Marte Deus

Março

Poemas sobre o mês de Março

MANHÃ DE MARÇO...

 
MANHÃ DE MARÇO...
 
Manhã de Março...

Manhã de março quente e nublada,
O verão de nós vai se despedindo,
Tempo de férias de toda a garotada,
Saudades dele estou sentindo...

O outono muito próximo, chegando,
Depois dele vem o frio, as invernadas,
Com suas noites geladas de geadas,
É o inverno com o Minuano soprando...

Lembranças sempre guardo do verão,
É a estação quente e muito colorida,
Tudo é festa fica alegre o coração...

Ver crianças correndo a brincar
Parecendo que tudo tem mais vida,
A tua volta fico sempre a esperar....

♫Carol Carolina
 
MANHÃ DE MARÇO...

imelda marcos

 
certo dia. na feira da literatura do luso poemas. um poeta ambulante desta “escola”. elitista [penso]. postou no seu espaço de opinião umas linhas de sua autoria sobre um qualquer assunto que já não recordo – lembro-me que gostei – despertada a minha modesta atenção. peguei no teclado. toquei as teclas com muito jeitinho e comentei como entendi – não sei se bem ou mal. comentei com a arte que ao longo do tempo fui capaz de amealhar – não foi muita. confesso com vergonha – já fiz muitas coisas na vida. não nestas coisas da literatura. destas. infelizmente. nada sei. mas de outras que sendo menos eruditas. ensinaram-me a compreender vagarosamente o que os hábeis escritores vão escrevendo numa arte que invejo – confesso que a minha destreza para a escrita é muito modesta. mas na oralidade o desastre é multiplicado por dez – um mal nunca vem só – daí a importância da “escrituração” para os mancebos como eu – escrever é comunicar – nesta habilidade feita a punho é sempre possível voltar atrás. reescrever o que pensamos estar menos bem. repensar. voltar a reescrever – fico sempre com a sensação de que quando reescrevo a emenda é pior que o soneto – aprendi a suportar com tristeza esta marca – burro velho não aprende línguas –

[prosseguindo. penso ainda]

comentar um autor. que através da escrita. teve a mestria de conquistar a minha [leitor] atenção. deve ser gratificante – que inveja tenho desta gente que é lida – eu bem tento. mas nada. ninguém me comenta – só deus [se houvesse] e eu é que sabemos a dor que me consome o corpo – as palavras são sempre tão difíceis de juntar –

[andando]

confesso que para mim comentar é na maior parte das vezes um impulso impregnado de gratidão. com resultados quase sempre inesperados pela perturbação emocional com que me entrego ao teclado. quero dizer: desfecho de escrita duvidosa –

[raios partam a minha sorte]

é amargo para quem não tem o dom da escrita – dentro da cabeça milhentas coisas lutam desesperadamente por um lugar no papel. as ideias penetradas por um sentimento maravilhado pulam de lado para lado. empurram-se. esmagam-se e arrumam-se como podem no espaço branco de uma folha a4 sem expressarem uma milésima parte do que deveriam dizer – tanto deslumbramento e o corpo sem forma de o mostrar – e a desarrumação aos gritos no branco da folha – desordem emocional é tudo o que ganhei por um dia ter aprendido a ler –

[que inveja da cegueira dos analfabetos. nenhuma letra os atrapalha]

mas nem sempre somos o que queremos. na maior parte das vezes somos o acaso de um caso na vida – um dia o meu pai e a minha mãe resolveram dar um beijo no período fértil. aconteci – cresci a imaginar coisas e de cravo na mão parti no meio de uma manifestação a cantar zeca afonso – quando olhei para mim era homem –
[menos homem do que sou hoje. era um garoto de maior idade]
assim foi. e o tempo a fazer-me crescer e a consumir vontades – os dias eram pequeníssimos para tudo o que sonhava fazer – as coisas do saber exigiam-me tempo que não podia dar e tudo foi ficando adiado em nome de ideais que hoje já não existem –

[também o meu muro caiu. eu e berlim unidos pelo mesmo destino]

os dias tornam-se compridos e impertinentes – envelheço a sonhar com uma casa virada para o mar. um sofá. uma lareira e uma mesa carregada de saber: livros e livros de gente que não sabe que existo. eu ali estou – sozinho para eles. acompanhado de amigos para mim – todos tão diferentes e todos como eu. unidos pela força das palavras – eu e eles virados para a lareira. eu e eles a ouvir o ir e o vir do meu mar e todos felizes com tão pouco – no resto do mundo as minhas gaivotas rasgam o vento numa liberdade que nunca alcancei – se eu pudesse acontecer de novo – na cabeça a morte trágica de romeu e julieta alimenta-me a esperança de eu também partir envenenado por uma última leitura do amor da minha vida: júlio dinis – havia tanto nos livros deste homem: saber. honra. verdade. tradição. família. trabalho. esperança. amor. caridade. humildade. humanidade. havia sonhos – sempre sonhei com um mundo bom –

[adiante]

uns dias mais tarde recebi em jeito de resposta ao meu comentário um pequeníssimo amontoado de palavras. que reconheço. talvez por minha culpa. nunca fui capaz de as compreender – lembro-me de ficar irritadíssimo – resisti – ao longo de muitos dias não fui capaz de encontrar no meu conhecimento o mérito suficiente para compreender o meu ilustríssimo escrevente – fiquei arrasado. mas logo percebi que o autor escreveu tudo num superlativo absoluto sintético – não tenho estudos para superlativos – envergonhado. remeti o meu corpo ao silêncio –

[desonra pensei. e como manda a tradição do país ao melhor soldado japonês. suicidei-me no meu silêncio]

não se vive em desonra – como foi possível não ter sido capaz de interpretar um simples amontoado de palavras – sei que estavam cobertas por uma ambiguidade sarcástica – como foi possível isto acontecer – tudo isto sufocava. tudo isto era como o enrolar da jiboia. apertava cada vez mais e a asfixia total era uma questão de tempo – o que o nobre colega retratou naquele breve comentário pode ser descrito como uma pintura abstrata lírica. de cores pouco definidas. traço largo. firme e suficiente forte para abraçar toda a ingenuidade do leitor ao ponto de o deixar confuso [louco] –

[havia naquelas palavras um cheiro forte a tons pastel-terra. lembrando o outono. o cair da folha. as primeiras geadas e a morte dos mais débeis à crueldade da natureza]

lembro-me de ficar com um misto de intriga e fascínio pela imagem do avatar do colega – era arrasadora: os olhos inclinavam-se para dentro. protegidos por uns óculos de massa que mais pareciam uma prisão. a boca como se nunca tivesse falado. perfeita – a barba [percebia-se] cortada à tesoura. a tombar para a esquerda como se impõe a um verdadeiro revolucionário com estudos – toda a imagem era profundamente perturbante. uma mistura deliciosa de madre teresa de calcutá com a heroicidade de che guevara – lembro-me de pensar: a história jamais apagará um retrato como este – nunca lhe perdi a admiração. ainda hoje. em segredo. pé ante pé para não incomodar. lá vou eu dar um escapadelazinha ao seu covil de saber – fico sempre estarrecido com a humildade de quem sabe que sabe –

[sou um romântico]

fiquei tempos sem fim a olhar para as palavras. ora lia o meu comentário. ora lia a resposta ao meu comentário – hoje posso garantir com verdade que não foi nada fácil aguentar aquela dor de saber que nada sabemos – é como nas corridas de fundo no atletismo. a meio da prova. surge uma dor na zona abdominal. chamam-lhe dor de burro. confesso que não sei o porquê – na dor de burro. sabemos que dói. colocamos a mão sobre o local da dor para comprimi-la mas não há nada a fazer. só pára mesmo de doer quando paramos de correr. neste caso de ler – assim fiz. e logo a dor parou – hoje à distância do tempo já gasto. lembro-me do local da dor e de um pequeno excerto do comentário que originou uma das piores dores de burro que tive na vida – dizia o meu caro colega que as minhas palavras lhe traziam à memória imelda marcos pela adoração que esta tinha por sapatos – este comentário mudou a minha vida – hoje sou um comprador compulsivo de sapatos. fanático e sem tratamento – tudo faço para embelezar os pés – aprendi que é absolutamente necessário estar bem calçado para que a escrita se torne credível. formosa e principalmente lida – nunca escrevo descalço. não. nunca mais quero ter aquela dor de burro –

[escrevi. li. pensei. escrevi e passaram-se provavelmente dois anos]

e agora vou dormir em paz

sampaio rego – 22 de julho de 2013
 
imelda marcos

31 DE MARÇO, 1974, DEZ ANOS DEPOIS DO GOLPE MILITAR NO BRASIL

 
hoje, 7 de setembro, data da nossa independência. para todos aqueles que não viram e não viveram a barbárie que foi a ditadura militar no brasil.e dedico também a todos aqueles e aquelas que desapareceram nos porões da ditadura e não puderam contar esta história. triste história.

Uma epígrafe:

"Ame-o ou deixe-o."

slogan imposto pela ditadura. melhor foi deixar, pra não morrer.

mas que me importa a roupa suja do poema
espalhada pelo chão do quarto de dormir?
se a minha vida está por um telefonema
basta - diz que eu não estou desisto de existir

agora esquece - se esconde em qualquer cinema
e caso a pipoca esteja dura de engolir
avisa que eu saí na banda de ipanema
tomei além da conta só pra me distrair

porém se a polícia bater na sua porta
ninguém nunca me viu nem ouviu falar de mim
não sabes baby como isto me desconforta

põe fogo nos livros dói mas tem de ser assim
chegou tarde tarde demais inês é morta
vou me embora correndo pra guajará-mirim

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júlio
 
31 DE MARÇO, 1974, DEZ ANOS DEPOIS DO  GOLPE MILITAR NO BRASIL

31 DE MARÇO DE 1974, NO 10º ANIVERSÁRIO DA DITADURA MILITAR NO BRASIL (republicação)

 
"Brasil, ame-o ou deixe-o."

- Slogan criado pela ditadura -

mas que me importa a roupa suja do poema
espalhada pelo chão do quarto de dormir?
minha vida amor tá por um telefonema
bosta! - fala que eu não tô - desisto de existir

agora esquece: se esconde em qualquer cinema
e caso a pipoca esteja dura de engolir
avisa que eu saí na Banda de Ipanema
tomei além da conta só pra me distrair

porém se a polícia bater na tua porta
ninguém nunca me viu nem ouviu falar de mim
não sabes baby como isso me desconforta

põe fogo nos livros dói mas tem de ser assim
chegou tarde tarde demais inês é morta
vou m'embora correndo pra guajará-mirim

_______________

júlio
 
31 DE MARÇO DE 1974, NO  10º ANIVERSÁRIO DA DITADURA MILITAR NO BRASIL (republicação)

Para dia 19 de Março

 
Para dia 19 de Março
 
Dia do Pai,
Daquele que foi José
Pai de Cristo
Jesus de Nazaré...
Dia do Pai,
Do meu Pai,
Ele que também foi José...
Lembro-me desse Pai
Que perdi há tanto tempo
E em quem penso
Especialmente neste dia.
Mando-lhe um beijo
Pelo meu amigo vento...
Chamo a saudade
Para me fazer companhia ...

Beijos Pai!...
 
Para dia 19 de Março

trago em mim - recitado (Março 2014)

 
 
(com legendas)
 
trago em mim - recitado (Março 2014)

Março 1979

 
Os dias seguintes
à última viagem de regresso a Lisboa
(Março 1979)

Muitos caminhos percorridos, outros corridos,
tropeçando em pedras (reencontros)
E eu fintava-as feito jogador.
Aprendi que deveria deixar por lá as pedras
e passar ao lado, não olhando para trás,
seguindo novamente o caminho por seguir.

Passei por uma estrada de ferro.
Com o comboio a todo vapor,
o maquinista em nove meses
com intervalos de três em três meses,
passou tão rápido e levou três passageiros
- eu, tu e um amor-.

Não escutei o apito, veio em surdina,
e não tive tempo de dar um adeus,
já tinhas virado costas.

O comboio partiu, e com as paragens e partidas,
lá permaneci nos trilhos trincados,
coração partido com partidas inesperadas e momentâneas
por mais cinco meses nos levando em prolongada viagem.

Desta vez o maquinista esperou mais um tempinho,
apitou fraco, mas eu escutei e depois de oito meses,
lá chegava o trem com seu maquinista para buscar mais um passageiro,
a minha esperança e um amor.

A minha locomotiva além de parar por algum tempo,
perdeu o referencial de tudo.
Mesmo assim, continuámos a seguir, permanecendo dois.

A estrada de ferro, por enquanto está desactivada
A locomotiva parada define meu estilo de vida presente
que muitas vezes, sem querer, se reflecte no que escrevo.

Porque os fios da carne, a força interior que tenho e como encaro a vida
São tão pequenos ao comparar com os caminhos de pedras, a estrada de ferro e a locomotiva
E são o trilho da minha futura vida.
23 Dezembro 1979

Mary/Eureka

In "Momentos registados"
Prosa e poesia para contar pedaços da Vida.
 
Março 1979

DOIS DE MARÇO

 
DOIS DE MARÇO

O curioso é ver como as pessoas se relacionam.

A gente se conhece, se desconhece e se reconhece: É como um ciclo cada relação!
E amadurecer talvez signifique entender esse ciclo. Ponderar sobre o momento de cada um.

Sim, nesse momento posso estar desconhecendo alguém que conheci para a reconhecer...
Meus olhos param de procurar outros olhos e se encantar com outros sorrisos.
Meu coração parece hibernar, batendo lento e suave. Um pulso quase imperceptível.
Quem me visse diria que não habito mais meu corpo...

No entanto, todos os dias eu me levanto cedo; trabalho e cumpro minhas obrigações.
Quando tenho tempo livre, escrevo e leio compulsivamente.

Não culpo mais a mim ou a Deus. Pacificado, embora
não consiga rezar ou ter qualquer acto tendo vista a minha salvação
fosse mediante fé; fosse mediante obras...
Não me salvo ou permito que me salvem. Tenho passado os dias indiferente a isso.

Deus, quem quer que seja Ele, não tem me inspirado o desejo de ser salvo,
portanto, está me destinando ao limbo que pouco difere de minha vida actual.

Não me incomoda isso.

Se Deus não me quer entre os seus, Ele deve ter lá suas razões.

Nunca vi a salvação como mérito pessoal, sim como uma alegria inspirada pelo divino capaz de levar o homem a se aproximar do sagrado.

Alegria essa que não experiencio há séculos...

Penso que quando a Fé acaba, tudo o que resta é religião, isto é, a sistematização da necessidade humana de conhecer Deus mediante práticas, hábitos, tradições, regras, ideais, respostas...

No fim, o amor se impõe como o dedo de Deus apontado!

Obediente, amo. Mesmo que me sinta tão mal depois.

Não. As circunstâncias da vida não me permitem o amor. Eu devo apenas seguir em frente e tentar manter as coisas simples: Talvez todo encontro amoroso necessite ser fugaz.

Ainda assim, o amor permanece como um mistério. Sei lá... Não sei mais no que acredito.
Tampouco se ainda faz sentido acreditar.
Acreditar? Sim, acreditar: Saber sem saber porquê.

Humildemente, eu amo porque preciso amar. Isso me faz fraco porque suscetível.
Amando, eu me reconheço incapaz de ter uma experiência plena de mim.
Ouvir e ser ouvido; tocar e ser tocado; ver e ser visto... O outro faz com qu'eu me revele a mim.

Se Deus for de facto amor, minha pequena fé pode brilhar como o sol e, amando, eu posso ser capaz de ser melhor; de querer ser melhor. Por consequência, beatitude e santidade.

É apenas por amor que alguém se torna bom.

Betim – 02 03 2016
 
DOIS DE MARÇO

março

 
hoje
dia doze de março
morreu ainda mais um pássaro.

ninguém por ela deu.

foi o silêncio

o silêncio
pesado do ar
que o fez tombar.

tudo o resto
é ruído e penas.
 
março

As ausências dos marços

 
Trago ausências de marços, onde andorinhas nos beirais anunciam primaveras que já foram. Trago saudades dos meus a pingarem-me dos olhos, a fazerem-me tirar o lenço do bolso para as enxugar num breve fungar. Trago lembranças antigas, escritas no vagar do tempo e que vou folheando nas horas vagas. Retratos de ontem onde também estou mas sem me ver. Tanta gente que já aqui não mora. Tanta vida, a maior parte já esquecida. É estranho. Não consigo explicar...
Trago anos de solidão a agrilhoarem-me sem perdão.
Trago rugas na pele que me desfiguram o rosto liso de outrora. Que me denunciam a existência espinhosa. Fixo-me na distância de uma vida, até onde o olhar pode alcançar. De que me poderá valer? De nada!
Desisto, visto que se me embaciam os olhos e aos outros pouco ou nada importa.
Trago noites nas bainhas dos dias, onde sombras por desvendar... talvez almas dos mortos que fui velar, a chamarem-me.
 
As ausências dos marços