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Vai-se o tempo esvaído nos minutos que correm, Vem a saudade, cada vez mais intensa Nos segundos que nos restam; À memória, surge forte a lembrança Do bulício alegre da “mutamba” No vai vem dos “machimbombos”;
Recuo em mim, sinto-me nos “musseques” Impregnados de fortes odores, Olvidados nas farras de rebita, Prolongadas pelas longas noites tropicais E nas místicas batucadas de outras noites; Quisera ouvir novamente, O gemido pungente do “kissange”!
Ah...Como relembro a gritaria das “quitandeiras” Enroladas em panos coloridos, feitos vestidos, Apregoando os “cacussos” As “lavadeiras”, de trouxas de roupa à cabeça Gingando, descalças pelas ruas;
Saudoso degustar dos chocos grelhados do “Bitoque” As “sandes” quentes de presunto do “Baleizão”;
“picadas” a perderem-se de vista, Adormecidas na terra vermelha, Onde as chuvas faziam exalar Cheiro único de terra molhada; Aos meus olhos aparece como uma real visão, As imensas matas de luxuriante vegetação, Os cafezais com o seu fruto vermelho; Extensões eternas de verde do sisal, Perdidas na lonjura;
Ai, saudoso fascínio olhar o mar E admirar o sol a esconder-se Em lânguida mansidão, Espalhando as suas cores quentes deslumbrantes, Multiplicadas nas ondas brilhantes do Atlântico; As praias de belas areias da Ilha de Luanda Que nos acolhiam E nos mergulhavam nas suas belas e tépidas águas;
Esta tela multicolor de memórias Ficou na saudade de um viver que se foi, Acordado na lembrança de hoje.
José Carlos Moutinho
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