Há muito trigo no meio do joio!

 
Há muito trigo no meio do joio!
by Betha Mendonça

Gabriel era dessas pessoas que procuravam com lupa de maior aumento possível as fraquezas alheias e tudo que era de ruim ou negativo em toda a natureza.

Entrava numa casa perfumada. Em vez de elogiar o bom cheiro apontava uma teia de aranha que balançava num canto do teto e reclamava da faxina. Sua mulher tinha belos olhos azuis, mas ele ressaltava seus cabelos brancos.... Se o dia era lindo e ensolarado reclamava do calor. Se cinza e chuvoso queixava-se do frio. Se o jardim estava florido incomodavam-lhe os insetos e pássaros que ali se abrigavam.

Cansada da amargura que seu marido trazia no coração, Helena o levou ao celeiro onde estava o trigo colhido naquele dia e disse:

- Separa o joio do trigo!

O homem espantado com a enorme quantidade de trigo quase não enxergava o joio para ser retirado. Exclamou:

- Mulher, há muito trigo no meio do joio!E ela respondeu:

- Exatamente, Gabriel!Então a partir de hoje para de apontar o joio na vida e olha e aproveita mais o trigo!
 
Há muito trigo no meio do joio!

A Morte da Poesia

 
A Morte da Poesia
by Betha M. Costa

Morreu a Poesia levando ao desespero o Poema, seu mais puro e belo representante na Terra.

De luto, os ventos destelharam céus, lançaram ao mar todas as estrelas e demais astros. Fez-se grande escuridão.

Os mares revoltados quiseram subir até as mais altas montanhas, mas tanta era a tristeza, que eles escavaram com suas águas as profundezas do planeta e lá se esconderam para que ninguém mais os apreciasse.

Como efeito dominó os vegetais retornaram ao seio da terra, os animais calaram-se e se abrigaram em tocas.

Os humanos ficaram com um imenso buraco no coração. Perdidos dos seus sentimentos, não conseguiam se expressar uns com os outros, por que as palavras perderem o alinhamento e suas vozes eram incapazes de propagar sons.

A Poesia linda e pálida estava solitária no seu esquife ornado de orquídeas roxas. O Poema em prantos - por saber ter perdido para sempre sua musa inspiradora – ajoelhou-se ao seu lado cheio de lamentos de paixão. De repente escutou bocejo longo:
- Huááááááá!...Confusa a Poesia se sentou no ataúde a perguntar o que acontecera.

Sem que ninguém dissesse palavra os mares saltaram verdes e azuis das entranhas do planeta e cuspiram de volta ao céu todos os corpos celestes.

Os campos se vestiram de verde, as flores coloriram e perfuraram seus espaços, enquanto as árvores entrelaçaram suas copas e os animais se espalharam como se estivessem no Jardim do Éden.

Os homens e mulheres soltaram vozes em canções e em tantos versos, que apenas naquele instante foi escrito uma quantidade inigualável de livros.

Assustado o Poema perguntou a sua amada:
- Ó bela, não estavas morta?

E recebeu como resposta:
- A Poesia nunca morre, pode ficar sonolenta e às vezes até dormir sono profundo por muitos dias, mas sempre voltará mais forte e inspiradora que antes!
 
A Morte da Poesia

Conto às vezes

 
Ás vezes conto um poema
para não contar histórias
De contos à conta de temas
De poemas ás memórias

Vou do milionésimo supra nada
Ao ínfimo ano-luz do nado
Conto e reconto fado a fada
A cantar um conto passado

E o conto feito poesia
Conta o conto do sentir
Com tal amor e sabedoria
Que nos conta o porvir

Um poema é sempre conto
De mensagem e bem dizer
Contado pelo poeta tonto
Nalgumas palavras a doer

Poema dedicatória aos companheiros de armas:

Zé Torres e Flávio que muito me (nos) tem contado.
 
Conto às vezes

Vim do mar e não sou peixe

 
Vim do Mar e não sou peixe mas, se não sou peixe o que sou? Uma ave aquática?...
É melhor começar a procurar em livros e enciclopédias sobre animais aquáticos para ver se encontro algo sobre mim…
Nada de nada. Não há ninguém igual a mim.
Vou partir para o mar e esconder-me para que ninguém me veja.
Passados anos uma pequena criatura do mar entrou na minha caverna…
A pequena estava muito assustada e como por magia era tal e qual igual a mim…
- Quem és tu? – Perguntou-me a gaguejar a pequena.
- Uma criatura desconhecida.
- E tu?
- Igualmente.
De um minuto para o outro, já éramos amigos.
Tinham passado 25 anos desde que nos conhecemos e agora éramos adultos e já tínhamos de ter tempo para as nossas coisas.
Um dia eu e ela combinamos ir os dois a uma festa que se ia realizar no palácio real.
E assim foi…
No dia da festa estava eu entusiasmado com a música, quando de repente alguém me tocou no ombro…
Virei-me e lá estava ela de vestido púrpura e tiara de vidro.
Passados minutos o maestro começou a dirigir uma música romântica…
- Gostas desta música – perguntei eu com um sorriso no rosto…
- É a minha favorita.
Levados pelo amor começamos a dançar.
Antes que déssemos por isso, estávamos completamente apaixonados.
O casamento foi de seguida e eu usava um fato azul como o mar e coroa cintilante como as estrelas.
Ela, um vestido amarelo como o Sol e um véu dourado muito dourado.
Percebi quem sou e de onde vim.

Beatriz Torres
 
Vim do mar e não sou peixe

O MENINO QUE DISCURSAVA

 
O MENINO QUE DISCURSAVA

Não sabia bem o que dizer, nem porque dizer. Simplesmente dizia. E como era inesquecível aquela fala. E como as pessoas ao seu redor admiravam-se com a perfeição devastadora de suas palavras. Difícil de acreditar: aquele toquinho de gente, tão precoce – pouco mais de seis anos - e aquele extraordinário dom: a aptidão inexplicável e sublime para comunicar-se com gigantesca arte retórica. Não era só isso. Sua voz parecia influenciar os ouvintes, semelhante à notória fábula O Flautista Mágico dos Irmãos Grimm. Pois hipnotizava através de idéias concisas e sofisticadas, suspendendo a platéia do chão ao ocasionar reações e emoções inusuais ao seu bel prazer, em todos ao mesmo tempo e igualmente. Demonstrava absoluto domínio e compreensão a respeito do psiquismo humano. Talvez ele não pensasse em exercer domínio algum. Talvez ele não conhecesse nada sobre o psiquismo humano. Porém, efetivamente ele dominava e compreendia. Sua arte discursiva não tinha o ranço dos pregadores ou dos políticos que adoram influenciar o populacho, porém, a única forma em que liberava plenamente a capacidade de expressão era quando falava à várias pessoas simultaneamente. Quando isso ocorria era como se uma vigorosa força telúrica tomasse sua boca e falasse nele, embora isso nada tivesse de incorporação ou espiritismo como já conjeturavam os crentes e fanáticos nesse assunto. Nada disso. Quando discursava, era bem ele.

Quanto mais expressava seus pensamentos, quão mais costurava suas avaliações, ainda mais tinha a dizer o menino e sempre de forma mais adequada, envolvente. Suas primeiras conferências despontaram apenas o cume do iceberg da manifestação de suas capacidades. Todos os dias – incluindo os domingos - um novo cabedal importante de aforismos esclarecedores escapava-lhe da boca assim, assim, de supetão, com puro e genial improviso. Sem dúvida o garoto possuía um extraordinário dom: talvez ele fosse um vigoroso canal aberto na natureza cujo destino era o de propagar no formato de palavras os axiomas mais recônditos e insolúveis desta Terra. Ninguém, jamais, o saberia. Nem haveria como.

Veio gente de todos os cantos do país para conhecê-lo. Eram doutores pesquisadores, membros das academias de letras, políticos renomados, religiosos dos mais variados credos, filósofos, antropólogos, literatos, linguistas, enfim, a nata da "intelligentsia" do país. Todos rendiam-se, invariavelmente boquiabertos, estupefatos, àquelas idéias enérgicas e inéditas, à autoridade e controle com que o garoto dissuadia a todos, inclusive eles próprios. Uma inveja abstrata instalara-se neles, mas o fascínio em que estavam enredados era maior do que esses açulamentos mesquinhos. Aquelas audições sem dúvida inebriavam e eles, definitivamente, não queriam ir embora. Recidivamente voltavam para abeberarem-se dos próximos e surpreendentes discursos. Até o comércio de rua foi beneficiado por conta do fluxo extra de pessoas que começou a consumir produtos de todos os gêneros por aquelas bandas.

Para o próprio garoto suas manifestações eram naturais e indeclináveis. Não havia afetação, presunção ou imodéstia em sua conduta. Encarava aquela missão sublime do mesmo jeito informal e displicente com que jogava, vibrando os dedinhos ágeis, seu videogame. Aproveitando os bons ventos trazidos por este fenômeno infantil, a sociedade local progredia muito bem. Os diretores da escola em que ele estudava já quebravam a cabeça para instituir métodos para educar melhor aquele imenso talento sem perdê-lo para outra instituição educacional mais abalizada (e angariar os benefícios da propaganda que sua presença traria para o nome da escola); o prefeito arquitetava durante as noites quentes uma maneira de fazer com que o mundo todo conhecesse aquele prodígio (claro, na intenção de granjear para si vantagens e privilégios políticos) e os pais... ah... esses não cabiam em si de tão orgulhosos. Sonhavam um futuro refulgente para o filho, e, por que não dizer, imaginando uma velhice tranqüila e abastada para eles mesmos graças ao que o menino generosamente poderia proporcionar-lhes através de seus dotes na oratória.

Ninguém poderia contar, nem professores, diretor, prefeito ou quaisquer dos seus ouvintes, quanto mais os seus pais, que um futuro bem diferente o aguardava. Esse improvável destino começou a delinear-se de forma explícita depois do famoso discurso que o menino proferiu no dia em que completou sete anos, como que simbolizando seu ingresso numa idade cabalística. Fora uma dissertação vibrante, emocionada, como se verá em seguida, que ele articulara coadjuvado por sua voz agudíssima de criança miúda, agarrado à uma das colunas do coreto da cidade como ele próprio fora um marujo amotinado segurando o mastro de um veleiro que cruza um oceano rodeado por ventos.

O tal discurso tratava de uma interpretação do Livro do Gênesis que trazia novíssima e definitiva luz à sua hermética compreensão. Costumeiramente ele não falava de assuntos religiosos mas, nesse dia em específico, ele conseguiu, através de sua explanação, tal um passe de mágica e sem deixar margem para sequer uma dúvida, dissipar todas as lacunas, todas as questões obscuras sobre a criação do universo, do mundo e do homem. O mais pitoresco é que o conteúdo da explanação não se investia, de forma alguma, de altercações religiosas. Nem científicas, artísticas ou filosóficas, tampouco. Quem o ouviu não sentiu-se enlevado, ou tomado de sentimentos altruísticos ou de auto-descobrimento, não obteve uma visão definitiva de Deus, de passado, de futuro ou coisa que o valha. Era algo muito, mas muito superior a isso... A praça foi, pouco a pouco, invadida de um silêncio visceral tal era grau de atenção que dispensavam-lhe diante daqueles esclarecimentos.

A figura miúda do menino contrastava com sua voz monotônica e empastada, ausente do mínimo entrave ou engasgo. Não se percebia qualquer forma de hesitação no emprego acertado dos verbos, substantivos e adjetivos. Não se notava pedantismo ou preciosismo na arquitetura de sua linguagem. Assim, o conjunto das idéias expostas patenteava-se ainda mais bonito, beirando o campo da poesia. O semblante das pessoas, conforme as frases pairavam como ventos oníricos, tornava-se sintônico à voz dele: rostos inexpressivos e exatos a ponto de, ao final, todos apresentarem-se iguais, tal fosse uma absurda multidão de empastados gêmeos idênticos...

Terminada a exegese debaixo de uma mudez dilacerante, ninguém desejou regressar as vozes. Cada qual preferiu manter-se quieto. A multidão dispersou-se, parva, acompanhada da mesma expressão facial anulada que a caracterizou durante os vários minutos de audição. Apenas dirigiu-se bovinamente para casa. Os que eram de fora montaram em seus carros ainda meio atordoados e retornaram para as suas respectivas cidades, não sem antes provocarem alguns pequenos acidentes naquelas ruas calmas. E essa foi a derradeira oportunidade em que todos os presentes dignaram-se a parar as suas vidas para escutar as falas do menino. Eles tinham plena consciência de que isso não lhes seria mais possível, nem recomendável. Afinal de contas, quem, mas quem neste mundo poderia encarar outra vez uma manifestação de cabal, límpida, insofismável e insuportável "verdade"? O guri era dinamite pura.

Com passar do tempo, a esmagadora maioria dos que presenciaram o memorável discurso dos sete anos teve que seguir a vida e esqueceu-se e desentendeu-se, por conveniência, do que ouviu. Foi bem melhor assim. Quanto ao menino, confirmou sua fama de precoce: madura e sabiamente declinou definitivamente dos exercícios discursivos e retirou-se para não mais palavrear nem em festas de aniversários de crianças. Quando adulto, tornou-se um ótimo professor da língua portuguesa, o que, diante das circunstâncias, ficou de bom tamanho. Porém, para quem souber ver; quiser ver; poderá notar em seus olhos um brilho aprisionado, misterioso e congelado em forma de cristais em meio às suas íris esverdeadas; isso, desde o seu sétimo aniversário.
 
O MENINO QUE DISCURSAVA

Quem conta um conto gosta de fazer de conta que não aumenta um ponto.

 
 
Vão se os anéis, ficam se os medos.
Antes tarde do que mais tarde ainda.
Água mole em pedra dura, pare com o desperdício!
Quem avisa, algo quer!
Quem tem boca, que fique bem quietinho em Roma.
Antes só, do que abandonado.
Mas vale um pássaro na mão, do que dois extintos.
Não dá pra agradar Russos e Americanos.
Em terra de certo, o ignorante é Rei!
A esperança cometeu suicídio.
Simplesmente através dos ditos podemos dizer aquilo que não é dito, e assim sempre repetido como se fosse um lazer.
Mas como não sou Santo e nem Bendito ou Benedito, assim me farei!
Pois só depois de ter vivido poderei dizer quem sou eu!
 
Quem conta um conto gosta de fazer de conta que não aumenta um ponto.

A Guerra das Letras

 
A Guerra das Letras
by Betha Mendonça

Numa dessas manhãs onde o sol desmotivado de brilhar fica por trás das nuvens, as letras se rebelaram e começaram uma estranha discussão:

- Chega das vogais se acharem mais necessárias que a gente! Berraram exasperadas as consoantes.

- Mas, o que essas malucas estão a dizer? Indagaram supressas as vogais.

O “S” - que por falta do que fazer tinha criado toda a confusão - se curvou até ficar “s”, tão baixinho que ninguém o via.

Enquanto as brigonas continuavam a contenda, as palavras (coitadas!) é que “pagavam o pato”. Não conseguiam dar as mãos e construir textos. Era tal de: Tufjwkd nxws dmfq!Dgpujkf, geitjaçg hdfo lhtyrp. Nada se entendia!

Até os sábios dicionários explicavam significados ininteligíveis para palavras ininteligíveis. Todos os demais livros não passavam de amontoados de sons sem nem um sentido ao leitor.

Em meio ao caos literário estabelecido, não contente com o bate-boca, as letras partiram para agressão física e a verdadeira guerra se instalou.

Algumas consoantes entendendo que as vogais eram em menor número e estavam inocentes (por conhecerem o quanto era intrigueiro o “S”) passaram para o lado minoritário.

Apesar de entre as tropas de ambos os lados haver certo equilíbrio, a situação foi se agravando e os feridos se amontoavam. Muitas vírgulas foram pisoteadas, os dois pontos e as reticências foram separados. O “R” perdeu a perna e virou “P”, o “P” teve a barriga empurrada para baixo e virou “b”, o E perdeu um dente e virou “F”, o “Q” teve o rabo cortado tornou-se “O”, o “D” levou um chute no meio da barriga que divida virou “B”, o “M” teve uma perna quebrada e virou “N”.

Quando tudo parecia perdido, no meio de tanto barulho, o Alfabeto despertou dentro da Cartilha e com um grito de megafone perguntou:

- Que bagunça é essa?

Ao ouvirem a voz aborrecida do pai, as letras mais rápido que depressa, se arrastando como podiam, entram na Cartilha. Depois de levarem grande broca paterna e esclarecida a necessidade de cada letra para a formação dos vocábulos, as briguentas tiveram suas partes feridas recuperadas. Reina a paz no mundo literário.
 
A Guerra das Letras

Conto de Encanto.

 
...Foi naquela estância derradeira
Que ela largou seu coração
Lá no mato onde só habita poeira
Soltou-o ao relento como decreto, punição.

Disse-o em forma de prosa
Para procurar uma solução
Cheirar o puro das rosas,
Escutar o canto dos sabias,
Para quem sabe alguma hora encontrar
Junto a natureza, de tanto campear...
um soluço para aquietar,
e o choro mais brando cessar.

Enquanto fazia uso do amargo chimarrão
Lembrando do sabor de alguém com persuasão,
Mas compreendendo que nada vale a adição
De um pobre coração que só trazia emoção.
Portanto, alertou-o que voltasse apenas quando a solidão
For amiga das cavalgadas onde peleiam as almas valentes
Pela estrada junto ao sol poente...

E avisou que não retornes sem alento,
pois sofrer em tormento não desejava mais não.
e solicitou-lhe para que peça ao seu amigo vento
que auxiliasse-o no aconselhamento
daquela sua formação.


E depois de abandoná-lo
Retornou ao seu rincão
Tentando sentir alguma coisa
Que invocasse a paixão
Mas de nada adiantou,
Recordou-se que deixara o pobre coração.

Ao chegar de manhãzinha
Perguntou a senhorinha de renda
Se havia visto uma prenda
Ela encarou-a sorrindo,
Disse-lhe que lá vinha vindo
Uma prenda formosa
Que trazia em mãos, uma rosa
E do lado um distinto peão

De nada sentiu... mas reconheceu o moço
Que um dia lhe causara tanto gosto
E vinha vindo devagarzinho
Sem pressa, pelo caminho...

Ergueu a cabeça, fez-la um comprimento
E a pobre sem abatimento
Pediu-lhe acatamento

Moço dá-me um abraço?
Apenas um momento em laço?
E disse-lhe sorrindo:
Abandonei aquele que me faz amar
Não preciso mais de teu amor para poder caminhar,
Mas preciso do teu cheiro para poder sonhar.

Então assim terminei o meu conto
Disse para o gaudério que passava
Que de amor não entendia nada,
E nas noites em que perambulava
Proseava com a lua na varanda do rincão
Uma conversa boba, algo sem tanta condição...
Onde poderia estar o coração
Daquela prenda que um dia amou sem razão.
 
Conto de Encanto.

Vazio

 
Como pássaro que se assusta,
foge de mim a inspiraçao.
Me aproximo, tento um afago,
mas em vao...

Ficou apenas um vazio.
Nao o preencho com nada,
nao me forço a compor.
Apenas, existo.

A palavra aguardo ainda,
em sua aparencia, seja ela qual for,
formando contos, prosas ou poesias,
nao importa.
Importa que cada uma, flua do meu interior.
 
Vazio

Elipse do Desencontro

 
Rumo ao encontro do desencontro.
Do belo conto imerso no pranto.
No eclipse, em lados opostos da elipse.
Ao longe surge um sorriso, belo e cheio de encanto.
 
Elipse do Desencontro

A Pena Cansada

 
A Pena Cansada
 
A Pena Cansada
by Betha M. Costa

A Pena cansada de dizer das coisas que lhe mandava mão rebelou-se:

-Não escrevo mais nada!

Entortou-se. Toda cheia de teimosia e silêncio escorregava pela mão desanimada em desenhos ininteligíveis e feios feitos hieróglifos num papiro antigo.

Adulador, o tinteiro tentava convencê-la a mergulhar na tinta azul marinho fresquinha.Falava das coisas belas que a Pena já havia escrito e todos os mares de outras idéias luminosas (ou escuras), que ela ainda poderia passar através das palavras por ela escritas para os leitores interessados em si.

O papel branco se pautou caligraficamente para o caso da geniosa senhora resolver trabalhar e assim caprichar nas letras, que se movimentado sobre as pautas ficariam mais agradáveis a leitura.

A mão acariciava a Pena como a uma filha revoltada.Dizia-lhe de seu amor por si e de quanto ela lhe era importante. Que ambas mais as letras que desenhavam palavras formavam um conjunto harmonioso, que criava histórias, poemas, e, expunha toda a sorte de pensamentos e sentimentos.

A Pena acinzentada - de tanto que já fora usada - olhou para a mão com desdém e sem dó nem piedade deitou-se sobre a escrivaninha para descansar.

Enquanto a mão, o tinteiro e o papel se distraíram em questionar os motivos que levaram a Pena a tão drástica e dramática atitude, um forte vento entrou por uma janela. Soprou ao ar a Pena que voou pela outra janela do décimo andar. Depois de muito planar, caiu na mão de uma criança, que aproveitou o que lhe restava da tinta azul para colorir o céu do seu desenho Depois a jogou no chão, onde a pobre pode enfim descansar...
 
A Pena Cansada

HOMEM-OBJETO

 
HOMEM-OBJETO

Eu estava compenetradíssimo. Encorujado num canto, bailava há certo tempo com a tal valsa que dos trens se desprende, aquela melodia monocórdia e monótona que nos convida a ser par da dança sob os chacoalhos dos trilhos, ruídos em compasso ternário. Embalo que, via de regra, coloca-me num estado de estupor, assim como uma criança de colo que se entrega ao sono quando a mãe cantarola um “nana nenê”.

Embora o conhecido aperto dos assentos dos trens suburbanos, julgava-me bem confortável com o queixo quase colado ao esterno, a cabeça direcionada para um livro firmemente preso dentre os dedos (as mãos firmes de puro receio, pois já tive a experiência de uma vez um livro voar ao longe, direto para a testa de um pobre senhor que cochilava ao lado quando de um solavanco descontrolado do vagão).

Foi aí. Nessa resoluta e amorfa rotina diária. Foi aí que a coisa toda aconteceu. À parada regular de mais uma das tantas e quantas estações. É como eu já visualizasse a sua presença iluminada a romper a abertura da porta eletrônica. Emoções programadas com antecedência, de uma forma tão surpreendente quanto aguardada. Eu, como um daqueles enormes tigres a pressentir no ar a aproximação da presa, munido de uma deslavada naturalidade, despreguei calmamente os olhos das páginas do livro para, vagarosa, meticulosamente suspender com classe cabeça e olhos (primeiro para não me assustar com o que certamente veria, depois para não alarmar ou espantar a própria visão). Foi batata: Ela estava lá. Ela...

A primeira coisa que captei foi o pé calçado de um sapato de salto muito alto, enlaçado numa cor pink, com aqueles dedinhos redondinhos e perfeitos de unhas pintadas de branco com uns minúsculos desenhinhos de flores no meio - tão em moda por essas paragens... - Na seqüência, a canela absurdamente bem torneada e imaginada por debaixo da calça jeans desbotada. Em seguida eram coxas... Ah, que coxas... Eram daquele tipo que todo sacana que se preza sonha em ter abertas na sua cama e suspira ao folhear as revistas masculinas. À medida que a vista avançava - e como era de se prever magicamente desde que comecei a observar os pés - cintura e umbiguinho estavam todos de fora. Porque uma mulher daquela tem plena consciência do material que tem à disposição e não se permitiria cobri-los por qualquer falso pudor... De cada lado da calça (de cintura um tanto baixa), pulavam aqueles espetaculares ossos frontais da bacia, muito espetados, realçando ainda mais o contraste da retidão do abdômen queimado. Na lateral do ventre, em direção ao dorso, ornava uma tatuagem muito colorida e divertida de uma fadinha sentada, risonha, sobre uma meia-lua. “Ah, que menina lúdica essa”, já precipitavam as frases de apoio em meu pensamento enfeitiçado...

E foi justo nesse ponto que eu titubeei. Foi até um tanto triste todo aquele medo. Porque parei e me perguntei: "opa, opa... para que continuar a olhar isso, meu irmão? Pra que sofrer desse jeito com essa visão?" Ah, mas isso durou apenas uma fração de segundo. A raça “homem” não costuma ser muito filosófica nesses claros momentos onde a biologia é a matéria a ser estudada e não a dialética. E foi assim que a curiosidade ganhou longe do sofrimento psicológico... E foram-se os olhos, como uma boa câmera de filmagem nos estúdios de uma pornô-chanchada, com o registro do seu honorífico trabalho.

Então vieram, pela ordem: aquela blusinha branca apertada de algodão muito decotada; o colo longilíneo e firme dos seios - que eram um verdadeiro outeiro dourado que refletia os raios do sol - e aquele pescoço... assim, bem longo e dando fim aos cabelos lisos e muito negros, como os de uma delicada oriental. Mas eu sabia (sem saber) - como sabia sem saber que o umbigo haveria de estar a descoberto - que ela também era linda de rosto. Acho que sabia até antes mesmo dela entrar naquele trem, em qualquer trem... Meus olhos constataram apenas certezas ao verificarem aquelas realçadas maçãs rosadas e queimadas, o nariz pequeno, fino e arrebitado e os olhos enormes e negros, mas tão negros... Eram tão negros que eu me perguntava: “Como alguém pode haver olhos dessa negritude que sejam tão brilhantes ao mesmo tempo? Como poderia haver tanta luz escapando do abismo da escuridão?” E todo esse passeio pelo universo carnal daquela mulher não durou mais do que, vai lá, uns cinco segundos...

Seria mesmo impossível ser indiferente àquela. Nem o mais apaixonado dos homens, o mais fiel deles, poderia ignorar uma fêmea que representava tudo aquilo que significa ser do pólo feminino. Não. Não haveria como. Nem tive muito a curiosidade de verificar como os outros homens reagiam àquela visão. Seria perda de tempo.

E não é que ela se movimentava justo em minha direção? Aquilo mexeu tanto com meus nervos que nem notei que logo ao meu lado vagara um assento. Pois ali mesmo, colada em mim, perna roçando perna, cotovelo triscando cotovelo, ela se sentou um pouquinho atrapalhada com as duas sacolas de compras e mais a bolsa que carregava. De minha parte, só podia achar o embaraço charmoso e bonitinho. Depois, ajeitou-se soltando aquele suspiro de cansaço e, sem titubear, perguntou para mim, assim, na lata, as horas. Que impertinência da moça... Assim, as horas, as horas... “Que diabos importariam as horas?” Queria falar para ela que as horas pararam junto com o meu coração quando ela pôs aqueles pézinhos lindos naquele trem e que, para mim, os trilhos corriam para o sol, ao infinito... Se bem que para não causar tumulto, limitei-me a dizer mesmo, na seca, apenas “as horas”. Falei naquele jeitinho mentiroso que apontavam os ponteiros do meu relógio.

Constatei que a partir dali e até que ela se fosse, eu estaria irremediavelmente perdido. Completamente. Estava tão fora de mim que nada me vinha a não ser apreciar e sentir a presença dela. Veio-me inclusive a triste certeza de que perguntar-lhe qualquer coisa ou tentar o mínimo conhecê-la seria como jogar fora tudo o que eu havia me permitido interiormente, através da idealização daquela presença. E foi assim mesmo que eu fiz. Pus-me, conformado, a fingir que lia o tal livro enquanto o que captava mesmo era a minha pele com a textura da pele dela, a minha coxa enroscando levemente a dela, a minha alma arrebatada a embeber-se dos raios da bronzeada alma dela... Ela? Nem aí... Cansada, reagiu previsivelmente ao chacoalhar do trem e dormiu como um anjo diabólico, aquele do tipo que sabe do imenso poder de sedução da sua inocência.

E foram grandes momentos em que me esqueci completamente de mim e entreguei o corpo àqueles feromônios que pairavam no ar. Porém, tudo que é bom e puro e certo é violentado pelo tempo, esse monstro facínora, esse assassino de toda e qualquer ilusão. Porque, depois de algumas estações adiante o meu belíssimo pecado levantou-se graciosamente para partir com suas sacolas. Percebi nela o derradeiro detalhe: uma tatuagem no antebraço direito onde reluzia grafado entre dois coraçõezinhos vermelhos, em escuras letras corridas e tombadas, o nome: “Lucimar”.

Ai, ai, ai... francamente... Lucimar?! Que raios de nome de amado é esse? Que me desculpem Lucimares de plantão, mas um nome desses a conspurcar eternamente aquele templo de corpo, aquela pele de fogo... Ah, mesmo que achava: Não pode ser um “Lucimar” suburbano qualquer objeto de tanto afeto de uma deusa como aquela e, ainda por cima, merecer registro definitivo em seu corpo, como fosse aquele nome dúbio o mais belo nome dentre os belos nomes... Lucimar, doeu.

Justamente nessas horas de profunda contradição de sentimentos, minha mente toma rumos ignorados. Desejei de todo o coração que meu nome fosse Lucimar – mesmo sabendo que correria o risco de ser perfeitamente possível que um nome como aquele também pudesse habitar um corpo feminino... Mas se fosse para atender os desejos dela... Quer saber? Dane-se. O tesão não tem sexo.
 
HOMEM-OBJETO

As Fifis (rep)

 
As Fifis
by Betha. Costa

Gêmeas idênticas. Batizadas Filomena e Firmina. Desde a infância eram conhecidas no povoado com “as Fifis”. E tudo se dizia delas: belas, inteligentes, extrovertidas, estudiosas... Não havia nas redondezas (nem quadradezas) quem não soubesse das irmãs e as elogiasse!

Muitos anos - daqueles em que os cabelos ficam grisalhos, a coluna diminui pelo achatamento dos discos intervertebrais, os dentes viram pivôs e/ou dentaduras e a lei da gravidade é fatal às mulheres - se passaram para essas doces criaturas.

Enviuvaram sem que lhes fosse dada a dádiva da maternidade que tanto almejaram. Pais falecidos, elas voltaram a morar na casa das suas já distantes infâncias.

Conforme avançavam na idade lhes ocorriam mudanças que deixavam o povo da cidade boquiaberto. Em vez de paciência, calma, compaixão, compreensão e da solidariedade tão comuns a quem amadurece; elas se tornaram amargas.

Amargas que nem as rapaduras e os potes de mel que ganhavam dos vizinhos lhes davam alguma doçura. Tornaram-se tão ácidas e azedas que só de olhá-las as pessoas tinham fortes dores nos estômagos.

Alimentadas por extensa rede de incautos informantes sabiam tudo que acontecia na cidade. FBI e CIA eram aprendizes perto da gama de informações sobre a vida alheia que essa dupla detinha: problemas financeiros, de alcova, distorções de caracteres, quem nascia quem morria...

Nessa época costuraram pequenas almofadas com babados e postavam-nas na janela para descansar os cotovelos. E além de os descansarem, falavam pelos cotovelos!...

Não satisfeitas em “saber” resolveram “alterar” os fatos e vidas das pessoas. Lutas para comprovação de paternidades, divórcios, casamentos na delegacia, desastres pessoais, amorosos e financeiros pipocaram na cidadezinha. Todos sabiam que tudo as Fifis sabiam e pior: espalhavam rápido como incêndio em mata seca.

Toda a gente passou e evitá-las. Não lhes dirigiam palavra.Meses foram rasgados nas folhinhas sem que ninguém lhes desse olhares e ouvidos. Como árvores que precisam de nutrientes e sol, as famigeradas irmãs secaram na janela por falta do que saber e dizer da vida alheia. São até hoje atração para o turismo local que prosperou graças as Irmãs Múmias da Janela.
 
As Fifis (rep)

A Chama da Sabedoria

 
A Chama da Sabedoria
by Betha Mendonça

Abaixo da Montanha da Sabedoria, morada dos Deuses das Letras, localizava-se o Reino das Palavras Soltas habitado por escritores de duas classes ou castas intelectuais com aspectos físicos
diferentes: os cabeças grandes e os cabeças pequenas. Os possuidores de cabeças grandes guardavam cérebros do tamanho de olivas, mas com rica atividade criativa para agrupar letras, formar fantásticas palavras e delas frases que resultavam em textos bem elaborados.

Os que tinham cabeças pequenas possuíam cérebros do tamanho de melões, com pouca ou quase nenhuma atividade imaginativa.Apesar de esforçados e estudiosos não iam além da mediocridade nas produções literárias, que com muita obstinação e esforço montavam.

Rezava a lenda que os cabeçudos recebiam a Chama Sagrada do Saber direto da mente do Deus do Alfabeto e Ortografia.Os de cabeça pequena tinham como mentores os Deuses Escribas Menores.

Por séculos o pacífico povo esteve separado entre sábios e medíocres, e, parecia reinar certo equilíbrio e aceitação popular...Contudo, um sujeitinho de cabeça pequena (Zerus), inconformado que seu cérebro maior e mais pesado pensasse menos que um cérebro menor e mais leve, por muitos anos ruminou idéias toscas.Depois de o seu lento pensar, elaborou e colocou em ação um plano na tentativa de mudar a realidade.

Em noite escura subiu sorrateira e calmamente a montanha.Invadiu o Palácio dos Deuses. Escondeu-se nos aposentos do Deus do Alfabeto e Ortografia. Quando esse adormeceu - apesar do pouco raciocínio - o intruso surrupiou a Chama do Saber que ele tirava da cabeça para dormir.O contato próximo com aquela força sobrenatural e incontrolável clareou-lhe a mente, como uma explosão ao causar o nascimento de uma estrela.E dono da sabedoria, Zerus jogou a chama dentro de um rio apagando-a para sempre.

A partir dali os Deuses tornaram-se humanos.Como os sábios e medíocres, sem a graça da Chama, todos tiveram que batalhar por conhecimentos.Montar em si chamas interiores e ser reconhecido cada um por seus próprios méritos.
 
A Chama da Sabedoria

A Maldição do Artista

 
Vejo-te solene perante mim mas sei que não estás verdadeiramente aqui.
Avanças na minha direcção, rodeias a minha nudez como que vendo uma beleza que nem eu revejo em mim própria e dás início aquilo que só tu sabes fazer.
Tocas e retocas, deixas-me húmida à tua passagem e embora não me oiças sabes que te agradeço cada momento.
Ao início não percebia onde querias chegar, a tua Loucura leva-me a melhor e transporta-me para lugares muito antes de eu me aperceber do caminho que estamos a percorrer juntos...
Mas agora entendo. Entendo a intenção com que te aproximaste de mim e a intenção que desde o primeiro toque tiveste para que chegássemos onde chegamos. Essa Visão, essa capacidade de saber (não sabendo) o que vai resultar no final é tanto a tua maior força como o teu maior fardo. Essa é a verdadeira Maldição do Artista...
Concluído o quadro, poisas o pincel e a paleta e fitas-me com um olhar de cumplicidade. Soltas um suspiro de satisfação e sorris ao ver onde a tua inspiração te levou desta vez. Apesar de não o veres eu retribuo-te o sorriso porque hoje, graças a ti, eu sou uma tela feliz.
 
A Maldição do Artista

O Beco

 
San Francisco, CA – 1966.

Charlie. 8 anos. Bermuda pouco acima dos joelhos. Camisa listrada marrom. Punhos cerrados. O esquerdo na altura do peito próximo ao queixo, e o direito à frente, para marcar território. Há pouco havia jogado seu boné contra o chão.

Bob. 9 anos. Meias cinza, pouco abaixo do joelho. Suspensório e camisa listrada vermelha. Punhos serrados e cara de mau.

Charlie caminha lentamente em sentindo horário. De costas para a Mason Street, e de frente para os fundos do “Fior D’Itália”. Sua baixa estatura e seu porte físico não estimulam muita confiança. Isabelle aguarda o resultado.

Bob Flecher era conhecido por liderar a gang dos Garotos Gordos. Este sim era digno de aposta. O sorriso irônico no canto da boca incentivava os gritos da torcida.

“Os Gordos” como eram reconhecidos. Não que fossem gordos, mas eram eles que “controlavam” os lanches dos rapazes nos intervalos da escola. Havia também a gang dos Pit-Stop Boys (ou P-SB). Uma brincadeira feita com os pit-stops dos garotos que iam ao banheiro nos intervalos, e que para ter acesso, precisavam pagar o pedágio. Os “P-SB” eram rivais dos “Striker’s”. Um bando de pequenos marginais que roubavam a grana dos rapazes. Sempre mudavam seus líderes. E um líder dos Striker’s nunca poderia fugir de um desafio. O problema é que muitos garotos disputavam a liderança do grupo. E por fim, os “Striker’s” eram os rivais dos “Gordos”.

Bob, quase nunca entrava em uma briga. Era um garoto esperto e tirava boas notas. Seu porte impunha respeito, e ele o usava com sabedoria. Tanto que, quando foi eleito líder, nunca mais saiu. Afinal, boas notas, um titulo de respeito e imposição, eram sinais de poder em qualquer lugar.

Já Charlie não cheirava. Tão pouco fedia. Mas se metia em muitos problemas... Muitos... Muitos... Muitos problemas, por ser namorado de Isabelle. Não há nada de surpresa nisso. As garotas só trazem problemas afinal. Uma suspensão aqui, uma acusação de furto ali, um castigo acolá... Quando não, um nariz quebrado. Não que elas fossem as responsáveis por tudo, mas quando se tem uma namorada, todos fazem de tudo para ver você se ferrar. Incluindo as amigas mais tímidas, que são capazes, inclusive, de tentar te beijar quando a sua garota não estiver olhando. É sinistro. Porém, não da para reclamar de tudo. Uma namorada é sinal de respeito também. Seus pais se gabam para os vizinhos e para os familiares. As tias da cantina lhe dão uma porção a mais... E por aí afora.

Poucas coisas mais divertidas haviam do que uma boa briga. Rolavam boas apostas. E quem conseguisse acompanhar a maioria delas, saberia bem em quem apostar. Apesar dos azarões que, hora ou outra, apareciam para estragar as estatísticas. E esta, sim senhor, foi uma boa briga.

Bob havia roubado o lanche de Isabelle, que reclamou. Sem pensar nas consequências (para Charlie), falou que se ele não devolvesse, chamaria seu NAMORADO. Bob sorriu. Mas quando uma garota de 8 anos diz alguma coisa, é lei. Ainda que isso não mude muito até os 90 anos, continua sendo lei. E conforme prometido, Isabelle notificou seu amado do ocorrido e o intimou a devolver a honra que lhe haviam roubado. Charlie não entendia, naquela época, que o lanche roubado de uma garota era sua dignidade posta no lixo. E, assim, continuou sem entender pelo resto de sua vida. Mas não havia escolha: Ou desafiava Bob, ou perdia sua insígnia. Na visão de Isabelle, claro. Pois para Charlie, ele poderia não fazer nada e seguir sua vida normalmente, ou também não fazer nada, que tudo continuaria no seu devido lugar. Sempre havia uma saída. Mas ele nem precisou se preocupar em escolher. Bob o segurou pelo colarinho e disse apenas: “Amanhã. Três horas. Atrás do restaurante italiano”. Já há algum tempo, Bob se sentia entediado com aquela vida fácil e sem emoção de roubar lanches, por isso precisava de algum divertimento de vez em quando. Normalmente, ele não faria o que fez. Era forte, líder dos Gordos, e respeitado. Não precisava fazer nada. Já Charlie... ... Bom... ... ... Coitado do Charlie.

Caminhando no sentido horário, Bob foi surpreendido com a atitude do adversário. Esquivou-se do soco, que voou solitário no ar. Ele sem dúvida conhecia seu segundo provérbio preferido: “Quem bate primeiro, ganha”. Logo após o: “Bata antes, pergunte depois”. Culpa das noites em que assistia a filmes de ação escondido de seus pais.

Porém, nada aliava a tensão de Charlie. Pelo menos até levar o primeiro soco. Ou o segundo. Ou o terceiro... Enfim, chances de alivio de tensão não faltaram. Apesar de alguns socos bloqueados, Charlie acabou por absorver a grande maioria deles. Bob se divertia. A plateia adorava o espetáculo. Giulio, o garçom, também se divertia enquanto fumava para passar o tempo, antes de voltar a lavar a louça. Por fim, com o nariz já um tanto torto, um vermelhão no olho e um pouco de sangue no canto da boca, Charlie, tonto, quedou. Isabelle, que era a terceira garota mais linda da escola, (segundo pesquisa dos “Garotos Selvagens”, gang aventureira que desbravava a cidade com suas bicicletas) deu as costas, furando o círculo que rodeava a briga e foi embora para casa.

Charlie então, se tornou o garoto mais poderoso da escola.

Naquela tarde, ao cair, Charlie cerrou seus dentes com raiva e levantou-se rispidamente. Dando tempo de Bob apenas iniciar o sorriso sarcástico enquanto ainda estava em pé. Foi açoitado com cinco socos consecutivos na cara e terminou nocauteado, e meio desacordado. Seu sorriso ficou torto no chão.

Naquele mesmo dia Charlie foi à casa de Isabelle para informar que estava tudo terminado. Pela primeira vez alguém conseguiu fazer Isabelle não dar a última palavra. Nas outras oportunidades, ela jogaria algum objeto na cara dos rapazes e saía porta adentro fingindo um choro forçado dizendo que estava tudo acabado. Muda, contudo, observou Charlie ir embora, iniciar o namoro com a garota número 1 do colégio, se tornar o líder dos Gordos, dos P-SB, dos Striker’s, dos Gárgulas, (que surgiram tempo depois) e, pouco a pouco, se tornar um cafajeste ordinário.

Anos mais tarde, Bob se formou na faculdade.

Charlie foi preso.
 
O Beco

O Ralo

 
O Ralo
 
Imagem de Augusto Peixoto

O Ralo
by Betha M. Costa

Ao passear no bosque da cidade Dara tropeçou. Era um objeto redondo, achatado, diâmetro cerca de seis centímetros e aspecto metálico. Para examinar melhor o estranho achado ela tentou tirá-lo do chão. Por mais força que colocasse não conseguia. Cavou o solo ao redor e foi impossível desprende-lo: do centro do material seguiam sob a terra feixes de metal parecidos raízes. Seu olhar fixou no minúsculo ponto saliente sobre a coisa. Com o indicador o empurrou como uma trava para a direita. Sem querer ela abriu uma espécie de ralo. Com espantosa capacidade de sucção foi sugada junto com árvores, animais e tudo o que estava próximo. Depois, todos os seres, as águas, as nuvens e o Universo inteiro desceram por aqueles orifícios. Através das ramificações cada coisa foi parar em um lugar diferente. Nunca mais se encontraram para formar o conjunto belo e harmônico como nós conhecemos!...
 
O Ralo

Boca da Noite

 
Boca da Noite
by Betha Mendonça

Desde a infância não gostava da noite. Quando no finalzinho da tarde o sol começava a bocejar e espreguiçar os seus últimos raios ao horizonte, uma estanha melancolia inundava-lhe todos os espaços. Tinha presságios. Frios percorriam seu corpo e uma mão forte lhe apertava o coração. Procurava ocupar-se o mais que podia para que chegasse à hora de tomar seu sonífero e só acordar com o raiar do dia. Essa assustadora sensação tolhia sua vida: não freqüentava lugar algum no período noturno. No fundo de seu conturbado ser sabia que algo terrível e irreversível lhe aconteceria se saísse de casa ao anoitecer.

A família e os amigos inconformados com essa situação insistiam que ela devia sair e enfrentar seus temores. Que seu medo era irracional. E nada era tão diferente pela simples ausência da luz do sol: havia o brilho do luar ou das estrelas e que mesmo sem eles; a noite era agradável, com temperaturas mais amenas... Tanto falaram que ela resolveu: no cair da tarde iria sair.

Quando o sol começou a se despedir, ela e um grupo enorme de amigos e familiares excitados - entre vozes alegres e risadas - caminharam para a margem do rio e desfrutaram do mais magnífico por do sol. Diante da mágica daquele momento distraíram-se em conversas e histórias até que ficou tarde e muito escuro o céu... As pessoas se deram conta que já não enxergavam umas as outras e andavam as cegas tentando encontrar-se. E as vozes foram ficando cada vez mais distantes até que cada qual escutava apenas seu próprio pensamento. Fora de si tudo eram silêncio e escuro. O inimaginável aconteceu: todos foram engolidos pela boca da noite.
 
Boca da Noite

A palestra

 
A palestra
 
Naquela manhã, o furão, Furavidas, cansado de ser considerado, pelos restantes habitantes da mata, um bicho feio, fedorento e amedrontador, ferido na sua sensibilidade de mamífero carnívoro e caçador, resolveu convocar o conselho da bicharada, resolvido que estava a promover a sua popularidade e melhorar, no que lhe fosse possível, a sua autoestima.
Os restantes animais compareceram à chamada do figurão, armado em fino texugo, um pouco incrédulos com a pertinência daquela reunião, marcada às pressas.
Da copa das árvores apareceram, em primeiro lugar, os pássaros de muitas cores e espécies, acabados de acordar, com aspeto fresco e húmido, de quem saiu de um belo banho, neste caso de orvalho da noite. Num chilreio, uníssono, cumprimentaram o furão, ao mesmo tempo que ocupavam os seus lugares privilegiados nos ramos das árvores, de onde poderiam ver e ouvir tudo o que se iria passar.
De pronto, pousado no galho de um velho carvalho, apresentou-se o mocho Fausto, ave notívaga, que esteve de vigia toda a noite e trazia os enormes olhos amarelados, neste caso avermelhados de sono, ao mesmo tempo que rabujava pelo facto de lhe não ser permitido o direito ao descanso, após cumprir dignamente o turno da noite.
De seguida, compareceram apressadamente, a chinchila, Francisca, acompanhada da família dos coelhos Quinquins.
Logo atrás, morta de curiosidade, a raposa, Laurinda, marcou presença, com o seu ar arguto e atento, de quem não tem tempo a perder, nem é dada a socializar.
Furavidas foi acomodando todos os seus convocados à volta da fogueira, que ardia vigorosa, atestada que estava de achas da mais fina madeira.
Por fim, a tempo de assistir ao início da palestra, chegaram os manos saguins, que trilharam caminho, de liana em liana. Por sua vez, os esquilos, Avelãs, vinham animados a mordiscar nozes e a cuspir escrupulosamente as cascas, enquanto o ouriço cacheiro mais parecia uma bola de picos, o que lhe dava um certo ar de poucos amigos.
Furavidas subiu para um enorme tronco, colocado estrategicamente, por forma a observar as mais diversas reações dos seus convidados, de tão perplexos que todos estavam com o motivo daquele estranho encontro, de tal ordem que muitos deles hesitaram em vir por considerarem tratar-se de uma perda de tempo.
Quando o furão ia dar início à prometida palestra, ouviu-se o ruído arrastado da mais vil representante da mata, a serpente SSSTSSST. Todos os animais se voltaram com as penas, os pêlos e até os picos em pé, de tão arrepiados e eriçados que ficaram com a presença de tão indesejado membro da floresta. Escusado será dizer que o réptil ficou de fora do círculo, previamente formado pelo furão, por repugnância e desprezo dos restantes animais.
Furavidas resolveu, então, fazer uso do direito à palavra, colocando-se no bico das patas traseiras:
- Amigos e conmatenses, agradeço a todos os que se dignaram comparecer a esta minha convocatória. Prometo que serei breve na apresentação do processo de intenções, com vista à implementação de regras de boa convivência.
A passarada agitou-se e os grandes olhos do mocho Fausto esbugalharam-se incrédulos perante o insólito momento. Aquele bicho hiperativo e eremita não podia estar a falar a sério. Vai ver, batera com a cabeça, só assim se justificava expor-se publicamente, em função do bem estar da comunidade animal.
- Como vos digo, sou um animal dado à reflexão e, modéstia à parte, algo filosófico. Concluí numa das minhas muitas meditações, que embora todos sejamos diferentes fisicamente, há algo que nos liga e transforma numa espécie de membros de uma grande família, à qual correntemente se chama “comunidade animal”.
Assim sendo, não vejo porque devamos andar, a maior parte do tempo, de costas viradas uns para os outros. Manda o princípio da educação e do civismo que interagemos uns com os outros, de forma cordial e, se possível, nos ajudemos mutuamente.
Grosso modo, ouviram-se palmas entusiastas, ao discurso empolado de Furavidas, com exceção feita à raposa e à serpente, que logo verbalizaram a sua discordância:
- Nunca ouvi ideia mais estapafúrdia na minha vida. Onde é que já se viu uma raposa assinar um pacto de paz com as suas pretensas presas...
Podem daí tirar o sentido, que, no que depender de mim, não vai sair daqui nenhum acordo assinado. Até porque eu sou um bicho pouco letrado e nem sei escrever o meu nome.
(Que fome que eu tenho!!! Deixem lá esta fantochada acabar, que vão ver...)
- SSSTSSST, SSSTSSST!!! (vociferava a serpente, expondo a sua enorme língua viperina em sinal de irritação). Engulo qualquer um de vós de uma vez só e nem sequer me arrependo quando gritam e me pontapeiam na barriga e tentam sair cá para fora.
Furavidas interrompeu a acesa discussão que entretanto se gerara, apressando-se a explicar a sua teoria:
- Caros conmatenses, imaginem que a nossa mata é alvo de fogo posto. O que faríamos nessa situação?
- Fugiríamos a quatro patas, respondeu Laurinda, a raposa velha.
Furavidas respondeu-lhe com ar académico, olhando-a por baixo dos óculos:
- Talvez tu fugisses,mas e a tua cria? Terias capacidade sozinha para a salvar das chamas, a tempo? E tu, serpente? Ser-te-ia certamente muito dificil sobreviver sozinha, bem como salvar os teus ovos.
Laurinda assentiu com a cabeça e respondeu que nunca havia pensado na possibilidade de poder vir a vivenciar um cenário desses.
SSSTSSS cuspiu o veneno que lhe esverdeava a língua e baixou a cabeça em sinal de perplexidade, o mesmo seria dizer que reconheceu uma fragilidade que, até ao momento desconhecia em si.
O furão percebendo que os animais mais intransigentes já começavam a dar sinais de apreensão, avançou com o teor da palestra:
- Se pensarem bem, aqueles que vos pareciam mais vulnerávies às vossas investidas cegas, são precisamente aqueles que, em caso de calamidade, vos poderiam vir a ajudar e sei que o fariam sem hesitar. Os pássaros, por exemplo, poderiam levar as vossas pequenas crias no bico e deixá-las a salvo.
A serpente que é animal desconfiado e de poucas palavras, respondeu, mordendo a própria língua:
- Confesso que nunca tal me passara pela cabeça.
Furavidas continuou a sua dissertação, acrescentando:
- Como podem concluir, todos nós dependemos uns dos outros. Assim é a vida em comunidade. O que eu pretendo clarificar é que não há animais fortes, nem fracos, porque nada somos uns sem os outros.
Os manos saguins aplaudiam o furão, enquanto se balançavam nas lianas e riam divertidos. De repente, começaram a guinchar nervosamente, apontando para a beira do riacho, que corria a 500 metros de onde se encontravam. Ao virarem-se todos se aperceberam da presença do lobo, Serafim, que não havia aderido à convocatória de Furavidas, mas, que agora os observava escondido e por certo mal intencionado.
Com a presença do predador mais feroz, todos os animais tremiam de medo, com exceção da serpente que se pôs em pé o mais que conseguiu e mostrando-se solidária atreveu-se a enfrentar o lobo Serafim:
- Se avançares sobre qualquer um dos meus amigos aqui presentes, vais-te ver comigo.
Serafim avançou alguns metros na direção do ajuntamento e replicou:
- Deves pensar que me metes medo. Anda exprimentar os meus dentes aguçados e as minhas garras prontas a fazer-te em cem enguias.
- Se eu fosse a ti, não tentava a gracinha. Talvez não queiras saber o dano que te pode causar uma mordidela minha nesse teu pescoço de predador estúpido. Sabes que eu posso ter a espinha bífida, mas em inteligência, ganho-te aos metros que tenho...
O lobo refletiu e resolveu retroceder na sua ideia de atacar o grupo que, sem se ter apercebido, já estava mais unido do que nunca e pronto a dar a vida uns pelos outros.
Pela primeira vez, a serpente foi aplaudida pela sua valentia e por ter posto em risco a sua própria pele em detrimento da vida daqueles, que, até àquela altura, sempre vira apenas como suas potenciais presas. Gostou da sensação calorosa daqueles aplausos e percebeu o quanto é valoroso ter amigos e importante ser querida pelos seus iguais.
Laurinda não se conformando com tais intimidades e farejando ao seu redor instintivamente, resolveu perguntar:
- Isto da solidariedade e cumplicidade animal é muito bonito, na teoria, mas na prática como é que eu encho a barriga?
- Com frutos, sementes, larvas e animais que possam ter morrido de morte natural. Isso também é comum encontrar na mata. Não tens forçosamente que ser tu a matá-los. Compreendes? (replicou Furavidas)
- Então, mas eu sou caçadora por natureza, é algo instintivo para mim. Tudo é uma questão de sobrevivência.
A serpente, recém sensibilizada, respondeu-lhe com humildade:
- É tudo uma questão de mentalização, porque a natureza põe ao nosso dispor uma panóplia de alimentos sem fim.
A raposa ainda não convencida, replicou:
- É como no mar, os peixes de grande porte, também comem os pequenos...
- A verdade é que também se poderiam alimentar de limos e algas, respondeu a chincila.
Laurinda não se dando por vencida, insistia na argumentação contrária:
- Então e os humanos? Que eu saiba comem carne e peixe e quase todos nós vamos parar aos seus pratos e nada mais do que um belo pitéu somos para eles.
Fausto, o mocho, que até então se mantivera calado, resolveu intervir, fazendo juz à sua capacidade de literacia:
- Os humanos não são exemplo para ninguém, consideram-se muito superiores a nós, mas o facto é que estão a anos luz dos animais. Entre eles cresce a animosidade e o ódio, a solidariedade para com o próximo, deu lugar às guerrilhas raciais e políticas. Nada detém a sua ânsia de poder. Os sentimentos negativos, tais como a corrupção e todo o tipo de marginalidade, para atingir fins menos escrupulosos, tomaram conta dos humanos. Cabe-nos a nós mostrar-lhes os verdadeiros valores.
Os aplausos voltaram a ouvir-se, desta feita direcionados ao mocho, que falou por último, mas com muita probidade e sabedoria.
Os animais terminaram a reunião assinando, de livre e espontânea vontade, um acordo de paz e respeito pela vida alheia, lavrado no cartório notarial da mata, onde Furavidas é escrivão e zela com pobridade pelo bem estar dos seus conmatenses.
Escusado será lembrar que Furavidas ficou na estória da mata encantada como o mentor da equidade e do civismo e o seu nome é hoje um ícone de respeito e exemplo para todos os seres vivos que se sintam parte integrante deste mundo que todos partilhamos e deveríamos saber proteger e respeitar.


Maria Fernanda Reis Esteves
52 anos
natural: Setúbal
 
A palestra

Por tudo que há de mais sagrado

 
Por tudo que há de mais sagrado,
Não desvaneças nos cantos da minha vida.
Quero amar-te e sentir-me amado,
Pois serás sempre a minha querida...

És vida, és coração irado
Que palpita como numa corrida.
Por tudo que há de mais sagrado,
Não desvaneças nos cantos da minha vida.

Espero que este conto não seja malfadado,
Como muitos que encontram uma vida perdida.
Viveremos um amor adequado,
Rezarei por esta aventura destemida
Por tudo que há de mais sagrado.

14 de Outubro de 2008
 
Por tudo que há de mais sagrado