Poemas, frases e mensagens sobre surreal

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares sobre surreal

*Rainha*

 
*Rainha*
 
“Para lá das minhas linhas,
Das margens em que te antevejo,
Caído no chão à espera do cortejo,
Que alcança as badaladas das Rainhas,
Que calcam as calçadas branquinhas!”

Foram os desejos,
Que moveram o mundo em que ainda giro,
À espera do teu ombro, de um abrigo,
Para chorar essas mesmas lágrimas de sangue,
Que não param de caiar…

Sim! Habitaram-me desejos,
Onde de negro vestia a minha pele macia,
Para o teu beijo que tanto acaricia,
A minha doce malícia no pescoço,
Como se sugasses deles maresia…

E foram esses mesmos desejos,
Que me lamentam o pensar,
Por deles tirar o prazer de amar,
Para além e aquém da escuridão,
Em noites que calco as calçadas na multidão!

Marlene

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*Rainha*

Pescador de Azuis - "Fisherman´s Blues"

 
 
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Pescador de Azuis - "Fisherman´s Blues"

Agarro-me
aos dias mortos que de mim se vão
dormindo sobre a túnica gratinada
das estradas rasgadas d´água
é nos recifes
que a melodia dos corais
se entrega à ópera dos búzios

Ah ! Hei de despertar
levitando no azul
e submergir no golfo das traineiras !

marinheiros e pescadores coreografam
uma frase salgada :
- Que peixe tão desajeitado !

talvez ainda não haja anzóis
para pescar sonhos ! ...

Luíz Sommerville Junior

*Publicado pela 1a vez neste site e em Távola de Estrelas em 21 Julho de 2010
 
Pescador de Azuis - "Fisherman´s Blues"

Campanha (e)leitoral

 
Caros (e)leitores,

Muito me apraz ter a honra de a vós, aqui do púlpito, me dirigir. Como mero servo das letras, aspiro a obter a inscrição do meu nome no passeio da fama da literatura mundial. Para isso conto com a vossa eleição, através de assíduas leituras, veementes recomendações e manifestações de louvor.
Prometo escrever lindos textos e poemas, daqueles que fazem corar o sol de tanta luz irradiar, assim como me comprometo a não causar qualquer espécie de rebuliço ou situação menos decorosa.

Com elevada subscrição,

O Poeta Morto.
 
Campanha (e)leitoral

Maíne

 
A brevidade do olhar
Consumido nas longas horas
Aparta-me da ânsia,
Flerta com o medo ancestral.

Minha dolorosa respiração
Suave no espasmo outonal
Cresce a medida em que nossas bocas
Entrechocam-se no silêncio,para o nunca mais
Do falso esquecimento.

Ainda sinto suas feridas em meus ossos,
Em meus olhos fechados para a partida,
Nas cavidades mais profundas de recondita devassidão.
Sangue em vão explode como desprezo
Junto ao mijo e ao carinho tempestuoso
Nada sobra.

É sempre tão tarde para o recomeço,
Do corpo desfeito na marca eu carrego
A langue conveniencia do entorpecimento externo
Solitário como o mito de nosso romance
Decompondo-se ao sabor da inocencia perdida
E da irreparável falta.
 
Maíne

marcha fúnebre

 
Desce o carrasco
o caixão para a cova
sob o medonho choro
das beatas!

Sete palmos de terra
esquecem agora o morto
às mãos da viúva outrora
mal-amada!

Travo a última passa
no cigarro ainda apagado
às portas do cemitério!
 
marcha fúnebre

Cinismo...

 
O pedaço de ti que eu quero,
está preso na plenitude do cinismo,
Não creio em figuras de estilo,
Simplesmente vejo-te como o simples do complexo,
A manta de retalhos envolve-te,
e caminhas como se não houvesse amanhã,
Pára, escuta, e disseca o óbvio,
e depois abre-te à transformação.
A brisa da percepção aconchegar-te-á...
 
Cinismo...

Da tristeza o amor ideal penitente

 
Insólita e mortuária rejeição,harmonia funesta plena,
Do ocaso desfaz um dia em outono nublado d`alma,
Tua falta magoa e inflama a lembrança amarga,
Escoa o pranto e a nódoa esboroa-se no nada,vazio e raiva.

Contemplo ausência em teu silêncio e saudade
Marca o lento monólogo,a ferida aflita queixa-se,
Apenas o engano e a morte dilaceram a confiança e vida passa
Quando aquele que mais espera e batalha arrasta da derrota a mortalha.

O amor não mais que traiçoeiro enleio,
Da mentira a moldura perfeita completa-se,
Vibra o riso e freme no prazer outro segredo,
Na satisfação de quem distante ilude e machuca.

Amante cansado no reflexo de depertar
Despe a sensibilidade que arrruína e desperdiça
O vinho,falerno e existência que some na sombra perdida
Do que espera sempre o melhor daquela que admira.

A masturbação profundamente purificada
Da vã fuga precipita-se a lágrima e emudecida melancolia,
Áureo sentimento emerge,ambivalente reflexão e descrédito
Do amor infinita tristeza cala-se,perece eterno vislumbre.
 
Da tristeza o amor ideal penitente

Paixão e queda

 
É no alto,frio e intenso,o ápice do mártir
É a queda,
Ocaso e glória nas palavras de um santo
Rasgando as vestes da sanidade,solidão,
Solidão é apenas o que resta.

Erigido divino cercado do saltério plangente
Da ninfa reverbera em pecado a matéria
E seu frêmito em gozo inebria-me quando imóvel colosso,
Desfaço da memória fonte de inesgotável lamento.

Logo percebo a intenção do sonho,
Assim o pútrido gracejo retoma sua forma
E a natureza perversa encarrega-se em despertar brusco
Do delirante amor,carnal alento efêmero resignado.
 
Paixão e queda

Paro minha mente para um pensamento

 
Não gosto de mostrar ao mundo
que sou canhoto,
porque não sou.
E passo o cigarro para a mão direita
para não lembrar
da origem do hábito.

Na rua, onde eu costumava sentir
o desejo pela nicotina,
eu só poderia segurar a fumaça
com a mão esquerda.
Eu não me desprendia de você.

Meu cérebro hoje tentou
novos meios para me terrificar,
os antigos não mais fazem efeito.

Talvez haja alguém a gritar Brian
e se tornar certo
em 20 anos-luz mais próximo
dos sons nesta sala vazia.

A doçura entra em minha música,
conserta o buraco e pinta as paredes.
Ei, criador de todas as notas;
a onde, afinal, eu pertenço?
 
Paro minha mente para um pensamento

A HERANÇA DOS GRIFOS

 
HOMENS, VAMPIROS E LOBISOMENS

Quem disse que é fantasia
Que não há lobisomens
Não há vampiros à solta
Quem vos disse isso, mentia.

Já vi lobos e morcegos
Esses sim, mansos, sem perigo
Ao contrário dos que digo
Que existem no Real.

Estes, pactos, só com o mal
Pois vampiros ou lobisomens
São antes de tudo, Homens.

E que ser mais traiçoeiro
Do Reino Animal inteiro
Conheceis, sois seu Herdeiro?

(Por Ana C./ SOB_VERSIVA)
 
A HERANÇA DOS GRIFOS

Ode ao bom sabor

 
Da mais alta montanha
Corre um rio de chocolate
Que uma selva de morangos banha
Num planeta semelhante a Marte!

Crescem montes de gelado
E abrem-se vales de amendoim!
Há comida por todo o lado
Neste planeta-pudim!

E esta comida toda que olha
O mais não comida haver
Pensa que nem há alguém que colha
O que tanto sabor tem p'ra oferecer!

E de fantasia e recheio
Como bife assado no forno
Pensando num peixe bem cheio
O meu sonho cozinha morno.

www.umpoema-umdia.blogspot.com
 
Ode ao bom sabor

Coisas surreais

 
Coisas surreais
 
Já vi dar pérolas a porcos
Cuido que é um desperdício
A vida é mesmo um hospício
Onde os vivos parecem mortos

A mim já nada me espanta
Tenho um olhar surreal
Se já nada levo a mal
Também já nada me encanta

Um porco de bicicleta
Não deixa de ser um suíno
Com estatuto de atleta

Já não há coisas banais
Já nada me surpreende
Sei que sou bota de elástico
Intransigente, por vezes

Venho de um tempo obsoleto
Não me encaixo, não me adapto
Vivo num saco de plástico
Reciclado muitas vezes…
O que podia ser um poema
São só coisas surreais

Maria Fernanda Reis Esteves
50 anos
natural: Setúbal
 
Coisas surreais

Delírio e pranto

 
Meu pesar ensaia o derradeiro grito
Em teu nome enlevando-se na carne.
Dos lábios a ferida mais profunda junto ao escárnio
Umedece o lamento cálido.

Próximo do retrato a lágrima.
Do pranto um aborto estarrecido brada
Enlaçado afoga-se no sangue de nosso passado
Desaparece como mácula infecta
Amortalhado pelo esplendor do céu variado de aurora.

Absorvo a dor pela falta,
De suas mãos o conforto na face
Lembra-me como fogo fátuo tesouro
De inalcançáveis paragens,lenda
Tida como delírio de ópio
Em forma de egrégia mulher
Distante.
 
Delírio e pranto

Missiva ao pós-tempo

 
Eis-me aqui sozinha no espaço infinito.
O que me rodeia não é mais do que a incrível perda da vida existente em tudo. O amor que me inunda é o maior que posso descrever e de repente tudo é nada. Talvez possa viver de frente esta angústia e felicidade conjugadas.

Conjecturo...
Tudo o mais não é nada do que imagino. Preciso do momento único, da calma serena e do instante fumegante... A entropia é tudo o que me resta. Já estou a ver o fim da linha, já vejo como isto vai acabar. Quando tudo não for mais do que a felicidade, a vida vai ser querida por aqueles que a anseiam e sentem como o plano deve ser cumprido.

O afogamento quer-se fundo e sedento... Leve e confuso... Existente e rígido.

Rasga-se de repente o que procuro.
Assim confunde-se o tempo com o vento e o sentimento com o pensamento.

(11 Setembro 1997)
 
Missiva ao pós-tempo

É UMA LOUCURA

 
Eu nos jogos e praticamente em tudo onde me meto, não tenho sorte nenhuma. Nos jogos de lotaria, nunca ganho, às cartas, só me saem duques, e no baile como na vida, ando sempre a dançar com a mais feia.
´
Eu mesmo não sou bonito. Diz-se que o amor não liga nenhuma à beleza, mas para mim a beleza é como o dinheiro, não nos faz feliz mas ajuda-nos muito e a minha esposa tinha por mim muito amor e não estou a exagerar, ela era mesmo possessiva, a prova é que ela não me considerava bonito, até dizia que eu era marreco!...
Se é verdade, não sei, o meu espelho está na minha frente e quando me volto não há espelho e nunca me apercebi que era marreco, tive que perguntar a várias pessoas se era ou não, várias para não haver ambiguidades e diziam-me sempre que não,que era normal.

Certo dia, verifiquei que precisava de óculos e o especialista lá me deu um par de óculos. Cheguei a casa e perguntei à minha ex: então, como me achas com os óculos?
Resposta imediata, Os óculos escondem o que tens de mais bonito, os teus olhos!
Fiquei sem palavra e os óculos ficaram a fazer um longo estágio na gaveta, não por causa da minha ex, mas no exterior.... era um bocadinho aborrecido, não acham?

Os anos avançam e continuam a avançar e claro venho de tal maneira feio que das duas uma, ou as pessoas evitam de me ver ou então nem me vêm, passei à invisibilidade..

Reflecti um pouco a esta situação e perguntei a mim mesmo e se eu fosse invisível?
Fui ver a bruxa que estava de serviço nesse dia e a troco de uns eurositos e com uns pozinhos de magia ela tornou-me invisível.

Então ninguém me via e aproveitei bem a boleia, por exemplo, num grupo onde estivessem três mulheres e um homem, nem queiram saber, passava a minha mão pelas bochechas traseiras de uma e o rapaz levava uma estalada ainda não estava refeito, já estava a levar outra pois que eu entretanto tinha acariciado umas reservas de leite da menina ao lado e assim por diante.
Um dia passei ao lado de uma beldade que não me via, claro está, e passei-lhe a mão pelo traseiro
e não houve reacção agressiva, bem o contrário ficou todo excitado á procura de quem lhe tinha tocado no ponto sensível e soube de seguida que não era uma menina mas um travesti.

No casino, então era uma beleza, as cartas mudavam de lugar facilmente e ninguém compreendia a situação
Tentem, tentem a invisibilidade e verão como serão felizes, principalmente quando um marido está ausente por uns dias, a menina fica feliz, pois pensa que tudo não passa de um sonho para mais se for a esposa de um homem não experiente, posso-vos garantir, é uma loucura!

A. da fonseca
 
É UMA LOUCURA

Anónimo, por ser mau

 
Não há água feita de sorrisos,
Há vento que escorre lamentos,
E há esquinas com mel azedo,
Existo eu a trigonometrizar um caminho,
Para te ver sentada num trovão,
Denso,
com forro de lambrim,
Já acabei o desnorte,
Agora ouve-me,
Tenho um dia para contar-te...
 
Anónimo, por ser mau

Rios de flauta de Pan

 
Trata de tédio,
História redonda,
Num barco parida,
A voar desaparecida,...

Será um menino,
A falar com um figurante,
Rodou chave desnutrida,
Para abrir porta ao sonho,...

Funil do medo,
Suga a calma,
Deixa o menino,
A calar o que resta,...

Bácoro tédio,
Fumegante rotina,
História octógona,
Menino profetiza,...

Rios de flauta de Pan,
A correr em chiadeira,
Parida uma piroga,
De remos ensaguentados,...

Tratou de desespero,
Perecimentos da história,
Destino pastoral,
De um menino de cataclismos,....
 
Rios de flauta de Pan

O Museu Dos Sonhos

 
O Museu Dos Sonhos
 
Conto

O Museu dos Sonhos

Ao entrar no museu o que me chamou a atenção foi uma caixa de um metal escuro, contendo um pequeno orifício. Olhei para dentro dela, e lá havia uma Quimera. A tal criatura sentia-se enclausurada, e eu ali parado, a compartilhar seu sofrimento. Notei que o tempo não tem distancia, apenas memória. Imaginei meu corpo a transpassar a pequena lamina de vidro que nos separávamos, e um outro mundo existia lá dentro.
Sua pele transpirava o tempo do passado no ar do presente retido nas paredes. Transportei-me em pensamentos lá para dentro,e dividia a respiração com o suor e o cheiro da fera.
Ela aproximou-se de mim, e suas pupilas verticalizadas, contrastavam com a iris clara de um gato siames. Não queria estar mais ali, por que o reflexo daquele olhar pertencia a um tempo que não era o meu. Um mundo mítico de medo, fantasias e dragões alados. Meu lugar era fora daquele universo fechado, e livre de arestas, a rabiscar seres imaginários, a criar figura sobre as constelações.
A fera queria conhecer o meu ser, e de repente lá estava eu dentro daquela criatura mofada pelo tempo e devoradora de marinheiros e semideuses, onde o medo do Tempo gerou incertezas, duvidas e mentiras de formas semi- humana.
Sai lá de dentro dela como um rebento de Quimera, que ora geravam feras, ora, heróis medievais a deixar cicatrizes profundas com suas espadas numa pele coberta de escamas, e mistérios.
Ao libertar minha mente da ilusão, um novo ar entrava em meus pulmões, e pude entender que a vida continua sem que seja questionada.
Um pouco mais a minha frente, deparei-me com um corredor escuro, sem saidas laterais. Havia apenas um pequeno facho de luz, que certamente levava ao seu final. Andei até aquele ponto, e pude ver mais corredores, não tão sombrios quanto aquele . Comecei a contar os passos sem notar a distância a diminuir pouco a pouco logo ali na frente. Dali em diante as paredes começavam a mudar de tons, as cores iam ficando mais fortes, iluminadas, avisando o fim de um longo trajeto. Foi quando me deparei, com as salas dos desejos. Neste lugar podia ver, sentir e tocar as formas do desejo. Eles são de puros cristais, e o fascínio de tê-los brilhar soltos entre as mãos, e também outros encrustados sobre as rochas como pequenos diamantes, atiçavam meus instintos de poder e delirio. Cristais multifacetados transportavam os reflexos da alma para os moinhos de ventos, repletos de ilusão. Tais desejos eram feitos da própria matéria viva, dura e fria como o gelo, que emanava seu brilho abstraído das encostas das geleiras em forma de diamantes, mas enquanto isso, via-se as caravelas da janela entreaberta de frente para o mar, a carregar nuvens como velas por onde os ventos sopravam através dos oceanos. Desejei a eternidade, e o brilho se desfez das mãos, das paredes e do chão. Em poucos segundos foi da eternidade ao efêmero, e a sala antes repleta de diamantes, agora haviam inúmeras borboletas monarcas voando ao meu redor, roçando suas asas frágeis sobre minha pele, e a sugar os desejos em flor, em plena primavera.
Dai, a sala escureceu, as borboletas partiram, e a flor agora é um fruto vermelho de forma esférica sobre uma mesa de Cezzane.
Repentinamente passei para outro cenário, numa sala repleta de arquivos, onde as pilhas de documentos eram alta demais, dava até vertigem só em pensar em subir até a última gaveta onde se encontrava o livro da minha vida. Tomei uma escada-elevador onde me levava ao ultimo patamar. A sensação era de estar numa estrada vertical indo em direção a montanha , de ar rarefeito. Senti o vento ao tocar as finas folhas das eternas sequoias.
De uma hora para outra a escada-elevador parou, e bem a minha frente estava o livro da minha vida, mas tive medo de abrir por que todo livro tem uma ultima página e fim. Simplesmente não tive receio de ler o que havia dentro dele. Se fui covarde, ou se fui prudente, na verdade não sei. Tive medo de saber sobre minha morte, e para onde vão todas as ilusões
No museu dos sonhos entrei num barco, naveguei em direção ao passado.
O brilho daquelas águas, carregava os viço do olhar e o gosto do sal. Do azul do mar profundo os sentimentos mergulhados eram arrastados através das redes dos pescadores, e furtivamente apanhados por um pelicano. A luz que iluminava minh’alma me levou ate as dunas sagradas do colo duma mulher, e ali adormeci.
Ao nascer do dia, acordei na sala das orações, onde a luz do sol seduzia de uma forma fria, os vitrais, a deixar a escapar, os desejos mortais sobre a nave da catedral.
Todo prazer é belo e cheio de pecado, mas numa oração peço que deem olhos para a alma e asas para o corpo, e que possam voar bem lá no alto acima das torres góticas.
Pedi ao vento para ouvir o barulho gelado das águas descendo as cachoeiras indo em direção aos jardins das gárgulas. Implorei ao Tempo, que deixasse a alma viver sem seu corpo. Pedi também, que a vida continue a navegar com a alma leve, para que o vento a erga além das torres dos castelos medievais, além dos penhascos da Irlanda, ou do voou das aves exóticas do novo mundo.
Ah, sim! Haviam também pessoas no museu dos sonhos, mas das poucas que pude observar, tratava-se duma mulher em especial, feita de números fracionados, que ao andar projetava linhas, ângulos e curvas repletas de equações e formulas, de uma silhueta de mediadas áureas, a compor um universo perfeito, porém estava triste porque antes de fatiar a maçã, esta já lhe mostrara todas as probabilidades e respostas de como descascá-la, antes da mordida, e o que ela mais queria era uma equação para obter o imprevisível, algo que a surpreendesse. Olhou para mim, e sem dizer nada, sorriu e partiu. Por onde a mulher caminhava, o rastro deixado pelas paralelas de suas pegadas atravessavam os limites das dimensões indo em direção ao mundo das esferas.
Continuei meu caminho, sem olhar para traz, mas não pude evitar o temor que havia na minha frente: a sala da origem do ser humano. Deparei-me com o primeiro homem que pisou na terra com seus pés descalços, senti seu estranho contato com a mãe natureza, e a curiosidade do seu olhar, de fome de tecnologia que ainda crua iria acender a primeira faísca, pra depois inventar a primeira chaminé.
Essa seria a evolução de minha especie, que me acumularia de livros, pra depois queimar todos em praça pública. Vi que o homem seria o maior inimigo da evolução da sua próprio espécie, e a perfeita forma da maçã iria contradizer as leis de Newton, através da mentira; nasceria assim, as palavras na boca dos políticos. Muitas vezes duvidei de que tal evolução existiria. Bastaria colocar este homem nu diante do nada, para observar se algo seria criado através do nada. Será que os desejos criaram a maçã?
Desde que aja luz, tudo se ilumina, mas é da escuridão que se alimentam os mistérios, as formas imaginárias, os temores, as incertezas... A luz apenas revela os desejos em forma de matéria, e surge da penumbra a fusão do fio da razão com o manto da emoção, pertencente ao universo do devaneio humano.
O que mais poderia surgir a minha frente naquele museu insólito?
Seria o homem, o próprio criador do homem? Tal resposta virá do futuro, em forma de uma ciranda de roda, em que não há primeiro e nem último ao formar um circulo, e o que vi no passado foi apenas uma roda que se abriu para o mundo das caravelas, onde os protagonistas seriam as ilusões levadas ao vento para unir os continentes, e o velho se encontraria com o novo, e a vida nada mais é doque uma viagem num barco solitário.
Estava bem ali a resposta para a mulher vestida pela ciência que desejava conhecer o imprevisível, mas é uma pena que ela se foi, caso contrário saberia que a resposta ao seu questionamento, deveria romper o círculo da razão e partir para uma jornada errante cheia de acasos e desventuras. Descobriria que ao longo da vida, a reta pode ser o caminho mais curto, mas com certeza não o mais interessante, e nem ao menos, o mais apaixonante.
Mais adiante entrei numa sala repleta de livros, e onde havia uma imensa placa na parede com os dizeres: Proibido ler.
Apenas olhá-los nas prateleiras, não iria me satisfazer em nada. Sem pensar muito peguei um em minhas mãos,e comecei a ler, sem a preocupação com a escolha, ou com a placa de advertência. Todos possuíam capas negras. Comecei a folhear páginas, e páginas em branco, quando de repente apareceu um título: “O Jardim do Éden”, e logo abaixo em letras miúdas estava escrito: “O homem jamais foi expulso do paraíso, porque nunca esteve lá”. Fique surpreso diante de tal revelação, mas antes de tornar a próxima pagina, pensei, na razão pela qual alguém escreveria tal frase, contradizendo o que nos foi passado sobre a história da criação. Estava um tanto apreensivo, serrei os lábios e virei a página seguinte, onde encontrei a explicação para tal afirmação: Esse episódio é uma referência ao futuro, e por enquanto nenhum homem conquistou o paraíso, e na verdade não será o primeiro, mas sim o último de sua especie a conquistar o jardim do Éden
Logo pensei então que a história do mundo deveria começar com o inferno de Dante, onde todos se debruçam sobre os outros para sair daquele mundo escaldante, mas o que acabam fazendo é se debaterem, e se afundarem cada vez mais, como em areias movediças.
Assim fica mais fácil afirmar que, o que aprendemos está mais voltado a nos aprisionar, do que nos libertar. O elo que torna forte e seguro, se faz ao mesmo tempo prisioneiro de um mundo estereotipado.
Aquela altura, estava a um passo de penetrar na sala das profecias, erguidas por enormes colunas douradas do templo de Dário, que sustentavam um céu repleto de estrelas, criando um cenário bordado sobre uma cortina de fundo plana por onde navegam toda a luz das estrelas na distância ilusória da tridimensionalidade nas mentes humanas.
As profecias, eram formadas por pálidas senhoras da noite que vestiam-se com túnicas pretas, e saiam por de trás das colunas carregando em suas mãos o ouro de Finisterrae. Estes eram derretidos dentro dum caldeirão incandescente por onde a porção mágica girava, borbulhava e ardia. O vórtice separava o caldo do fundo, e formava-se toda luz e a matéria primordial A profecia se revelava através da fusão do ouro com a escuridão. Vozes surgiam de todos os lugares, oriundas da consciência dos mundos subterrâneos. O caldo que ali se formava, era entornado em cadinhos, e enterrados por diversas partes do mundo, desde o Alasca até Madagascar. Dali sairia uma voz, revelando o destino aos humanos, avisando-os que as decisões já foram tomadas tanto no passado como no futuro. Nada irá ser alterado. Seria uma afronta contra as senhoras de túnicas negras, se aquilo que elas tanto guardavam fossem entregues ao acaso, a um simples e tolo capricho dum mortal.
Em cada frasco, a transparente lamina que dividia os meios, mostravam ao homen, de que sua magnitude jamais irá se redimir, aos caprichos humanos. Tentarão intervir, assim como o fez sobre o ar, terra e mar, e por onde passar desapercebido de sua pequinês diante da infinita grandeza do cosmos.
Com certeza a humanidade deixará suas marcas, nos registros do Tempo, mas sua maior obra virá não por suas construções gigantescas, de que tanto se orgulha. Irão construir naves, para mostrar seus feitos aqui na Terra, admiradas da Lua e até de outros planetas. Sua vaidade não terá limites, mas sua marca maior virá dos dramas tatuados em sua alma. Saudades deixadas na memória das paredes dos castelos medievais, seus sonhos, suas paixões e desejos. Sua alma estará para sempre sendo contada pelas memórias do Tempo.
 
Airton Parra Sobreira

Conto e imagem de autoria de Airton P. Sobreira
 
O Museu Dos Sonhos

Desenho

 
A chuva caía incessantemente, desenhando círculos concêntricos na calçada de granito. O petróleo nos lampiões teimava em arder, dando uma luz baça à rua dos sonhos perdidos. A maledicência humana feita gente tombou, nua, no frio da madrugada outonal. Um buraco no céu cor de chumbo abriu-se, e direccionou-a para onde sempre quis estar.
Entre o previsível anoitecer das almas conformadas.
Ao erguer-se, deixou transparecer uma inapta e longa cabeleira ruiva, que assentava irregularmente em ombros magros e fracos. Limpou a poeira da solidão que lhe cobria os olhos, e rodou o pescoço até onde a anatomia o permitiu. Era um espaço deserto o que se preparava para conquistar.
O vento trombetava o hino da vitória, e as luzes trémulas da parca iluminação pública deram-lhe o embalo que precisou para a procura da capitulação.
Ao primeiro passo confiante, seguiu-se um segundo desconfiado. A terceira etapa da rota do sucesso, foi ferida com a machadada da incerteza.
Um corpo desceu de uma escadaria íngreme e derrotada da batalha com o tempo.
Abstraído de vestes, soluçava rezas incompreensíveis que ganhavam estridência, compassadas com o ritmo da chuva que caía, decidida a empalidecer o céu de chumbo.
"Chamo-me vida, e derrotei a minha própria essência nesta rua de sonhos perdidos"
Feminina por aproximação, desapareceu em vãos passos de medo. O caminho ficou aberto, e alguém desenhou o armísticio do rápido impulso bélico que mudou o destino do mundo.
Acho que já me posso apresentar. Escreveram a palavra cobardia no documento que atestou o meu nascimento, e é meu o desenho que apreciam. Estive lá naquela noite de armagedão silencioso, e sobrevivi para contar que o homem não é quem diz ser. Julguem-no antes por aquilo que conseguem ler nas suas costas.
 
Desenho

Manhã nasceu careca

 
Maria Madrugada de novelos,
Destapados pela brisa,
De ventos de organdim,...

Mulher feliz à sombra,
Roaz de sol acolhedor,
E parto de madrugada de sombras,...

Sai a banda do espartilho,
Toca ladainhas de sedução,
Maria salta pocinhas,...

Chovem impropérios,
Numa madrugada de estio,
Maria ignora o arrasto,...

Manhã nasceu careca,
Maria come a alma,
Salgada em travos de azedo...
 
Manhã nasceu careca