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    <title>Luso-Poemas</title>
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    <description>Poemas, frases e mensagens</description>
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      <title>Luso-Poemas</title>
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      <title>Estranho horror na senzala da fazenda Colubandê</title>
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      <description>Como professor de História, tendo que trabalhar com duas matrículas para sobreviver (nos municípios de Itaboraí e São Gonçalo, ambos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro), nunca me sobrava muito tempo para nada. Os períodos de férias eram aguardados como o dia de um parto; sua espera era mesmo uma pesada gravidez.&lt;br /&gt;A certa altura de minha vida e carreira, se é que posso utilizar esta última palavra para designar minha lide de historiador e docente, resolvi me dedicar a alguns projetos de cunho particular, pesquisas de variado âmbito, retomando uma atividade que infelizmente só havia realizado quando de minha formação como historiador, nos tempos ainda mais magros de corredores da Unirio e seu bandejão lotado.&lt;br /&gt;Um de meus projetos era fazer o levantamento de alguns pontos históricos dos municípios de São Gonçalo e Itaboraí. A ideia era elaborar uma proposta de roteiro turístico conjunto envolvendo os pontos de interesse desses municípios limítrofes, com o diferencial de um forte embasamento geohistórico, correlacionando pontos, famílias e eventos, buscando, dentro do possível, sintetizar uma coesão temática e temporal que lhes conferisse relevância e atratividade. Algo, por sinal, nunca feito sobre os patrimônios geohistóricos de tais depauperadas municipalidades.&lt;br /&gt;Num de meus períodos de férias, no ano dois de minha pesquisa (que, é forçoso afirmar, corria por minha conta, e ao sabor dos ventos de minha intermitente disponibilidade, disposição e recursos), resolvi retornar à Fazenda Colubandê, ponto histórico de São Gonçalo. A fazenda, com sua casa grande, capela e uma senzala subterrânea, é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e possui uma história agitada de trocas de donos – cristãos novos, jesuítas, um militar barão e sua descendência – com toda a carga de traições e mistérios que esse tipo de dinâmica sucessória pode envolver.&lt;br /&gt;Já estivera por algumas vezes na fazenda. Mas me ocorrera uma ideia de algum espalhafato: ir até lá durante a noite. Sim, pois imaginara a elaboração de um roteiro turístico noturno contemplando tal ponto, uma espécie de imersão na realidade da escravidão, com o adicional da experiência à luz de tochas e velas – com direito a encenações, cantorias e tudo o mais. Assim, mesmo ciente dos riscos, pois o tráfico de drogas estava já espalhado por quase toda a São Gonçalo, e a fazenda, que já fora uma base da Polícia Florestal em tempos recentes, estava agora abandonada – lá fui eu para a minha aventura.&lt;br /&gt;Eu aparentemente escolhera a noite certa: A temperatura era agradável e, num céu límpido, uma Lua minguante aquarelava tons interessantes ao lugar. Eu avançava elucubrando enquadramentos e cenas para já compor um provável vídeo de divulgação do roteiro turístico. &lt;br /&gt;Ao descer para a antiga senzala, que espraiava-se numa espécie de porão, iluminava a trilha com a lanterna de meu celular, sempre imaginando-me na pessoa de um turista que ali descesse pela primeira vez. Ao fundo daquele recinto, enquanto mirabolava possibilidades cênicas, percebi uma presença: um homem assentado no chão, talvez sobre um toco de madeira ou algum tijolo. Ele tinha a cabeça curvada, parecendo dormir. Pelos trajes rotos, me pareceu ser um morador em situação de rua, um sem teto ali abrigado. Fiz menção de retornar, aproveitando que ele parecia absorto em seu sono, para não aborrecê-lo e para poupar-me de qualquer dissabor ou perigo adicional, naquela incursão temerária.&lt;br /&gt;Ao principiar minha meia volta, ouvi em rajada um “bom dia boa tarde boa noite bom homem”, assim, em fluxo. Virei-me e, ao iluminar o rosto de meu interlocutor, faceei uma expressão de riso e pacífica loucura. Cabelos desgrenhados e já mais brancos do que castanhos, olhos arregalados e com aparência de maiores que o normal – se há normais dentre os olhos. Um sorriso largo e algo debochado completava a certamente ensandecida personagem.&lt;br /&gt;– Me perdoe amigo, não queria lhe acordar, não vim fazer mal. Sou historiador e estava fazendo uma pesquisa – vociferei, como uma criança amedrontada diante dos pais.&lt;br /&gt;– Eu não estava dormindo, apenas esperando. Vim em busca de um velho amigo, que conheci aqui neste buraco. Um negro do tamanho dessa noite aí fora... Eu tenho algo para lhe devolver, mas ele teme nosso reencontro. Meu nome é Cambizo.&lt;br /&gt;– Perdão senhor... Cambizo, não é? Eu não sabia que havia alguém aqui. Pode continuar a dormir, eu já estou indo embora, boa noite.&lt;br /&gt;– Espere, tenho uma troca a lhe oferecer. Como você, eu também sou fascinado pelo tempo. É quase minha comida – disse, com um rictus de aparente ironia em seus lábios, o ainda mais surpreendente “maluco”. Imaginei que era mais um morador de rua enlouquecido, e talvez não fosse me oferecer perigo; eu era bem mais jovem do que ele. &lt;br /&gt;Enquanto refletia, estaquei um instante entre os impulsos contrários do ir e do permanecer. Fechei os olhos um instante, já despido do grosso do medo, mas agora confuso pela curiosidade. Ao reabri-los, o homem que estava sentado há uns cinco metros de mim estava agora em pé, há menos de cinquenta centímetros de meu corpo. &lt;br /&gt;– Baratinha do tempo, o tempo é tudo o que temos, o tempo é tudo o que somos – e me tocou. &lt;br /&gt;Senti uma vertigem imediata. Estiquei instintivamente o braço esquerdo, tentando alcançar uma parede para apoio, mas não a encontrei. Flashes pipocavam e eu não sabia se eram em meus olhos ou em minha mente. Nessa vertigem, ainda pude observar algo que não notara, seja pela posição em que estava o indivíduo, seja pela cobertura da penumbra: Cambizo possuía diversos relógios afixados em ambos os braços, relógios de pulso, de variados modelos, alguns aparentando antiguidade e amarrados por barbantes ou finas cordas... Enquanto rodopiava tentando fixar aquele detalhe macabro, ainda divisei aquele ermitão citar, como quem cantarola: “Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado”. Era um versículo bíblico?, eu me indagava; minhas pernas perderam as forças e eu desabei.&lt;br /&gt;Ao despertar, eu estava sozinho naquele chão húmido. O celular, caído, iluminava o baixo teto da antiga senzala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... ... ...&lt;br /&gt;O espelho, na volta para casa, dera expansão ou patas ao absurdo: Eu rejuvenescera algo entre 25 a 30 anos.&lt;br /&gt;Após o horror, em rescaldo, considerei vantagem enorme, fosse aquilo o que fosse, o ter rejuvenescido.&lt;br /&gt;No entanto, os dias se acumulavam e eu não sabia o que fazer, a quem falar. Trancara-me naquele apartamento de que eu tinha tão poucas lembranças. Pois o espelho, que me dera a surpresa alegre, logo me intuíra do furto: havia de repente não um detalhe – uma chave de porta perdida, uma nota de dez reais que esquecera em algum bolso, uma data de aniversário cara ou que o deveria ser – havia um vácuo, uma obstrução cognitiva causada pela ausência ou profusão de ausências de memória, de experiências. Eu estava mais jovem, sim, mas não era mais eu.&lt;br /&gt;Eu não estava, assim me parecia com grande, inamissível premência, uma “tábula rasa” a ser livre e graciosamente reescrita; não recebera uma chance milagrosa de re-começar a vida: eu era um frangalho, uma coleção de carências, uma lacuna (des)articulada por lacunas.&lt;br /&gt;Inane, refém de uma inanição existencial, me transformara numa anomalia antropocronológica. A realidade, o que quer que ela seja, ganhou uma outra textura... perdeu consistência, e era então, ou então mais do que nunca, um tecido podre.&lt;br /&gt;Nos dias seguintes, mesmo embotado pela lacuna de memórias, como num surto de alzheimer aleatório, pude reconstruir parte de minha vida e as ações de meus últimos dias graças à abençoada prática de redigir diários. Consultando-os, pude tecer este relato. &lt;br /&gt;Não sei o que acontecerá daqui em diante; mas o absurdo, a flatulência do inverossímil que o universo lançou em meu rosto, precisa ficar relatado. Mesmo erodido, traído pelo tempo, ainda sou um historiador.&lt;br /&gt;Pensei em contatar meus parentes distantes, e mesmo alguma autoridade. Mas a possibilidade de ser internado como louco me horrorizava. E seu eu estivesse realmente louco? Abandonei o emprego na docência municipal, não atendia mais o telefone. Um dia uma pessoa veio bater à porta, à minha procura, uma pessoa que eu não conhecia ou, mais acertadamente, de quem não me lembrava. Ela notara minha semelhança com o “eu” envelhecido. Disse-lhe que eu era um primo tomando conta do apartamento, e que o “eu” a quem ela procurara precisou fazer uma viagem às pressas para Itabapoana, para realizar o funeral de um ente querido e resolver assuntos de herança. Passei a ter medo da reação das pessoas a esse outro eu, a esse não-eu que aquele homem ou demônio (in)criara.&lt;br /&gt;Retornei àquela senzala noutra noite e noutra noite e noutras mais à procura daquele ser, diabo ou sonho que fosse. E foi sempre vã minha caçada. Seu nome, “Cambizo”, não retornava em minhas buscas, negava referências em bibliografias virtuais ou impressas que consultei.&lt;br /&gt;Meu quadro de desmemoriação e inadequação geral piorava. Cessei de procurá-lo para tentar entender ao menos o que me acontecera. Em meio a toda aquela angústia, retomei o estudo do tempo. Agostinho, Kant, Teilhard de Chardin... Confrontando a obscura frivolidade das teorias com a amarga realidade que me esmagava, cheguei a algumas conclusões embaraçosas.&lt;br /&gt;O tempo não nos pode ser devolvido e nem dividido (existir independentemente) de nós. E não podemos ser reinseridos no fluxo do tempo pois somos esse fluxo: Fios de um tecido. Quando cortado o fio, o tecido ganha um buraco, um buraco que não devia existir e que nada pode remendar. &lt;br /&gt;Sinistramente não vivemos no tempo, mas o que vivemos é o tempo; o casamento entre o pretenso fenômeno “físico” do continuum espaço-tempo exterior e independente, e a fenomenologia de minhas internas percepções e vivências, de meu ser-aí, ser-no-tempo, como se eles fossem duas coisas diferentes que se combinam, é ilusória. &lt;br /&gt;Refém de uma angústia avassaladora, tudo que minha frágil razão reprisava era: não há tempo fora de mim, não há tempo fora de mim, não há tempo fora... Aquele demônio, ao me rejuvenescer, não me dera, mas roubara-me vida!&lt;br /&gt;Somos tempo e tempo vivido, pois o tempo vivido, experienciado, realizado, é todo o tempo que existe; assemelhando-se a uma construção subjetiva, é afinal a realização máxima da realidade, tão sólido quanto um tijolo. Tijolo, no meu caso, do qual lascas haviam sido arrancadas, e não se pode, agora entendo e temo, repô-las.&lt;br /&gt;Tal impossibilidade de repor o tempo perdido ou roubado – pois se meu corpo e mente rejuvenesceram, eu não poderia continuar simples e perfeitamente, a partir deste ponto, minha (agora nova) vida? – é perturbadora e fala de sacralidade, de destinação. Como se o tempo fosse uma dádiva contada e confiada a cada ente vivo, como moedas numa sacola; moedas que, de alguma forma, aquele demônio me roubou.&lt;br /&gt;Assim, no tempo não há subjetividade, pelo menos não como estamos acostumados a pensar o conceito de subjetividade. Mas sim materialidade e pessoalidade, pois somos o eixo sobre o qual ele se realiza. Só há tempo se há algo que o sofra, o realize, e isso, por paradoxal que seja, não é uma percepção subjetiva, pois o meu tempo me fora roubado!, e não há ideia que se furte.&lt;br /&gt;Sinto meu ser como que esvair-se neste momento mesmo em que escrevo; é um estado nauseante de embriaguez, um torpor como que narcótico. O furto do vivido, o roubo do meu tempo, do meu ente &lt;em&gt;realizado no fluxo&lt;/em&gt;, não foi certamente completo – ou eu teria expirado no chão frio daquela senzala. Mas muito me fora tirado, e quem sabe o quanto me resta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Mon, 28 Aug 2023 21:27:12 +0000</pubDate>
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      <title>Será o Poltergeist?</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=361791</link>
      <description>&lt;img src=&#039;https://www.luso-poemas.net/uploads/img6215655e959d4.jpg&#039; class=&#039;img-responsive center&#039; border=&#039;0&#039; alt=&#039;&#039; onload=&quot;javascript:imageResize(this, 420)&quot;/&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &quot;Reza a lenda&quot; que em algum lugar há um fantasma maligno, perverso, que faz barulho por onde passa. Tal espírito pode assumir várias formas e identidades. Ele é um hacker experiente, apreciador de jogos e de charadas.&lt;br /&gt;  O mesmo tem preferência em assombrar os mais jovens, mas como personificação da maldade não escolhe idade, ele ataca sem piedade.&lt;br /&gt;  Esse fantasma pode ser visto nas noites escuras e frias, assombrando e recrutando os vulneráveis e fracos, que se alimentam da inveja, da maledicência e da maldade.&lt;br /&gt;  Lembre-se que a maldade só prolifera em terrenos férteis. &lt;br /&gt;  O que ninguém sabe é que existe uma arma infalível para vencer esse espírito malvado. A arma é mágica.&lt;br /&gt; Siga os passos:&lt;br /&gt;-Confie em Deus.&lt;br /&gt;-Confie em si.&lt;br /&gt;-Ignore todos os ruídos. (Essa é a etapa mais difícil).&lt;br /&gt;-Busque o equilíbrio.&lt;br /&gt;-Seja harmonioso(a)&lt;br /&gt;-Fale o que sente.&lt;br /&gt;-Faça o que sentir vontade.&lt;br /&gt;-Seja verdadeiramente feliz.&lt;br /&gt;  Só mais um lembrete, se o dia for palíndromo será um sucesso!&lt;br /&gt;  Uma chuva de bençãos e muita luz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 22 Feb 2022 22:53:55 +0000</pubDate>
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      <title>A Pomba que Gira</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=361673</link>
      <description>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pomba que Gira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num mundo atribulado, as pessoas muitas vezes esquecem de olhar para o seu lado espiritual, o principal que devíamos lembrar é que a religiosidade é muito importante não apenas para moldar o caráter do indivíduo, mas como uma forma de nos recolhermos à nossa própria essência.&lt;br /&gt;Nossa amiga Gilma é uma garota muito alegre que reside em uma dessas cidades do interior brasileiro, muito castigada pela seca, filha de agricultores, nessa época de estiagem eles não têm muita coisa a fazer, os serviços sociais quase não chegam, serviços médicos então, é só uma vez por semana. Quanto sofrimento diante de toda essa falta de oportunidades que o sertanejo vive, onde a sua família muito religiosa sobrevive da aposentadoria do pai como agricultor e da mãe que ainda insiste no batente de querer plantar algum feijão ou milho, o que vier está bem vindo, desde que as bênçãos do nosso Pai caiam em forma de chuva.&lt;br /&gt;Como em toda cidade, sempre no dia de domingo as pessoas se reúnem na igreja para comemorar, pedir, sonhar e tudo que o nosso senhor Jesus Cristo possa prover.&lt;br /&gt;Natal, Ano Novo, Semana Santa então, todos dão inúmeras voltas na pracinha, ao “melodioso” som das matracas para lembrar dessa data de sofrimento, morte e ressurreição de Cristo.&lt;br /&gt;Mas nossa personagem, não tinha lá essa religiosidade toda, ela fingia acompanhar as missas na igreja e ia acompanhar os amigos nos botecos que povoam essas inúmeras cidades de interior, principalmente as pequenas, que não possuem nenhuma diversão, e a “diversão” que esse povo encontra é bem gelada e loiríssima.&lt;br /&gt;As noitadas eram intermináveis, carros paravam no fundo do quintal do casebre onde tinha uma imensa mangueira, e quando os pais dormiam, ela sumia no mundo, somente voltando lá pelas tantas da madrugada.&lt;br /&gt;Os pais já haviam notado há muito tempo, mas eles não tinham mais controle, Seu Rivaldo já era sexagenário e nunca foi de zelar pela educação da sua filha, a mãe Dona Deraldina era quem mais ficava no “pé”, mas como a filha já completara os seus dezoito anos de idade, ficou praticamente incontrolável, pois quando a mãe a proibia de ir a determinados lugares, ela vinha justamente com aquele lengalenga de que já era maior de idade, era uma pessoa “formada” pois tinha tirado o seu segundo grau, mesmo em uma escola caicai, no turno da noite.&lt;br /&gt;Sua irmã mais nova Gisele, apesar de sua pouca idade era muito mais ajuizada, e sempre comentava sobre o seu mau comportamento, suas mentiras, orgias e escapadas, mas era sempre hostilizada e ironizada, o que a repelia e para não ter tanta discussão ela recolhia-se ao seu canto e calava.&lt;br /&gt;De um tempo em diante, Gilma começou a ter sonhos esquisitos, com muito sangue, cerveja, bacanais, violência e tudo do mesmo naipe, tendo como cicerone uma mulher vestida de vermelho.&lt;br /&gt;Ela não contava a ninguém, mas os outros começavam a perceber, diante da mudança do seu comportamento sorumbático, ela somente mudava quando tinha uma farra, aí esquecia dos problemas ao vislumbrar uma cervejinha, ela mudava e caía na gandaia.&lt;br /&gt;Todos os conselhos dos familiares caíam por terra, e por falar em terra, tinha um local chamado “Tanque da Nação” - um imenso terreno abandonado que a prefeitura cercou para armazenar água da chuva, as cercas caíram e ficou somente esse local ermo que todos temiam passar - onde o de pior sempre acontecia, foi o lugar que ela incorporou uma entidade e saiu agredindo todo mundo, a sua voz chegou até mudar, dizendo que tinha dominado aquele corpo e que ia aprontar bastante.&lt;br /&gt;A confusão chegou aos ouvidos de sua genitora, pois o que é ruim chega rápido, igual a rastro de pólvora...&lt;br /&gt;Deraldina chamou alguns vizinhos de confiança e a arrastou até em casa, para ver o que ia dar, começou a rezar e jogar água benta, mas quanto mais fazia isso a tal “pombagira” - é o nome que deram – começou a vociferar, a rosnar, dizendo que tudo isso aconteceu por causa da falta de fé da sua hospedeira, e ela ia destruir toda aquela família, começando por esse corpo.&lt;br /&gt;E todos rezavam, pedindo para sair daquele instrumento de possessão, e a confusão aumentava, a “pomba” rosnava, e o tumulto se instalava, o pai foi acarinhar a “filha” e foi jogado a dois metros de distância, mas as pessoas insistiam na luta contra a “entidade”, que ao ouvir as orações se revoltava ainda mais, esmurrando aquele corpo, rasgando as suas vestes, dizendo não adiantar tanta reza, que ela estava ali para destruir a fé de Deraldina, e só não apareceu antes por esse motivo, pois a filha dela era uma fraca, não rezava antes de dormir, mentia dizendo que ia à igreja, indo farrear nos bares, um ótimo lugar para os espíritos desencarnados aparecerem e os espíritos enfraquecidos sucumbirem a todo esse apelo.&lt;br /&gt;A luta continuava incessantemente, até amarrada ela foi, sua irmã jogava água benta, descia em todo seu corpo, até que diante de muita água, reza, fé, a “coisa” foi embora aparecendo a garota, toda arranhada, sentindo dores em seu corpo todo, perguntando por que todos estavam olhando assustados para ela, sendo logo envolta em um cobertor, pois estava semi-nua.&lt;br /&gt;A rua toda estava a maior confusão, todos queriam ver a garota que incorporou a “pomba que gira” , mas aos poucos os curiosos foram para suas residências.&lt;br /&gt;Nos outros dias, começaram uma novena para o padroeiro da cidade, a fim de que isso não aconteça novamente, mesmo com todo esse esforço a “coisa” ficava à espreita onde Gilma mais se divertia com seus amantes, justamente atrás da frondosa mangueira, ninguém via a entidade, somente a pobre garota, que assustada fingia não perceber, até que com o decorrer do tempo, ao finalizar a novena, as coisas foram melhorando, mas não adiantava a novena, se a própria pessoa também não quisesse melhorar o seu espírito.&lt;br /&gt;Depois de todo aquele acontecido, ela começou a fazer uma avaliação de toda a sua trajetória de vida e resolveu mudar, deixando de mentir, de fazer tanta farra, sendo um ótimo começo.&lt;br /&gt;A maioria das pessoas esquece de fazer suas orações, de praticar algum ato de bondade; como estamos em tempos difíceis, o egoísmo se instalou, a falta de amor ao próximo campeia, tudo é motivo para uma confusão generalizada, inda mais se o assunto é dinheiro.&lt;br /&gt;O dinheiro é muito importante, mas como percebemos, casos desse tipo pode acontecer em qualquer família, muitas vezes nem é por causa da “pomba que gira” , mas da cabeça tortuosa que gira diante de todas essas fraquezas terrenas, que sem querer podemos sucumbir de uma hora para outra, por isso a meditação e a oração são muito importantes, porque nós não somos perfeitos, ainda mais num mundo como esse porém o poder da oração é mais forte do que imaginamos.&lt;br /&gt;Sem fé em nosso criador, seremos semelhantes às mais baixas criaturas e tudo que essa “revoada de pombos” deseja é isso, o enfraquecimento espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo de Oliveira Souza&lt;br /&gt;Do livro de Coletâneas FESTA SURPRESA, pp. 213&lt;br /&gt;Via literária Editora ano 2009</description>
      <pubDate>Fri, 18 Feb 2022 11:41:24 +0000</pubDate>
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      <title>O casarão</title>
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      <description>&lt;em&gt;_Clarice despertou no hospital sofrera um acidente de trânsito. Após medicada foi&lt;br /&gt;Transferida para um manicômio. Delirava, ao mesmo tempo que gritava é verdade !&lt;br /&gt;__De repente, um vento frio, batidas na porta do quarto parecia ser esmurrada. De onde vem este vento essa sensação estranha que me causa arrepios? Pensou Clarice!  &lt;br /&gt;__Naquela noite lúgubre ela estava sozinha, diante do medo e sem saber o por quê?! Aquilo estava acontecendo com ela, não estava louca. Imediatamente cobriu-se, deixando apenas os olhos de fora. Estava muito assustada. &lt;br /&gt;__Não conseguia ver ninguém,  mas ouvia as batidas. Colocou as mãos no ouvido ficou encolhida e começou a rezar, meu Deus, minha nossa senhora,  meu santo(...). Me ajude. Passou à noite revirando de um lado para o outro.&lt;br /&gt;__Foi acalmando-se, a medida que o sol ia surgindo. Olhou todo o casarão e tudo estava no mesmo lugar. Respirou fundo, preparou um café quando o telefone tocou; era uma de suas irmãs. Ela sem contar o que havia passado, pediu a irmã que viesse dormir com ela àquela noite. Alegando que estava indisposta. A irmã logo concordou!&lt;br /&gt;__Em torno das 23:00hrs (vinte e três)horas, sua irmã chegou; conversaram fizeram um&lt;br /&gt;lanche e cada uma dirigiu-se para um quarto. Naquela noite a irmã de Clarice não dormiu, julgando sua irmã ; pois foi varias vezes para ver o que estava acontecendo com Clarice e nada via. Apenas os barulhos que eram interrompidos quando ela se aproximava.&lt;br /&gt;__Logo cedo Clarice quis falar para sua irmã o sufoco que passou, mas sua irmã nem a deixou falar. Foi logo avisando que nunca mais domiria lá. Porque ela passou à  noite brincando com ela , e toda vez que ia a porta do quarto estava tudo normal. &lt;br /&gt;__Mal sabia ela que àquela noite foi pior que a anterior. Além das batidas na porta do quarto algo quis sufocá-la. agarrando-á pelo pescoço. Clarice disse consigo mesma esta é a ultima noite que durmo aqui. Se continuar porei, uma placa de venda, ou alugo este casarão.  Antes de dormir, foi logo se agarrando com todos os Santos. &lt;br /&gt;__Alta madrugada tudo de novo , mas dessa vez o susto foi pior . Viu quando duas meninas com cabelos longos saiu debaixo de sua cama. Elas olhavam com olhos fúnebres, olhar luminosos, seguiram sem olhar para trás sumindo na escuridão da sala. &lt;br /&gt;__Ela morrendo de medo cabelos em pé toda arrepiada viu descendo da escada do casarão um vulto com uma trouxa de roupas, saindo sem olhar para trás . No momento desmaiou. Recobrada do susto, respirou e foi mais uma vez fazer uma prece. Crendo que logo amanhecia e que, ela partiría dali sem demora.&lt;br /&gt;__Não demorou ela viu a luz do banheiro acender. Naquele momento levantou-se desesperada , mas sem gritar, pois agora seria um ladrão? Mas a luz se apagou , ela achou estranho e foi olhar pela luz que vinha do corredor a luz da lua, aquela noite não estava tão escura assim. &lt;br /&gt;__Foi quando viu ligeiramente a figura de um homem o vulto caminhou sentido o quintal. Ela não acreditava no que estava vendo. Foi devagar olhando todos os comodos e tudo estava como antes. &lt;br /&gt;__Imediatamente arrumou uma mala , exclamando: Vou sair daqui antes que me julguém louca. Ninguém vai acreditar se eu falar. Mas estava trêmula em estado de choque. Foi a garagem entrou no carro quase não conseguia engatilhar a chave.&lt;br /&gt;__Saindo em alta velocidade a procura de um hotel. Pensamentos conflitantes! Adormeceu no volante capotando quando acordou já estava num hospital. Num isolamento numa camisa de força!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mary Jun&lt;br /&gt;Jul/2.020&lt;/em&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 18 Aug 2020 21:45:31 +0000</pubDate>
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      <title>Antigravidade, portais e todos os seus sonhos</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=348220</link>
      <description>       Você acha estranho, aquele estranho eu sonhador, que se aventura por todas as suas noites e dias, assim que voce fecha os seus olhos para este outro estranho mundo &quot;real&quot;, no qual pensa se achar desperto. Ele é intrigante, suas aventuras são desconexas e incoerentes, o você dentro dele quase não se reconhece como o você desperto, embora você tenha certeza de que são os mesmos. No entanto, se você observasse o você desperto do ponto de vista dele, acharia este você desperto do qual tem tanta certeza e orgulho, tão caótico e incoerente quanto aquele que julga que sonha a partir de seu mundo desperto .&lt;br /&gt;       Muitos episódios das suas vidas não serão registrados de um para o outro - na maior parte das vezes - essa ruptura causa certa confusão, além é claro na diferença do tempo de um para o outro, entre outras coisinhas mais que não convêm por agora. &lt;br /&gt;      O seu eu desperto é tão incompreensível para o seu eu dos sonhos quanto ele é pra você. Suas incoerências são tantas que parecem de fato oníricas. Sua vida desperta é estranhamente estruturada sobre conceitos   tão bizarros quanto aqueles que você pensa encontrar em seus sonhos. Você paga impostos às pessoas que gostaria de ver trancadas na prisão. E vota em pessoas semelhantes para dirigirem a sua vida. Você diz amar Deus e Cristo, mas tem medo de se encontrar com eles. Vocês pensam uma coisa e dizem, outra e se chateiam quando encontram pessoas que fazem o mesmo em relação a vocês. Vocês acham que todos tem a obrigação de amá-los, mas não pensam em amar, pois pensam que essa tal correspondência é uma tolice, e já nasceram merecedores da atenção de tudo e de todos no mundo. Você se chateia ao ter seus direitos e espaços violados, mas não pensa tanto assim quando viola o espaço e o direito dos outrem, por que o merecimento eles sempre serão menores que os seus. &lt;br /&gt;       Perdoem-me, não quero apresentar vocês a vocês mesmos, e sei que cada um tem a sua autocritica e o seu ego exatamente onde tem de estar. Só queremos ilustrar que a congruência que procuram ou que acusam faltar em determinada expressão da consciência não é encontrada nem mesmo onde acha que seria. Falamos isso porque quero que internalizem que a situação que atravessam quando num chamado sonho, não é assim tão diferente na vigília. Sentido ou falta dele depende do contexto de quem vivencia, como tudo o mais.&lt;br /&gt;       Vocês procuram algumas respostas para as situações da vida, nada mais natural. Todas as questões buscadas até hoje já foram encontradas, guardadas as devidas proporções, quando se tornam capazes de entende-las, e elas veem de dentro de vocês para fora, como não poderia deixa de ser. &lt;br /&gt;       Hoje vocês voam em aeronaves porque sonharam um dia em fazer isso como os pássaros, observando-os no céu do seu mundo. E como os pássaros tem asas, suas aeronaves também as tem , e não podem se sustentar no ar muito tempo sem elas. Até mesmo o helicóptero, que de certa forma não possui asas, é a cópia perfeita da libélula e da sua maneira de planar. Se vocês tivessem sonhado em fazer isso, não como os pássaros, mas como nos sonhos, hoje as suas aeronaves não precisariam de asas. Elas teriam o que chamam de antigravidade. &lt;br /&gt;      A gravidade, assim como todas as forças da natureza, são o que você interpreta da realidade a partir de seu ponto de vista. Tecnologicamente falando, vocês inventariam um dispositivo antigravitacional muito antes mesmo de explicá-lo cientificamente. Muito verdadeiramente, todas as suas invenções foram criadas bem antes de suas explicações técnicas-científica. Isso, porque vocês adaptam suas consciências ao que experimentam, numa tentativa de explicar e entender o mundo físico.&lt;br /&gt;      Vamos dar duas dicas aqui aos seus cientistas e matemáticos sobre dois conceitos importantes de seu &quot;futuro&quot; próximo: A antigravidade e os portais, embora essas dicas não sejam usadas ou mesmo admitidas, elas poderão ser checadas um dia, neste &quot;futuro&quot;, quando este texto for encontrado. &lt;br /&gt;       Vocês já tem sonhado com a antigravidade há muito tempo em seus contos e livros, e por certo ela chegará um dia, pelos mesmos motivos já explanados em textos anteriores. Sua &quot;justificativa&quot; técnica seriam os chamados ânions em seus chamados átomos. Se o ar sustenta suas aeronaves hoje, e limitam o seu deslocamento apenas pela atmosfera, os anions, que abrangem tudo, da atmosfera ao espaço exterior, conduziram seus aparelhos futuros. Agora, essa carga elétrica que permeia tudo e liga todas as consciências permanecerá ainda um mistério, porque vocês não sabem o que de fato é a eletricidade, nem o magnetismo e nem a gravidade. A sua ciência não sabe o que eles são, apenas os seus efeitos, e assim vocês tem caminhado, como um sonhador distraído num sonho caótico. Agora, seus cientistas se recusam a ver o óbvio, por puro preconceito e dogmatismo, já que quando examinam as partículas atômicas percebem que elas não tem características materiais, embora sejam os blocos de construção da matéria como a conhecem. Enquanto permanecer esta característica cultural, não entenderão a ordem implícita através de todas as coisas. As características de todas as partículas e da da realidade que elas compõe se assemelham muito mais ao que chamam de pensamento. Pois elas se amoldam e mudam de forma de acordo com o que se espera delas. Digamos que, a eletricidade e suas irmãs, são a forma que a consciência trafega pelo meio &quot;material&quot;. Se a consciência, em sua essência, não tem forma e nem limites, quando ela se manifesta num meio formatado e limitado, ela é percebida na forma que chamam de eletromagnéticas, pois são &quot;pertubações&quot; na natureza básica da matéria. E é essa pertubação que você deve levar em conta para criar a sua antigravidade. &lt;br /&gt;     Por essas e por outras razões, é que a eletricidade é tão presente subconscientemente nas manifestações da sua cultura, tanto nas ciencias, na literatura e nos mitos, seus cientistas pensam que os raios criaram a vida nos oceanos, na mitologia  grega zeus, o criador os traziam em suas mãos, e na literatura, o monstro de Frankenstein ganhou vida por meio deles. Apenas ilustrando alguns exemplos. Sua intuição é maior do que o seu conhecimento ou inteligência, pois a intuição é multidimensional e atemporal, por isso a grande criatividade parece transcender qualquer limites de tempo e espaço.&lt;br /&gt;     Partindo dessa pequena observação acerca da eletricidade, vamos falar sobre portais, que foi o que me perguntou um jovem colega. &lt;br /&gt;      Há uma pequena alteração na gravidade onde esses se encontram - lembrem-se, eletricidade, magnetismo e gravidade são a mesma coisa em modos diferentes de condução de consciência. Grandes massas alteram quase que imperceptivelmente a gravidade nos seus arredores. Suas imensas montanhas geram &quot;desequilíbrio&quot; gravitacional em suas instancias. Esse suposto desequilíbrio - gosto de chamar de estimulação - gera também eletricidade, por causa dos cristais presentes na rocha. Quanto mais massa e cristais, mais efeito vibracional de natureza elétrica. Isso se torna &quot;portal&quot; interessante para uma consciência não material se manifestar. Digamos que seria um guarda roupa universal, uma vez que essa condição permitiria a consciência se trasvestir das condições necessárias à terceira dimensão, como a chamam. Então, dito isto, gostaria que prestassem mais atenção nas grandes estruturas de rocha que foram deixadas, em seus termos, para trás, e na tentativa delas de reproduzirem as condições há pouco relatadas, sobre peso, rochas e cristais e a sua inerente eletricidade latente, e os caminhos que a consciência toma a partir deles...&lt;br /&gt;      Agora, o que isso tem a ver com sonhos? &lt;br /&gt;      Se em seus sonhos, seus mínimos desejos e expectativas vêm a tona.  Porque não dizer o mesmo daqui, pois quem pode afirmar com certeza de que tudo não é um sonho, dentro de outros sonhos?&lt;br /&gt;      Há um filme, baseado num conto, há muito tempo contado, que fala sobre sonhos e realizações. Talvez, um dos mais belos contos feitos em sua realidade. Há uma frase nele que gostaria que guardassem nos recessos mais profundos e sagrados de seu Ser, se acredita nisso ou se achar que pode. Ela diz assim:&lt;br /&gt;      &quot;Se você construir, ele virá&quot;&lt;br /&gt;       O resto é com vocês!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Thu, 20 Feb 2020 11:07:49 +0000</pubDate>
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      <title>O eu aqui</title>
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      <description>   Agora. As premissas básicas sobre as quais um determinado sistema de existência é formado baseiam-se nos &quot;mecanismos&quot; perceptivos.&lt;br /&gt;   Estas são as regras básicas, por assim dizer. Seus mecanismos físicos estão equipados para funcionar de tal maneira que a realidade é percebida através das lentes de determinadas suposições radiculares . Usando apenas os sentidos físicos, é quase literalmente impossível para você perceber a realidade de qualquer outra maneira.&lt;br /&gt;     Uma parte forte de suas personalidades é, portanto, um produto do sistema físico em que você tem existência física. Todas as idéias da realidade devem ser vislumbradas através da rede física, que é a forma materializada dessas suposições . Você é, em outras palavras, fisicamente capaz de observar a realidade de uma maneira altamente especializada. Fisicamente, você deve interpretar a existência em termos dessas suposições muito definidas .&lt;br /&gt;       Mais uma vez falando fisicamente, você não encontrará nada para contradizer essas suposições , pois fisicamente para você elas são tudo o que você pode experimentar ou perceber. Essas suposições básicas são a estrutura do seu sistema de camuflagem. Ao tentar explorar outras realidades, você quase automaticamente interpreta esses dados em termos das suposições básicas do seu próprio sistema físico. &lt;br /&gt;       É claro que isso falsifica altamente esses dados. Os sentidos internos não estão limitados por essas suposições básicas. É por isso que muitas experiências psíquicas ou subjetivas parecem contradizer as leis físicas. A experiência interior geralmente parece caótica ou sem sentido, porque você tenta interpretá-la de acordo com as suposições básicas da realidade física. Você deve aprender as leis que se aplicam a outros sistemas são diferentes. Seu sistema não é o único, portanto as &quot;leis&quot; em que se baseiam não definem o todo.&lt;br /&gt;    As suposições básicas que governam a realidade física são realmente válidas, mas apenas dentro da realidade física. Eles não se aplicam a outros lugares. Há uma tendência natural de continuar julgando a experiência interior contra essas suposições básicas. A tendência, com mais experiência, desaparecerá. Essa interpretação da realidade interior em termos físicos é a princípio automática e muito abaixo dos níveis conscientes. A experiência interior, você vê, deve, em certa medida, ser colorida pelo sistema físico enquanto você existe nele.&lt;br /&gt;     Seus sonhos não são físicos, mas quando você acorda você tende a interpretá-lo fisicamente. Mentalmente você constrói uma rua onde nada existia. Quando você não interpreta fisicamente o sonho, você acha que não sonho, ou apenas uma memória vaga fica. &lt;br /&gt;     Para que essas informações cheguem a níveis conscientes, é necessário traduzi-las, necessariamente, em termos que o ego possa lidar, e a tradução deve, em certa medida, distorcer a experiência original. Todo o organismo físico do corpo foi treinado desde a infância para reagir a certos padrões, esses padrões baseados em suposições da raiz física .&lt;br /&gt;    O próprio sistema nervoso deve, como você vê, ser tão constituído, e o sistema nervoso reage definitivamente às imagens de bloqueio visual. Tais imagens são recebidas através da pele e também através dos olhos. Todo o sistema é altamente complicado e organizado, e organizado para reagir a padrões específicos formados a partir dessas suposições básicas de raiz . Essas suposições básicas são tão parte de sua própria existência que aparecem e obscurecem seus sonhos.&lt;br /&gt;       Por trás dessas suposições básicas, porém, partes do eu percebem a realidade física de uma maneira totalmente diferente, livre da tirania dos objetos e da forma material. Aqui você experimenta conceitos diretamente, sem a necessidade de simbolismos. Aqui você experimenta o presente espaçoso diretamente. Aqui você conhece suas personalidades passadas e sabe que elas existem simultaneamente com as suas. Então, há um você aqui, mas existem outros vocês em outros planos de existência.&lt;br /&gt;      Os pressupostos fundamentais sobre os quais a realidade física é formada representam um terreno seguro para o ego. Sempre operamos com o consentimento do ego. Consente se afastar momentaneamente. Ele interpreta o conhecimento interior adquirido à sua maneira, é verdade, mas é imensuravelmente enriquecido por isso. Outras camadas do eu interpretam as mesmas experiências interiores de maneira bastante diferente.&lt;br /&gt;       O ego pode existir apenas dentro do contexto dessas suposições básicas . A experiência do sonho principal é finalmente tecida em uma estrutura composta dessas suposições básicas , e é disso que você se lembra. Eles servem como informações básicas, mas as informações são colocadas em forma simbólica. Objetos, você vê, são símbolos. Esses objetos nos sonhos são símbolos de realidades que o ego não poderia perceber.&lt;br /&gt;      A sua realidade física é um simbolo momentâneo. Você usará outros símbolos, na medida em que sua consciência aprender a lê-los.&lt;br /&gt;</description>
      <pubDate>Tue, 17 Dec 2019 12:57:26 +0000</pubDate>
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      <title>Um Cântico de Natal - Charles Dickens</title>
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      <description>Poucos sabem... Mas o natal foi por muito tempo um feriado menor. A morte e ressurreição de Cristo sempre foram mais celebradas do que o nascimento. Para a igreja romana, Nascer-se não é tão surpreendente quanto morrer e ressuscitar... (embora nascer de novo não é mais milagroso do que nascer por si só).&lt;br /&gt;Em termos de tempo humano, não se sabe quando Cristo nasceu, mas não foi em dezembro. O dia 25 daquele mês comemorava-se um deus pagão dos celtas, e um deus dos egípcios, comemorações que incomodavam a igreja e precisavam ser ofuscadas. Então, decretou-se o dia 25 de dezembro como a natalidade de Jesus Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro que agora irão ler, foi publicado em 1843,e antes dele o Natal não era como se vê hoje. Nada de árvores, ceias, presentes, canções e coros. Não havia o clima mágico de caridade e devoção que o acompanha a partir de então, com os seus devidos arrefecimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, como a Coca-Cola pegou um santo Russo e o vestiu de vermelho para cravá-lo para sempre na mitologia do feriado, Charles Dickens inventou o Natal e o colocou para sempre nos corações dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ele próprio disse, e também os seus críticos, ele fora abençoado com uma inspiração divina ao escrever este livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ei-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                     UM CÂNTICO DE NATAL&lt;br /&gt;                          &lt;br /&gt;                                               Em Prosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                        CHARLES DICKENS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTROFE 1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                O ESPECTRO DE MARLEY &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Para começar, digamos que Marley tinha morrido. Neste particular, não pode haver absolutamente a menor dúvida; a ata dos seus funerais havia sido assinada pelo vigário, pelo sacristão, pelo homem da empresa funerária e pelas pessoas que haviam conduzido o féretro. Scrooge também a tinha assinado. Ora, Scrooge era um nome bastante conhecido na Bolsa, e sua assinatura era um documento valioso, onde quer que ele a colocasse. O velho Marley estava tão morto como um prego de porta. Perdão! Não quero dizer com isto que saiba por experiência pessoal o que possa haver de particularmente morto num prego de porta. Por mim, eu estaria mais inclinado a considerar um prego de ataúde como a coisa mais morta que possa haver no comércio. Mas, como devemos esta comparação à sabedoria dos nossos antepassados, tenhamos todo o cuidado em não profaná-la, ou, do contrário, o país estará perdido. Assim pois, vocês hão de permitir-me repetir, com insistência, que Marley estava tão morto como um prego de porta. Acaso Scrooge sabia que Marley estava morto? Evidentemente, sim. Como poderia ser de outro modo? Marley fora seu sócio durante não sei quantos anos; Scrooge era seu único executor testamentário, o único administrador dos seus bens, seu único herdeiro, seu único amigo. De resto, este triste acontecimento, mais que suficiente para perturbar qualquer outro, não o abatera a ponto de fazê-lo perder suas notáveis qualidades de homem de negócios, pois havia assinalado o dia dos seus funerais precisamente por uma especulação das mais felizes. A menção dos funerais de Marley levame novamente ao ponto de partida. É absolutamente certo que Marley estava morto. Este ponto tem de ficar rigorosamente assentado, sem o que, a história que vou contar não apresenta- ria nada de extraordinário. Se nós não estivéssemos perfeitamente convencidos de que o pai de Hamlet se achava morto antes de levantar o pano do palco, o fato de vê-lo passear sobre suas próprias muralhas, por uma noite de tempestade, nos teria surpreendido tanto quanto se tal fato se tivesse dado com um fidalgo qualquer, que altas horas da noite se levantasse e temerariamente fosse errar em pleno descampado. Scrooge não havia apagado jamais o nome de seu antigo sócio. Depois de tantos anos, ainda se lia sobre a porta de sua casa comercial o nome de Scrooge & Marley, pois Scrooge & Marley continuava como a razão social da firma. As pessoas que não estavam bem a par das coisas chamavam Scrooge ora por Scrooge, ora por Marley, mas Scrooge atendia pelos dois nomes indiferentemente. Ah! Scrooge! Com que firmeza ele empunhava as rédeas dos negócios! Como este negociante sabia pegar e es- premer, agarrar e tosquiar o cliente e, sobretudo, não irritar ninguém. Duro e cortante como uma pedra-de-fogo, da qual jamais aço algum conseguiu arrancar uma única centelha generosa, Scrooge mostravase taciturno, arredio e isolado como uma ostra. Uma frieza interior enregelava-lhe os traços decrépitos, ressumbrava em seu nariz adunco, sulcava-lhe as faces, endurecia-lhe o andar, avermelhava-lhe os olhos, azulava-lhe os lábios finos e fazia sentir-se até mesmo em sua voz estridente. Uma espécie de neblina cobria-lhe a cabeça, os supercílios e o queixo pontiagudo. Esta frieza inóspita Scrooge a levava consigo aonde quer que fosse, de modo que seu escritório continuava gélido durante o mais intenso calor e não melhorava um grau nem mesmo pelo Natal. Quanto à temperatura exterior, pouca influência exercia sobre ele. Nenhum calor poderia aquecê-lo, assim como o mais rigoroso inverno não conseguiria transpassá-lo. Não havia rajada mais áspera que ele, tempestade de neve mais implacável, chuva fina mais torturante. O mau tempo não sabia por onde pegá-lo. Chuva e granizo, neve e frio levavam sobre ele apenas uma vantagem: todos se mostravam, uma vez ou outra, pródigos de seus benefícios; Scrooge, nunca! Ninguém, jamais, conseguiu pará-lo na rua para lhe dizer em tom amável: Como vai, meu caro Scrooge? Quando terei o prazer de sua visita?. Mendigo algum animava-se a implorar-lhe a caridade, nem nenhuma criança se atreveria a perguntar-lhe as horas. Nem uma única vez, em toda a sua existência, homem ou mulher havia-lhe perguntado sobre um caminho. Os próprios cães de cegos pareciam conhecê-lo, pois desde que o avistavam procuravam desviar seu pobre amo para junto de uma porta ou a um quintal qualquer, e ali, agitando a cauda, pareciam dizer: É preferível não ter olhos a ter tão má catadura, meu pobre amo!. Mas, que importava a Scrooge? Pois era justamente o que ele queria. Sua maior felicidade era abrir caminho a- través das estradas atravancadas da vida, tendo sempre a distância toda e qualquer simpatia humana. **** Um dia, um dos melhores do ano, e véspera de Natal, o velho Scrooge achava-se em seu escritório, a trabalhar. O frio era acre e penetrante, acompanhado de nevoeiro. Scrooge ouvia as pessoas que iam e vinham na pequena viela, esfregando as mãos e caminhando rapidamente para se aquecerem. Os relógios da cidade acabavam de soar três horas, mas já começava a escurecer, e as luzes principiavam a brilhar no interior dos escritórios vizinhos, pontilhando de manchas avermelhadas a atmosfera cinzenta e quase palpável do crepúsculo. O nevoeiro infiltrava-se por todas as fendas, invadindo o interior das casas pelo buraco das fechaduras; fora, era tão denso, que, não obstante a estreiteza da viela, as casas fronteiriças se tinham tornado imprecisos fantasmas. Diante desta onda cinzenta que descia progressivamente, ameaçando envolver tudo em sua obscuridade, poder-se-ia crer que a natureza inteira se havia posto ali a fabricar a chuva e a neve. A porta de Scrooge estava aberta de modo a permitir-lhe observar seu empregado, que se achava copiando cartas no compartimento contíguo, lúgubre cubículo que mais parecia uma cisterna. O fogo de Scrooge era bem insignificante, mas o de seu empregado era tão miserável que parecia não passar de uma única brasa. E tornava-se impossível alimentá-lo, pois que Scrooge conservava junto de si a lata de carvão, e quando o pobre rapaz entrava, com a pá na mão, Scrooge declarava que era obrigado a dispensar os serviços de um homem tão gastador. Diante disso, o pobre homem, enrolando-se em seu cachecol branco, procurava aquecerse na chama da lamparina, o que não conseguia, por não ser dotado de uma imaginação suficientemente viva. – Bom Natal, meu tio, e que Deus o ajude! – exclamou uma voz jovial. Era a voz do sobrinho de Scrooge, cuja entrada no escritório fora tão imprevista, que este cordial cumprimento foi o único aviso com que o rapaz se fizera anunciar. – Tolice! Tudo isso são bobagens! O sobrinho de Scrooge, que havia caminhado apressadamente no meio da bruma gélida, tinha o rosto incendia- do pela corrida. Seu rosto simpático estava vermelho, os olhos brilhavam, e, quando falava, seu hálito quente transformava-se numa nuvem de vapor. – Natal, uma bobagem, meu tio? Parece que o senhor não refletiu bem! – Ora! – disse Scrooge. Feliz Natal! Que direito tem você, diga lá, de estar alegre? Que razão tem você de estar alegre, pobre como é? – E o senhor – respondeu alegre e zombeteiramente o sobrinho –, que direito tem de estar triste? Que razão tem o senhor de estar acabrunhado, rico como é? Não encontrando no momento melhor resposta, Scrooge repetiu novamente: – Tolice! Tudo isso são bobagens! – Vamos, meu tio! Não se amofine! – disse o jovem. – Como não me amofinar, – replicou o tio, – quando vivemos num mundo cheio de gente ordinária? Feliz Natal!… Que vá para o diabo o seu feliz Natal! Que representa para você o Natal, a não ser uma época em que você é obrigado a abrir o cordão da bolsa já magra? Uma época em que você se faz mais velho um ano e nem uma hora mais rico? Em que você, fazendo um balanço, verifica que ativo e passivo equilibram, sem deixar nenhum resulta- do? – Se fosse eu quem mandasse, – continuou Scrooge indignado, – cada idiota que percorre as ruas com um “feliz Natal” na ponta da língua seria condenado a ferver em sua marmita, em companhia de seu bolo de Natal, e a ser enterrado com um galho de azevinho espetado no coração. Pronto! – Meu tio! – exclamou o jovem. – Meu sobrinho, – tornou o tio num tom severo – , pode festejar o Natal a seu modo, mas deixa-me festejá-lo como me aprouver. – Como lhe aprouver? Mas o senhor não o festeja absolutamente! – Perfeitamente! – disse Scrooge; – então, dê-me a liberdade de não o festejar. Quanto a você, que lhe faça bom proveito! O proveito que você tem tido até hoje… – Há muita coisa de que eu não soube tirar o proveito que poderia ter tirado, é certo, e o Natal é uma delas, – replicou o sobrinho. – Mas, pelo menos, estou certo de ter sempre considerado o Natal – fora a veneração que inspiram sua origem e seu caráter sagrados – como uma das mais felizes épocas do ano, como um tempo de bondade e perdão, de caridade e alegria; o único tempo, que eu saiba, no decorrer de todo um ano, em que todos, homens e mulheres, parecem irmanados no mesmo comum acordo para abrir seus corações fechados e reconhecer, naqueles que estão abaixo deles, verdadeiros companheiros no caminho da vida e não criaturas diferentes, votadas a outros destinos. Assim, pois, meu tio, embora o Natal não me tenha posto nos bolsos uma única moeda de ouro ou de prata, estou convencido de que ele me fez e me fará muito bem, e é por isso que eu repito: Deus abençoe o Natal! O empregado não pôde deixar de aplaudir, de seu cubículo, o sobrinho de Scrooge, mas, logo a seguir, caindo em si e notando sua inoportuna intromissão, pôs-se a remexer as brasas vigorosamente, acabando por apagá-las. – Eu que o ouça mais uma vez, – disse Scrooge, – e você irá festejar o Natal no olho da rua. Quanto a você, meu amigo, continuou ele voltando-se para o sobrinho, você é de fato eloquente; estou mesmo admirado de que ainda não tenha conseguido um lugar no Parlamento. – Não se aborreça, tio, e venha almoçar conosco amanhã. Scrooge respondeu mandando-o para o diabo, e o fez de cara a cara. – Mas, por quê? – exclamou o sobrinho. – Por quê? – Por que foi que você casou? – perguntou Scrooge. – Porque eu amava. – Porque amava! – resmungou Scrooge. – Como se isso não fosse outra tolice maior ainda que festejar o Natal! Passe bem! – Mas, meu tio! O senhor nunca vinha à minha casa antes do meu casamento. Por que arranja esse pretexto para não vir hoje? – Boa noite! – disse Scrooge. – Eu não espero nada do senhor; eu nada lhe peço. Por que não sermos bons amigos? – Boa noite! – disse Scrooge. – Lamento de todo o coração vê-lo assim tão obstinado. Não temos, que eu saiba, nenhum motivo de ressenti- mento. Foi em homenagem ao Natal que vim até aqui, e no espírito de Natal quero ficar até o fim. – Boa noite! – disse Scrooge. – E feliz Ano Novo! – Boa noite! – replicou Scrooge. O sobrinho, entretanto, saiu do escritório sem uma palavra de desagrado. Na porta, deteve-se para apresentar as boasfestas ao empregado, que, mesmo tiritando como estava, se mostrou mais amistoso que seu patrão, pois que respondeu ao jovem com felicitações cheias de cordialidade. – Outro predestinado! – resmungou Scrooge ao ouvilo. Imaginem meu empregado a falar de Feliz Natal com apenas quinze xelins por semana, tendo mulher e filhos! O tal predestinado, tendo acompanhado o sobrinho de Scrooge até à porta, fez entrar dois cavalheiros de fisionomia simpática e aparência distinta, os quais penetraram no escritório, tendo à mão, além do chapéu, vários papéis e documentos. Na presença de Scrooge, inclinaram-se. – Scrooge & Marley, parece-nos? – disse um deles, consultando os apontamentos. É ao senhor Scrooge ou ao senhor Marley que temos a honra de falar? – O senhor Marley faleceu há cerca de sete anos. Morreu nesta mesma noite, fará seguramente sete anos. – Não temos a menor dúvida de que a generosidade do sócio sobrevivente seja igual à dele, – disse um dos cavalheiros, apresentando os papéis que o autorizavam a pedir. E não se enganava, pois que os dois sócios eram bem dignos um do outro. Diante da inquietante palavra generosidade, Scrooge franziu o sobrolho, sacudiu a cabeça e devolveu os papéis. – Nesta festiva época do ano, senhor Scrooge, – prosseguiu o cavalheiro, tomando uma pena –, parece ainda mais oportuno do que em nenhuma outra ocasião, arrecadar algum dinheiro para aliviar os pobres e os deserdados da sorte, que sofrem cruelmente os rigores do inverno. A muitos milhares de infelizes falta mesmo o estritamente necessário, e muitas outras centenas de milhares não conhecem o mais insignificante conforto. – Não há prisões? – perguntou Scrooge. – Prisões não faltam, – disse o cavalheiro, largando a pena. – E os asilos? Não fazem nada? – perguntou Scrooge. – Sim, de fato, embora eu preferisse dizer o contrário. – Então, as casas de correção estão em plena atividade? – Sim, estão em plena atividade, senhor. – Oh! Eu já estava receando, pelo que o senhor me disse há pouco, que alguma coisa tivesse interrompido uma atividade tão salutar, – disse Scrooge. Estou satisfeitíssimo por saber que tal não aconteceu. – Persuadidos de que estas organizações não podem proporcionar ao povo o consolo cristão da alma e do corpo, de que ele tem tanta necessidade, tornou o cavalheiro, alguns dentre nós resolveram empreender uma coleta, cujo produto seria distribuído aos pobres, em forma de alimento, combustível e roupa. Escolhemos esta época do ano porque, mais que nenhuma outra, é aquela em que mais cruelmente se faz sentir a penúria e em que o conforto se torna mais doce. Quanto posso pôr em seu nome? – Nada. – Desejaria guardar o anonimato? – Desejo que me deixem em paz; já que os senhores querem saber, é isso que eu desejo. Eu não faço banquetes para mim próprio pelo Natal, vou agora dar banquete aos vagabundos! Já faço muito em dar minha contribuição às organizações de que falamos ainda há pouco, e elas não ficam barato! Aqueles que tiverem necessidade que recorram a elas. – Muitos não o podem fazer, outros preferem a morte. – Se preferem a morte, – disse Scrooge –, está ótimo! Que morram! Isso virá diminuir o excesso de população. De resto, queiram desculpar-me, porém não estou bem a par dessa questão. – Mas o senhor poderá tomar parte nela. – Isso não me interessa, – replicou Scrooge. Um homem já faz muito, quando se ocupa dos seus próprios negócios, sem interferir nos negócios alheios. Os meus já me tomam todo o tempo. Boa noite, senhores. Vendo claramente que era inútil insistir, os cavalheiros retiraram-se. Scrooge, satisfeito consigo mesmo, pôs-se novamente a trabalhar, com radiante bom-humor. **** Durante este tempo, o nevoeiro e a escuridão fizeram-se tão espessos, que muitas pessoas percorriam as ruas com tochas acesas na mão, oferecendo-se aos cocheiros para irem adiante dos cavalos iluminando o caminho. A antiga torre de uma igreja, cujo velho sino bimbalhante parecia espiar Scrooge continuamente através de sua janelinha gótica, tornara-se invisível e pôs-se a tocar as horas e os quartos de hora entre nuvens, com vibrações prolongadas e trêmulas, como se estivesse a bater os dentes lá no alto, no ar gelado. O frio tornava-se intenso. Na rua principal, sobre a qual desembocava a viela, alguns operários, que reparavam o encanamento do gás, haviam acendido uma fogueira, em torno da qual se haviam aglomerado homens e mulheres, todos andrajosos, que aqueciam as mãos e olhavam o fogo com ar maravilhado. O bebedouro público, vendo-se abandonado, resolveu congelar-se. Os luminosos dos magazines, onde as bagas e as folhas de azevinho estavam sob o calor das lâmpadas nas vitrinas, imprimiam rubros reflexos nos rostos pálidos dos transeuntes. As vitrinas dos restaurantes e dos bares ofereciam aos olhos uma apresentação esplêndida, um espetáculo deslumbrante, com o qual parecia impossível que os vulgares princípios da compra e da venda pudessem ter a menor relação. O prefeito, repimpado no majestoso edifício da Câmara, dava ordens a seus cinquenta cozinheiros e despenseiros para que o Natal fosse comemorado como se deve comemorar na casa de um prefeito. E mesmo o pobre alfaiate, que fora condenado na segundafeira anterior a cinco xelins de multa por embriaguez e arruaça noturna, fazia seus preparativos dentro de sua miserável mansarda, batendo a massa do bolo do dia seguinte, enquanto sua esposa saía apressadamente, com o bebê ao colo, para comprar um pedaço de carne de vaca. O nevoeiro adensava-se cada vez mais, e o frio se tornava cada vez mais áspero e penetrante. Um rapazinho de nariz arrebitado, roído pelo vento, glacial e voraz, como um osso por um cão, aproximou-se da porta para saudar Scrooge com uma cantiga de Natal. Mas, desde as primeiras palavras de Deus vos salve, bom amigo, vos dê coração alegre, Scrooge apanhou uma régua com um gesto tão enérgico, que o cantor fugiu espavorido, perdendo-se no nevoeiro e no frio. Finalmente, chegou a hora de fechar o escritório. Scrooge admitiu o fato, mas deixou seu tamborete bastante penalizado. O empregado, que e m seu cubículo só aguardava este sinal, apressou-se em apagar o candeeiro e pôr o chapéu. – Você há de certamente querer ficar livre todo o dia de amanhã? – disse-lhe Scrooge. – Se isso não o aborrecer, senhor. – Naturalmente que isso me atrapalha, – replicou Scrooge; e o que é mais, isso não é justo. Se eu descontasse meia coroa de seu ordenado, aposto que se sentiria prejudicado. O empregado teve um sorriso pálido. – E entretanto, – tornou Scrooge, você acha que não me prejudica, a mim, quando estou lhe pagando um dia para não fazer nada. O empregado observou humildemente que isso acontecia apenas uma vez por ano. – Bela desculpa para meter as unhas no bolso do seu patrão a cada 25 de dezembro! – disse Scrooge, abotoando o sobretudo até ao queixo. – Espero que seja mais pontual no dia seguinte pela manhã. O empregado prometeu-o, e Scrooge saiu resmungando. O escritório foi fechado num abrir e fechar de olhos, e o empregado também saiu, todo enrolado em seu cachecol branco, cujas extremidades pendiam para além da jaqueta, pois que ele desconhecia o luxo de um sobretudo. Em honra do Natal, desceu Cornhill fazendo escorregadelas, em companhia de um bando de rapazes; depois, rumou a toda velocidade para Camden, a fim de entrar em casa e começar a brincar de cabracega. **** Scrooge fez uma magra refeição na sombria espelunca em que costumava comer. Quando ac abou de percorrer os jornais e de tornar a observar sua caderneta do banco, entrou em casa para deitar-se. O apartamento em que residia era o mesmo em que vivera seu falecido sócio. Composto de vários compartimentos lúgubres e mal iluminados, fazia parte de um prédio estranho, situado no fundo de um pátio, onde estava tão mal colocado, que se poderia pensar que ele viera parar ali em sua juventude, brincando de esconde-esconde com outras casas, e depois não encontrou mais seu caminho. Além de tudo isso, era velho e infundia o medo que inspiram as casas abandonadas, pois que ninguém, a não ser Scrooge, ali residia, estando ocupados os outros comparti- mentos com escritórios comerciais. O pátio era de tal modo escuro, que Scrooge, não obstante conhecer de cor todos os seus pormenores, foi obrigado a atravessálo às apalpadelas. O nevoeiro e o granizo envolviam de tal modo o arcaico e sombrio alpen dre, que parecia estivesse o gênio do inverno sentado no seu portal, engolfado em lúgubres meditações. Agora, se existe um fato comprovado, é que a aldrava de ferro da porta não apresentava absolutamente nada de particular, a não ser que era bastante grossa. Outro fato indiscutível é que Scrooge estava acostumado a vê-la de manhã e de tarde, desde que morava naquela casa. Cumpre notar igualmente que Scrooge era tão destituído de imaginação como qualquer habitante de Londres, inclusive os membros da municipalidade e os aldermen. É necessário notar, também, que Scrooge não havia pensado um só instante em Marley desde a alusão que havia feito, naquela mesma tarde, à morte de seu antigo sócio, verificada sete anos antes. Isto posto, expliquem-me, se puderem, como pôde acontecer que Scrooge, ao meter a chave na fechadura, viu subitamente diante dele, e sem prévia transformação, não uma argola de aldrava, mas o rosto de Marley! Sim, o rosto de Marley. Aquele rosto não estava, como o resto do pátio, mergulhado nas trevas impenetráveis, mas aureolado de um estranho clarão fosforescente. Sua expressão não era nem ameaçadora nem bravia, e olhava para Scrooge como Marley costumava olhá-lo, com os óculos sobre a testa de espectro. Os cabelos se lhe agitavam de modo estranho, levantados, parecia, por um sopro ou uma corrente de ar quente; e seus olhos, embora bem abertos, estavam perfeitamente imóveis. A aparição, com aquela tez lívida e aquele olhar fixo, era horrível de se ver; entretanto, o horror que ela inspirava não procedia propriamente da expressão dos seus traços, mas de uma influência exterior, que se exercia de fora e como que a despeito dela mesma. Mas quando, vencida a primeira perturbação, Scrooge examinou fixamente o estranho fenômeno, já não viu, de repente, nada mais que o simples anel da aldrava. Dizer que ele não se amedrontou e não sentiu interiormente uma impressão extraordinária jamais experimentada até então, seria falso. Não obstante, deitou a mão sobre a chave, que havia deixado cair, fê-la voltar-se com decisão na fechadura, penetrou no vestíbulo e acendeu a vela. Para dizer verdade, Scrooge teve um momento de hesitação antes de fechar a porta, e começou por examiná-la prudentemente pela parte de trás, como se receasse ver surgir no vestíbulo a ponta da cabeleira de Marley. Mas não havia nada naquele lado, exceto os parafusos e as porcas que fixavam a aldrava. Depois de tal vistoria, Scrooge murmurou: “Ora! Tolices!” e tornou a fechar a porta bruscamente. Aquele ruído propagou-se por toda a casa como o rolar de um trovão. Todos os cômodos do pavimento superior, todas as pipas do negociante de vinho, na adega, embaixo, repetiram aqueles ruídos com sonoridades várias. Mas Scrooge não era homem que se deixasse amedrontar com ecos. Trancou a porta, atravessou o vestíbulo e subiu a escada calmamente, protegendo a vela. Costuma-se falar algumas vezes das escadas antigas, pelas quais poderia passar facilmente um carro puxado por seis cavalos. Pois bem: eu posso afirmar que na escada de Scrooge se teria podido fazer passar um carro grande, e até mesmo pô-lo atravessado, com os varais para a parede e a traseira para o lado da balaustrada: haveria todo o es- paço necessário, e mais ainda. Foi talvez por esta razão que Scrooge pareceu ver um carro fúnebre subir diante dele, na escuridão. Meia dúzia de lampiões teriam sido insuficientes para aclarar os enormes baixos da escada: imaginem agora o que poderia fazer aquela simples velinha de Scrooge. Completamente despreocupado, Scrooge continuava a subir. A escuridão não custa dinheiro, e era por isso que Scrooge gostava da escuridão. Do mesmo modo, antes de fechar a pesada porta do seu apartamento, percorreu to- das as dependências, para certificar-se de que nada havia de anormal. Ele havia guardado da aparição uma impressão forte o suficiente para justificar esta medida. A sala, o quarto de dormir, o quarto de despejo, tudo conservava seu aspecto habitual. Não havia ninguém de- baixo da mesa, ninguém debaixo do sofá. Um resquício de lume no fogão, uma xícara e uma colher preparadas sobre a grade da lareira, uma canequinha de remédio (Scrooge sofria de enxaqueca). Ninguém debaixo da cama, ninguém no armário embutido, ninguém no robe de chambre, que pendia encostado à parede, numa atitude suspeita. No quarto de despejo, não havia senão, como habitualmente, um velho guarda-fogo, sapatos usados, duas cestas, um penteador cambaio e uma pá de carvão. Completamente tranquilizado, Scrooge fechou a porta, dando a primeira volta à chave, depois a segunda volta, o que não costumava fazer. Posto assim ao abrigo de surpresas, tirou a gravata, enfiou o roupão, calçou as chinelas, pôs o boné de noite e sentou-se diante do fogo para beber sua xícara de remédio. O fogo era bastante fraco e de todo insuficiente para uma noite tão fria. Scrooge foi obriga do a sentar-se bem encostado e a inclinar-se sobre ele para conseguir obter deste insignificante punhado de combustível uma leve sensação de calor. A lareira era antiga. Construída, outrora, por algum antigo comerciante holandês, era inteiramente revestida de azulejos de faiança, representando cenas da Bíblia. Havia Cains e Abéis, filhas de Faraós e rainhas de Sabá, angélicos mensageiros que desciam do céu sobre nuvens de arminho; Abraãos e Baltasares, apóstolos que se aventuravam no tenebroso oceano em pequeninos batéis… Assim, lá estavam centenas de personagens para ocupar e distrair o pensamento de Scrooge. Entretanto, como a antiga vara do profeta, o rosto de Marley, morto havia sete anos, vinha sobreporse a tudo isto. Se a superfície destes azulejos fosse totalmente branca e dotada da propriedade de representar um fragmento que fosse o pensamento de Scrooge, sobre todos eles estaria estampada uma cópia da cabeça de Marley. – Idiotices!… – disse Scrooge, levantando-se e pondo-se a passear de um lado para outro. Depois de ter percorrido o aposento muitas vezes seguidas, voltou a sentarse. Como inclinasse a cabeça para trás, seus olhos pousaram, casualmente, sobre uma campainha já fora de uso, que pendia da parede e que se comunicava, não se sabe por quê, com uma das mansardas da casa. Scrooge ficou tomado do mais vivo espanto, e ao mesmo tempo de um indescritível e inexplicável pavor, quando viu mover-se o cordão da campainha, que começou a balançar-se primeiro vagarosamente, quase imperceptível, e, em seguida, violentamente, ao mesmo tempo em que todas as campainhas da casa entraram a soar ruidosamente. Este tumulto durou aproximadamente meio minuto, quando muito um minuto, mas que pareceu interminável a Scrooge. E as campainhas, do mesmo modo como começaram, também silenciaram ao mesmo tempo. A este alarido infernal, sucedeu um barulho metálico, oriundo das profundezas da casa, como se alguém, no interior da adega, arrastasse pesadas correntes. Então, Scrooge lembrou-se de ter ouvido dizer que, nas casas mal-assombradas, os duendes arrastam sempre grossas cadeias atrás de si. A porta da adega abriu-se violentamente, e o estrépito fez-se ouvir mais vivo no rés-do-chão, depois na escada, e, aproximando-se cada vez mais, dirigiu-se em linha reta para a porta do apartamento. – Idiotices!… – disse Scrooge. Não acredito nisso, não! Mas imediatamente mudou de cor, quando, sem deter-se um só instante, o misterioso visitante atravessou a porta maciça e apresentou-se diante dele. A sua entrada, o fogo bruxuleante lançou uma derradeira labareda, que pareceu gritar: “Eu o reconheço: é o espectro de Marley! E apagou-se. Era a mesma fisionomia, absolutamente a mesma. Marley, tendo na cabeça a mesma peruca, vestindo o mesmo colete, as calças justas e as botinas que usava habitualmente. O couro das botas, o topete e o rabicho da peruca arrepiavam-se, e as abas de sua casaca balançavam. Cingia-lhe o corpo a longa corrente que trazia, e que serpenteava atrás dele como uma cauda. Scrooge, que a examinava atentamente, viu que era formada de cofres-fortes, de chaves, de cadeados, de registros e de pesadas bolsas de aço. Como o corpo do espectro era transparente, Scrooge pôde observar, através do seu colete, os dois botões prega- dos no corpo do casaco pela parte de trás. Scrooge ouvira dizer, por mais de uma vez, que Marley não tinha entranhas, mas até então ele jamais pudera a- creditar. Não! Mesmo agora Scrooge não podia acreditar em semelhante coisa. Não lhe importava ver diante de si aquele fantasma, que seu olhar atravessava como se fora de vidro; não lhe importava sentir o olhar glacial dos seus olhos mortos, nem reparar no próprio tecido de que era feito o lenço que lhe envolvia a cabeça e o queixo – minúcia que não lhe havia chamado a atenção nos primeiros momentos. Não, Scrooge continuava incrédulo e lutava contra os próprios sentidos. –Pois bem! – disse Scrooge, frio e mordaz como de costume. –Que quer de mim? – Muita coisa. Já não podia haver a menor dúvida: era exatamente a voz de Marley. – Quem é você? – perguntou Scrooge. – Pergunte, antes, quem eu era … – Então, quem era você? – tornou a perguntar Scrooge elevando a voz. – Para ser um espectro achoo muito real. – Em vida, fui Jacob Marley, teu sócio. – Pode… sim… pode sentar-se? – perguntou Scrooge, olhando-o com ar de dúvida. – Posso. – Então, sente-se. Scrooge havia feito esta pergunta porque duvidava que um ser assim tão transparente pudesse acaso tomar um assento, o que obrigaria seu visitante, no caso de impossibilidade, a uma explicação bastante embaraçosa. O fantasma, porém, sentou-se do outro lado da lareira, com a maior naturalidade deste mundo. – Não acreditas em mim? – perguntou ele. – É claro que não, – respondeu Scrooge. – Que provas desejas da realidade da minha presença, fora do testemunho dos teus sentidos? – Nem sei. – Por que duvidas dos teus sentidos? – Pela simples razão, – respondeu Scrooge –, de que não precisa muita coisa para perturbá-los. Não precisa mais que uma ligeira indisposição de estômago. Quem pode provar que, afinal de contas, tudo isto não passe de uma bisteca mal digerida, uma colher de mostarda, um naco de queijo ou uma batata mal cozida. Quem quer que seja, você cheira mais a cerveja que a defunto. Scrooge não costumava de modo algum fazer gracejos, e especialmente neste momento não lhe apeteciam pilhérias. Para dizer a verdade, se se mostrava espirituoso, era mais para enganar a si próprio e dissipar o seu pavor, pois a voz do espectro o apavorava até o mais íntimo recesso do seu ser. Contemplar em silêncio estes olhos fixos vítreos era para Scrooge uma provação acima de suas forças. O que lhe parecia igualmente horrível era a atmosfera infernal que envolvia o fantasma. Scrooge não podia senti-la por si próprio, mas reconhecia claramente a sua presença porque, muito embora o espectro se conservasse imóvel, sua cabeleira, as borlas de suas botas e as abas do seu casaco não paravam de agitar-se, como se fossem movidas pelo cálido sopro de uma fornalha. – Está vendo este palito? – disse Scrooge, voltando vivamente à carga, pela mesma razão exposta e para desviar de sobre si, ainda que fosse por apenas um segundo, o olhar vítreo da aparição. – Vejo, – respondeu o fantasma. – Mas você não está olhando para ele, – observou Scrooge. – Mas estou vendo, – disse o fantasma. – Pois bem! – continuou Scrooge –, basta que eu o engula para ser perseguido, até o fim dos meus dias, por uma legião de espíritos imaginários, todos nascidos do meu estômago. Tolices! Posso afirmar-lhe. Tudo tolices! A estas palavras, o fantasma soltou um tremendo urro e agitou com tal violência as suas cadeias, fazendo um barulho tão sinistro e pavoroso, que Scrooge foi obrigado a agarrar-se à poltrona para não desmaiar. Mas seu espanto recrudesceu ainda mais quando o fantasma, retirando o lenço que lhe envolvia a cabeça, como se o sufocasse o calor, deixou cair sobre o peito o maxilar inferior. Scrooge lançou-se de joelhos, escondendo o rosto entre as mãos. – Misericórdia! – exclamou ele. Ó pavorosa aparição, por que me vem atormentar? – Miserável criatura, tão apegada aos bens da terra! Acreditas em mim, agora? – Sim, – balbuciou Scrooge –, creio! Sou obrigado a crer! Mas por que vagam os espíritos sobre a terra, e por que me vêm eles perturbar? – Deus exige de cada homem, – respondeu o espectro –, que o espírito que o anima se consubstancie com as almas de seus semelhantes no decurso de sua longa viagem pela vida. Assim, pois, aquele que viver só para si durante a existência, é condenado a viver errante pelo espaço após a morte – ó miserável destino! – para assistir, já agora impotente, a todas as coisas em que, durante a vida, poderia ter tomado parte para sua felicidade e a de seu próximo. Novamente o espectro deu um grito, ao mesmo tempo que agitava as cadeias e retorcia as mãos transparentes. – Você está acorrentado! – disse Scrooge com voz trêmula. – Diga-me por quê. – Estou acorrentado com as cadeias que forjei para mim mesmo durante a vida. Forjei-a elo por elo, palmo a palmo. Trago-a agora por minha livre vontade, e é de livre vontade que a tenho usado. Estás estranhando o modelo? Scrooge tremia cada vez mais. – Desejas saber, prosseguiu o fantasma, o peso e o comprimento da cadeia que trazes em torno da tua cintura? Há sete anos, precisamente numa noite de Natal, ela era tão comprida e tão pesada quanto esta. Desde então tens trabalhado muito nela. Neste momento, é uma corrente de considerável dimensão. Scrooge deitou um olhar febril para o soalho, como se já se visse enlaçado por cinqüenta ou sessenta metros de corrente de ferro. Mas nada viu. – Jacob, – disse ele com voz suplicante, meu velho Jacob Marley! Diga-me ainda alguma coisa! Dême um pouco de conforto, um pouco de esperança! – Já não posso confortar ninguém, – respondeu o fantasma. O consolo e a esperança vêm de outra fonte, Ebenezer Scrooge. São trazidos por outros mensageiros e para outros homens, não para ti. Além do mais, não posso conversar tanto quanto eu desejara. O que me é permitido dizer-te ainda é pouca coisa, pois não tenho permissão para descansar, nem para deter-me, nem para demorar-me onde quer que seja. Noutros tempos, meu espírito não saía jamais do nosso escritório, estás me compreendendo? Nunca, durante minha vida, meu espírito se resolveu a afastar-se dos estreitos limites do nosso covil de negociatas. Eis por que tenho diante de mim tantas e tão penosas viagens. Scrooge tinha o hábito de meter as mãos nos bolsos, quando refletia; e foi assim que, enquanto meditava sobre as últimas palavras do fantasma, dirigiu-lhe a palavra, mas sem erguer os olhos e sempre ajoelhado. – É preciso que você tenha sido bem lento, Jacob! – observou ele com voz onde transparecia o homem de negócios ao mesmo tempo humilde e obsequioso. – Bem lento! – repetiu o espectro. – Você morreu há sete anos, – disse Scrooge pensativo, e todo esse tempo perambulando? – Todo o tempo, – disse o espectro; sem repouso e sem trégua, com a eterna tortura do remorso. – Viaja com rapidez? – perguntou Scrooge. – Nas asas do vento. – Você deve ter percorrido muitos países durante estes sete anos, – disse Scrooge. A estas palavras, o espectro deu ainda um grito e sacudiu as suas correntes com um tal fragor, que cortou ruidosamente o profundo e gélido silêncio da noite. – Oh, um desgraçado prisioneiro, acorrentado e carregado de ferros! – exclamou o fantasma –, por ter olvidado que todo homem deve associar-se à grande obra da humanidade, prescrita pelo Onipotente, e perpetuar o progresso. Por não saber que uma alma verdadeiramente cristã, que trabalha generosamente dentro de sua esfera, por muito pequena que seja, sempre achará que sua vida mortal é demasiado breve para realizar todo o bem que ela vê por fazer-se em redor de si. Por não saber que uma eternidade de lágrimas não pode reparar uma vida mal vivida!… Pois bem, era assim que eu vivia, era assim que eu vivia! – Entretanto, Jacob, – balbuciou Scrooge, que começava a tomar para si mesmo as palavras do espectro –, você foi sempre um excelente homem de negócios. – Os negócios! – gemeu o fantasma retorcendo as mãos. – A humanidade, o bem comum, a indulgência, a caridade, a misericórdia, a benevolência, esses deviam ter sido os meus negócios! O espectro ergueu suas cadeias com a extremidade do braço, como se visse nelas a causa do seu inútil desespero, deixando-a em seguida cair pesadamente ao chão. – Quando chega esta época do ano, – prosseguiu ele –, meus sofrimentos redobram. Por que fui eu tão insensato para ter passado no meio da multidão dos meus semelhantes, sempre com os olhos voltados para o chão, sem jamais erguê-los para aquela bendita estrela, que um dia conduziu os magos para uma pobre choupana? Não haveria outras pobres choupanas, aonde a luz me pudesse ter guiado a mim também? Scrooge tremia como vara verde, ouvindo o espectro falar daquele modo. – Ouve-me, – gritou o fantasma. Meus minutos são contados. – Estou ouvindo! – disse Scrooge –, mas tenha pena de mim. Eu lhe peço Jacob, não faça muitos rodeios! – Seria difícil dizer por que é que estou aparecendo diante de ti sob forma visível. Aliás, por mais de uma vez já me sentei a teu lado, invisivelmente. Esta revelação foi assustadora. Scrooge, estremecendo, enxugou a testa banhada de suor. – Mas não é esse o meu maior suplício, – continuou o espectro. – Vim esta noite para avisar-te de que ainda te resta uma esperança, uma oportunidade de escapar a um destino semelhante ao meu. É uma esperança, uma oportunidade que eu venho trazer-te, Ebenezer. – Oh, mil vezes obrigado! – exclamou Scrooge. – Você foi sempre um bom amigo para mim. – Vais ser visitado por mais três espíritos, – continuou o fantasma. O semblante de Scrooge tornou-se tão lívido como o do próprio espectro. – É essa, então, a esperança ou a oportunidade de que você me falou, Jacob? – perguntou ele com a voz débil. – Exatamente. – Eu… Eu preferia que isso não acontecesse. – Se não receberes a visita deles, podes perder a esperança de escapar a um destino igual ao meu. Aguarda a visita do primeiro espírito amanhã ao bater da uma hora. – Não seria melhor que viessem todos juntos, para acabar mais depressa com isso? – sugeriu Scrooge. – O segundo aparecerá na noite seguinte, à mesma hora, e o terceiro na outra noite, ao bater a última badalada da meia-noite. Não esperes tornar a ver-me, e não te esqueças, no teu próprio interesse, de conservar a lembrança de tudo que se passou entre nós. Dito isto, o espectro apanhou seu lenço sobre a mesa e o amarrou, como antes, em torno da cabeça. Scrooge só o notou, quando ouviu o seco estalido que produziram os dois maxilares ao se encontrarem. Arriscando um olho, viu seu visitante sobrenatural em pé diante dele, ereto, as cadeias enroladas no braço. A aparição afastou-se, de costas, e, à medida que se distanciava, a janela abria-se progressivamente até que, quando o espectro a alcançou, ela estava completamente aberta. O espectro fez sinal a Scrooge que se aproximasse. Quando estiveram apenas a dois passos um do outro, o espectro ergueu o braço. Scrooge deteve-se. Deteve-se, menos para obedecer ao fantasma do que por um sentimento de surpresa e de medo, pois que, simultaneamente ao gesto do fantasma, começava a ouvir estranhos e confusos ruídos por toda a casa, vozes plangentes que se misturavam umas às outras, onde se confundiam remorsos e desesperos. Após ter escutado um instante, o espectro passou pela janela, juntou-se ao fúnebre cortejo e desapareceu na gélida escuridão. Scrooge, tomado de incoercível curiosidade, chegou à janela e, então, presenciou um estranho espetáculo. **** O ar estava povoado de almas perdidas, que perambulavam e rodopiavam interminavelmente, soltando gemidos, e cada uma delas trazia uma corrente, como o espectro de Marley. Alguns destes fantasmas, talvez os membros de algum mau governo, estavam amarrados juntos. Nenhum estava livre. Scrooge notou entre eles alguns de seus antigos conhecidos, entre os quais um velho fantasma de colete branco, com quem tivera frequentes relações. Em seu tornozelo, estava amarrado um cofre-forte descomunal, e Scrooge notou que a visão de uma mendiga acocorada ao pé de uma sacada, com seu bebê ao colo, lhe arrancava tristes lamentações de pena por não poder socorrê-la. Percebia-se, claramente, que o maior tormento destes infelizes era o ardente desejo de praticar o bem sobre a terra, justamente agora que essa possibilidade lhes havia escapado para sempre. Scrooge não poderia dizer se todos aqueles fantasmas se dissiparam no intenso nevoeiro, ou se foi o nevoeiro que os envolveu. O certo é que todos desapareceram ao mesmo tempo dentro da noite, e o espaço ficou silencioso e ermo, como no momento em que ele voltara para casa. Fechada novamente a janela, Scrooge examinou cuidadosamente a porta por onde o fantasma havia entrado. Estava fechada com dupla volta, e os ferrolhos estavam intactos. Scrooge ia dizer: Tolices, mas não foi além da primeira sílaba. Apoderara-se dele uma incoercível necessidade de repouso, fosse, talvez, devido às fadigas e às emoções do dia, fosse pela sua fuga ao mundo dos espíritos e pela sinistra conversa que tivera com o espectro, ou talvez mesmo pelo adiantado da hora. SEGUNDA ESTROFE O primeiro dos três espíritos Quando Scrooge despertou, a escuridão era tão profunda que, de seu leito, mal podia distinguir a janela transparente e as escuras paredes do quarto. No momento em que se esforçava para romper a intensa treva que envolvia seus olhos, ouviu bater numa igreja das vizinhanças os quatro quartos. Scrooge aguçou os ouvidos para escutar as horas que iam bater. Com grande surpresa, o pesado carrilhão deu as seis… as sete… as oito… e assim, ritmadamente, até as doze. Meia-noite! Eram mais de duas horas quando Scrooge se atirara sobre o leito. Não era possível! O relógio devia estar louco. Alguma coisa devia ter-lhe embaraçado o maquinismo! Meia-noite! Scrooge premiu a mola do seu relógio de repetição para verificar a exatidão daquele relógio idiota. A minúscula engrenagem bateu rapidamente as doze vibrações e parou. – Vejamos, – disse Scrooge. – É impossível que eu tenha dormido o dia inteiro e uma parte da noite. Acaso terá acontecido alguma coisa ao sol e seja agora meio-dia em vez de meia-noite? Bastante alarmado com esta ideia, ergueu-se do leito e dirigiu-se para a janela, a tatear, como um cego. A primeira coisa que fez foi passar a manga do roupão pela vidraça, que a neblina embaçava, e mesmo assim quase nada conseguiu distinguir fora. A coisa única que pôde verificar é que o nevoeiro continuava espesso, como dantes, e que o frio era demasiado intenso; notou, ainda, que já não se ouviam as idas e vindas das pessoas atarefadas, o que certamente se ouviria, se já estivesse clareando o dia. Este fato foi para ele um grande alívio, pois o que seria dele com as suas letras a pagar a três dias da data ao sr. Ebenezer Scrooge ou à sua ordem, se ele não dispusesse de dias para contar o tempo? Scrooge tornou a deitar-se, o pensamento vagando sobre o que poderia ter acontecido, mas por mais que quebrasse a cabeça para a decifração de tão complicado enigma, nada conseguiu desvendar. Quanto mais ruminava o caso, mais perplexo ficava, e quanto mais se esforçava por não pensar no caso, mais o caso assoberbava o seu pensamento. A lembrança do espectro de Marley causava-lhe um profundo tormento. Cada vez que chegava a convencer-se de que, afinal de contas, todo o ocorrido não fora mais que um sonho mau, crac! lá estava seu espírito novamente às voltas com o problema, no próprio ponto de partida, formulando novamente a mesma pergunta: “Era ou não era um sonho?” Scrooge permaneceu nesta agonia até o momento em que o carrilhão bateu os três quartos. Foi então que se lembrou, subitamente, de que o espectro lhe havia prenunciado a visita de um espírito quando batesse uma hora da manhã. Nestas condições, resolveu ficar acordado até chegar a uma hora da manhã. Diga-se de passagem que esse foi o melhor caminho a seguir, especialmente levando-se em conta que mais fácil lhe fora chegar até o mundo da lua do que tornar a adormecer. Este quarto de hora foi tão interminável, que lhe pareceu, mais de uma vez, ter dormido e deixado passar a hora. Finalmente, o carrilhão fez-se ouvir aos seus inquietos ouvidos: – Ding, dong! – Um quarto… – contou Scrooge, escutando atentamente. – Ding, dong! – Meia hora. – Ding, dong! – Três quartos. – Ding, dong! – A hora! – exclamou Scrooge triunfante. – A hora, e nada! Mas é que Scrooge falava antes de ouvir o bater da uma hora da manhã no pesado badalar do carrilhão. E o badalar da uma hora da manhã fez-se ouvir, lúgubre, fúnebre, surdo e melancólico. Imediatamente, uma vivíssima claridade invadiu o aposento de Scrooge, ao mesmo tempo que as cortinas do seu leito foram puxadas por uma mão invisível. Porém, não eram as cortinas dos pés nem as da cabeceira do leito de Scrooge, mas as que estavam diante de seus olhos, aquelas para as quais seus olhares estavam voltados. Então Scrooge, sentandose bruscamente, achou-se frente a frente com o sobrenatural visitante que havia afastado as cortinas do leito. Era uma estranha aparição. A primeira vista, ter-se-ia a impressão de ver-se uma criança, mas, a um exame mais minucioso, verificava-se que seria antes um velho, um ancião visto através de uma atmosfera sobrenatural, que lhe dava uma aparência longínqua e o reduzia às proporções de uma criança. Seus cabelos, brancos como os de um homem de idade, caíam-lhe pelos ombros; seu rosto, entretanto, não apresentava a menor ruga, e sua tez era de uma deliciosa frescura. Os braços, longos e musculosos, bem como suas mãos robustas, denunciavam extrema força. As pernas e os pés, finamente modelados, estavam nus como os membros superiores. O ancião vestia uma túnica de puríssima alvura, apertada à cintura por uma faixa luminosa, que brilhava com refulgente esplendor; à mão, trazia um ramo de azevinho e, em fundo contraste com este símbolo do inverno, sua túnica era toda bordada de flores primaveris. Mas o que apresentava de mais curioso era o facho de luz que se desprendia do ápice de sua cabeça, e graças ao qual todos estes pormenores podiam ser not ados. Este fenômeno explicava a presença do grande apagador em forma de chapéu que trazia embaixo do braço, e com o qual devia cobrir-se em seus momentos de tristeza. Entretanto, observando-a com mais atenção, Scrooge notou que a aparição apresentava uma particularidade ainda mais extraordinária. Do mesmo modo que sua cintura resplandecia ora num ponto, ora noutro, e que um ponto ainda há pouco luminoso agora estava escuro, todo o seu corpo mudava constantemente de aspecto, mostrando-se ora com um só braço, ora com uma só perna, ou então com vinte pernas, mas sem cabeça, ou então uma cabeça sem corpo. Das várias partes que desapareciam, nem um único contorno ficava visível naquela extrema escuridão em que se envolviam. E no meio de todas estas estranhas metamorfoses, a aparição retomava, de súbito, sua primeira forma, nítida e perfeita como antes. – Sois vós o espírito, cuja visita me foi anunciada? – perguntou Scrooge. – Sim. Aquela voz era doce e agradável, mas singularmente fraca, como se, em vez de estar tão próxima, viesse de muito longe. – Então, quem sois vós? – perguntou Scrooge. – Sou o fantasma dos Natais passados. – Passados desde quando? – interrogou Scrooge, observando o seu talhe delgado. – Somente os do teu passado. Scrooge sentia um ardente desejo de vê-lo coberto com o chapéu que trazia à mão; se alguém lhe perguntasse qual a razão disto, jamais teria sabido responder. – Como? – exclamou o fantasma. – Queres tão depressa extinguir, com as tuas mãos profanas, a fulgurante luz que resplandece em mim? Não te basta seres daqueles cujas paixões me teceram este chapéu e que me forçam tantas e tantas vezes a enterrá-lo até aos olhos? Scrooge declarou respeitosamente não ter tido a menor intenção de ofender o espírito e afirmou não lembrar-se jamais de o ter forçado, em toda a sua vida, a “usar” aquele chapéu. Em seguida, atreveuse a perguntar-lhe o que o trazia ali. – Tua felicidade, – respondeu a aparição. Scrooge declarou-se profundamente agradecido, mas não deixou de pensar que uma noite de repouso teria concorrido mais eficazmente para este resultado. O espírito pareceu ler seu pensamento, pois no mesmo instante falou: – Tua salvação, se preferes. Ouve-me! Assim falando, estendeu a mão para Scrooge e tomou-o levemente pelo braço. – Levanta-te, e vem comigo. **** Teria sido inútil a Scrooge responder que nem o tempo, nem aquele momento eram propícios para um passeio a pé; que sua cama estava tão quentinha e que o termômetro estava muitos graus abaixo de zero; que, além disso, estava vestido apenas com o roupão, com o boné de noite e de chinelos, e que, para rematar, estava muito gripado. A pressão exercida pela mão do espírito, porém, tão doce como se fora a de uma mulher, era de todo irresistível. Assim, pois, Scrooge levantou-se, mas vendo que o espírito se dirigia para a janela, tocou-lhe a túnica e falou com voz súplice: – Oh, senhor! Sou apenas um mortal e posso cair! – Deixa-me apenas segurar-te por aqui, – disse o espírito pondo a mão sobre o coração de Scrooge, e serás capaz de enfrentar muitos outros perigos. Ditas estas palavras, ambos passaram através da parede e acharam-se logo numa estrada orlada de campos. A cidade havia-se evanescido, não restando dela um único traço; do mesmo modo, haviam desaparecido a noite e o nevoeiro, fazendo agora um tempo hibernal claro e frio, com a terra coberta pela neve. – Bondade divina! – exclamou Scrooge juntando as mãos. Foi aqui que fui criado! Aqui foi que passei a minha infância! O espírito envolveu-o num olhar benévolo. Embora tivesse posto a mão apenas um instante sobre o coração do velho, este julgou sentir ainda o calor daquele contato. Flutuavam no ambiente mil perfumes amigos, cada um dos quais evocava uma multidão de pensamentos, de esperanças, de alegrias e pesares passados, de muitos anos atrás . – Tens os lábios trêmulos, – observou o fantasma –, e o que estou vendo em tuas faces? Scrooge, com voz rouquenha, o que estava fora dos seus hábitos, respondeu que era uma verruga, e declarou que estava disposto a seguir o espírito para onde quer que fosse. – Reconheces o caminho? – perguntou o espírito. – Oh, se o reconheço! – respondeu Scrooge com emoção; – poderia andar por ele de olhos fechados! – É estranho que o tenhas esquecido durante tantos anos, – observou o espírito. – Vamos adiante. Ambos prosseguiram, e Scrooge ia reconhecendo à cada casa, cada árvore, cada poste. Logo a seguir, apareceu um pequeno povoado, com sua igrejinha, sua ponte e o rio sinuoso. Avistaram, então, na entrada, vários rapazes montados em hirsutos pôneis, e que se comunicavam alegremente com outros jovens montados em carriolas camponesas. Toda esta juventude transbordava de vida e de entusiasmo, e suas vozes enchiam o campo de uma música tão alegre que o ar cristalino parecia todo entrar em vibração. – São apenas sombras do passado, – disse o espírito; – elas não podem perceber a nossa presença. À medida que os alegres cavaleiros se aproximavam, Scrooge reconhecia-os e chamava-os pelo nome. Por que lhe causava tanta satisfação a presença daqueles amigos? Por que lhe batia tão descompassadamente o coração e se lhe iluminavam os olhos ao vê-los passar? Por que se sentia tão cheio de alegria ao ouvir estes rapazes trocarem mútuas felicitações e votos de feliz Natal, quando se despediam nas encruzilhadas para regressarem a suas casas? Que significava para Scrooge um “Feliz Natal”? Que vá para o diabo o .Feliz Natal.! Que proveito havia ele tirado do Natal? – A escola não está de todo deserta, – disse o espírito; – um menino solitário, abandonado pelos seus, ainda ali está. Scrooge declarou que bem o sabia, e reprimiu um soluço. Deixando a estrada principal, entraram por uma vereda, que Scrooge bem conhecia. Ao cabo de poucos instantes, chegaram a uma grande construção de tijolos vermelhos, encimada por um pequeno campanário. A casa devia ter sido importante, mas teria passado por diversos reveses, pois suas vastas dependências pareciam abandonadas, com suas paredes úmidas e emboloradas, os pisos fendidos e as portas abaladas. As aves domésticas cacarejavam à solta no pasto, e o mato havia invadido as cocheiras. Dentro, nem o mais ligeiro vestígio do seu antigo esplendor. Penetrando no silencioso vestíbulo, Scrooge e o espírito entreviram, pelas portas abertas, frias e escuras dependências parcamente mobiliadas. Casavam-se o cheiro de mofo, que flutuava no ar, e a nudez geral do ambiente, à ideia de que ali deviam levantar-se ainda com o escuro e talvez não pudessem alimentar-se quanto desejariam. **** O espírito e Scrooge dirigiram-se para uma porta ao fundo do vestíbulo. A porta abriu-se diante deles, mostrando uma vasta sala, triste e deserta, a que uma longa fila de bancos e carteiras dava ainda um aspecto mais austero. Sentado num destes bancos, um estudante solitário lia junto de um lume quase apagado. Reconhecendo o pobre menino abandonado, que era ele próprio, Scrooge sentou-se e pôs-se a chorar. Os mais insignificantes ecos desta mansão, a algazarra dos ratos atrás do madeiramento, os gemidos do vento através da galhada seca de um choupo melancólico, o ranger preguiçoso de uma porta emperrada, tudo isso eram outros tantos ecos que penetravam no coração de Scrooge e lhe enchiam a alma de uma doce emoção. Tocando-lhe o braço, o espírito mostrou-lhe o menino engolfado em sua leitura. Subitamente, um homem, vestido com um costume exótico, apareceu atrás da janela, com um machado preso à cintura e puxando pela brida um burro carregado de madeiras. – Meu Deus! Mas é Ali-Babá! – exclamou Scrooge no auge da alegria. – É o meu querido e honrado Ali-Babá! Sim, sim! Bem me lembro. Foi mesmo num dia de Natal que ele apareceu pela primeira vez, vestido exatamente desta forma, a este pequeno estudante que ficara ali sozinho. Pobre criança… E Valentino, e Orson, seu irmão mais velho… Também estou a vê-los. E como se chama, mesmo, este rapagote, que foi raptado durante o sono e deixado semi-vestido às portas de Damasco? Não o vedes? E o palafreneiro do sultão, que os deuses derrubaram por ter desposado a princesa? Lá está ele de cabeça para baixo! Pois foi muito bem feito! Quem lhe mandou querer casar com a princesa?… Que espanto para seus colegas de negócios se pudessem ouvir Scrooge a discorrer com tanto entusiasmo sobre tais coisas, com voz estranha, onde se misturavam o riso e as lágrimas, e se pudessem ver seu rosto incendiado e seu ar excitado! – Olha! – exclamou ele –, lá está o papagaio, com o corpo verde, a cauda amarela e a espécie de alface que tem na cabeça, como uma poupa. “Pobre Robinson Crusoé!”, repetia ele quando seu amo voltou, depois de inutilmente ter dado volta à ilha. “Pobre Robinson Crusoé! Onde estiveste, Robinson Crusoé?” O homem não acreditava no que via, e, entretanto, era mesmo o papagaio que falava. Agora é o Sexta-Feira, que corre desabaladamente para abrigar-se na pequena enseada. .Coragem, Sexta-Feira! Vamos! Aí, valente!. – Eu bem quisera… – murmurou ele pondo as mãos nos bolsos e olhando em redor de si, depois de enxugar os olhos com a manga do casaco. – Eu bem quisera, mas já não é mais tempo… – Que há? – perguntou o fantasma. – Nada, – disse Scrooge –, nada. Eu estava pensando num garoto, que ontem à noite cantava uma ária de Natal diante de minha porta. Eu desejaria ter-lhe dado alguma coisa. O espírito sorriu pensativamente e ergueu a mão, dizendo: – Passemos a outro Natal. A estas palavras, a sombra do Scrooge de outros tempos cresceu e a sala tomou um aspecto ainda mais sombrio e descuidado. As finas tábuas que forravam as paredes da sala racharam-se, os vidros quebraram-se, e os fragmentos, que caíram do teto, deixaram ver as vigas nuas. Como se operou esta transformação, nem Scrooge nem ninguém poderia explicar. O certo é que tudo o que via era a representação da realidade, que tudo se tinha passado exatamente assim, e que só ele lá ficara ainda uma vez, quando todos os seus colegas haviam partido festivamente para as férias em seus lares. Desta feita, não estava engolfado na leitura, mas passeava pela sala de um lado para outro, com ar sombrio. Scrooge olhou para o espírito, e depois, abanando tristemente a cabeça, lançou um ansioso olhar para a porta. Esta abriu-se, e uma garotinha, muito mais nova que o estudante, apareceu na sala, enlaçou-lhe o pescoço com os braços e estreitou-o repetidas vezes, chamando-lhe “meu querido”, „querido irmãozinho&#8223;. – Venho chamar-te para levar-te para casa, meu adorado! – disse ela, batendo palmas e rindo-se alegremente. Sim, levar-te para casa, para casa, para casa! – Para casa? Será possível, querida Fani? – Mas é claro! – disse a criança, radiosa. – Para casa, sim senhor! Papai ficou tão bom, que agora nossa casa é um verdadeiro paraíso. Uma destas noites, quando eu ia deitar-me, ele falou-me com tamanha ternura, que me atrevi a perguntar-lhe se irias regressar breve. Ele respondeu que sim, e mandou-me que viesse buscar-te com o nosso carro. Agora estás quase um homem, prosseguiu a criança, e nunca mais virás para cá. Mas, para começar, vamos festejar juntos o Natal, o mais alegremente que pudermos. – E tu? Estás já uma verdadeira mulherzinha, Fani! – exclamou o rapazinho. A garota bateu palmas novamente, rindo-se, e ia acariciar-lhe a cabeça, mas, pequenina como era, teve de pôr-se na ponta dos pés, o que a fez rir. Depois, com pueril impaciência, puxou-o para a porta, e ele não se fez de rogado para acompanhá-la. No vestíbulo, ouviu-se uma voz terrível: – Tragam a mala do menino Scrooge! E na mesma hora, no vestíbulo, apareceu o próprio dono da pensão, que envolveu Scrooge com um olhar de feroz condescendência, e lhe causou uma confusão extrema ao lhe dar um aperto de mão. Depois, levando-os para um horrível cubículo gelado, que servia de salão, onde as cartas geográficas suspensas às paredes, e os mapasmúndi das vitrinas estavam recobertos de uma barrela viscosa, apresentou-lhes um frasco de um vidro singularmente pesado, ao mesmo tempo que mandava perguntar ao cocheiro, por uma criada extremamente magra, se era servido de tomar um cálice de “qualquer coisa”, ao que este respondeu que agradecia a gentileza, e que só aceitaria se não fosse a zurrapa ordinária da última vez. Colocada a mala do aluno Scrooge, os dois irmãos despediram-se do dono da pensão e tomaram assento alegremente no carro, que logo se pôs a rodar pela pequena avenida do jardim, fazendo voar, à sua passagem, estilhaços de neve, que cobriam os arbustos de azevinho como branca espuma. – Era uma delicada criatura, sensível à mais leve carícia, e dona de um grande coração, – disse o espírito. – Sim, um grande coração, – exclamou Scrooge. – Tendes razão, Espírito. Não serei eu quem vos dirá o contrário. – Morreu casadinha de novo, – disse o espírito, e deixou filhos, parece-me. – Um filho, – retificou Scrooge. – Ou isso, – disse o espírito. Teu sobrinho. Scrooge aquiesceu, com ar desajeitado. **** Mal deixaram o pensionato, logo se encontraram nas ruas movimentadas de uma grande cidade, por onde os transeuntes iam e vinham sobre os passeios, enquanto os carros disputavam a passagem e o tumulto e a agitação dos grandes centros faziam lembrar um campo de batalha. O aspecto das lojas indicava claramente que se estava de novo na época do Natal. Era noite, e as ruas estavam iluminadas. O espírito deteve-se diante da porta de uma loja e perguntou a Scrooge se a reconhecia. –Oh, se a reconheço! Não foi aqui que comecei o meu aprendizado? Ambos entraram. Um ancião, com uma peruca na cabeça, estava sentado em uma carteira tão alta, que mais umas polegadas e sua cabeça teria tocado o teto. À vista dele, Scrooge exclamou emocionado: – Meu Deus! Mas é o velho Fezziwig! Louvado seja Deus! É o velho Fezziwig ressuscitado! O velho Fezziwig pousou a caneta e olhou para o relógio, que marcava sete horas. Depois, esfregando as mãos, reajustou o largo colete, deu uma gargalhada que o sacudiu da cabeça aos pés, e berrou com voz sonora, plena, rica, grossa e jovial: – Olá, Ebenezer! Dick! O velho Scrooge, tornado agora um jovem, correu apressadamente, como o seu colega de aprendizado: – Ora esta! É Dick Williams! – disse Scrooge ao espírito. – É fato! É realmente ele, que foi sempre muito agarrado comigo, o bom rapaz! Pobre Dick! Meu Deus! Meu Deus! – Olá, rapazes! – exclamou Fezziwig –, o dia terminou. – Amanhã é Natal, Dick! É Natal, Ebenezer! – Fechem a loja, – gritou Fezziwig batendo palmas, e que os ferrolhos sejam ajustados imediatamente, antes que eu tenha tempo de dizer: Jack Robinson! Ninguém poderia imaginar a rapidez com que estes bravos rapazes cumpriram a ordem. Ambos se precipitaram para a rua com os ferrolhos… um… dois… três… ajustaram; quatro… cinco… seis… puseram as barras e as cunhas; sete… oito… nove… tornaram a entrar, resfolegando como cavalos de corrida, antes que tivessem tempo de contar até doze. – Vamos, adiante! – berrou o velho Fezziwig, pulando de sua escrivaninha com surpreendente agilidade. – Vamos, criançada! Desocupem tudo, arranjem o maior espaço possível! Arranjar espaço? Mas eles seriam capazes de desmontar tudo sob as ordens animadoras do velho Fezziwig! Em menos de um minuto, tudo estava pronto. Tudo que podia ser transportado foi tirado e levado para outras partes como se para desaparecer de uma vez da face da terra. O soalho foi varrido e encerado, os candelabros espanados, a lareira reabastecida. Dentro em breve, o armazém estava transformado em um belo salão de baile, tão confortável e bem iluminado quanto se poderia desejar numa noite de inverno. Neste instante, chegou o rabequista com um caderno de música. Empoleirando-se no alto de um estrado, e sob pretexto de afinar o instrumento, acabou por tirar dele apenas insuportáveis chiados. A seguir, entrou a senhora Fezziwig, cuja pessoa era inteirinha um vasto sorriso. Entraram, depois, as três meninas Fezziwig, radiantes e adoráveis, seguidas de seis rapagotes, cujos corações elas pisavam. Vieram, a seguir, todas as moças e moços que trabalhavam na loja, e mais a criada com seu primo e mais o padeiro. Vieram, depois, a cozinheira com o amigo íntimo de seu irmão, o leiteiro, o pequeno aprendiz da loja fronteira, que parecia passar fome em casa de seu patrão, e que procurava esconder-se por detrás da criadinha. Uns após outros, todos entraram, uns timidamente, outros afoitamente, estes com graça, aqueles desajeitados; uns empurrando os companheiros, outros puxando-os. Finalmente, de um modo ou de outro, todos entraram. Começada a festa, todos se puseram a dançar – vinte pares a um tempo – executando passos vários,</description>
      <pubDate>Thu, 12 Dec 2019 11:00:52 +0000</pubDate>
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      <title>Quem somos nós, por que somos, pra onde vamos?</title>
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      <description>            Respondendo a algumas perguntas...&lt;br /&gt;      Em termos gerais, e bem francamente, algumas perguntas só fazem sentido no contexto humano. Você só se faz certas perguntas porque vive certas experiências. Os animais, por exemplo, não se fazem perguntas ontológicas, porque a simples existência deles já os bastam. As perguntas não existiriam, e nem fariam sentido, sem o ente que a formula, e dentro da experiência dele. Devemos, então, responder as suas perguntas entendendo as suas experiências, mas, devemos, para isso, também usar da nossa própria bagagem de vivência, ou então não faria sentido respondê-las, ou mesmo, não haveriam respostas.&lt;br /&gt;      O gênero humano ainda leva em consideração a ideia de tempo. Isso é um obstáculo, quando se procura responder a alguns  questionamentos profundos acerca da natureza da realidade. Vocês ainda levam em conta a noção de se partir de um início para se chegar a um final. Quanto mais este início for incomensuravelmente distante, ainda mais será o final. Vocês ainda tomam por consideração uma &quot;evolução&quot; linear, que supostamente parte de um ponto zero até algum momento no futuro, ainda que distante, onde se tornarão perfeitos e não mais terão o que fazer. Em grande parte isso é culpa da natureza do ego atual, e da identificação dele consigo mesmo e individualmente, como se fosse uma partícula num espaço profundo. Mas devemos começar a responder as perguntas por aí, por que essa ideia não retrata a verdade. &lt;br /&gt;     Para começar, devemos já ir dizendo que a vida humana como você a conhece, não foi feita para lhe atribular, para lhe chatear, para despertar em vocês revolta ou desprezo, para incutir no homem perguntas que, verdadeiramente e no fundo, pretende é entender a natureza do &quot;sofrimento&quot; humano. O sofrimento não existe. Calma. Sabemos o que pensam disso, e sei também, como já disseram, que falamos isso de nosso ponto de vista, e, humoristicamente, ele é mais alto do que o seu. Se eu fosse um ser humano, e contemplasse a vida de seu mundo material, com certeza eu estaria no alto do Everest, olhando as paisagens do mundo a minha volta, e você ainda estaria no sopé da montanha, tendo ela mesma a obscurecer toda a sua visão. No entanto, é necessário que entenda agora: o mal não é inerente à natureza, assim como o bem também não. Mas calma, você irá entender...&lt;br /&gt;         A Consciência que você é, e acredite, não é apenas o você que você conhece, pois esse você atual só é o seu ego entendendo a experiência material atual. Essa Consciência é mais antiga que o planeta terra, embora insistimos, o tempo não é o que você pensa dele. Dentro de sua psique existe um conglomerado de Consciências, que em conjunto, formará a sua identidade real. Quando você dorme você desperta uma consciência, em vigília você usa outra, agora mesmo, desperto, enquanto lê, há uma outra parte de sua Consciência que está travando verdadeiros diálogos com outros em outros lugares e tempos, e você sequer suspeita disso. A natureza da Consciência é móvel, infinita e entrelaçada. A função do ego, bastante nobremente, é fingir que se esqueceu disso, para se concentrar no aqui e agora, e aí... você constrói o seu tempo e o seu espaço, bem literalmente.&lt;br /&gt;       Pois bem. A Consciência é a criadora. O que você chama de matéria, tempo e espaço, não tem existência fora da Consciência. Então, aquilo que você acredita você achará. Mas, lembre-se, você não é só o ego, existem personalidades profundas dentro de você, outras camadas dos &quot;eus&quot; por assim dizer, que leem e absorvem o mundo à sua maneira. Como exemplo, talvez algo que lhe fora dito há muito tempo, ou algo que lhe marcara profundamente fora esquecido pelo ego externo, mas o ego interno ainda o guarda e trabalha com isso.&lt;br /&gt;       Em minha realidade, como já dissemos, não há intervalo entre um desejo, um pensamento ou uma intenção e a sua inerente manifestação. Precisamos &quot;treinar&quot; muito (com humor) para ter a disciplina de realizar isso sem &quot;arrepender-se&quot; depois. Um dos campos de &quot;treinamento&quot; é a sua amada Terra. Entendemos que cada ato nosso influencia os outros, a nós mesmos e cria universos, por assim dizer. Nada disso é para te fazer parecer pequeno, pois essa é sua herança, e mesmo agora a espécie humana cria universos por si mesmos, e a Terra é um exemplo disso. Vocês estão aprendendo a manipular vários pensamentos ao mesmo tempo, vários ambientes e a criarem e manifestarem os seus pensamentos. Aprendendo como isso afeta os outros e a si mesmos. E a única diferença entre você e eu, é que para você parece que há um tempo entre o pensamento e a sua manifestação em sua realidade. &lt;br /&gt;          Todo o seu mundo é o que você é agora. Se você está insatisfeito com a sua realidade, sugiro, mude algo dentro de você. Muito dirão: &quot;Ah... mas eu tenho bons pensamentos e desejos, desejo coisas que não me acontecem. Por que alguns tem uma vida melhor que a minha?&quot;... E por aí vai. &lt;br /&gt;          Primeiro. Você REALMENTE traz consigo pensamentos construtivos, ou artificialmente os impele, para apaziguar o &quot;sofrimento&quot;? Pense nisso. Você REALMENTE,  do FUNDO de sua ALMA, deseja ser próspero, saudável e feliz? Ou sugestões e experiências da infância sugerem a você que a riqueza é imunda, a saúde é frágil e a felicidade inalcançável? Também pense nisso... Lembre-se, você não é só o ego... Existem camadas profundas de sua personalidade que também absorvem experiências, mas mesmo essas camadas podem ser mudadas, pois a natureza da realidade é mutável e adaptável, e você contempla isso na sua realidade, na sua chamada natureza, na característica &quot;evolutiva&quot; das formas biológicas.&lt;br /&gt;         Sem querer parecer piegas, ou clichê, mas você deve AMAR para afirmar nas camadas mais profundas do seu eu, quem você realmente É.&lt;br /&gt;Quem odeia a guerra, trará a guerra. Quem ama a Paz, encontrará a Paz. Você notará em sua vida, de que quanto mais odiar uma coisa, mais parecerá atraí-la. Isso é porque algo que você odeia costuma fixar-se mais fácil em seus pensamentos e expectativas, assim como aquilo que você ama...&lt;br /&gt;          Civilizações, como aquelas que você costuma usar para balizar a sua noção de felicidade ou realização, o que você chama de países desenvolvidos, atravessaram revezes profundos até chegarem onde chegaram. Eles aprenderam a duras penas a amar o que desfrutam hoje, por não terem tido antes, e por terem passado profundas necessidades. O desejo de paz e prosperidade foi forjado a duras penas em seus corações, e embora isso esteja se arrefecendo no coração deles, assim como nos seus, foi assim que se deu.&lt;br /&gt;         O homem é o que ele ama. Isso já foi dito antes e será dito sempre, principalmente quando for completamente esquecido. &lt;br /&gt;          Concentração, pensamento e vontade são tudo. Isso misturado às emoções criam realidades. Estamos ensinando vocês a serem magos. Magos, em sua origem etimológica nada tinha a ver com o contexto atual, mas pretendia significar homens sábios. Da mesma forma como os seus cientistas são considerados hoje. No entanto, a ciência virou a sua atenção apenas para espectro material da experiência, esquecendo-se dos demais aspectos da experiência humana.&lt;br /&gt;         Em círculos exclusivos e &quot;clubinhos&quot;, por assim dizer, costumava-se dizer que não se deveria &quot;dar pérolas aos porcos&quot;. Já que porcos não saberiam o que fazer com elas. Uma sentença infeliz, pois quanto mais disseminado for o conhecimento, mais chances de se melhorar uma comunidade se terá. Mas, claro, ainda deve-se contar com o fator egoísmo, nos seres humanos. Esse ditado não apenas permeia círculos misticos mas também acadêmicos. Em verdade, este ditado oculta o medo de certas elites em compartilhar o conhecimento, pois como todos já sabem, saber é poder.&lt;br /&gt;         Então, o gênero humano é um amalgama de Consciências. Assim como, cada um de vocês é um amalgama de células, todas elas trabalhando harmoniosamente para fazer você quem você é, e você quase nunca se dá conta disso. Você também quase não se dá conta, que partiu de duas células completamente diferentes uma da outra, doadas por outros dois seres também completamente diferentes uns dos outros, e de que essas duas células originaram as trilhões de células de que agora você é feito. E ainda mais, de que todas as células, de todos os seres humanos juntos, vivos e mortos, ao longo de sua história, partiram, novamente, de uma única célula primordial. Todas as infinitas células que já existiram ou existirão, são filhas de uma única, numa remota origem, em seus termos. Isso fazem de vocês irmãos, quer entendam isso, ou não. Essas Consciências, em conjunto, trabalham para criar a estupenda experiência de Ser, e criam mundos para experimentarem e se entenderem. E isso não teve inicio, e nem terá fim. Pois o que você chama de átomo, revolvendo-se na terra, é uma consciência, que experimenta ao mesmo tempo a faculdade de ser átomo e ser deus. &lt;br /&gt;       Por que disso? Podemos dizer, em sua linguagem, que é a razão de ser Ser. Ser é existir, e existir é experienciar tudo! Não poderia ser diferente ou mais justificável do que isso. O prazer inerente em criar e ser criado, constantemente. Num momento você tem uma cor que acha linda, no outro, descobre outra ainda mais esplendida! E quando você acha que já viu tudo, tem toda uma maravilhosa infinidade a sua frente. Não há como descrever, de uma forma que possam entender. &lt;br /&gt;       Como não há lugar... como não existem espaços, então, você não vai a lugar algum. Você já está lá! Você sempre esteve. Todo o universo imaginável por você é o seu lar. Quanto maior for a sua capacidade de imaginar, pensar e sonhar, maiores serão os seus limites, e não importa quão distante for, você estará aqui, e onde quiser estar.&lt;br /&gt;        Você pode criar em si o mal e o bem. Você é livre! Por isso dissemos no inicio, que intrinsecamente, nenhum deles existe por si mesmos. Quando você começar a se importar de como as suas criações afetam os outros ao seu redor, talvez então você esteja pronto para novas jornadas. Esse é o ponto delimitador. Quando considerar o outro, considerará a si mesmo. Uma célula pode afetar outras ao seu redor, positivamente ou negativamente. Assim como você. É você quem decide quem vai ser, acima de todas as perguntas há essa: Você pode ser o câncer ou a luz ao seu redor, quem você deseja ser? Como todas as outras respostas, essa cabe a você.</description>
      <pubDate>Thu, 20 Dec 2018 11:29:51 +0000</pubDate>
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      <title>Os sete espíritos</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=340973</link>
      <description>     Observe bem. É bem possível que se você se atentar para as pessoas ao seu redor, das que cruza na rua até as que você convive, poderá perceber um padrão de comportamento que se repete ou se assemelha bastante. Da linguagem corporal, da forma de andar, das inclinações,  gostos e pensamentos. Da forma como usam o olhar, na forma como inclinam o pescoço, como se comportam em diversas situações, como veem o mundo... enfim, certos comportamentos vão se repetindo nas diversas pessoas que conhecerá em sua vida. Não importa em que país você esteja, que cultura enverga sobre essa pessoa, ou mesmo em que tempo ela viva, alguém como ela - semelhante a ela - poderá ser encontrada. Isso, é claro, não tira a individualidade de cada ser, e de que cada humano no mundo tem a sua história e a sua experiência e que cada um é de Fato, Insubstituível! A sua experiência de vida é única no universo, e é por isso que você existe. No entanto, em seus termos, sete entidades vivem a experiência humana como você a entende, e são elas que estão refletidas no espelho da alma de cada um que já passou ou passará pelo mundo, na forma como vocês entendem a realidade. &lt;br /&gt;     Para demonstrar mais ainda a rigidez das palavras para descrever uma realidade multidimensional, e a dificuldade em traduzir em termos humanos certas realidades, essas sete entidades é apenas uma, e essa uma pertence a infinitos Seres. &lt;br /&gt;     Não estamos falando aqui de pessoas introvertidas e extrovertidas, pessoas boas ou más, indiferentes ou interessadas... Estamos falando de espectros de comportamentos que estão no âmago de cada personalidades destas, e que vão se repetindo, se observar com carinho cada uma delas. Muitos aspectos da personalidade humana são criados devido ao meio ambiente, aos relacionamentos pessoais, à experiência de vida, aos acontecimentos ao longo do caminho, entre outros fatores. Estamos falando do que está além disso, um comportamento mais profundo, inerente a essas sete personalidades. &lt;br /&gt;      Elas, em seus termos, experimentam o mundo através dos olhos de cada ser humano que está vivo, ou em seus termos, mortos. O que vocês chamam de tempo ou espaço é somente a forma como interpretam a experiencia delas. Toda a realidade se justifica pela experiência. E assim o universo vai se desabrochando, e cada pétala que abre é uma experiencia nova e inigualável de infinitude, cada pétala é um mundo e um universo sem fim por ela mesma. &lt;br /&gt;       Vocês têm dicas sobre isso em sua chamada natureza, e como já dissemos, o universo fala contigo. Padrões de sete podem ser encontrados na sua realidade, em seus números, nas suas moléculas  químicas, biológicas, nos espectros da luz, do som, e mesmo psicológicos ilustram o sussurro de uma realidade subjacente e maior.&lt;br /&gt;       A humanidade repete-se, as histórias se repetem, as mesmas coisas são contadas em linguagem e metáforas diferentes, e tudo isso por causa da sua maneira de interpretar o tempo o espaço a sua volta. &lt;br /&gt;       Dentro desse aparente ciclo repetitivo, você tem se estudado, para descobrir quem você é. Em seus erros e acertos você se torna único. Quem você deseja ser, é com você. Mas aprenderá que tudo o que você é, reflete de volta para si. Dos maiores, ao menores atos. Pois na realidade verdadeira, não existe em cima ou embaixo, preto ou branco, pequeno ou grande... </description>
      <pubDate>Fri, 14 Dec 2018 10:33:47 +0000</pubDate>
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      <title>O mundo através dos &quot;meus&quot; olhos</title>
      <link>https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=340726</link>
      <description>   Quando aconteceu eu ainda era uma criança. Eu estava voltando para casa, era tarde, talvez umas quatro da tarde, talvez um pouco menos. O sol estava quente, era primavera, e eu vinha pela margem da rua, pensando em chegar logo para ligar o meu videogame e jogá-lo num daqueles raros momentos de satisfação que eu tinha.  &lt;br /&gt;     De repente, não mais que de repente, senti meus ouvidos pararem quando a pressão muda dentro de um avião enquanto ele desce. Senti-me afastado da cena diante de mim, como se estivesse envolvido em uma bolha, incapaz de agir de maneira mais mecânica. Eu levantei meu pé direito para caminhar e colidi de frente com uma força invisível que entrou em minha consciência como uma vara de dinamite explodindo silenciosamente, abrindo a porta da minha consciência usual e saindo de suas dobradiças, dividindo-me em dois. No espaço aberto que apareceu, o que eu tinha anteriormente chamado de &quot;eu&quot; foi forçado a sair de sua localização habitual dentro de mim para um novo local que ficava a aproximadamente um pé atrás e à esquerda da minha cabeça. &quot;Eu&quot; estava agora atrás do meu corpo olhando para o mundo sem usar os olhos do corpo.&lt;br /&gt;      De uma posição não localizada em algum lugar atrás e à esquerda, pude ver meu corpo na frente e muito longe. Todos os sinais do corpo pareciam levar muito tempo para serem captados nesse lugar não localizado, como se fosse uma luz vinda de uma estrela distante. &lt;br /&gt;       Absolutamente em pânico, olhei em volta, imaginando se alguém havia notado alguma coisa. Todos os outros transeuntes passavam calmamente, seguindo suas vidas. Eu balancei a cabeça algumas vezes, na esperança de sacudir minha consciência de volta ao lugar, mas nada mudou. Minha mente tinha completamente parado no choque da colisão abrupta com o que quer que tenha desalojado minha realidade anterior.&lt;br /&gt;       Embora minha voz continuasse falando de maneira coerente, senti-me completamente desconectado dela. O rosto das pessoas ao meu lado pareciam distantes, e o ar entre nós parecia nebuloso, como se estivesse cheio de uma sopa espessa e luminosa. Eu podia sentir o suor escorrendo pelos meus braços e descendo pelo meu rosto. Eu estava apavorado.&lt;br /&gt;    Enquanto eu andava os três quarteirões para casa, tentei me recompor em um pedaço focando no meu corpo e me colocando de volta onde eu pensei que pertencia a fim de recuperar a sensação normal de ver através dos olhos do corpo, falando através de a boca do corpo e a audição através das orelhas do corpo. A força da vontade falhou miseravelmente. Em vez de experimentar através dos sentidos físicos, eu estava balançando atrás do corpo como uma boia no mar. Solto da solidez sensorial, separado e testemunhando o corpo de uma grande distância, desci a rua como uma nuvem de consciência seguindo um corpo que parecia simultaneamente familiar e estrangeiro. Havia um apego incompreensível a esse corpo, embora já não parecesse &quot;meu&quot;.&lt;br /&gt;     Incapaz de dar sentido a esse estado, a mente alternava-se entre correr descontroladamente, numa tentativa de colocar o &quot;eu&quot; de volta e desligá-lo completamente, deixando apenas o zumbido vazio do espaço reverberando nos ouvidos. A testemunha era absolutamente distinta da mente, do corpo e das emoções, e a posição que ocupava, atrás e à esquerda da cabeça, permanecia constante. A distância profunda entre a testemunha e a mente, corpo e emoções parecia provocar o pânico em si e por si, devido à sensação de estar tão timidamente preso à existência física. Nesse estado de testemunho, a existência física era vivenciada como estando à beira da dissolução, e o físico respondia invocando um medo de aniquilação de proporções monumentais!!&lt;br /&gt;      Quando entrei na casa da minha avó, alguns quarteirões antes da minha, porque, claro, eu queria parar no próximo porto seguro que encontrasse, minha tia levantou os olhos do livro para me cumprimentar. A voz suave dela me assustava, como se ela gritasse ao invés de falar, e o som que eu ouvia doía, embora eu não soubesse dizer, doer o quê?! Cumprimentei-a com calma, como se nada estivesse errado, conversando normalmente. Não havia maneira concebível de explicar nada disso a ela, então, nem tentei. O terror estava aumentando rapidamente, e o corpo estava em pânico, o suor escorria pelos seus flancos, mãos frias e trêmulas, o coração bombeando furiosamente. A mente clicou no modo de sobrevivência e começou a procurar por distrações. Talvez se eu tomasse um banho ou uma soneca, ou comesse alguma comida, ou assistisse televisão.&lt;br /&gt;        A coisa toda era um pesadelo inacreditável. A mente (eu não podia mais chamar isso de &quot;minha&quot; mente) estava tentando encontrar alguma explicação para essa ocorrência claramente inexplicável. O corpo moveu-se além do terror em um horror frenético, dando origem a tal exaustão física absoluta que o sono se tornou a única opção possível. O sono chegou, mas a testemunha continuou, testemunhando o sono de sua posição atrás do corpo! Essa foi a experiência mais estranha. A mente estava definitivamente adormecida, mas algo estava ao mesmo tempo acordado.&lt;br /&gt;       Já em casa, depois da noite, no momento em que os olhos se abriram na manhã seguinte, a mente explodiu em preocupação. Isso é loucura? É isso que as pessoas chamam de colapso nervoso? Depressão? O que tinha acontecido? E isso nunca iria parar? &lt;br /&gt;      A mente estava tão sobrecarregada por sua incapacidade de compreender o estado atual da existência que não poderia ser distraído. Ele permaneceu preso aos dilemas incompreensíveis e incontestáveis; que foram gerados em um fluxo ininterrupto deste estado testemunhal de consciência. Havia a sensação de estar numa espécie de limite, uma fronteira entre existir e não existir, e a mente acreditava que, se não mantivesse o pensamento da existência, a própria existência cessaria. Encarregada dessa diretriz aparentemente de vida ou morte, a mente lutava para manter esse pensamento, apenas para se exaurir depois de várias horas intermitentes. A mente estava em agonia enquanto tentava corajosamente entender algo que nunca poderia compreender, e o corpo respondeu à angústia da mente ao se trancar no modo de sobrevivência, com a adrenalina acelerada e os sentidos aperfeiçoados.&lt;br /&gt;      Surgiu o pensamento de que, talvez, essa experiência de testemunho fosse o estado da Consciência expandida. Não sei de onde tirei isso, eu tinha onze anos, mas a mente imediatamente descartou essa possibilidade porque parecia impossível que o reino infernal que eu estava habitando pudesse ter algo a ver com a Consciência Cósmica.&lt;br /&gt;       O testemunho persuadiu durante meses, e cada momento era excruciante. Viver à beira da dissolução por semanas a fio é estressante e inacreditável, e a única pausa foi o esquecimento do sono no qual mergulhei o quanto antes e com a maior frequência possível. No sono, a mente finalmente parou de bombear sua ladainha incessante de terror, e a testemunha foi deixada para testemunhar uma mente inconsciente.&lt;br /&gt;        Depois de meses desta consciência de testemunha mistificadora, algo mudou mais uma vez: a testemunha desapareceu. Esse novo estado era muito mais desconcertante e, conseqüentemente, mais aterrorizante do que a experiência dos meses anteriores. Pode-se imaginar que um grande peso teria desaparecido quando a testemunha desapareceu, mas o oposto era verdadeiro. O desaparecimento da testemunha significou o desaparecimento dos últimos vestígios da experiência da identidade pessoal. A testemunha pelo menos tinha um local para um &quot;eu&quot;, embora distante. Na dissolução da testemunha, literalmente não havia mais experiência de um &quot;eu&quot;. A experiência da identidade pessoal foi desligada e nunca mais apareceu de novo.&lt;br /&gt;         O eu pessoal desapareceu, mas aqui estava um corpo e uma mente que ainda existia vazia de qualquer um que os ocupasse. A experiência de viver sem uma identidade pessoal, sem uma experiência de ser alguém, um &quot;eu&quot; ou um &quot;mim&quot; é extremamente difícil de descrever, mas é absolutamente inconfundível. Não pode ser confundido com um dia ruim ou com a gripe ou sentir-se chateado, zangado ou espaçado. Quando o eu pessoal desaparece, não há ninguém dentro que possa ser localizado como você. O corpo é apenas um esboço, vazio de tudo o que antes se sentia tão cheio.&lt;br /&gt;           A mente, o corpo e as emoções não se referiam mais a ninguém - não havia ninguém que pensasse, ninguém que sentisse, ninguém que percebesse. No entanto, a mente, o corpo e as emoções continuaram a funcionar intactos; aparentemente eles não precisavam de um &quot;eu&quot; para continuar fazendo o que sempre faziam. Pensar, sentir, perceber, falar, tudo continuou como antes, funcionando com uma suavidade que não dava nenhuma indicação do vazio por trás deles. Ninguém suspeitava que uma mudança tão radical tivesse ocorrido. Todas as conversas foram realizadas como antes; linguagem foi empregada da mesma maneira. Perguntas poderiam ser feitas e respondidas, refeições comidas, livros lidos, etc. Tudo parecia completamente normal do lado de fora, como se o mesmo &quot;eu&quot; antigo estivesse vivendo sua vida como sempre.&lt;br /&gt;      Na tentativa de entender o que ocorreu, a mente começou a trabalhar horas extras, gerando intermináveis; perguntas, todas incontestáveis. Quem pensou? Quem sentiu? Quem estava com medo? Com quem as pessoas conversavam quando falavam comigo? Quem eles estavam olhando? Por que havia um reflexo no espelho, já que não havia ninguém lá? Por que esses olhos se abriram de manhã? Por que esse corpo continua? Quem estava morando? A vida tornou-se um longo e ininterrupto pensamento, eternamente insolúvel, eternamente misterioso, completamente fora do alcance da capacidade de compreensão da mente.&lt;br /&gt;            Os momentos mais estranhos ocorreram quando qualquer referência foi feita ao meu nome. Se eu tivesse que escrevê-lo ou ouvi-lo, eu olharia para as letras no papel e a mente se afogaria em perplexidade. O nome não se refere a ninguém. Não havia mais essa pessoa; talvez nunca houvesse existido. Há uma virada para o interior que ocorre quando a mente procura informações internas, seja sobre sentimentos ou pensamentos ou conexão com um nome ou experiência interna de qualquer tipo. Isso geralmente é chamado de introspecção. Sem um eu pessoal, o interior ou o ser interno simplesmente não existiam. O movimento de virada para dentro da mente tornou-se a mais bizarra das experiências, quando uma e outra vez encontrou o vazio total, onde anteriormente havia encontrado um objeto para perceber, um autoconceito.&lt;br /&gt;      Quanto mais confusa a mente ficava, maior o medo. Por esta altura, o corpo tinha bloqueado em um campo de terror que gerou agitação contínua nas extremidades e sudorese abundante. Minha roupa estava constantemente úmida. O pior de tudo, simultaneamente com a cessação da identidade pessoal, a experiência do sono mudou radicalmente, deixando-me sem escapar da constante consciência do vazio do eu. Dormindo e sonhando agora continha a consciência de ninguém que dormia ou sonhava, assim como o estado desperto de consciência continha a consciência de que não havia ninguém que estivesse acordado.&lt;br /&gt;        Tudo o que eu via estavam mergulhados numa cena distante e enevoada. Pensamentos estranhos ao meu começaram a povoar a minha cabeça, não eram verbais, mas eu sabia do que se tratavam, vinham de uma parte profunda de mim mesmo, mas que não era eu. Comecei a ter conexões estranhas com tudo. Poderia sentir o que as pessoas sentiam, me encontrar numa conexão profunda com a natureza, e até saber como era ser um bule de café! Uma vez, dormindo, eu era o ventilador de teto do meu quarto.  Em muitos momentos, sentia que estava prestes a perceber algo incrível e aterrorizante, e se eu aceitasse isso, eu morreria ... talvez, fisicamente.&lt;br /&gt;      Desde que me lembro, sentia que a vida é um sonho ou uma alucinação. Quando eu era criança, eu imaginava que alienígenas me ligaram a máquinas para projetar a imagem da Terra diretamente no meu cérebro. Quando eu era adolescente e tinha 20 e poucos anos, reconheci a realidade como instável e sonhava depois de ter sonhos lúcidos intensos. Li, em outras ocasiões, que algumas pessoas pensam que a vida é como uma realidade virtual, e que somos todos apenas máquinas orgânicas sem controle sobre nossos pensamentos ou ações.&lt;br /&gt;         Isso soou para mim assim por muito tempo. Vivi mais consciente da verdadeira natureza das coisas. Mas ao invés de abrir e encontrar a paz, eu me tornei tão isolado e fechado que eu não posso nem manter contato visual sem meus olhos brilharem. Tudo é superficial e falso. &lt;br /&gt;        Tudo tornou-se sem sentido e eu desejava ver o verdadeiro significado. A vida parece que é um jogo e todo mundo está apenas brincando, eles vestem seus avatares e passam a vida tentando obter o máximo de pontos. Eu não queria jogar o jogo, eu queria sair. &lt;br /&gt;      Outra coisa perturbadora que encontrei era a sensação de que não há absolutamente nada que me tornasse um indivíduo. Todas as coisas que eu poderia argumentar e que me faziam &quot;eu&quot;, outra pessoa também possuía. Não há exclusividade. Então eu entendia que não há &quot;eu&quot; ou &quot;você&quot; ou qualquer coisa. Se não houver um condutor “REAL” neste navio, também conhecido como alma ou vontade independente, então não posso ser um indivíduo. &lt;br /&gt;      Mas, com o tempo, muito mais coisas foram experimentadas e aprendidas. E embora a lente não esteja mais nebulosa, ainda vejo as coisas de um terceira perspectiva. Na ausência de um &quot;eu&quot;, outros &quot;eus&quot; pareciam se manifestar, e eles vinham de longe. Trazem com eles imagens que conheceram, sentimentos que tiveram, e até aromas que sentiram. Andando na rua, de repente posso ser &quot;transportado&quot; de uma imensa avenida movimentada, para uma paisagem rural e bucólica, de chuva constante e fina. E de lá, observar as pessoas passando, imersas em seus pensamentos e preocupações, e então, uma voz gentil chega a mim, sentenciando: &quot;não se preocupe... são apenas sombras de coisas que existiram um dia... não têm consciência de nós&quot;... E então, pego-me já deitado no quarto, contemplando o teto, quando uma janela do nada se abre, e de dentro dela salta um homenzinho que acena pra mim com olhar amistoso, e então volta para o seu estranho mundo. Não sei se tão estranho quanto aquele que conheço. &lt;br /&gt;     Assim, aos poucos, o condicionamento que tive ao chegar a este mundo vai aos poucos ruindo, desintegrando. Tenho ouvido e visto coisas maravilhosas e inacreditáveis. As mesmas &quot;vozes&quot; que me revelaram esse mundo novo afirmam que não sou louco. Sou altamente funcional, perspicaz, esperto e dono de uma memória fabulosa. Nada nunca fora encontrado em exames laboratoriais e psicológicos. Aliás, passo em todos o quais já me submeti, inclusive para exigentes concursos públicos. Para quem me vê de fora, talvez nada suspeitem, a não ser, claro, pelo ar despreocupado e desapegado que talvez exale de mim. &lt;br /&gt;    Já me fora dito que o &quot;universo&quot; ou a totalidade de tudo o que existe, experiencia a si mesmo através do ponto de vista único de ser humano. E que além da casca que ostentamos, no fundo dela, está a mesa energia, apenas vendo as coisas de angulo diferente. Talvez eu tenha me identificado mais com essa energia, do que com a noção atual de mim mesmo, e logo, do eu. &lt;br /&gt;       Sei que outras pessoas vivem a mesma experiencia, embora não conheça nenhuma pessoalmente. Tenho tentado busca-las, embora sabendo que tenho pouco tempo, praticamente falando, pois suspeito que eu saiba justamente quando irei deixar definitivamente o meu corpo, tanto em nível de detalhe quanto em causa. Mas, nada disso me assusta. Sei agora, que nunca estive dentro dele.</description>
      <pubDate>Fri, 30 Nov 2018 13:26:18 +0000</pubDate>
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