Poemas, frases e mensagens sobre pobreza

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares sobre pobreza

Advento

 
Antecipo-me à morte anunciada
Num advento omisso de natais
É só o reflexo da minha fé cansada
De blasfémias de tantos carnavais

É farto o perú de tantos recheios
Na consoada rica e enfeitada
Lá fora uns olhos comem cheiros
que exalam da chaminé dos telhados

E há muita fome enquanto reza a missa
E o galo canta as 24 badaladas
O olhar triste da freira clarissa
A contrastar com a igreja engalanada

Não há menino num berço de palha
Mas há meus senhores...
Muita pobreza envergonhada!





Maria Fernanda Reis Esteves
50 anos
natural: Setúbal
 
Advento

Uma moedinha por favor

 
 
Dê-ma uma moedinha, senhora
por favor
mendiga o olhar entristecido
dos negros olhos de um petiz

Nas mãos enchentes de nada
a imundície da vida transparece
da vida cruel que o perfilhou

No corpo as marcas selváticas
do adulto bestializado.
veste-se o rosto infeliz
de desalentada submissão

Dê-ma uma moedinha
por favor
repete a voz desfalecida
num esgar de contradição

Vai trabalhar pedinte
e não me chateeis,
desaparece catraio
da minha suprema visão

Escrito a 21/01/10
 
Uma moedinha por favor

Mata-Bicho

 
Mata-Bicho
 
Uma mesa de café,
uma torrada e um galão
e, já agora, fatie-me um pão!
Pedi, por favor,
que a educação
não aumenta a conta,
nem traz dissabor

Um momento, um prazer
um luxo, talvez...
E a pobre velhinha
entrou perguntando
se alguém poderia
dar uma esmolinha
ou matar sua forme

Não quero fiambre!
Porque além da fome,
a saúde vai mal.
Prefiro um pãozinho
pr´a levar pr´a casa,
faço um cafezinho,
comprei de cevada,
pr´a me reconfortar
e depois eu já posso
a seguir me deitar

Disse para a moça
que estava ao balcão,
olhe! por favor!
Era mais um pão,
cortado na máquina,
pr´a esta senhora,
que é tão simpática

E veio o patrão
pr´a me questionar,
se eu ia em cantigas
de vigarizar
e eu respondi,
um tanto indignada,
aquilo que eu dou,
nunca me faz falta.
Deus é meu amigo
e eu retribuo
de alma lavada

Olhei a velhinha,
vi sua emoção,
olhei os seus olhos,
senti que falavam...
só vi gratidão!

O social é responsabilidade dos governos, é um facto, incontestável.
Mas os governantes não têm coração!

Maria Fernanda Reis Esteves
48 anos
Natural: Setúbal
 
Mata-Bicho

No estertor de uma sociedade

 
No estertor de uma sociedade

Decorridos quase quarenta anos sobre a denominada revolução dos cravos, conclui-se por um lapso de tempo que se aproxima a passos de gazela do tempo de vida do famigerado estado novo. É que ninguém segura o tempo e se o tempo do estado novo foi uma eternidade, igual eternidade decorreu desde a dita revolução, de que se não vê terem emergido resultados que honrem com significativa energia a caminhada deste pais para a modernidade.
Considerando apesar de tudo que a mudança se impunha e que algo de positivo resultou, são tantas as cicatrizes e as equimoses ainda em carne viva vividas pelo nosso povo, que se não nota neste um convincente entoar de loas à governança (sucessivas governanças), que tem conduzido este país. Tem sido flagrante a falta de senso, de previsão de situações, por reconhecimento da nossa efectiva pequenez (já lá vai o tempo do império) a mais que visível ausência de condições para a ostentação de um nível de vida acima das nossas posses, escandalosamente estimulado por Instituições nisso interessadas e com a complacência de plêiades governantes sempre incapazes de verem à distancia. Penso que o facto de sermos um país pequeno não teria nem tem que nos forçar a uma atitude de continua subserviência perante os maiores. O tempo do poder dos grandes está a ser ultrapassado, pelo que não temos que abdicar das nossas responsabilidades num mundo novo e forçosamente mais justo que ao longe se anuncia em que os pequenos terão respeitável lugar, e em que temos que acreditar.
Quero terminar sublinhando que quero acreditar que caminhemos para uma sociedade em que o dinheiro terá apenas a importância que tem e não a inflacionada pelos humanos abutres que ainda enxameiam as sociedades. Estou a pensar na corrupção a todos os níveis e nos ordenados escandalosos que por aí se pagam, quer em Empresas publicas quer privadas. Sim terá que haver forma de estabelecer tectos, de acabar com escândalo. É urgente inventar formas de neutralizar esse tipo de abutres que desempenham funções de responsabilidade muitas vezes em áreas para que não têm competência. Sim acredito que sociedade venha em que o dinheiro não seja endeusado, como tem vindo a ser no sórdido espectáculo a que há muito temos vindo a assistir. Sim, porque ele (o espectáculo)não é só de agora.

Antonius
 
No estertor de uma sociedade

Palavras amargas

 
Cuspo palavras amargas
Geradas nas entranhas
Dilaceradas pela injustiça.

Cuspo a dor da mãe
Que me estende a mão
Envergonhada
A pedir o pão
Para a sua filha pequenina.

Linda menina
Sorridente e inocente
Tentado alcançar
Os sacos cheios
No carrinho do supermercado.

Sem emprego
Sem dinheiro
A jovem mãe pedia
A ajuda abençoada.

Notava-se na sua face
O desespero de quem perdeu a fé
Após ter levado
Muito pontapé.

Não roubava,
Pedia!
E toda a gente fugia...

Gente de bem,
Gente caridosa,
Por onde andam
Meu Deus?
 
Palavras amargas

É UM FARTAR, VILANAGEM

 
É um fartar vilanagem!
Aumentem o petróleo
A gasolina e o gasóleo
Enquanto os povos não reagem.
Continuem com o monopólio,
Afichem os vossos lucros
Enquanto os pobres só têm
Que uns pequenos púcaros
Para comerem uma sopa de água.
Mas vós, vós estais sem mágua
Vendo toda a miséria no mundo.
Continuai, nós vamos esperando
Do dia em que vós bateis no fundo.

A. da fonseca
 
É UM FARTAR, VILANAGEM

CULTO À MISÉRIA

 
CULTO À MISÉRIA

Sessenta centavos
em moedas miúdas
pousadas à mesa...

Dou-me nada bem
com a riqueza e
dela não me deito atrás...

Meu culto à miséria
é, de fato, hipérbole...
Mantenho-me enfeitiçado
pela magnitude pertinaz
das ínfimas miudezas...

Dinheiro no bolso?
mal não há...
Há receio de provar
da privação da própria solidão
na companhia perdulária da fartura...
 
CULTO À MISÉRIA

Bordados.

 
Bordados.
 
Bordados

Lembro-me, ainda, quando eu era bem pequeno,
Minha mãe fazendo alguns bordados em tecido,
Com antigos moldes desenhados e papel carbono
Já desgastado pelos anos, rasgado e descolorido.

Usava um lápis antigo ou uma ponta de madeira
Que passava sobre os moldes de papel amarelado.
As vezes, o risco não saía nítido, na vez primeira,
Então, pela minha mãe, era novamente retocado.

Eu não sei quanto tempo minha mãe fez bordados
Mas sei que sempre fez daquela mesma maneira,
Parecendo ter usado um só carbono a vida inteira.

Hoje quando recordo destes momentos passados,
Penso como a vida antigamente era uma pedreira,
Em vista da nossa precária situação financeira.

Maringá, 25.01.08
 
Bordados.

levei-lhe umas sandálias

 
vi uma criança à beira da estrada
pareceu-me abandonada
e pelo frio amargurada

quis roubar alguns nuvens
para lhe fazer uma casa de pedra
e fui com ela de viagem
até à próxima primavera

abri uma porta para o céu
para no azul voar com os pássaros
cortar o vento em direcão ao mar
os campos e montanhas admirar
afinal toda a criança é um guerreiro
que sabe montar um cavalo alado

deixei também uma janela aberta
no sentido do caminho das estrelas
para à noite passear com elas
entre tempestades de prata
no fascínio do som dos sonhos
a verterem de dois olhos risonhos

ah… quase não me lembrava!
levei-lhe umas sandálias...
 
levei-lhe umas sandálias

MAIS NINGUÉM NA RUA A MENDIGAR

 
Quero aprender a falar com o coração
No silêncio da noite,na estrada da vida.
Saber o momento em que devo dar a mão
Saber qual é o momento para dar guarida.

Trazido pelo vento vejo tanto desprezo.
Vejo corpos que se arrastam pela cidade.
O fogo da vida e do amor jamais aceso
Estendendo a mão mendigando caridade.

Em noites frias a neve faz a sua aparição
E oiço... quem me dá um euro para um café?
Mas há quem os trate como um simples cão
Mas a diginidade desses seres morre de pé.

Revolta-me ver o luxo ao passar pelas marinas
Desses meios de prazer daqueles que nada dão.
Enquanto há mulheres que se vendem à esquina
Das ruas das cidades sem hipóteses de salvação.

Mas quando caminharei eu nas mesmas ruas
E poder ver a felicidade e o sorriso a passear
Ver também o amor de mãos dadas, à luz da Lua
E não ver mais ninguém na rua a mendigar.

A. da fonseca
 
MAIS NINGUÉM NA RUA A MENDIGAR

a fome bateu-lhe à porta ruidosamente

 
a morte saiu à rua vestida de branco
nas asas de um albatroz de bico silente
amputado pelas guelras da meia-lua,
a fome bateu-lhe à porta ruidosamente
desceu os degraus e calara-o na rua.

subiu a calçada com a mulher prenha
e um punhado crispado de nada,
tudo parece novo dentro da sentença.
quanto mais andava mais a fome mastigava
o estômago na boca, o urdir da crença,
sem casa, sem cama, sem mesa, sem…

os anúncios luzentes feriam-lhe os olhos
- Soluções de crédito à sua medida –
- TAEG 17,6 por cento, TAN 14 por cento –
- Venda o seu ouro por um preço justo –

(Paga e não bufes filho da puta!)

largou a mão à mulher prenha
subiu ao último andar do prédio devoluto
deixou-se cair sobre o anúncio do nojo
que rege as gorduras da devassidão.
ao cair, ainda assim, berrou:

- Alimenta a mulher e o meu filho, cabrão!

Conceição Bernardino
 
a fome bateu-lhe à porta ruidosamente

Levo o meu barco

 
LEVO MEU BARCO

Em meu barco faço minha travessia
Sou capitã, não me deixo naufragar
Para as aventuras deste dia
Levo comigo quanto preciso e que hei-de amar.
Irei vasculhar todos os mares
Penetrar em àgua profunda
Abarcar em marés de luas e luares
E deixar ao longe a terra moribunda.

Sei de cor e salteado
Sou do Povo, dele venho!
Falo sempre assim e assado!?
Tenho a importância que tenho.

Melhor do que quem quer que seja
Sou bicho raro, sou ignorante?!
Pertenço ao Povo,sua voz em mim rumoreja.
Levo meu barco distante.
Não devo nada a ninguém!
Faz tempo, a pobreza enfrentei
Sigo sempre mais além,
Tempestades enfrentarei.

Deste barco não arrancarei pé
Sou marinheiro de fé.

Sou poeta desde a juventude
Bom poema não consegui escrever
Mas vou tentando amiúde
Quem sabe?!
No Céu quando morrer!?

rosafogo

Dirão os amigos que não tem pés nem cabeça esta poesia, ou que pretendia sê-lo, mas é uma mistura de ideias que me foram surgindo nesta tarde cinzenta triste e quase a findar.
 
Levo o meu barco

Os dias em que vivemos

 
Tanta falta de apoio social
Nas classes envelhecidas
Por vezes não têm o essencial
Para manter as suas vidas

Cada vez há mais pobreza
E famílias desempregadas
Com o pão, a faltar na mesa
Sem apoio,desamparadas

São os mesmos sacrificados
Empobrecidos cada vez mais
Não podemos ficar calados
Já não suportamos mais

Uns a esbanjar de fartura
E muitos vivem em aflição
Com uma vida tão dura
Mereciam mais atenção

José Matos - 14.01.14
 
Os dias em que vivemos

Reforma agrária

 
Reforma agrária
 
Eu venho dos campos, me encontro nas filas.
Venho de fazendas estou morando em favelas.
Venho do Nordeste e me encontro nas vilas,
Sem nenhum saneamento, estou vivendo nelas.

Há no país centenas de latifúndios improdutivos
E poucas pessoas possuem milhões de hectares,
Sem objetivo social que é a função da terra
E se expulsa do campo milhões de lavradores.

Quem nunca foi pobre pode ser contra esta tese.
Só para quem não está incluso é que isto serve,
Mas quem está muito bem, em reformas nem fala.

Este mundo é mesmo assim, cada um pensa em si,
Com isto a criminalidade aumenta cada vez mais.
Sem enfrentar o problema, cava-se enorme vala.

Maringá, 13.03.08
 
Reforma agrária

O PORTEIRO DO MEU PRÉDIO

 
O PORTEIRO DO MEU PRÉDIO

Viajou no improviso
No impulso sem esteio
Impelido pela saturação
Queimado pelo desespero
O fez sem um puto no bolso
Sem juízo ou endosso de alguém...

Primeiro deslizou pelas canoas,
Depois brigou por comida
Por fim desfilou de pau-de-arara
Em direção à essa patifaria
(Ilusão por tantos bem-falada)
Das riquezas do sul maravilha

Passou fome e sede
Dormia por exaustão
Acostado numa rede,
Deitado em papelão
Ao relento, no calçada
No contrapiso das marquises
Em construção

Mastigou farinha de mandioca
Só ela, seca
Sem o dente do siso
Sem o dente canino
Sem os incisivos
Sem dente nenhum
Isso e muito mais...

Agora, depois de
Engolir o pão amassado
Pelo próprio satã
E agradecer aos céus
Por poder comer
Virou porteiro
Aqui do meu prédio...

Ele diz que hoje
Finalmente tem dinheiro
(Pouco, mas tem)
Para comprar seu alimento
Jogar sua sinuca, seu truco
(Que aprendeu aqui no sul)
Tomar sua cerveja gelada...

Conta que, para ele,
Que nunca teve nada
"Nem uma panela furada"
- frase dele -
E do jeito
Que a coisa anda
Está muito bom...

Reafirma sempre
Com olhos vidrados,
Escuros,
Sofridos
(Mas ternos...)
Que é feliz com a mulher...

Agora estampa um sorriso largo
De dentes alvíssimos e retos
Sorriso que comprou
Em dez vezes
(Essa é uma alegria dele)

Ele ama conversar e rir
E mostrar que tem boca
(Nunca o vi reclamar
De nada, nada
Apesar das dores, das marcas
Que não são poucas)

Pois é... Esse é o
Porteiro do meu prédio,
Seu Esteves...
Ele é a real gente
De carne e osso (e dentes),
e sonhos, quantos sonhos
Desse meu país, Brasil

Seu Esteves é negro,
Nordestino, banguela, coxo, pobre
Tudo o que os poderosos daqui
Abominam ver, sentir, perceber
E ele é, sim,
(Estranho paradoxo) feliz...

Mas sou eu,
Que ele acha burguês,
Que aprendo com ele
A jamais prejulgar alguém...
 
O PORTEIRO DO MEU PRÉDIO

MASTURBAR A VIDA

 
Porque será
Que neste Mundo
Que deveria de ser
Para todos igual,
Há o proveito
Absurdo e imundo
Neste deserto
Onde o rei
É o chacal.
Outros labutam
E não encontram nada
Por mais que lutem
Vivem no marasmo
Passando o tempo
A masturbar a vida
Mas esta para eles
Nunca tem orgasmo.

A. da fonseca
 
MASTURBAR A VIDA

PORTUGAL - O REINO CORRUPTO!

 
Tudo começou com a denúncia publica de corrupção de algumas grandes empresas, clubes de futebol, autarquias, ministérios... Nessa altura tudo parecia possível de controlar, parecendo excepção. Hoje Portugal é um país onde a corrupção é uma prática corrente, estamos perante o maior problema português. O actual governo patrocina tal fenómeno, entrando em negociatas e submetendo-se ao poderio económico e financeiro dos grandes grupos.
Os empresários beneficiam dum sistema de capitalismo selvagem com apoios visíveis do actual governo, tornando a precaridade e liberalização da exploração do trabalho, algo normal. A pobreza e o desemprego na sua expressão principal aumentam diáriamente. Portugal está a ser governado por um grupo de falsários, adoptando políticas neo-liberais com consequências piores do que o fascismo.
A actual ditadura do governo ps, obriga a utilizar formas de luta típicas das utilizadas para derrubar ditaduras. O que deveria ser um Estado de Direito Democrático, faliu. Portugal é uma ditadura legitimada por um processo eleitoral.

Barão de Campos

http://portugaljornal.blogspot.com
 
PORTUGAL - O REINO CORRUPTO!

Maldito Frio, que Vadio

 
Maldito frio que vadio, vais vadiando nos meus sapatos
Arrefecendo os dedos rotos nas meias andanças
Atrasas-me a mensagem, que trago envolta nos trapos
Que finos um dia, são agora rasgões expostos às lembranças

Maldito frio que vadio, no beco mostras a minha pobreza
Sei que a garrafa que envergo, meia cheia de esquecimento
É também meia cheia de céu cinzento que recordo,
bebendo na certeza de esquecer gentes que amei
quando sem trapos nem rasgões, no sentimento

Maldito frio que vadio, me lembraste de partir
Para pedir moeda quente que te faça fugir
Pois pobreza, meu corpo e alma estás a cobrir
E o bendito sol hoje tarda, por muito dormir

Todos os dias tem sido nublados e opacos
Mas frio assim só hoje que aqui desisti
Das andanças que não eram meias de dedos rotos esfriados

Meu ultimo Poema em '140314
 
Maldito Frio, que Vadio

ESTAS CRIANÇAS SÓ PEDEM AMOR

 
ESTA HISTÓRIA É VERDADEIRA

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Era terça feira.
A neve caía
E nessa rua fria
Eu caminhei.
Num passeio deitados
Cobertos com cartões
Estavam dois corações
A quem a mão eu dei.
Eram duas crianças
Ao frio, abandonadas
Com as roupas molhadas
De frio tiritando.
Levei-os ao café
Onde sofregamente
Os dois pobres entes
O estômago aqueceram
E o calor adorando
Eram duas crianças
Pelos pais abandonados
Sozinhos e escorraçados
Por uma sociédade sem calor.
Mas para quando
Veremos esta miséria
Banida como bactéria
Nociva para a vida.
Estas crianças, só pedem amor.

A. da fonseca
 
ESTAS CRIANÇAS SÓ PEDEM AMOR

O LUXO E A POBREsA

 
Enquanto a luxúria se passeia
Em cruzeiros no alto mar
A pobreza essa se premeia
De uns carapausitos a fritar

A lagosta bate as suas pinças
Fazendo pirraça às santolas
Enquanto um carapau não destrinça
Um molho português de um à espanhola.

As mesas desse transatlântico
São belas, são doiradas, bem ornadas
O lar da pobreza é mais romântico
As mesas em madeira cheias de nada.

À noite no salão dança-se a valsa
Um tango, um slow, jamais o vira
Eles não sabem sequer dançar a salsa
Mas o vira ou o malhão, que coisa gira.

A vaidade vai vogando ao sabor das ondas
O champanhe a rodo nessas mesas
Na miséria mesmo a água não abunda
Mas o que abunda sim, é a tristeza.

Quando será que todos podem navegar
Nas mesmas ondas em igual barcaça
Quando será que se pode imaginar
Que a igualdade não é algo que se estilhaça

A. da fonseca
 
O LUXO E A POBREsA