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De mim e de outras mulheres/amar não é ridiculo

 


Era uma canção monótona numa mistura de lengalenga, com trava-língua. O Sr. Correia cantava na alfaiataria num ritmo de marcha militar pautando as tónicas com uma arremetida mais violenta da tesoura que ripava o tecido meticulosamente desenhado a giz nos moldes que haveriam de fazer as vaidades aos clientes.
O Sr. Correia era um artista em toda a acepção da palavra, paciente e bondoso. O meu pai levava-me lá para tirar as medidas às calças de terylene que segundo a moda seriam de “boca-de-sino”. Eu odiava ver as calças a dançar em volta do sapato enquanto caminhava e fazia sempre birra enquanto o Sr. Correia me tirava as medidas, birras essas prontamente caladas por um tabefe a preceito que o meu pau me aplicava com mão pesada. Eu calava os protestos e ficava com uma lágrima muda a escorregar-me pelo rosto que despencava pelo precipício do queixo e se derramava na careca brilhante e profusa do Sr. Correia que aninhado tirava as medidas da bainha.
. Então? Não chores… O pai está só a brincar contigo… Proferia para me animar enquanto olhava de soslaio para o meu pai em tom de reprovação.
- Um homem não chora, que é isso? E veste o que os pais mandam e mais nada. Quando ganhar para ele, já pode vestir o que quer.
Para me animar, uma vez as medidas tiradas, e sob o olhar sarcástico do meu pai o Correia sentava-me num banquinho, acendia um candeeiro de secretária e desligava as restantes luzes. Ficava à frente da luz e com as mãos fazia sombras chinesas que ganhavam vida com a voz de falsete que fazia para me contar as aventuras das imagens que me desenhava aos olhos. As lágrimas secavam e ficava assim extasiado com a história que me contava, com as imagens que pulavam. Mudava o tom de voz em função da imagem, e a história desenhava-se ali na parede com as mãos mágicas do Sr. Correia.
O Correia era um menino grande sem medo de chorar nem de amar, um menino que ao proferir a palavra amor, fosse a que pretexto fosse, não soava a ridículo, porque amar não é ridículo. Ridículo é não ser capaz de dizer “eu amo-te” com medo de cair no ridículo. Ridículo é viver a vida nesse ridículo de ausência de conjugação do verbo amar.
Autor
jaber
Autor jaber
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Data 27/10/2011 19:26:27
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De mim e de outras mulheres III
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
jaber
Publicado: 27/10/2011 19:38  Atualizado: 27/10/2011 19:38
Colaborador
Usuário desde: 24/07/2008
Localidade: Braga
Mensagens: 2715
 Re: De mim e de outras mulheres/amar não é ridiculo
O Sr. Correia faleceu na noite de 24 de Dezembro de 1974 quando corria para casa no fim de uma jornada de trabalho montado na sua lambreta (scooter)para celebrar a ceia de natal. uma metralha assassina ceifou-o a descer o Prenda para a Maianga, numa altura que em Angola se praticava um estranho desporto: Tiro ao branco.
Foi uma perda de miúdo que recordo com mágoa.

Enviado por Tópico
gabrielas
Publicado: 27/10/2011 20:29  Atualizado: 27/10/2011 20:29
Colaborador
Usuário desde: 03/09/2010
Localidade:
Mensagens: 505
 Re: De mim e de outras mulheres/amar não é ridiculo
não é ridículo amar. ridículo é desdenhar do amor.
ridículo é pensar que só a dureza educa.
no entanto, talvez estas vivências te tivessem motivado a escrita de hoje; há sempre uma lado bom da questão para olhar.
gostei do texto, sensível e humano como sempre.
beijo ao menino jaber aí do texto.

gabrielas

Enviado por Tópico
jaber
Publicado: 28/10/2011 13:55  Atualizado: 28/10/2011 13:55
Colaborador
Usuário desde: 24/07/2008
Localidade: Braga
Mensagens: 2715
 Re: De mim e de outras mulheres/amar não é ridiculo
estou admirado com o beijo. mas pronto.

beijo gabi

Enviado por Tópico
freitas.antero
Publicado: 27/10/2011 21:17  Atualizado: 27/10/2011 21:17
Muito Participativo
Usuário desde: 27/09/2010
Localidade:
Mensagens: 83
 Re: De mim e de outras mulheres/amar não é ridiculo
Ora bem,

"Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas."

isto é um excerto do "Todas as cartas de amor são ridículas" do Álvaro de Campos.

Sabes que gosto de te ler neste formato.

Abraço Jaber.

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Frase

É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
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Porque o vento é forte
E me leva para longe.

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Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
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Soluça.
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(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
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E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)


vaga-lume

... beijar-te

- era ser
pássaro azul
dedilhando ugabe

era levitar
beber das nuvens
e desfolhar os céus

era um doce caminhar
sem tocar o chão
estirpes desaguando
em aljôfar...

era dédalo a calar-me
se acontecia
cascata de sonhar-me
na boca que feliz
se fenecia

- e era livre
sendo chama
toda asas
vaga-lume
brilhante
como quem ama.

(RoqueSilveira)


Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
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E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

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Mais verdadeira
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Frase

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(TrabisDeMentia)



guardanapos

do nosso beijo,
muralhas

do nosso amor,
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do nosso verbo,
mortalhas

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poemas
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Quando o conseguires...
Irás te descobrir...

(gera)



Só saudade

Dor que sente
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(TrabisDeMentia)

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