquanto lá fora, fora de tudo, a neve
se abatia sobre o dorso antigo das nossas mães
sobre a dor vencida no embalo dos bebés

estive tão longe de ti
mas deixa que agora te nomeie entre as nuvens
e traga para dentro de mim a pintura das tuas pálpebras
o aroma que era o teu corpo nas manhãs a dois
deixa que venha morrer junto de ti
no ventre do amor que prometemos ao infinito"




sabes domingos gosto de elegias. tenho entre os livros favoritos a "elegia para um caixão vazio" do baptista-bastos. é um reencontro com uma parte de nós que nunca parte.

gosto muito dos teus poemas.
beijo,
mar.

Enviado por Tópico
fogomaduro
Publicado: 03/06/2010 17:43  Atualizado: 03/06/2010 17:44
Colaborador
Usuário desde: 06/08/2008
Localidade:
Mensagens: 1876
 Re: Elegia para o Gato Morto ao domingos./Re: Margarete
Cara Margarete,

Obrigado pelos poemas de Mário Cesariny e de Vasco Gato. A propósito de poemas sobre gatos certamente conhece o livro "Assinar a Pele, antologia da poesia contemporânea sobre gatos", organizada por João Luís Barreto Guimarães, edição da Assírio & Alvim, onde estão poemas de vários poetas portugueses como João de Deus, Fernando Pessoa, Irene Lisboa, Jorge de Sena, Sophia, Egito Gonçalves, Cesariny, Eugénio de Andrade, A. O'Neill, Fernando Echevarría, Ruy Belo, António Osório, Luiza Neto Jorge, Vasco Graça Moura, Inês Lourenço, João Miguel Fernandes Jorge, Manuel António Pina, Al Berto, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral, Pedro Paixão, e alguns poetas brasileiros e de outras latitudes e línguas, onde para alguns destes poetas os gatos são mesmo gatos e para outros esses gatos são mesmo gente.
Quanto a elegias, também gosto de as ler e de as fazer. E li e tenho o livro que cita de BB (já agora, algumas das suas crónicas na imprensa podem ser lidas no blogue "sorumbático").
Obrigado, mais uma vez pela gentileza do comentário.

DM

Enviado por Tópico
Alexis
Publicado: 03/06/2010 11:33  Atualizado: 03/06/2010 11:33
Colaborador
Usuário desde: 29/10/2008
Localidade: guimarães
Mensagens: 7388
 Re: Elegia para o Gato Morto
e o gato independente
vê-se tão só de repente...

da vida leva-se o amor
que se deu e recebeu.senti-lo presente na hora da morte é tão essencial como senti-lo em vida.

quantas vidas serão precisas para se aprender isto?

o teu poema é daqueles que se impregna na mente,no espírito,como um enorme fantasma em tudo real.marcante.

abraço

alex

Enviado por Tópico
fogomaduro
Publicado: 03/06/2010 17:49  Atualizado: 03/06/2010 17:49
Colaborador
Usuário desde: 06/08/2008
Localidade:
Mensagens: 1876
 Re: Elegia para o Gato Morto/Re:Alex
Cara Alexandra,

Este poema foi dedicado ao passamento (não de um gato, mas de uma gata que ronronava cá em casa, adoeceu, e morreu), e antes de morrer soltou um miar de despedida tão aflito que ainda me ressoa nos ouvidos.
Obrigado,

DM

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Frase

É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
( Era folha de papel)
Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
A caneta começa a tremer
Soluça.
O meu olhar constrói
O que meu pensamento rejeita
Esta sou eu,
A doce mulher
A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)


vaga-lume

... beijar-te

- era ser
pássaro azul
dedilhando ugabe

era levitar
beber das nuvens
e desfolhar os céus

era um doce caminhar
sem tocar o chão
estirpes desaguando
em aljôfar...

era dédalo a calar-me
se acontecia
cascata de sonhar-me
na boca que feliz
se fenecia

- e era livre
sendo chama
toda asas
vaga-lume
brilhante
como quem ama.

(RoqueSilveira)


Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

"Amor" é o presente dado sem esperança de retorno,
e o que esperamos é apenas que não seja rejeitado

(Junior A.)



Frase

Como posso explicar
Esta dor
Invasora
Da minha alma
Senão dizer
Que és a mentira
Mais verdadeira
Da minha vida...?

(Raquel Naranjo)



Frase

O amor é como a justiça:
Injusto e cego.

(TrabisDeMentia)



guardanapos

do nosso beijo,
muralhas

do nosso amor,
migalhas

do nosso verbo,
mortalhas

dos nossos papos
poemas
em guardanapos

(Niké)



Sexto sentido

Tenta ouvir o silêncio...
Ver a luz na escuridão profunda...
Cheirar o aroma da mais pura água...
Sentir a textura do vento...
Saborear a doçura do sal...
Quando o conseguires...
Irás te descobrir...

(gera)



Só saudade

Dor que sente
Dor que não se mede
Que vai e vem

Com a vida vou rolando
Com a dor vou buscando
Talvez alívio...

Quando doer que seja
Sem deixar morrer
Só saudade...

(amasol)



A foz

Se cada coisinha que eu sei correspondesse a um rio... E se cada um deles desaguasse na mesma foz...Esta não teria senão o tamanho de uma bacia bem pequenina na qual eu refresco os meus cansados pés. Os rios seriam tão curtos quanto a minha felicidade, tão estreitos quanto a minha existência, tão secos quanto a minha solidão. Mas talvez, talvez bem no fundo da bacia, talvez para lá das lágrimas turvas, e para que eu me possa orgulhar, talvez sorriam dois peixinhos, que eu, apesar da distância possa contemplar! E quem sabe... Uma flor se incline e faça nascer, na foz uma flor que eu possa colher!

(TrabisDeMentia)

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