Contos de humor

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares da categoria contos de humor

Mulher na Zona (microconto)

 
Mulher na Zona
by Betha Mendonça

Vestida para “matar” ela caminha até a porta e pergunta:
- Trigésima sétima?
- Quarta sala.
Tímida - apesar da experiência de anos - olha em volta: homens e mulheres da todos os tipos. Alguns com ares de satisfação. Outros, entediados por estar ali apenas a cumprir obrigação... Na sua vez não vacila. Aproxima-se da mesa. Identifica-se. Urna eletrônica: dois dígitos e confirma. Mais um voto concluído na 37ª zona!

(rebublicação)
 
Mulher na Zona (microconto)

Só comigo!

 
Só comigo!
 
Entrei na pastelaria, como faço todos os fins- de-semana. Reconheço que é um pequeno luxo a que me dou o direito e a verdade é que nasci mais virada para a parte dos deveres e afins. Por lá, conhecem-me, sem que, no entanto, se tenham dado ao trabalho de me perguntar o nome. Dirigi-me ao balcão e sem que tivesse oportunidade de pedir fosse o que fosse para comer, já a balconista havia posto um abatanado à minha frente e balbuciado algo quase imperceptível, entre dentes:
- Está aí! É para si!
- Olhei para a empregada da pastelaria e nesse preciso momento percebi que também eu nunca me dera ao trabalho de saber o seu nome. Quanto a isso estávamos quites. Aí, como quem não quer a coisa, perguntei-lhe:
- Olhe, desculpe! O abatanado é para mim?
Ela respondeu:
- Não é o que costuma beber?
Olhei para aquela chávena a transbordar de café e estive tentada a beber e calar, só para não levantar mais celeuma, mas respondi-lhe:
- Não, eu bebo sempre uma meia de leite. Desculpe mas tenho hipertensão.
A senhora, sem nome, olhou-me indignada e respondeu convicta de que acertara no meu gosto à primeira:
- Bebe sempre um abatanado e agora está a fazer-se esquisita!
Juro que fiz que não ouvi e virei-me para o lado e cumprimentei as pessoas conhecidas que estavam sentadas numa mesa ali perto.
- Olhe quer um folhado para comer com a meia de leite?
Eu corri a responder:
- Não, eu queria um palmier simples, se faz favor!
Quando me apercebi já a eficiente funcionária da pastelaria havia posto o meu pedido em cima da mesa. A senhora primava pela rapidez no atendimento.
Como não vejo lá muito bem ao perto ainda fiquei na dúvida se estaria a ver mal, mas ao aproximar-me do balcão verifiquei que se tratava de uma milaneza.
Enchi-me de coragem e balbuciei:
- Olhe, desculpe! Eu pedi um palmier simples.
A funcionária respondeu rubra de raiva:
- A senhora pediu um folhado. É é muito intolerante!
Nessa altura já a meia de leite estava fria e eu ia para lhe dizer que fora ela quem me perguntara se queria um folhado e que eu me limitara a dizer que queria um palmier simples, quando, já aturdida, a vejo pousar em cima do balcão um palmier duplo. Fixei-a e encrespando-me, sabe-se lá porquê, devolvi-lhe o palmier duplo e reiterei o meu pedido:
- Olhe, desculpe, mas o que eu pedi foi um palmier simples!
- A senhora já viu bem a quantidade de coisas que já me pediu? Juro por Deus que tive vontade de deixar lá a meia de leite e de sair porta fora, mas o melhor ainda estava para vir, a balconista virou-se para mim e retorquiu:
- Isto não me está a correr nada bem!
Eu respondi:
- Deixe lá, todos temos desses dias!
- Entretanto já empenhada em atender convenientemente outro cliente, vejo-a colocar um Sumol em cima do balcão. O senhor ao meu lado começou a tossir com os nervos em franja e dirigiu-se a ela dizendo:
- Olhe, desculpe, eu pedi uma meia de leite!
Senti-me mais reconfortada, afinal não era uma questão de antipatia com a minha pessoa. O único crime que eu cometera era o desgoverno de, em tempo de crise, tomar o pequeno almoço fora…

Maria Fernanda Reis Esteves
50 anos
natural: Setúbal
 
Só comigo!

DECRETO-LEI Nº 1246 (Luso Poemas)

 
Por não saber ler nem escrever
Mas por ser sábia quando adormeço
E ainda mais quando nada digo
solicito-vos queridos concidadãos
que se entendam durante algumas horas.
Não se oferecem carros nem chupa-chupas
O único prémio possível neste momento
É NÃO OUVIR A CAMPANHA ELEITORAL DAS AUTÁRQUICAS
e aturar
A DEMAGOGIA DO POLÍTICOS!

Este decreto lei auto suspende-se
com a mesma velocidade com que amuam
os Poetas desta casa!

PENSAMENTO

Incremente, sim...
afague as minhas carências!

Ou será penitência
de uma alma mundana?

Não sei... mas prefiro o céu
A esbarrar nos meus olhos
Do que a terra
A explodir excrementos psíquicos!
 
DECRETO-LEI Nº 1246 (Luso Poemas)

O sumiço do Santo casamenteiro

 
O sumiço do Santo casamenteiro
 
O sumiço do Santo casamenteiro.

Elen de Moraes Kochman

Procuro impaciente a foto do meu Santinho casamenteiro. Desde o divórcio – faz tempo! – minha Advogada colocou-a na minha carteira. Reviro bolsas, gavetas e não a encontro. Sumiu! O Santo se escondeu, talvez, exausto de interceder pelos solitários. Embora não creia que me vá arranjar marido, não quero sair de casa sem ele, logo hoje no seu dia – dos namorados – mas vejo que é o jeito!

Com o tempo, a gente se apega às manias: sempre ando duas quadras antes de entrar num táxi. Não gosto que saibam onde moro. O motorista, um senhor simpático, muito perfumado àquela hora da manhã, fala mais do que dirige, embora sua conversa seja agradável. Enquanto fala, olha-me pelo retrovisor e acho aqueles olhos os mais azuis que já vi. Azuis ou verdes? Não confiro, porque o homem pode pensar que correspondo ao seu flerte. Que palavra antiga! Será que os jovens usam-na quando olham para alguém, com interesse, insistentemente, tantas vezes, até que tenham certeza de serem correspondidos?

Paramos em frente a um centro comercial. Pago a corrida. O motorista estende a mão com um cartão. Comenta que é seu telefone, se precisar de um táxi. Pego, agradeço e ele diz que é para o caso, também, se precisar de um amigo para tomar um vinho. Grande namorador! Olho para sua aliança e jogo o cartão no banco, dizendo-lhe para levar rosas à esposa.

O movimento é intenso. Em meio a tantos casais abraçados, pareço barata tonta vagando pelos corredores. Não sei o que faço ali. Se admitisse, diria que saí de casa com a esperança de conhecer alguém especial. Cansada, o sapato de salto alto, que uso raramente, incomoda-me. Dirijo-me à praça de alimentação para dar uma trégua aos pés e um agrado ao estomago. Sento-me, olho em volta e um susto me acelera o coração: Virgem Santa, quantas mulheres sozinhas tiveram a mesma ideia! Jesus, cadê os homens! Os mais moços, no trabalho, certamente. E os bem mais velhos, aposentados, em casa, vendo TV, na internet, adoentados ou já partiram mesmo, desta para melhor. Pasma, perco a fome. Levanto-me e saio.

No andar de baixo um casal me pede para responder uma enquete para sua agência de publicidade, que pesquisa o presente que uma mulher, na minha faixa etária, gostaria de receber no dia dos namorados. – Um namorado! Respondo e os deixo sorrindo. Penso sobre o que gostaria de ganhar e concluo que, já que namorado não vai ser, uma sandália rasteirinha, que me deixe com os dedos à vontade, será um presente dos deuses. Entro numa sapataria, sento-me, tiro os sapatos, estico as pernas como se estivesse em casa e flexiono os dedos martirizados. Como é gostosa a liberdade! Danem-se as regras sociais.

Uma voz masculina pergunta-me o que desejo e me traz à realidade. Solícito, mostra-me vários modelos. Impressão ou ele acaricia meus pés enquanto me ajuda a calçá-las? Credo, que imaginação! Porém sinto que o sangue devolve vida às minhas pernas e espanto-me com meus pensamentos. Pago, saio e volto a cabeça para olhar o funcionário: minhas dúvidas se confirmam vendo seu olhar maroto. À noite ele terá divertidas histórias e muitas fanfarronices para contar aos amigos.

Já não aguento andar e não quero voltar para casa. Entro numa das salas de cinema. É cedo para a primeira sessão, mas estão abertas. Compro chocolate e pipoca, acomodo-me num ótimo lugar, recosto a cabeça e fecho os olhos. Alguém toca meus ombros. Olho para trás e um senhor pergunta-me se pode sentar-se ao meu lado, para conversarmos. Não respondo. Ele insiste. Diz que faltam uns quinze minutos para iniciar o filme e que podemos passar o tempo nos conhecendo. Sem esperar resposta, dá a volta, quase se joga no assento e antes que eu reclame, diz sorrindo, mostrando bonitos dentes: - Hoje desisti de esperar a morte em casa. Decidi sair e arrumar uma namorada.

A “cantada” é diferente, mas um tanto mórbida. Olho-o com o rabo dos olhos e deduzo que não parece ser um tipo mulherengo. Vá saber! Deve ter entre setenta e oitenta anos. Maliciosa, me questiono se ele ainda namora.
O homem pede que eu fale alguma coisa. Corto o silêncio:
- Casado?
- Não!
- Mentiroso?
- Não! E você, o que faz aqui hoje?
- Vim comprar uma sandália – E mostro meus pés.
- Mentirosa? – Não respondo.
Rimos muito e nos apresentamos.

(Será mera coincidência qualquer semelhança da vida de alguém com este conto)
 
O sumiço do Santo casamenteiro

ANDANDO NA CHUVA

 
ANDANDO NA CHUVA
 
Hoje, vendo a chuva se armar acima do meu telhado, e de paciência curta como eu estava, sem novidades, sem emoções, me propus a tomar banho naquele temporal que prometia ser de muita água. Então, quem sabe na espera de um milagre imaginei que a água vinda do céu poderia ser mais “santa” do que a que sai do meu chuveiro, e aí, eu poderia me sentir “outra” depois da lavança.

Quando vi pela vidraça que a chuva estava forte e caía sem piedade, saí para a rua, e deixei então a água ir encharcando cada peça de roupa. Era muita água, e achei ótimo, assim, não ficaria molhada pelas metades. No princípio achei estranho, mas depois fui me entregando à água que logo tomou conta.

E os pingos vieram fortes, machucavam minha pele cansada. E caminhei pelas ruas debaixo daquele “toró” e, quando a água chegou as minhas partes intimas, pensei comigo: agora vai começar o processo de expurgação, mas sei que era apenas a vontade, na realidade, o que estava abrigado e quentinho por baixo das minhas roupas, foi recebendo aquela água gélida e me deixando em arrepios.

Era tanta água que mal eu abria os olhos, e pensei: “seria ótimo se pelos bueiros da rua a água pudesse levar minhas tantas contas, desavenças, rugas e até minha celulite cruel...”
Tinha esquecido que estava com meus tênis novos, e meu Deus! Quanta lama! Eles só poderiam ir pelo bueiro abaixo também...

Mas, não me deixei levar pelo aspecto em que me encontrava, tentava eu ser poética, romântica, despreocupada... E lá ia a água caindo...
Queria lavar bem, até meu íntimo, mesmo sentindo frio. Tinha me esquecido do cabelo ora arrumado no dia anterior, e me custado uma pequena fortuna no cabeleireiro, desmanchado estava, agora não adiantava chorar. E lá fui eu pelas ruas, cruzei com alguns garotos debaixo de seus guarda chuvas que me olharam espantados, e certamente pensaram com eles, que eu era mais uma doida.

Que mania feia as pessoas tem de achar que você tem que ser assim ou assado. Tomar banho de chuva pode ser incomum, mas a ilusão que fica é a melhor parte, porque pelo menos é de graça!
Quando os pingos foram raleando, o frio começou a tomar conta do meu corpo, e trêmula, corri pra casa, e abri a porta, passando pelo espelho do corredor, me vi, e me achei ridícula, sem falar da molhadura que deixei pelo corredor...

Fui para o banheiro tirei correndo a roupa molhada, liguei meu chuveiro bem no quentinho, e deixando a água cair, passei a sentir o calor reconfortante me molhando, me envolvendo, e assim eu disse extasiada pelo calor delicioso daquela água: santo chuveirinho!!!!
Banho de chuva só fica bonito no cinema...
 
ANDANDO NA CHUVA

FILOSOFIA DO CAPETA A RESPEITO DA VIDA ALHEIA...

 
FILOSOFIA DO CAPETA A RESPEITO DA VIDA ALHEIA...
 
FILOSOFIA DO CAPETA A RESPEITO DA VIDA ALHEIA...

Comentários do Capeta ao seu primo, o Tinhoso:

- Entregaram aqui mais uma vida ontem. Mas eu recusei... Na hora "H", desisti sem qualquer remorso, sentimento que, aliás, nunca tive, primo. Vê se pode: A encomenda chegou para mim como "Vida ao portador", em pacote não registrado. Só aquele carimbo vermelho batido "AO" (Alma Órfã). Nem a pau assino o recebimento de um ser mequetrefe deste em meu estabelecimento! Mais uma vida perdida, sem eira, nem beira, só para dar trabalho. Sabe aquela alminha leve, oca, vagabunda, terceiro mundista, tipo mala extraviada de avião teco-teco boliviano? Nem quis saber se era da África ou América, ou do raio que a parta! Da Europa ou States não era. Recusei mesmo!

Coçou fortemente um dos enormes cornos e continuou:

- Deixei a vítima para outro menos exigente. Vida assim só traz aborrecimento! Mano Tinha (era deste apelido carinhoso que o Capeta chamava o Tinhoso), o cara era cão sem pedigree, contrato sem assinatura. Eu ficar com alma tranqueira? Furada! O que vale é a qualidade da perdição, não a quantidade dos pecados! Ainda mais este aí, por ninguém recomendado! Cucaracha indigente do caralho ! Fosse ao menos um traficante colombiano. Colombiano, Tinha! Nem pensa em outro tipo. Seria menos pior. Acho que quem pegou o escroque foi o São Pedro.

O Tinhoso contra-argumentou:

- Se nem o Big Pedro quis, danou-se! Lá se foi mais uma vida pr'o limbo! Quando dá nisso, o Poderoso Chefão lá fica bravo! Vem com aquele rosário de que não pode indefinição, que falta planejamento, que o bem mais valioso é a vida e a gente não pode desperdiçar essa preciosidade, a tal da assertividade, você sabe... Vai alegar que faltou comunicação com o andar de cima, que a informação não circulou. Dom Mantello Rosso ("Dom Capa Vermelha" era, bem mafioso, como o Tinhoso, brincando, chamava o primo), você conhece da missa negra muito mais que a metade. O gozado é que o sujeito nunca soube o que fazer com a alma dele a vida toda enquanto encarnado, mas a gente tem que saber o que fazer com o desgraçado assim que desembarca aqui! Normatização antiga do J.C., com aquela velha e irritante mania de perfeição. Lembra quando eu disse brincando para Ele que as cargas que chegavam aqui não eram mais vidas, e sim "zumbis sem direito a voto"? O quanto Ele me azucrinou?! Me chamava de "sem alma"! E eu não sou mesmo? - e os dois pobres diabos até caiam ao chão de tanto ecoar aquela risada fétida. Estavam se divertindo. Adoravam zoar J.C.

Já recuperado das nojentas gargalhadas, o Capeta rebateu de pronto:

- Quer saber? Nem Te ligo, Salvador J.C. o cacete, nhé, nhé, nhé... Francamente! Fala sério! Me rebelei contra as idéias Dele, daquele Livro burocrático e totalmente reacionário e saí fora deste sistema há milênios. Trabalhei pr'á caramba, me organizei, fiz MBA, doutorado e montei tudo isto aqui sem ajuda alguma Dele. É Ele quem paga o estrago se embarca na minha caldeira uma alma deficitária? Não! Vá Ele reclamar para o Pedro com quem tem afinidade, e que, por sinal, é seu subordinado direto. Eu sou só terceirizado, terceirizado! E tem mais: Vai tomar bola nas costas lá no Céu também! O Pedrão não é flor que se cheire! Pedrão tem um pézinho no enxofre! Não vive de sonho não. É capaz de negá-Lo três vezes, e não vai ser a primeira vez.

E como que tomado por uma metralhadora verbal o Capeta continuou:

Vamos combinar, o J.C. não entende nada de administração, não tem bagagem. Vem com esse papo bicho-grilo de que só o amor constrói, argh! Ultrapassado, amador. Nem mesmo o santo povo escolhido dele aguenta! Quero ver é construir igreja sem grana, fazer despacho na encruzilhada só com maldade no coração, mas sem money pr'á frango e farofa... Assim o bem não vira! O mal não sobrevive! E você sabe tanto quanto eu, primo, que um sem o outro não subsiste. São produtos atrelados e se adquire um em função do outro. Executivo que é executivo sério, seja do bem ou do mal, tem que ser como os cristãos primitivos: Ser morto por um leão todo dia! - E mais uma vez o fedor das gargalhadas ardentes dos primos. Sacanear cristãos primitivos era o segundo maior prazer da dupla, depois de zoar J.C., é claro.

Então, o Capeta inspirou fundo pelas ventas para tomar aquele fôlego e soltando aquele bafejo horrível de podridão, pôs a mão esquerda no ombro esquerdo do Tinhoso e arrematou:

- Mano Tinha, meu brother do peito: Essa de ser sincero não é minha praia mesmo, mas agora vou lhe dizer uma verdade: Se não fosse eu e o Pedrão nessa joça, o Universo todo estava um bordel! Com certeza teria sido incorporado a um absoluto maior ou paralelo! E eu ainda tenho que ouvir esse blá, blá, blá de Onipresença! Me poupe...
 
FILOSOFIA DO CAPETA A RESPEITO DA VIDA ALHEIA...

Conversa na Horta

 
Conversa na Horta
 
Vó e neto se distraíam no quintal de

casa, quando foram surpreendidos por

Rosinete; mocinha alegre, que beirava os 15

anos e morava ao lado.

-Oi pivete- gritou a garota.

-Fala aí piriguete-respondeu Edu.

A senhora desaprovando os termos

utilizados interpela:- Sejam comportados,

quero mostrar-lhes algo esplêndido. Sigam-

me até a horta.

A vegetação ostentava-se fresca e viçosa.

Dona Lina avistou uma ervinha verde e

aveludada: -O peixinho-da-horta.

Rosinete assustada cochichou para Edu:

-Peixe na mata? Sua vó está doida! Coitada!

O rapaz sorriu e comentou: -É PANC,

relaxe!

A vó continuava com nítido entusiasmo:

-Mastruço...

-Intruso?- Rosinete perguntou em voz

baixa.

Edu tampou a boca da amiga, pedindo-lhe

silêncio.

A senhora abraseada gritou: -Dente-de-

leão, ora-pro-nobis.

Rosinete berrou desesperada: -Deve ser

leão? Ora por nós?-correndo, tropeçou,

caindo de cara em um cansanção!

PANC-Planta Alimentícia Não Convencional.
 
Conversa na Horta

Pai da Malta

 
Pai da Malta descansava o tédio no cajado, homem super-ocupado entre o pastoreio e a dura e árdua tarefa de fazer filhos para atestar a masculinidade. De repente, os seus olhos fixaram-se no rebanho que, tal como ele, sofria de stress laboral, soltando, de volta e meia, méee…sss, acompanhados à percussão pelos guizos que lhes afeitavam o pescoço e avisavam no caso de alguma ovelha tresmalhar do ajuntamento, de tão treinado que o seu ouvido estava e também por nunca ter furado nenhum tímpano, já que não era dado a noitadas e a músicas, coisa que lhe confundia os miolos. Os serões cumpria-os ele em família e já se sabe a fazer o quê.
De repente, como que sacudido pelo vento, único que ousara, alguma vez, perturbar os seus filosóficos pensamentos, num monólogo, único discurso que lhe era permitido, já que as ovelhas não estavam interessadas em dialogar com ele, balbuciou entre dentes:
- Que diacho! Daqui a pouco a catraia mais nova faz 6 meses e eu ainda não fui à vila registá-la. Amanhã, sem falta, mal rompa a aurora, ponho pernas a caminho e o meu Manel que tome conta do gado. O que faz isto é um tipo estar sempre tão ocupado!
Lembrando-se da janta, com as tripas a roncar, lá foi enxutando o gado que se arrastava pachorrentemente à sua frente, provocando uma nuvem de pó, que a sua Mariete avistava ao longe, sinal que estava na hora de pôr a mesa.
Chegou a casa e perguntou à mulher:
- Oh Mariete o que é a janta, mulher?
Esta, limpando as mãos ao avental, retorquiu, entre dentes, que a ementa não era lá aquele manjar:
- Uma sopa de pão com caldo de nabos e viva o velho!
Pai da Malta informou que, no dia seguinte, iria à vila registar a catraia e não quis palpites quanto ao nome a dar ao seu último rebento, porque há coisas que quem manda é quem fez a encomenda.
Chegado ao registo civil, Pai da Malta, homem de muita educação e respeito, tirou o chapéu à entrada e revirando os bigodes farfalhudos, tesos de falta de água e sabão, fez-se anunciar pelo odor a gado ovino e pelo pisar das botas cujos tacões gastos mais pareciam umas ferraduras.
Ajeitou a compostura e lá se dirigiu ao balcão com o chapéu na mão para lhe dar uma certa confiança, posto o que se esforçou por explicar ao que veio:
- Bom dia, menina! Venho dar o nome a uma catraia que nasceu ontem.
A funcionária olhou para ele de soslaio e habituada que estava aos registos tardios das crianças da aldeia vizinha, perguntou-lhe:
- Quer então dizer que é uma menina, como se vai então chamar?
Pai da Malta ruminou por alguns segundos nos seus pensamentos e respondeu abruptamente:
- Prante-lhe Ana!
A funcionária do registo respondeu que esse nome não constava da lista de nomes autorizados pelo Arquivo de Identificação Nacional e pediu-lhe que escolhesse outro.
Pai da Malta sem tempo para reflectir, se bem cogitou, melhor se precipitou:
- Pode ser Natália que é o nome da minha cunhada, que é uma gaja boa. Até porque, a bem dizer, eu gosto muito mais dela do que da minha mulher!

Incorpora a Antologia "Contos Cardeais" da Editora Mosaico de Palavras.



Maria Fernanda Reis Esteves
49 anos
Natural: Setúbal
Email: nandaesteves@sapo.pt
 
Pai da Malta

CROQUIS

 
CROQUIS

A família está reunida para o almoço de domingo, quando Lucinéia, a filha mais velha, após receber um telefonema do namorado, comenta preocupada:
- O Sandro Alberto acabou de me ligar falando que hoje à noite vai trazer para nós quatro croquis que ele trouxe da sua viagem lá no Pantanal.
- Ele vai trazer o quê?
- Cro-quis - ela falou separando as sílabas, fazendo um gesto de
mão para lá e outro para cá.
- Ah, sim - falou o pai - croquis.
Como todos ficaram com cara de quem sabia do que se tratava, Lucinéia não se conteve:
- Vocês estão fingindo que sabem o que são croquis. Eu também não tenho estudo e não me envergonho de assumir: não sei o que são croquis e por isso estou um pouco preocupada.
- Bom... é... ele falou as croquis ou os croquis?
- Não importa o sexo. Já pensou se é uma espécie de papagaio, macho
ou fêmea; nós não temos sequer gaiola para croquis, vai ser o maior vexame. Estou tão sem graça!
- Sei não, mas acho que croquis está mais para comida, tipo uns bolinhos para a sobremesa - falou a filha gordota.
- Deve ser é algo salgado e ainda por cima feito com cebola e alho falou uma outra filha - eu não vou comer.
- E se for um bicho meio feroz? Eu não vou ficar em casa... - falou o caçula.
- Pode ser um bichinho, feito porquinho da Índia. Uns croquizinhos, ora.
- Isso vai fazer a maior sujeira pela casa.
- E ainda por cima vamos chegar da rua tropeçando pelos croquis
correndo pela sala - emendou o pai.
A vizinha, dona Eulália resolve interferir.
- É melhor consultar o pessoal aqui da Vila, pode ser um bicho barulhento, urna espécie de galo, vai ser urna croquisada fazendo escândalo já cedo.
- Esses croquis ou essas croquis estão vindo numa hora muito errada
- falou o pai.
- É verdade, seu pai está com a razão - a mãe estava realmente preocupada.
- Ligue para ele suspendendo a vinda de croquis.
- É isso mesmo. Esse Sandro tem cada urna ... croquis não se leva
assim, de urna hora para outra, para a casa das pessoas. Agradeça a gentileza, fale para ele levar os croquis para a casa da mãe dele.
- Vai parecer grosseria. "Leva os croquis para a casa da sua mãe".
- Fala com jeito, minha filha. "Sabe os croquis ... que tal dar todos para
sua mãe".
- Vocês estão esquecendo que pode ser tóxico, uns cigarrinhos de croquis - aventou a filha mais nova, com urna cara de "só faltava essa".
Com essa de tóxico, o pai resolve encerrar a questão:
- É, está decidido. Croquis aqui de modo algum, nem pensar. Liga para ele agora, já. Dê qualquer desculpa e ainda tem mais, este negócio de ficar namorando rapaz da Zona Sul não vai dar certo. É melhor você acabar com este caso.

TEXTO FEITO COMENDO UNS CROQUIS ASSADOS KKKKK
 
CROQUIS

O meu amigo de sempre, Balzac...2

 
Meses mais tarde, estava eu jogando golfe com o meu querido amigo Honoré de Balzac, que por coincidên-
cia, também dava aulas em Oxford.
Comentei com ele que tinha gostado bastante de quase
todos os seus livros, mas que havia um que tinha gostado especialmente " A mulher de trinta anos ".
Olhou-me de esguelha e comentou:
- Mas è só até aos trinta...
Perdi a argumentação e perguntei-lhe se podia assistir a uma aula sua.
Anuiu com a cabeça num gesto de condescendência.
Sentei-me num canto, muito discreta, como quem jà nada tem para aprender.
Hà situações que se percebem melhor de lado que
de frente.
As aulas do meu querido amigo eram para mulheres
com trinta anos.
A aula começou com uma pergunta:
- Que fazer com uma mulher de 30 anos?
O silêncio reinou. As trintonas olhavam-se, meditavam, inventavam-se e perdiam-se
silênciosamente.
Honoré de Balzac entretinha-se a jogar à batalha
naval com ele próprio.A um minuto do fim da aula,
levantei timidamente a mão e respondi:
- Nada, è só deixà-las viver a seu "bel-prazer"...
- É...pode ser, - respondeu o meu amigo - podem sair - acrescentou.
Saìmos um pouco confusas, confesso, com o " bel- prazer...
Soube mais tarde que Balzac morreu em pleno amor
com uma mulher de 46 anos...
 
O meu amigo de sempre, Balzac...2

Conversa furada

 
Conversa furada
 
Engrácia excomungava a desdita, embora soubesse que as três filhas não tinham como se sentir culpadas. Bertília, Donzília e Generosa eram o quadro vivo da falta de massa cinzenta do seu, graças a Deus, já falecido pai. Dominguinhos, como era conhecido na aldeia, era mais burro que o jumento Pileca e mais casmurro que a mula velha Dentinha, ambos seus únicos amigos e confidentes, já que Dominguinhos zurrava, por entre dentes, os poucos vocábulos que conseguia vociferar.
Engrácia, até hoje, desconhecia porque havia embarcado naquele matrimónio, o facto é que a sua cruz não acabara com a morte de Dominguinhos, pois o finado deixara em herança 3 pedras por lapidar.
Bertília, com ar desalinhado, vivia escondida pelos quatro cantos da casa e agarrada ao borralho onde preparava café, cujo aroma a cevada, a remetia para a fantasia da Gata Borralheira e a fazia sonhar, embora ela dormisse sempre de olhos abertos. O seu vocabulário limitava-se rudimentarmente a meia dúzia de palavras com as consoantes trocadas.
Donzília, de formas arredondadas e ar afogueado, vivia agarrada à vassoura, e em movimentos repetitivos espalhava o lixo que acabara de recolher com a pá ferrugenta, condição a que ela atribuía a culpa de não ver concluída a tarefa a que se propusera, exterminar o lixo das suas miseráveis vidas. Expressava-se com uma dislexia quase tortuosa o que a obrigava a evitar falar com estranhos.
Generosa, a quem a mãe assim baptizou por acreditar que esta filha seria talhada à sua imagem, nasceu muito franzina e ao longo dos anos foi-se revelando de saúde muito frágil, destruindo as ilusões de Engrácia de este último rebento ser o mais são e escorreito. A beleza também não assentou nela e a timidez impediram-na de se relacionar, por complexo e fraqueza. Mesmo em família era quase a sacho que se lhe arrancava alguma palavra.
Não podendo contar com as filhas para a ajudarem nas compras, Engrácia avisou que iria à cidade e recomendou, como era seu uso, que não abrissem a porta a ninguém e que não falassem com estranhos na sua ausência.
Um vendedor ambulante que passava por ali, conhecedor da história destas tristes irmãs, proibidas de falar com desconhecidos, fez uma aposta com um amigo da aldeia em como seria capaz de pôr as três irmãs a falar com ele.
Aproximou-se da casa e bateu à porta, recebendo em troca um silêncio mordaz, as irmãs estavam assustadas e não ousavam sequer falar umas com as outras. O vendedor começou a gritar que estava a morrer à sede e de pronto a porta abriu-se e surgiram, em fila, as 3 jovens com olhar esbugalhado.
O vendedor repetiu que tinha sede porque achava que tinha febre e que se não lhe dessem de beber que não aguentava até à cidade. As irmãs entreolharam-se com cumplicidade e Bertília foi à cozinha e trouxe um púcaro com água fresca da enfusa. O Vendedor agradeceu e bebeu a água, deixando de seguida cair o púcaro que se fez em cacos de barro.

Bertília gritou de imediato: “ Ai que lá se tebou o putaínho!”
Donzília retorquiu: “Tebou-se não se tebasse!”
E Generosa na convicta eloquência do seu discurso acrescentou: “A mãe disse que não fanasse, bem fiz eu que não fanei!”
O vendedor saciado da sede e da curiosidade lá se desculpou e partiu para a cidade.
A aposta estava ganha.





Maria Fernanda Reis Esteves
49 anos
Natural: Setúbal
email: nandaesteves@sapo.pt
 
Conversa furada

O homem mais rico que eu conheci

 
Quando era menino, se alguém viesse me perguntar qual o homem mais rico de Bálsamo, com certeza responderia: "É o Roanico". Lembro que quando passava um avião sobre a cidade todos diziam ser dele. Eu acreditava mesmo nisso, só depois de muito tempo vi que era brincadeira.
Ele inventava um pouco, outros aumentavam mais um tanto, e assim ele ficava cada vez mais rico, pelo menos no imaginário. A cada estória ia acumulando fazendas, garimpo de diamante, mansões em Brasília, aviões, helicópteros...
Meu pai gostava muito dele. Ouvi uma vez meu pai dizer que maior que a imaginação dele só mesmo o coração. De qualquer forma, ele pode não ter sido um homem rico, mas suas estórias sempre foram.

Essa é mais ou menos assim:
Contava que tinha comprado uma fazenda no norte de Goiás, que era muito linda, tinha uma sede maravilhosa, muito gado... Mas que por estar cuidando de outros investimentos, ficou um bom tempo sem poder ir pra lá. No dia que as coisas acalmaram, chamou seu piloto e foram de helicóptero. Era melhor o helicóptero porque a fazenda realmente era muito grande e ele não dispunha de muitos dias. Só mesmo de helicóptero é que daria tempo de percorrer ela inteira. Além disso, era muito gado e com o helicóptero ficava mais fácil localizar o rebanho.
Quando chegaram na fazenda, já bem tarde, foram direto para a sede. Iam passar a noite ali e percorrer a fazenda no dia seguinte. O problema é que quando chegaram na sede, como já fazia muito tempo que ninguém ia pra lá e considerando também, principalmente, que a terra era muito boa, viram que o colonião tinha coberto o campo de pouso, bem como tudo em volta. Não dava pra pousar. Foi então que ele teve uma ideia, mas quando falou para o piloto, o piloto não teve coragem de tentar. Irritado ele assumiu o comando, virou o helicóptero de cabeça pra baixo e roçou com as hélices o campo de pouso.

Vou contar outra dele, mas essa não é estória não, aconteceu mesmo. Quem me contou foi um amigo, Joãozinho. Esse meu amigo mora numa fazenda bem perto de Bálsamo. Ele gosta de tomar umas cachaças, até tem uma pequena coleção, se bem que não é bem uma coleção porque esta sempre bebendo ela. De vez em quando vou lá tomar umas com ele. Ele era muito amigo do Roanico e conhece várias de suas estórias.
Disse que certa vez o Roanico lhe pediu uma carona até S. J. do Rio Preto. Chegando lá, fez questão de levar o Roanico onde ele precisava, mesmo saindo um pouco da rota. O Ronico agradeceu, mas quando foi descer, o pessoal que o aguardava viu ele e foram ao seu encontro. O Roanico então esperou um pouquinho e quando o pessoal já estava perto da camionete, abriu a porta, desceu e foi dizendo:
- Motorista, por favor! Vai resolver aquilo que eu te mandei, mas não esqueça: Daqui duas horas você me pega no lugar combinado.... Vê se não atrasa, heim!
E fechou a porta, sem dar chances a qualquer resposta.
 
O homem mais rico que eu conheci

Por trás de um grande pirata, está sempre uma grande mãe...

 
Por trás de um grande pirata, está sempre uma grande mãe...
 
A embarcação afundava na vaga da rebentação, mas logo voltava à tona. De velha que era, tornara-se matreira e conhecedora das profundezas. Investia onda abaixo e logo ressurgia orgulhosa com a bandeira com a marca da caveira, esfarrapada e hedionda, a avisar o processo de intenções comandado pelo Melancia, capitão, homem, se é que se lhe podia chamar tal, já que rezava a história que fora capado pela própria mãe. Pirata que se preze não podia admitir tal defeito, melhor seria a falta de um olho ou até de uma orelha, era mais capacho menos capacho.
Com a tripulação junto à proa, sempre atenta, na mira de algum barco desprevenido, o tempo passava, com a água salgada a salpicar-lhes os rostos assados pelo vento e enrugados de malvadez e estupidez natural. Tentando se localizar entre o mar imenso e as ilhotas ao longe avistadas, quantas vezes oásis, fruto do rum que escorria fartamente pelas goelas da crew, a discussão ia acesa em relação às horas que seriam e à rota a tomar, quando Rute batendo com as tampas das panelas deu sinal de que o almoço estava servido.
Os três magrelas corriam atropelando-se para ver qual receberia o melhor prato de caldeirada. Rute era a única figura feminina que o navio pirata conhecia. Mulher sexagenária de uma rudeza quase máscula, mas de grande serventia, pois cozinhar era coisa que os três magrelas e o capitão Melancia, seu filho, não se ajeitavam a fazer.
A caldeirada fumegava no tacho e até as gaivotas se aproximavam para ver de perto que petisco era aquele que lhes aguçava o apetite. O primeiro a chegar à mesa foi Pastel, que levou uma sapatada de Rute e foi obrigado a lavar a cara e as mãos com água salgada porque tresandava a álcool e fedia a ratos mortos. Pincel e Cordel seguiram-lhe o exemplo e o capitão não escapou à água gelada do mar, desinfestando-se todos no mesmo alguidar, como o provou a cor da água que mais parecia de lavar caracóis.
Rute distribuía a comida pelos quatro marmanjos e por fim deixava o melhor do repasto para si, os fígados de peixe, deliciando-se com o rapar do tacho.
Jacob era a sua companhia, com ele falava e desabafava como se o papagaio se tratasse de gente. O raio do bicho apenas respondia:
- Rapa o tacho!
Depois da sumptuosa refeição regada com uma pequena pipa de vinho os 4 homens roncavam que nem porcos estiraçados pelos cantos do navio e era Rute quem vigiava o horizonte.
Voltando atrás, Melancia, assim era chamado já que adorava refrescar-se com este fruto e acompanhava-o sempre com um bom jarro de vinho, o resultado não era o estômago encortiçado, como seria de esperar, mas, apenas, uma piela daquelas de esquecer quem era a própria mãe. Numa das vezes em que se enfrascou, até cair para o lado, imaginou Rute como uma jovem merecedora das suas atenções e interesses e investiu para ela para se satisfazer como homem. Rute, fazendo juz ao facão com que desfolava todos os grandes peixes que preparava para as refeições, deixou em Melancia a marca da sua autoridade. O filho passou a ser, homem sim, mas de um troféu só. Rute educava o filho com as armas que tinha, afinal, ela lhos dera, ela lhos podia tirar. Melancia estava avisado, se repetisse a gracinha ficaria equilibrado.
Na pirataria, como na vida: por trás de um grande pirata, está sempre uma grande mãe...

Antologia Bandeira Negra

Maria Fernanda Reis Esteves
50 anos
natural: Setúbal
 
Por trás de um grande pirata, está sempre uma grande mãe...

Os homens só servem para apanhar bolas...1

 
Sendo eu mulher, acho que;
75% dos homens só servem para apanhar bolas (têm que servir para alguma coisa).
Estava eu jogando lentamente ténis com o meu querido amigo Marquês de Sade, que, devido às vicissitudes da vida jogava devagar, o que permitia aos apanha bolas não se cansarem muito, uma vez que jà nasceram cansados...
Entre bola vai e bola vem, ele contou-me que a vida tinha sido muito ingrata com ele, uma vez que escreveu livros cheios da mais pura verdade e que passou injustamente metade da vida enclausurado.
Agora dava aulas de sexo a donzelas em Oxford.
Combinei assistir a uma delas...
Sentei-me num canto da sala, muito discreta,como quem jà nada tem para aprender.
As aulas do meu amigo resumiam-se sempre à mesma pergunta:
- Vale a pena as mulheres serem fiéis aos homens?
Ou a luxúria serà paradoxalmente uma enorme virtude?
As respostas das donzelas eram sempre duas:
-Ou o aplaudiam de pè...
-Ou o apredejavam...
Devido aos altos e baixos morreu pouco depois suspirando que foi o mais Sade de todos...
 
Os homens só servem para apanhar bolas...1

As ovelhas pecadoras

 
Era uma vez um prado verdejante, com relva tão verdinha, tão fresquinha, mesmo de apetecer! De manhãzinha já por lá se avistavam algumas ovelhas que não queriam perder pitada daquele pasto suculento que lhes entrava pelos olhos adentro, mesmo antes de o abocanhar e de o fazer escorregar goela abaixo. Mais tarde juntava-se-lhes aos poucos o resto do rebanho.
Das muitas que ali se viam, só meia dúzia mais uma se faziam notar pela peculiaridade e irreverência que cada uma possuía.
A malhada de branco e preto era filha de uma ovelha comum e de um carneiro promíscuo, que, ao que se sabia, era também o pai das outras todas...
Essa era vaidosa e gostava de o ser! Caminhava sempre de cabeça levantada e ar sumptuoso, ignorando as que ao pé de si se desgrenhavam por se fazer notar. Coitadas...
A mais lãnuda olhava sempre de lado, com olhar desconfiado mas aguçado e logo se apressava a correr com a desgraçada que tinha ousado encontrar o melhor pedaço de relva, pois está visto que queria para si o que as outras tinham, não abdicando de bocada alguma. A grande invejosa!
A irada, quando estava lá com os azeites dela, dava cornadas a torto e a direito em tudo o que lhe aparecesse à frente. Paciência, era coisa que definitivamente não tinha. Se fosse gente, decerto que precisaria de consultar um psicólogo com urgência antes que se enganchasse nalgum sítio difícil e isso lhe valesse a perda (ou o ganho) dos cornos.
A preguiçosa contentava-se em ruminar o que comera no dia anterior, deitada de frente para o sol. A essa não a incomodavam, visto que não era ameaça para ninguém. Passava longos períodos amoitada no meio do prado e nem a proximidade ameaçadora das irmãs a faziam levantar para o que quer que fosse a não ser na hora do recolher obrigatório, decretado pelo pastor que era também o seu dono. Lá ía contrariada!
A avarenta não era dada a generosidades e por isso mesmo, não sossegava nem deixava nenhuma outra sossegada no seu canto. Era vê-la sempre a correr de um lado para o outro, numa angustiante tarefa de querer abocanhar toda a erva do prado que lhe coubesse na boca... queria-a toda para si! A gulosa acompanhava-a em cada uma das suas investidas, como se fosse a sua clone perfeita ou a sua sombra. Agiam como se fossem duas bandidas, dispostas a tudo para satisfação de si mesmas.
E depois, havia ainda aquela que porventura se acharia a mais sexy do rebanho. A tal que não perdia uma oportunidade de seduzir o jovem carneiro, filho de uma vizinha sua que por estar velha demais fora levada para o matadouro pela altura das festas em honra da Nossa Senhora dos Remédios. Não teve outro remédio, coitada. Todas assistiam aos balidos dengosos e lânguidos bem como aos olhares melosos de ovelha fatal e avessa a castidades mofentas.
Trouxe-vos até uma foto dela, para que possam admirar o seu belo penteado com o qual se pavoneia e se mira em cada pequeno charco que encontra nas poças da chuva pelo caminho, achando-se a mais bela das ovelhas, por certo, a rainha do seu curral!
 
As ovelhas pecadoras

Ouvidos na Contramão

 
Essa é bem recente, aconteceu esse ano, no aniversario de 50 anos do meu cunhado, Betão. Dessa vez meu pai foi a vítima.
A aproximadamente dois anos atrás, subitamente meu pai perdeu a audição do lado esquerdo. Infelizmente, os médicos disseram que era irreversível. Mas apesar do susto e dos problemas para se adaptar a nova condição, meu pai, por fim, encarou o fato com humor: as vezes brinca, dizendo que foi por causa de um Viagra que ele tomou e que acabou deixando permanentemente o tímpano duro. Também conta alguns fatos engraçados que aconteceram por causa disso, principalmente no começo, até se adaptar um pouco, muitos por não conseguir identificar da onde vinha o som. De vez em quando, atendia o telefone do lado que não ouvia e insistia pra que falassem, às vezes ficava bravo achando que era trote.
Naquele dia, estávamos na festa já a um bom tempo, eu e meu pai já havíamos tomado algumas e mais um pouco, quando chegou o irmão mais velho do meu cunhado, o Neto. Ele chegou um pouco mais "alto", já bem perto de Bagdá, e sentou com a gente. Acontece que ele também tem problemas de audição, só que mais grave, ele usa um aparelho do lado direito, e não ouve do lado esquerdo. Agora imaginem... Os dois meio bêbados, meio surdos, as orelhas na contramão (o Neto a esquerda, pra ele estava bem, mas ficou ruim pro meu pai), o som alto... Eta conversa difícil! Era um tal de "o quê?" pra lá, "o quê?" pra cá. Dez minutos de conversa não rendeu um (não tem a ver com o fato, mas de repente veio um pensamento. Já ouviram falar que não existe nada pior que não possa ser piorado... Imaginem se um deles fosse gago...)
Ficaram teimando se entender por mais um tempo e é claro que o rumo da conversa não podia dar noutro: cada um tentando explicar o seu problema. O Neto falando que o aparelho foi bom pra ele. Meu pai, que os médicos disseram que não tinha mais jeito... Foi quando de repente o Neto teve a "brilhante" ideia. Vejam só! O que importa a opinião dos médicos? Realmente precisamos ousar, é assim que surgem grandes descobertas na ciência: Rapidamente, ele tirou seu aparelho e foi colocando no ouvido direito do meu pai. Não adiantou tentar dizer que naquele ouvido meu pai escutava perfeitamente, que se era pra fazer um teste tinha que ser no outro, ele não estava ouvindo nada. Tentei indicar, apontando o outro ouvido, mais ele fez que "não" com o dedo. Parece que o aparelho só encaixava do lado direito. E colocou o aparelho no meu pai... Como o aparelho amplifica bastante o som, a reação do meu pai foi tentar se esquivar, fazendo logo um "joia" confirmando que estava ouvindo. O neto tirou o aparelho, colocou novamente em seu ouvido e com ar de Doutor foi logo falando:
- Não disse! O senhor escutou. Acho que um desses vai dar certo pro senhor.
Coitado! Ele só não entendeu porque todo mundo ali ria tanto. Nem tentamos mais explicar.
 
Ouvidos na Contramão

O velho cão

 
Uma senhora foi para um safari na África e levou seu velho vira-lata com ela.
Um dia, caçando borboletas, o velho cão, de repente, deu-se conta de que estava perdido. Vagando a esmo, procurando o caminho de volta, o velho cão percebe que um jovem leopardo o viu e caminha em sua direção, com intenção de conseguir um bom almoço ..
O cachorro velho pensa:
-Oh, oh! Estou mesmo enrascado !
Olhou à volta e viu ossos espalhados no chão por perto. Em vez de apavorar-se mais ainda, o velho cão ajeita-se junto ao osso mais próximo, e começa a roê-lo, dando as costas ao predador ...
Quando o leopardo estava a ponto de dar o bote, o velho cachorro exclama bem alto:
-Cara, este leopardo estava delicioso ! Será que há outros por aí ?
Ouvindo isso, o jovem leopardo, com um arrepio de terror, suspende seu ataque, já quase começado, e se esgueirar na direção das árvores.
-Caramba! pensa o leopardo, essa foi por pouco ! O velho vira-lata quase me pega!
Um macaco, numa árvore ali perto, viu toda a cena e logo imaginou como fazer bom uso do que vira: Em troca de proteção para si, informaria ao predador que o vira-lata não havia comido leopardo algum.. .
E assim foi, rápido, em direção ao leopardo. Mas o velho cachorro o vê correndo na direção do predador em grande velocidade, e pensa :
-Aí tem coisa!
O macaco logo alcança o felino, cochicha-lhe o que interessa e faz um acordo com o leopardo. O jovem leopardo fica furioso por ter sido feito de bobo, e diz:
-Aí, macaco! Suba nas minhas costas para você ver o que acontece com aquele cachorro abusado!
Agora, o velho cachorro vê um leopardo furioso, vindo em sua direção, com um macaco nas costas, e pensa:
-E agora, o que é que eu posso fazer ?
Em vez de correr (sabendo que suas pernas doloridas não o levariam longe...), o cachorro senta, mais uma vez dando costas aos agressores, e fazendo de conta que ainda não os viu, e quando estavam perto o bastante para ouvi-lo, o velho cão diz :
-Cadê aquele macaco safado? Estou morrendo de fome!
Ele disse que ia trazer outro leopardo para mim e não chega nunca!
Imediatamente o leopardo se esquiva para longe do cachorro e devora o macaco.

Moral da história:

Não mexa com Cachorro Velho...

Idade e habilidade se sobrepõem à juventude e intriga.

Sabedoria só vem com idade e experiência.

Esta é uma piada que rola pela WEB
 
O velho cão

A Mais Bela Fórmula

 
Desde miúdo tenho por hábito contar pelos dedos os segundos que duram o sinal vermelho. Cedo aprendi os números até vinte por o meu pai tamborilar sobre o volante aqueles segundos de desafio previsto todas as manhãs até ao colégio. Os números aprendi cedo. Talvez tenha sido esse o meu primeiro sucesso que, durante algum tempo, rendeu chupas e gomas dos amigos lá de casa, embora a minha prematura aptidão para a matemática não tenha vindo a revelar-se o sucesso por todos garantido. Antes pelo contrário. O meu pai bem se esforçou pelo meu reconhecimento de que os matemáticos também falam da estética e da elegância das suas demonstrações, mas, para mim, a mais bela fórmula do mundo é a metáfora. Só na puberdade é que compreendi o dito comum do meu padrinho de que a mais bela "forma" do mundo era a mulher. Ainda hoje não sei se ele se referia à mulher ou à Mulher. A primeira (dele) não deve ter sido. Quanto à segunda hipótese, passámos a estar de acordo. O ritmo até perfazer a duração exacta do sinal só o tempo o ditou. Formular um desejo até o semáforo abrir é mais recente. Gosto de desafios...
 
A Mais Bela Fórmula

Magnólia

 
Sumário: Apresentação. Conteúdos programáticos. Critérios de avaliação. Fechou o livro de ponto e escreveu o nome no quadro: Magnólia. Rumor de vozes ao fundo da sala. Risadas. Pousou o giz e virou-se de frente para a turma. Trinta alunos. Tantos quantos os itens do Auto-retrato que iria distribuir em seguida. Proferiu as primeiras palavras:
- O meu nome é Magnólia.
Do fundo da sala, de forma suficientemente audível para não ser ignorado, um aluno declarou:
- My name is Bond. James Bond.
Risadas. A professora fixou o aluno. Este volveu um olhar de desafio. No ano lectivo anterior, uma intervenção como aquela teria definido um muro de arestas finas e cortantes. Porém, a professora sorriu e perguntou-lhe:
- E o James Bond sabe o que é uma magnólia?
Risadas. Os olhares expectantes dirigiram-se para o colega da turma. Este respondeu em tom de provocação:
- Não. Mas sabe o que é uma …
A última palavra não foi compreensível para a professora.
Risadas. A professora sorriu para a turma. Em seguida, perguntou:
- Alguém sabe o que é uma magnólia?
O colega de carteira do James Bond espreguiçou-se e levantou a mão. A professora consentiu a intervenção. Este declarou:
- Um filme com o Tom Cruise.
Ignorando a professora, outro aluno prontamente interveio:
- Não é nada um filme! É um CD, mas eu tenho em MP3. É bué de fixe, meu.
Uma aluna deu sinal, quase imperceptível, de que sabia a resposta. A professora deu-lhe a palavra.
- É uma flor.
A professora sorriu.
- E tu chamas-te?...
- Margarida.
A professora ainda pensou dizer-lhe que margarida também era nome de flor, mas nada disse. Apenas acenou afirmativamente. Depois de fazer a chamada, certificar-se-ia se o nome da aluna era efectivamente Margarida.
Ano novo, vida nova! pensou a professora. Mais precisamente, ano novo, escola nova! Desta vez por três anos. E a ideia tranquilizava-a. Poderia não só assegurar a continuidade pedagógica, mas também adquirir um vínculo mais efectivo com a comunidade escolar. No ano anterior, tinha sentido palpitações, as mãos transpiradas, a voz a sumir-se-lhe. Desta vez sentia-se confiante, serena. Mantivera o contacto visual com o James Bond, e isso era um progresso. Contornara o desafio desde o primeiro momento. Considerou a hipótese de dizer-lhes que seria professora deles durante três anos, mas guardou o seu trunfo. Além disso, era a directora de turma, e esse facto pesava a seu favor.
Fez a chamada. A aluna que sabia que magnólia era nome de flor chamava-se efectivamente Margarida. Depois do preenchimento da ficha individual da caderneta, entregou a cada aluno uma ficha com trinta itens intitulada Auto-retrato. A ficha gerou comentários à medida que os alunos iam lendo algumas das questões. O James Bond levantou a mão. A professora deu-lhe a palavra.
- A setôra também vai fazer o seu auto-retrato?
O tom pareceu-lhe irónico, mas a professora não hesitou na resposta.
- Se assim o desejarem…
Logo uma voz se revelou:
- Era fixe, setôra! A setôra é nova na escola, não é?
Ainda nem tinha acabado de dizer que sim, quando, com um sorriso que mais parecia um abraço, um outro aluno disse:
- Já sei o que vai responder na 12.
Assim que o item número doze foi identificado, ouviu-se um coro:
- Magnólia!
Uma voz sobressaiu do coro:
- A setôra podia apresentar-se primeiro…
A professora passeou os olhos pela turma, auscultando a adesão à proposta. Fez-se silêncio. Sabia que estava a ser posta à prova, mas a voz não a traiu.
- Pode ser.
Não lhe ocorreu ter preenchido o retrato antecipadamente. E um auto-retrato não se improvisa… Ano novo, escola nova, desafios novos! O James Bond mandou calar os colegas à sua volta, os quais trocavam impressões sobre o que já tinham começado a responder.
- Prometo ser breve. – disse a professora.
Assomou-lhe uma ideia que lhe pareceu oportuna.
- Apresentar-me-ei em poucas palavras, porque vocês terão três anos para descobrir o resto.
- Três anos?!
O James Bond nem queria acreditar.
- Vai ser nossa setôra três anos?!
- Sim. Sou nova na escola, mas vim para ficar. Então, vamos lá! Principal traço da minha personalidade: paciente. Mas, a paciência tem limites, como tudo afinal… Qualidade que mais aprecio num homem: sinceridade; numa mulher: siso.
A palavra fez eco na sala.
- Importa-se de repetir?
- Siso. Não conhecem a palavra? Então, já têm trabalho para casa. Ver no dicionário a palavra siso.
Dirigiu-se para o quadro e escreveu a palavra. Um restolhar de folhas mostrou que as palavras dela tinham sido levadas a sério. Ainda pensou dizer-lhes que estava a brincar, mas eles estavam a levá-la a sério. Ainda bem! pensou a professora.
- O que mais aprecio nos meus amigos: pontualidade.
Algumas alunas entreolharam-se como se as palavras da professora fossem uma pena suspensa.
- O meu principal defeito: acreditar que tudo tem solução. A minha ocupação preferida: corrigir testes.
O sorriso com que acompanhou as palavras denunciou a sua intenção em parecer séria.
- A minha ocupação preferida: andar de patins.
- Fixe. A setôra já foi ao Parque da Liberdade? Aos fins-de-semana andam lá de patins.
A professora mostrou apreço pela informação.
- Não sou de cá, mas vocês depois explicam-me onde é. O meu sonho de felicidade: vocês todos passarem o ano.
Risadas. Os olhares dirigiram-se para o James Bond, que pareceu ignorar tal facto.
- O meu maior desgosto seria: ficar sem trabalho. O que eu gostaria de ser…
Ainda pensou dizer: feliz, mas não ousou.
- O que eu gostaria de ser: o Sol, para iluminar os espíritos. O país onde eu gostaria de viver: neste jardim à beira-mar plantado.
Os alunos olharam-se atónitos.
- Portugal. – explicitou a professora – A minha cor preferida: azul.
- A setôra é do Porto?
A pergunta pareceu-lhe suspeita.
- Não. Sou da terra onde nasci.
O sorriso cúmplice não consentiu nova pergunta, até porque alguém logo disse:
- E a flor que mais gosta é a magnólia.
- Também gosto de magnólias. Mas, rosas são sempre rosas! O meu animal preferido: o gato.
- Eu tenho uma gata. – disse uma aluna sentada perto da janela – Quer ver a fotografia dela?
A professora deslocou-se até junto da aluna e olhou a fotografia no telemóvel.
- É bonita. Os autores que mais aprecio…
O James Bond mostrou eloquência:
- Camões, grande Camões!
A professora fixou-o.
- “Quão semelhante / acho teu fado ao meu, quando os cotejo!” São tantos! Os meus heróis preferidos na ficção: Calvin e Hobbes. Lêem o Público?
- O quê?! A setôra gosta de BD?!
- E desenhos animados. Podem crer!
- Podíamos ver um filme na aula. Era fixe. O Madagáscar! A setôra já viu o Madagáscar?
- Claro!
- Podemos ver desenhos animados na aula?! Fixe, meu!
- Não, vi o Madagáscar.
- Ah! ´Tava a ver.
- Bem, assim não acabo… Os meus heróis na vida real… Sinceramente, não sei o que lhes diga!
- O Cristiano Ronaldo! A setôra não diga que não sabe quem é o Cristiano Ronaldo!
A professora sorriu.
- O que eu detesto acima de tudo: poluição sonora. Traço de personalidade que não suporto: a arrogância. O feito que mais admiro: o 25 de Abril.
- Eu ainda nem tinha nascido!
- Eu também não… O dom da natureza que gostaria de possuir…
A professora dirigiu-se para o quadro.
- Oh! Não! Mais TPC!
A professora ignorou o comentário. Escreveu no quadro: ubiquidade. Novo restolhar de folhas. A palavra foi registada nos cadernos. Está a correr bem! pensou a professora.
- O meu estado de espírito actual…
A professora passeou os olhos pela turma. As palavras dela soaram com a maior sinceridade:
- … feliz por conhecer-vos e partilhar convosco este momento!
Silêncio. Uma voz ergueu-se:
- O que é que quer dizer indulgente?
A professora pareceu surpreendida com a pergunta, mas era a questão seguinte. Não se lembrara de colocar a palavra no quadro, como habitualmente. Ano novo, vida nova, apresentação diferente.
- Indulgente: tolerante. Sou indulgente com quem o merece. O meu lema de vida: vive e deixa viver. A data mais importante para mim: o meu aniversário.
- A setôra faz como o prof. de Inglês? Também falta no dia de aniversário?
- Este ano é num domingo… Azar o vosso! Aquilo de que tenho mais saudades: das férias.
Os alunos teceram comentários entre eles. A professora não os interrompeu. O olhar dela fixou-se no desenho de uma flor, no frontispício do seu dossiê: uma magnólia. Desenhara-a um amigo. Sim, tinha saudades. Aquilo de que tinha mais saudades era dos instantes de poesia do chocolate partilhado, do prazer intelectualizado que cada café oferecia, dos passeios pela serra ao fim da tarde. A perfeita convicção de que não se deve esperar por nada, porque a vida deve ser vivida a cada instante, porque passa sem parar e nunca retrocede, com a lógica dos rios e não com a lógica dos astros. Aquele desenho permanecia no frontispício do seu dossiê, revelando uma presença ausente. Três anos, três escolas, três cidades... Nos breves instantes que lhe duraram aqueles pensamentos, a emoção assomou-lhe ao peito. Saudades, sim, eram saudades o que sentia.
- Setôra, a vinte e seis?
- Aquilo que mais me emociona: os animais abandonados. Uma leitura que eu recomendo: o Regulamento Interno da Escola.
O James Bond foi oportuno. Não havia desafio nas palavras dele:
- A setôra é que é nova na escola!
A professora não conseguiu evitar um sorriso.
- Exactamente. Recomendo a mim própria.
A turma riu. A professora também. O gelo havia sido quebrado. O momento chave não o conseguiu identificar, mas soube que a cumplicidade era recém-nascida.
- O meu prato preferido: piza.
- A setôra sabe que vai deixar de haver piza no bar? Que não é saudável?
- O.K. Esparguete à bolonhesa. A minha relação com o telemóvel: ansiedade. Porque toca e porque não toca.
A turma riu.
- A minha apresentação já vai longa. Que horas são?
A pergunta era dirigida ao James Bond, porque o James Bond estava a consultar o telemóvel, facto que tentou ocultar quando a professora olhou para ele.
- Falta a última, setôra.
- Ah! O momento do dia que eu prefiro: quando a campainha toca!
- Ainda só passaram vinte minutos, setôra. – disse o James Bond.
- Ainda bem! Agora, vamos lá a preencher o questionário. Não vale cabular.
Os alunos riram-se. Fez-se silêncio. Por vezes, confrontaram as respostas, prosseguindo o auto-retrato. Pareciam inspirados.
Outras apresentações seguiram-se ao longo da manhã. Não só as dos alunos, mas também as dos colegas. Uma escola nova não é muito diferente das outras. Há unidade dentro da diversidade. A ideia de permanecer três anos numa escola trazia-lhe um conforto insuspeito. Estabelecem-se laços afectivos mais duradouros. No ano seguinte, não haveria a mesma ansiedade.
Depois das aulas, foi andar de patins no dito Parque da Liberdade. Aceitou a amabilidade de um colega que, além de a levar ao recinto, lá permaneceu a horita em que ela praticou um pouco. Ambos riram-se do despropósito de ocupar assim parte da tarde, numa época de imenso trabalho. Perante factos não há argumentos. Magnólia sentia-se livre, alheada das vicissitudes do dia-a-dia. Os patins e um recinto apropriado e até se esquecia que estava a dezenas de quilómetros de casa. Ao colega, já à mesa do café, enquanto fumava um cigarro, a apresentação foi bastante diferente. O colega ouvia-a atentamente. Já todos passámos por isso! dizia-lhe ele. Também só estou naquela escola há meia dúzia de anos. Se posso escolher o turno, manhã de preferência, não asseguro necessariamente a continuidade pedagógica. Mas, tenho dois filhos para deixar cedo no colégio, e o trânsito é imprevisível. Na verdade, mais do que previsível. A maior parte das minhas faltas são por causa do trânsito. Magnólia ouvia-o atentamente. Idealizava uma família a que pudesse chamar sua. Nem que tivesse de se levantar às seis da manhã! dizia-lhe. Mas, sem local fixo de trabalho ninguém cria raízes. Agora estava mais confiante. Três anos deixavam-lhe a sensação de que todos os sonhos poderiam realizar-se.
Dias depois, deu início às aulas de apoio educativo a um aluno com síndrome de um nome impronunciável, que no essencial se reduzia a dificuldade de concentração. A turma sempre ruidosa era o motivo apresentado pelo aluno para o seu insucesso.
- Não sei nada de gramática, setôra!
Estas foram as suas primeiras palavras. A professora fixou-o.
- Português não é só gramática!
Quem é este aluno? pensou a professora. Pensar na disciplina de Português era pensar na gramática?! E as emoções? Qual a gramática das emoções? Qual a geografia das emoções? Começou por lhe pedir um instante feliz da sua infância. Que não pensasse em gramática! Que sabores, que aromas, que vozes, que cores lhe vinham à memória? Quando a campainha tocou, ainda ficaram durante o intervalo a limar o texto criativo produzido pelo aluno com síndrome de um nome impronunciável, que afinal sabia ter sido feliz, mas que nem a gramática nem o ruído o deixava lembrar-se de tal facto.
Na semana seguinte, pensar-se-ia na gramática. A vida deve ser vivida a cada instante! pensou a professora. Efectivamente, aquela aula de apoio educativo tinha sido um instante que merecia registo. Instantes como aquele faziam-na sentir orgulho numa profissão tão ingrata quanto a dela. Quem adquire a segurança da estabilidade de uma família, de um local fixo de trabalho, obedece a outras contingências. Magnólia tinha local de trabalho assegurado por três anos o que lhe daria alguma estabilidade, ainda que reduzida, mas permanecia uma ave migratória sem ninho. Presa por ter cão e presa por não ter cão! pensou a professora. Ao pensar em cão, desenhou-se-lhe um sorriso no rosto. Enquanto organizava o dossiê da direcção de turma, uma colega tinha entrado na sala dos directores de turma e perguntado se alguém tinha visto o Óscar naquela manhã. Pensou o pior. Prontamente respondeu à colega:
- Esta manhã, quando cheguei, ele estava deitado na relva!
Fez-se silêncio. E os olhares convergiram para ela. Todos os presentes desataram a rir, excepto Magnólia. Ainda com alguma dificuldade em conter o riso, a colega elucidou-a que procurava o colega Óscar, de Matemática, e não o cão da escola. O equívoco já se estendera pela sala de professores, porque os olhares sorridentes assim o indiciavam. Foi o próprio colega quem se lhe apresentou dali a instantes:
- Olá, colega Magnólia! Sou o Óscar, mas não mordo, assim como o meu homónimo!
Magnólia já não era a colega nova na escola. Tinha nome – Magnólia – ainda que a sua apresentação naquele caso em particular tivesse sido curiosa. Agora, fazia outra leitura daquele instante, mas há instantes e há instantes…
Sexta-feira, finalmente! pensou a professora. Alugara um T1 nas proximidades da escola, o que até fora uma agradável surpresa. Viu o correio. Uma carta do banco e outra da mãe. Abriu primeiro a da mãe que apenas reenviava uma carta da universidade onde Magnólia se licenciara: “Sessão solene de entrega de diplomas. A presença dos licenciados à sessão solene deverá ser confirmada, pelos próprios, no destacado abaixo, até ao dia 30 do corrente. Todos os licenciados utilizarão os distintivos de curso, que a associação académica fornecerá, para a ocasião, a título de empréstimo, mediante identificação. O traje é de passeio. Esclarece-se que a universidade não tem meios de financiar quaisquer deslocações, nem alojamento dos não-residentes nesta cidade.” Logo agora! pensou Magnólia. Em seguida, abriu a carta do banco: “ (…) actualizou os critérios de cobrança de despesas de manutenção, continuando a estar isentas as contas que apresentem os seguintes requisitos. (…) No segundo trimestre do corrente ano, a conta em referência não apresentou nenhum dos requisitos de isenção pelo que não poderá continuar a usufruir da isenção de despesas de manutenção.”
Os patins permaneceram silenciosos até à manhã seguinte, quando uma mensagem fez vibrar o telemóvel: “Se quiseres boleia para ir andar de patins, liga-me antes das onze horas.” Magnólia nem hesitou.
O colega apresentou os dois filhos, que iam ter a primeira aula de patinagem.
- Levei o folheto informativo. Eles entusiasmaram-se com a ideia, e marquei aula para as onze horas. Não consegui foi convencer a mãe…
Magnólia sorriu.
- E o pai está convencido?
O miúdo mais novo não aguardou pela resposta.
- O papá tem medo desde que caiu da trotineta!
O colega tapou os ouvidos.
- Isso não era para ser dito! O que é que a senhora professora vai pensar do papá?!
No recinto, o James Bond e outros dois colegas. Magnólia nem queria acreditar. O impacto da presença foi recíproco. Eles não tinham patins, não tinham alugado patins, nem tinham aula marcada. Vieram certificar-se! pensou Magnólia. O James Bond tirou um dos phones.
- Olá, setôra! Pronta para as curvas?
Magnólia deteve o olhar nele para avaliar as palavras, cujo tom mereceu empatia.
- Sempre!
Os colegas entreolharam-se. Mantiveram os phones e apenas levantaram o polegar. Magnólia cumprimentou-os com um aceno. Por um instante, abstraiu-se do contexto, da música que já dava os primeiros acordes e da algazarra das crianças que preenchiam o campo. O colega e os filhos dele ali presentes eram a sua família de empréstimo, naquela manhã de sábado. O monitor aproximou-se, cumprimentou os miúdos, e Magnólia entrou no campo.
Na aula de segunda-feira, entregou aos alunos a convocatória para a reunião de pais assim como a comunicação do horário de atendimento aos encarregados de educação. A aula prestes a iniciar-se adivinhava-se mais tranquila do que as anteriores. Um foco de conversa mereceu o reparo da professora. Um dos alunos interveio.
- A setôra sabe mesmo fazer uma águia?
A professora fixou o aluno atentamente.
- Fazer uma águia? Ah! Sim, curvar em águia. Também.
- Vês, vês? Eu não te disse?!
O James Bond já divulgara a novidade, mas apenas aquele grupo parecia saber do assunto.
Na aula seguinte, o James Bond não interrompeu o normal funcionamento da aula com os seus comentários inoportunos, nem fez qualquer referência ao que assistira no recinto desportivo. No final da aula, os alunos devolveram o destacável da convocatória para a reunião de pais assim como o da comunicação do horário de atendimento e deixaram a sala sem o estrépito da semana anterior. A professora recolhia os seus materiais, quando encontrou sobre a sua mesa uma folha com um desenho de uma flor praticamente idêntica à do seu dossiê – uma magnólia pintada a aguarela e pastel. Susteve a respiração por instantes. O desenho não estava assinado, mas as semelhanças eram demasiado evidentes. Alguém observara minuciosamente a do dossiê dela e reproduzira um exemplar quase perfeito. Um admirador secreto! pensou a professora. Uma manifestação silenciosa de carinho, precisamente na turma onde ela sentia mais apreensão sempre que ia para a aula.
As aulas e os conselhos de turma preencheram a semana. A turma de Magnólia, na voz dos colegas, era uma turma difícil. A maioria dos alunos beneficiava do apoio do serviço de acção social escolar, sem serem apenas os de famílias monoparentais. Carências não só económicas mas também afectivas eram geradoras de desequilíbrios, cujo reflexo mais evidente se traduzia na falta de motivação e consequente indisciplina, fraca assiduidade e retenções sucessivas. Magnólia ainda pensou em referir o desenho que alguém da turma lhe tinha oferecido, mas não ousou. Durante as aulas dessa semana, procurou um indício que a orientasse para a identificação do seu admirador secreto, mas ninguém se denunciou. Nos dias em que o James Bond não comparecia, as aulas funcionavam dentro de parâmetros razoáveis. Nos dias em que comparecia, Magnólia redobrava a vigilância para evitar o que pudesse motivar qualquer confronto. A correspondência enviada para o encarregado de educação a informar sobre a assiduidade do James Bond tinha sido devolvida ao remetente, mas uma vez feito o registo em como fora expedida, nada haveria a recear. O único número de contacto era o de telemóvel que dizia “número não atribuído”. Até já considerara a hipótese de se deslocar pessoalmente a casa do James Bond.
O tema para o plano anual de escola – Como viver a mudança? – afigurava-se-lhe relevante, merecedor de reflexão atenta, embora no momento só lhe ocorressem as mudanças de direcção na patinagem: dois tempos, dois apoios, salto. Na reunião de departamento, assistiu ao debate entre dois colegas sobre se toda a mudança, ainda que desejada, era ou não geradora de conflito. A reunião já ia longa, e Magnólia sentia-se padecer da tal síndrome de nome impronunciável, porque só lhe apetecia pedir uma travagem na discussão. Podiam optar por travagem em cunha, em “T” à frente, ou lateral…
A primeira participação disciplinar chegou-lhe na manhã de segunda-feira. O teste diagnóstico de Inglês do James Bond tinha sido anulado. Magnólia leu o relatório e solicitou ao James Bond que lhe entregasse por escrito a sua versão da ocorrência. No final da aula, leu o relatório por ele produzido: “No texte de inglês sentei-me ao lado do Fábio porque ele é fixe e copiei nas calmas. Até porque o prof. estava sentado há secretària não precebi que os textes eram diferentes e que as minhas respostas nada tinha haver com as perguntas. Axo que fiz mal e que o prof. não devia penalisar o Fábio porque ele é fixe.”
Por se tratar de um aluno problemático, o professor de Inglês solicitou à directora de turma que o aluno fosse advertido e propôs que este realizasse outro teste numa turma onde este ainda iria decorrer. Magnólia decidiu aguardar pela reunião com os encarregados de educação, no final da semana, embora considerasse remota a hipótese do pai comparecer. Na reunião estiveram presentes cinco encarregados de educação, de uma turma de trinta alunos. Nenhum era o pai do James Bond. Terei de ir a casa dele! pensou a professora.
Ao sair da última aula, no dia seguinte, foi informada pela funcionária que deveria dirigir-se ao conselho executivo. A presidente da escola explicou-lhe o sucedido. Tinha havido um incidente com um encarregado de educação da turma de que Magnólia era a directora. Um senhor que parecia ter algum conflito com a gravata (Estava sempre a ajustar o nó!) e com o comprimento das mangas do casaco (Estava sempre a medi-las!) dizia ser uma pessoa importante na cidade (Advogado de renome!) tinha insistido em falar com a directora de turma naquele preciso momento. Tinha sido o colega Óscar quem o recebera. Depois de ter verificado o horário de atendimento afixado na sala, o colega Óscar informou o dito senhor que estava equivocado no dia e na hora, pelo que não poderia ser atendido. O dito senhor importante disse saber disso muito bem, mas tinha uma reunião importante precisamente a essa hora. O colega Óscar chamou o funcionário auxiliar e remeteu o senhor importante para o conselho executivo. A presidente parecia bem-humorada ao narrar o facto, o que tranquilizou Magnólia. (Ainda bem que ele me ligou cá para baixo!) Quando o senhor importante entrou de rompante no conselho executivo, a presidente perguntou ao senhor importante se este tinha marcado hora para ser atendido. (Então, solicite por escrito uma audiência e aguarde confirmação posterior!) Tratava-se do pai do Simão…
- … do James Bond! – interrompeu Magnólia.
Aos encarregados de educação, a escola pede colaboração, que estes acompanhem regularmente os seus educandos nas suas actividades escolares, que justifiquem as faltas, que garantam a troca de correspondência com a escola, enfim, que permitam o diálogo entre as partes. A correspondência viera devolvida, o número de telefone estava incorrecto e o diálogo não era merecedor dessa designação. Apesar de tudo, o senhor importante sabia que aquela era a escola do filho e sabia o horário de atendimento, porque a comunicação enviada por mão própria, viera assinada e fora-lhe entregue pelo aluno. Restava à professora aguardar que o senhor importante pesasse as prioridades e decidisse entre uma reunião importante com um cliente e uma reunião importante com a directora de turma. A presidente da escola manifestou a sua solidariedade (Casos destes são mais frequentes do que tu pensas!) e, se necessário, que Magnólia lhe ligasse para o telefone directo, que ela própria assistiria à reunião. Ao proferir as últimas palavras, a presidente observou o desenho da flor no dossiê de Magnólia.
- Uma magnólia. Tão linda! Isso é aguarela e pastel, não é? Foste tu que fizeste?
Magnólia sorriu e apenas respondeu:
- Um amigo.
A presidente, contemplando a flor, piscou o olho e disse-lhe:
- Pede-lhe para desenhar uma íris. A minha filha ia gostar!
Magnólia saiu do conselho executivo pensativa. Felizmente que não tive de a retirar do dossiê! pensou. No verso tinha escrito a lápis: “Desenhaste em papel uma flor. / Os teus olhos deram-lhe o céu, / e o teu sorriso a textura do cetim. / Ofereceste-ma, e guardei-a / – só para mim.” Saudades daqueles momentos de um ontem ainda tão presente. Colecção privada de fragmentos inteiros, ímpares na sua textura polida. No primeiro encontro, perguntara-lhe:
- Que idade tens?
Ele respondera-lhe:
- A idade é o que fazemos com cada dia.
Mas isso foi muito tempo depois. Antes do tempo das palavras era o da demora do olhar sereno. Era ainda o do sorriso das palavras inaudíveis a rasgarem o tempo informe, a esculpirem os degraus para o azul. As coisas são o instante em que as palavras as iluminam. Um livro é a revelação da palavra; uma chave, o rumor de rebentação; um café, o instante de possibilidade, a curva do horizonte, a circunstância. Nunca lhe perguntava quando nem aonde iam. Ia aonde ele queria ir. O trânsito desafiava a paciência, reduzindo o tempo tão frágil quanto efémero, mas seguia ao encontro de um quadrado de maçã e canela a aromatizar o silêncio do indizível no rumor das vozes anónimas.
- Sou uma criatura modesta. – dizia-lhe ele. – Fico na dúvida entre o arrebatamento das tuas figuras de estilo e a simples necessidade de mudares de óculos. Mas, podes brincar comigo!
Posso brincar contigo! pensou Magnólia. Enviou-lhe uma mensagem nessa tarde: 20. 5. 14. 8 15. / 19. 1. 21. 4. 1. 4. 5. 19. / 20. 21. 1. 19. No reencontro, as palavras dele sugeriam a rendição:
- Não pude decifrar a mensagem. Apaguei-a inadvertidamente, mas estou à tua disposição!
Mas Magnólia não lhe descodificou os números digitados. Estes anularam-se, porque ele trazia nos olhos um poema. “Nada, senão o instante me conhece!” pensou Magnólia.
Apesar de ser preferível que um encarregado de educação avise previamente da sua presença, nenhum director de turma se recusa a receber um pai quando este se desloca à escola na hora de atendimento semanal. Considerando a eventual presença do pai, Magnólia colheu informações, junto dos colegas do conselho de turma, sobre o comportamento e aproveitamento do James Bond. Actualizou o registo de faltas e aguardou. Na manhã do dia de atendimento, o James Bond compareceu na aula sem manifestar conhecimento de causa. Quando a professora procedia à recolha dos trabalhos que seriam levados para corrigir em casa, o James Bond pediu para ir ao cacifo, justificando que se tinha esquecido que deixara o trabalho dentro de um outro livro. Os alunos estavam avisados que não poderiam utilizar os cacifos enquanto as aulas estivessem a decorrer e muito menos interromper uma aula por motivo de esquecimento de material. Magnólia ponderou e consentiu que o James Bond se ausentasse da sala. Pelo menos fez o trabalho! pensou. Alguns instantes depois, o James Bond regressou à aula com uma caixa de sapatos aconchegada debaixo do braço. A turma parecia expectante. James Bond não se dirigiu para o seu lugar. Ao invés, atravessou a sala em direcção à secretária da professora. Magnólia ficou impávida, sem saber qual a actuação mais conveniente da sua parte.
- Pode ficar com ele? O meu pai não deixou que eu ficasse com ele! – disse o James Bond, entregando-lhe a caixa.
Dentro daquela, uns olhos de um verde líquido, redondos e aflitos aguardavam o veredicto. A turma permaneceu em silêncio. Magnólia inspirou profundamente para conter as lágrimas. Reconheceu a voz de Margarida.
- A setôra vai ficar com ele?
Magnólia acenou afirmativamente. Pela sala multiplicaram-se as palavras de regozijo.
- A setôra vai ficar com o gatinho! Fixe!
- Como é que se vai chamar, setôra?
Magnólia olhou para aqueles olhos de um verde líquido, redondos e aflitos, fez sinal para que James Bond regressasse ao seu lugar e respondeu:
- Vou pensar. Na próxima aula digo.
Na hora de atendimento, o senhor importante não apareceu.
Planificar aulas de Português exige a um professor cumprir objectivos de naturezas várias, entre eles levar os alunos a utilizar as técnicas basilares da composição de diversos tipos textuais com vista a um aperfeiçoamento da expressão escrita, desenvolver métodos e técnicas de trabalho individual e de grupo que contribuam para a construção da própria aprendizagem. Conseguir incutir nos alunos o prazer de ler, implica a mediação do professor. Incentivar a produção escrita exige motivação. A professora considerou arrojada a ideia de propor à turma a escrita de um conto. Para isso seria necessário que todos os alunos participassem de forma activa na sua produção. A primeira reacção dos alunos foi de pasmo. A professora assegurou-lhes que bastaria cada um deles fazer o texto progredir, nem que fosse com uma única frase. Além disso, poderiam ilustrá-lo com desenhos produzidos por eles próprios. A ideia começou a seduzi-los. A professora adiou a divulgação do tema que tinha em mente até se tornar imperativo fazê-lo.
- E é sobre quê, setôra?
- Sobre o nosso gatinho.
Fez-se silêncio por breves instantes. Em seguida, a palavra soou como um rastilho.
- Nosso?!
A professora sorriu.
- Gostam do tema? Mas, ficção é ficção. Têm de manter o anonimato do Keats.
- Kits é um nome fixe, setôra!
- Quem é que pode fazer as ilustrações?
Os olhares dirigiram-se para a aluna que sabia que magnólia era nome de flor.
- A Margarida!
Algumas aulas depois, mais do que as previstas, o conto produzido pela turma foi dado por concluído. Quando o texto saiu no suplemento literário do jornal da escola, foi um alvoroço. Até os colegas de Magnólia já sabiam das circunstâncias em que o Keats tinha sido adoptado.
- Porquê Keats? – perguntou-lhe uma das colegas.
- Porque “a beleza é a verdade, a verdade a beleza / – É tudo o que há para saber, e nada mais.”
A gramática chegou com um entardecer de meados de Outubro. Magnólia pediu particular atenção para os adjectivos numerais ordinais, qualificativos, modais, pátrios, identificou-lhes o género e o número , o grau, os casos particulares do comparativo e superlativo, mas os exemplos estavam lá fora, na curva do horizonte. Os seus olhos desprenderam-se do manual. Os alunos ouviam as suas palavras, mas os seus olhares convergiam para o sol que incendiava o céu numa combinação de sangue e ouro. Magnólia não protestou. O silêncio foi mais forte até que Antero se interpôs: “(…) os castelos do horizonte / Erguem-se à tarde, e crescem, de mil cores, / E ora espalham no céu vivos ardores, / ore fumam vulcões de estranho monte…”
Magnólia entregou em fotocópia o TPC: “Certamente já viajaste e reparaste que, por vezes, nessas alturas, os nossos sentidos despertam e muitas sensações nos invadem. Redige um texto em que, relembrando um episódio ocorrido durante uma viagem, tentes transmitir o que viste, ouviste e sentiste.” Não houve tumulto, quando os alunos ouviram as palavras mágicas:
- Podem arrumar as vossas coisas.
Durante os poucos minutos até ao final da aula, os alunos permaneceram calados, absorvidos nos seus pensamentos, olhando o pôr-do-sol. Magnólia recordou os tempos em que ia acampar com os primos e amigos da escola. Aos doze anos, as tardes eram infindas. A noite quando descia no seu silêncio de veludo, e as gaivotas sossegavam na falésia, a infância parecia não ter limites. Ainda hoje, à distância de uma dúzia de anos, Magnólia sorri ao lembrar aquela noite. Os acampamentos eram sempre momentos de exaltação. O aroma a pinheiro, que lentamente ia ardendo, reunia a felicidade das crianças numa antecipação de aventura. Nomes curiosos, os delas! Águia, Castor, Golfinho … Ar, Terra e Água seduzidos pelo fogo. A velocidade e a perspicácia da águia, a habilidade e a coragem do castor, a liberdade, a sagacidade, a exuberância dos reflexos macios e azuis do golfinho. Precisamente por aqueles motivos, Magnólia adoptara o nome de Golfinho. Ela até nem era rebelde, embora, por vezes, fosse ousada; solidária e obediente, sempre. Porém, naquela noite, nada fazia supor a sua inquietação ao deparar-se com o insólito da presença de uma rede de pesca a desprender-se de um pinheiro. Naquela noite de Junho, o grupo regressara de um percurso pedestre e dormia exausto da caminhada. Por sua vez, Magnólia, não conseguindo adormecer, saíra de mansinho e, ao ver a fogueira já débil, aconchegou-lhe mais caruma para lhe dar nova vida. Na segurança do fogo, ao sentir a carícia da brisa da noite, Magnólia era feliz. Feliz: adjectivo qualificativo no grau normal. Tão normal como a explicação do Daniel, naquele dia de pasmo para todos, excepto para ele: a rede estava sobre a árvore para apanhar peixe, porque tudo o que vem à rede é peixe.
Mas não foi pasmo, foi assombro o que Magnólia sentiu ao ler o TPC da aluna Jandira: “Na viagem, vi muita gente que comia, estava muito frio e estava a comer pouco, mas a situação era bonita peguei no meu lanche e comi não vi mais nada, estava com muita fome tive de correr para a apanhar, tive que pedir mais lanche mas ninguém me salvou, corri até chegar e andei muito e houve uma combinação de lanche não me chegou, estava, quase a chegar.
Comi muito e estava muito cansada, ouvi se estava muito cansada, vi. Estava muito doente estava bem encontrei os meus pais e tinha 10 anos mas ninguém me salvou pus o meu lanche fora do saco e tinha muita fome. A Ana chorou e tinha droga já a tinha usado a minha amiga morreu, tinha muita fome e caí no chão não foi engraçado tinha uma amiga comigo disse ai tinha um presente comigo e não me tinha calado não tinha fome e caiu cabelo transformei-me não tinha pouco mas me cuidei. Calei-me e chorei tinha a estora comigo a tentar chegar antes, estava muito contente e fiz obras no trabalho oposto e me sentia a rir e estava ou ficava diverti-me imenso e não conseguia falar sobre isso e era pequena e não tinha frio cuida-va de mim sobre a ajuda dos meus pais os meus pais morreram e disseram-me queredo.”
Ali não estava em causa apenas a organização do texto, a construção das frases, a ortografia, o vocabulário adequado e a pontuação… Na manhã seguinte, antes da primeira aula, Magnólia dirigiu-se ao gabinete de psicologia. Felizmente a colega estava no seu horário de atendimento!
Depois de corrigidos, os textos, que tinham por intenção o uso adequado do adjectivo, serviram de base para uma actividade interdisciplinar. Partindo da cor e dos seus contrastes quente-frio, simultâneo, de quantidade, qualidade ou complementares, a professora de Educação Visual levou os alunos a produzirem trabalhos em pontilhismo. Alguns deles, posteriormente expostos na entrada do pavilhão central, mereceram comentários favoráveis. O ponto pode expressar diferentes qualidades expressivas que derivam da sua dimensão, posição ou organização no plano bidimensional. De acordo com o agrupamento e a sua repetição, o ponto cria padrões e texturas e sugere dinamismo e movimento. Um dos trabalhos, observado à distância, permitia percepcionar os pontos como manchas de cores e linhas numa forte vibração de cores. O título não surpreendeu Magnólia: Pôr-do-Sol.
Numa escola, as pessoas aproximam-se por afinidades que ultrapassam a área disciplinar comum. Por vezes, numa conversa banal, surgem as palavras-chave que tolhem, ceifam e distanciam, ou seduzem, aproximam e enlaçam, construindo um património emocional que pode condicionar a actuação de cada um. A concordância ou o confronto, quer pela palavra, quer pelo silêncio, deve garantir a aceitação do outro na sua irredutível singularidade. Foram estas as palavras de Magnólia que suscitaram a atenção do colega cujo nome ela ainda desconhecia:
- Os gatos embriagam mais que o vinho.
O colega efectivo na escola há vários anos pousou a chávena de café sobre o pires, atravessou a sala e aproximou-se do grupo em que Magnólia se encontrava. As palavras dele colheram uma risada dos presentes:
- A colega diz isso, porque ainda não deve conhecer o vinho de Colares!
Magnólia abriu os olhos de espanto, e o seu sorriso confirmou a hipótese do colega, que acrescentou:
- Conhecer as vinhas de Colares é um privilégio que não deve ser adiado. Temos de combinar um dia destes!
No fim-de-semana em que Magnólia não foi a casa, foi a ocasião em que visitou os terrenos colarejos, ouvindo atentamente as explicações do colega que a desafiara a conhecer aquele património único. A vindima já tinha chegado ao fim e, enquanto os vinhos estavam a ganhar corpo e sabor nos tonéis, as vinhas exibiam combinações exuberantes de esmeralda e tons dourados. Bem diferentes das suas, nos socalcos do Douro. Aqui eram os muros de pedra solta, paredes construídas em pedra seca sem a utilização de qualquer outro material; os pontões, pedaços de cana com cerca de meio metro em que um dos lados é cortado em bisel e o outro em duplo bisel, sendo o primeiro lado espetado no chão, e o outro o que suporta as varas a cerca de meio metro do solo arenoso; as paliçadas de cana seca com cerca de meio metro de altura, como protecção contra os ventos marítimos. Prosseguiram em direcção a uma casa rústica arrogantemente isolada da estrada que serpenteava o lugarejo. O colega ia saudando aqueles com quem se cruzava. Todos o conheciam desde miúdo…
O colega arrastou a cancela e cedeu passagem a Magnólia.
- É aqui que o tempo é sempre presente. – disse-lhe.
O único tempo imutável é o tempo da infância. O tempo apura e constrói, corrompe e desgasta. O desenho da flor, no seu dossiê, era o tributo a um tempo ímpar, hoje aniquilado. No último encontro, breve, Magnólia olhara para o amigo como quem confere uma recordação. Nele, nem sombra do afecto antigo e natural. Então, Magnólia compreendeu que o passado é uma soma dos presentes que merecem memória…
Nas palavras do colega, aquela casa ultimamente só tinha serventia nos raros fins-de-semana em que vinha desempoeirar o juízo. Considerando ser por uma boa causa, o colega quis saber a data de nascimento de Magnólia. Sem mostrar qualquer indício de constrangimento, Magnólia elucidou-o. O colega fez-lhe sinal que o acompanhasse e dirigiram-se à parte baixa da casa. Da sua colecção privada, escolheu uma das garrafas e de um armário retirou um dos rótulos. Fixou-o à garrafa e ofereceu-lha.
- Aqui está. Desfruta-o em boa companhia. Se não tiveres com quem beber…
Como se receasse que o silêncio traísse os seus próprios pensamentos, Magnólia, observando o rótulo, elogiou o valor artístico da harmonia dos elementos gráficos, da estética do conjunto. O colega concordou e prosseguiu:
- … podes guardá-la, mas, para uma boa conservação do rótulo, deves pôr um pouco de laca de cabelo.
Nada há que mereça uma atenção que doa!, pensou Magnólia. O estrépito da rolha a soltar-se trouxe Magnólia ao presente. Aceitou o convite para jantar num lugarzinho simples, ali mesmo na zona rural, que pertencia a um colega da escola. Magnólia perguntou-lhe o que leccionava, se o conhecia. A maldade dele tinha surtido efeito. Magnólia só compreendeu, quando o colega acrescentou:
- Da escola… primária!
O Colares ficou a aguardá-los sobre a mesa de madeira rústica da cozinha. Só poderia ser devidamente apreciado se permanecesse aberto algum tempo. Tinha-se gerado entre eles uma compreensão cúmplice. Sem que o soubessem, tinham inaugurado a palavra amizade, desde aquela afirmação peremptória de Magnólia.
 
Magnólia

Farinha pouca meu pirão na boca.

 
Teste para se saber se o cabra realmente éra um poeta.
Logo na entrada se recebia pena e papel.
E se adentrando por um extenso corredor.
Onde bem no fundo.
Um sujeito sentado numa mesa gritava.
Cuidado poeta, por onde pisas.
Se não. Pode cair num alçapão.
Ressabiado por nunca ter metido a mão em cumbuca.
Em alto brado respondi.
Vocês estão enganados.
Não sou poeta e sim o escriba.
O poeta vem logo atrás.
Farinha pouca.
Meu pirão na boca.
Apegaua.
 
Farinha pouca meu pirão na boca.