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a morrer do mundo

 
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não tirem o vento às gaivotas - sampaio rego sou eu


como é que um homem deita o corpo a descansar se o descanso está a falecer – tudo o que vejo é apatia. tudo o que sinto é desespero. tudo o que faz cor dá negro – tudo está falecido antes de estar – e olho. e volto a olhar. e tudo está a desaparecer. até a luz. ainda hoje pela manhã era dia aberto e agora já é noite – quer dizer. ainda não é. mas já se faz anunciar – e rodo para norte o corpo. e depois para sul. sem saber como sossegar – entre mim e o nada uma flor. desgostosa. desamparada. desprotegida. sem nome – nunca soube o nome de flores. talvez seja um girassol. um jacinto. uma estrelícia. uma papoila. ou uma rosa – não interessa o nome dos que estão doentes. afinal está murcha. está a falecer. talvez falta de chuva. não chove dentro das casas. ou então. talvez seja falta de pessoas capazes de trazer a água do céu para casa . não sei. se soubesse talvez pudesse ajudar. mas não sei – sei tão pouco da vida – estou somente capaz de observar as coisas. sinto-me estranho. esquisito. talvez não venha de mim este mal estar. talvez sejam os outros a fazer de mim um homem sem certeza na vida – para ser sincero não sei. eu estou igual. sempre fui pálido. com olheiras. lábios gretados. e a cabeça sem saber para que lado tombar. sempre me senti a falecer. sempre olhei mais para o passado do que para o futuro. aquele é certo. e no futuro há sempre homens a olhar para longe – agora tudo mudou. não há futuro. e as pessoas falecem antes do reconhecimento do óbito. e já não há gritos porque não há corpos para chorar. e já não há flores porque também estas já faleceram antes dos corpos. e já não há campas abertas porque o coveiro faleceu no dia em que lhe roubaram a pá. e já não há missas porque o padre faleceu antes de deus mandar o seu filho à terra para falecer por gente que não vale coisa nenhuma – também deus já sabia do falecimento do seu filho mesmo antes de falecer. e cristo também sabia que tinha nascido para falecer numa cruz feita por homens que nunca trazem água para as flores doentes e sem nome – todos querem um pedaço de tempo a qualquer preço – e tudo seca quando as nuvens não carregam água. e judas sabia que só o falecimento do filho do criador daria sentido à sua vida. e a vida está cheia de gente que só aparece com corpos a falecer – as moedas de judas só entram na narração para criar enredo. faleceu para ficar na história. faleceu pela ganância. e nunca ressuscitou. e nunca soube o nome de uma flor. e nunca trouxe água na palma da mão. e o mar morto enfestado de sal não deixa o corpo desaparecer. e o mal sempre à tona da água. e o homem também – só não sei o que vou fazer ao meu corpo para o fazer descansar. estou numa história que não é minha. não consigo dormir. não consigo amar as vozes que reconheço. não consigo sossegar. e tudo dentro de mim está cada vez mais distante do mundo dos que ainda não faleceram – quando era novo sabia tudo e agora nunca sei nada. talvez esteja a falecer também das ideias – e o mundo anda. e eles mandam o mundo andar como se o pão sobrasse pela falta de bocas. e uns comem. e outros olham. e a chuva parada entre o céu e a terra. e os pássaros com asas de cera gritam pelo nome da santíssima trindade e moisés às gargalhadas. não há terra prometida. nem vida depois da morte. e a igreja falecida manda rezar. e o comunismo falecido manda gritar. e o capitalismo falecido manda roubar. e as doutrinas na mão de gente que nunca faleceu por nunca ter nascido para a vida das flores sem nome. dos pássaros. da chuva. das manhãs feitas de sol. da juventude. dos doentes. da mulher esperança. do pai de mãos ásperas. da justiça. da rua verde. da cerejeira. do cão. do abraço. do olá. do bom dia. da história contada à cabeceira da cama ao filho com medo de um fantasma que se chama papão. da estrela polar. e da lua que cresce e minga com os dias que fazem dos velhos gente sábia e respeitada – nunca se ama o que não tem nome. nunca falece o que não nasceu para os olhos. o que não tem rosto – faleço. faleço todos os dias – escrevo para continuar a falecer desta dor que nunca foi capaz de saber viver dentro de um corpo que teima em parecer saudável – um dia falecerá de vez
Autor
sampaiorego
Autor sampaiorego
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Texto
Data 13/06/2012 21:07:23
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Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 14/06/2012 00:10  Atualizado: 06/09/2012 21:12
 Re: a morrer do mundo
.

Enviado por Tópico
Sergio de Sersank
Publicado: 14/06/2012 00:23  Atualizado: 14/06/2012 00:23
Super Participativo
Usuário desde: 13/01/2010
Localidade: Londrina-PR BRasil
Mensagens: 156
 Re: a morrer do mundo
Subscrevo o comentário da Márcia.

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 14/06/2012 15:56  Atualizado: 14/06/2012 15:56
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
sergio de sersank!

remeto-o para o comentário que fiz à colega márcia rosas - obrigado pela leitura do texto - cumprimentos

sr

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 14/06/2012 15:53  Atualizado: 14/06/2012 15:53
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
olá márcia rosas!

todo o leitor me merece respeito (quase) ilimitado – partindo deste princípio. vou responder-lhe de acordo com os valores que adoto e defendo não como escritor (amador). mas como homem que encontra na escrita uma fuga à sua personalidade – como dizia eliot “ a poesia (escrita) não é um soltar de emoção mas uma fuga à emoção; não é a expressão da personalidade, mas a fuga à personalidade. mas, claro, somente aqueles que possuem personalidade e emoções sabem o que significa querer fugir a essas coisas” – sendo assim. começo por lhe dizer que o texto tal como o título são meus – no que diz respeito ao título do texto. este não se explica. lê-se. e interpreta-se de acordo com a hermenêutica que se faz do texto – quanto ao não entender o português não posso ajudar – entendo que a leitura silenciosa. tal como a escrita silenciosa. traz sempre mais benefícios que o ruído – o “português claro” está sempre na capacidade de saber interpretar os textos e atribuir-lhes significado – posso dar-lhe um exemplo de uma leitura difícil e talvez assim a ajude. é a do nosso maior escritor contemporâneo vivo. antónio lobo antunes. que nem por isso deixa de ser um escritor reconhecido mundialmente – serve este exemplo apenas para dizer que nem todos os textos difíceis de interpretação são maus. é claro que não pretendo comparar os seus livros a este meu exercício de escrita – já nas questões de moda dou-lhe total razão. não gosto de amarelo e tenho um vizinho com um automóvel desta cor. uma desgraça no meu entender – graças a deus é o seu automóvel. é descapotável. e assim sendo. na minha perspectiva não é tão grave – esta sua reflexão fez-me lembrar aquela anedota em que um dia o rei da selva decretou uma lei onde dizia que todos os animais de boca grande seriam condenados à morte – incrivelmente o hipopótamo disse: coitadinho do crocodilo – bem sei que não é uma grande anedota. confesso que sou pior em anedotas do que e escrever – no entanto. gostaria de lhe pedir que lê-se apenas mais uma vez o meu texto. pode ser um sacrifício. mas talvez encontre por lá pontuação. pode não ser aquela que conhece dos livros da nossa escola. mas tem a mesma utilidade. ajudar o leitor a entender o que o autor quer (tentar) dizer – o que seria de saramago se não fosse a mania de ter uma moda diferente – espero ter contribuído para a diminuição significativa da sua confusão. se assim não aconteceu. quero que saiba que a minha caixa de correio estará sempre á sua disposição – esclarecer também faz parte da minha condição de “homem-escritor” – obrigado pela leitura – cumprimentos

sr

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 14/06/2012 16:38  Atualizado: 06/09/2012 21:07
 Re: a morrer do mundo
.

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 14/06/2012 16:57  Atualizado: 14/06/2012 16:57
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
estou contente por gostar do amarelo

sr

Enviado por Tópico
RoqueSilveira
Publicado: 14/06/2012 08:19  Atualizado: 14/06/2012 08:19
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2008
Localidade: Braga - Vila Verde
Mensagens: 7160
 Re: a morrer do mundo
olá sampaio rego
grande texto, grande no sentido, (com o qual concordo plenamente) pois neste mundo onde impera uma crise de valores, a que acresce a preguiça, até para ler e perceber, raros serão os que interpretarão e atingirão o que as palavras até dizem de forma martelada. aliás os comentários anteriores, a morrer do mundo, concreto e literário (na sua forma mais bossal) são prova disso.
beijo
roque

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 14/06/2012 15:54  Atualizado: 06/09/2012 21:08
 Re: a morrer do mundo p/ RoqueSilveira
.

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 14/06/2012 16:23  Atualizado: 14/06/2012 16:23
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo p/ RoqueSilveira
márcia rosas!

acredito que a colega não esteja nos seus melhores dias. talvez semana digo eu – onde é que não respeitei o seu comentário? mais uma vez dificuldades de interpretação – como quer a colega que eu não justifique à minha maneira se o autor sou eu – tem que ter muito cuidado com o que escreve. acaba por ficar numa situação ridícula – nunca diminuí os outros. já levo uns tempos por aqui e nunca nenhum colega me fez tal acusação – o que eu faço cara colega. é uma coisa muito simples. quando recebo uma crítica esta tem que ser fundamentada em critérios “entendíveis”. e não em gostos pessoais – se é uma questão de gosto pessoal faça como eu. não leia – só vejo as suas palavras. não vejo a face com que as escreve. mas era capaz de jurar que há por aí um pouco de sobranceria. peço desculpa se assim não for – estou habituado a isto no luso. tudo o que não é preciso há em abundância – vamos então continuar a escrever

sr

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 14/06/2012 16:42  Atualizado: 06/09/2012 21:05
 Re: a morrer do mundo p/ RoqueSilveira
.

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 14/06/2012 16:53  Atualizado: 14/06/2012 17:19
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo p/ RoqueSilveira
a continuar

tem toda a razão a colega - as minhas desculpas - o que faz isto é a minha inexperiência nestas coisas estranhas que se passam no luso – não estou mesmo nada habituado a estas altercações emocionais – reconheço que há alguns colegas com mais capacidade do que eu para estes diferendos – e agora me desculpe a senhora mas vou escrever – tenha um resto de tarde feliz

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 14/06/2012 16:49  Atualizado: 06/09/2012 21:04
 Re: a morrer do mundo
.

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 14/06/2012 16:55  Atualizado: 14/06/2012 17:20
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
pronto - agora já sei que não gosta de... - espero ter contribuído para a sua felicidade - continução de uma tarde muito feliz

sr

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 14/06/2012 15:58  Atualizado: 14/06/2012 15:58
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
olá conceição!

nunca um comentário me fez tão bem – sou um homem de dúvidas e não tenho vergonha de o dizer – ainda à pouco tempo estava a ler uma entrevista do antónio lobo antunes onde ele dizia que enviava constantemente os seus textos para avaliação de um amigo (também escritor) – depois também dizia que raramente seguia os seus conselhos. mas isso já é outra história – se este homem o faz porque não eu – isto para dizer o seguinte. tu percebeste a mensagem. logo o texto é entendível – em boa verdade te digo que teve o mesmo efeito avaliativo que os textos que o nosso lobo antunes envia ao amigo – estou na escrita para ser feliz e neste estado de alma está sempre presente a minha vontade de escrever todos os dias um pouco melhor hoje do que no dia anterior – obrigado pela leitura e comentário – um beijo grato

sr

Enviado por Tópico
Vania Lopez
Publicado: 15/06/2012 06:49  Atualizado: 15/06/2012 06:49
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Usuário desde: 25/01/2009
Localidade: Pouso Alegre - MG
Mensagens: 14624
 Re: a morrer do mundo
Quando o mundo engole um nome, fica um
"EU" imenso em poesia texto, como só voce
com um braço só sabe fazer (admiro).
Acho absolutamente fantástico um comentário
que Shakespeare faz sobre o que acontece com o
intérprete. Ele diz algo assim:
Como é que pode uma ficção, uma coisa que não existe,
envolver o intérprete de tal modo que ele fica possuído
por ela? Ele chora, ele ri, ele vive aquela coisa.
Pois a poesia é isso. È preciso que as pessoas entendam
que a poesia é uma experiência de possessão. E isso não
se ensina nas escolas.

Podias me ensinar? beijo querido e obrigada

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 17/06/2012 22:56  Atualizado: 17/06/2012 22:56
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Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
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 Re: a morrer do mundo
tu não necessitas que eu te ensine nada – tu sabes que esta coisa de escrever com alma é muito difícil. pelo menos para mim é – escrever é uma dor. tão dor que há momentos que deixa de ser dor para ser apenas mais uma parte do corpo. um órgão. um orgão que para além de me fazer respirar dias que desconhecia. faz-me também ser um outro homem – este homem nasceu numa data que desconheço. não sei hora. mês ou ano. sei que nasci. isto é. renasci – o que sei. e é muito pouco. é que começou no dia que juntei um par de palavras e as larguei nas asas de uma gaivota

beijo vânia

sr

Enviado por Tópico
Sergio de Sersank
Publicado: 15/06/2012 08:07  Atualizado: 15/06/2012 08:13
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Usuário desde: 13/01/2010
Localidade: Londrina-PR BRasil
Mensagens: 156
 Re: a morrer do mundo
Prezado amigo, Sampaio Rego.
Bom dia.
Achei que devia escrever-te estas linhas. Reli o teu texto e os comentários. Realmente, o título escolhido me soou um pouco estranho. Me parece um pleonasmo. Não seria muito diferente, penso, dizer "a morrer da vida". Claro, a expressão pode se justificar sob o argumento de que reforça a idéia de "morrer conscientemente". Algo assim como "estou morrendo, sei disso". Mas o texto é bom. Escreves com fôlego, tens estilo.
Ao referendar o comentário da Márcia, quis me referir à tua forma de apresentação do texto - com frases curtas, interpoladas e excesso de pontuações - pouco usual, na verdade. E, para ser objetivo: antigramatical.
Mas, hoje em dia, tudo é válido. Muitos autores têm buscado nessas variações estilísticas, tanto na prosa como em poesia, (caso dos concretistas e da poesia práxis), uma forma de metalinguagem, ou a linguagem supostamente ideal. Deve ser o teu caso. O Senhor deve ter razões de sobra para preferir escrever assim.
De minha parte, Sampaio, procuro me ater às formas clássicas, tradicionais. Por isso, evito os neologismos e não abro mão da sintaxe. Dou muito valor à escrita que flui, descomplicada, simples e objetiva. Mesmo em poesia, não aprecio o emprego de certos símbolos fraseológicos que visam dar ao trabalho ares de erudição e acabam por tornar o conteúdo bastante hermético, quase inintelectualizável, se posso me expressar assim.
Mas, enfim, vejo que tens alma de poeta e sabes descrever com vigor, as coisas do coração.
Perdoe-me, pois, a intromissão descabida.
Abraça-te com votos de cordial estima e saudações de Saúde e Paz
Teu amigo,
Sergio de Sersank

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 17/06/2012 22:44  Atualizado: 17/06/2012 22:44
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
caro sérgio!

obrigado pelo seu comentário – a questão que se coloca não é a de gostar ou não de um determinado texto. ou autor. mas sim a forma como o expressamos – é aqui que reside quase sempre o problema do luso poemas – quando não gosto de algum autor deixo de o ler e faço-o em silêncio. apenas por um par de razões: liberdade. respeito. harmonia e o direito que cada um tem de ser feliz à sua maneira – se esse autor. no seu texto. no seu espaço de criação. assume a responsabilidade pela assinatura do seu nome. não tem erros gramaticais. se cumpre os requisitos mínimos para que um qualquer leitor o possa entender. então entendo que não devemos interferir no seu percurso criativo. no caminho que livremente entendeu ser o melhor para si – acreditando eu que a escrita é uma fuga à personalidade. uma fuga à emoção. uma expurgação da vida consumida em silêncio. só me resta almejar que todo o homem que escreve alcance. pela sua mão. a sua montanha de felicidade – digo a sua porque cada individuo tem a sua própria montanha. a altura pode ser diferente mas o prazer de alcançar o topo é. no meu entender. igual – bendito o homem que é feliz a escrever – no entanto. se a montanha de certos colegas é dar a conhecer a sua análise crítica ao autor. então caro sergio. confesso-lhe que teria dito tudo o que a márcia disse mas de outra forma. mais sábia. mais erudita. mais agradável. mais amável. mais atenciosa. valorizando mais o homem-sentimento. isto como primeira preocupação. e só depois o homem-escritor – quando as pessoas são boas e o seu íntimo tem como primeira preocupação a descoberta da virtude no homem. sendo ele escritor ou outra coisa qualquer. então. tudo se torna fácil – ao invés. quando as pessoas são erigidas na frieza de palavras. na sobranceria. na poesia oca feita de um amor oco sem tradução efectiva na vida do homem comum que procura nas palavras apenas um pouco de conforto. tudo se complica e acaba por dar aquilo que tantas vezes se vê por aqui no luso. conflitos de linguagem extremados. má criação e principalmente ingratidão – grato. gratidão. reconhecimento. são a meu ver as palavras que deveriam nortear todos os autores deste site. escrever e ser lido neste espaço dedicado à literatura é um pequeno milagre da modernidade dos nossos dias – quem nos leria se não fizéssemos todos (bons e menos bons) parte deste grupo de gente apaixonada pela vontade de escrever? – sobrevivemos. isto é. lemos e somos lidos apenas porque funcionamos como uma “matilha”. é esta simbiose entre os melhores e os menos bons que dá a este site a notoriedade. que faz dele uma das grandes referências do espaço cibernáutico luso-brasileiro – infelizmente parece que não é assim para muitas pessoas. e confesso que tenho muito medo destas pessoas. tenho medo de pessoas ingratas. tenho medo de pessoas que não respeitam o espaço dos outros e tenho ainda mais medo da ignorância dos tolos – os sábios. sabem sempre que pouco sabem e também sabem que é com os que sabem menos que acabam por aprender o mais difícil: o que não vem nos livros – mas nada posso fazer. a maior parte das pessoas está sempre tão preocupada com o seu umbigo que se esquece de olhar o dos outros – estas pessoas se perdessem algum tempo a tentar conhecer quem realmente escreve. perceberiam que realmente não somos absolutamente nada neste espaço literário – o que diriam alguns escritores sobre a nossa escrita? iriam ao nosso blogue dizer que nós somos confusos e que a nossa escrita envergonha a classe? não – esta gente. a que sabe realmente escrever. respeita com cuidado todos aqueles que com esforço tentam. em cada dia. encontrar dentro de si o que há de melhor para dar aos outros em palavras – o que o sérgio fez neste seu comentário é o que realmente deve ser sempre feito. podemos não gostar do autor a ou b. mas o mais importante é perceber que o homem que está por detrás do texto deve ser estimado. cuidadosamente estudado e informado da opinião do seu leitor. afinal faz parte da mesma família que tem como ligação não o sangue ou linhagem mas o gosto pela arte escrita – como disse. a escrita para mim é libertação. dentro desta libertação há sempre vários caminhos passíveis de acolher a nossa escrita. o meu caminho é o de encontrar o leitor. todos os leitores. bem sei que não consigo. nunca conseguirei. mas não me peçam para desistir de ser assim – acredito no homem. e o sérgio deu-me razão com o seu comentário. e nunca será por não gostar deste estilo para comunicar que o considerarei menos. pelo contrário. ouvirei as suas palavras com atenção e tentarei tirar delas a máxima informação para poder melhorar a minha escrita – mais uma vez obrigado pela sua leitura e comentário –

abraço com estima –

sr

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 17/06/2012 23:20  Atualizado: 06/09/2012 20:49
 Re: a morrer do mundo
.

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 17/06/2012 23:50  Atualizado: 17/06/2012 23:50
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
somos realmente diferentes – a sua resposta trouxe a confirmação da razão e bondade das minhas palavras – agora senhora márcia. confesso-lhe o que me passa pela cabeça: tenho ainda mais medo de gente como a senhora – vou deixar-lhe um conselho em forma de provérbio: um tolo que não diz palavra não se distingue de um sábio que se cala – não diga mais nada. para seu bem mas principalmente do site
desejo-lhe uma boa semana

sr

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 18/06/2012 00:06  Atualizado: 06/09/2012 20:48
 Re: a morrer do mundo
.

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 18/06/2012 00:16  Atualizado: 18/06/2012 00:16
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
humildade – conhece esta palavra? acredito que não – tenho a certeza que conhece: sobranceria. arrogância. insolência e desumanidade – tem tudo a ver com a sua frase de perfil (personalidade):"A mais bela poesia é o amor!
Márcia Rosas”

Enviado por Tópico
visitante
Publicado: 18/06/2012 00:38  Atualizado: 06/09/2012 20:47
 Re: a morrer do mundo
.

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 18/06/2012 00:47  Atualizado: 18/06/2012 00:47
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
não tenho mais nada para lhe dizer - desejo-lhe apenas um semana feliz

Enviado por Tópico
cleo
Publicado: 17/06/2012 23:05  Atualizado: 17/06/2012 23:24
Luso de Ouro
Usuário desde: 02/03/2007
Localidade: Queluz
Mensagens: 3924
 Re: a morrer do mundo
Caro amigo
Grande dissertação, eu diria mesmo que é uma genial alucinação da lucidez, sobre o falecimento prometido de todas as coisas...
Nada morre de repente, tudo vai falecendo aos poucos.
Mas o que mais me assusta, é o falecimento das almas das pessoas, muito antes do próprio corpo.

E o que dizer do título(bem como de todo o texto)... bem ao estilo de Lobo Antunes que também é António, mesmo como eu gosto

Mesmo muito boa a prosa do meu amigo!

PS. Voltei aqui só para dizer que tinha escrito este comentário antes de ler os restantes e agora que vou na leitura da resposta dada à Marcia, verifico com satisfação que não me havia enganado quando o comparei ao nosso melhor escritor vivo - António Lobo Antunes.

Isto foi só um pequeno à-parte, agora vou continuar a ler o resto, pois adivinham-se coisas interessantes por ali...

Enviado por Tópico
sampaiorego
Publicado: 20/06/2012 19:48  Atualizado: 20/06/2012 19:48
Colaborador
Usuário desde: 31/03/2010
Localidade: algures virado para o mar com gaivotas
Mensagens: 972
 Re: a morrer do mundo
não é fácil responder ao teu comentário. nada fácil - é assim que começa o texto que te entrego como se de um obrigado se tratasse - bem sei que não necessitas deste obrigado. já falamos tantas vezes um com o outro que o silêncio já não é mais esquecimento e muito menos ingratidão - no entanto quero dizer-te que sou muito feliz a escrever. tão feliz que desconhecia esta forma de me fazer sobreviver - tomara que as mãos continuem a cuidar do homem que escreve e o meu silêncio saiba gritar nas palavras que vos entrego – nas palavras sou sempre eu – ai se eu pudesse ser assim na vida...

título do texto postado no luso – sr. antónio

sr

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(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
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Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

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As que saboreio entre dissabores
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As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
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Aquelas,
Que já não consigo escrever,
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A caneta começa a tremer
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O meu olhar constrói
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A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

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Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
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E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)


vaga-lume

... beijar-te

- era ser
pássaro azul
dedilhando ugabe

era levitar
beber das nuvens
e desfolhar os céus

era um doce caminhar
sem tocar o chão
estirpes desaguando
em aljôfar...

era dédalo a calar-me
se acontecia
cascata de sonhar-me
na boca que feliz
se fenecia

- e era livre
sendo chama
toda asas
vaga-lume
brilhante
como quem ama.

(RoqueSilveira)


Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

"Amor" é o presente dado sem esperança de retorno,
e o que esperamos é apenas que não seja rejeitado

(Junior A.)



Frase

Como posso explicar
Esta dor
Invasora
Da minha alma
Senão dizer
Que és a mentira
Mais verdadeira
Da minha vida...?

(Raquel Naranjo)



Frase

O amor é como a justiça:
Injusto e cego.

(TrabisDeMentia)



guardanapos

do nosso beijo,
muralhas

do nosso amor,
migalhas

do nosso verbo,
mortalhas

dos nossos papos
poemas
em guardanapos

(Niké)



Sexto sentido

Tenta ouvir o silêncio...
Ver a luz na escuridão profunda...
Cheirar o aroma da mais pura água...
Sentir a textura do vento...
Saborear a doçura do sal...
Quando o conseguires...
Irás te descobrir...

(gera)



Só saudade

Dor que sente
Dor que não se mede
Que vai e vem

Com a vida vou rolando
Com a dor vou buscando
Talvez alívio...

Quando doer que seja
Sem deixar morrer
Só saudade...

(amasol)



A foz

Se cada coisinha que eu sei correspondesse a um rio... E se cada um deles desaguasse na mesma foz...Esta não teria senão o tamanho de uma bacia bem pequenina na qual eu refresco os meus cansados pés. Os rios seriam tão curtos quanto a minha felicidade, tão estreitos quanto a minha existência, tão secos quanto a minha solidão. Mas talvez, talvez bem no fundo da bacia, talvez para lá das lágrimas turvas, e para que eu me possa orgulhar, talvez sorriam dois peixinhos, que eu, apesar da distância possa contemplar! E quem sabe... Uma flor se incline e faça nascer, na foz uma flor que eu possa colher!

(TrabisDeMentia)

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