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Ao domingo, passeando na praia

 
Caminho, já a tarde vai alta, pelo passeio que segue paralelo ao mar, por cima das praias. Em baixo, a areia estende-se vazia até à água, que vazou, acabando numa espuma branca, das ondas que rebentam com o fragor dos dias de inverno.
Vou sozinha, cruzo-me com jovens em passo de corrida, outros deslizando em patins, um casal com o filho pequeno, todo contente na sua bicicleta de rodinhas, e um cãozinho saltitante, que corre num frenesim feliz em seu redor.
Carrego na mão o telemóvel e no olhar castanho, o brilho de uma remota esperança. Vou pensativa e sem horas, caminho sem pressa, reparando nas pessoas, mas sobretudo no mar desabrido que se atira à praia, no ar fresco que respiro e no vento que se levanta com promessa de chuva. Puxo o fecho do blusão cinza escuro. Meto uma mão no bolso.
Um pedaço de jornal passa, por mim, esvoaçante, noticias antigas, penso divertida, e volto a concentrar-me num navio de carga, brilhante de luzes, saindo de Lisboa e rumando ao mar aberto, com a velocidade de quem tem um destino certo num dia certo.
O vento rodopia e em rajadas mais fortes força-me a fechar o blusão até cima. Passa por mim um vento frio e húmido, fazendo a ponta do meu nariz fungar preguiçosamente.
A chuva vem aí. Começa de fininho, com gotículas minímas, caindo aqui e acolá, e num rajada de vento, trás as pingas fortes, da chuva prevista. Com uma mão já no bolso, enfio a outra também, abraçando o telemóvel.
Os meus cabelos curtos, uma feliz confusão de madeixas castanhas, começam a molhar-se, mas não há pressa, porque gosto da chuva e de a sentir na cara. Em redor, uns e outros correm a abrigar-se, desistindo da presença do mar. Mantenho o passo, levanto o rosto sentindo o vento molhado - é bom! Tranquilamente, chego a um café com paredes de vidro e telhado de chapéus de sol, virado para o espraiar das ondas, mesmo ali à frente.
Escolho uma mesa mais agradável e peço um café quente. Envolvo o calor da chávena com as mãos. E, nesse entretanto, suspiro melancolicamente, e uma música inaudível cá fora, enche-me o pensamento, o som de um tema antigo. Languidamente, ouço deliciada: “ … you must remenber this, a kiss is just a kiss.....”. a memória da letra, perde-se na música que continua a tocar, levando-me para outro tempo, no mesmo lugar, aprisionando-me nas imagens antigas que estão sempre a voltar. Passam uns minutos de completa ausência, suspensa no tempo do meu amor naquela praia. Aos poucos a melancolia, transforma-se em dor, e começa a chatear-me.
Sacudo o cabelo, afastando a dor e a melancolia daquele lugar sagrado que não ficou no passado. Olho pelos vidros, lá fora, escorrem fios de água. As nuvens negras escureceram o dia. Engulo mais um pouco de água, poiso o copo e respiro fundo, concentrando-me enquanto pego no telemovel que entoa uma música de embalar e que me diz de quem é a mensagem.
Teclo e leio “encontramo-nos hoje?”. O meu olhar ilumina-se com um sorriso interior, que me acelera descompassadamente o coração e a inquietude da adolescência volta , para me lembrar a resposta a enviar – “sim, claro! adoro-te”.



Eureka

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Eureka
Autor Eureka
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Texto
Data 10/12/2011 19:33:08
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Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Migueljaco
Publicado: 10/12/2011 19:46  Atualizado: 10/12/2011 19:46
Colaborador
Usuário desde: 23/06/2011
Localidade: Taubaté SP
Mensagens: 2977
 Re: Ao domingo, passeando na praia
Boa tarde Eureka, sua crônica, ficou bastante agradável de se contemplar através da nossa leitura, um belo enredo narrado de forma excitante, meus parabéns, MJ.

Enviado por Tópico
Eureka
Publicado: 11/12/2011 23:48  Atualizado: 11/12/2011 23:48
Da casa!
Usuário desde: 02/10/2011
Localidade: Lisboa
Mensagens: 261
 Re: Ao domingo, passeando na praia
Obrigada pelo seu amável comentário.

Eureka

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Frase

É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
( Era folha de papel)
Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
A caneta começa a tremer
Soluça.
O meu olhar constrói
O que meu pensamento rejeita
Esta sou eu,
A doce mulher
A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)


vaga-lume

... beijar-te

- era ser
pássaro azul
dedilhando ugabe

era levitar
beber das nuvens
e desfolhar os céus

era um doce caminhar
sem tocar o chão
estirpes desaguando
em aljôfar...

era dédalo a calar-me
se acontecia
cascata de sonhar-me
na boca que feliz
se fenecia

- e era livre
sendo chama
toda asas
vaga-lume
brilhante
como quem ama.

(RoqueSilveira)


Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

"Amor" é o presente dado sem esperança de retorno,
e o que esperamos é apenas que não seja rejeitado

(Junior A.)



Frase

Como posso explicar
Esta dor
Invasora
Da minha alma
Senão dizer
Que és a mentira
Mais verdadeira
Da minha vida...?

(Raquel Naranjo)



Frase

O amor é como a justiça:
Injusto e cego.

(TrabisDeMentia)



guardanapos

do nosso beijo,
muralhas

do nosso amor,
migalhas

do nosso verbo,
mortalhas

dos nossos papos
poemas
em guardanapos

(Niké)



Sexto sentido

Tenta ouvir o silêncio...
Ver a luz na escuridão profunda...
Cheirar o aroma da mais pura água...
Sentir a textura do vento...
Saborear a doçura do sal...
Quando o conseguires...
Irás te descobrir...

(gera)



Só saudade

Dor que sente
Dor que não se mede
Que vai e vem

Com a vida vou rolando
Com a dor vou buscando
Talvez alívio...

Quando doer que seja
Sem deixar morrer
Só saudade...

(amasol)



A foz

Se cada coisinha que eu sei correspondesse a um rio... E se cada um deles desaguasse na mesma foz...Esta não teria senão o tamanho de uma bacia bem pequenina na qual eu refresco os meus cansados pés. Os rios seriam tão curtos quanto a minha felicidade, tão estreitos quanto a minha existência, tão secos quanto a minha solidão. Mas talvez, talvez bem no fundo da bacia, talvez para lá das lágrimas turvas, e para que eu me possa orgulhar, talvez sorriam dois peixinhos, que eu, apesar da distância possa contemplar! E quem sabe... Uma flor se incline e faça nascer, na foz uma flor que eu possa colher!

(TrabisDeMentia)

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