Contos de natal

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Magia de Natal

 
Com a chegada do mês de Dezembro, chegou também a preocupação habitual do Pai Natal. O que oferecer às crianças? Nos últimos anos o Pai Natal tinha assistido, desanimado, que muita gente se tinha esquecido do verdadeiro espírito de Natal. Cada vez mais as pessoas se preocupavam com a quantidade de prendas que recebiam em vez de se preocuparem com os outros. Partilhar, estar junto dos amigos e da família, ajudar quem mais precisasse… tudo tinha passado, agora o importante eram as prendas, prendas caras de preferência para que, no dia a seguir, pudessem mostrar aos outros.
Sem saber muito bem o que fazer, nem como chegar a quem mais precisava, falou com Rudolph, Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blitzen, as suas renas. Amigas de longa data, afinal estavam com ele desde o início, resolveram ir dar um passeio. Enquanto passeavam iam falando sobre as preocupações para aquele ano, que todos partilhavam.
Depois de caminharem por um bocado começam a ver muitas borboletas. Tinham chegado ao reino das Borboletas Mágicas.
As borboletas, por serem mágicas, perceberam logo as preocupações do pai Natal e as suas amigas renas e então chamaram os dois príncipes do reino, que chegaram numa carruagem puxada por dois cavalos – o Amor e a Ternura.
Quando chegaram ao pé do Pai Natal convidaram-no a dar um passeio pelo campo de alfazema enquanto as renas e os cavalos conversavam um pouco.
O Pai Natal falou então aos dois príncipes sobre as suas preocupações. Explicou-lhes que, cada vez mais, as pessoas queriam apenas saber de si, só olhavam para o seu umbigo, sem qualquer preocupação pelos outros. Passavam o ano a virar a cara quando viam mendigos a pedir, quando se apercebiam de crianças a passarem fome. No Natal, fingiam-se interessados, faziam apelos, havia recolha de brinquedos e de alimentos, visitas aos mais necessitados com promessas de ajudas… Com a chegada do ano novo todas essas intenções eram enterradas com o ano velho e tudo voltava ao mesmo.
Ele, Pai Natal, queria ajudar as crianças mas que não conseguia, porque não sabia onde estavam todas elas.
Os príncipes, querendo ajudar, ofereceram ao Pai Natal uma bússola especial, feita de algodão doce azul.
Explicaram-lhe que aquela bússola, além de indicar o norte também mostrava onde o Pai Natal podia encontrar as crianças que, em vez de prendas, apenas queriam receber um pouco de amor e ternura.
Satisfeito por receber um presente tão útil, o Pai Natal agradeceu, porque assim teria oportunidade de ajudar ainda mais crianças.
Quando chegou ao pé das suas amigas renas o Pai Natal explicou-lhes que se tinham de apressar a chegar ao Pólo Norte porque a bússola estava com demasiadas luzes acesas e que tinham de ir buscar todos os duendes que estavam na fábrica de brinquedos para os ir deixar com cada uma daquelas crianças.
Tiveram muito trabalho, mas todo ele foi compensado por múltiplos sorrisos que nasceram na cara de cada criança. Uma épica sensação da época que o Pai Natal desejou prolongar por todo ano. Talvez um dia ofereçam essa prenda ao nosso querido Pai Natal…
 
Magia de Natal

O menino pobrezinho

 
Naquela aldeia velhinha,
Numa casa degredada,
Nasceu uma criancinha,
Da fortuna, deserdada.

Fazia pena ver o menino
Tão pobre como ninguém,
Desde o dia em que o destino
Lhe deu a vida sem vintém.

Em Dezembro, por sinal,
Uma carta quis escrever,
Para o velho Pai Natal
Uma prenda lhe trazer.

Feliz nos seus devaneios,
Até dava gosto vê-lo,
Saltitando prós correios
Sem ter dinheiro pró selo.

Mas de lá voltou chorando
Sem a carta poder mandar
E no caminho foi pensando
Pedir a Deus pró ajudar.

Entrando em casa rezou
Uma oração de esperança
E uma luz divina entrou
No seu peito de criança.

O milagre veio a surgir
Nessa noite celestial;
Bateram à porta, foi abrir,
Estava lá o Pai Natal!...

RAMA LYON
 
O menino pobrezinho

ACONTECEU NO NATAL...

 
NATAL PASSADO SEM(PRE) PRESENTE (republicação)

Vinha aí mais um Natal... As colinas de vinhedos despiam as folhas que o Outono tocara de brilhos de ouro velho e, a ritmo inverso, as ruas da pequena cidade vestiam-se de cor e luz. Melodias de sempre evocavam Natais Passados e pairava no ar, misturado com aromas doces, a essência tão própria da quadra, aquele não-sei-quê de espiritual que nos enche de boa-vontade, de amor e de paz...

A jovem mulher entrou numa "loja dos trezentos" apinhada de gente que se forçava a dividir o magro orçamento dos presentes por todos os sorrisos das suas vidas, ou aqueles que, simplesmente, lá buscavam aquelas prendinhas impessoais e baratas para distribuir por amigos, colegas e conhecidos, com um "bom natal" desprendido e a soar a música de cor. Ela estava no grupo dos primeiros. Teria uns trinta anos, talvez menos, franzina e vestida de simplicidade. Deambulou pela loja, comparou preços, recontou discretamente o dinheiro que trazia apertado no velho porta-moedas, e, finalmente, decidiu: uma bola de futebol para o mais velhinho, que já andava na escola; um carrinho de corrida para o do meio, que, sabia, iria passar horas a empurrá-lo pela casa, sonhando pilotá-lo à velocidade do vento; e uma boneca e respectiva alcofa de plástico, vestidas de chita e rendas de poliéster, para a mais pequenina, a sua própria bonequinha, preciosa e delicada, que completava o "seu ranchinho" de filhos, que ela idolatrava. Saíu feliz, com um brilho no olhar que ofuscou as luzes da rua anoitecida...

Na manhã de Natal o brilho renasceu nos olhos dessa mãe, ao reflectir a alegria pura das três crianças. O Sol riu lá fora e o pai prometeu que, à tarde, iriam todos passear e ver a neve à serra.
Era um dia de Natal perfeito, e até os novos brinquedos os pequenos foram autorizados a levar para a aventura na neve.

Mas ao entrar na velha carrinha do pai, a menina chorou e reclamou a sua bébé: a alcofa estava vazia, a boneca acabada de ganhar, ainda só por tão poucas horas acarinhada pela sua "mamã", desaparecera. A mãe procurou debaixo dos bancos, debaixo do carro, no passeio, nas escadas, por toda a casa. Perguntou a quem passava, a quem passou, a quem parou, ninguém vira a boneca. A sua filha exigia a "bebé", com lágrimas pequeninas a cristalizar-lhe olhar, mas o pai reclamava a partida, o sol fugia, e ela nada mais pôde fazer senão sentá-la no colo, mimá-la e animá-la com a promessa dos bonecos de neve que iriam construir.

...Mas a alma daquela mulher mergulhou no poço negro de uma tristeza inexplicável. A carrinha de caixa aberta arfava, ao subir a serra para a desejada neve, e ela já não conseguia imaginar alegria. O Sol brincava no pára-brisas com reflexos traquinas, mas ela fechou-lhe os olhos e só viu sombras. Apoderou-se dela uma tão grande melancolia, que ela própria não conseguia traduzir em pensamentos...
Bolas, era só uma boneca, talvez no mês seguinte conseguisse poupar uns trocos e comprar outra... Olhou a filhita e nem a alegria pueril que lhe animava de novo a face rosadinha a fez emergir do torpor. O seu olhar caíu na alcofa vazia, instintivamente apertada nas mãozinhas delicadas da criança.

A tarde esgotou-se depressa em alegres brincadeiras, batalhas de neve e construção dum enorme boneco, com nariz de pinha e boca de rebuçados. Mas a tristeza persistiu no coração daquela mãe e agravou-se quando o filho do meio insistiu em querer levar o boneco para casa, e a mais pequena reclamou uma boneca de neve para por na caminha desocupada. O regresso acabou difícl para todos, e ela, sempre a trave mestra da família, parecia ser a mais vulnerável e desalentada, ao ponto de o marido se impacientar com o seu estado de espírito. Mas como explicar-lhe o inexplicável? Aquela melancolia que a perda da boneca a fez sentir, aquele subtil pânico que lhe tomou a alma que ela não conseguia decifrar?... --"Entâo??... Quando puderes compras-lhe outra! Que disparate!"
Ela mergulhou um murmúrio nos cabelos perfumados da filha, que novamente se aninhara no seu colo, para o regresso:
--"É, desde que não perca eu a minha bonequinha..."

Mas perdeu. Dias mais tarde um estúpido acidente doméstico roubou-lhe brutalmente essa filha estremecida. Numa noite fria-de-morte, velada por um manto de nevoeiro cúmplice, que lhe aprisionou a Dor no peito e lá lha perdeu para sempre. E a caminha quente da sua filhinha ficou eternamente vazia e ela já não mais pôde entrar numa loja dos trezentos e comprar outra boneca...

Teresa

(Inspirado numa história real, numa angústia real, que me faz pensar sempre até que ponto não nos é dado saber o ponto de retorno... Aquele peso no peito, sei, foi o cravar das garras da Morte, que naquele momento, ali, me escolheu para vítima maior... Porque a minha boneca não é vítima, não pode sê-lo... Como, se é um Anjo de luz, se é o brilho mais áureo, a flor mais fresca, no altar do meu Deus??...)
 
ACONTECEU NO NATAL...

O suave milagre - Conto de Natal (Eça de Queiroz)

 
O suave milagre - Conto de Natal (Eça de Queiroz)
 
Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do Lago de Tiberíade: - mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar.

Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do reino de Deus, curando todos os males humanos.

E enquanto descansava sentado à beira da Fonte dos Vergéis, contou ainda que esse rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo dum decurião romano só com estender sobre ele a sombra das suas mãos; e que noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerassênios, onde começava a colheita do bálsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem considerável e douto que comentava os Livros na Sinagoga.

E como em redor, assombrados, seareios, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gog e de Magog - o homem, sem mesmo beber daquela água tão fria de que bebera Josué, apanhou o cajado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor.

Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja até Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar; as crianças, colhendo ramos de anémonas, espreitavam pelos caminhos se além, da esquina do muro, ou de sob o cicómoro, não surgiria uma claridade; e nos bancos de pedra, às portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, já não desenrolavam, com tão sapiente certeza, os ditames antigos.

Ora então vivia em Enganim um velho, por nome Obed, duma familia pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas - e com o coração tão cheio de orgulho como o seu celeiro de trigo.

Mas um vento árido e abrasador, esse vento de desolação que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam no olmo, e se estiravam na latada airosa, só deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cepas mirradas, e a parra roida de crespa ferrugem. E Obed, agachado à soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.

Apenas ouvira falar desse novo rabi da Galileia, que alimentava as multidões, amedrontava os demonios, emendava todas as desventuras - Obed, homem lido, que viajara na Fenicia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros tão acostumados na Palestina, como Apolonio, ou Rabi Bem-Dossa, ou Simão, o Subtil. Êsses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e faceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Egipto: e agarram entre os dedos as sombras das arvores, que conduzem, como toldos beneficos, para cima das eiras, à hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas decerto, se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdesceria os seus vinhedos. Então Obed ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no país de Isaachar.

Os servos apertaram os cinturões de oiro - e largaram pela estrada das Caravanas, que, costeando o lago, se estende até Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma romã muito madura, as neves finas do monte Hermon. Depois, na frescura duma manhã macia, o lago de Tiberiade resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silencio, mais azul que o céu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de pórfiro, e de alvos terraços por entre os pomares, sob o vôo das rolas.

Um pescador que desamarrava a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O Rabi de Nazareth? Oh, desde o mês de Ijar, o Rabi descera, com os seus discipulos, para os lados para onde o Jordão leva as águas.

Os servos, correndo, seguiam pelas margens do rio, até adiante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imóvel e verde, à sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Essénios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da água, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaram-no, porque o povo ama aqueles homens de coração tão limpo e claro e cândido como as suas vestes cada manhã lavadas em tanques purificados.

E sabia ele da passagem do novo Rabi da Galileia, que como os Essénios ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O essénio murmurou que o Rabi atravessara o Oásis de Engaddi, depois se adiantara para além...

- Mas onde, "além"?

- Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o essénio mostrou as terras de além Jordão, a planície de Moab. Os servos vadearam o rio - e debalde procuraram Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, até às fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Makaur... No Povo de Yakob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Egito mirra, especiarias e bálsamos de Gilead; e os cameleiros, tirando a água com os baldes de coiro, contaram aos servos de Obed que em Gadara, pela lua nova, um Rabi maravilhoso, maior que David ou Isaías, arrancara sete demonios do peito duma tecedeira, e que, à sua voz, um homem degolado pelo salteador Barrabás se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto.

Os servos, esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos Peregrinos até Ganara, de altas torres, e ainda mais longe até às nascentes da Amalha... Mas Jesus, nessa madrugada seguido por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e à vela navegara para Magdala. E os servos de Obed, descoroçoados, de novo passaram o Jordão na ponte da Filhas de Jacob.

Um dia, já com as sandálias rotas dos longos caminhos, pisando já as terras da Judeia Romana, cruzaram um fariseu sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota reverência detiveram o homem da lei. Encontrara ele por acaso esse profeta novo da Galileia que, como um Deus passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada e a sua cólera retumbou como um tambor orgulhoso:

- Oh escravos pagãos! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalém? Só Jeová tem força no seu templo. De Galileia surgem os néscios e os impostores...

E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísticos sagrados - o furioso doutor saltou da mula, e, com as pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: Racca! Racca! e todos os análtemas rituais. Os servos fugiram para Enganim.

E grande foi a desconsolação de Obed porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam -, e todavia radiantemente, como uma alvorada por detrás de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galiléia.

Por esse tempo, um centurião romano, Publius Septimus, comandava o forte que domina o vale de Cesarea, até à cidade e ao mar. Publius, homem áspero, veterano da campanha de Tibério contra Partos, enriquecera durante a revolta da Samaria com presas e saques, possuía minas na Ática, e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flacous, legado imperial da Síria.

Mas uma dor roía a sua prosperidade muito poderosa, como um verme rói um fruto muito suculento. Sua filha única, para ele mais amada que vida e bens, definhava com um mal subtil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculapios e mágicos que ele mandara consultar a Sidon e a Tiro. Branca e triste como a lua num cemitério, sem um queixume, sorrindo pàlidamente a seu pai, definhava, sentada na alta esplanada do forte, sob um velário, alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de Itália, numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um legionário entre as ameias apontava vagarosamente ao alto a flexa, e varava uma grande águia, voando de asa serena, no ceu rutilante. A filha de Septimus seguia um momento a ave, torneando até bater morta sobre as rochas; - depois, com um suspiro, mais triste e mais pálido, recomeçava a olhar para o mar.

Então, Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Chorazin, deste Rabi admirável tão potente sobre os espíritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou três decurias de soldados para que o procurassem pela Galiléia, e por todas as cidades da Decapola, até à costa e até Ascalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira - e as suas sandálias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana, que desde Cesarea até Lago corta tôda a Tetrachia de Herodes.

As suas armas, de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha das medas; e as mulheres, assustadas, para amansar logo acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que eles bebiam dum trago, sentados à sombra dos sicómoros. Assim correram a Baixa Galiléia - e, do Rabi, só encontravam o sulco luminoso nos corações.

Enfastiados com as inuteis marchas, desconfiando que os judeus sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos não aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua cólera, através da piedosa terra submissa. A entrada das pontes detinham os peregrinos, gritando o nome do Rabi, rasgando os véus às virgens: e, à hora em que os cantaros se enchem nas cisternas invadiam as ruas estreitas dos burgos, penetravam nas sinagogas e batiam, sacrilegamente com os punhos das espadas nas Thebahs, os Santos Armadios de cedro que continham os Livros Sagrados.

Nas cercanias de Hebron arrastaram os solitarios pelas barbas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o Rabi; - e dois mercadores fenícios que vinham de Jopé com uma carga de malobatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dramas a cada centurião.

Já as gentes dos campos, mesmo os bravios pastores de Idumea, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias apenas luziam nalguma volta do caminho as armas do banco violento. E da beira dos eirados, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados, e arrojavam sobre eles as Más-Sortes, invocando a vingança de Elias. Assim tumultuosamente erraram até Ascalon; não encontraram Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandálias nas areias ardentes.

Numa madrugada, perto de Cesarea, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro pórtico dum templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de folhas de louro, vestido com uma túnica cor de açafrão, segurando uma curta lira de três cordas, esperava gravemente, sobre os degraus de mármore, a aparição do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia, e tão destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a água em vinho? Serenamente, alargando os braços, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale:

- Oh romanos, pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas consumando milagres? Como pode um bárbaro alterar a ordem instituída por Zeus?... Mágicos e feiticeiros são vendilhões, que murmuram palavras ocas, para arrebatar a espórtula dos simples... Sem a permissão dos Imortais nem um galho seco pode tombar da árvore, nem seca folha pode ser sacudida na árvore. Não há profetas, não há milagres... Só Apolo Delfico conhece o segredo das coisas!

Então, devagar, com a cabeça derrubada, como uma tarde de derrota, os soldados recolheram à fortaleza de Cesarea. E grande foi o desespero de Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro - e todavia a fama de Jesus, curador dos lânguidos males, crescia, sempre consoladora e fresca, como a margem da tarde que sopra do Hermon e, através dos hortos, reanima e levanta os açucenas pendidas.

Ora entre Enganim e Cesarea, num casebre desgarrado, sumido na prega dum cerro vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos, espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo.

Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na terra escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento.

Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse Rabi que aparecera na Galileia, que de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava com olhos famintos.

E esse doce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah, esse doce Rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia como o Sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessa a Enganim; Septimus, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a Cesarea. Errando, esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionarios de Septimus. E todos voltavam como derrotados, com as sandálias rotas, sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar duma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse Rabi, que amava as criancinhas ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:

- Oh filho! e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura do Rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areias e colinas, desde Chorazin até ao país de Moab. Septimus é forte, e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hebron até ao mar. Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora conosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o Rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

A criança, com duas lágrimas na face magrinha, murmurou:

- Oh, mãe, Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um tão mal pesado, e que tanto queria sarar!

- Oh, meu filho, como te posso deixar? Longe são as estradas da Galileia, e
curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh filho! talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O céu o trouxe, o céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:

- Mãe, eu queria ver Jesus...

E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo Jesus disse á criança:

- Aqui estou.

Eça de Queiroz, escritor português.
 
O suave milagre - Conto de Natal (Eça de Queiroz)

A mensagem na garrafa (AjAraujo)

 
A mensagem na garrafa (AjAraujo)
 
"... Mais importante que escutar as palavras é adivinhar as angústias, sondar o mistério, escutar o silêncio. Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo." (Dom Hélder Câmara)

Cenário
Era uma bela manhã de sábado, caminhava bem cedo na estreita faixa de praia, as ondas suaves molhavam meus pés, a maré estava baixa. Ainda havia restos das festas de réveillon, da virada do ano, como pequenos barcos, palmas de Santa Rita e flores, das oferendas dos cultos afro-brasileiros.
Em alguns trechos da areia havia gente dormindo, após a ressaca das comemorações, além de muitas latas e garrafas de cerveja, uísque e espumante.
Os garis trabalhavam já bem cedo para recolherem as sobras da festa, para trás ficavam as lembranças do ano que passara, e a maré não demorava a batizar a praia do novo ano.

O sol já despontava no horizonte, os primeiros raios douravam o manto d´água, tendo ao fundo belíssima paisagem na Praia das Dunas, em Cabo Frio. Enquanto caminhava absorto em meus pensamentos, e porque não admitir “revendo as minhas promessas” para o novo ano, eis que, subitamente, avisto uma garrafa boiando sob as ondas.
Em princípio blasfemei interiormente, como podem jogar objetos cortantes na areia? O meu primeiro impulso fora o de recolher a garrafa e colocá-la em uma das lixeiras próximas. Havia sempre o risco de o vidro quebrar-se com o impacto das ondas na maré alta, ao meio dia.
Mas, ao aproximar-me tive grata surpresa, parecia de um vidro bem antigo.
Então, dei asas à imaginação, quem sabe provinha de alguma embarcação, talvez algum marujo afogando a solidão marítima com goles de rum, havia oferecido a Netuno um pouco da bebida.
Quando olhei mais de perto pude observar que havia algo no interior da garrafa. Ah, de imediato, recordei de estórias contadas em minha juventude. Imagina que brincadeira é esta?
Mas, de queixo caído, então vi perplexo, um velho papel amarelado estava enrolado dentro da garrafa. Então, cuidadosamente retirei a rolha de cortiça que estava bem presa e puxei o que na verdade era um pergaminho.
Ao abrir, havia uma mensagem em inglês arcaico, talvez vitoriano, com letras bem escritas, possivelmente a pena. Então, recolhi o raro objeto, me certifiquei que não era observado e resolvi interromper o passeio matinal e ir direto para o apartamento de praia, para buscar ajuda nos dicionários para traduzir aquele texto, tamanha era a minha curiosidade.
Então, após várias tentativas buscando dicionários atuais e antigos na internet, o que consegui chegar mais perto foi esta tradução livre do texto:

Os homens são seres feitos para viajar!
Então, o que estás esperando?
Toma teu barco e desbraves os mares,
- Ainda que te assustes com as tempestades -

Não tenhas medo!
Sigas as correntes e os ventos do viver.
Pois, de todas as viagens que farás,
Aquela que mais próximo de ti chegará

Será aquela cujas barreiras internas
Tu transporás, enfim conseguirás
Assim no silêncio fecundo d'alma,
O teu despertar encontrarás...

Epílogo
Fiquei longo tempo lendo, relendo e meditando sobre esta mensagem da garrafa, afinal o que ela queria me transmitir?
Como a célebre frase de Teilhard de Chardin: “Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual, somos seres espirituais passando por uma experiência humana”, a vida é repleta de sinais, que transformam esta experiência terrena em um caminho para a evolução espiritual.
Após intenso mergulho nos mares plácidos d´alma, acordo suado, olho no relógio, já são 16 horas, como dormira tanto tempo?
Olhei para a mesa e vi o rascunho da tradução da mensagem, mas quanto à garrafa onde se encontrava? Foi então que me dei conta, que naquele período havia devolvido a garrafa ao mar, afinal o criador da mensagem poderia desejar ela fosse encontrada por outras pessoas em outras partes do mundo.
Havia muitos oceanos para percorrer e, muitas praias a visitar, a garrafa com a mensagem foi uma benção no primeiro dia do ano.

AjAraujo, o poeta humanista.
 
A mensagem na garrafa (AjAraujo)

PAI NATAL

 
A terra estava branca de um branco imaculado, a neve cobria toda a planície..

Dois belos veados procuravam um pouco de erva que a neve escondia.
Um trenó carregado de prendas esperando que o Pai Natal acabasse de se repousar e continuar a sua viagem do mês de Dezembro, o Natal estava próximo e o tempo já era pouco para tão grande tarefa.
Uma criança que morava não longe, veio até junto do Pai Natal que dormitava.
-Boa tarde Pai Natal, desculpa já vi que te incomodei, dormias não era assim?, desculpa, não fiz atenção.
-Não tem importância, meu filho, não tem importância, até foi bom pois que não posso ficar muito tempo sem continuar a minha viagem.
-Vais para longe?
-Sim, muito longe, vou dar a volta ao Mundo, se soubesses a quantidade de brinquedos que eu tenho para distribuir...!
-E tu dás brinquedos a todos os meninos?
-Sim, a todos. Sabes, os pais não querem que eu dê àqueles meninos que durante o ano não foram muito ajuizados, mas entre nós, eu não faço atenção ao que eles dizem e dou a todos porque todos são meninos.
-Eu fiz a pergunta porque os meus pais disseram-me que eu não tinha direito a um brinquedo porque não trabalhei lá muito na escola.
-Como te chamas?, olha, não digas, eu conheço todos, vou ver o que posso fazer por ti, dá cá um beijinho ao vélhinho Pai Natal que tem que se ir embora.

Enquanto o Pai Natal aparelhava o trenó, o menino deixava correr algumas lágrimas pelo rosto.
Uma vez tudo em ordem, pegou nas rédeas dos veados e com um aceno de mão disse adeus ao menino que tinha receio de não ter um brinquedo pelo Natal

A manhã acordou linda. Muito Sol o que dava ainda mais beleza à planície, a neve brilhava

O menino acordou também.
-Sabes mãezinha, esta noite sonhei com o Pai Natal!
-Eu sei meu filho, vai ver a chaminé, ele deixou qualquer coisa para ti.

A. da fonseca
 
PAI NATAL

A menina e a roseira

 
Conto de Natal

A menina e a roseira

- Betimartins-

Para lá das montanhas cobertas de neve, onde a águia repousava, o falcão voava, a coruja vigiava e o rouxinol cantava, existia uma grande clareira, muito solitária, apenas um casebre já muito velhinho, com uma chaminé sempre ativa. Dentro do casebre estava uma mulher magra, sofrida, cheia de magoa e de muita dor pelo abandono do seu marido.

De repente uma porta se abriu e dela saiu uma doce menina, chamada de Violeta, correndo para abraçar a sua querida mãezinha, deu aquele abraço muito apertado, limpando as lágrimas azedas de sua mãe.

Parecia um lindo anjo, sempre sorrindo, sempre alegre, correndo feliz, brincando entre os estranhos canteiros com restos de outrora um jardim. Sempre falava ao seu amigo que ninguém conhecia era invisível coisa de imaginação de uma criança sempre sozinha.

Violeta era repleta de amor pelos seus amiginhos da floresta, sempre os curava, abrigava e dava a pouca comida que por lá existia. Um dia o Inverno se foi, cheio de tristeza, chorando lágrimas de muita saudade pela sua querida Violeta, logo a Primavera chegou e logo abraçou a sua amiga.

Sorrindo ela lhe falou:

- Violeta, eu trago-te uma roseira para que tu a trates, a faças crescer e cuides bem dela.

A menina sorriu e logo partiu correndo feliz, saltando e cantando, até ao destino, avistou a sua casa e logo ela lhe falou:

- Roseirinha esta será a tua nova morada, ficaras a viver aqui comigo, queres tu escolher o teu canteiro?

A roseirinha feliz logo lhe diz:

- Sim amiguinha eu quero aquele canteiro na porta da entrada, só para ficar bem junto de ti.

Logo escavou carinhosamente a terra, sempre a respeitando e adubando, com as suas mãos de fada ela plantou a bela roseira. Os dias passavam, a roseira crescia, Violeta dançava sua mãe ainda chorava escondida pela casa e nas recordações de outra vida, outrora feliz.

Um dia a linda roseira chamou a sua amiga e quis saber a causa de tanta tristeza. Violeta logo contou que o seu pai as abandonou por uma vida melhor bem longe dali, lá muito longe, por detrás daquelas altas montanhas.

Então a roseirinha fez um pedido muito estranho a sua amiga Violeta e lhe diz:

- Violeta, tu confias em mim?

Violeta já com lágrimas caindo acena que sim.

- Eu preciso que me tragas uma lágrima de tua mãe sempre que ela chorar, Agora enxuga as tuas lágrimas nas minhas folhas e pede um desejo, como se fosse um pedido ao Menino Jesus, pois só um pedido eu posso vir a realizar.

Enxugou suas lágrimas nas folhas da roseirinha, logo ela se picou num grosso espinho e ficou a sangrar.

Nesse ato de amor uma gota de sangue caiu nas folhas da roseira e ela desejou que o seu pai voltasse para junto da família, só para ver a sua mãe voltar a sorrir.

A Roseirinha apenas lhe falou:

- Violeta, meu lindo anjo amigo, não existe nada que não exija sacrifício e muito amor. A partir de hoje colocarás uma rosa na cama do quarto de tua mãe e não esqueças as lágrimas que eu te pedi.

Violeta entrou em casa e viu a sua mãe a chorar e logo extraiu uma linda lágrima, correu e deitou em cima da folha da sua linda roseira. No dia seguinte, sua mãe acorda a menina, espantada, incrédula e lhe diz;

- Meu anjo vem comigo ver um milagre, depressa.

Calçou a menina e as duas foram até a saída de sua casa, a mãe chorando de alegria acena para a sua roseira e mostra-lhe como ela estava cheia de lindas rosas vermelhas e muito perfumadas.

Violeta segreda ao ouvido da mãe:

- Mãezinha foram as tuas lágrimas e todas as vezes que tu chorares, por favor, traz aqui uma lágrima tua, prometes?

A mãe prometeu sempre que chorava ela colhia uma lágrima e a levava a roseirinha. E a linda Violeta colhia uma rosa vermelha e levava todos os dias a cama de sua mãe.

Passaram dias, passaram semanas, passaram meses e a roseira nunca secava, todos os dias ela florescia ainda mais bela.

Um dia a Violeta curiosa perguntou-lhe nas suas longas conversas:

- Roseirinha porque é que tu nunca deixas de ter rosas sempre frescas e novas, o Inverno esta chegando e nunca tive rosas no inverno.

- A Roseira, falou triste:

Está chegando a hora de eu partir, mas quanto as rosas frescas é o coração de tua mãe que está ficando curado, Ela já quase que não chora, já canta pela casa e já tem esperança dentro de si, por isso está a ficar curada.

Violeta estava feliz pela sua mãe, mas muito triste pela sua amiga. Rolou uma lágrima sobre a Roseira e logo ela lhe falou:

- Ai, minha linda amiguinha, sabe que eu vou partir mais cedo, por isso não chores quando eu me for, pois por amor tu te choras-te e picaste o teu lindo rosto, a gota de sangue, me deu uma nova vida, o teu amor me alimentou e logo chegará o teu pedido feito com o coração.

Caíram tempestades, depois veio à neve chegou, mas a roseira sempre florescia. Assim o Inverno chegou feliz ele abraçou a sua linda amiga.

O Natal chegou e um estranho bateu na porta, assustada a mãe correu e logo perguntou:

- Quem está ai?

Um homem respondeu:

- Sou eu, abre a porta que morro de tantas saudades de vós.

As lagrimas corriam, mas agora eram lágrimas de felicidade, a menina correu para ver a sua roseira e logo a viu que ela estava morrendo.

Prometeu não chorar, triste ela abraçou a sua roseira,

A roseira despede e logo ela partiu.

Violeta voltou para beira do pai.

Feliz ele a pega no colo dizendo:

- Violeta como tu estás grande, mas vejo que estás triste por eu voltar para ti.

Violeta abraçou o pai e apenas lhe diz:

- Não pai eu estou muito feliz, entendi que para ter umas coisas das quais amamos deveremos desprender de outras, eu te escolhi a ti.

A mãe entendeu e feliz abraçou o seu marido e a sua menina. Agora é Natal, pensou ela com a família unida.

Quando foram dormir as camas estavam cheias de lindas rosas vermelhas frescas e acabadas de colher eram as rosas do amor.

O milagre do amor sempre acontece no Natal.

27 de Novembro de 2012

www.betimartins.prosaeverso.net
 
 A menina e a roseira

O Catador dos Sonhos

 
O Catador dos Sonhos



Por Beti Martins

Era um velhinho simpático, vestes rotas, limpas e uns sapatos gastos na sola do pé, seu rosto era agradável inspirava confiança a quem o olhava, seus olhos azuis eram brilhantes da cor do céu e seu sorriso farto e iluminado, dono de uma espessa barba branca, comprida e seus cabelos fartos e desalinhados, dava a fisionomia do Pai Natal apenas a barriga era magra e seu corpo pequeno.

Seu destino era caminhar por esse mundão fora, todos os seus pertences são apenas uma mula, o cachorro sarnento, chamado Pintas, pois era cheio de bolinhas brancas no seu corpo preto e a sua carroça, nada tinha mais nesta vida.

- Oh! Pintas nós vamos parar aqui para descansar, amigão a Julieta precisa de descansar também e já estamos com fome ou não?

Diz o Catador de sonhos, era assim que ele se apresentava sempre as pessoas acho que nem o Pintas sabia seu nome.

O cachorro Pintas, o cão sarnento, contente lá, abana a sua cauda, comida já era hora sim. Julieta a mula já era velha e estava cansada, mas era muito amada pelo seu dono que nunca a esforçava mais do que podia.

O catador de sonhos apanhou lenha, foi buscar água, preparou seu jantar e claro a sua cama e dos seus amigos, arrumou a sua carroça e foi dormir depois de sua refeição agradecida a Deus.

Ainda não amanheceu e já estavam a caminho da cidade para lá das montanhas, logo ele chega a um pequeno vilarejo, simpático e cheio de crianças brincando no pátio da igreja e no pequeno jardim.

As crianças correram para O Catador de Sonhos, exclamavam:

- Oh! Senhor será que podemos brincar com o cão? Que trazes ai na tua carroça velha são trastes velhos e para o lixo?

Algumas crianças começaram a rir sem parar, o Catador de sonhos, sorriu e amavelmente falou com a sua voz doce.

- Não meus meninos eu trago-vos os sonhos, estão aqui bem escondidos.

Um menino sardento e com cara de rufia, o que devia ser o mais espertinho do grupo, exclama:

- Oh, velho cá para mim és dos que engana trouxas, tu pareces o pai natal, mas eu já não acredito nele, ouviste!

O Catador sorriu e os chamou:

- Querem vir me ajudar a descarregar a carroça?

-Queremos sim.

Gritam as crianças ao mesmo tempo. Aquela curiosidade mórbida de ver o que ele tinha na carroça era demais. Correram todos para junto do Catador, estranho espreitaram a carroça e parece nada ter de especial

Da carroça apenas tiraram sete sacos velhos e quase vazios, o rufia exclama, fazendo-se de espertinho:

- Oh, velhote parece que tu nem sonhos tendes aqui, pois os sacos nada pesam, estou errado?

O Catador pediu muita calma, pediu que colocassem os sacos a sua frente, suplicou que todos se sentassem a sua volta e ao mandou contar os sacos. Eles contaram um deles exclama:
- E agora que fazemos com eles?

O Catador explicou:

- Calma, por favor, aqui cada saco representa os sonhos de um continente, vou lhes explicar os continentes são sete, America do Norte, America do Sul, Africa, Asia, Europa, Oceania e Antártica

Os meninos ficaram calados e mudos. Curiosos eles ficam atentos ao Catador, olhos brilhantes e atentos a tudo.

O Catador de sonhos fala:

- Tu ai? Tem o saco do Continente da Europa, exatamente o teu continente. O abre e tira dele um sonho.

O rufia estava relutante, mas lá fez a vontade do velhote, abriu e tirou dele uma carta.

O Catador dos Sonhos o manda ler essa carta

- Por favor, leia essa carta do princípio ao fim.

O menino lá a começou a ler:

Querido pai

Tu não sabes, mas a minha mãe foi para o céu, acho que foi a tua procura, pois ela sempre dizia que tu eras o anjo dela, eu não sei, mas todos choravam por ela, dizem que ela não volta mais e é mentira, pois à noite eu acordo e ela lá esta na cabeceira a olhar-me, o seu rosto é lindo e ela parece um anjo cheio de luz. Ela me manda calar e pede segredo, mas a ti eu não posso esconder meu segredo, já tenho seis anos e aprendi a escrever e a minha avó é muito minha amiga, ela chora muito e a vejo a olhar as fotos da minha mãe.

Olha pai, eu não peço presentes ao Pai Natal não apenas eu tenho um lindo sonho, um dia eu poder te conhecer e poder abraçar-te para eu sentir como é ter um pai do meu lado.

Sabes a mãe falava de ti com tanto amor, foste para a guerra e foste dado como desaparecido, nunca souberam do teu corpo, mas a mãe não agüentou de saudades e quis ir te procurar ao lado dos anjos. Um dia eu vou te encontrar.

Do rosto do menino as lagrimas corriam sem parar, sufocado ele pergunta:

-Velhote como é que tu tens esta carta? Faz tantos anos, mas ainda me lembro como se fosse hoje.

Sorrindo o Catador dos sonhos, fala:

- Julio é o teu nome não é? Eu tenho essa carta desde que a escreveste e vou te realizar teu sonho, espera até amanha e depois me dirás. Agora é horas de todos irem para as suas casas, vossas mães e avós estão preocupadas convosco.

Todos sorriram pasmos, obedecendo ao velhote ele era um tipo de mágico e estavam sem saber o que pensar.

Aquela noite foi bastante longa, o Júlio queria que o dia viesse rápido, tomou seu café da manha e correu para junto do velhote. Respirou fundo e o procura e não o vê fica inquieto demais, ele embora não foi e esta aqui a mula, a carroça e o Pintas.

Olha para a entrada da igreja e vê a sua porta aberta, pensou vou rezar pela mãe e pelo eu pai. Entrou dentro dela e lá estava o velhote ali, ajoelhado e rezando. Júlio se ajoelha e reza calmamente, vê o velhote levantar e passar por si, colocando a sua mão no cabelo e dizendo baixinho:

- Anda são horas de vires comigo até a praça.

Estendo a sua mão a mãos dele e juntos saem da igreja. Júlio sentia o coração bater acelerado demais, que iria acontecer ali.

Os dois se sentam no banco e olham a estrada, logo chega um grande autocarro cheio de gente, ele para e dele sai um homem com um grande saco as costas.

Desce do autocarro e olha para todos os lados, aproximasse dos dois e pergunta:

- Por acaso o senhor conhece um menino chamado Júlio? Ele só tem doze anos, é órfão de mãe que lhe morreu aos quatro anos. Podem me ajudar?

O Júlio começa a soluçar, sem parar, o catador dos sonhos se levanta e responde:

- Conheço sim, ele esta aqui comigo, este é o seu filho.

Incrédulo ele abraça o menino, chorando os dois, sem parar.

Enquanto isso o catador dos sonhos sobe para a sua carroça e dá ordem a Julieta para ir em frente. O menino olha para ele e diz:

- Obrigado meu amigo, obrigado, agora eu acredito em sonhos e no Pai Natal.

O Catador dos Sonhos acena feliz e segue a sua viagem para novos sonhos poder vir a realizar.
 
O Catador dos Sonhos

Desejos do Coração

 
Não mais sou aquela criança, que, às vésperas dos natais longínquos... sonhava, em agonia, com o término da noite e lutava contra o sono para ver-te chegar durante às madrugadas, Noel... Ansiosa eu colocava meus sapatinhos bem arrumados , embaixo da cama , esperando a tua visita, que eu sabia, ser breve... Quantos lares tinhas que visitar!... E, ao amanhecer, de um salto... Eu me punha em pé! Os meus olhos seguiam direto a procura dos meus sapatos, onde um ajudante teu – quantos desses tens mundo afora... –, tinha colocado o meu presente.

Lembro da boneca duura... baraata... que o teu ajudante me presenteou! Não mexia a cabeça, nem os braços e menos ainda as pernas. Os olhos eram pintados... Porém, como me fez feliz!...

Fui crescendo e o meu entendimento cresceu comigo... Quantas perguntas eu fiz a mim mesma... Algumas sem respostas, outras... vieram a mim.

Como é lindo o Natal! É uma festa que simboliza a paz e a fraternidade entre os homens... Tudo é tão singelo, tão mágico!... Tão saudoso... Mesmo, para os que ainda, não têm porque sentir saudade...

Tudo é vermelho, verde e branco... Sangue, vida e paz!...

Ah!... Hoje, percebo, infelizmente, que a maioria, comemora tudo nessa época, menos o que se deve comemorar de fato!... O personagem principal está tão distante de cada um deles... É uma festa cuja preparação é uma forma de exaltação própria!
A casa material é limpa ornamentada, troca-se móveis e utensílios; se faz faxina nos armários e guarda-roupas, é momento de inovação exterior... Às geladeiras ficam repletas de guloseimas; de supérfluos, para alimentar a quem não tem fome... É NATAL!!

Foi em busca da compra de presentes, que me deparei com a ‘realidade da época’... Ao chegar a uma grande loja de brinquedos... Observei um pai testando um carrinho, guiado por controle remoto. Feliz, tal qual, uma criança... Indeciso entre levar o carrinho e/ou um helicóptero que, parecia ser mais real, do que se possa imaginar...Com certeza, aquele pai estava propenso a si presentear, tanto quanto, ao filho... Quem sabe?... Talvez, quando criança, recebera presentes como os que eu recebi... (e, graças a Deus por tê-los recebido...) Naquele momento de observância, percebi uma criança maltrapilha – menino-de-rua – admiradíssimo com tamanha beleza... Ele assentou-se no chão e ficou embevecido. Os seus olhos brilhavam, como as luzes do Natal... Ora, olhava o carinho que fazia manobras radicais, guiado pelo comprador-criança; ora, fitava para o alto, vendo o helicóptero voaando... tal qual, um pássaro. Foi em meio aquele enlevo que chegou um vendedor desnaturado, insensível e o colocou para fora, puxando-lhe pelo braço grosseiramente... O meu espírito se constrangeu! Quando me recuperei do choque momentâneo, gritei: Pare! Não faça isso! Respeite a criança... Suas vestes estão sujas, porém, a sua inocência é branca... Não a manche! Deixe-o em paz! Ele está comigo... O homem saiu desconfiado... Perguntei ao garoto: qual deles é o mais bonito? E ele respondeu: – O avião!!
Papai do Céu – hoje eu sei a nome correto – realizou o sonho daquela criança. Eu sei, o quanto dói, não ter um sonho realizado...
O que é fácil e corriqueiro para milhares, pode ser de suma importância para outros tantos.

Eu tenho um sonho há dez anos... Sei que se tornará real... Viverei até lá!...

EstherRogessi.Conto de Natal.Desejos do Coração.Categoria:Narrativa.23/12/09

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Desejos do Coração

Estrela de Beiru

 
A Estrela de Beiru

De repente brilha no céu uma grande estrela, um grande fenômeno para os astrônomos, para outros é o chamado de Deus para o nascimento do novo Messias, ainda há alguns que tentam profetizar o final de mundo.
Nesse mesmo momento lá nos confins de Jerusalém, num monastério, um frade de nome Aahoron, passou mal sentindo uma forte dor no peito, chegando a ficar sete dias em coma, depois disso ele acordou com o temperamento totalmente modificado, dizendo chamar-se Thiago, que tinha a missão de receber o novo Messias, num país distante chamado Brasil, em uma comunidade desfavorecida cujo nome da cidade que leva o nome do nosso Salvador.
Essa missão ainda contava com mais duas pessoas que iam encontrá-lo no caminho da sua peregrinação, que seria justamente seguir aquela grande estrela que ameaça a vida de todos na Terra, como falam os Jornalistas.
Logo depois de uma comemoração especial o nosso Frei saiu com um guarda chuva bem grande na mão, seguindo o seu destino, que tinha ainda como tarefa revelar os outros companheiros de jornada.
Numa caminhada longa o nosso personagem conseguiu identificar uma mulher de nome Ming, estava sendo perseguida por transeuntes, ela é uma moradora de rua que de repente mudou de personalidade, sendo chamada por uns de Madalena por outros de profetisa, ela dizia que estava procurando o Frei Thiago, saia pelas ruas de Pequim desesperada com um lençol de lã anunciando que a salvação estava próxima, mas como na China salvação tem que passar pela autorização de Hu Jintao, juntaram tudo que ela possuía no seu carrinho de roupas e expulsaram-na das ruas que cercavam o palácio do governo, nessa hora o nosso frei conseguiu segurá-la e acalmá-la dizendo que o seu destino estava ali, sendo escrito pelo nosso criador, que mais um peregrino tinha que ser encontrado para a profecia se realizar, era logo ali depois na América do Norte, México, a dificuldade era tamanha para os nossos amigos iluminados, mas cada caminho tinha a sua etapa a ser cumprida inclusive aquela de entrar nesse país que é tradicionalmente católico, mas tinha pessoas que acreditavam em uma entidade chamada Santa Boa Morte, foi justamente no dia em que comemoravam o dia dessa “santa” que o nosso terceiro personagem de nome Juan tinha incorporado o espírito de um rapaz chamado Emerson dizendo as mesmas coisas dos nossos dois amigos, que o reconheceram de pronto, Juan tava com uma cadeira de praia dizendo que aquele objeto era o leito do novo Messias...
Essa longa jornada a caminho da estrela sagrada demorou alguns anos, mas quando eles chegaram na cidade de Salvador, ainda tiveram problemas com a imigração, que estranhava toda aquela situação, ainda mais durante toda aquela confusão causada por uma estrela que se mexia e crescia cada vez mais ao passo que os nossos peregrinos se aproximavam; eles ficaram um tempão presos no aeroporto Dois de Julho, quando conseguiram sair já era a noite do dia 25 de dezembro, todos concentrados em suas gordas ceias de Natal, outros preocupados com os presentes, não estavam ligando para outra coisa, nossos abençoados peregrinos seguiram para as cercanias de uma maternidade, numa pracinha freqüentada por drogados e prostitutas, chamado de Arvoredo, foi justamente onde um casal desesperado gritava por socorro, era um homem chamado Joaquim com a sua esposa Mariana, ela já estava em trabalho de parto, quando os nossos valorosos personagens chegaram.
Emerson abriu a cadeira de praia, a profetisa a cobriu com o lençol e Thiago ajudou a fazer o parto de Jesus Cristo iluminado, nesse momento a grande estrela se afastou, provocando uma confusão no tempo, fazendo nevar no verão de Salvador, nessa hora o nosso primeiro peregrino abriu o seu enorme guarda chuva protegendo a criança santificada que veio nascer justamente no Beiru, um lugar tão esquecido pelos homens poderosos mas sempre lembrado por Deus.

Marcelo de Oliveira Souza

A Estrela de Beiru

De repente brilha no céu uma grande estrela, um grande fenômeno para os astrônomos, para outros é o chamado de Deus para o nascimento do novo Messias, ainda há alguns que tentam profetizar o final de mundo.
Nesse mesmo momento lá nos confins de Jerusalém, num monastério, um frade de nome Aahoron, passou mal sentindo uma forte dor no peito, chegando a ficar sete dias em coma, depois disso ele acordou com o temperamento totalmente modificado, dizendo chamar-se Thiago, que tinha a missão de receber o novo Messias, num país distante chamado Brasil, em uma comunidade desfavorecida cujo nome da cidade que leva o nome do nosso Salvador.
Essa missão ainda contava com mais duas pessoas que iam encontrá-lo no caminho da sua peregrinação, que seria justamente seguir aquela grande estrela que ameaça a vida de todos na Terra, como falam os Jornalistas.
Logo depois de uma comemoração especial o nosso Frei saiu com um guarda chuva bem grande na mão, seguindo o seu destino, que tinha ainda como tarefa revelar os outros companheiros de jornada.
Numa caminhada longa o nosso personagem conseguiu identificar uma mulher de nome Ming, estava sendo perseguida por transeuntes, ela é uma moradora de rua que de repente mudou de personalidade, sendo chamada por uns de Madalena por outros de profetisa, ela dizia que estava procurando o Frei Thiago, saia pelas ruas de Pequim desesperada com um lençol de lã anunciando que a salvação estava próxima, mas como na China salvação tem que passar pela autorização de Hu Jintao, juntaram tudo que ela possuía no seu carrinho de roupas e expulsaram-na das ruas que cercavam o palácio do governo, nessa hora o nosso frei conseguiu segurá-la e acalmá-la dizendo que o seu destino estava ali, sendo escrito pelo nosso criador, que mais um peregrino tinha que ser encontrado para a profecia se realizar, era logo ali depois na América do Norte, México, a dificuldade era tamanha para os nossos amigos iluminados, mas cada caminho tinha a sua etapa a ser cumprida inclusive aquela de entrar nesse país que é tradicionalmente católico, mas tinha pessoas que acreditavam em uma entidade chamada Santa Boa Morte, foi justamente no dia em que comemoravam o dia dessa “santa” que o nosso terceiro personagem de nome Juan tinha incorporado o espírito de um rapaz chamado Emerson dizendo as mesmas coisas dos nossos dois amigos, que o reconheceram de pronto, Juan tava com uma cadeira de praia dizendo que aquele objeto era o leito do novo Messias...
Essa longa jornada a caminho da estrela sagrada demorou alguns anos, mas quando eles chegaram na cidade de Salvador, ainda tiveram problemas com a imigração, que estranhava toda aquela situação, ainda mais durante toda aquela confusão causada por uma estrela que se mexia e crescia cada vez mais ao passo que os nossos peregrinos se aproximavam; eles ficaram um tempão presos no aeroporto Dois de Julho, quando conseguiram sair já era a noite do dia 25 de dezembro, todos concentrados em suas gordas ceias de Natal, outros preocupados com os presentes, não estavam ligando para outra coisa, nossos abençoados peregrinos seguiram para as cercanias de uma maternidade, numa pracinha freqüentada por drogados e prostitutas, chamado de Arvoredo, foi justamente onde um casal desesperado gritava por socorro, era um homem chamado Joaquim com a sua esposa Mariana, ela já estava em trabalho de parto, quando os nossos valorosos personagens chegaram.
Emerson abriu a cadeira de praia, a profetisa a cobriu com o lençol e Thiago ajudou a fazer o parto de Jesus Cristo iluminado, nesse momento a grande estrela se afastou, provocando uma confusão no tempo, fazendo nevar no verão de Salvador, nessa hora o nosso primeiro peregrino abriu o seu enorme guarda chuva protegendo a criança santificada que veio nascer justamente no Beiru, um lugar tão esquecido pelos homens poderosos mas sempre lembrado por Deus.

Marcelo de Oliveira Souza
 
Estrela de Beiru

Um conto de dor e neve (AjAraujo)

 
Um conto de dor e neve (AjAraujo)
 
Da janela de uma casa ornada em momento preparatório para a ceia de Natal.
- O que aquela mulher e crianças estão fazendo?
- Ah, é provável que esteja louca, onde já se viu uma coisa dessas: catar flocos de neve nos pratos...
- Mas olha só a alegria deles (diz a vovó, extasiada com a cena)
- O avô (ranzinza para variar), patriarca da família, diz logo, melhor fechar essas cortinas, não quero estragar a nossa ceia com esta cena patética.
- Uma das crianças, Isaac que está em remissão de leucemia, afasta um pouco as cortinas fechadas por ordem do avô, bate na madeira, uma das pequenas crianças vê e olha sorrindo para ele.
- Isaac não atende aos inúmeros chamados do avô bastante zangado que dizia "com essa gente pestilenta não se mistura, ainda mais você com esta leucemia".
- Mas, o pequeno Isaac faz ouvidos de mercador, dá um sinal de me espera, apanha seu saquinho de brinquedos, chocolates e outras guloseimas e alguns cachecóis que insistem que use, arranca para a porta abre e em disparada vai para a rua.
- Ficam todos em polvorosa, o que este menino foi fazer lá fora? No mínimo vai pegar uma pneumonia e ainda por cima estragar nosso Natal, diz a inconformada mãe Ivana.
- O que está fazendo Josef, vá logo lá fora buscar esse menino, o tempo está muito ruim.
- Enquanto isso, Isaac se abraça com as três crianças, lhes entrega o muito que tinha, e recebe do pouco ou quase nada que eles possuíam, um forte abraço e o aconchego de ser humano que lhe faltava - ele era sempre o coitadinho, tinha que usar sempre máscara, os abraços eram raros, sempre meticulosamente traçados.
- Isaac lhes pergunta os nomes e eles se chamam Juan, Guadalupe e Ramon, e a mãe Sara, são de uma família sem teto de latinos, despejados após o pai morrer de câncer há um mês apenas, sem renda para bancar o aluguel do trailer, o dono não teve dó, eles estão nas ruas há 5 dias.
- Isaac pede também um prato e também começa a coletar os flocos de neves que parecem coloridos como guloseimas e todos fazem círculos cantando aquele momento mágico.
- Isaac perguntou a Ramon o que significava aquela neve colhida nos pratos, ele disse que era um sonho que teve, pois, a neve era o alimento que o nosso papai nos enviava dos céus para que sempre estivéssemos juntos, e que deixássemos a tristeza de lado, e fizéssemos o Natal como o menino Jesus que ao nascer não teve uma casa que o acolhesse junto a Maria e José.
- O pai em vão tentou chegar até eles, no afã de interromper aquele "baile de neve", não teve o cuidado para atravessar a neve e teve um tombo espetacular que levou todos aos risos inicialmente pela trapalhada e depois suscitou preocupações, pois não conseguia se levantar.
A família interrompeu a ceia e foi socorrer Josef que não conseguia mexer as pernas havia batido fortemente com a coluna cervical em uma pedra do jardim em frente à casa...
As crianças da família de Sara tomaram Isaac - que estava estático com a cena - pelas mãos e se dirigiram a seu pai...
O que aconteceu então era inimaginável...
Enquanto chamavam o socorro para Josef, as crianças de Sara, chamaram os irmãos de Isaac que eram Mary e John e juntos cada qual foi, orientado por Ramon, a segurar cada braço e perna de Josef.
Bem, e se ele havia tido traumatismo cervical, o que era provável, o que fazer? Ramón fez uma oração circundando com as mãos o pescoço dolorido de Josef que olhava incrédulo...
Então Ramon pediu a Josef que movimentasse os dedos dos pés, depois das mãos, os joelhos, o que ele fez bastante temoroso...
Depois Ramon lhe pediu que olhasse para o céu abrisse bem os lábios e recebesse "a neve da cura", ele fez isso, ante os olhares de todos os familiares e do avô que somente balançava a cabeça e olhava para o relógio torcendo que logo chegasse a ambulância.
- Finalmente chega a ambulância, faz os procedimentos de imobilização de praxe, leva Josef, Ramon e Isaac insistem em acompanhá-lo.
Qual não foi a surpresa da equipe médica após a tomografia e ressonância, havia sinais de uma fratura das vértebras cervicais C2 e C3, e com um estranho calo de cicatrização que protegia a medula cervical ainda abalada, com discreta inflamação em volta. Mas este calo demoraria dias, semanas, meses para se formar, era como se algo tivesse "acelerado" o processo, liberando a medula encarcerada, mas não rompida, e ossificando em tempo recorde aquelas vértebras tão fragilizadas após a queda.
A equipe médica olhou perplexa, repetiu os exames neurológicos, e Josef já sentia todos os movimentos, embora ainda sem a força necessária para deambular sozinho.
Um dos médicos foi lá fora e colocou os braços sobre os ombros das crianças e disse que "o papai milagrosamente" escapou, ele poderá andar com auxílio de muletas e terá que ficar em observação por 24 horas.
Disse mais, "como ele insiste muito" poderá ir para a casa cear com vocês, mas qualquer coisa nos avisem e amanhã precisará vir ao hospital para ser avaliado, e também precisará usar este colar cervical para proteger a medula.
- Isaac com os olhos descerrando lágrimas se abraça ao médico neurologista Thomé e ao menino Ramon.
O médico pede que esperem e traz uma bela caixa de bombons para cada um, e Ramon lhe diz, mas doutor são seus, foram presente que lhe deram?
- O médico lhe diz, vocês são o maior presente deste Natal, este homem foi curado, e isso não foi obra nossa, foi de vocês, essa energia de vocês é muito forte, não consigo explicar, diz emocionado e aos prantos.
Josef chega em casa, estavam todos à porta, o avô se apressa a pedir para prepararem um prato para cada uma das crianças de Sara.

- Então o próprio Josef lhe repreende e diz, "papai, eles são nossos convidados especiais, são os anjos enviados por nosso Senhor para abençoar a nossa ceia de Natal, quero que eles se sentem aqui conosco, Isaac nos deu uma lição de grandeza, humildade, solidariedade e amor hoje, e o que Ramon fez foi de uma grande generosidade, ele que havia perdido o pai há tão pouco tempo". Ramon havia lhe contado sua história no caminho de volta para casa.
- Sara fez a oração de Natal, todos sentaram-se a mesa e perceberam uma forte luz irradiar por entre as cortinas ainda entrecerradas, foi a avó se dirigiu para abri-las e disse: é hora de receber o Deus de amor em nossas vidas e em nossos corações, quero primeiro chamar a Ramon e a Isaac para me ajudar na entrega dos presentes.
Ao anoitecer, após muitas cantigas de Sara e das crianças que não conheciam, abrigaram aquela família despojada de tudo no sótão aquecido da casa, e de nada adiantaram os argumentos, Isaac quis e foi dormir com eles.
Foi o último Natal de Isaac, e ele havia dito para todos que havia sido o mais feliz de todos, uma semana depois teve uma recaída e não suportou dessa vez. Em sua última noite pediu a sua mãe que levasse Ramon para ficar com ela e Josef. Os pais atenderam seu pedido, no último soluçar, pediu que abrissem as cortinas e olhou para a neve caindo e disse: Ramon quando brincar com seus irmãos separe um pratinho deixe a neve cair, eu virei em flocos para brincar com vocês. Papai...
- Diga meu filho, falou com a voz embargada Josef.
Ampare Ramon e seus irmãos, ofereça um trabalho para Sara, e chame ela para o coral da nossa Igreja.

O pai acenou que sim, os dedos de Isaac foram perdendo força e se soltando das mãos de Josef, sua mãe e do amigo Ramon, esboçou um último sorriso e disse nos veremos na neve Ramon, no próximo Natal, agora vou dormir...

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em 3 de novembro de 2016.
 
Um conto de dor e neve (AjAraujo)

Tempo de magia

 
Era uma vez um reino encantado, cheio de frondosas florestas onde viviam seres mágicos. Gnomos, duendes, fadas, elfos e outros seres encantados, viviam todos em paz e harmonia. Eram todos filhos da mãe natureza, Gaia.
Entre os ramos de uma árvore, estava um Elfo de luz, tinha as mãos e os pés muito grandes em comparação com o corpo. Os olhos eram verdes e o cabelo quase branco, nariz e orelhas pontiagudas, boca larga e lábios sensuais que cantavam uma doce canção, depois de ter participado de um grande banquete.
Quando a canção terminou, deu vários bocejos e adormeceu pendurado na árvore.
De repente, nos seus sonhos, voou.
Tinha havido um grande temporal e ele tinha sido arrastado por um furacão. Tinha caído num lugar muito estranho, num jardim de uma casa.
Parecia uma casa abandonada, mas todas as janelas e portam estavam fechadas. Entrou por uma das janelas, para ele era fácil entrar em qualquer lado, punha em prática a sua magia.
A casa estava escura, os móveis nunca deveriam ter mudado de lugar nem os objetos que enfeitavam a casa.
Numa cadeira estava uma mulher sentada, quieta, com o olhar perdido no passado.
O Elfo olhou para aquele triste cenário e teve uma brilhante ideia, chamou os seus amigos e gnomos, duendes, fadas e outros elfos invadiram a casa.
Todos unidos puseram mãos à obra.
Apanharam lenha para fazer uma fogueira. Acenderam a fogueira, enfeitaram a casa com uma decoração diferente, até o canto mais escondido da casa ficou cheio de enfeites.
Juntos tornaram aquela casa alegre.
Acenderam a luz e foram-se embora devagarinho.
A mulher, passado algum tempo, levantou-se e sorriu ao ver o elfo.
Abraçou-o muito e agradeceu, espantada, olhando em redor.
Finalmente, a sua casa tinha sido vestida de luz, alegria e esperança.
Era tempo de magia.
 
Tempo de magia

PAI NATAL

 
A terra estava branca de um branco imaculado, a neve cobria toda a planície..

Dois belos veados procuravam um pouco de erva que a neve escondia.
Um trenó carregado de prendas esperando que o Pai Natal acabasse de se repousar e continuar a sua viagem do mês de Dezembro, o Natal estava próximo e o tempo já era +pouco para tão grande tarefa.
Uma criança que morava não longe, veio até junto do Pai Natal que dormitava.
-Boa tarde Pai Natal, desculpa já vi que te incomodei, dormias não era assim?, desculpa, não fiz atenção.
-Não tem importância, meu filho, não tem importância, até foi bom pois que não posso ficar muito tempo sem continuar a minha viagem.
-Vais para longe?
-Sim, muito longe, vou dar a volta ao Mundo, se soubesses a quantidade de brinquedos que eu tenho para distribuir...!
-E tu dás brinquedos a todos os meninos?
-Sim, a todos. Sabes, os pais não querem que eu dê àqueles meninos que durante o ano não foram muito ajuizados, mas entre nós, eu não faço atenção ao que eles dizem e dou a todos porque todos são meninos.
-Eu fiz a pergunta porque os meus pais disseram-me que eu não tinha direito a um brinquedo porque não trabalhei lá muito na escola.
-Como te chamas?, olha, não digas, eu conheço todos, vou ver o que poso fazer por ti, dá cáum beijinho ao vélhinho Pai Natal que tem que se ir embora.

Enquanto o Pai Natal aparelhava o trenó, o menino deixava correr algumas lágrimas pelo rosto.
Uma vez tudo em ordem, pegou nas rédeas dos veados e com um aceno de mão disse adeus ao menino que tinha receio de não ter um brinquedo pelo Natal

A manhã acordou linda. Muito Sol o que dava ainda mais beleza à planície, a neve brilhava

O menino acordou também.
-Sabes mãezinha, esta noite sonhei com o Pai Natal!
-Eu sei meu filho, vai ver a chaminé, ele deixou qualquer coisa para ti.

A. da fonseca
 
PAI NATAL

Pequeno Conto de Natal

 
Pequeno Conto de Natal

Seguíamos uma estrela de brilho luminoso, que se destacava lá bem no alto do céu estrelado, de um Dezembro gelado - de 2009.
Ano difícil para os mais necessitados, por sinal.
Sinal era também a estrela de brilho luminoso que nos indicava o caminho. De todos os lugares acorriam pessoas. Tinham ouvido dizer que nascera o Deus-Menino. Crentes no redentor dos homens e numa vida de esperança, num mundo de contrastes e desigualdades inumanas. Descrentes num consumismo desenfreado, que afasta o homem dos verdadeiros e justos valores da vida.
A noite avançava gélida, tornando penosa a procura - não fora o ambiente de festa e solidariedade que se criara, milagrosamente, entre todos. Talvez, por saberem que em breve estariam perante o Menino, que veio à Terra para morrer pelo homem e dar um sentido humano à sua existência.
As expectativas de toda esta gente não foram em vão: a estrelinha apontava o lugar, àqueles que jamais haviam perdido a fé na vinda do Messias.
Uma pequena e pobre cabana - de pastores, irradiava uma aura celeste de luz e clarividência. Fora o local escolhido por Deus para o nascimento do seu filho - feito homem.
Entrámos naquele lugar com o coração aberto, para homenagear o representante de Deus na Terra. Saímos abençoados pela esperança de um mundo onde todos são iguais aos olhos de Deus.

Votos de um Feliz Natal e Próspero Ano Novo para todos os Luso-Poetas.

Poesiadeneno
 
Pequeno Conto de Natal

ESTRELA

 
Hà pouco mais de 2000 mil anos
uma estrela brilhante
veio anunciar a boa nova,
O nascimento do \"Salvador\",
Aquele que viria libertar os povos
da servidão.
Uma estrela brilhante
guiou os reis magos
atè perto de um menino
pobre que havia nascido num curral
junto aos animais.
Os reis magos andavam perdidos
E a estrela brilhante
guiou-os até ao \"Salvador\".

E assim muitas vezes,
no decorrer da nossa vida.
Quantas vezes andamos perdidos,
cansados pelo peso das responsabilidades,
das adversidades,
Quantas vezes andamos perdidos,
sem alegria,sem rumo,
parece-nos que a caminhada não tem sentido.
Contudo hà um momento,
em que uma pequena luz nos começa a iluminar o caminho,nos guia.
Essa luz pode se demonstrar atravez
de uma mão amiga,
de uma palavra de carinho,
por parte de quem nunca esperavamos,
atravez de um livro que se le,
de um sonho que nasce dentro de nos.
Então a vida ganha novo sentido.

Renovam-se as esperanças,
Fazem-se novos projectos,
novos amigos.
E quando estamos embuidos dessa luz
tudo pareçe ter ganho novo sentido.
Nesse momento,
Quando o nosso caminho ,
a nossa alma esta iluminada,
encontramos outras pessoas
que perderam a luz da sua estrela,
a luz que lhes iluminava o caminho,
lhes aquecia a alma.
Cabe-nos então a nos,
transmitir-lhes um pouco
da nossa luz,
do nosso calor.

E este para mim o espirito do Natal.
Partilhar o melhor de nos mesmos,
partilhar a nossa luz,
a nossa serenidade,
o nosso saber.

O Natal e em qualquer altura do ano,fazer brilhar
a nossa luz interior.

Um bom Natal a todos.
Um beijo com um pouco de luz.
 
 ESTRELA

SONHO DE NATAL

 
SONHO DE NATAL
 
SONHO DE NATAL

Era Natal. Eu não entendia o “por que”, de crianças bem vestidas, cheirosas, ter a companhia de seus pais e com eles brincar alegremente nas praças e parques, enquanto, eu, vendia balas, para a minha sobrevivência. Descalço e com minhas roupas surradas.
As crianças corriam alegremente em suas bicicletas, outras brincavam com uns carrinhos que tinham motor e uns botões que eles apertavam e, os carros andavam... sem cordões. Que bonito! Como eu queria brincar, estavam tão felizes. Conversavam alegres, mostravam os seus brinquedos, a sorrir, dizendo: foi o Papai Noel que me deu!

Segurando o meu tabuleiro de confeitos, eu ficava a olhá-los pensando: Papai Noel... Será que ele dá presentes aos pobres?
Comecei a conversar com uma das crianças. Eu queria saber sobre papai Noel. Quando a mãe do garoto nos viu conversando, gritou: Vem Marcos! Correndo o pegou pelo braço levando-o para distante de mim.
Ah! Eu queria perguntar tantas coisas ao Marcos... Ouvi falar de um homem bom, barrigudo e amigo
das crianças. Um velhinho, que satisfazia os desejos de cada uma delas; que as fazia felizes.

Pensei: no próximo Natal, eu vou fazer um pedido a ele. Fiquei muito alegre e esperançoso. Perguntei aqui, ali e acolá... Como fazer? Como ele vai saber o que eu quero? Como ele vai saber onde moro?
– Escreve... Pede a ele!
Disse Paulinho, o meu vizinho. Mesmo pobre, ele pediu um brinquedo e Papai Noel atendeu. A mãe dele era doméstica e trabalhava na casa de uma doutora que morava num bairro nobre da cidade. – Ah! Como demorou a chegar o próximo Natal. Enfim, chegou!
Fiz uma carta pedindo uma bicicleta. Quero nova, como as das crianças da praça. Um carrinho para os meus irmãos e uma boneca para a minha irmã. Se ele dá tudo novinho para as crianças da praça.., vai nos dar também!

Paulinho o meu vizinho, disse que pediu um carro de bombeiro... Ele, colocou o pedido dentro do seu sapato.

Paulinho... Eu não tenho sapatos, posso colocar dentro do meu chinelo?

– Acho que sim!

Coloquei. Quase que não dormi. Não pelo desconforto – eu dormia apertado entre os meus cinco irmãos, em um colchão velho, no chão de barro batido – mas, pela ansiedade... Eu queria ver a alegria dos meus irmãos e também, poder andar de bicicleta.

Aos sete anos de idade, eu trabalhava para ajudar a por comida em casa. Sentia-me responsável.
Pela manhã... Nada! Nenhum presente. Nem bicicleta, carrinhos, nem mesmo a boneca... Que decepção!
Chorei e chorei muito. Minha mãe assistiu tudo, chorando comigo. Ela era diarista, no dia seguinte, mamãe trouxe de uma casa onde trabalhou, uns pacotes, tão diferentes daqueles que se faz nas lojas... Uma boneca velha e careca, para a minha irmã e uns carrinhos com as rodas quebradas para nós, os meninos.

Entendi que papai Noel não é o mesmo para todas as crianças. Ele dá brinquedos ricos para as crianças ricas e pobres para as crianças pobres.., Muitas vezes, não dá nada!

O real entendimento veio depois... muito depois. Quando eu cresci. Descobri que papai Noel é só fantasia.

EstherRogessi.Escritora UBE. Mat.3963.Conto:Sonho de Natal, Categoria:Narrativa.Imagens Web. Fotomontagem: by EstherRogessi. 06/12/10

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SONHO DE NATAL

Receita da Felicidade

 
O jantar decorreu numa atmosfera informal de grande encanto. Francisco chegou cedo e a sua aparição foi saboreada como uma brisa de Setembro. Bernardo começou logo a montar o Playmobil, e Francisco foi à cozinha pôr a gelar o Moet. A sugestão de esparguete à bolonhesa foi aceite por unanimidade. Bernardo repetiu as farófias.
- Cheira a Natal, mãe!
Cecília sorriu e elucidou Francisco:
- Sempre que usamos canela, ele diz isso. Mas, por acaso até já falta pouco para o Natal. Quando é que é a festa da escola?
Foi Francisco quem soube responder:
- Dia dezoito. O meu filho vai de pastor. E tu, Bernardo?
Bernardo ainda não sabia. Porém, sabia que haveria surpresas. Até o Tiago já tinha inventado que a professora Dália ia vestida de rena. Cecília trocou com Francisco um olhar cúmplice.
Afinal, a professora Dália não foi vestida de rena, mas a solene monumentalidade das pregas do seu vestido verde esmaltado não passou despercebida. Bernardo já tinha recitado a sua quadra sem atrapalhação e regressado para junto da mãe. Todos, enfim, aguardavam pelo discurso natalício da professora Dália. Apesar da rigidez do seu aspecto, esta assumiu uma atitude maternal na divulgação do concurso "Receita da Felicidade". Embora com poucos recursos, a escola tentava todos os anos satisfazer o maior desejo de Natal dos seus alunos. Bernardo nem quis acreditar quando ouviu o seu nome. Cecília e Francisco beijaram-lhe a face, e ele dirigiu-se ao palco. A professora Dália pediu uma salva de palmas para o representante da Câmara Municipal que apoiara o projecto. Ao menino Bernardo, por este ser alegre, meigo e responsável, nas palavras da mãe, seria entregue para adopção um gatinho do Gatil Municipal. Bernardo olhou a mãe aflito, puxou pelo braço da professora Dália e perguntou baixinho:
- E se a minha mãe não deixar?
A professora Dália sorriu e disse:
- Deixa, deixa...
E, então, a professora Dália agradeceu a colaboração dos pais por terem mantido em sigilo todo o processo, desde o mês de Outubro quando foram convocados à escola para assinarem um termo de responsabilidade ou darem o seu consentimento para a realização do projecto. O representante da Câmara proferiu umas breves palavras para enaltecer o acto de generosidade que é a adopção de um animal abandonado e entregou a Bernardo um cheque de cento e cinquenta euros para assegurar os cuidados do animal. Bernardo estava eufórico.
À saída, compraram o número especial de Natal do jornal da escola e, nessa mesma tarde, passaram no Gatil. Num tom académico, o veterinário foi dando indicações sobre os cuidados básicos a ter com o animal, enquanto prosseguia pelos corredores em direcção às boxes. Cecília manifestou uma melancólica sensibilidade perante a natureza em abandono ao comover-se com aquelas figuras magras, alongando-se em posições harmoniosas, numa vida sem contentamento. Uns de manchas claras e de olhos verde líquido, outros de pelagem escura a realçar ainda mais a luz dos seus olhos assanhados como malaguetas ferozes. Face a tal diversidade, os sentimentos cedem e confundem-se. O entusiasmo de Bernardo conduziu-o até um gatinho cuja mestria de negros e cinzentos do pêlo o fazia assemelhar-se a areia basáltica batida por uma nortada.
Francisco admirou a primavera que se demorava naqueles olhos felinos e sentiu-se invadido por um sabor de paz doméstica. Entretanto, já lera a receita da felicidade de Bernardo, impressa no jornal da escola: "Num tapete, ponha arranhões, marradinhas, ronrons e uma pitada de cócegas de bigodes. Junte o carinho e a ternura, bem peneirados e misturados. Mexa muito bem com os dedos até se tornar uma bola. Tire do tapete e deite no sofá, mexendo sempre até o desatino ser total. Ao primeiro bocejo, deixe repousar. Acompanhe com dois berlindes esverdeados e muita preguiça."
 
Receita da Felicidade

O meu Natal

 
Era uma menina pobre como todos os meninos daquela aldeia do Nordeste Transmontano. Não pedia bonecas porque ela própria as fazia de trapos. Para dizer a verdade não conhecia outras!...Era feliz com as riquezas que tinha, aquela menina,

Na sua aldeia não havia Pai Natal, nem publicidade, nem prendas, nem correrias!...
Havia solidariedade, amor, fraternidade. Havia um Menino Jesus pequenino, aquele que beijava na Missa do Galo. Era esse Menino que lhe deixava no sapatinho, junto à lareira, o saquinho com figos secos, amêndoas, rebuçados e às vezes, uma moeda de dez ou vinte e cinco tostões.

Como é possível que aquele Menino desça a todas as lareiras, sem se sujar na fuligem das paredes? Como é possível que aquele Menino, quase despido, não morra de frio?

Adormeceu e sonhou com aquele Menino que tinha beijado na Missa do Galo. Correram juntos pelos telhados à procura duma telha partida por onde pudessem descer até ao sapatinho de todos os meninos.

Acordou cedo no dia de Natal e correu até o sapatinho. Estava vazio!
Desiludida e achando que o Menino já não gostava dela, uma lágrima deslizou-lhe na sua face rosada. Reflectindo, depressa percebeu que o Menino se tinha atrasado porque tinham nascido mais meninos naquela aldeia!

Instantes depois, como que por magia, lá estava o saquinho com figos secos, amêndoas, rebuçados e uma moeda de vinte e cinco tostões!...

http://www.adelaide-monteiro.blogspot.com
 
O meu Natal

Carta para uma estranha:

 
Muito estranho depois de tanto tempo chegar a saber por palavras próximas de que aquela história além dos ciúmes passou à ficção pura de quem tem aceleração nas ideias e coisas estranhas coisas sem sentido coisas que não imaginei coisas, de quem não tem o que fazer!
- Tranquilos aí e quietos fazem favor!
Nada acontece se não quisermos que aconteça!
Além disso, somos seres capazes de contornar ou controlar e ainda de deixar ou não deixar ser controlados por controladores mal-afamados de casa família e pais de meninos que andam à solta por aí em busca do que ninguém vê!
Estranho coisas assim estranhas tão estranhas como a ti estranho descobrir que dentro do teu ser há um ver que não existe e ainda por cima ciúmes?
- Pensaste que entre nós reinava um caso qualquer?
Há! Há! Há! Casos? Tem quem os quer!
Se esse caso existe, entre nós esse caso que imaginaste haver, já vem do antes ser mulher ou dele te conhecer! Esclarecida?
Há humanos e humanos e há humanos mesmo estranhos de ideias férteis e curtas com sentires ou com saberes tortos sem sabores que azedam a própria vida do ser, é que, há quem caia em redes manipuladoras e não é peixe e há quem chegue ao ponto de extravasar e nem sabe se desculpar pelo juízo que faz de outros seres! Juízo só a viver dentro de quem ajuíza!
- Vive a tua vida na vez de o viver pensando errado que o mesmo, mora ali do outro lado. Que coisa ingrata para ti, pois amigos são eterna duração e entre nós é claro que há abraços há beijos de rosto há brinde de copos no ar há alegria há sorrisos há poesia e muita satisfação só do ver! Mas se pegasses nesses ciúmes todos que trazes e atirasses à fogueira? Era bom para ti! Fica sabendo que meu conhecer é de outros tempos de criança e o que há sempre houve nada mais que terna proximidade próxima e depois não tenho de dar justificações de nada a ninguém!
O mal do povo é o mal do mundo! Só têm tiririca de galinha na cabeça e espalham-na no peito a cheirar mal pa caraças!
- Vá, vai lá arrumar a cozinha!
Depois mais logo talvez te esqueça, por agora, olha...
... Vou atirar-me às ondas frescas que me refrescam a alma e me lavam toda a poeira que vejo!
Ah já me esquecia, ocupa-te de coisas mais honestas na vez de inventares histórias desonestas senão ainda ganhas estrabismo por seres incapaz e insuficiente da cabeça e não esqueças que tens um telhado de vidro! Olha que podes ter azar de não ganhar o dinheiro a plantar telhado novo!
- E, faz-me um favor. Já agora se não te importas, esquece-me!
Amizades dessas estranhas como essa tua não me fazem falta e não faltam por aí aos trambolhões nas esquinas e nos salões da desgraça!
- Olha, não bebas mais nem uses drogas, podem provocar-te delírios e acabas por continuar nas tuas ficções ou fixações estranhas e na pior das hipóteses até podes nem delas sair! Vai mas é dormir, agarra a vida, ainda és jovem, estás um pouco mais gorda lá isso não é mentira mas até mesmo em casa ou no jardim podes tratar isso e assim ocupas-te para não criar mau juízo!

Que coisa estranha!
Até parece conto de Natal! :)
 
Carta para uma estranha:

A chaminé - conto de Natal (AjAraujo)

 
A chaminé - conto de Natal (AjAraujo)
 
Havia sido um ano muito difícil. Jonas estava desempregado há 5 meses, sustentava a casa com pequenos biscates, que em tempos de crises, já andavam escassos.

Muitas vezes tocava campainhas oferecendo serviços de jardinagem, podas, retirada de entulhos e pequenos consertos em geral.

Na semana que antecedia o Natal, Jonas ganhou alguns trocados instalando enfeites e luzes nas sacadas de casas e lojas.

Ele dava um toque bem pessoal a estas decorações pedindo ideias aos clientes sobre o que gostariam de desenhar com as luzes, desde que havia visto uma reportagem sobre o “Natal das Luzes” em um porto, na cidade de Sarnia, no Canadá.

Margareth, a companheira de Jonas, se ocupava com as encomendas de tortas de nozes e panetones, que eram habituais nesta época e ajudavam a reforçar o minguado orçamento doméstico.

E ao belo casal de crianças - Raphael e Bernadete - cabia a tarefa de entregar as encomendas. Enquanto se apressavam para cumprir todas as entregas, imaginavam o que lhes estaria reservando o Papai Noel, pois este “bom velhinho nunca falha”.

Elas contavam apenas 8 e 10 anos de idade, eram uma simpatia e, muitas vezes voltavam para casa com algum brinquedo ou roupa, que generosamente algumas pessoas lhes davam, pois reconheciam os esforços de seus pais e as dificuldades que enfrentavam.

Jonas já retornara exausto para casa, estava tomando uma boa sopa de inhame com salsa e cebolinha verde, quando chegou um carro e buzinou a sua porta. Pediu a esposa para atender, então ela retorna e diz a ele:
- Jonas, com os ventos a chaminé da casa do prefeito caiu e eles querem que você vá consertar para não desapontarem as crianças que tem a fantasia da chegada de papai Noel pela chaminé.

Jonas estava bastante cansado, era noite, ameaçava chover, e além disso na noite anterior nevara e com o dia ensolarado, a neve derretera e o telhado decerto estaria escorregadio.

Mas ele não era uma pessoa de recusar desafios, assim prontamente aceitou o serviço. Ele indagou se havia escada de madeira com extensão grande e, após confirmarem, ele checou todos os itens de sua caixa de ferramentas, e despediu-se da família prometendo que chegaria ainda a tempo para a singela ceia natalina.

O cansaço e desânimo de Margareth contrastavam com a alegria das crianças, “... pois é, para elas não há tempo ruim, pensou”. Afinal, o que seria do Natal sem a doce magia, a fantasia e a esperança retratadas nos rostinhos e olhares atentos de cada criança.

Eram oito horas da noite, a chuva parara, os flocos de neve voltaram a cair e a algazarra era grande, cada qual procurando juntar neve para o clássico boneco na frente das casas. As casas estavam bastante decoradas, pois a chegada do dia em que se comemora o nascimento do menino-Deus era sempre motivo de grande expectativa e preparativos no condado.

Raphael e Bernadete extasiados brincavam de jogar bolas de neve, enquanto a mãe os chamava para o banho e para se arrumarem para a ceia. Já passava de dez horas e nada de Jonas retornar, porque demorava tanto? Margareth estava mais apreensiva do que de costume.

Enquanto isso, Jonas com bastante dificuldade conseguira recolocar os últimos tijolos da chaminé. Ele torcia para que a argamassa secasse logo com o calor da lareira que seria reacendida após terminar o conserto.

A catedral já tocava os sinos chamando para a missa de natal, que terminaria às onze horas em ponto, a tempo de todos estarem em casa antes da meia-noite. O padre Smith fez uma bela homilia do evangelho emocionando a todos, recordou o papel dos pastores no nascimento de Jesus. Segundo o padre, acolhimento, a solidariedade e a fraternidade eram os lados de um triângulo equilátero onde reina o amor infinito pregado por Cristo.

A poucos metros da igreja ficava a casa do prefeito, então não passou despercebido dos fiéis o barulho de algo caindo do telhado. Um coroinha que preparava a patena e os cálices para serem conduzidos ao altar desde a entrada da igreja foi quem deu o alarme.

O prefeito que assistia ao ofício cutucou o assessor James e pediu que ele se dirigisse ao local, pois ficara preocupado com a possibilidade de um acidente envolvendo Jonas. James observou bastante consternado a figura de Jonas.

Ele havia caído sob uma planta ornamental que ficava em um grande vaso na lateral da casa. Um degrau da escada havia partido e ele despencara de uma altura de 5 metros, estava desacordado, mas não havia sinais aparentes de sangue na roupa.

Os bombeiros foram prontamente acionados, constataram que Jonas estava vivo e inconsciente e, após os procedimentos de imobilização levaram-no para o Pronto Socorro que distava 30 minutos do condado, passando por uma estreita estrada bastante escorregadia, com toda a cautela para não derraparem.

Margareth ainda não sabia do ocorrido, ela estava tão cansada após um dia tão exaustivo, que se desculpara quanto a ausência na missa natalina, em bilhete entregue por seus filhos junto ao bolo de nozes preferido do padre. Ela estava atrasada para os preparativos da ceia, que seria muito simples, a despeito disso, ela capricharia para que todos pudessem comemorar com dignidade.

Enquanto isso...

Jonas atravessa um caminho com folhas secas, ainda um pouco atordoado, parecia-lhe que algo batera em sua cabeça. Ele se encontra diante de um cenário majestoso, gigantescos ciprestes e pinheiros cobertos de neve. O que estava fazendo naquele local? Como chegara ali?

Foi quando começou a surgir diante de seus olhos uma figura com vestes alvas e uma túnica também branca, e de súbito parou e lhe dirigiu a palavra:
- Jonas você terá uma missão muito especial nesta noite.

Jonas escutara atentamente a mensagem que lhe fora dada, era uma nova missão e, como de outras vezes, esperava desempenhar a contento, ainda que estivesse estranhando tudo pelo qual passara desde que aceitara fazer o conserto da chaminé. Ele só se lembrava de haver terminado o serviço.

E, na cidade...

O padre e o prefeito dirigiram-se ao hospital, tão logo terminara o ofício religioso. Estavam bastante preocupados com o estado de saúde do pobre Jonas. James teve a incumbência de relatar o ocorrido para a família de Jonas. Margareth ficou em estado de choque e as crianças começaram a chorar convulsivamente. Como Deus permitira que aquilo acontecesse a Jonas?

O senhor de longas barbas entrega a Jonas, as rédeas de uma bela carruagem, a quem confiara a missão de substituí-lo aquela noite. Jonas ainda achava tudo muito confuso, como de uma hora para outra, ele deixara de ser um simples biscateiro para tornar-se um emissário de natal, o que isso implicaria? E sua família como estaria?

Enquanto vestia os trajes especiais preparando-se para a partida, Jonas recebeu as últimas orientações daquele sereno senhor, cujos olhos pareciam cintilar como estrelas no firmamento e cujas mãos tinham um toque de um pianista.

Já se aproximava a meia noite, as crianças excitadas deixaram o sono de lado, e puseram os sapatinhos junto à lareira ou na janela. Os pequeninos que dormiram mais cedo sonhavam acordar com os presentes em seus quartos.

Na casa de Jonas, o que as crianças mais queriam era o papai de volta, Margareth não pode ir ao Hospital, pois não havia com quem deixá-las. A ceia de natal fora adiada para o dia seguinte, estavam todos muito tristes, o pequeno Raphael disse: “eu só quero um presente neste natal, o meu querido papai de volta, que papai do céu ajude ele a melhorar”. Raphael já fizera a primeira comunhão e se preparava para ser coroinha.

As notícias do Hospital não eram animadoras, Jonas havia sofrido um traumatismo craniano e continuava em coma assistido, após ter apresentado algumas crises convulsivas. A cidade toda vivia uma grande expectativa quanto a situação de Jonas.

Enquanto isso...

Jonas seguia entregando os presentes, entrando em cada chaminé – por mais apertada que estivesse – ajeitando a barba postiça e a tradicional roupagem e túnica vermelhas. Ao final de tão longa jornada, ainda restavam alguns casebres na beira da montanha, para as entregas dos presentes natalinos. Em um destes casebres morava a família de Jonas.

Então, o velho senhor de longas barbas tocando Ele próprio uma harpa celestial chamou as renas e disse a Jonas que aquela parte do trabalho Ele mesmo faria. Jonas retrucou amavelmente dizendo “nada disso, com sua licença, o senhor pode ficar descansando, eu preciso terminar o trabalho a que me confiou, com Jonas sempre é assim, o que começo sempre termino”.

O velho senhor cofiou lentamente os fios de algodão da barba e dirigiu um olhar carinhoso para Jonas, dizendo-lhe: “Meu filho, conheço melhor a sua história do que você possa imaginar, sei do que é capaz. Mas você irá junto comigo, certo?

- Quero que esteja presente! Porém, quero que compreenda, que a mim sempre confio esta tarefa, me encanta ver aqueles pequeninos sonhando pelo presentinho mais simples de natal, eles quase nunca fazem pedidos extravagantes, se contentam com coisas bem simples, que já os deixa felizes. E tenho uma surpresa muito especial para Raphael e Bernadete.

- Ah, eu posso saber, senhor? Disse um curioso Jonas. Enquanto o senhor apenas sorria e colocava uma mão sobre sua cabeça... Ainda não, caro Jonas, retrucou.

- Mas, insistiu Jonas, o senhor me conhece tão bem, sabe até meu nome, onde moro etc. e tal, mas até agora não me disse como se chama.

- Jonas você me conhece mais do que imagina, conhece mais do que muitas pessoas, eu nem precisei ser apresentado a você, estou certo?

E, na cidade...

A ceia de todos não havia tido o brilho de antes, não viram sequer um asteroide riscando o céu de inverno – tinha um simbolismo era como se estrela de Belém voltasse milênios depois de orientar os reis magos – suas orações natalinas incluíam também a Jonas, para que Deus tivesse compaixão e lhe desse uma chance de passar aquele natal com a sua família.

As crianças foram dormir e os adultos no habitual cumprimento e troca de abraços e presentes com os vizinhos nas portas de suas casas combinaram que iriam fazer uma vigília de natal na entrada do Hospital onde Jonas lutava entre a vida e a morte, lembraram-se que os pastores assim fizeram admirando o menino Jesus na manjedoura.

E assim seguiram silenciosos, levando suas velas, a eles se juntaram o padre, o rabino e o pastor que seguiam à frente com o prefeito. A noite estava fria, mas suportável, quando irrompe um jovem de sandálias franciscanas e meias, com túnica alvas, mais clara que o branco da neve, não devia contar mais do que 10 anos.

Estavam todos estupefatos, quem seria aquele jovem, todos se perguntavam, mas não tinham coragem para se aproximarem, tamanha a energia e a vibração que dele emanava. Ele pedira educadamente para que abrissem caminho para que se dirigisse à porta de entrada do Hospital. James, o fiel assessor se oferecera para acompanha-lo, mas o prefeito lhe fez um sinal para que não interrompesse aquele jovem.

Passaram-se algumas longas horas...

Ao amanhecer, todos ainda se postavam em vigília, Jonas seguia em coma profundo, a dedicada equipe médica e de enfermagem não pregara olho. Eles estavam tão imbuídos na tarefa de salvar a vida de Jonas que sequer havia tocado algum pedaço dos quitutes de natal que aquela adorável gente havia levado para eles.

Os primeiros raios de um sol que ainda se espreguiçava no horizonte começavam a surgir e, de repente aparecem crianças vestidas humildemente, a frente de seus pais, elas com certeza vinham das redondezas, dos casebres ao pé da montanha, onde morava a família de Jonas.

Cada uma delas carregava uma fita enrolada nas mãos, eram fitas de tantas cores que não caberiam no arco íris que começava a se formar na cidade com as gotículas de uma garoa fina que se misturava a neve e aos raios solares.

Elas chegaram e foram entregando, sem fazer ruído, as fitas a cada par de pessoas que se postavam em vigília pela saúde de Jonas. Em seguida pediram para que abrissem e expusessem o que dizia cada fita.

Então foram surgindo palavras terminadas em “dade” capitaneadas por solidariedade, fraternidade, humildade, caridade, bondade, amizade... (as reticências são para o leitor completar).

Seguiram-se as palavras terminadas em “or” lideradas por amor, flor, cor, clamor, dor; e após tantos conjuntos de palavras, finalmente as palavras terminadas em “ação” lideradas por superação, determinação, resignação, sublimação, reação...

Alguém perguntara a uma das crianças, quem lhes dera aquelas palavras e como surgira esta ideia maravilhosa. Foi quando Bernadete, filha de Jonas que também chegara, tomou a palavra e lhes disse:
- Estas palavras vieram junto com nossos presentes de natal, mas a minha eu ainda não abri, quero abrir para mostrar a meu pai quando ele acordar deste “sono de natal”.

Todos mergulharam em lágrimas, estavam muito emocionados, o que haveria estaria escrito naquela fita de Bernadete?

Enquanto isso...

Jonas com a cabeça recostada no velho senhor de longa cabeleira branca, estava em profundo sono. O velho senhor deixava escapar furtivas lágrimas – ah, sim ele se permitia a estas emoções também, mais do que pudéssemos imaginar, era sensível o danadinho -, que corriam em direção ao arco-íris, mantendo aquela manhã incrível que se descortinava paulatinamente.

O velho senhor havia se comovido bastante com a manifestação da gente daquele condado, com cada frase que aquelas crianças leram. Havia dado por terminada a sua missão de natal, naquele ano. Mas onde se metera aquele jovem, que adentrara o Hospital e não mais saíra? Esperava retornar antes que o sol despertasse e, no entanto, ainda estava por lá.

E no Hospital...

Os doutores Jim e Mary e a enfermeira Verônica lutavam bravamente se revezando nas massagens cardíacas e com o respirador, além de medicamentos para superar as paradas cardíacas de Jonas, ele já havia parado por três vezes, todos estavam exaustos.

O Dr. Thomé saíra mais cedo do que de costume de sua casa, iria fazer a rendição de plantão dos colegas da noite, ficara espantado com a beleza do céu naquela manhã de Natal e, mais ainda, perplexo com a grande aglomeração de pessoas na entrada do Hospital e na praça em frente. Acontecera alguma coisa muito especial para o condado despertar tão cedo no dia de natal.

Dr. Thomé era um jovem médico negro que emigrara de Darfur, em virtude dos conflitos bélicos em sua pátria, o Sudão. Ele havia atuado em muitas frentes de socorros a feridos de guerra no Norte da África, pelo Crescente Vermelho (como se denomina a Cruz Vermelha no Oriente Médio).

Ao chegar à entrada do Pronto Socorro, um jovem de túnica branca, ajoelhado e imerso em profunda oração, com as mãos estendidas lhe chamou a atenção, ele trocou um olhar com aquele jovem, perguntou se era parente de alguém que estava hospitalizado.

O jovem lhe disse que sofria muito pelo que acontecera com Jonas e que estava à espera do doutor Thomé, pois o mesmo já havia atuado com sucesso em muitas missões. Thomé se surpreendera mais uma vez, como aquele jovem poderia conhecer tanto de sua vida.

E então o jovem pede ao Dr. Thomé que aguarde um momento - enquanto se apronta para entrar no pronto-socorro -, se dirige a porta do Hospital e pede ao guarda que deixe a pequena Bernadete entrar para falar com Dr. Thomé.

E o jovem de túnica branca, se dirige a Bernadete e pede que ela entregue a fita para o Dr. Thomé, que a recebe, lhe dá um abraço de feliz natal e agradece o presente. E lhe pergunta: “Pode me explicar o que significa esta mensagem”?

Bernadete diz “doutor, abra esta fita, mergulhe nela e dê o máximo de si para ajudar com seus colegas a salvar o meu papai Jonas”. Dr. Thomé emociona-se, abre a fita e surge diante de seus olhos uma mensagem brilhante com os dizeres: “Deus é amor, é vida, tenha fé e tudo ficará bem”.

Dr. Thomé olha para o jovem de túnica e para a menina Bernadete e diz, para eles: “Farei o possível e o inimaginável, com a graça de Deus, para que se opere um milagre da cura neste Natal. Pressinto que ele está presente a nos orientar, a nos dar forças e a soprar vida em Jonas”.

Bernadete e o menino agradecem e se dirigem para a entrada do Hospital, aguardando notícias junto aos demais.

Enquanto isso...

O velho senhor de longas barbas após longa vigília resolve tirar um cochilo. As renas já se alimentaram e também descansam ao pé da montanha. Quando, de súbito, Jonas acorda, e sem querer incomodar o senhor, diz a si mesmo, está na hora de voltar para casa, chega de aventuras por hoje. Antes, ele dá um beijo carinhoso na face e na mão daquele velho senhor.

Jonas avista um menino de túnica alva vindo em sua direção perguntando pelo velho senhor, ele indica onde está descansando “o amigo das chaminés” do dia de natal. E pergunta ao menino, ele é seu parente?

O menino lhe toca com a mão na face e diz, ele é o “pai” de todos nós! Jonas retruca, “mas ele não é o papai Noel da fantasia de natal das crianças de todo o mundo? O menino lhe sorri e diz: “Jonas, hoje você esteve sentado ao lado Dele, estes dias são muito especiais para Ele, gosta de reviver toda a criação, a grande obra Dele”.

- Sim, mas não compreendo... aonde você quer chegar? Aquele senhor, por acaso, é Deus? Mas ele não é invisível, está em toda parte, mas a gente não pode vê-lo?

- Sim, Jonas, tu o disseste, e além disso viveste este especial momento, disse o menino de túnica branca, e arrematou: “E então vens conosco? Já cumpriste bem a tua missão”.

Jonas, agora se via próximo a montanha e também deitado em um leito de hospital, seu espírito estava aturdido, o que decidiria? Surgiam em sua cabeça, a adorável esposa, as crianças, a sua casa por manter, o que elas fariam sem ele? Mas, começou a perceber a gravidade de sua situação, ao afastar-se lentamente daquelas figuras encantadoras, a do velho senhor e, agora a do menino de túnica, tudo aquilo era um sonho ou pesadelo?

Enquanto isso, no Hospital...

Dr. Thomé já assumira com a equipe de dia, o seu plantão. Jonas havia feito grandes progressos, estava em coma superficial, já respirava bem com os aparelhos e as funções cardiocirculatórias estavam dentro da normalidade. Ele se prontificou a dar a notícia a família e as centenas de pessoas do condado que se avolumavam a porta do hospital com suas velas acesas orando.

Dr. Thomé pediu a todos que fossem para as suas casas, que assistissem os ofícios religiosos em seus respectivos templos e que seguissem orando pelo restabelecimento de Jonas.

E para reforçar a sua crença de que tudo haveria de ficar bem, pediu a Bernadete que junto ao jovem de túnica branca estendesse a faixa com a frase de fé.
Todos saíram preocupados, mas esperançosos pela recuperação de Jonas, e ainda bastante intrigados com a presença daquele jovem de túnica branca e daquelas mensagens que lhes fora endereçada através das crianças, quem havia tido aquela ideia?

Quando os sinos tocaram 6 horas da tarde, a hora da Ave-Maria, havia muita gente se dirigindo para a Sinagoga, para a Igreja Católica e para o Templo Batista.

Jonas, consegue nos ouvir? Diz o velho senhor de longas barbas que acabara de despertar. Entreabrindo os olhos Jonas disse “Sim, estão comigo aqui? Mas porque será que não os vejo?
O menino de túnica branca lhe sopra ao ouvido “tenha calma, tudo ficará bem, confie em Deus e nos cuidados da equipe médica, o Dr. Thomé e colegas irão cuidar de tudo”.

- Mas, então, eu não morri? Jonas diz desconfiado... nesta hora, entra o Dr. Thomé que entre surpreso e gratificado, diz “eu ouvi tudo” o que disse, que bom que está acordando.
Doutor, não vá achar que estou ficando maluco? Deve ser efeito da queda e da pancada, desconversa Jonas.

Então o Dr. Thomé lhe diz, “eu também tive o privilégio de estar com Este menino, sei muito bem o quanto Eles te amam e querem a sua recuperação, Jonas. Se nós estamos loucos, é para viver a vida com a fé, a paz, o amor e a esperança que o Natal enseja”.

Jonas sente uma mão amorosa afagar a sua cabeça e um menino de túnica branca lhe acenar, e lhe soprar ao ouvido, cuide bem de Bernadete e Raphael. Fecha novamente os olhos, fica um pouco agitado, o doutor Thomé lhe dá um sedativo, enquanto a sua equipe assiste maravilhada e em silêncio a toda aquela mágica cena, de um verdadeiro milagre de natal.

Todos correm ao Dr. Thomé e lhe dão um carinhoso e longo abraço e cada qual vai se juntando ao abraço. Missão cumprida, feliz Natal. Alguém lhes chama a recepção, era Margareth, a dedicada e sofrida esposa de Jonas, ela lhes traz uma torta de nozes.

Dr. Thomé indaga a Margareth quem era aquela senhora de túnica branca que chegara com ela até a entrada da recepção, porque ela não entra também.
Margareth em sua simplicidade diz, “ela me fez companhia desde a noite do acidente com Jonas.

Ela disse que precisa encontrar com sua família agora, sabe como é, a Família Sagrada é a primeira a dar o exemplo, mas pediu para desejar-lhes um feliz natal e agradecer a tudo que fizeram e continuam fazendo pelo Jonas”.

AjAraujo, o poeta humanista, escrito em 9 de dezembro de 2015.

Arte: "Wintery Night" by Kevin Dodds (Canadian Painter, Ottawa).
 
A chaminé - conto de Natal (AjAraujo)