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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
    <lastBuildDate>Mon, 20 May 2013 01:19:43 +0200</lastBuildDate>
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      <title>Luso-Poemas</title>
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      <title>Crónica de parte da minha loucura - Nanda</title>
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      <description>Confesso-me estranha, esquisita, diferente, inadaptada, desajustada e até desiquilibrada.       &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Costumo dizer que este mundo não me pertence, não me preenche, pouco me diz e muito menos me faz feliz . Também não é por isso que tenho pressa de morrer, mas nunca me aferirei àquilo que chamam de padrões socialmente corretos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que me conheço, por gente, que me recordo de ter completo pavor de estar em salas fechadas com outras pessoas. Começo, automaticamente, a imaginar que o oxigénio vai acabar e, sempre que possível, corro a abrir uma porta ou uma fresta de uma janela, alheia ao facto de estar muito frio ou a chover, sob pena de entrar em pânico. A isso poder-se-ia chamar claustrofobia, não fosse eu não sentir esse mesmo desconforto em elevadores ou aviões, o que seria muito natural, tendo em linha de conta o mesmo princípio de estar confinada a um espaço pouco oxigenado e ser obrigada a dividi-lo com outros protagonistas, na sua maioria alheios ao drama que estou a experienciar nesse momento. Creio que a minha mente consegue monitorizar que se trata de uma situação pontual. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até há pouco tempo, quando entrava num cemitério, sustinha a respiração, o maior tempo possível, para não respirar o gaz sulfídrico que os corpos em decomposição libertam. Como aparte, por força do episódio trágico da morte da minha mãe, essa situação eu já superei. Hoje em dia, já vou ao cemitério sem quaisquer problemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Situação idêntica ocorre comigo quando vou visitar alguém em hospitais, fico sempre com a impressão que vou apanhar todos os vírus que os doentes da enfermaria têm, logo não consigo respirar fundo, em ambiente hospitalar.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grandes superfícies, com muita gente a circular, tal como hipermercados ou grandes centros comerciais, toldam-me a cabeça a ponto de quase desmaiar. São espaços a não frequentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menopausa também não me tem poupado a estes constrangimentos. Em termos profissionais, partilho um gabinete com outras três colegas. Sinto-me presa, entre quatro paredes. Enquanto eu morro de calor e a ideia de não entrar oxigénio na sala me persegue, as restantes colegas tiritam de frio. Escusado será dizer que, a maioria vence e para ajudar a saturar o ar, ainda tenho de aguentar o sistema de ar condicionado, propagador e proliferador privilegiado de ácaros, fungos e bactérias, modernismos, conscientemente, nocivos à saúde.  Dando-me por vencida, mas, não por convencida, lá vou engolindo goles de água para refrescar a minha obsessão maníaca/depressiva . &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Serão fobias, taras, manias, loucura, traumas de vidas passadas, ou apenas fragilidade humana, de quem usa a cabeça para pensar nos mais ínfimos detalhes da vida, mas, não, somenos importantes, tal como a relevância, para a nossa sáude, do ar que respiramos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo que fique sem resposta, isto é apenas uma pequena mostra da minha peculiar forma de ser e de estar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;53 anos&lt;br /&gt;natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Sat, 18 May 2013 22:26:47 +0200</pubDate>
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      <title>Amanhã - Nanda</title>
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      <description>Pode muito bem ser o dia da minha morte&lt;br /&gt;Ou, talvez até, o dia em que se decida a minha sorte&lt;br /&gt;Mas, se amanhã&lt;br /&gt;For, apenas, um dia igual a tantos outros&lt;br /&gt;É porque a poesia, fruto da inspiração&lt;br /&gt;Também se faz de rotinas, sem hesitação&lt;br /&gt;Assim, ninguém sabe o que o espera o futuro&lt;br /&gt;Que aí, já à porta, pode vir maduro&lt;br /&gt;Feito de intuição e sabedoria&lt;br /&gt;Ou, entrando de rompante&lt;br /&gt;Jovem, instigante, louco e absurdo&lt;br /&gt;Enfrentando um tempo que não lhe pertence&lt;br /&gt;Porque, hoje, estagnado, de tão ignorado&lt;br /&gt;Perdeu a esperança de, amanhã, talvez&lt;br /&gt;Renascer para a vida, que nunca viveu&lt;br /&gt;Preso a um passado, que não se deu conta&lt;br /&gt;Mas, já prescreveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;53 anos&lt;br /&gt;natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Sun, 28 Apr 2013 18:13:57 +0200</pubDate>
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      <title>Espelho d&amp;#039;água - Nanda</title>
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      <description>Dilatam-se as pupilas dos meus olhos&lt;br /&gt;Numa osmose castanha/esverdeada &lt;br /&gt;É estrela dalva que brilha extasiada &lt;br /&gt;Espelho  d água, fonte luminosa  &lt;br /&gt;Clarão de uma aurora anunciada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é nenhum fenómeno oftalmológico&lt;br /&gt;Tão pouco me confesso apaixonada&lt;br /&gt; Sou eu em comunhão e simbiose&lt;br /&gt;Com a essência da minhalma irisada&lt;br /&gt;E a capacidade de sonhar acordada &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;53 anos&lt;br /&gt;natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Thu, 11 Apr 2013 21:10:06 +0200</pubDate>
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      <title>Trilho da harmonia - Nanda</title>
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      <description>A vida não deve ser&lt;br /&gt;Um fardo para arrastar&lt;br /&gt;O importanteé  vivê-la&lt;br /&gt;Sem medo de se quebrar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há séculos de hesitação&lt;br /&gt;Momentos de cobardia&lt;br /&gt;Às vezes, a decisão&lt;br /&gt;Não é um ato impensado &lt;br /&gt;Só peca por ser tardia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando a hora chega&lt;br /&gt;No relógio do Universo&lt;br /&gt;A mente desordenada&lt;br /&gt;Assume de uma virada&lt;br /&gt;O que até a si omitia &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do alto, recebe a força &lt;br /&gt;Para romper a encruzilhada &lt;br /&gt;Um recomeço do nada&lt;br /&gt;Segue, em frente, iluminada&lt;br /&gt;Para o trilho da harmonia  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;53 anos&lt;br /&gt;natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Sun, 24 Mar 2013 19:39:29 +0200</pubDate>
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      <title>Onda da paixão - Nanda</title>
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      <description>Toda a maré que se preze&lt;br /&gt;Trás a onda da paixão&lt;br /&gt;Junto à praia ela fenece&lt;br /&gt;Em doce rebentação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há na arte de amar&lt;br /&gt;Toda uma audaz fantasia&lt;br /&gt;Com tempero a maresia&lt;br /&gt;Sol e sal no mesmo mar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas águas da sedução&lt;br /&gt;Muitos são os que perecem&lt;br /&gt;Náufragos da ilusão&lt;br /&gt;Vida e morte lado a lado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;Natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Fri, 15 Mar 2013 21:18:27 +0200</pubDate>
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      <title>Na forja - Nanda</title>
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      <description>O sonho assente&lt;br /&gt;na bigorna da vida&lt;br /&gt;Arde na fornalha&lt;br /&gt;da expetativa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É malha ilusória&lt;br /&gt;a fogo martelada&lt;br /&gt;Fagulha displicente,&lt;br /&gt;sobras do passado&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Na forja, o futuro&lt;br /&gt;jaz hipotecado&lt;br /&gt;Refratário o tempo&lt;br /&gt;movido a saudade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora, um mundo&lt;br /&gt;de oportunidades&lt;br /&gt;Cá dentro, o ferreiro&lt;br /&gt;Já não tem trabalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;53 anos&lt;br /&gt;natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Tue, 05 Mar 2013 21:51:49 +0200</pubDate>
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      <title>Coisas de muita ou pouca fé - Nanda</title>
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      <description>Eu falando com elas&lt;br /&gt;E elas rindo-se de mim&lt;br /&gt;Dessa minha loucura inerte&lt;br /&gt;Que me faz contemplar&lt;br /&gt;Idolatrando o inalcançável&lt;br /&gt;As almas por decifrar&lt;br /&gt;Escondidas, sorrateiras&lt;br /&gt;E eu imaginando bobeiras&lt;br /&gt;Imóvel, descabida&lt;br /&gt;Crédula e naife&lt;br /&gt;Num mundo rude e atroz&lt;br /&gt;Quem foi que me disse?&lt;br /&gt;De onde tirei a ideia?&lt;br /&gt;Quem foi que me ensinou&lt;br /&gt;Coisas de muita ou pouca fé&lt;br /&gt;Que por detrás de cada estrela,&lt;br /&gt;Há um desencarnado, velando por nós?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Mon, 18 Feb 2013 22:09:52 +0200</pubDate>
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      <title>Amigos são pilares (Parabéns Vony) - Nanda</title>
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      <description>Podemos interiorizar silêncios&lt;br /&gt;Demitir-nos até da palavra escrita&lt;br /&gt;Momentos há feitos de ausências&lt;br /&gt;Amigos são pilares da nossa existência&lt;br /&gt;Para ti, Vony, especialmente neste dia.&lt;br /&gt;Parabéns, Amiga!&lt;br /&gt;&lt;img src=&#039;http://4.bp.blogspot.com/-VlbV2_stbng/TkuNJ6FEBuI/AAAAAAAAB6o/l1wKr0-5pyA/s640/As-mais-lindas-flores_665.jpg&#039; class=&#039;right&#039; border=&#039;0&#039; alt=&#039;Imagem original&#039; onload=&quot;JavaScript:if(this.width&gt;300) this.width=300&quot; /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;Setúbal</description>
      <pubDate>Sun, 17 Feb 2013 00:18:33 +0200</pubDate>
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      <title>Bola de fogo - Nanda</title>
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      <description>Alma vulneravel&lt;br /&gt;Bola de fogo&lt;br /&gt;Explode nos céus de vidro&lt;br /&gt;Efeito rocha flamejante&lt;br /&gt;Consciência em atrito&lt;br /&gt;Desintegrado meteorito&lt;br /&gt;Asteroide em queda livre&lt;br /&gt;Fricção da atmosfera&lt;br /&gt;Batalha incandescente&lt;br /&gt;Cá em baixo...&lt;br /&gt;A fragilidade de ser gente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;Natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Sat, 16 Feb 2013 18:51:49 +0200</pubDate>
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      <title>A palestra - Nanda</title>
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      <description> Naquela manhã, o furão, Furavidas, cansado de ser considerado, pelos restantes habitantes da mata, um bicho feio, fedorento e amedrontador, ferido na sua sensibilidade de mamífero carnívoro e caçador, resolveu convocar o conselho da bicharada, resolvido que estava a promover a sua popularidade e melhorar, no que lhe fosse possível, a sua autoestima.&lt;br /&gt;    Os restantes animais compareceram à chamada do figurão, armado em fino texugo, um pouco incrédulos com a pertinência daquela reunião, marcada às pressas.&lt;br /&gt;    Da copa das árvores apareceram, em primeiro lugar, os pássaros de muitas cores e espécies, acabados de acordar, com aspeto fresco e húmido, de quem saiu de um belo banho, neste caso de orvalho da noite. Num chilreio, uníssono, cumprimentaram o furão, ao mesmo tempo que ocupavam os seus lugares privilegiados nos ramos das árvores, de onde poderiam ver e ouvir tudo o que se iria passar. &lt;br /&gt;     De pronto, pousado no galho de um velho carvalho, apresentou-se o mocho Fausto, ave notívaga, que esteve de vigia toda a noite e trazia os enormes olhos amarelados, neste caso avermelhados de sono, ao mesmo tempo que rabujava pelo facto de lhe não ser permitido o direito ao descanso, após cumprir dignamente o turno da noite.&lt;br /&gt;    De seguida, compareceram apressadamente, a chinchila, Francisca, acompanhada da família dos coelhos Quinquins.&lt;br /&gt;    Logo atrás, morta de curiosidade, a raposa, Laurinda, marcou presença, com o seu ar arguto e atento, de quem não tem tempo a perder, nem é dada a socializar.&lt;br /&gt;    Furavidas foi acomodando todos os seus convocados à volta da fogueira, que ardia vigorosa, atestada que estava de achas da mais fina madeira.&lt;br /&gt;   Por fim, a tempo de assistir ao início da palestra, chegaram os manos saguins, que trilharam caminho, de liana em liana.  Por sua vez, os esquilos, Avelãs, vinham animados a mordiscar nozes e a cuspir escrupulosamente as cascas, enquanto o ouriço cacheiro mais parecia uma bola de picos, o que lhe dava um certo ar de poucos amigos.  &lt;br /&gt;    Furavidas subiu para um enorme tronco, colocado estrategicamente, por forma a observar as mais diversas reações dos seus convidados, de tão perplexos que todos estavam com o motivo daquele estranho encontro, de tal ordem que muitos deles hesitaram em vir por considerarem tratar-se de uma perda de tempo.&lt;br /&gt;    Quando o furão ia dar início à prometida palestra, ouviu-se o ruído arrastado da mais vil representante da mata, a serpente SSSTSSST. Todos os animais se voltaram com as penas, os pêlos e até os picos em pé, de tão arrepiados e eriçados que ficaram com a presença de tão indesejado membro da floresta. Escusado será dizer que o réptil ficou de fora do círculo, previamente formado pelo furão, por repugnância e desprezo dos restantes animais.&lt;br /&gt;    Furavidas resolveu, então, fazer uso do direito à palavra, colocando-se no bico das patas traseiras:&lt;br /&gt;    - Amigos e conmatenses, agradeço a todos os que se dignaram comparecer a esta minha convocatória. Prometo que serei breve na apresentação do processo de intenções, com vista à implementação de regras de boa convivência.&lt;br /&gt;    A passarada agitou-se e os grandes olhos do mocho Fausto esbugalharam-se incrédulos perante o insólito momento. Aquele bicho hiperativo e eremita não podia estar a falar a sério. Vai ver, batera com a cabeça, só assim se justificava expor-se publicamente, em função do bem estar da comunidade animal.&lt;br /&gt;    - Como vos digo, sou um animal dado à reflexão e, modéstia à parte, algo filosófico. Concluí numa das minhas muitas meditações, que embora todos sejamos diferentes fisicamente, há algo que nos liga e transforma numa espécie de membros de uma grande família, à qual correntemente se chama comunidade animal.&lt;br /&gt;Assim sendo, não vejo porque devamos andar, a maior parte do tempo, de costas viradas uns para os outros. Manda o princípio da educação e do civismo que interagemos uns com os outros, de forma cordial e, se possível, nos ajudemos mutuamente.&lt;br /&gt;    Grosso modo, ouviram-se palmas entusiastas, ao discurso empolado de Furavidas, com exceção feita à raposa e à serpente, que logo verbalizaram a sua discordância:&lt;br /&gt;    - Nunca ouvi ideia mais estapafúrdia na minha vida. Onde é que já se viu uma raposa assinar um pacto de paz com as suas pretensas presas...&lt;br /&gt;Podem daí tirar o sentido, que, no que depender de mim, não vai sair daqui nenhum acordo assinado. Até porque eu sou um bicho pouco letrado e nem sei escrever o meu nome.&lt;br /&gt;(Que fome que eu tenho!!! Deixem lá esta fantochada acabar, que vão ver...)&lt;br /&gt;    - SSSTSSST, SSSTSSST!!! (vociferava a serpente, expondo a sua enorme língua viperina em sinal de irritação). Engulo qualquer um de vós de uma vez só e nem sequer me arrependo quando gritam e me pontapeiam na barriga e tentam sair cá para fora.&lt;br /&gt;    Furavidas interrompeu a acesa discussão que entretanto se gerara, apressando-se a explicar a sua teoria:&lt;br /&gt;    - Caros conmatenses, imaginem que a nossa mata é alvo de fogo posto. O que faríamos nessa situação? &lt;br /&gt;    - Fugiríamos a quatro patas, respondeu Laurinda, a raposa velha.&lt;br /&gt;    Furavidas respondeu-lhe com ar académico, olhando-a por baixo dos óculos:&lt;br /&gt;    - Talvez tu fugisses,mas e a tua cria? Terias capacidade sozinha para a salvar das chamas, a tempo? E tu, serpente? Ser-te-ia certamente muito dificil sobreviver sozinha, bem como salvar os teus ovos.&lt;br /&gt;    Laurinda assentiu com a cabeça e respondeu que nunca havia pensado na possibilidade de poder vir a vivenciar um cenário desses.     &lt;br /&gt;    SSSTSSS cuspiu o veneno que lhe esverdeava a língua e baixou a cabeça em sinal de perplexidade, o mesmo seria dizer que reconheceu uma fragilidade que, até ao momento desconhecia em si.&lt;br /&gt;    O furão percebendo que os animais mais intransigentes já começavam a dar sinais de apreensão, avançou com o teor da palestra:&lt;br /&gt;    - Se pensarem bem, aqueles que vos pareciam mais vulnerávies às vossas investidas cegas, são precisamente aqueles que, em caso de calamidade, vos poderiam vir a ajudar e sei que o fariam sem hesitar. Os pássaros, por exemplo, poderiam levar as vossas pequenas crias  no bico e deixá-las a salvo. &lt;br /&gt;   A serpente que é animal desconfiado e de poucas palavras, respondeu, mordendo a própria língua:&lt;br /&gt;   - Confesso que nunca tal me passara pela cabeça.&lt;br /&gt;    Furavidas continuou a sua dissertação, acrescentando:&lt;br /&gt;    - Como podem concluir, todos nós dependemos uns dos outros. Assim é a vida em comunidade. O que eu pretendo clarificar é que não há animais fortes, nem fracos, porque nada somos uns sem os outros.&lt;br /&gt;    Os manos saguins aplaudiam o furão, enquanto se balançavam nas lianas e riam divertidos. De repente, começaram a guinchar nervosamente, apontando para a beira do riacho, que corria a 500 metros de onde se encontravam. Ao virarem-se todos se aperceberam da presença do lobo, Serafim, que não havia aderido à convocatória de Furavidas, mas, que agora os observava escondido e por certo mal intencionado.&lt;br /&gt;    Com a presença do predador mais feroz, todos os animais tremiam de medo, com exceção da serpente que se pôs em pé o mais que conseguiu e mostrando-se solidária atreveu-se a enfrentar o lobo Serafim:&lt;br /&gt;    - Se avançares sobre qualquer um dos meus amigos aqui presentes, vais-te ver comigo. &lt;br /&gt;    Serafim avançou alguns metros na direção do ajuntamento e replicou:&lt;br /&gt;    - Deves pensar que me metes medo. Anda exprimentar os meus dentes aguçados e as minhas garras prontas a fazer-te em cem enguias.&lt;br /&gt;    - Se eu fosse a ti, não tentava a gracinha. Talvez não queiras saber o dano que te pode causar uma mordidela minha nesse teu pescoço de predador estúpido. Sabes que eu posso ter a espinha bífida, mas em inteligência, ganho-te aos metros que tenho...&lt;br /&gt;    O lobo refletiu e resolveu retroceder na sua ideia de atacar o grupo que, sem se ter apercebido, já estava mais unido do que nunca e pronto a dar a vida uns pelos outros.&lt;br /&gt;    Pela primeira vez, a serpente foi aplaudida pela sua valentia e por ter posto em risco a sua própria pele em detrimento da vida daqueles, que, até àquela altura, sempre vira apenas como suas potenciais presas. Gostou da sensação calorosa daqueles aplausos e percebeu o quanto é valoroso ter amigos e importante ser querida pelos seus iguais.&lt;br /&gt;    Laurinda não se conformando com tais intimidades e farejando ao seu redor instintivamente, resolveu perguntar:&lt;br /&gt;    - Isto da solidariedade e cumplicidade animal é muito bonito, na teoria, mas na prática como é que eu encho a barriga?&lt;br /&gt;    - Com frutos, sementes, larvas e animais que possam ter morrido de morte natural. Isso também é comum encontrar na mata. Não tens forçosamente que ser tu a matá-los. Compreendes? (replicou Furavidas)&lt;br /&gt;    - Então, mas eu sou caçadora por natureza, é algo instintivo para mim. Tudo é uma questão de sobrevivência.&lt;br /&gt;    A serpente, recém sensibilizada, respondeu-lhe com humildade:&lt;br /&gt;    - É tudo uma questão de mentalização, porque a natureza põe ao nosso dispor uma panóplia de alimentos sem fim.&lt;br /&gt;    A raposa ainda não convencida, replicou:&lt;br /&gt;    - É como no mar, os peixes de grande porte, também comem os pequenos...&lt;br /&gt;    - A verdade é que também se poderiam alimentar de limos e algas, respondeu a chincila.&lt;br /&gt;     Laurinda não se dando por vencida, insistia na argumentação contrária:&lt;br /&gt;      - Então e os humanos? Que eu saiba comem carne e peixe e quase todos nós vamos parar aos seus pratos e nada mais do que um belo pitéu somos para eles.&lt;br /&gt;      Fausto, o mocho, que até então se mantivera calado, resolveu intervir, fazendo juz à sua capacidade de literacia:&lt;br /&gt;    - Os humanos não são exemplo para ninguém, consideram-se muito superiores a nós, mas o facto é que estão a anos luz dos animais. Entre eles cresce a animosidade e o ódio, a solidariedade para com o próximo, deu lugar às guerrilhas raciais e políticas. Nada detém a sua ânsia de poder. Os sentimentos negativos, tais como a corrupção e todo o tipo de marginalidade, para atingir fins menos escrupulosos, tomaram conta dos humanos. Cabe-nos a nós mostrar-lhes os verdadeiros valores.&lt;br /&gt;    Os aplausos voltaram a ouvir-se, desta feita direcionados ao mocho, que falou por último, mas com muita probidade e sabedoria.&lt;br /&gt;    Os animais terminaram a reunião assinando, de livre e espontânea vontade, um acordo de paz  e respeito pela vida alheia, lavrado no cartório notarial da mata, onde Furavidas é escrivão e zela com pobridade pelo bem estar  dos seus conmatenses. &lt;br /&gt;    Escusado será lembrar que Furavidas ficou na estória da mata encantada como o mentor da equidade e do civismo e o seu nome é hoje um ícone de respeito e exemplo para todos os seres vivos que se sintam parte integrante deste mundo que todos partilhamos e deveríamos saber proteger e respeitar.  &lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Fernanda Reis Esteves&lt;br /&gt;52 anos&lt;br /&gt;natural: Setúbal</description>
      <pubDate>Fri, 04 Jan 2013 21:29:39 +0200</pubDate>
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