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Poemas -> Tristeza : 

Aborto

 
Arranco os pedaços de versos
que guardo no ventre
e choro a dor lacerante que
me adelgaça a cintura.

Não queria abandoná-los
assim,
ensanguentados,
serenos,
miseráveis,
apaixonados, ainda!

Não queria largá-los
à podridão do tempo
mas o vento que outrora
me desfolhava e os versos levava
fugiu de mim.

Não arrasto sozinha o peso das palavras
que te dedico.
Não amo o suficiente a solidão
das noites em que me sinto pontapeada.
Não suporto mais a veemência
ilusória dos dias partilhados.

Arranco os pedaços de versos
e deito-me no leito
da minha crueldade,
à espera que isso me fortaleça.

Vera Carvalho



Vera Carvalho

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VeraCarvalho
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Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
MariaSousa
Publicado: 17/09/2007 21:09  Atualizado: 17/09/2007 21:09
Membro de honra
Usuário desde: 03/03/2007
Localidade: Lisboa
Mensagens: 2966
 Re: Aborto
Triste, belo e, ao mesmo tempo, corajoso.

Gostei muito!

Bjs

Enviado por Tópico
Paulo Afonso Ramos
Publicado: 17/09/2007 21:40  Atualizado: 17/09/2007 21:40
Colaborador
Usuário desde: 14/06/2007
Localidade: Lisboa
Mensagens: 2086
 Re: Aborto
Olá Vera Carvalho,

Na fusão dessa tristeza com a beleza do poema fica a mensagem... e permite-me que o coloque nos meus favoritos.

Beijo AR

Enviado por Tópico
Mel de Carvalho
Publicado: 17/09/2007 21:52  Atualizado: 17/09/2007 21:52
Colaborador
Usuário desde: 03/03/2007
Localidade: Lisboa/Peniche
Mensagens: 1562
 Re: Aborto
Querida Vera,
impressionante a força deste poema-mensagem.
Uma lágrima rolou...

Beijo
Mel

Enviado por Tópico
Angela
Publicado: 21/09/2007 16:15  Atualizado: 21/09/2007 16:16
Colaborador
Usuário desde: 28/09/2006
Localidade: Caldas da Rainha
Mensagens: 567
 Re: Aborto
Um poema carregado de dor...
Um poema comovente...

Um poema magnificamente escrito!

Um beijinho grande querida Vera.

Enviado por Tópico
Henrique Pedro
Publicado: 22/11/2007 23:40  Atualizado: 22/11/2007 23:40
Colaborador
Usuário desde: 28/07/2007
Localidade:
Mensagens: 3821
 Re: Aborto
Será que para a poeta mulher os poemas são mais sentidos como filhos do que para o poeta homem?E que toda a problemática da maternidade está presente e viva na criação poética? E que a mulher quando se sente maltratada se agarra aos poemas como filhos e para eles também implora misericórdia ou por eles também se revolta? Maravilha! Parabéns. Um beijinho.

Enviado por Tópico
Ramgad
Publicado: 23/11/2007 00:00  Atualizado: 23/11/2007 00:00
Colaborador
Usuário desde: 13/04/2007
Localidade:
Mensagens: 902
 Re: Aborto
Vera um poema magnífico. Bem escrito, bem sentido...triste, comovente. Parabéns.

Ramgad

Enviado por Tópico
RoqueSilveira
Publicado: 11/04/2008 10:49  Atualizado: 11/04/2008 10:49
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2008
Localidade: Braga - Vila Verde
Mensagens: 7287
 Re: Aborto
O adequado elogio não cabe neste comentário! Fiquei deslumbrada com os teus poemas!

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Frase

É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
( Era folha de papel)
Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
A caneta começa a tremer
Soluça.
O meu olhar constrói
O que meu pensamento rejeita
Esta sou eu,
A doce mulher
A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)


vaga-lume

... beijar-te

- era ser
pássaro azul
dedilhando ugabe

era levitar
beber das nuvens
e desfolhar os céus

era um doce caminhar
sem tocar o chão
estirpes desaguando
em aljôfar...

era dédalo a calar-me
se acontecia
cascata de sonhar-me
na boca que feliz
se fenecia

- e era livre
sendo chama
toda asas
vaga-lume
brilhante
como quem ama.

(RoqueSilveira)


Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

"Amor" é o presente dado sem esperança de retorno,
e o que esperamos é apenas que não seja rejeitado

(Junior A.)



Frase

Como posso explicar
Esta dor
Invasora
Da minha alma
Senão dizer
Que és a mentira
Mais verdadeira
Da minha vida...?

(Raquel Naranjo)



Frase

O amor é como a justiça:
Injusto e cego.

(TrabisDeMentia)



guardanapos

do nosso beijo,
muralhas

do nosso amor,
migalhas

do nosso verbo,
mortalhas

dos nossos papos
poemas
em guardanapos

(Niké)



Sexto sentido

Tenta ouvir o silêncio...
Ver a luz na escuridão profunda...
Cheirar o aroma da mais pura água...
Sentir a textura do vento...
Saborear a doçura do sal...
Quando o conseguires...
Irás te descobrir...

(gera)



Só saudade

Dor que sente
Dor que não se mede
Que vai e vem

Com a vida vou rolando
Com a dor vou buscando
Talvez alívio...

Quando doer que seja
Sem deixar morrer
Só saudade...

(amasol)



A foz

Se cada coisinha que eu sei correspondesse a um rio... E se cada um deles desaguasse na mesma foz...Esta não teria senão o tamanho de uma bacia bem pequenina na qual eu refresco os meus cansados pés. Os rios seriam tão curtos quanto a minha felicidade, tão estreitos quanto a minha existência, tão secos quanto a minha solidão. Mas talvez, talvez bem no fundo da bacia, talvez para lá das lágrimas turvas, e para que eu me possa orgulhar, talvez sorriam dois peixinhos, que eu, apesar da distância possa contemplar! E quem sabe... Uma flor se incline e faça nascer, na foz uma flor que eu possa colher!

(TrabisDeMentia)
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