Poemas, frases e mensagens sobre sociedade

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares sobre sociedade

EU DURMO COM A MINHA MULHER

 
Cada um tem a sua
Sua maneira de viver,
Há os que vivem na rua
E que na rua irão morrer.

Há os que vivem com fome
Em estado de precariedade
A miséria os consome
Vivendo da caridade.

Outros vivem em Palácios
Nasceram em berço de ouro
Sendo já o prefácio
De uma vida ao miradouro.

Há os que são protegidos
Pela nossa sociedade
E os que são agredidos
Sem haver dó nem piedade.

Mas para pecados meus
Não consigo compreender
Que haja quem dorme com Deus
E eu durmo com a minha mulher.

A. da fonseca
 
EU DURMO COM A MINHA MULHER

O amanhã não é para sempre.

 
(#)

Ah esse tempo ingrato,
que resolveu materializar-se em mim.
Tatuando-me a estética da velhice,
descorando minha juventude.
Minando-me a resistência, a capacidade.

A desestruturar minha arquitetura.
Degenerando-me os desejos, as cartilagens.
Atrofiando minhas papilas, em vontades e sabores.
Embaralhando e deletando em lapsos meus conhecimentos.

A realçar minha consciência de finitude.
Cruelmente revelando-me quão ínfima
e obscena me foi sua quantidade.

Eu, perecível produto cultural.
Pessoa ignorada,até marginalizada,
Inútil e carente em minha senilidade.
A exalar cheiros de remédios,
tão orgânica como os sábios livros velhos, ácidos e morfados.

Cheia de rusgas e manias,
sem os ímpetos do entusiasmo perdidos na longevidade.
Na lentidão dos gestos, que não permitem-me apreender...
A beleza do sonho a tirar sons da lira.

E essa oculta insatisfação do espírito,
na contramão de um tempo não linear.
Tão repleto de espontaneidade,
como se ainda fosse criança.

Em contraponto minha franqueza desenfreada,
despindo-me da comum hipocrisia.
A dizer sinceridades, mesmo que seja aos ventos...
O liquido direito de não aceitar ser desrespeitada,depreciada,infantilizada
ser um peso, ou um nada.

O íntimo desejo de não ser apenas uma leitura inacabada...
Como a expressão do tempo, fases , ciclos inerentes a todos, de um amanhã que não é para sempre.

[Ou a absoluta certeza que viver é a melhor idade.]

Lufague .
 
O amanhã não é para sempre.

900.000 SEM ABRIGO

 
Parece que estamos no século XXI, parece!...
Quando andava na escola, criança, feliz vivia sem me aperceber das dificuldades da vida.
Sem pai desde os quatro meses de idade, minha mãe tudo fazia para que eu tivesse uma vida igual aos outros garotos
Atravessava-mos a segumda grande guerra mundial e em plena guerra civil de Espanha.
Na escola aprendi que o mundo desde que é mundo atrevessou sempre períodos de guerras constantes, aprendi as barbaridades desses séculos longíquos.
Cresci, fiz-me homem e pensava eu que todas essas atrocidades, com o progresso da civilização,
passaria-mos a viver, não digo num Paraíso, mas em paz, com casa para vivermos ao abrigo do frio, com as comodidades , pelo menos as essenciais para termos uma vida decente, fruto do nosso trabalho, que a paz viria reinar no mundo, certo, havia a bomba atómica, mas para mim nesse tempo até era símbolo de paz, com o medo que ela representava, ninguém ousaria a declarar guerra a ninguém, puro engano!
Na verdade, os Países que a possuem, não declaram guerra àqueles Países que também já a possuem, quanto aos outros, vivem sobre a ameaça desses mesmos Países. Invadidos, bombardeados, escravizados e a fome grassa, os sem abrigo são cada vez mais numerosos. Os povos manifestam e são recebidos com cargas policiais desumanas.
E estamos no século XXI, parece, já nem tenho a certeza, parece que ainda ando na escola a aprender que os povos de antanho, viviam muito mal, com fome, sem abrigo, escravizados e começo a pensar que ainda não saímos dessa época.
Não me engano. Estamos bem no século do progresso e de tal maneira ele é excelente, que temos , televisão, rádio, que todos os dias nos anunciam coisas horriveis.
Esta semana, na Estação de Televisão Francesa
TF1,no fim do programa, a jornalista despediu-se dos telespectadores em dizendo: ATÉ AMANHÃ! E EM SEGUIDA, HOJE, EM FRANÇA, 900.000 PESSOAS NÃO TÊM ONDE DORMIR!
É o Século XXI

A. da fonseca
 
900.000  SEM ABRIGO

Ainda somos Seres Humanos

 
Que vergonha de viver neste mundo;
Que vergonha de ter nascido um ser humano;
Que vergonha de ter que pagar para me alimentar;
Vergonha sim, de fazer parte deste ciclo doentio chamado sociedade; ciclo este que fazem os seres humanos quererem ser mais ou melhores uns que os outros;
Vergonha sim, de ter que provar que eu sou melhor que você;
Vergonha sim, de me alimentar e ver outro ser humano revirando sacos de lixo;
Mas, lixo na verdade, é a sociedade em que vivemos, sociedade esta que nos força a sermos piores que nossos próprios medos;
Medos estes que nos forçam a sermos os piores seres humanos;
Vivemos em tempos modernos, razão pela qual foram alcançadas grandes conquistas;
Em um mundo de abundância, ainda somos pobres, ainda somos podres.
Ainda somos seres humanos.
 
Ainda somos Seres Humanos

Sociedade tecnológica

 
O Computador
Prende o “viajante” diante de uma tela
Onde ele se sente “livre”
Para “navegar” horas intermináveis.
“Comunica-se” com todo o mundo
É quase sempre um “poliglota”,
Que se fecha com sua “tribo”
E nunca sai do seu país,
Às vezes, nem do seu bairro.
Vive em um mundo virtual
Porque não conhece a realidade
Que pensa viver através da tela.

O automóvel
Exemplo de dependência e ilusão
São as rodas da vida
Símbolo de status
Mas, que só é possível
Para pequena parcela da população.

O celular
Com seus fones a encher os ouvidos
São os fios da vida.
Possibilita comunicar com pessoas de outros continentes
E dificulta saber
Quem é o vizinho do lado.

Todas essas necessidades supérfluas
Angustiam o homem moderno.
Como ser feliz
Com todos os vícios
Produzidos pela decadência
Moral dessa sociedade?

Poema: Odair

Odair José

http://odairpoetacacerense.blogspot.com
 
Sociedade tecnológica

(Des)digo!

 
(Des)dita recebe quem deseja sorte
(Des)amor, aquele que mais o distribui
(Des)apego, aquele que mais se entrega
(Des)elegante é quem escolhe cultivar a alma
(Des)abilitado quem não conhece a arte de enganar
(Des)acertado quem não disfarça os sentimentos
(Des)ajustado, aquele que não fomenta lobbies
(Des)entendido aquele que se faz de tolo
(Des)iquilibrado quem tem o coração na boca
(Des)ventrado quem pariu a aberração que antes de nascer já estava moldada à sociedade
(Des)digo tudo o que disse, não vá ser censurada!
(Des)ilusão!


Maria Fernanda Reis Esteves
49 anos
Natural: Setúbal
Email: nandaesteves@sapo.pt
 
(Des)digo!

Forma Pronta

 
Enganados por pensamentos de outrem
acreditam nas crenças alheias
sem ao menos escutar a voz que os anseia
-pobre humano que não peleia-

Viver em sociedade
Sem almejo diverso da vontade
Evitar o ''ser curioso''
Por preguiça o medo de algo enganoso.

Não adentram nos males do universo
Estão cegos diante dos versos
Impostos por seres ditos ‘’corretos’’
Que os convencem por decretos.

Cada cabeça uma sentença
Sendo assim, cada crença uma cabeça,
Cada corpo uma unidade,
Cada qual com sua regularidade.

Não deixes que a forma pronta
Te convenças com tua afronta.
E quando vier de escolta
Mostres toda a tua revolta.

Tudo é distinto, modelo de visão,
Podemos e devemos divergir opinião,
Entendas o que é, e pode ser verdade
cogite inúmeras possibilidades.

Talvez pelo ócio ou falta de orientação
pobres oriundos da sociedade
que não presenciam o prazer da contestação.
que encaram tudo como pronto
perdem todo o encanto e dissipam descobertas
que são singelas, belas e incertas
fornecem o sustento para a curiosidade
e fazem com que a vida seja vestida de autenticidade.

APSCHEFFER
 
Forma Pronta

Amanhã é dia

 
Daniel foi sempre descrente de tudo. Era como se lhe estivesse no sangue o desencanto. Ele tinha consciência de que, no fundo, ou no fim de contas, nada valia a pena mesmo que a sua alma fosse grande, mas sentia-a pequena.
Viveu sempre rodeado de pessoas convictas, crentes e entusiásticas das causas que lhes interessavam. Ninguém, à sua volta, andava perdido, ou simplesmente desorientado. A Gina era astróloga especialista. O Antímio era ateu inveterado. A Eva era católica e o Adão era cientista, cristão.
Daniel relacionava-se com estas pessoas, por diversas razões. Para elas, Daniel não era nada. És do Benfica? ÉS do Porto? Não. Eu quero que vocês se fodam, dizia ele. Não tendes mais nada que fazer/dizer?, perguntava ele. Não., respondiam-lhe eles.
A vida era uma merda.
As coisas, o mundo, a natureza, a música, o ar que respiramos, o sono… eram maravilhosos, mas as pessoas, quando entrava em certos questionamentos, eram, nas suas próprias palavras, uma merda, ou pior. E ter que trabalhar, em determinadas condições, era odioso e revoltante.
Mas o mais odioso e revoltante era ver o que se passava entre o poder e os que não têm poder.
Daniel não tinha poder e gostava de ter, mas nada fazia por isso, porque era descrente até do ódio, que não levava a nada.
«Um tipo assim não devia ter nascido», comentava o Afonso Henriqueto, numa palestra promovida pela Sociedade contra a apatia, subordinada ao tema «Como distinguir os frutos do ódio e do amor?»
Daniel sonhava.
«Se ele acreditasse, tentava realizar o seu sonho», dizia o padre Américo à irmã Francisca.
«Mas Daniel não acredita que possa realizar o seu sonho», respondia a irmã.
Daniel sonhava com uma sociedade sem partidos políticos e sem governantes, porque estes eram os representantes daqueles que todos devemos recear. Os que têm poder são sempre uma ameaça e um perigo. A qualquer momento impõem a sua vontade. Numa sociedade desorganizada politicamente também isso aconteceria.
Qual era então a vantagem?
A vantagem era que numa sociedade politicamente desorganizada os que têm poder não poderiam contar ainda com o favorecimento das instituições.
 
Amanhã é dia

Será que viajar é mesmo preciso?

 
Está irritantemente na moda viajar, e eu incluo-me na adesão a esta moda, embora nem sempre tenha o carcanhol suficiente para este tipo de andanças. Tudo o que se escreve, tudo o que se lê e tudo o que se vende é sobre viagens. Uma celebridade divorciou-se e lá vai ela para a Tailândia afogar as mágoas. A actriz de meia-idade da telenovela da noite está em depressão e lá vai ela para Punta Cana curar-se com Margaritas. Um ilustre desconhecido vai trabalhar para Singapura e lá temos que gramar com as peripécias dele numa revista qualquer. Uma voluntária, no meio de centenas que estão no anonimato, vai prestar assistência nos bairros-de-lata do Uganda e lá temos que saber a que horas ela acorda para dar milho às capotas. O nosso amigo do Facebook passa o ano a viajar e lá temos que levar com as selfies dele, a cada 10 minutos, com os dentes à mostra em cima de um coqueiro.

Acho que se valoriza demais a viagem pela viagem, e não a verdadeira essência privada e individual que ela representa. É que um ar cosmopolita, livre, endinheirado e bronzeado, cai sempre bem no gôto de quem nos vê na imprensa ou, se não formos famosos, de quem nos vê nas redes sociais. Porém, acredito que muitos até nem gostem de somar milhas ao currículo, mas lá fazem um esforço na esperança de que alguma coisa mude na pasmaceira em que estão metidos. Como, contrariamente, também acredito, que viajar nestes moldes não passe somente de um agravar da tão temida zona de conforto. Zona esta, aliás, que está igualmente na moda, principalmente quando dela nos servimos para fazer, em ciclo vicioso, estas mesmas viagens.

Está massificado o acto de ir do ponto a ao ponto b e, de preferência, de avião para outras latitudes longínquas. Parecemos, como canta Carlos do Carmo, "bandos de pardais à solta" que esvoaçam para onde as Estações do Ano são ao contrário. Desta maneira, posamos no meio dos autóctones e com indumentárias inversamente térmicas às usadas por quem na Santa-terrinha ficou invejoso na labuta diária.

Hoje em dia o fenômeno da movimentação turística manifesta-se do pobre ao rico, do culto ao inculto e dos 8 aos 80 anos. Pelo menos que nos valha esta heterogeneidade sócio-cultural tão presente nestas romarias e, que forçosamente, tende a acentuar-se num Mapa-múndi já sem dragões assustadores. Assim deixam de existir snobismos, felizmente, na arte cada vez mais popular de conhecer o Planeta. O objectivo é coleccionar destinos, falar de monumentos remotos entupidos de gente, não esquecendo, claro, o snowboard todos os anos na Sierra Nevada. O que interessa é ir e, mais importante, provar que se foi, porque caso contrário a viagem nunca terá propriamente existido. Na verdade, para o migrante temporário, nem sei se há memória fidedigna nestas deslocações falsamente maquilhadas de aventura. No máximo, há quem se lembre que foi aldrabado no troco algures numa rodada de vodka, ou então, que devido às ostras estragadas, que passou um dia inteiro sentado na sanita do hotel a ouvir David Guetta pelo iPhone.

No fundo, grande parte desta histeria actual ao excursionismo (intra e inter-continental) desenfreado é culpa do Poeta. Fernando Pessoa relembrou-nos, e bem, aquilo que os antigos navegadores diziam: "Navegar é preciso; viver não é preciso". Ora, alterou-se o que outrora era bravura e epopeia, para esta espécie de comodismo misturado entre "O Barco do Amor" e "A Ilha da Fantasia". Isto é, toda a papinha é feita pela mão de outrem, ao mesmo tempo que nos fazem crer que seremos nós os descobridores de algo novo em exóticas paragens. Primeiro somos incutidos a gostar do que já está feito, e depois não há criativo desassossego, nem originalidade em cada pacote que nos é vendido a preços cada vez mais competitivos.

Ainda que viajar, seja de que maneira for, redunde sempre numa experiência fascinante, cheia de novas perspectivas e pensamentos, faz falta o viajante genuíno a correr nas nossas veias. Falta o Marco Polo que no Séc. XIII calcorreou destemidamente a Rota da Seda e que arriscou pisar as planícies do Gengis Khan. Falta deixar de ir para a Grande Muralha da China com um hambúrguer do McDonald's, comprado no vilarejo mais próximo, enfiado no bucho. Falta o desapego à banalização do viajante que só não quer ficar para trás por mera vaidade. Falta admitirmos, geográfica e socialmente falando, que já não existe Terra ignota e, que portanto, vale a pena olharmos para o espaço que temos à nossa frente com outros olhos.
 
Será que viajar é mesmo preciso?

As caixas empilhadas

 
Como que excessivamente expostos à dependência das ruas calcetadas, bem como das paredes de um lado e de outro da mesma rua, caminhamos sobre pés, sobre rodas e debaixo do fogo do compromisso de aqui estar no cumprimento daquilo que nos calhou. Como que terrivelmente impostos uns aos outros, nestes trajes de modernismo relativos à época, habitamos as caixas empilhadas que arrumam pessoas, tão degradantes quanto o esforço que é desejá-las e comprá-las sobre o chão que é de todos.

Para quem olha, sem conseguir pensar no trabalho que paga uma caixa empilhada, ou mesmo sem pensar na folga que promete fazer esquecer o trabalho, vislumbram-se as paisagens vestidas de dureza. E elas vão desde a janela de vidro que espia uma árvore que brota do chão cimentado, até uma porta de madeira que se abre sobre um corredor de tijoleira com dois vasos de cactos nas escadas.

Não parecemos ser toupeiras destas galerias geométricas, nem mesmo obreiros de tamanha desconexão com o ar livre. Mas inevitavelmente somos daqui, desta lógica de viver como brinquedo que acaba sempre por voltar - mais usado - à prateleira solitária. Somos precisamente daqui, deste culminar de entendimentos entre nós, e subdivididos consoante o poder de morar talvez um pouco melhor do que o outro.

Numa distinta forma de sobreviver e de olhos esburacados pelas ruínas que se mascaram de casas quentes, ainda plantamos ervas aromáticas na cozinha, ou então, ainda temos vaidade em comer uma maçã adubada a estrume. Melhor ainda, contratamos viagens distantes que nos façam possuir o pasto dos indígenas, para que, quem sabe, numa foto possamos respirar divertidamente sobre quem nos vê num telefone dos nossos dias.

Seguramente, uns planeiam empilhar-se ainda mais no lugar onde estão, numa frenética dança pela posse de todos os objectos que decorem o interior e o exterior da caixa. Enquanto outros, desprovidos de um plano de acção que favoreça uma arrumação vantajosa de vidas pelo espaço loteado, entendem-se parados, mas ridiculamente incluídos.

Ora, e quem tudo arruma é uma grua invisível, é um arrumador de ruas e de caixas. É um monstro colectivo, que a bem do funcionamento dos esgotos, das luzes, da água e do hospital da cidade, despreza cordialmente a carga danificada. E ainda que atento se fique à monstruosidade de um velho em sacrifício no leito da frustração, que de papelão se cobre contra o frio debaixo de um viaduto, pouco importa, porque nós (pelo menos) já estamos arrumados e secos.

E por aqui perambulamos persistentes, recusados à desproporção entre a pobreza orçamental de uma vítima urbana e o abastado ser invisível que cuida do cultivo da nossa nostalgia ao cheiro da terra. Falta tempo demais para se conseguir conjugar o idiota que festeja a altura em que volta a fechar-se empilhado na caixa, com o mérito excedente daquele que adia fechar todas as portas a um céu estrelado.
 
As caixas empilhadas

Sóbria de mim

 
Sóbria de mim
 
Vá lá alguém fazer de si próprio confidente
Dar um voto de confiança à propria sombra
Há uma instância onde corre um grito infecto
alma ou comarca que atraiçoa toda uma esperança

Já me evadi, sou foragida, fora de lei
faço valer a minha voz aos quatro ventos
Essa sou eu, sem máscaras, sem subterfúgios
Resido só no vale da alegria e autenticidade
no respeito por mim mesma e pelo alheio

Se saio ilesa de tamanha mesquinharia
da subtileza das palavras vãs e amorfas
É porque não me importa a imagem que têm de mim
tudo o que eu quero, é ser sóbria de mim
e ler a paz nas alegações finais

Maria Fernanda Reis Esteves
50 anos
natural: Setúbal
 
Sóbria de mim

ESQUELETOS ELÉTRICOS

 
ESQUELETOS ELÉTRICOS

Alterno-me em devaneios apáticos
Entre as compras do açougue
E os carrinhos do supermercado
Afundo-me aos passos no corredor
Badalando sinos, empurrando desavisados
Abusando dos pés espalhados, erráticos
Divido-me franco entre o liquidificador
E os milhares de potes de plástico
É tudo de um rico brilho aterrador
De design moderno, intergaláctico...
Os pensamentos fogem do pensador
Formando seus próprios negros buracos
Incorporando os conceitos do mundo
Em dores vendidas gôndolas ao lado
Digiro tudo dietético, estratificado...
Nas filas destes calmos seres epiléticos
Encadeiam-se elementos fantásticos
Empurrados por esqueletos elétricos...
O tempo corre em blocos de intervalos
Flutuando entre os cabides das roupas
E os brancos dos aparelhos domésticos
Na espera rezo baixo uma prece rouca
E escôo cibernético, prático, em ondas.
 
ESQUELETOS ELÉTRICOS

Máscaras

 
Máscaras
 
Máscaras

Canso-me depois de me cansar, gasto-me depois de me gastar…
Acalma-te coração, não vale a pena a inquietação.

Não deixes as rugas chegarem e se enraizarem,
Respira fundo, na transpiração do rubor em desatino
No desalinho das mentes cansadas das máscaras
Se desmascaram a si próprias, constantemente.

Ouvem-se vozes em harmonia, dia a dia,
Vêem-se rostos de tristes criaturas contentes,
Enchendo os bolsos, cantam, riem, dançam,
Na virtualidade da vida vivida sem existência.

Nessa senda de existência sem vida, na mentira
Mentem ao sabor do ar que respiram,
Ouvimos nós boquiabertos, sem resposta
Ao devaneio louco do embuste aceite pela sociedade.

E assim acaba a história, pois assim se quer
Pensar cansa a beleza, da inimputável gente
… que somos no mundo… mas que mundo?!
Que gente, que futuro, que moral, que valores?!

Permaneço na inquietação de ter que me acalmar.

(imagem retirada da net)
 
Máscaras

RUSH

 
RUSH

Apopléticos, descombinados
Trajados em diáfanos tons nus
Andam pelos dias rebobinados
Das manhãs claras em caos

Desferem os pés às ruas atribuladas
Esboçam descaso, discrepância
Cimentam sorrisos, viajam recatos
Param esquecidos de seus queridos destinos

Sobem, descem, acolhem, engolem
Pensam no que são, são pensados
Emocionam-se do dia de ontem
Imaginam, animados, o dia que não terão

Andam, passeiam de cá para lá
Voltam a presenciar o depois, de antemão,
Correm para chegar, ou não...
Entregam-se. Para nunca mais parar
 
RUSH

Preconceito

 
Alvoroço,
Calabouço,
Eu não ouço,
Eu não ouço.
As palavras,
Que me tentam dizer,
Os azares,
De 30 andares.
Acabo,
Amasso,
Num abraço,
O pão
Que foi feito,
Com o sal do preconceito,
Da palavra que não existe.

Poderá o preconceito acabar?
 
Preconceito

O Óbvio

 
O óbvio: made in Angola

Numa Escola muito heterogénea na cidade de Luanda, onde estudam alunos pertencentes a várias Classes Sociais, durante uma aula de português, a
Professora perguntou:

- Quem sabe fazer uma frase com a palavra "óbvio"?

Rapidamente, Luana Gourgel Pereira dos Santos Van-Dunén, menina Rica, uma das mais aplicadas alunas da turma, respondeu:

- Prezada professora, hoje acordei cedo, depois de uma óptima noite de sono no conforto de meu quarto. Desci as escadas da nossa vivenda no condomínio em Tala-Tona e dirigi-me à copa. Depois de deliciar-me com o pequeno almoço de frutas e sumos naturais, fui até a janela .
Percebi que se encontrava guardado na garagem o automóvel BMW-X6, V8 do meu pai. Pensei com meus botões:
- É ÓBVIO que meu pai foi para o trabalho com o AUDI-Q7.

Sem querer ficar para trás, Luiz da Silva Kitumba, um rapaz de uma família da Classe Média, acrescentou:

- Professora, hoje não dormi lá muito bem, mas consegui acordar, porque coloquei o despertador na mesa de cabeceira, perto da cama. Levantei-me meio zonzo, comi pão com manteiga e tomei chá.
Quando saía para ir para a escola, reparei que o Toyota "Rabo de Pato" do papá estava no quintal. Logo imaginei:
- É ÓBVIO que o papá não tinha dinheiro para ir abastecer gasolina e foi trabalhar de transporte público.

Embalado na conversa, Domingos Bemba Bumba, um menino originário de uma família da Classe Baixa (é óbvio), também quis responder:

- Senhora professora hoje quase não dormi nada , porque a polícia estava a girar e a disparar muito para agarrar os bandidos lá no bairro, até altas horas. Só acordei de manhã porque estava a morrer de fome, mas não tinha nada para comer... Quando olhei pela janela, vi a minha avó com o jornal debaixo do braço e pensei:

- É ÓBVIO que ela vai à retrete!!! Não sabe ler...

Autor Desconhecido...
 
O Óbvio

PUTA DE VIDA

 
Puta de vida, puta de sociedade
Não é só a puta que é fodida
Mas também a nossa dignidade.
Mesmo a dignidade da puta
Nem ela mesmo é respeitada
Ninguém é ninguém, não somos nada.
Tenho vontade de ser kamikas
Fazer explodir tudo em palavras
Das mais rudes às mais malcriadas
Pois que há gente sem sentimentos
E nada servem os lamentos
Daqueles que são feridos de morte
Que andam no Mundo sem Norte
Que tudo fazem para o merecer
Mas esse Norte nem sequer dá para ver.
Um véu negro se levanta
Se reagem logo alguém se espanta 
E dizem-lhes, vão-se foder.
Se estou revoltado? Ah pois estou
Gostava de viver num mundo sem hipocrisia
Sem o cinismo das guerras
Mesmo que sejam só de palavras
E essas fazem na verdade doer.
Porquê, porque quero a paz 
E contrariado não posso responder

A. da fonseca
 
PUTA DE VIDA

SEM AMOR, SEM FUTURO

 
Trilhei tantos caminhos na vida
Ruas e Avenidas do desespero
Ruelas e becos sem ter saída
E um destino amargo e severo.

Andei de rua em rua procurando
A felicidade que tanto desejava
Mas só escolhos fui encontrando
Mas do bem estar, nada de nada.

Sem forças, sinto-me ninguém
Sem amor, sem amizade, sem nada
Sinto no coração esse desdém
De vida vivida sem alvorada

Tudo dentro de mim é sempre noite
Vivo dentro de casa assombrada.
Por mais que queira ou me afoite
Não consigo ver felicidade dourada.

As crianças têm fome, têm frio
E o que é que a sociedade lhes dá?
Nada de nada, que de vê-las é calafrio
Sem amor, sem futuro, abandonadas.

A. da fonseca
 
SEM  AMOR,  SEM  FUTURO

VEM DEPRESSA

 
Todos nascem com esperança
De viver em igualdade
Mas nos pratos da balança
Nunca se encontra a verdade.

O peso capitalista
Não é igual ao do pobre.
O primeiro, é egoísta
O segundo, é o mais nobre.

Há tanta vida perdida
Neste Mundo de ilusões.
É vida sem avenida
Mas vida de privações.

Há os que matam pelo poder
E têm o mundo na mão.
Os que lutam até morrer
Para terem direito ao pão.

O Sol nasce e brilha
Mas para muitos não tem cor.
É viver no meio de ilha
Com roseiras sem flor.

E neste Mundo selvagem
Universo de Barões
Ser igual é só miragem
Em deserto de ilusões.

Já não há mais esperança
Como havia antigamente.
O Mundo está em mudança
Andam a enganar toda a gente.
Ninguém sabe onde está.
Ninguém sabe como é.
Vladimir Ivitch volta já,
Vem depressa e traz o "Ché".

A. da fonseca
 
VEM DEPRESSA

Como posso por isto em papel se doí demais ?

 
Como posso por isto em papel se doí demais ?
eu não sei sentir pouco,
eu sinto demais,
pareço um louco...
Se eu desabafar com alguém vão me achar maluco,
eu não acho que eles não compreendem,
só quero espaço e sinto que todos me prendem,
as paredes parecem se encurtar,
o sol parece me sufocar,
as estradas que percorro apenas servem para me perder,
minto num sorriso mas só queria ser honesto,
amo o que tenho mas serio que se foda o resto,
queria que fosse ok dizer que não estou ok,
mas se fosse libertar tudo o que penso,
tudo o que guardei aqui dentro,
acho que ninguém me entenderia nem por um momento,
eu amei e amei e perdi,
eu sorri mas nunca esqueci,
aos poucos o mundo foi descolorando,
aos poucos me fechava isolado e ia chorando,
oh que dor não quero mais saber do amor,
quero um dia sem sentir,
quero esquecer quem perdi,
quero esquecer tudo o que senti,
que vida é esta que testa quanto eu aguento ?
ohh meus demónios saiam por um momento,
estou a beira dum colapso,
eu só vejo o mal e o fracasso,
eu não consigo ver mais bem na humidade,
todos tem desculpa para a sua criminalidade,
será que sou o único que doí de verdade ?
serei o único a sentar me a noite a pensar e repensar a lutar a chorar e a me fartar desta rotina enfadonha,
sou o único que tem medo da almofada,
porque sonho com nada,
mas pesadelos, oh pesadelos,
eu abro os olhos mas continuo a vê los,
eu vejo os meus sonhos a morrerem,
todos os dias sinto me a perder parte de mim,
oh dor por favor chega ao fim,
porque se a vida é uma construção tu não tens a noção mas só vi destruição,
no momento que nasci tinha pais e uma família de aparência,
hoje vivo sem eles e perdi toda a minha inocência,
guerras para ver quem ficava com o dinheiro,
eu nem tive o meu luto,
que se foda o monetário,
que se foda eu por ser otário,
era vossa filha irmã, era o vosso filho e nos vossos netos,
separados, magoados e revoltados,
mas vocês viraram as costas,
e ainda hoje pagamos contas que não existem,
levem me o dinheiro todo eu não persisto,
mas eu desisto, LARGUEM ME POR UM SEGUNDO EU DESISTO,
e que se foda o ordenado que parece uma gorjeta,
enquanto eles andam com topos de gama,
eu saio do trabalho e só quero me enfiar na cama,
até estudar é pago quando estrangeiros são pagos para estudar,
que crimes é este que nem de nos sabemos cuidar,
que raio de Portugal,
que raio de pais mais banal,
mais preocupado com o que pensam do que fazer bem aos portugueses,
que mal fiz eu ao estado se desconto tantos meses ....
E é esta a vida que me persegue,
fecho os punhos e preparo para a batalha mas as guerras são perdidas,
e chega ao ponto que poderia enterrar esta capital só com as lágrimas caídas...
 
Como posso por isto em papel se doí demais ?