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ensaio mudo da palavra [3 de 4]

 
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não tirem o vento às gaivotas - sampaio rego sou eu


palavra-papel – palavra-papel. é isto que faço agora. digo-vos o que faço com as palavras que não têm som. palavras que sobrevivem em ruas desertas e que não quero perder. esquecer.– tenho tanto medo de me esquecer da vida que agora a guardo em palavras escritas – o meu pai morreu esquecido de todas as palavras. a doença roubou-lhe tudo. não guardou uma única palavra em papel. só tenho as fotos. a preto e branco. são aquelas onde a voz é mais nítida. nos olhos vejo o corpo a andar. e os lábios a correr em direção a mim dizem palavras que já não entendo. saudade – faltam as palavras-papel – escrevo. escrevo palavra-papel. gosto de escrever em papel. gosto de pensar que sei escolher as teclas negras. onde o branco é o desenho que cada palavra representa para mim. tenho a certeza de que as palavras são o que resta de um som que só eu ouço – tenho tantas palavras ainda por escrever. palavras-papel – um dia todas as palavras que guardo na cabeça serão do mundo. do meu mundo. do mundo que criei. dos amigos inócuos. dos inimigos de maldizer. dos curiosos céticos. dos leitores ocasionais. e dos vampiros de palavras – é por estes que escrevo. compreendem-me. e para me compreender é preciso provar o sangue que cada palavra carrega dentro e por fim adivinhar não o som-papel mas o som-leitura. o som que é feito da vida em papel – palavra – no cimo da montanha mais longínqua da minha vida. imagino-a: em volta da gota que corre encosta abaixo. só há pedras. no topo das montanhas o verde é raro. tudo é cinzento-terra e azul-céu. talvez por isso algumas palavras que escrevo agem como pedras. pedra-cinza-terra – redondas. chegam-me à cabeça redondas como o mundo que habito. como os olhos castanhos presos à concavidade do rosto. mais não são do que dois furos numa caveira. com alguns neurónios loucos por palavras que falam por mim de boca fechada – tudo o que digo é de boca fechada. quando falo não sou eu. sou o que vocês querem ver. sorrisos quase sempre. esperança quase sempre. força quase sempre. determinação quase sempre. projecto quase sempre. futuro quase sempre. confiança quase sempre. sempre gostei da palavra quase. dá sempre uma margem de complacência a quem à minha volta vê o que não sou – quase escrevo. quase morri. quase consegui chegar ao pólo norte quando o que queria mesmo era chegar ao pólo sul. ou quase podíamos ser amigos mas somos quase inimigos – este mundo é quase é fantástico e quase sempre escrevo coisas que ninguém quer ler – escrevo. escrevo. estes raios em palavras que ninguém ouve. palavras pedra-cinza-terra. importantes para mim que faço do silêncio voz –
 
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sampaiorego
 
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Enviado por Tópico
martisns
Publicado: 09/03/2012 23:28  Atualizado: 09/03/2012 23:28
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 Re: ensaio mudo da palavra [3 de 4]
Um texto belíssimo

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