O Violino

 
No tempo que nasci,
Encontrei apenas um VIOLINO. ….
Já envelhecido,
Apenas o distinguia como um “L”.
As notas eram de vento
No seu filamento, o som era puro,
Palavras sagradas voavam
Sobre mim…
Ensinavam-me tudo o que uma criança pode saber…
Assim cresci.
Um dia, o VIOLINO calou-se.
Aprendi a chorar,
Mas eu multipliquei-me.
A magia voltou,
O VIOLINO voltou a tocar,
As notas ao princípio, eram apenas uma brisa.
Mas dia após dia, também elas voaram.
Elas e eles cresciam,
Tanto esplendor…
Afinal, eu também tocava.
As minhas notas também voavam…
Descobri que criança é toda igual,
E eu também lá estava…
Invisível.
Também as minhas iriam descobrir,
Que cada nota de nada vale…
Só juntas fazem milagres.
Fazem melodias,
Fazem famílias de notas,
Onde o som não é tudo.
Haverá dias, que o som se tornará apenas num toque,
E o amor será o seu guia
Onde apenas o belo tem som.
Mas eles crescem…
Cada dia são menos meus.
Como ensinar tudo?
Falar dos Deuses?
Ulisses,
Ele também ouviu notas falsas,
Mas o mar ainda é o mesmo.
Mas “estes marinheiros” ,
São meus…
Navegando em naus de BONDADE,
As cordas são notas da minha vida.
Passadas fio a fio com o saber do passado,
Experiências sempre entrelaçadas com o AMAR,
Serão elas capazes de resistir em continuar a navegar?
É tarde para mudar de oceano…
Resta-me que guardem o VIOLINO,
As notas continuam a ser de vento.
Serão sempre notas livres,
Terão lágrimas de SANGUE e SUOR,
Onde os “homens” que eu vi crescer,
Possam sem vergonha oferecê-las dizendo:
– São notas de família.
– São notas LIVRES e BELAS,
E de dentro do seu interior,
Todas as notas soarão a BELO.
Eu, poderei então colocar lá no alto uma cruz.
Também ela BELA,
E com palavras BELAS deixo escrito:
- Aqui, viveu um VIOLINO…
Com ele, aprendi a chorar em silêncio,
Mas de dentro dele,
Saíram todas as palavras belas
Que transformaram gerações de palavra em palavra.
Hoje, poderei partir em paz.
Hoje tudo será BELO.

(Todos os dias me esforço para que os meus filhos não tenham medo das palavras, que amem todos os dias intensamente, que gostem do belo e o possam dizer todos os dias em voz alta sem medos nem mitos.)
 
O Violino

Adopções de Amor e Piedade

 
No seguimento da leitura feita hoje à partilha do poeta Correia - " E amanhã um anjo" venho partilhar, um poema infantil já guardado há dois anos atrás.

Adopções de Amor e Piedade
Capítulo Um – Manuel, o gato cantor

Era uma vez um gato chamado Manuel
assim baptizado por sua mãe adoptiva
pois que era um nome muito comum e
por essa razão, assim se deveria chamar

Manuel era um gatinho calmo e meigo
Que adorava mimos e outras ternuras
Não fora ele um derretido que se dava
Todinho nos colos dos pais e em turras

Manuel era um belo gato pardo cinzento
De focinho redondo e olhos verdes

Manelinho tinha mais cinco irmãos
E sabia que o afecto que recebia
Era igual para todos os manos
E assim era, apesar dele ser o meloso mor

De noite, subia à cama de sua mãe
E se aninhava suavemente a seu lado
De vez em quando, mamãe acordava
Cheia de cócegas que os seus bigodes
lhe faziam, porque Manelinho gostava
de ronronar em volta do rosto da mãe.

A mãe do Manelinho era esquisita
Depois de ser acordava, ela não se zangava
Acendia a luz da mesinha de cabeceira
Sorria para o Manelinho e abraçava-o
Depositando-lhe mutios beijos na testa
Aninhando-se, logo de seguida com ele
a dormir com um sorriso imenso na face

Manelinho gostava muito de cantar
Subia aos móveis para ficar mais alto
E dali miava bem alto suas cantorias
Mamãe sempre dizia: “ ainda me hás-de
Ajudar a pagar as contas com essa vozinha”
E ele ficava pensando“ ela é mesmo esquisita”

Cantava, mas cantava tanto, que os irmãos
Faziam uma grande galhofa gozando com ele
É que os irmãos gostavam mais de brincadeiras
desafiando-o constantemente para as correrias

Manuel descansava a voz e nem sempre queria brincar
O que originava algumas zangas bem sonoras
A que sua mãe assistia rindo a bom rir
E lá ficava ele pensando “ ela é mesmo esquisita
Nem se importa com as nossas zangas”

Numa casa grande toda disponibilizada para ele
Manelinho vivia feliz com todos os manos e os pais
E naquela casa a vida era boa e muito tranquila
como o deveria ser para todos os outros seres vivos
longe da crueldade e da insensibilidade humana.

O gato Manuel nasceu em 08/06/2009 e foi registado no Municipio de Lisboa com o nome de “Egas Manelinho”

Eureka, 04.09.2016
 
Adopções de Amor e Piedade

ENVELHECI, NÃO TEVE OUTRO JEITO

 
ENVELHECI, NÃO TEVE OUTRO JEITO
 
Envelheci.
Não foi escolha, aconteceu.
Creminhos, dietinhas, chazinhos, e mil jeitinhos.
Uma melhorinha aqui outra acolá, mas tudo enganação.
Não tem pra onde ir.
Os anos de levam, e nunca te trazem,
E te enchem a bagagem de rugas, flacidez, e tantos remédios.
E aí para alguns que se casam como rende a família!
Netos, bisnetos e ultimamente tataranetos,
Rendem tanto como os livros na estante que vamos comprando depois que aposentamos.
Um clã e tanto somos capazes de produzir.
Mas não tive escolha, muito menos planejamento, e assim eu me tornei um monte de gente.
Outra coisa que percebi é o tanto que mudamos o pensamento
Quando menina tinha certeza que velha eu não ia ficar. Hoje também estou cheia de certezas: moça eu também não vou ficar.
Mas teimo diante do espelho, pura ilusão ou burrice mesmo.
Bem, há quem diga que tenho que ser positiva.
“ Com a velhice vem a madureza”...
Conversa pra boi dormir.
Ótimo, sei tanto quanto eu tinha 18 anos,
E a madureza que aprendi foi a de desconfiar.
Acho que é isso, não nos precipitamos, desconfiamos mesmo antes de agir.
Vejam só, meu neto de 7 anos consegue pagar minhas contas na internet, fez um email pra mim mas ainda não sei abrir. Sabe como funciona meu celular, o GPS do carro do pai, e ainda dá palpite na política do país. Eu com 7 anos conhecia banco pra se sentar e não pra guardar dinheiro.
Hoje, com tempo de sobra, preencho as horas passeando em livrarias, tricotando ou conversando sobre o rol de enfermidades que vão aparecendo, e claro trocando dicas de tratamentos com tantas amigas senis.
Não sou daquelas que amam as plásticas, mas confesso que cogitei.
Então, achei melhor não, meus filhos, todos do contra é claro, acharam-me sensata.
Mal sabem eles que foi a tal desconfiança misturada com medo mesmo. Porque vergonha a gente com a idade vai perdendo, e mostrar minhas pelancas para um cirurgião já não me deixariam constrangida. Porque constrangimento mesmo é com 18 anos ter que enfrentar um baile com uma espinha no rosto.
Bem, há suas vantagens, nem tudo neste corpo mais vivido é desgraça.
Tenho vagas no estacionamento privilegiadas e não enfrento filas, se bem que as filas da terceira idade estão ficando cada vez maiores.
Pacotes de viajem, faculdades, teatros, tudo com mais descontos.
Mas, a disposição também fica com mais descontos.
Bem, não foi minha escolha ficar assim,
Mas se fiquei vou até o fim.
Saber no que dá a gente já faz uma idéia.
Enquanto isso, vou escrevendo algumas bobagens e deixando por aí, quem sabe alguém resolve ler.
Assim acho que vou envelhecendo mais disfarçadamente, e com menos tempo de olhar no espelho...
 
ENVELHECI, NÃO TEVE OUTRO JEITO

Poesia partilhada entre duas almas

 
 
Há quem construa muralhas para proteger as suas flores…
Há quem resguarde a emoção nos bastidores de um sorriso …
Nós fazemos tudo isso, protegendo o amor com íntimo,
Fazendo do coração um jardim florido de Deus filho …

Acho o tempo para aproveitar cada segundo
no aperfeiçoamento
da palavra amar…

Quero-me despir de amor
nas linhas do teu corpo e
simplificar o verbo
no plural dos teus régios lábios …

Inventar-me contigo num novo verso.

Deixar de ser para existir em ti
como trecho do nosso íntimo emparelhado
sem a necessidade da rima para soar a belo.
 
Poesia partilhada entre duas almas

A RESPEITO DA FAMÍLIA DE ONTEM E DE HOJE

 
Tornou-se uma raridade aquela avó acolhedora que cuidava dos netos quando os pais iam trabalhar. Aquela avó, que era quase uma ou às vezes até mais que a mãe para seus netos. Aquela avó que além de cuidar, fazia todo tipo de vontades com um sorriso de dar inveja. Mas, os tempos são outros, quando a avó não tem ocupações de diversos tipos, mora longe; hoje é comum que as “modernas avós” não tenham muito tempo para os netos, como não tiveram para os filhos; são comuns avós profissionais liberais, empresárias e por aí vai. Não existem mais as avós dos nossos sonhos, ficaram num tempo que ninguém quer de volta. Só querem, de volta por estranho que pareça, aquela avozona, tudo presta, só não prestam as avós modernas... A vida contemporânea exige de todos um distanciamento físico, os filhos partem para destinos distantes, um mora em Deus me livre, outro na Groelândia, o caçula casou e mora não sei onde. Partem para onde existem melhores oportunidades de ganhar a vida. Os pais modernos, também, quase não participam da vida dos filhos, que são criados em creches ou por empregados. Aquele pai que almoça e janta com os filhos, é exceção ao que o mundo vem exigindo de todos. São raros indivíduos, que podem trazer de volta, um pouco desse mundo antigo. Filhos premiados são esses com certeza! Conheço uma família que conseguiu essa proeza! Houve a opção de não deixar ir embora essa parte boa da vida. Filhos pais e avós vivem numa cidade de aproximadamente 300 mil habitantes, a família não se desfez, pelo contrário aumentou com os agregados, netos, etc. Os que estudaram fora preferiram voltar e exercer suas profissões, médicos, engenheiros, empresários, por perto. São raros os dias em que não ocorrem almoços familiares, com a balbúrdia costumeira Três gerações diariamente no almoço, um sonho para muitos, ali é comum. Mas, quase todos tiveram oportunidade de partir atrás de ocupações com melhores remunerações. Existiu a opção por ficar ganhando menos e ter realmente uma família. Para muita gente” moderna” isso é falta de ambição ou outras besteiras de quem só pensa em ganhar mais. É claro que a opção de ficar perto da família, de morar perto do trabalho, nem sempre é possível, todavia tem muita gente que pode fazer essa opção, mas prefere a modernidade, prefere ver os filhos crescerem sem os pais, aceitam que avós sejam apenas visitadores dos netos. Ser “moderno” ou ultrapassado, como sempre, eis a questão.
 
A RESPEITO DA FAMÍLIA DE ONTEM E DE HOJE

ENSAIO ADOLESCENTE... (Parte I)

 
ENSAIO ADOLESCENTE... (Parte I)

Em meados do século passado, num casario entre um aglomerado de montes, havia um vale... Daqueles com riachos, mulheres lavando roupas entre pernas acocoradas, decotes generosos muito próprios ao ato da amamentação... Aqui, acolá um filho às costas, ou pertinho do busto e mais ainda do coração, nas horas em que precisava da proteção contra os raios do sol.

Ouvia-se cantorias, entre as batidas dos panos nas pedras. Às vezes ouvia-se choro de criança, risos de mães e filhos, conversas em rodas de amizades, às vezes aconteciam brigas, conflitos de disse-me-disse, mas eram muito raros. As roupas eram secadas ali mesmo entre as moitas de arbustos ou sobre a pedreira, aqui, acolá espalhada em ambas as margens, naquelas águas rasas, em constante corredeira.

E no fim do dia, aquelas personagens subiam os morros em direção ao aconchego de seus lares. Seguiam a passos miúdos, trouxas na cabeça, filhos acompanhando de perto. No coração uma sensação de alivio, e realização despertado pelo cheirinho de limpeza vindo da roupa lavada, naquela rua-riachinho, fraternalmente compartilhada.

Entre aquelas pessoas Rosa e seus irmãos, retornavam também. Agora a etapa seguinte, seria dar banho nas crianças e preparar o jantar. Ela era filha mais velha aparentava uns 14 anos, mas só tinha quase dez... Assumiria as tarefas com os irmãos e os preparativos para o jantar, enquanto esperavam pela chegada da mãe, que tinha saído para trabalhar.

O pai daquela família, não chegaria para a reunião no final do dia. Vivia longe, muito longe, numa cidade distante. Aquela menina-moça já ouvira falar, era São Paulo (Brasil), um lugar onde os trabalhadores ficavam ricos. Talvez um dia ele voltasse, trazendo muita riqueza...

Naquele enquanto a primogênita assumira seus irmãos e os deveres de casa, para a mãe angariar o seu sustento, posto que do pai nenhuma ajuda teria chegado, nem sequer uma noticia teriam recebido. Nesse interim, Rosa crescia e estudava... Revezando entre o serviço de casa e a lida na escola, a professora Isaura seguia seu dia-a-dia, enquanto sua filha Rosa se esforçava em cuidar de tudo na sua ausência.

Rosa tinha cabelos longos, muito escuros, a altura da cintura, sempre dispostos em duas tranças enroladas à nuca. Olhos cor de mel, um riso sempre nos lábios, deixando entrever dentes branquinhos, dando um toque de harmonia aquele sorriso doce. Tinha ainda um olhar profundo e inquiridor... Um olhar de curiosidade, sempre a procura de detalhes. Detalhes que descobria, fixava e apreendia. Uma mente prodigamente iluminada.

Izaura era uma jovem senhora, dedicada a profissão. Alfabetizava com muita eficiência e era muito respeitada pelos resultados de seu trabalho. Morena clara, não usava pinturas nem tinha vaidade, mas na sua aparência simples escondia uma beleza latente, carente de se revelar. A jovem professora por viver afastada de seu esposo, não dava asas a extravagâncias, para se preservar, e evitar olhares de cobiça.

A casa era muito simples, com uma vasta escadaria no quintal. Rosa subia e descia aquelas escadas, acompanhada de seu irmão Norberto, que ela chamava de Beto, e Fernanda, que ela chamava de Nanda. Eles ajudavam a encher a jarra e mover a bomba manual. Apenas Rosa conseguia pressionar a bomba no sentido de conseguir água jorrando. Os outros irmãos tinham que pular na manivela, passo a passo para obter o mesmo resultado. Assim enquanto Rosa subia as escadas, com uma lata d'agua na cabeça, os outros irmãos se esforçavam em conseguir encher a lata seguinte.Enquanto isso, o irmão caçula Eraldo, ainda bebezinho, dormia num berço de rede. Artefato têxtil improvisado, com um pau enrolado em cada extremidade, mas muito seguro, porque dava a rede uma profundidade semelhante a um bercinho, e ainda balançava ao vento, bem fresquinho.

A jarra era muito grande, quase do tamanho de Rosa e muito maior do que Beto e Nanda, mas eles conseguiam encher de água, pelo menos, até a metade, contudo para derramar a lata de água Rosa tinha que subir em dois tijolos. A fornalha funcionava com lenha ou carvão, e  para alcançar as panelas também era necessário subir um tijolo, estrategicamente colocado para aquela finalidade.

Rosa sabia fazer arroz, feijão com carne dentro, salada crua e arroz doce. Também sabia fazer o leite de Eraldo, que era dissolvido em um prato fundo e batido com um garfo. Eraldo chorava pela mamadeira mas quando escutava Rosa a bater no prato, já ficava quietinho, porque entendia que logo estaria mamando.

Rosa já mocinha, tinha corpo de mulher, uma precocidade incrível. Sentia desejos inquietantes... Os seios fartos para sua idade, chamavam atenção pela delicadeza sensual que davam a sua figura inocente.

Mas a sensibilidade de Rosa era à flor-da-pele... Todas as vezes que ia dar a mamadeira a Eraldo, antes lhe oferecia um seio e se ele soltava ela oferecia o outro. Imaginava que ele era seu bonequinho, só que ao vivo, e ainda lhe passava toda aquela energia... Aquela eletricidade...

Sempre ficava gelada e quase derrubava o irmãozinho, com o vigor da emoção que a invadia, quando lhe oferecia seus seios de ninfeta... Paralisava... Simplesmente. Um dia descobriu que seria melhor se deitasse enquanto provava aquela sensação, era mais seguro para Eraldo...

Sempre que ia dar a mamadeira para seu 'bonequinho', Rosa fechava a porta do único quarto da casa, e pedia aos seus irmãos que não fizessem barulho para que Eraldo conseguisse dormir, e assim eles teriam um pouco mais de liberdade, poderiam brincar um pouquinho até que Izaura chegasse.

A menina Rosa fazia aquele ato absolutamente às escondidas porque, já desconfiara que sentir o que sentia era algo estranhamente proibido. Mas não deixava de contar, tais experiências, para suas amigas na escola... Em troca recebia mais informações que, curiosa, sempre encontraria uma forma de testar no seu dia a dia...

(Continua...)

Ibernise.
Indiara (Goiás\Brasil), 15.08.2009.
Núcleo Temático Educativo.
Direitos autorais reservados/Lei n. 9.610 de 19.02.1998.
 
ENSAIO ADOLESCENTE... (Parte I)

Portas abertas para receber crianças

 
Aos sessenta anos, percebendo que ainda havia muito amor e carinho para dar e nem um filhinho pequeno para receber, Evinha abre as portas da sua casa acolhendo crianças para cuidar.
Era uma nova profissão que demorou para alcança-la, mas que lhe revelou seus verdadeiros dons.
No dia 18 de janeiro de 1978, ela recebe a primeira criança para cuidar, de nome Brenda, tinha a cabeça bem carequinha, olhos pretinhos e bem esperta.
Conquistou toda a família, vindo a se tornar o centro das atenções, o "xodó" da casa.
Apegou-se tanto a sua filha Mônica, que começou a chama-la de mãe, fato que se repete até os dias de hoje (1984).
Brendinha foi a primeira, depois dela várias outras crianças chegaram e encontraram a porta do coração de Evinha aberta ao amor puro de Mãe.
Foram muitas trocas de emoções, que a gratificou muito, por tê-la deixado mais feliz neste contínuo movimento de dar e receber amor, carinho, amizade, companheirismo.
Ela que sempre quis a casa cheia, além das crianças tinha os pais, mães, irmãos, madrinhas, que lhe ampliaram os laços de amizades.
Apesar de ser um trabalho cheio de alegrias e emoções, não era nada fácil, pela grande responsabilidade que é ser a educadora de várias crianças.
Com uma carga horária que às vezes lhe ocupava dezessete horas/dia, pois tudo se ajustava às necessidades das mães, começava a receber a primeira criança às seis horas e entregava a última às 23 horas, pois os horários eram variados.
Como todo ser humano ela mescla momentos de alegria com tristeza, talvez normal para uma pessoa que teve uma família tão unida, hoje tê-los espalhados.
As vezes pensa que a desunião entre as famílias mais abastadas, deve-se ao fato de cada um ter seu próprio quarto, sua televisão, seu celular, seu computador; isso tira aquele contato familiar de se ter a opinião dos pais e irmãos, nas questões da vida.

A auto biografia mais linda que li, onde tive a oportunidade de ajudar a transformar um sonho em realidade.
 
 Portas abertas para receber crianças

FELIZES PARA SEMPRE

 
Parou e olhou os armários vazios, a casa pelada de emoções, a cozinha calada. Ficou parado no corredor, tentando entender os erros, os medos, as palavras atiradas na cara dela. Pegou um cigarro, foi pro canto da janela e ficou observando os casais andando agarradinhos pra lá e pra cá. Havia tanta vida lá fora. Lá dentro, sempre tinha sido prisão desde o primeiro dia. Nunca conseguiu ficar confortável com aquele negócio no dedo. Incomodava pra caramba. Aliás tudo incomodava: ela e as suas exigências, as crianças gritando, o desejo que já não tinha mais por ela. Por que isso tinha que acontecer? Subitamente, ela virou um objeto cheio de poeira, a empregada sem uniforme, uma coisa. Ela sentiu a distância. Fez de um tudo para ele sair do quarto das outras e deitar na cama dela. Ele preferia as do escritório, da rua, do parque, do shopping, da internet. A dignidade dela foi minguando.O respeito entre os dois também. As brigas eram mega-super diárias. Jarros foram quebrando, flores murchando, o ódio sujava a casa.

Ela foi ficando cansada, foi emagrecendo, deixando a vaidade de lado. A mulher que nunca havia sido bonita foi ficando mais feia. Ele sempre longe, sempre chegando tarde, ele sempre aquilo. Ela criou coragem e arrumou um emprego, um empreguinho segundo ele. Aos poucos, ela foi ficando forte. Parecia que ela tinha tomado uma overdose de amor-próprio. Ele passava, os vizinhos cochichavam. Aos domingos, ela sumia com as crianças. Ele sumia também. Depois, ela passou a sumir aos sábados também. As poucas vezes que ele chegava cedo, ela parecia tão feliz. Nunca mais chegou perto dele mendigando beijo nem dinheiro. Nunca mais. Ele parecia gostar da mudança.

Um dia chegou em casa e tudo estava silencioso. Eles tinham ido embora. Ela tinha ido embora. Ficou aliviado. Tirou a camisa, sentou no sofá, colocou os pés para o alto e celebrou a solidão.Com o tempo, foi achando a casa fria demais. Foi atrás dela e ouviu da sogra que ela estava bem e casada com o Oliveira.

Mas já casou?Só tem oito meses que a gente se separou Dona Ana.

É...mas acho que você demorou demais pra se importar né João?

Olhou as fotos antigas na estante, procurou o passado perdido e encontrou apenas o presente. Ela estava lá com as crianças. Todos felizes e sorridentes. ela estava tão linda. Como pode isso? Ela estava linda. Parecia que a vida estava fazendo milagres para aquela família que um dia, um dia que ele nem se lembra quando, tinha sido sua. Sentiu um mal-estar, um estranhamento esquisito. Sentiu um comichão, uma culpa maior que o peito, sentiu um abismo o engolindo, Caiu.

Dona Ana, quem é essa moça ai do lado da Ana em todas as fotos? Não conheço. É parente de vocês?

Essa moça é o Oliveira.

Desequilibrou-se. Nunca mais saiu do abismo. Nunca mais mesmo. Teve a impressão que ela ia ser feliz para sempre com o Oliveira ...E não é que ela foi mesmo!

Karla Bardanza
 
FELIZES PARA SEMPRE

"PEQUENININHA..."

 
“PEQUENININHA...”

(À minha mãe LUZIA.... com Saudade...)

Pequenina e miudinha de corpo: assim era minha mãe.
Simples e amorosa.
Mas, quando relembro tudo o que essa mulher "pequenininha" fez ao longo da nossa vida familiar, vejo, na realidade, uma grande guerreira, uma heroína cujas proezas jamais serão repetidas.
Aqui, me adianto, dizendo que, quem teve família numerosa, sabe da veracidade destas mulheres, que foram a característica de uma época onde a família era o centro do mundo.
Pois bem, nossa "pequenininha" mãe, teve 11 filhos e 1 aborto espontâneo, e viveu até os 88 anos. Uma vida dedicada ao marido e aos filhos, completamente. Se teve sonhos pessoais, anulou-os todos. Mas, nunca reclamou, e fazia tudo com muito carinho e alegria.
Cada dia, a rotina se repetia: acordava os filhos, quando pequenos, dava banho, fazia o café e recomeçava as tarefas - fazer as camas, limpar a casa, cuidar do almoço, deixar o chimarrão pronto para o marido ( pois ambos tinham a sagrada hora do chimarrão, onde aproveitavam para conversar sobre cada filho e filha, e decidir juntos as resoluções domésticas e extrafamiliares).
Ah! Tinha ainda a hora de costurar roupas, pregar botões; costurar... lavar....recolher do varal....
Uma vez por semana, ela ocupava o forno para fazer pão.
E não eram somente um ou dois pães por dia: às vezes, chegava a fazer oito pães numa fornada, para saciar a fome da família enorme.
No meio disso tudo, tinha tempo para cantar conosco, embalar os filhos menores no colo.... ensinar a rezar....
Jamais acordávamos ou dormíamos sem uma oração, para pedir e agradecer ao Criador muitas graças para o dia e um descanso sereno, para a noite.
Preparava o feijão e arroz de cada dia, dividindo-se entre as brigas e as reclamações dos filhos "do meio", os choramingos dos menorzinhos, ao mesmo tempo que ensinava às meninas mais velhas, as lides da casa.
Então?
"Pequenininha"!!!!!!!
O seu único drama, do qual ela reclamava muito, era a dificuldade no falar o português, linguagem do nosso país. Ela veio de uma família germânica, onde o alemão era a única língua aprendida, quando menininha. Pois bem, para não dificultar ainda mais o seu dia-a-dia, nós aprendemos a entender o que ela falava em alemão, e ela nos compreendia ao falarmos regularmente o português. Ficava com vergonha quando recebia visitas "distintas", e tinha que se expressar na língua padrão brasileira.
Mas, graças a Deus, todos compreendiam a sua dificuldade, e ajudavam o máximo quando ela se perdia nas palavras desconhecidas.
Hoje, após a sua partida para a outra vida, sinto uma certa nostalgia, uma saudade imensa desta mulher "pequenininha", que encantou-me de uma forma definitiva.
Vejo modelos semelhantes a ela nas mulheres idosas que, aos poucos, vão deixando a vida, depois de se doarem infinitamente às suas famílias numerosas, aos maridos, netos e bisnetos, com uma coragem e força tiradas de algum lugar que ainda não encontramos, mas que fazia delas verdadeiras guerreiras sem outros prêmios, a não ser o sorriso dos seus filhos.
Saudade!!!!

Saleti Hartmann
Professora e Poeta
Cândido Godói-RS
 
"PEQUENININHA..."

O SOFÁ DE MINHA AVÓ

 
O SOFÁ DE MINHA AVÓ

Era todo prateado. Parecia-se com o assento especial de uma confortável nave interestelar e caberiam nele ao menos três astronautas. O móvel tinha acabado de entrar pela porta da sala da casa de minha avó. Na verdade era um sofá velho que fora reencapado com um tecido em tom prata ou chumbo rutilante, de gosto extremamente duvidoso mas que, para a época, deveria ser o máximo em modernidade. Nem pensei duas vezes e um abraço: aquela maravilha merecia uma decoração ainda mais rica. Saquei um pedaço de giz de cera vermelho da minha surrada caixinha de lápis e, com esmero próprio de um ser de um metro e pouco, desenhei motivos infantis daqueles que só as crianças adoram dar de presente às paredes caiadas, exceto que utilizando para isso o encosto do sofá. Demorei um bom tempo com o desenvolvimento conceitual da composição, mas terminei por falta de lugar no encosto para mais. E olhe que mais espaço ali houvesse, eu poderia compor facilmente um famoso mural, tipo... Guernica. Decepção: minha obra não foi em nada apreciada pelo tanto de tapas na mão e no bumbum que tomei quando minha avó e minha mãe entraram na sala e deram de cara, estupefatas, com a obra, ainda quente, pronta. E olha, elas se revezavam nos doídos safanões. Nunca mais as "senti" assim. Concordo que abusei. Meu afresco era "muito informação" para as duas. Depois do impacto inicial, ficaram de par, uns bons minutos digerindo desoladas os grossos rabiscos impregnados no sofá, como fazem hoje os críticos de arte abstrata - Vamos tentar limpar estes rabiscos, Lene – disse minha avó, primeira e última a falar em tom empastado, para minha mãe. Enquanto eu assistia com os olhos esbugalhados do choramingo decorrente dos tapas, as duas procuraram eliminar os riscos de cera, desesperadamente, por longo, longo tempo... Mas eu era melhor. Acontece que acertei na mosca quanto ao material utilizado naqueles desenhos, pois, se feitos com caneta esferográfica creio que não fosse tão dificultoso de serem apagados e não deixassem tantos sulcos profundos no estofado. Depois de um longo tempo gasto com várias tentativas infrutíferas as duas sentaram-se sobre as minhas maravilhosas figuras destacadas no sofá, prostradas e vencidas pela alta qualidade e tecnologia do trabalho realizado por mim. Por muitos anos ainda pude apreciar enquanto crescia aquele sofá prateado encardindo sem perder as marcas definitivas de meus traços artísticos, como um legado à família. Devo ter sido pintor rupestre dos bons em outra encarnação...

[Quero o meu sofá mural de volta.
Quero meu giz de cera
vermelho de volta, aqui, nas minhas mãos.
Quero poder fitar a minha avó e minha mãe
nos olhos, droga...
Queria chorar só com dor de tapas da mãe,
como é bom...
Choraria entre sorrisos com os tapas dela,
surpreso e grato por tudo apanhar de volta
entre as faces de meu bumbum mancebo]
 
O SOFÁ DE MINHA AVÓ

A dedicatória mais perfeita...entre pai e filho!

 
 
Francisco ,queremos que cresças saudavelmente e que sejas aquilo que desejas ser, por isso vamos-te dar o nosso melhor (amor, segurança do cuidar, alegria, responsabilidade) ….

Ao som da lua cheia mudaste a hora da tua estreia …
Apressaste a chegada ao mundo, arriscando a tua vida,
Agora lutas para te ajustares à realidade, no ventre acrílico da maternidade …
És mais doce que o açúcar, mas os médicos dizem que tens falta dele …
Por isso tens os pés cada vez mais gigantes, a cada picada que sentes …

Sabes “Coraçanito”, precisas de te alimentar, para cresceres como o pai no futuro …
Não podes desistir de ser feliz, agora que mudaste o mundo …

Eu e a tua mãe te amamos muito …
Por teres ocupado o lugar do sol,
Por seres o testemunho mais genuíno do nosso amor,
Por seres a homenagem mais bonita que conhecemos da vida…

Força mensageiro do céu,
Não deixes escurecer as estrelas,
Brilha como elas na terra …
Pois já és a orientação exclusiva do nosso coração… — com Luis David.(Pai)

Esta dedicatória foi escrita pelo meu marido , no dia em que o nosso filho Francisco nasceu. Eu ainda a recuperar de um parto difícil e o nosso filho a lutar na incubadora...! Momentos difíceis mas onde o amor e a fé nos ajudaram a vencer!
 
A dedicatória mais perfeita...entre pai e filho!

Poema para Heloise

 
Poema para Heloise
 
Bem que te vi; na varanda o bem-te-vi!
Sim. Seus olhos claros, ainda embaçados...
Mas eu via que prestavas atenção.
Na expressão rubra do seu rosto rosado,
Parada ouvia calma não pensava em nada
A princesa na varanda nos braços da vovó...
Logo ao amanhecer, um olor delicioso vindo...
Das flores juntava-se ao suave frescor de Heloise
Saudada por bem-te-vis e um solitário colibri!
Bateram asas e voaram, voaram no azul infinito.
Não demorou o sol despontou lentamente,
Beijando sua tez, quanto me satisfez tê-la...
Em meus braços naquela manhã de verão!

09/02/2016
 
Poema para Heloise

Pai

 
Na poltrona da sala,
Tu te sentavas
Como se num trono.
No teu rosto pétreo,
Não havia sonho,
Não havia beijo,
Havia um cetro
Sobre meu ser e desejo,
O medo de encarar-te a face,
A ordem para que eu não me deitasse.

Assistias à TV sério.
Não confabulavas
E o teu silêncio
Preenchia toda a casa
Com um ar severo.

A impassível estante
Repleta de livros
Não deixava entrever,
Na sala, sequer
Um choro furtivo,
Apenas a ameaça
De homens e gigantes.

Sem saber, como tu,
Lutar, calar, reinar,
Largava-me no sofá
Sem ousar desafiar
Teu reino e tabu.

Mas, vieram as Eríneas,
Furiosas, cansadas
De cozinhar e fiar.

Atormentaram-me,
Seduziram-me,
Consangüíneas,
Até me insurgir
E cuspir-te.

Hoje, a estante está nua
E, nos fundos da casa,
Senta-se a privada
Para ver tua terra devastada,
O fim dos livros
E a revolta dos teus filhos.

Hoje, ponho anel,
Ponho relógio,
Cala em mim o teu fel,
Teu necrológio,
Enquanto assisto,
Deitado no sofá,
Ao fim de um apogeu,
Ao crepúsculo de um deus.
 
Pai

Você e o nosso universo

 
A janela bate com violência.
Ecoam os gritos da ventania lá fora.
Mesmo assim tenho que sair.

E fui à busca de quem eu sou.

Mas não seria tão simples,
Como realmente é,
Se você não estivesse aqui.
Provavelmente sucumbiria ao frio,
Ao medo,
A impotência.
No entanto, muitas vezes,
Seus olhos disseram o que eu precisava ouvir,
De mim mesmo,
Mas eu só poderia dizer
Quando aprendesse o nosso idioma.

Exercitamos a fala pura dos anjos
Sem dissimulações,
Sem protecionismos,
Sem barreiras.

Nem sempre foi fácil
Mas estamos acertando a pronúncia.

E saímos...
E fizemos nosso abrigo
E a ventania bate...
Porém os alicerces são firmes

E dentro do nosso abrigo
Ignoramos o mundo
Demos de ombros a nevasca
E nas noites mais frias
Brincamos sobre o tabuleiro da vida
Sabotamos o jogo sujo do destino
Plantamos nosso jardim de luz
E regamos com carinho
as flores que talvez um dia morressem

Criamos um universo próprio
E moldamos nossas estrelas.
Em suma,
Materializamos o infinito
Quando "coisificamos" nossas sensações
Em dois frutos de carinho
Cobertos da aura mais pura de amor.

Esse poema foi assinado com algumas lágrimas.

Trata do meu casamento, das dificuldades de iniciar uma vida a dois com apenas 18 anos e um filho (que depois se tornam dois, como o fim do poema mostra). Na verdade os cépticos também amam.
 
Você e o nosso universo

Inigualável amor de pais!

 
Há 23 anos atrás
Um casal de namorados resolveu casar
Na esperança de serem felizes
De nunca se virem a separar!
Depois de se casarem
Em ter um filho começaram a pensar
Trataram de resolver o assunto
Para a futura mãe engravidar!
Ao longo da gravidez
Deram asas à imaginação
Imaginavam um filho rapaz
Imaginavam um belo rapagão!
Ao fim de nove meses
Já estava a mãe a sofrer
Entrou em trabalho de parto
O seu filho estava prestes a nascer!
Mas qual é o seu espanto
Quando a parteira lhe diz:
“É uma linda menina,
Espero que esteja feliz!”
Feliz ela ficou
Por uma filha saudável ter
Iria amá-la para sempre
Para sempre até morrer!
Toda a família esperava ansiosa
Principalmente o jovem papã
Que olhava para a incubadora através do vidro
Para aquela criança sã!
Desde o início
Aquela criança sempre amaram
Mesmo estando à espera de um rapaz
Nunca a desampararam!
Foi crescendo e crescendo
Esta menina muito amada
Rodeada de toda a família
A quem ela muito admirava!
Entrou para a escola, para a secundária
E logo depois para a faculdade entrou
Foi crescendo em todos os sentidos
E numa grande amiga se tornou!
Os pais sempre com sacrifício
Por ela sempre tudo fizeram
Hoje ela agradece do fundo do coração
Todo o amor que têm tido e tiveram!
Esta menina agora tem 22 anos
E muitas vezes para trás olhou
Mas quero agradecer principalmente aos meus pais
Por hoje ser tudo o que sou!
 
Inigualável amor de pais!

ANALÚ

 
Analú nasceu bela, pela alva, olhos muito azuis, e um chumaço de cabelo loiro que refletia o brilho do sol. Crescendo, veio despertando em toda a família grande alegria por esta menininha tão meiga e carinhosa. Nasceu numa bela casa, cheia de conforto e amor.

Com o passar dos anos, ela crescia e descobria coisas novas, e nunca deixava de prestar atenção a tudo em sua volta. Nos modos singelos, formava-se uma mocinha muito delicada. Mesmo sendo pequena criança, cuidava com primor do seu quarto, da casa, e ainda se divertia em olhar os livros de receitas da mãe, buscando novos sabores com o prazer de agradar os outros.
Já moça, despertava olhares de muitos, pois se tornara bela e atraente, e sempre sabia dar um sorriso cativante. Mas havia algo mais belo em Analú que seu corpo, era a pessoa no seu intimo, que era meiga, e ternamente amiga de todos. Disposta a ajudar e contribuir.

Mas, algo dentro de sua mente, começou a tomar conta como gangrena ou um vírus devastador. Rápido e sem piedade, veio um brotando um espírito egoísta, que veio a banalizar toda uma criação. A cada dia, ela deixava de dar sua opinião quanto ao que era mau ou bom, e ficava cada vez mais introspectiva. Era um comportamento novo, confundido com uma falsa maturidade. Mas, Analú depois de novos amigos, com o passar dos meses, ficou distante dos familiares. Nada de culpas, de criação errada, de mimos excessivos, apenas, um comportamento inesperado e ofensivo começou a aflorar nesta moça.

Analú veio a conhecer sua primeira paixão, entregou-se incondicionalmente a um homem que mal conhecia. Fora engodada pelo toque, carinho que desperta desejos, e momentos passageiros de diversão barata.
Toda uma família sentiu profundamente o novo comportamento degradante, em lágrimas e grandes decepções passaram a vivenciar seus dias. A moça se recusou a ouvir qualquer pessoa que se mostrasse contra suas novas atitudes e amigos.

Texto corrigido

Entrincheirou-se de orgulho e relutância. E repudiou a todos que tanto a amaram e dedicaram tanto de suas vidas.
Não havia mais compromisso, obrigações, cumplicidade para com sua família. Para ela, todos passaram a serem um estorvo. Então não importava mais em agredir, quer em palavras ou comportamento.

Passou a vestir-se de forma provocante e vulgar, a se embriagar e dormir fora de casa. Seu corpo começou a decair e seu intimo a transformar-se numa sombra obscura, intransponível. Recuava de conselhos. Ninguém conseguiu impedi-la. A reprovação de muitos levou a uma chuva de conselhos e alertas, sempre havia alguém que antes a conhecia e admirava e não suportava ver a transformação maléfica de Analú. A mudança era drástica, e não havia quem não espantasse ou sentisse pesar. Ela tinha apenas ouvidos para seus novos amigos. E em arrogância e dureza de coração desprezou a todos, ofendia, injuriava, humilhava quem tentasse impedi-la.

A moça endurecia cada vez mais, recusando-se a ouvir as suplicas dos pais e seus amigos. Passou a difamar mãe e pai como cruéis, insensíveis, retrógrados, colocando-se como vitima oprimida, angariando assim a amizade de outros jovens sem caráter e responsabilidade, gente revoltada, sem limites, que mais desrespeito e crueldade plantaram no coração de Analu. Nesta convivência, sentia-se diferente, independente, livre, sem compromisso com ninguém ou com o mundo. Chegou a ser presa algumas vezes por arruaças, e seu pai sempre a livrava da cadeia. Afinal, o lema era curtir a vida, e não fazer nada, apenas o que o desejo mandasse. Festas, bebida, sexo, e madrugadas acordada. Isso era felicidade pra Analu. Uma falsa felicidade.

Um dia, seus pais, cansados dos furtos e afrontas da filha, tolerando a casa cheia de vadios, seu pai tentou mais uma vez argumentar, mas foi inútil. Culminando tudo numa troca de palavras ofensivas, uma grande briga, Analú empurra sua mãe pela escada, onde resultou de a mesma vir a ficar dois dias internada num hospital. Não havia mais o que se fazer para tentar fazer Analú a reconhecer o amor que ambos sentiam por ela.

Decidiram então arrumar todas as coisas da filha e quando ela chegou a casa, seu disse que seria melhor ela morar com o homem que ela dizia tanto amar. Mas, em tom sarcástico, ela riu debochadamente e disse que não via a hora de se ver livre das garras dos seus pais, disse que vivia sufocada por eles, e que sairia de casa pra nunca mais voltar a vê-los. E assim, começou a arrumar suas coisas.

O pai com o peito doído, mas decidido, colocou tudo no carro, e a deixou com seus pertences na porta do casebre malcheiroso de seu namorado que ficava em outro município. Não conseguiu ficar ali para mais uma troca inútil de palavras, apenas entrou no carro, sem dizer mais nada. Veio um olhar marejado de pena, fruto de um coração cheio de dor e ingratidão.

Antes que o carro partisse Analú esbravejou: Graças que me deixaram em paz agora vou ser feliz. Não suportava vocês, e nem morar mais naquela casa. Não me importunem mais, sumam da minha vida!! Chega de uma vida medíocre e patética que vocês me deram. Não me procurem mais, nunca mais!!!

Bem, quando Analu bateu à porta, aparece seu namorado, com a cara de quem estava dormindo, todo amassado e com a barba por fazer, vestindo uma calça suja e desabotoada. Arregala os olhos e sem nenhuma demonstração de carinho espanta-se com ela e todas aquelas caixas e malas. Afligiu-se e disse que não podia ficar com ela. Tamanha surpresa! Forçosamente e em desespero, Analú invade a casa e joga as malas no pequeno quarto imundo e fétido. E impôs-se ali, sabendo que não tinha pra onde ir.

Os dias se passaram e ela, provou a miséria, a sujeira, o desconforto, e pior, o desprezo do homem que julgava lhe amar.
Nesse meio tempo seus pais tiraram férias e foram para longe tentando esquecer tamanho sofrimento. Não informaram pra onde. E neste lugar pra onde foram, tomaram uma decisão para tentar amenizar a dor que sentiam, sabiam que tinham feito tudo, mas foram desprezados pela única filha, então ali, decidiram fixar moradia, deixando pra trás as más lembranças que sua antiga casa trazia. E semanas mais tarde a mudança dos pais seguiu para este lugar que ficava distante de onde viviam.

Por volta de uns seis meses, Analu acordou com o corpo muito dolorido, e olhou-se num caco de espelho que havia num bancada perto do seu colchão. Estava com o olho roxo e ensangüentado da surra que ganhara na noite anterior, mais uma de tantas que agora experimentava. Decidiu arrumar suas coisas e voltar para a casa dos pais. Conseguiu furtar um trocado esquecido num bolso da calça do seu homem. E fatalmente teve que encarar a realidade de sua miserável vida. Pegou um ônibus e viajou pra cidade de seus pais, para a bela casa onde havia sido criada. Lá chegando viu outras pessoas, rostos estranhos. Perguntou pelos moradores antigos, e ficou sabendo que estes se foram e que não tinham deixado endereço, já fazia alguns meses. Tal notícia desceu como pedra no seu estômago. Bem, lembrou-se de seus antigos amigos, e foi procurá-los, e um a um escusou-se de ajudar Analu, mil desculpas deram e outros a desprezaram sem remorsos, até mesmo rindo de sua nova condição. Analu viu que não havia amigos de verdade.

Sentou numa sarjeta e começou a chorar profundamente. Lamentou-se de tudo que jogara fora e da forma tão ingrata que tratou sua família. Perambulou por vários dias pelas ruas, esperava anoitecer para ir às lixeiras vasculhar o lixo para encontrar algo pra comer. Dormia debaixo de marquises de lojas, passava frio. Ninguém soube informar o paradeiro de seus pais.

Passaram-se muitos anos... E as sementes plantadas deram seus frutos. Analú passou a viajar de cidade em cidade quando arranjava uma carona, até que veio parar num lugar bem longe de onde nascera, mas nunca mais encontrou seus pais ou notícias deles. Hoje ela é aquela velha cheia de trapos e sacos cheios de lixo que dorme debaixo da abertura de um esgoto, numa fenda do terreno onde ela encontrou pra morar. Cata comida no lixo até hoje. Levanta suspiros de pena em alguns transeuntes, que nada sabem da moça dura e orgulhosa que fora no passado. Hoje, seus pais não existem mais, e nem aqueles que lhe queriam tão bem. Não adiantou mais lamentar, apenas tentar sobreviver nas ruas.
Suas memórias lhe condenam todos os dias, e o tempo não curou o sofrimento diário. Pelos anos passados, seus pais deveriam estar mortos. Seu rosto enrugado ficou como máscara que esconde a princesa que ela um dia foi, e sua vida miserável não veio como castigo, mas como fruto por ela plantado.
Quando perguntam a ela por que ela mora nas ruas, ela diz: eu escolhi.

Caros poetas, este é um longo texto, mas a historia embora fora criada, tive como inspiração uma personagem que conheci realmente, e tem algumas semelhanças com o descrito aqui.
 
ANALÚ

Noites de Sábado

 
Noites de Sábado
by Betha Mendonça

Já é tradição: sábado de tardinha todos chegamos um a um com nossas famílias - aves de volta ao ninho – na casa dos meus pais. Como as garças brancas que voltam ao abrigo do Mangal, nós buscamos aconchego sob as “asas” de mamãe e papai.

E tudo no apartamento deles são aconchego e afeto. A placa na porta da frente com a figura de um casal de “velhinhos” estilizados já avisa aos visitantes: Casa dos Avós.De velho nada vemos lá.A mamãe com seu notebook ligado está antenada com tudo de novo e moderno.O papai diante das enormes TVs LCD à cabo e jornais do dia está em constante atualização.

Cada grupo que chega é efusivamente saudado e acarinhado por eles e pelos que já estão ali. Logo o clã todo se reúne. Os homens conversam bebericando cervejinhas e beliscando deliciosos petiscos que mamãe providencia. As mulheres divertem-se em risadas e “fofocas” entre xícaras de café e pães de queijos, enquanto os jovens segredam aos primos e primas as últimas saboreando pizzas, pães, empadão de frango, sanduíches, refrigerantes e outras guloseimas.

A diversão familiar avança na noite. Todos se reúnem na sala. Vemos vídeos de antigas festas convertidos em DVDs. Gargalhadas e troça da aparência de um, careta de outro ou fragrante engraçado. Outra vez vemos um jogo de futebol, uma novela ou filme só para um grupo desfazer do time ou ator favorito do outro.E rimos...Rimos muito!

Se algum tem um problema todos dão força, abraços e beijos. E a gente tem a certeza que tudo vai ficar melhor e dar certo. Que as soluções virão a seu tempo.

Nas noites de sábado o mundo todo cabe dentro de um aconchegante apartamento, que é pequeno comparado aos enormes corações de meus pais, mas pode abrigar com largo espaço filhas, filho, genros, nora, netos, netas e bisneto.
 
Noites de Sábado

O NETO QUE NÃO ERA NETO

 
O NETO QUE NÃO ERA NETO

Há certos dias em que fico propenso a volver meus olhos internos a um passado longínquo. Uma lembrança puxa outra e quando dou por mim já visto ao pescoço um colar repleto de recordações ordenadamente enfileiradas, como contas de pérolas. Dessa vez me vieram à mente as imagens de meu padrasto e dos pais dele - que eu não chamava de vovô e vovó por sincera vergonha de que essas palavras não saíssem muito redondas de minha boca, mas os considerava como tais -. Por não saber como melhor denominá-los chamarei o casal de meus “avós que não eram avós”. - Pois não é que, embalado nessas recordações, pulou-me do cérebro assim como salta um coelho da cartola, uma certa situação corriqueira de infância um tanto quanto mal digerida? Lembrei-me ornado em ricos detalhes que no dia do nascimento do netinho dos dois "avós que não eram avós" por parte do outro filho (o irmão de meu padrasto - meu "tiodrasto"), minha "avó que não era avó" saiu à minha frente com essa: - Estou tão contente porque nasceu hoje o meu primeiro neto homem! – Minha cabeça esfumaçou na hora. Não seria eu homem também? Não deveria ser eu o primeiro neto homem já que existia neste mundo com uns nove anos à época? Nas matemáticas de minha avó que não era avó, eu não entraria na somatória dos seus netos... Compreendi com uma emoção torta, insconsciente e não com a razão que, no conceito dela, eu era o “neto que não era neto”. E como rebate imprevisível à qualquer forma de rejeição uma criança, mesmo que de pequena monta... Confesso que após esse dia olhei-a de forma um tantinho mais indiferente, embora não menos respeitosa. Já meu "avô que não era avô", percebendo a inocente grosseria dela, interveio sem titubear: - Como você não tem neto homem, Emília, e o menino aí do seu lado? - Ela desconcertada devolveu-me um sorriso amarelo acompanhado de um aperto leve de mão nas minhas bochechas. Pobre dela. Como uma bomba de efeito retrógrado, apenas agora, tanto tempo já decorrido do fato, aquele gesto me comove o coração. Porque hoje entendo e sei que não houve por parte dela a menor leviandade mas a imensa manifestação de alegria pelo nascimento do netinho varão, sangue do seu sangue. Contrariamente ao sentimento dedicado à ela, foi justamente naquele mesmíssimo instante confuso e mágico que meu "avô que não era avô", passou a ser um avô de verdade em meu conceito. Pensando comigo aqui, ora homem feito (e até já me desfazendo um pouco), todos esses conceitos de consanguinidade não representam aos meus olhos qualquer importância. O que insiste diante à lembrança é um estranho aperto no peito, mais nada. Ah, vovô Flávio, quanta saudade de nossas partidas de xadrez e de ouvirmos ao rádio os jogos do São Paulo F. C. juntos. Descanse sua alma em paz. Minha vovó Emília, doce velhinha da fala mansa e de mão angelical para a feitura de doces deliciosos, tu és desde lá e para todo sempre uma legítima avó muito querida. Diante esse meu desalento, só espero uma coisa: haja a mínima possibilidade de algo de meu ressoar nos misteriosos ares do além, que por lá ecoem, não essas magras palavras, mas esse sentimento de carinho que nesse instante corta-me o estômago e que me é muito mais sincero que qualquer laço de sangue. Porque o passado muitas vezes não nos conforta, muito menos nos abraça; apenas sopra.

Gê Muniz
 
O NETO QUE NÃO ERA NETO

FAMÍLIA: SAGRADA UNIÃO

 
Benção de Deus, união sagrada.
És origem do mundo, fé, amor.
Homem e mulher na vanguarda
moderna, desejo acolhedor.

Vigiemos com ardor e clamor
a família, justa e integrada.
Benção de Deus, união sagrada.
És origem do mundo, fé, amor.

A sociedade deslumbrada
com o pecado; vil, sem pudor;
luta, padece, sofre, brada,
por sentimento apaziguador.
"Benção de Deus, união sagrada".

COMPUS ESSE RONDEL EM HOMENAGEM A TODAS AS FAMÍLIAS ESPALHADAS POR ESSE MUNDO DE MEU DEUS.
 
FAMÍLIA: SAGRADA UNIÃO

SETE PECADOS - EMOÇÃO LADINA* (LUXÚRIA) Inédito!

 
SETE PECADOS EMOÇÃO LADINA* (LUXÚRIA) Inédito!

Quando se trata da luz da paixão
A sedução acende as lamparinas...
Se é mulher, não será apenas questão
De ser uma senhora ou moça fina.

Aos olhos daquele a quem fascina,
Precisa ser mais que Maria ou João...
Quando se trata da luz da paixão
A sedução acende as lamparinas...

Ser vista por seu amado no nó da união,
Ser parte de sua vida e de seus filhos, afina.
De dia ser dona, à noite ele será o patrão,
Neste torturar o manter sob emoção ladina
Quando se trata da luz da paixão...

Ibernise.
Indiara (Goiás/Brasil),03.05.2009.
Poema Inédito!
Direitos autorais reservados/Lei n. 9.610 de 19.02.1998.

CONVITE
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SETE PECADOS - EMOÇÃO LADINA* (LUXÚRIA) Inédito!