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O Gato-Pintor

 
Esta é a história do Gato-Pintor que não sabia miar bonito. O Gato-Pintor sabia que não sabia miar tão bem como os outros gatos, porque dizia MIAÓ, e os outros diziam MIAÚ. Mas, o Gato-Pintor era humilde e aceitava que o Gato-Sabichão o corrigisse.
- Não se diz MIAÓ, diz-se MIAÚ. – explicava-lhe o Gato-Sabichão.
O Gato-Pintor não sabia miar bonito, mas gostava muito de desenhar e pintar. O Gato-Sabichão admirava os rabiscos que o Gato-Pintor fazia e como os rabiscos se tornavam desenhos a sério, depois de pintados. O Gato-Pintor era sociável, mas andava sempre com pressa.
- Tenho de ir pintar! – dizia ele – Tenho de ir pintar!
E, por isso, não tinha tempo para aprender a miar bonito. Às vezes, até dizia bem:
- MIAÚ.
Mas, a dúvida de não ter acertado levava-o a corrigir-se:
- MIAÓ.
O Gato-Pintor ficou muito amigo do Gato-Sabichão no dia em que o Gato-Sabichão viu um desenho dele num muro. Outros gatos passavam por lá e marcavam o território. Depois, quando se encontravam, diziam:
- Eu passei hoje por um muro, um muro que vocês não conhecem, ali para os lados da biblioteca pública.
Todos, afinal, conheciam o tal muro, mas o Gato-Sabichão, não. Até que um dia, por acaso, o Gato-Sabichão descobriu o muro. Ia a passar ao pé da biblioteca e viu uns desenhos muito coloridos, no muro. O território do Gato-Sabichão não era aquele, mas olhou os desenhos e quis saber mais. Foi assim que ficou a saber quem era o Gato-Pintor e ficaram amigos.
O Gato-Pintor ficou muito vaidoso (ele ficava sempre vaidoso, quando lhe diziam que os desenhos eram bonitos…) e apresentou o Gato-Sabichão aos seus amigos que viviam, como ele, no terreno perto da escola. Viver perto da escola era um passinho só para ele aprender mais do que imaginava existir, mas… o que ele gostava mesmo era de desenhar e pintar. E, para isso, não era preciso saber miar bonito. Ele dizia MIAÓ e pronto.
O Gato-Sabichão cumprimentou os outros gatos amigos do Gato-Pintor:
- MIAÚ.
Os outros gatos olharam para ele admirados como se ele não falasse a mesma língua.
- MIAÚ. – repetiu o Gato-Sabichão.
Nada. Então, o Gato-Sabichão sentou ao pé deles e deu atenção ao que diziam:
- Hoje, apanhei um rato assim deste tamanho. – dizia um. E abriu as patas até mais não poder.
- Hoje, apanhei um pardal assim deste tamanho. – dizia outro. E abriu as patas até mais não poder.
- Hoje, apanhei um pombo assim deste tamanho. – dizia outro. E abriu as patas até mais não poder.
- Hoje, apanhei… – ia dizer o Gato-Sabichão.
Fez-se silêncio. O Gato-Sabichão ia contar o que tinha apanhado, mas chegou um gato que começou logo a explicar que…
- Hoje, apanhei um rato, não, não era um rato, ai que cabeça a minha! Era um pardal, não, não era um pardal, ai que não me lembro, era grande, tinha asas, pois, um pardal tem asas, mas não era um pardal, deixa ver, era um, era…
E, só então, reparou no Gato-Sabichão.
- MIAÚ. – disse o Gato-Sabichão.
- MIAÓ. – respondeu o gato que sabia que tinha apanhado um pardal que não era pardal, mas tinha asas.
O Gato-Pintor começou logo a explicar que talvez fosse um pombo, porque eles também têm asas, até podia fazer um desenho para se ver bem a diferença. O Gato-Sabichão ficou calado, a ver.
O Gato-Pintor desenhou um rato. Logo o gato que tinha apanhado o rato deste tamanho, disse:
- Sim, sim. Esse era o meu rato.
O Gato-Pintor desenhou um pardal. Logo o gato que tinha apanhado o pardal deste tamanho disse:
- Sim, sim. Esse era o meu pardal.
O Gato-Pintor desenhou um pombo. Logo o gato que tinha apanhado o pombo deste tamanho disse:
- Sim, sim. Era esse o meu pombo.
A seguir, o Gato-Pintor começou a desenhar o que o outro gato lhe explicava ter apanhado. Riscou, riscou, rompeu o papel de tanto apagar, tirou outra folha, mas não conseguiu fazer o desenho. Afinal, não tinha asas. Logo não era um pombo nem um pardal. Tinha cauda, mas não era um rato. Mais parecia um lagarto. O Gato-Sabichão ficou em silêncio. Era mesmo difícil adivinhar. Até que o Gato-Pintor fez mais uns riscos e todos disseram em coro:
- É uma iguana!
O Gato-Sabichão olhou muito admirado para todos eles e não disse nada. Ele, que há mais de dez anos vivia nas redondezas nunca, mesmo nunca, nunca tinha visto uma iguana!
Mas, nesse dia, ficou a saber tudo sobre iguanas. Afinal, o tal gato não tinha apanhado uma iguana, ai que cabeça a dele, tinha visto uma iguana, numa loja de animais. Nessa noite, o Gato-Sabichão até sonhou com iguanas.
No dia seguinte, o Gato-Sabichão foi até ao terreno ao pé da escola falar com o Gato-Pintor:
- Sabes se quando se vê uma iguana se fica assim…
Logo, o Gato-Pintor perguntou:
- Assim, como?!
O Gato-Sabichão não sabia como explicar.
- Assim… marado, quero dizer, assim…
O Gato-Pintor esclareceu o Gato-Sabichão:
- Ah! Ele é assim marado. Tenho de ir pintar! Tenho de ir pintar!
Só então, o Gato-Pintor se lembrou da pergunta que tinha para fazer ao Gato-Sabichão:
- E, o que é que tu apanhaste ontem?
O Gato-Sabichão disse que tinha apanhado um susto.
- Um susto?! Não conheço. – admirou-se o Gato-Pintor. – Nunca apanhei um susto.
O Gato-Sabichão explicou o melhor que pôde como era um susto e acrescentou:
- Só se sabe que se apanhou um susto, depois de se ter apanhado.
- MIAÚ. – disse o Gato-Pintor.
O Gato-Sabichão olhou para o Gato-Pintor muito admirado e disse:
- Tu não disseste MIAÓ. Disseste MIAÚ. Muito bem!
- MIAÚ – disse o Gato-Pintor. – Eu acabo de apanhar um susto.
- Um susto?! – perguntou o Gato-Sabichão.
- MIAÚ. – disse o Gato-Pintor. – É que eu não sei desenhar um susto!
E, por isso, esta história acaba com uma página em branco, para quando o Gato-Pintor souber desenhar um susto. Desde esse dia, o Gato-Pintor nunca mais disse MIAÓ, disse sempre MIAÚ.



(Texto inédito e propriedade intelectual de TeresaMarques)

Autor
TeresaMarques
Autor TeresaMarques
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Data 06/09/2009 22:12:12
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É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
( Era folha de papel)
Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
A caneta começa a tremer
Soluça.
O meu olhar constrói
O que meu pensamento rejeita
Esta sou eu,
A doce mulher
A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)


vaga-lume

... beijar-te

- era ser
pássaro azul
dedilhando ugabe

era levitar
beber das nuvens
e desfolhar os céus

era um doce caminhar
sem tocar o chão
estirpes desaguando
em aljôfar...

era dédalo a calar-me
se acontecia
cascata de sonhar-me
na boca que feliz
se fenecia

- e era livre
sendo chama
toda asas
vaga-lume
brilhante
como quem ama.

(RoqueSilveira)


Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



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Como posso explicar
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Senão dizer
Que és a mentira
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migalhas

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(TrabisDeMentia)

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