Contos de terror

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Um sonho de morte

 
A imagem com que me deparei ao abrir a porta da casa que ia dar na edícula nos fundos do quintal foi arrepiante, um corpo boiando sobre as águas da pequena piscina. Ao me deparar com a cena meu corpo quis voltar, mas a curiosidade foi mais forte, eu tinha que ver o rosto do homem que boiava. Não havia sangue misturado com a água nem pelo chão ao redor da piscina, o corpo estava encostado na borda da piscina entre a parede e a escada que brilhava exibindo seu inox cor de prata, peguei uma vassoura que estava perto da porta e por nojo ou medo não coloquei a mão no corpo e utilizei a vassoura para virar o corpo. Levei um grande susto, pois o rosto era o meu e então me lembrei de que eu morri de frio ao nadar numa piscina cheia de cubos de gelo.
Dei as costas e saí correndo, fechei a porta da casa, meu filho de cinco anos me apontava o teto onde meu corpo estava pendurado, um alarme dispara na minha garagem pego uma arma sobre a estante e saio na varanda de arma em punho, minha mulher implorando para eu voltar, no escuro vejo dois homens encapuzados, ladrões certamente caminho rápido e quando chego perto do carro grito de arma apontada e já não são mais bandidos e sim dois policiais e rindo de mim dizem para que eu atire neles, apontei a arma e puxei o gatilho algumas vezes, mas todos os disparos falharam. Os policiais ainda rindo me deram ordem de prisão e passei de vítima a bandido, corri pela rua e por muito tempo, cheguei numa ponte que dividia a cidade ao meio e vendo os veículos em minha direção tomei uma decisão e pulei no rio mesmo sem saber nadar.
E no fundo do rio na tentativa de voltar a superfície vi um corpo que passava por mim, o turvo da água não me deixava ver a fisionomia do corpo, então nadei um pouco para mais perto e novamente era meu corpo, mas desta vez o corpo era o meu e eu não estava nele. Senti um terror enorme e comei a gritar de medo, de repente uma luz forte e clara entrou na minha retina me deixando cego e uma voz ao fundo que pedia calma e quando meus olhos se acostumaram com a luminosidade vejo minha mulher ao meu lado assustada, entendi que era mais um pesadelo.
 
Um sonho de morte

Terror no Banheiro

 
Terror no Banheiro
by Betha Mendonça

O clima abafado e úmido do verão nortista é incomodo. Fora de ambiente refrigerado, Aliandro tinha a pele grudenta, as mãos suadas e pegajosas. Para completar, naquela tarde quente, um cheiro desagradável de suor pairava no ar como premonição aziaga.

O homem entrou num boteco sujo de esquina a procura de um banheiro onde pudesse refrescar-se. Deteve-se na porta do compartimento ao ler um texto em vermelho vivo: quem entra não sai!Alguns segundos após, a cabeça balançando e sorrindo - como quem lera uma piada - adentrou o pequeno espaço. Simples. Esmeradamente limpo para o ambiente mal cuidado do bar: uma pia média, espelho, sabão líquido, toalhas de papel e duas divisórias com portas onde ficavam os vasos sanitários.

Abriu a torneira. A água fria em suas mãos deu-lhe novo animo. Lançou-a sobre a cabeça e rosto.Sentiu um líquido quente e viscoso desce-lhe o corpo.Ao olhar no espelho, imagens distorcidas dançavam como pesadelos em frente dos seus olhos esbugalhados e sangue escuro como açaí tingia-lhe as vestes.Os espaços entre as lajotas tomavam vida: serpentes rastejando em sua direção.E o sangue não parava de jorrar da pia, por mais que tentasse fechar a torneira.

A porta de saída estava travada. Nem ele mesmo conseguia ouvir suas pancadas fortes e gritos de socorro. Desesperado fechou-se num dos cubículos. Subiu na tampa do vaso com esperança que ficar longe do alcance das víboras. Pobre infeliz: picado por dezenas de cobras e sangrando foi lançado por uma macabra mão saída do vaso e enterrado vivo no espelho onde ficaria a espera do próximo incauto...
 
Terror no Banheiro

A Rosa

 
A guerra devastara tudo, não sobrara nada que valesse a pena. Era o condado de Cottingley, Irlanda, logo após a 1ª guerra mundial. Estávamos todos atônitos com o que descobrimos que os humanos eram capazes de fazer. Mas também estávamos de certa forma, felizes, porque depois de um conflito como aquele, certamente não iríamos querer outro. O retorno para casa houvera sido triste. Não caíram bombas lá, mas a maioria dos jovens foram levados pela guerra. Não se via mais crianças trepadas nas árvores, nem jovens correndo pelas ruas ou namorando nas praças. A inocência havia acabado, ficara lá, nos campos e nas fábricas. As jovens foram forçadas a deixarem a cidade para irem trabalhar nas fábricas de bombas ou de tanques, e por lá morrido de tuberculose, estupradas, ou casadas com homens bem mais velhos, para terem a esperança de saírem da penúria em que se encontravam.
Josh fora um dos poucos rapazes que retornaram inteiros. Pelo menos, por fora. Depois de enterrar pessoalmente dezenas de amigos na guerra, descobrira que sua noiva havia morrido num acidente com uma ogiva, numa das fábricas. Os dias em Cottingley se tornaram como eternos domingos à tarde, quando se senta num banco perto de um bosque, e fica olhando o sol se pôr, esperando a eterna segunda, que nunca vem.
O bosque de musgo era infame em toda a cidade. Lugar a ser evitado. Ainda podiam ser encontradas cordas e esqueletos dos que se enforcavam por lá. Histórias sobre fantasmas, homens estranhos e luzes andantes que arrepiavam até os ossos homens experientes, e os mantinham a uma distância segura de lá...
Mas, Josh se sentiu atraído por seu magnetismo. Era um lugar abandonado pelos homens, mas mesmo assim, lindo. A luz feérica que entrava, dobradas entre as folhas das árvores, espalhava um tom verde-claro sobrenatural, como uma chuva de luz que desce sem pressa e se fixa nas coisas, como gotas de orvalho cintilantes. As aves e os insetos sussurravam uns com os outros, sempre escondidos dos olhos dos homens, como se zombassem deles. Era um ambiente que te abraçava e te sufocava, te convidado à tristeza e à reflexão, e se você não estivesse suficientemente satisfeito consigo mesmo, acabaria pendurado por uma corda, ou pulando no precipício que dava fim ao bosque.
Talvez, Josh quisesse mesmo esse destino... eu não sei. Só sei que ele caminhou por um bom tempo, embrenhando-se na vegetação, respirando aquele ar frio que te refresca por dentro e te esquenta a superfície dos olhos... Até que ele se deparou com uma clareira, onde uma única rosa reinava esplendidamente. Eu poderia dizer que ela era a rainha de todo o bosque! Todo o verde fugidio ao seu lado, contrastava com o vermelho sanguíneo de suas pétalas, magnificamente abertas e frondosas. E a luz que descia das copas das árvores, a iluminavam feito holofotes naturais. Era a coisa mais linda que ele já tinha visto.
Primeiramente, ele sentiu a inclinação de deixá-la ali. Não poderia colher tão bela flor, arrancar de seus ramos uma obra tão sublime da natureza. Mas ela era tão linda que não poderia sair dali sem levá-la consigo, ainda que soubesse que ela não duraria um dia dentro de um jarro d'água. Mas ele quase não teve escolhas.
Procurou com todo o cuidado decepar a rosa sem danificá-la, mas o cuidado que teve para com a flor, não o teve para consigo mesmo... e feriu-se em um dos seus espinhos...
E enquanto uma fina gota de sangue surgiu em seu dedo, sentiu-se tonto, caindo em vertigens, ajoelhando-se em frente à flor.
Num primeiro momento faltou-lhe ar, pensou-se envenenado. Sua pele fria tremia, a sua boca secava. E então, as suas pernas trincaram, num som de madeira seca. Os seus braços enterraram-se no chão, como cipós, e os seus cabelos pendiam para a terra como ramos de uma oliveira. Gradualmente, foi tornando-se branco como um fantasma... e a sua pele e carne tornaram-se finas como um papel... Até tomar a forma de uma flor, para sempre encravada no chão.
A sua consciência era a mesma. Sabia do ocorrido... Sentia tudo... Mas não podia gritar e nem avisar ninguém. Ele não saberia dizer se estaria para sempre naquela situação, ou se o próximo e severo inverno, seria definitivamente o seu algoz.
Ele torcia para que fosse...

Um dia encontrei escrito num templo dentro de um bosque, a seguinte inscrição:

Fina flor que os espinhos guarda
Solitária... frágil, sempre isolada
Que a chuva destrói... o vento, a geada
Serás de finas e doces pétalas a sua mortalha.

Mas antes de partir, tem dentro do peito,
Do mais nobre e justo direito,
O sonho de viver um grande amor,
Pois nem uma flor, quer um mundo de solidão, e dor...

Então uma fada enfeitiçou-lhe as cerdas com um pó
Para que assim não mais vivesse a rosa só
Pois um dia alguém se encantará incrivelmente
Quando em seu espinho ferir-se, irremediavelmente

E assim, aquele que tiver o seu dedo a sangrar
Sabe como o futuro para ele virá.
Entende que o desespero e a tentativa serão em vão
Pois em breve, como raiz, terá os seus pés cravados no chão.

E assim, sempre ao lado de tão encantadora rosa
Por quem tão e devastadoramente se apaixonara,
Que ao vê-la colhida numa tola poda.
Como um simples e solitário cravo, agora chora.

O seu destino agora é esperar
Por que um cravo não tem espinhos...
Logo ficará sempre sozinho,
Até que o vento frio e daninho, para sempre venha lhe decepar...
 
A Rosa

Eu Sonho Com a Borboleta, Ou a Borboleta que Sonha Comigo?

 
Eu estava sentado sobre uma pedra, era março de 2004, e uma borboleta grande de asas azul cobalto passou por mim, como se eu não representasse nada, e pousou com pouca monta no meu ombro esquerdo. Eu tinha a estranha impressão de que o dia estava diferente, mas não sabia definir o porquê. Às vezes me sinto assim... Achei aquilo estranho, porque geralmente costumam nos evitar os insetos e os animais mais delicados, coisa que acho inteligente da parte deles, mas aquela borboleta, por algum motivo, resolveu pousar ali.
No início, fiquei admirando aquele belo exemplar de Lepidoptera, cujas asas refletia uma interessante frequência de ondas eletromagnéticas do espectro azul. Lembrei-me que esse tipo de inseto, embora belo, vem daquela repugnante larva que não me agrada muito, e procurei espantá-la... Mas ela ia e voltava... voava e pousava de novo.
Uma moça, muito bonita, passou e elogiou o fato de uma borboleta ter pousado em mim, fato raro e digno de observação, como visto. Fiquei lisonjeado, claro, mas algo me incomodou na hora, embora eu não conseguisse dizer o que exatamente.
Fui vencido pela borboleta, e a deixei ali, enquanto observava o movimento do outro lado da rua. Os carros iam e vinham, as pessoas se acotovelavam com pressa e sem se darem conta da vida passando ao lado delas, uma chuva se ensaiava no horizonte, o barulho sempre insuportável do trânsito...
Então, de repente, me vi acordando com alguém abrindo a porta das dobradiças enferrujadas. Eu estivera dormindo o tempo todo. Mas não me dei conta disso, era tudo tão real e lógico. Na verdade, em meus sonhos, nunca questionei a realidade que vivia, por mais absurda que me parecesse depois de acordado! Ainda deitado na cama, esfregando os olhos, lembrei-me da moça do sonho, e porque ela havia me despertado um estranhamento. Era a minha vizinha que havia morrido há pouco mais de dois meses. Mas no sonho, ela estava viva. Lá, ela existia, e a minha memória de agora estava morta.
Ao olhar para o lado, no parapeito da janela, uma coisa me surpreende. Uma borboleta enorme, de asas azul cobalto, espreitava os arredores do quarto. Acho que ela queria entrar! Assustei-me na hora! Será que eu também veria a minha vizinha? Eu ainda estava sonhando? Eu estava acordado? O que é a realidade? Talvez eu seja apenas um sonho de alguém, ou mesmo o sonho da própria borboleta.
 
Eu Sonho Com a Borboleta, Ou a Borboleta que Sonha Comigo?

Um Caso Real (4)

 
Quantas histórias são verdadeiras? Pra mim, todas as histórias tem um fundo de verdade, porque acabam expondo um sentimento, uma impressão, uma experiência, que por mais subjetiva que sejam, existiram, e então, se torna verdade por si só.
O homem de chapéu, por exemplo, encaixa-se perfeitamente na veracidade ou não de uma história. Por que, quando alguém lhe diz que viu um homem de pé na porta, negro como a noite, de capa e com um grande chapéu sobre a cabeça, você logo situa essa pessoa no seleto círculo dos doidos de todos os gêneros. Ou loucos de pedra, daqueles que rasgam dinheiro, ou também, louco de amor, esquizofrênico, drogado... e todas as outras qualidades de doidos que o nosso mundo tão bem produziu nos incontáveis anos de loucura da nossa sociedade. Que louco, não?!
Pois bem, mas ainda assim, essa história seria verdadeira, pois mesmo que tenha sido uma alucinação, a historia aconteceu! E do ponto de vista de alguém, ela é real. Veja como a natureza do real é estranha... Aliás, a própria palavra alucinação não explica nada, afinal, se diz o que é, mas não se explica porque é! Não se conhecem os mecanismos reais da alucinação, só que são os mesmos mecanismos que acionam a dor quando você mete o dedão numa pedra, e isso pra mim não tem nada de alucinatório! Ontem mesmo meti o dedo num toco, e ele tem doído pra caramba, desde então. alguém tem de dizer a ele que foi uma alucinação...
Para os psicólogos, eu tive um devaneio ou delírio, ou então, tenho uma necessidade tremenda de atenção. Mas não creio. Na verdade, sou bem acomodado e recluso, e sempre fui satisfeito comigo mesmo. Para os psiquiatras, eu tive uma alucinação. Para os espíritas, eu vi uma aparição, e talvez ela esteja me perseguindo por ai! Para os médicos, eu tenho um possível tumor que me faz ver coisas que não existem, ou sonhar acordado, mesmo quando esse sonho se senta na minha cama, ou joga uma moeda pra cima na cozinha às três da manhã, ou descobre os meus pés à noite! Mas eles nunca se perguntaram a si mesmos sobre a natureza da realidade! Porque para os psicólogos de cem anos atrás, tudo tinha origem em desejos sexuais reprimidos, inclusive uma simples dor de cabeça. Para os psiquiatras, não existia nada que uma boa lobotomia pudesse resolver (ainda hoje pensam assim – os remédios são uma lobotomia química!). E para os médicos, era o cérebro que resfriava o corpo, e pensávamos com o coração! (Confesso, que às vezes eu penso com o coração...). A realidade muda constantemente. Ela muda pra mim o tempo inteiro. Eu amava futebol, hoje eu odeio! Acreditei muito nas pessoas, hoje, ninguém me engana mais! E por ai vai...
Naquele dia, eram onze da noite, e ela mudou completamente pra mim, quando o meu irmão pequeno, na época, pediu para acender a luz por que ele queria ir ao banheiro!
Meu pai estava sendo explorado por uma empresa, e por isso trabalhava a noite toda. A minha mãe, oriunda da roça, e cheia de medos do escuro, colocava todos os filhos para dormirem juntos no mesmo quarto, para fazerem companhia para ela. Eu, já desde cedo, questionador e indiferente frente aos dogmas humanos enraizados, nunca acreditei em fantasmas que apareciam no escuro para assustar criancinhas. Até aquele dia!
-Levanta e acende a luz pro seu irmão ir no banheiro! –Lembro-me até hoje da frase!
O interruptor estava de frente pra cama, ao lado da porta, de maneira que ao me levantar, dava de cara com ele, eu podia vê-lo brilhar no escuro com a sua fosforescência.
Levantei-me num só impulso. Cansado, doido pra voltar e dormir. Mas ao colocar o primeiro pé no chão, e já com a mão esticada em direção ao acendedor, eis que me deparo com uma insólita figura!
Alta, tanto quanto a porta que estava aberta! Escura, mais do que a escuridão que tomava o quarto. De chapéu de abas longas, como um sombreiro mexicano – por muitos anos perguntei-me o porquê de um fantasma precisar de um chapéu – e com uma capa jogada nos ombros!
Na hora endureci todo! E fiquei parado, ali, olhando para aquilo, tentando entender e processar a informação visual que secou a minha garganta e acelerou o meu coração, levando-me às raias do desespero e do pânico! Mas sou homem, e achava que homem não deveria chorar e nem gritar como uma mocinha, e mesmo eu tendo vontade de fazer isso, voltei imediatamente para debaixo das cobertas, cobri a cabeça, e claro, não acendi a luz!
Verdade ou mentira? Bem, pra mim foi verdade! Como um menino bem comportado, nunca bebi nem usei drogas, nunca tomei remédios controlados, não tinha nem dormido pra ter sido resquício de sonho, e nem tinha comido batata estragada ou rabada com agrião.
Minha mãe, como boa representante da parte campal da cidade, e por isso mesmo pouco delicada e mais bruta, por assim dizer, espancava-me com cotoveladas e palavras impronunciáveis, de, porque diabos eu ainda não tinha acendido a luz! Aguentei firme aquela tortura, pois preferia apanhar até de manhã cedo, a encarar de novo a sombra estranha em pé na porta! E assim eu ficaria, até o sol raiar, se o meu tio que dormia no colchão ao lado da cama, não tivesse ele mesmo se levantado por causa da gritaria e acendido a luz, iluminando o quarto e me salvando das pancadas.
Como bom curioso, com a proteção da luz e a segurança subjetiva de todos acordados dentro no quarto, olhei pra porta, procurando explicação para o ocorrido. Nada! Nem sinal de algo que pudesse ter me induzido a ver o que eu vi.
Aquele era o começo de uma longa história em busca da verdade. Alguém está escondendo algo de nós? Que são essas coisas que existem entre o céu e a terra?
Bem... cedo aprendi que o que quer que seja, não se apresenta, apenas se insinua. Das duas, uma: ou não merecemos a verdade, ou não aguentaríamos ouvi-la!
 
Um Caso Real (4)

A casa da curva

 
Aquele lugar realmente dava medo. Havia inúmeros relatos mencionando fatos estranhos que ocorreram ali. Era uma casa abandonada que ficava a beira de uma estrada de terra, numa curva, a uns quatro quilômetros da cidade, no caminho de um pequeno rio que, quando criança, adorava nadar com meus amigos. Parte dela já havia caído, o mato invadiu tudo. Não haviam mais portas nem janelas e dava pra ver, lá dentro, alguns cômodos vazios. Aquela visão incomodava ainda mais quem passava por lá. Do lado da casa ainda dava pra identificar o poço e, por um resto de madeira, um pequeno curral, também tomado pelo mato. Na curva da estrada, pra aumentar ainda mais o clima macabro, havia uma pequena cruz. Ninguém sabia ao certo o porquê, alguns diziam que foi colocada ali na tentativa de espantar os maus espíritos que assombravam aquele lugar, outros diziam que nada tinha a ver com os fatos relacionados à casa, que foi um acidente que vitimou uma criança. Até hoje não sei o motivo, nem se ainda esta lá.
Contam que naquela casa morava um casal e que o homem, de repente, começou a se comportar de forma estranha. Dizia ouvir vozes que o perturbava constantemente, que via vultos em torno da casa, que algo lhe perseguia. Um dia, sem motivos, guiado pela loucura, pelas supostas vozes, ele matou a mulher a golpes de machado, jogou o corpo retalhado no poço e em seguida se matou, pulando no poço com a corda usada pra puxar o balde amarrada no pescoço. Os corpos foram encontrados dias depois, já em estado avançado de decomposição. Como o casal não tinha filhos, a terra ficou para os irmãos que logo venderam. O novo proprietário cercou a área em volta da casa como reserva e deixou o mato tomar conta, não quis saber daquela casa, construí uma nova sede bem afastada dali.
São várias as estórias. Dizem que até hoje, o lugar é assombrado pela alma perturbada deste homem. Que seu espírito às vezes persegue quem passa por perto, mas por sorte, por alguns metros apenas, dizem que ele não se afasta muito da casa. Muitos dizem que já ouviram gemidos e choro que vinha lá de dentro. Um senhor, certa vez, disse que à cavalo não conseguia passar ali, que todas às vezes que tentou, seu cavalo relutou e não teve jeito. Fato é que as pessoas evitavam passar ali à noite. Em todos os outros rios que a gente ia, não nos importávamos muito com a hora, às vezes chegávamos em casa bem tarde, mas naquele, antes da cinco da tarde já pegávamos a estrada de volta. Todos morriam de medo de passar tão tarde em frente daquela casa. Passávamos de bicicleta correndo, desesperados. Por muito tempo a casa da curva assombrou nossa imaginação.
 
A casa da curva

A Torre Assombrada do Relógio

 
Naqueles dias de outono, as árvores semeavam gentilmente as suas folhas secas, de cores férreas, nos pés soturnos da grande torre de vigia, que delimitava a pequena vila. Era o grande orgulho daquela cidade de camponeses, e como beirava um grande precipício a beira do mar, também já havia sido um importante farol, e outrora, uma construção destinada a execução de bruxas e congêneres da mesma extirpe, sem fazer disso uma redundância.
O governador da pequena vila, vinte anos antes, havia mandado colocar um imponente, belo, e reluzente relógio no alto da torre. Era o capitalismo chegando, juntamente com as fábricas, para escravizar de vez os moradores da pequena cidade, domando-lhes o tempo. Agora, tinham hora de acordar, comer, dormir, ir ao banheiro e outras coisas congêneres, sendo agora, redundante.
Pois bem. Nos últimos sete anos, o relógio permaneceu estragado. Parou exatamente às 3 horas da tarde, numa sexta-feira de agosto, e não houve cristão, e nem pagão, que fizessem o relógio voltar a funcionar. E não havia mecânico nos últimos mil quilômetros, que pudessem dar um jeito em tão intrincado mecanismo.
Buscaram Léo Oto, o melhor relojoeiro do país. Quiçá, do mundo! Andava sempre com as suas complicadas ferramentas ao lado do corpo, como se estivesse armado, seu sinistro óculos de aro fino, como se se orgulhasse deles, e o seu ar de superioridade, que congelaria um fidalgo da corte de Luiz XIV, o tal rei sol, ou Luizinho, para os íntimos.
Léo encarou a velha torre contra o sol, como se ela fosse um gigante a ser vencido, e ele, Don Quixote, o da Mancha, no seu mais alto delírio cavalheiresco. Empunhou a sua chave de fenda suíça, como se desembainhasse a própria Excalibur, e galgou os cento e quarenta e quatro degraus que levavam até o relógio no alto do campanário.
Lá em cima, encontrou toda a parafernália mecânica que dava vida ao relógio. Mexeu, remexeu, fuçou, escarafunchou; e nada! Jogou óleo nas juntas. Nada. Trocou engrenagens; Niente. Trocou a mola, nothing. Bateu com um pedaço de pau, nichts! Moirão de cerca, pia da cozinha, granada... Nada fazia o relógio voltar a funcionar!
Ferido então, que estava em seu orgulho, vendeu a sua alma ao capeta. Por que o espanto? Fazemos isso o tempo todo... Lembrem-se: " Não se pode servir a Deus e a Mamon". Sendo dessa forma, "aquilo" chegou, atendendo ao seu apelo.
-Pontual como sempre - disse o espírito da escuridão.
Léo olhou em seu relógio de bolso, eram exatamente 14 horas e 59 minutos.
-Estive esperando por você, por todo esse tempo. Antes do oceano lá embaixo existir - disse outra vez a sombra.
Foi então que Léo entendeu, que o relógio da torre marcava 3 horas, o que forma, na verdade, com os ponteiros, a letra L, de seu nome. O três, é a letra E, invertida. E o 12, a zero hora do mundo. Ou também, a letra O.
Como num soluço, e de repente, o relógio bateu as três horas da tarde, e voltou a funcionar!
A alma de Léo Oto se despedaçou, e em mil partes, vaga pela sala do relógio, e de lá não poderá mais sair. Ele aparece, às vezes, como um rosto assustado, desenhado na janela, depois que o sereno assenta no vidro. Ou como uma mão esquelética, que arranha as costas das pessoas que se aventuram por lá.
Dez anos depois, o relógio parou novamente. Era 26 de abril, e marcava 16 horas e 23 minutos...
 
A Torre Assombrada do Relógio

A Lama

 
Todos vivem num grande pensamento ou sonho, todos vocês, juntos, construindo em massa o que chamam de realidade. Cada sociedade, planeta, ou instituição, tem uma porção daqueles que os construiram, como um DNA, ou uma marca d'água, indelével, como uma assinatura daqueles que a projetaram. Na verdade, a realidade é um espelho do que vocês desejam, do que vocês anseiam, do que vocês são...
É assim no cotidiano... as roupas dizem muito do que somos. O relógio que se usa, o carro que se compra, cada uma, e pequenina coisa, tem um pouco da personalidade daquele que a projeta, ainda que isso passe despercebido...
Assim também funciona no macrocosmo. A sociedade é o reflexo daqueles que a projetam. Vocês criam o passado, o presente e o futuro... E, ah... não me digam que quiseram coisas melhores. Tudo é, foi, e será, exatamente como cada um de vocês quis! Porque o coração do gênero humano anseia pelo conflito, pela segregação e pelo hediondo.
Usar da linguagem metafórica aqui, para comparar o que aconteceu a respeito do mar de lama que se rompera, depois de anos estagnado, e prejudicou inocentes, a despeito e diante do desprezo das autoridades, em comparação com o modo como o país e o seu povo é conduzido, é chover no molhado. Mas sim, isso serviu como uma metáfora da sua sociedade, apenas refletiu a situação de um país, que sabia-se conter muita lama escondida, e que um não suportaria o próprio peso de sua iniquidade. Por mais metafórico que isso possa parecer.
E assim caminha " la humanité ".
 
A Lama

O Farol

 
-Ergam as velas, seus miseráveis! - gritava o capitão, sem esperanças nenhuma de que aquilo realmente pudesse dar certo.
-Caiu mais um ao mar, meu senhor! Lamentava a plenos pulmões um humilde marinheiro, tão enrolado nas cordas quanto o mastro do navio.
E a tempestade furiosa e impiedosa caía! Derramando uma fúria que nem o mais experiente dos marinheiros ali presente poderia imaginar que seria possível.
As ondas erguiam-se de tal maneira e de forma tão medonha, que lançava um pavor indizível aos olhos e faces daqueles pobres homens. Era como se um titã grego, de quarenta metros de altura, levantasse do próprio inferno a rugir e a desmantelar tudo e todos que visse pela frente. E quando os raios da noite cortavam a tempestade e transluziam através das ondas transparentes, transformando-as em vidro, e destacando o diminuto barco de madeira perdido e achocalhado entre ás aguas, é que os marinheiros, então, homens valentes, ajoelhavam-se no chão e rezavam.
Estavam acostumados às rudezas da vida, ao sal do mar, e ao sol da terra. Enfrentaram outras tempestades antes, sim. Mas aquela, aquela não existia relatada nem na mais terrível das aventuras que costumavam contar e cantar.
-Guia-nos ó Senhor, para longe da tormenta! Gritava os homens em desespero, sonhando ainda em encontrar terra firme e uma boa cama quente para poderem dormir.
Uma luz surge esmaecida na distância. A chuva, forte demais tentava abafá-la. Fazia-a tremeluzir como estrela, apagá-la, mas ela persistia.
-Um farol! - gritou um dos homens -Vejam, um farol!
Num esforço sobre humano tentaram controlar o navio, direcionando-o para a luz salvadora. Mas a tempestade os castigava, surrava-os! Lançava o navio às cristas das ondas e o deixava descer rolando, incapaz de reagir. Mergulhava-o nas águas gélidas e escuras do oceano, salgando os seus corpos e as suas almas! Talvez o mar tenha querido lavar os seus deslizes, expurgar os seus pecados, pois eram homens ensopados em pranto e em fúria.
E enquanto lutavam contra o destino, a luz parecia aumentar mais e mais, até romper a névoa da chuva e surgir como um vaga-lume ou dragão de fogo, como diriam os ingleses. Viram, com dificuldades, aquele gigante de pedra ir surgindo lentamente ao aproximar-se da castigada embarcação, e ele rompia a escuridão num rompante de luz, num facho de fogo a lutar contra a água e a escuridão.
Era um farol esbelto, altivo, cravado no cume de uma falésia, como a espada de excalibur estava cravada na pedra em Avalon.
Subiram a montanha escorregadia à luz dos raios que despejavam do céu. Estavam quase sem palavras, tamanha a alegria de se livrarem da morte certa, do desespero do oceano e da agonia de se afogarem e serem devorados por peixes...
Ao adentrarem dentro do farol, procurando se abrigarem da chuva, uma surpresa...
-Vó?! O que fazes aqui? - disse um dos marinheiros aturdido. Era uma senhora de pé, junto a porta.
Os outros estranharam, tremeram-lhes as pernas e faltaram-lhes fôlego.
Um outro marinheiro, aos gritos, disse a um senhor sentado na mesa:
-Não! Pai?! Como pode!...
O capitão aproximou-se:
-O que está acontecendo aqui?
-Minha avó senhor, está ali!
-Estou vendo, homem. Componha-se!
-Mas ela morreu, senhor! Há quinze anos...
E então começaram a entrar pessoas estranhas, pessoas que já haviam morrido num passado distante, enchiam a sala turva do farol...
-Acalmem-se, não se assustem... Estão em casa agora.

... Na agonia e no desespero, suas almas continuaram lutando, mesmo depois do mar já ter levado os seus corpos...


Na última noite, antes da tempestade, eles haviam cantado essa música:

Sobre a colina, que o brilho inflama...
Vence a névoa, feito um estandarte;
Que o vaga-lume traduz, com brio e arte
Uma luz me guia em forma de chama.

É para ele que os olhos se voltam
Daqueles que sem rumo navegam no mar...
Na esperança de encontrar quem tanto os esperam
Aqueles que já ama... ou que vai aprender a amar.

Obra do homem, rompe os ares, vigorosa!
Pergunto-me, quem és tu que de pé vigia
Os meus mares, nem sempre de rosas?

Antes, eu estava perdido, cercado de mares e do céu...
Antes de lhe ter tido, minha estrela-guia
A minha vida não passava de um grande escarcéu.
 
O Farol

A Bruxa do Cristal

 
Descendo por uma estrada atrás de uma pequena serra, nas cercanias da minha cidade, existe um descampado íngreme e verdejante margeando um tranquilo rio, onde descansa um antigo moinho, que lembra uma cabana velha. E que se tornou o principal responsável pela lenda que acabrunha tal insólita paisagem, e que agora eu vou contar:
Muitos falam de uma bruxa que fica a vagar por aqueles meandros malditos, sobretudo à noite e pela manhãzinha, quando a neblina do rio é especialmente densa.
-Corre que a Azamora vem ai! - gritam os pais aos filhos pequenos, na tentativa de amedrontá-los e afastá-los de perto do rio.
-Quem fez isso? -Foi a Azamora! -responde um engraçadinho qualquer, para se livrar da resposta, desconversando...
E assim fica, por qualquer coisa: - Azamora pra cá, Azamora pra lá... - de boca em boca. Até que um dia, coisas estranhas começaram a acontecer...
Luzes estranhas eram vistas perto do moinho, ou até mesmo dentro dele. Gritos medonhos e finos ouvidos perto do rio, vultos enormes e negros rasgando a noite, vez ou outra.
Logo, um morador mais atuante, que futuramente com certeza pretenderá se candidatar a algum cargo público, reuniu todos na porta da velha igrejinha, na esperança de achar um otário, quer dizer, um corajoso exemplar masculino, para ir ver se a origem dos boatos tinha razão de ser. Como sempre fui otár... corajoso, e necessitava mostrar a minha macheza para a Rosinha – a maravilhosa filha do João boca de cavalo, dono de uma chacarazinha perto de casa – candidatei-me, na certeza de que outros tantos se candidatariam, e na escolha final e óbvia, não configuraria a minha pessoa, e eu seria eternamente lembrado como “o cara macho que se candidatou”. Dei com os burros n’água, quando percebi estupefato, que ninguém mais se oferecera para semelhante sandice!
Dois minutos depois estava se dirigindo eu e um arsenal antibruxas, de deixar com inveja Napoleão, para a margem do rio - sim, isso mesmo, como ninguém se candidatou a tal empreitada, como era de se imaginar, lá fui eu. Emprestaram-me totó como escudeiro e guarda-costas, o até então mais bravo cachorro da cidade. Um vira-lata pulguento e sem vergonha que tinha a mania de perseguir todos na cidade. A braveza dele durou até que avistasse a primeira bruma da tarde e o fantasmagórico moinho através da neblina, quando então um grito fino pareceu surgir do nada à nossa frente. Depois disso, não vi mais totó! Foram longos anos para ele adquirir a sua fama de bravo, mas bastaram poucos segundos para ele a perder. Como tudo na vida...
Desci acabrunhado o morro que terminava na margem do rio, estava devidamente armado de uma inchada, um rastelo, dois chuchos (coisa de Chuchar - cutucar - em alguém), algumas pedras, um isqueiro, que descobri depois estar sem gás, e a imagem de um santo famoso lá de Budapeste.
Nem bem cheguei, e um dilacerante grito de horror, saído sei lá de onde, congelou a minha alma e expulsou a imagem do santo do papel em que estava impressa, de tal forma que me sobrara em mãos apenas um cartão branco, imprestável até mesmo para reciclagem.
Como correr? Eu estava perdido na neblina, e só enxergava a maldita cabana! Eu tinha de entrar... Sob pena de ser alvo mais fácil ali fora do que lá dentro. Eu estava agindo mais ou menos como faz um avestruz que enfia a cabeça na areia, e fica com o resto do corpo todo pro lado de fora. Assim, sem muitas escolhas, atravessei a porta da insossa choupana, cruzando o limiar entre a razão e a insanidade, embora eu me pegasse pensando mais de uma vez, se eu já não tinha atravessado essa fronteira.
Pois é, eu estava dentro da casa de Azamora, torcendo para que ela realmente não passasse de uma lenda, e qual não foi a minha surpresa, quando dou de cara com uma maldita bruxa de estilo "tradicional" bem na frente do meu nariz! (A maldita nem deixou eu ter tempo de ter esperanças).
Estilo tradicional entenda-se: velha, corcunda, gagá, roupa preta, vassoura, nariz comprido e verruguento! Papagaio! Vai ser azarado assim no inferno - pensei - e do jeito que entrei, já dei meia volta pra sair. Mas, cadê a porta em que eu tinha acabado de entrar?
Azamora deu um risinho, daqueles que fazem você engolir seco e falar fino como se fosse uma donzela. Quer dizer, analise a situação: preso dentro de uma cabana pulguenta, com uma mulher horrível (acho que era mulher, mas não colocaria a minha mão no fogo), as mesas e prateleiras cheias de ratos e baratas vivos, e cabeças e órgãos humanos empalhados, e, se eu já não estivesse ficando louco, os órgãos faziam discretos movimentos, como se ainda lhes restassem um quê de vida!... Inclusive, de pronto, identifiquei uma das cabeças como sendo a do Marivaldo, que todos pensavam ter ido virar jogador de futebol na capital, e pra quem eu devia 5 reais.
-Seja bem vindo, minha criança! - Falou a bruxa. Já que entrou de livre vontade em minha casa, por que não puxa uma cadeira e senta?
A única cadeira em condições de ser usada naquela bagunça toda era a que sustentava a cabeça de Marivaldo! Acho que foi meio no impulso, ou no pavor mesmo, que resolvi atender ao pedido da bruxa, no receio de contrariá-la tentei agir o mais naturalmente possível...
Peguei a cabeça de Marivaldo, cuidadosamente, e coloquei-a no chão:
-Cadê os meus 8 reais? -Me cobrou de primeira! E ainda com os devidos juros. Ele de fato tinha perdido a cabeça.
-Depois falamos disso. -Ri sem graça. Isso lá era hora pra uma coisa dessas?!
A bruxa me serviu uma bebida - o que gentilmente eu dispensei - e se aproximou de mim, amistosamente:
-Você é corajoso, ou burro demais para vim aqui - disse ela, balancei a cabeça sorrindo de nervoso, pois não entendi se aquilo havia sido um elogio, uma pergunta ou uma afirmação...
Ela continuou:
-O que acha que vou fazer com você agora?
Engoli seco de novo. Mas respondi no reflexo:
-Me deixar sair, e ir embora pra casa?...
Ela enfiou a mão no decote , e puxou alguma coisa redonda do sutiã! Só me faltava essa - murmurei - foi quando percebi que não passava de uma bola de cristal!
Ela a colocou em cima da mesa, e disse:
-Observe. Observe atentamente...
Comecei a ver um grande vale onde cresciam, como se brotassem do chão, imensos cristais de quartzo! Eram brancos, rosas, azuis, vermelhos... Do tamanho de um homem, até maiores que uma casa! Era uma região desolada, tomada pelos cristais, e de onde até mesmo as nuvens do céu procuravam afastar-se, e isso criava um enorme círculo no azul do céu sobre os cristais. E, no meio do vale, havia um único ser vivo: Uma rosa azul maravilhosa!
-Traga-a para mim, e te libertarei. - disse Azamora.
Era isso, ou virar um eterno e macabro enfeite pendurado na parede da bruxa. Mais ou menos como viver no Brasil...
Azamora cuspiu no fogo que crepitava em sua velha lareira, e a este ato, abriu-se numa explosão, um portal que me levaria direto ao vale de cristal.
Pois desta forma, lá estava eu! À entrada daquele estranho lugar, e imbuído de uma ingrata missão da qual sequer fazia ideia do desfecho, embora a minha imaginação fosse suficientemente fértil para poder imaginar.
Desta feita, o vale começa por diminutos cristais, que iam aumentando à medida que se entrava mais para dentro. Primeiro, do tamanho de homens, e depois, tão grandes quanto casas! No início da caminhada, o vale era até bonito, mas com o tempo, e quanto mais se penetrava naquela densa floresta de pedras, a coisa se tornava realmente sinistra... Os grandes cristais se entrecruzavam sobre a minha cabeça, formando um grande teto ou cúpula, que dificultava a passagem da luz por sua superfície translúcida. Isso jogava todo o ambiente numa penumbra multicor bizarra e claustrofóbica. Mas a coisa ficou feia mesmo, quando encontrei, na junção de dois caminhos, figuras humanas semicristalizadas, com sorrisos satisfeitos, imortalizados no rosto pétreo daqueles que tocaram nos cristais. Algo, ou alguma coisa, fizera com que tocassem naquelas pedras... E percebi que isso não era uma coisa muito inteligente de se fazer. Visivelmente, os cristais sugavam a energia vital daqueles que os tocavam, e pareceu-me que mesmo um leve esbarrão seria o suficiente para condenar para sempre alguém que por ali se aventurasse a passar.
E então, ainda perdido em meus pensamentos, eis que um grande cristal ao meu lado se acende, como se fosse uma imensa tela a reproduzir uma perfeita imagem tridimensional!
Ahh...sim... Caminhava em minha direção, uma bela imagem da doce Rosinha, com todas as características da realidade, até mesmo o perfume que ela usava alcançou o meu apaixonado nariz... Era ela sim... Ainda mais maravilhosa! E não fui eu, afoito em sua direção, para abraçá-la e beijá-la, quando, de tanto apanhar e sofrer na mão dela lembrei que jamais a Rosinha verdadeira iria me dar alguma bola, ou mesmo caminhar com tanta sensualidade e com os braços erguidos na minha direção, reclamando um abraço!
Claro, era uma armadilha, e à minha hesitação, o cristal brandiu e urrou, e uma estranha mão saiu de dentro dele tentando me agarrar, que o mesmo se partiu em mil pedaços bem pequeninos!
-Parabéns, criança! - era a voz de Azamora, que surgiu do nada. - Você conseguiu, e venceu o teste do cristal. Agora, traga a rosa azul para mim!
A bela flor estava a poucos metros de mim. Crescia impávida e altiva, de pétalas robustas e brilhantes, de um azul difícil de descrever.
Assim que a colhi, fui automaticamente transportado de volta para o velho moinho, casa de Azamora.
-Cadê os meus 10 reais?! - Outra vez fui cobrado pela cabeça de Marivaldo, mas dessa vez, preferi ignorá-lo.
A bruxa avançou afoita na minha mão, e arrancou dela a bela flor que eu trazia. Mergulhou as pétalas da rosa num pequeno cálice com água quente, e tomou!
E não é que aquele asqueroso ser se transformou, lentamente, numa linda e bem abençoada mulher, diante dos meus olhos incrédulos! Uma verdadeira modelo de dar inveja a qualquer mulher que se julgue fantástica sob este céu, das cataratas do Iguaçu até as montanhas do Himalaia, passando também por Bombaim, Praga, Tóquio, Atlantis, e qualquer outra cidade que uma fértil imaginação possa conceber?!
-Você está livre, e a sua cidade também! - disse Azamora.
E dizendo isso, partiu feliz, disse-me que iria tentar a sorte na cidade grande, num tal programa de televisão chamado big bode, ou pingue-pongue, ou algo assim...
De fato, algum tempo depois, pareceu-me tê-la visto apresentando um programa de entrevistas, mas não dei maior atenção ao caso.
Quanto a Marivaldo, deixei sobre a mesa os 10 reais da minha dívida, que na verdade eram cinco, mas devido a alta do mercado de ações e dos juros exorbitantes, assim como o aumento do salário mínimo, viraram 10. Três anos depois, lembrei-me de que ele não tinha mais braços e nem pernas, e voltei à velha cabana para deixar o dinheiro mais perto da sua cabeça... Mas ele já tinha atravessado meio cômodo com a língua, e no exato momento em que cheguei, ele escalava com certa dificuldade o pé da mesa, e ainda proferia palavrões escabrosos usando o meu nome, e decidi voltar pra trás, mas não sem antes parabenizá-lo por semelhante habilidade.
O que tempos depois encontrei ele e totó, juntos num circo, fazendo os números da cabeça que anda sozinha e do desaparecimento, respectivamente.
Quanto a Rosinha, desisti dela... Sabe né... Beleza não põe a mesa... E no mais, na correria de Azamora, ela deixou uma pequena pétala da rosa cair no chão...
E claro, eu a peguei.... E dela fiz um delicioso chá para Josefina tomar... (Josépha Imaculada Cajueiro da Mata Grande Xavier de Paula Miguel Gabriel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, era a menina mais feia do bairro inteiro! Porém, era um doce de pessoa, e me amava em segredo... E isso era o que importava).
Hoje, vivemos no principado de Mônaco, e sou sustentado por Josefina, que adotou um nome mais de acordo com a sua atual beleza, e vive de passarela em passarela, ganhando rios de dinheiro. E me amando... Não mais em segredo!
 
A Bruxa do Cristal

O Sumiço do Ferroviário

 
O Sumiço do Ferroviário
by Betha Mendonça

Santa Luzia do Mururé. Cidadezinha embrenhada no noroeste do Pará. Ligada a outras localidades pela Maria Fumaça que se encostava à Estação Ferroviária Luziense. Havia também a estrada de piçarra vermelha em ambos os lados da ferrovia, por onde se podia seguir viagem a cavalo, a pé ou de carroça. Carruagem nunca se viu por aquelas bandas.

João do Trem, conhecido e estimado pelo povo, além de maquinista da Maria Fumaça cuidava da administração da Estação.

A vida no lugar tinha poucos atrativos: compras no Mercado do Pirão, no Armarinho do Zé Fraqueza, passeios na Praça da Matriz. Havia ainda as missas insossas de Padre Honório e os arrasta-pés nos sábados à noite. A monotonia só era quebrada pelos apitos do trem a chegar com novidades.

Um dia o trem não chegou. Semana passou sem que ninguém tivesse notícias nem da máquina nem do maquinista. Um grupo de homens seguiu a cavalo ao lado dos trilhos para apurar o que acontecera. As mulheres, lideradas por Cezinha do Tricô, mulher do ferroviário, iniciaram uma Trezena para que Santa Luzia. Assim os caminhos do homem se iluminariam e ele voltaria para os seus...

Meio dia de viagem. Os homens avistaram o trem parado na estrada de ferro: de um lado mata, do outro um igarapé de águas negras. O transporte vazio de pessoas e bagagens. Um rastro grosso e sinuoso para dentro d'água chamava atenção. No centro dos *mururés, o corpo do pobre João do Trem: inchado, tecidos decompostos e com algumas partes devoradas. Ninguém conseguiu tirá-lo das águas. A **Boiúna vigia com seus olhos de fogo o local e usava o corpo como alimento para seus filhotes.

**Boiúna - cobra grande.
*Mururés - plantas aquáticas comuns na Amazônia.
 
O Sumiço do Ferroviário

Sofia e os seres da borda da Terra

 
Não foi sem tempo para que as bocas de leão florescessem exalando o odor característico dos cravos de defunto. Tudo sob a luz das estrelas e também para contentar os demais familiares que quando em quando, queixavam-se estarem esquecidos.

Encerrada em pensamentos um tanto sofismáticos para àquela hora da manha, Sofia surgiu vestindo um taier brilhante, prateado com penugens que farfalhavam diante do ventilador. Em seu interior amadureciam pensamentos como um caroço de abacate manteiga prestes a brotar ainda na casca. No topo da escada em caracol sentia na face as correntes de ar que de quando em quando arrancavam penugens do traje, fazendo-as voar pelo ambiente qual planador alçando as termais no sopé de montanha.

- Onde poderia fretar um Jet Sky a esta hora da noite? – pensou. – Que surpresas e perigos me esperam na borda da terra? Afinal de contas, sou apenas uma gota no oceano, um vaga-lume meio ao clarão das estrelas. Se bem que sempre é melhor que ser uma rã que não conheceu nem o pai e nem a mãe, sorrindo para os raios do sol sem óculos escuros.

No pé da escada, observando cuidadosamente rótulos de garrafas de vinho, Grimaldi limpava a teste várias vezes tentando torcer o saca-rolha com certa habilidade até prendê-lo no topo da rolha escolhida. Divertia-se com as observações de Sofia que um dia viu carregava o gatinho e divertindo-se correndo com os cabelos soltos num verde prado, a alma repleta de felicidade como no final de um conto de fadas. Sem tirar os olhos das rolhas, respondeu:

- Todos sabiam de antemão que não seria mesmo possível embarcar o jumento naquela canoa. Boa parte das folhas iria desviar-se e os pássaros iriam voar muito além do horizonte milagroso em chamas. Vi mais de uma vez as fotos das manifestações. Além dos riachos e do lago gostei quando veio a chuva e molhou o dossel verde da floresta. Foi bem feito para os que não foram prudentes levando um guarda-chuva.

Sofia sorriu ao ouvir aquelas palavras. Sempre sorria quando Grimaldi fazia comentários sobre seu corpo bem quando dizia frases sobre a natureza. Doa alto da escada, levantou o joelho de modo a quedar-se numa pose sensual e disse com voz macia:

- Ainda é de manhã. Os raios do sol sempre irão absorver a aura das pessoas. Mesmo a chuva na distância acabará ficando atrás das paredes brilhando a luz de um ou outro relâmpago ao meio dia. Se o sol pode ser assim tão brilhante entendo por que vivo e respiro neste universo. Nunca entendi esse seu parentesco com a dinastia Ming...

De repente, os ventiladores pararam de funcionar e uma rajada de vento vindo do alto fez com que ambos silenciassem e piscassem os molhos para evitar o turbilhão de areia. Algo amedrontada pelo repentino e inusitado fenômeno que acabara de presenciar, Sofia desceu as escadas como se estivesse recebendo calor direto de um alto forno numa sensação que dançava ao som de antigas polcas. Enquanto despencava escada abaixo, lamentava que não foi comprovada a existência da criatura peluda da floresta, descrevendo um perfeito redemoinho com piruetas oscilatórias que provocavam cócegas na garganta a ponto de ser obrigada a verter uma ou outra lágrima amarga. Foi preciso usar de energia para não ser ofuscada pela luz âmbar e manter os cabelos mais ou menos alinhados quando ficou de cabeça para baixo. Mas, tinha pouco apetite e o sono era leve quando afinal aterrissou elegantemente no carpete da sala de jantar.

- Sofia, minha querida!- disse Grimaldi. - Sempre vejo uma porção de sementes de vincas azuladas em você. Prestes a eclodirem e se integrarem à natureza fazendo companhia aos grãos de areia que se soltam das curvas de níveis. Sabe que amo a natureza mais do que amo sua mãe, se bem que não há regozijo nenhum em comparar grandezas assim diversas e tão descomunais. Sinto toda a pureza da sua alma ondulando na brisa que sopra cálida desde as bordas distantes...

Ao ser lembrada da existência dos povos que habitam as bordas da terra, Sofia interrompeu a fala de Grimaldi apenas com um gesto das mãos mostrando-lhe a outra face da lua cintilante não sem um translucido brilho de lágrimas. Calou-se algo triste lembrando-se do temido encontro. Mais cedo ou mais tarde, mais dia, menos dia, teria que defrontar-se com as chamadas do vento do mar aberto escritas em negrito zumbindo nos cabelos. O coração já apertado iluminava os zumbidos dos ouvidos e dizia em voo cego pelos desfiladeiros das altas montanhas que na parte inferior do lago Ness algo brilhava nas noites de luar. Decidida a não ser suplantada por energias negativas, varreu rapidamente o carpete espalhando as penas e penugens do coração.

- Que beleza – pensou, enquanto se abaixava para apanhar o lixo numa sacolinha de supermercado. – Este mundo é tão vasto e brilhante que o arco-íris tornou-se mais quente e com mais cores. Jamais pensei, mesmo num dia assim tão quente que a brisa iria calcinar as flores, cobrir as folhas e deixar o arco-íris com tantos tons de cinza.

Grimaldi calou-se também. Percebeu que havia feito a brisa parar e descansar à sombra de olmos e teixos. Uma pena para as flores que acabaram sendo coberta por fina camada de leite em pó desviado da merenda escolar. Olhou em volta como se procurando alguma das criaturas das hordas celestiais. Somente viu flores e suas duvidas e medos cederam à curiosidade maior diante das perguntas de Sofia sobre a possibilidade de bolotas de pinheiro serem polinizadas in vitro. Pensativo, viu apenas ao longe o espantalho do milharal num inverno quente, assistido por cavalos, vacas e ovelhas trazerem as cores dos prados e muita água cristalina do riacho.
 
Sofia e os seres da borda da Terra

A Professora Querida

 
Stephany Mallord sempre foi um exemplo de carinho e de dedicação. Ninguém, dela jamais poderia emitir uma opinião desabonadora ou ofensiva, assim como, omitir uma única nota de elogio sequer. E ela não era assim apenas em sala de aula, mas também como pessoa e como amiga. Desde criança já ensaiava as suas primeiras aulas, junto às suas bonequinhas de pano, que ela mesma costurava a mão, com esmero.
Jovem, bonita, radiante, de cabelos ruivos médios, e aquelas lindas sardas no rosto alvo… Ainda lembro-me do perfume que ela deixava ao passar, e do vestido de professora que balançava à menor brisa. Olhos grandes e brilhantes, e um sereno sorriso nos lábios.
Morreu de repente em sala de aula! Foi um rompimento vascular repentino na cabeça. Os seus olhos e ouvidos sangraram na hora, e o seu vestido branco ficou com réstias vermelhas, como fitas de carnaval! Como morava numa vila entre as montanhas, de acesso ruim, quase intransponível, o seu corpo ficou três dias em sala de aula, escorado na porta - onde ela se apoiara em seu último alento - como uma simples escora de madeira.
Passaram-se dois anos...
A sala da doce professora não era mais a mesma… Os alunos estavam impossíveis, a nova professora, ríspida e grossa, não os cativava, e nem conseguia impor a disciplina.
Stephany Mallord apareceu, então, na porta! Naquela maldita tarde de sexta-feira, com o seu longo vestido esvoaçante, cheirando a mofo e obstruindo a saída!
Ninguém deu um pio... parecia que algo apertava a garganta de todos… só se viam bocas abertas e suores descendo pelas testinhas inocentes, como se a chuva do dia anterior não tivesse encontrado teto que a contivesse.
Eu me lembro de seu rosto cru, como gelo e cera, não havia mais sardas, e ela insistia em olhar a todos, um por um,com os seus olhos parados e mortos! A iris, antes azul como o firmamento, tornara-se cinza como a lápide fria de um cemitério, e os cabelos, outrora esvoaçantes, empapados de um líquido que os pregavam feito cola.
Ela entrou como se não fosse com ela… vomitou algo extremamente vermelho e mal cheiroso na Senhora Lorna, a nova professora, que derreteu sua carne, deixando-a na forma de um amontoado de ossos e tecidos.
-Agora, vamos continuar a lição… – disse ela. Até hoje a minha espinha congela, só de lembrar...
Ela tirou de sob o vestido agulha e linha. Tinha também alguns botões de roupa…
Cada um de seus alunos tinha uma personalidade, que ela, mesmo morta, fez questão de não esquecer:
Nos mais espevitados, costurou-os nas cadeiras, um a um. Primeiro as pernas… depois os braços… e em alguns, também a cabeça. Era uma linha robusta e negra, quase tão grossa quanto um dedo. Aos mais desatentos, abriu-lhes o crânio e costurou os seus cérebros no forro do teto. E, finalmente, aos mais ceguinhos, que faziam questão de se assentarem mais na frente para verem melhor, costurou-lhes nos olhos botões, como fazia à suas bonecas.
Quando chegou em mim – tentei correr, mas quem disse que saia do lugar? – Ela fez-me um leve carinho nos cabelos e libertou-me! Corri feito uma gazela até a porta, e ainda olhei para trás uma última vez. Ela sorriu-me e acenou.
Sabe, eu a entendi... Sempre lhe escrevi histórias, e ela adorava tanto, acho que de certa forma, ela queria que eu contasse isso a todos. Claro, eu pago um preço por ainda estar vivo. Nada nesta vida é de graça... E toda noite, sai ela de meu guarda-roupa, do amontoado de roupa que eu jamais dobro, senta-se à beira de minha cama, e me acorda tocando em meus cabelos. Tenho de me levantar e lhe contar uma histórias, enquanto sou observado por aqueles olhos enormes e estranhos, que me olham sem me ver.
É... estou ficando sem histórias, sem alguém por ai tiver alguma, me mandem!

PS: Com verdadeira Urgência!
Está anoitecendo...
 
A Professora Querida

Presente de Grego

 
Presente de Grego
by Betha Mendonça

De repente a vida ia para trás. A pimenta-do-reino não dava mais lucro. fregueses sumiram da loja de ferragens. O carro (sem seguro) destruído após um acidente e o Banco a pressionar o pagamento do empréstimo... Além disso, uma doença em cima da outra se alastrava feito praga sobre o casal e seus descendentes. Zé da Pimenta perguntava o porquê dessa sucessão de fatos negativos, quando Cora resolveu apelar para Dona Dica, poderosa vidente e benzedeira do lugar.

A sensitiva ao entrar na casa percebeu havia algo malévolo. Acendeu velas e incensos de alecrim. Tomou galhos bem verdes de arruda nas mãos, e, após molhá-los em água benta, aspergia em cruzes a e orava em cada canto da casa. Por fim indagou se algum morador ganhara de presente uma planta. Cora lembrou que há anos recebera como mimo pequeno vaso cor de abóbora com uma plantinha. Conforme a instrução que lhe foi dada, plantou-a com vaso e tudo no quintal. No momento era viçosa árvore.

Meia noite. Lua cheia. Em torno do vegetal no quintal, Dona Dica e os donos da casa de mãos dadas oravam em voz alta. A benzedeira mandou Cora abraçar a árvore e arrancá-la do chão. A pobre mulher chorava que era impossível. A maga ordenava aos gritos: tenha fé, nada é impossível entre o céu e a terra! Cora atracou-se no tronco com toda da força do seu ser e começou puxar para cima. Na terceira tentativa ela levantou a árvore, que imediato transformou-se num ser demoníaco a berrar: NÃÃÃÃOOO!Assustada, a mulher atirou aquele desprezível fardo de suas mãos no fogo onde foi destruído. A paz e a bonança voltou ao seio daquela família.
 
Presente de Grego

ROMILDO, O LOUCO DO CEMITÉRIO

 
ROMILDO, O LOUCO DO CEMITÉRIO
 
ROMILDO, O LOUCO DO CEMITÉRIO

Romildo era um rapaz muito estranho. Ele era magro, alto e tinha um olhar sem brilho. Gostava muito de acompanhar funerais, o que era muito estranho, para um jovem de 20 anos.
Ele saía todas as noites .Sua mãe, Dona Salete, dizia para todos que seu filho saia toda noite para trabalhar de guarda-noturno . Mas o que as pessoas não sabiam era que aquele rapaz era um ladrão de túmulos.
Algumas pessoas já falavam que tinham visto o rapaz nas imediações de um cemitério da cidade. E chegaram a se perguntar o que aquele moço fazia à noite próximo a um cemitério. Alguns curiosos chegaram a perguntar ao próprio rapaz , mas ele ria e não respondia.
Uma noite um homem que morava próximo a casa do rapaz resolveu segui-lo . Foi então que ele viu Romildo entrar no cemitério da cidade. Todavia o homem não teve coragem de entrar naquele lugar.
Pensou em esperar para ver quando o moço voltaria, mas acabou desistindo e foi embora .
No outro dia o senhor resolveu interrogar o rapaz sobre o que vira na noite anterior . Ele disse que o homem havia se enganado , não era ele, talvez fosse alguém parecido com ele.
Naquela noite Romildo tinha violado dois túmulos e tinha roubado objetos valiosos dos mesmos. Esse era o verdadeiro ofício daquele rapaz de olhar misterioso, que gostava tanto de funerais.
Um dia saiu no jornal a morte de uma moça de 16 anos . Ela era muito rica , talvez a mais rica da cidade. Romildo resolveu que iria ao cemitério esperar a moça ser enterrada , e, evidentemente, iria violar o túmulo da família.
Romildo observou bem o túmulo . À noite , depois que os portões do cemitério se fecharam, lá estava ele, disposto a violar um ou mais túmulos. Não teve dificuldade em encontrar o lugar onde a moça havia sido sepultada, já que sabia andar naquele lugar até mesmo no escuro.
Abriu o portão do túmulo e viu vários quadros nas paredes . Numa mesinha estava uma fotografia de uma moça muito linda. Ele observou que ao lado do quadro estava um rosário . Romildo pegou alguns objetos valiosos e resolveu levar também aquele rosário .
Mal ele saiu do cemitério percebeu que estava sendo seguido. Olhou para trás mas não viu ninguém . Quanto mais ele caminhava mais sentia a presença de uma pessoa ao seu lado. Quis correr mais suas pernas pareciam chumbo. Até que finalmente ele chegou em casa e guardou todo roubo em seu guarda-roupa, menos o rosário, tinha guardado o objeto em seu bolso da calça. Nem lembrou daquele rosário de contas brilhantes.
Romildo tomou banho e se deitou em sua cama. Tentou dormir mas o rosto da moça estava visível em sua mente. Deu um cochilo e viu uma figura estranha sentada em sua cama. Abriu os olhos mas não viu ninguém. Mais uma vez ele pensou na moça do retrato . Teve um arrepio e se enrolou . Amanheceu o dia e Romildo não dormiu nada.
O rapaz resolveu dar um tempo nas violações de túmulos e nas visitas aos cemitérios, pois estava atormentado com as visões daquela moça . Viajou para outra cidade e levou os objetos roubados para serem negociados. Mas não lembrou do rosário . O mesmo estava ainda no bolso da calça de Romildo. Todos os objetos foram negociados, menos aquele rosário . O rapaz o roubara porque achava que era valioso, mas esquecera dele.
De volta para casa o rapaz sofreu um acidente e foi levado ao hospital, mas não foi muito grave e logo foi para sua casa. Todavia perdera o dinheiro da venda no acidente.
Já em sua residência, Romildo lembrou novamente daquela moça da fotografia . A partir daí todas as noites ele sonhava com ela ao seu lado. Ela estava com um olhar zangado, mas nada falava.
Romildo estava ficando sem paciência . Não suportava mais o olhar de sua companhia noturna. Um dia ele abriu os olhos e viu a jovem com o rosto quase em cima do seu. O rapaz deu um pulo da cama e ela desapareceu de repente. A partir desse dia o rapaz nem dormia de dia nem de noite. Sua mãe dizia que ele estava muito doente, que iria levá-lo ao médico.
Foi aí que o rapaz passou a usar remédio para dormir, mas ele tinha medo de dormir. Pois todas as vezes que dormia via a moça do retrato muito zangada com ele. Romildo então resolveu acaba com o desespero dele. Resolveu enfrentar sua loucura. Quando a moça apareceu outra vez ele lhe perguntou o que queria. Ela nada disse , só olhou na direção da gaveta do armário. Ele não entendeu e ela apontou para a gaveta. O rapaz se levantou e abriu a gaveta. Para seu espanto havia um rosário de contas luminosas . Ele então entendeu tudo. O rosário era daquela jovem.
Romildo criou coragem e foi ao cemitério, mesmo não estando muito bem de saúde. Entrou sem dificuldade, como sempre fazia. A moça estava ao seu lado. Ele percebia o seu olhar, agora mais suave. Quando o jovem ladrão chegou no túmulo percebeu que estava com um reforço maior. Mas como era mestre em abrir cadeados , não teve muita dificuldade. Entrou no túmulo e colocou o rosário no mesmo lugar onde estava . Ao sair percebeu a presença da garota lhe acompanhando até o portão do cemitério. Ele tremia mas nada falava. Quando chegou no portão Romildo sentiu que braços gelados lhe abraçavam. Viu então a moça com o rosto bem próximo ao seu.
No outro dia encontraram o rapaz desacordado na porta do cemitério com um retrato nas mãos.
Desse dia em diante Romildo enlouqueceu e só falava na moça da fotografia. Os pais da moça até quiseram denunciar Romildo por roubo, mas como já estavam sofrendo com a morte da filha , resolveram deixar o caso por isso mesmo. Afinal, o rapaz estava louco. E louco não ia para a prisão.
Romildo passou a ser chamado então como o louco do cemitério. E como era louco as pessoas não se admiravam quando o viam caminhar sem rumo dentro do cemitério. Agora pelo dia, já que sua mãe não o deixava sair à noite.
Lucineide


Qualquer semelhança é mera coincidência .
 
ROMILDO, O LOUCO DO CEMITÉRIO

O Plastificador

 
Ele atendia pelo nome de James F. Stuart, e construiu uma vida de glórias no mundo da moda. Era respeitado, admirado, imitado... Por muitos anos o seu talento não fora reconhecido. Mas um dia a sua estrela brilhou. De aluno insignificante em todo o segundo grau, transformou-se num empresário de sucesso. Os seus manequins eram invejados, não apenas pela realidade que transpassavam em seus olhos vívidos e brilhantes, mas também pela singeleza das formas e poses, e pela realidade de suas cútis, ditas de cera.
Claro, o que ninguém sabia era que James era um profanador de túmulos dos piores que já existiram! E também, um artista recolhido no fundo de su'alma - um Rembrandt, para muitos - mas não para mim...
James lia todas as semanas os obituários da cidade, e às vezes, do Estado, em busca das pessoas mais belas que haviam falecido. A sua única exigência: pessoas jovens, bonitas, e desconhecidas!
Geralmente, quando a madrugada ia alta, James Stuart caminhava sorrateiramente pelos meandros escuros dos cemitérios mais imundos, carregando a tiracolo as suas infames ferramentas de trabalho: pá, enxada, rastelo, martelos, fotos do obituário, etc...
As suas mãos calejadas rompiam o solo que deveria ser sagrado, na busca dos corpos frescos que a sua vil intenção de poder, e a sua índole psicótica, cobiçavam. Às vezes, e não eram raras, abria e violava a sepultura errada, encontrando corpos em adiantado estado de putrefação ou em liquefação, vindo a borrar os seus pés e braços com o chorume escuro e fétido dos cadáveres, quando do abrir dos caixões... Mas nada disso o desanimava.
Por anos, de cidade em cidade, desenterrou as moças mais belas que haviam morrido, e carregando os seus corpos às costas, soterrados em sacos escuros, os levavam até o porão de sua casa, e lá, com a técnica que aprendera enquanto trabalhava numa indústria química, os plastificava!
E assim fora, por anos e anos. Pessoas que frequentavam os seus pavilhões da moda, em busca de vestidos e roupas das mais caras, sequer suspeitavam que aqueles manequins que tanto apalpavam, beijavam, e que os deixavam maravilhados - e dos quais extraiam as roupas que os iriam vestir - nada mais eram que cadáveres, outrora enterrados, embalsamados em PLÁSTICO!
Mas as suas práticas levantavam suspeitas, e todas as polícias do Estado já procuravam o profanador de túmulos. O cerco estava se fechando...
James F. Stuart era inteligente, como bom psicopata, não se deixaria capturar tão facilmente. Logo, as suas práticas de simples violador de sepulturas, o transformariam num assassino cruel e meditabundo. Escolhia as suas vítimas pacientemente, entre as mais belas pessoas que achava em suas andanças traiçoeiras, como uma cobra que se arrasta em busca de um calcanhar. Como era um homem belo, rico e de boas maneiras, atraia com facilidade as suas presas até um lugar afastado e reservado... E lá, extraia com um estilete, o sangue delas por um único orifício atrás das orelhas, pois não podia se imaginar maculando a sua futura obra de arte.
E assim, depois de um tempo não muito longo, fundou uma agência de modelos para captar ainda com mais facilidade, e num ritmo quase industrial, as pessoas mais belas do país.
Migrou para a televisão, num programa de sucesso autointitulado - "garota espetacular" - que busca as meninas mais bonitas e desconhecidas da nação, explorando os sonhos delas de se tornarem mulheres famosas e requisitadas, para depois extrair-lhes o sangue pela carótida, enquanto amarradas, se debatem até se tornarem alvas como uma estátua de mármore. Para logo depois, injetar-lhes plástico pelas veias, boca e orifícios, e expô-las aos olhos do mundo como um objeto inanimado e eterno. Realizando de vez, o sonho de todas elas... de tornarem-se eternos modelos e MANEQUINS!
 
O Plastificador

O Homem que Fazia Crescer Cabelo

 
Marketing... Ou a arte da mercância, ou ainda, a arte de enganar. Pois é, viver é ser enganado. O tempo todo!
Num dia belo e ensolarado, um comerciante itinerante, lá no inicio da revolução industrial, percebeu que um seu vizinho teve a mesma ideia que ele, quando montou uma barraca, e começou a vender coisas semelhantes às suas... Tinha nascido ai, a boa e velha concorrência.
O primeiro comerciante, então, ao perceber que teria os seus ganhos diminuídos, teve outra brilhante ideia! - Vou vender coisas que as pessoas não precisam! Mas como farei isso? Fazendo elas pensarem que precisam, oras! - É, pois é, nascia ai o marketing. O ser humano é mesmo criativo, pelo menos ,para passar o seu semelhante para trás, sempre foi um gênio...
O que o gênio fez? Foi numa torneira lá atrás, encheu um bonito e chamativo frasco de água, e mijou lá dentro! Percebe-se claramente o custo quase zero de produção - bastando para isso ele ter bebido água - e a total falta de escrúpulos e sensibilidade. A tá, estamos falando do mercado. Pois bem.
Ele se desfez daquela barraca imunda, comprou uma carroça um pouco menos imunda, e deu a andar pela cidade trepado em cima dela e gritando de esquina em esquina as qualidades do seu "produto".
- Milagroso elixir! Milagroso elixir! Você vai se surpreender... Trazido das montanhas da Mongólia por bispos exóticos budistas. Você não pode viver sem. Só se fosse um burro!...
- Pra que serve moço? - perguntou um, dos muitos que já começavam a parar para ouvir as novidades.
Bem, e o comerciante, esperto, dizia uma coisa diferente para cada um que aparecia:
Para o velho: - Isso é um fortificante natural. Potencializa tudo, meu amigo! Você nunca mais vai decepcionar a patroa! - Me dá cinco!
Para a mulher solteira: - Nunca mais precisará perder horas a fio na frente do espelho se arrumando! Isso aqui é um quite de maquiagem e perfume tudo junto, só basta uma borrifada atrás da orelha e os homens cairão aos seus pés! - Me dá vinte!
Para a mulher casada: - Uma borrifada dessa e o seu marido nunca mais vai voltar pra casa. - Me dá cinquenta!
Para um anão: - Em três dias você terá sete metros!
Para um bofe: - Todos os homens do mundo serão seus...
Para uma rampeira: - Nunca mais precisará ver homem na sua frente...
E assim foi...
Mas o que ele não sabia era que a ureia que ia junto com água, proveniente do xixi, fazia crescer cabelo no globo ocular, levando as pessoas à cegueira e deixando-as com um chumaço de cabelo saindo dos olhos!
As pessoas corriam desesperadas pela cidade, batendo umas contra as outras, e contra as paredes. Caiam das ribanceiras, dentro do esgoto. Entravam em lugares errados...
Logo as autoridades da cidade vizinha vieram pegá-lo. Pelo menos, aquelas que não tinham comprado o seu produto.
O que fizeram com ele? Bem, borrifaram o produto na sua própria língua, e o jogaram no calabouço.
E o que ele fez?
Bem, como todo bom capitalista, inventou um aparelho de barbear, e depois de sair da prisão foi vender o seu elixir para os carecas.
Detalhe: O elixir só fazia crescer cabelo nos olhos e na língua. Mas, quem se importa com isso? Ele sabia como fazer uma boa propaganda, tinha uma língua afiada.
 
O Homem que Fazia Crescer Cabelo

O Anel de Noivado

 
Todos sabiam que nas terras do imperador Helêus, nos últimos dias da primavera, caía uma chuva tão torrencial, que o céu tornava-se negro como o ônix de Calcedônia, e os raios desciam tão furiosos que assombravam até mesmo os mais experimentados guerreiros. Era assim fazia longos sessenta anos, e todos sabiam disso. No mesmo dia do mês, na mesma hora, exatamente há seis décadas, a mesma chuva caía, resoluta e pontual, por exatos sete dias, até desaparecer, assim como surgira, quase como que por encanto!
O velho imperador, imobilizado em sua cadeira, devido à sua idade, sentia-se ainda mais melancólico nesses dias – se é que seria possível torna-se mais lânguido do que de costume - e ali ele ficava, sobre a grande sacada do seu castelo, observando a chuva lá embaixo, como se contasse uma a uma as gotas que caiam refletidas em sua íris perdida. Havia sido assim por todos aqueles anos.
Um dia, há muito tempo, um célebre guerreiro atravessou aquelas terras amaldiçoadas, e a sua fama e glória atravessou com ele, pois todos, em todas as partes, conheciam os seus feitos e a sua honra, jamais igualadas por ser humano algum naqueles dias. Então, Helêus o Imperador, chamara-o até o seu palácio, para cumprir, talvez, a mais nobre missão de toda a sua vida!
O cavaleiro veio, em meio a pompas e circunstâncias, mas ele não era como o imperador o imaginava. Nada de grandes músculos, ou de armaduras brilhantes e espadas afiadas reluzindo ao sol. Apenas um jovem envolto numa capa desfiada e preta, ressequida pelo calor e pelo frio, e um par de olhos tristes, porém justos. Mas Helêus não tinha escolhas, e tinha de confiar àquele jovem a grande missão que lhe cabia.
- Tenho uma história triste para contar-lhe, se não se importar – disse o Imperador.
- Todas as histórias me interessam – respondeu-lhe o cavaleiro.
- Pois bem, ei-la: Há muitos anos - anos que se passaram rápido demais para que eu mesmo possa acreditar - a minha família fora escolhida para governar estas terras. Assim, cresci aqui, como um príncipe. Só faltava-me uma princesa... E ela não tardou em chegar... Linda, como a mais bela flor, e carinhosa, como a brisa nos montes além daqui. E tão doce e afável quanto os arcanjos do céu. O dia, na sua presença, ficava mais claro e colorido, e os pássaros cantavam com mais alegria e vigor. Reservei um dia especial para nós dois, no lugar onde nos conhecemos, lá embaixo – apontou Helêus de sua sacada, uma grande praça que se estendia nove andares abaixo de seu castelo de madrepérola – Ali crescia uma linda árvore, que nos presenteava com flores o ano todo. Ali, mandei construir uma praça especialmente para ela... Era lá que deveríamos nos encontrar. Num banco embaixo da árvore, numa tarde, de um dia qualquer, que deveria se tornar especial... quando eu a pedisse em casamento... Mas aconteceu que, naquele dia, um compromisso importante, não mais importante do que ela, claro; mas ainda assim importante, me fez atrasar um pouco além do prometido. Eu era jovem, e tinha todo o tempo do mundo, você pode me entender...
- Sim, eu posso...
- E na tarde daquele dia, aconteceu de cair uma grande tempestade que me fizera atrasar, já que pensei que ela também atrasaria. Mas eu estava enganado, ela me esperava sob a corrente cortina de águas furiosas e cristalinas que despencavam do céu. Foi nesse dia que um fulminante e infame raio caiu... e partiu a bela árvore ao meio... jogando ao ar as suas folhas, os seus frutos e os seus galhos, para que fossem varridos pelo vento e pelo tempo... assim como a portadora do meu amor. Nunca mais eu a vi.
- Eu lamento...
- Não lamente cavaleiro, não foi culpa sua. Mas seja feliz, por jamais sentir algo parecido...
Os dois permaneceram calados por um tempo.
- Mas então... O que posso fazer por ti? – perguntou o cavaleiro
- Daqui a sete dias começará a chover, meu jovem. Vai chover como naquele dia. E isso é uma grande certeza! Tem sido assim desde que tudo aconteceu, há 60 anos! Choverá por uma semana inteira, em todo este reino, como jamais choveu em lugar algum.
- Isso é verdade?
- Sim. Por seis décadas assim tem sido, sempre no mesmo dia, sempre na mesma hora, por uma semana ininterrupta, choverá! E ninguém soube explicar o porquê. Até que um dia, viram uma mulher... sentada no mesmo banco em que a minha amada me esperou um dia, antes do nefasto raio. E todos que já a viram, afirmam não se tratar de alguém deste mundo. Se é que você pode me compreender.
- Um espírito! É isso que pretende me dizer?
- Você é perspicaz cavaleiro. Ela está lá, e me espera até hoje, eu sei disso... eu sinto... Os dias de chuva que a precedem carregam a mesma tristeza daquele dia, são as lágrimas dela que descem do céu chamando por mim. Já pedi muitos dos meus melhores cavaleiros para levarem a ela o meu presente, e o meu pedido de perdão, mas eles não tiveram coragem o suficiente para isso. Não posso culpá-los. Eu mesmo iria, eu desejaria isso, mas como pode ver, a minha condição não é favorável, e não sou mais o mesmo homem por quem ela se apaixonou um dia... Não gostaria que ela me visse assim... não sei se pode me entender... só um homem apaixonado poderia...
- Desejas que eu a leve o seu presente, é isso?
- Sim! Mas compreenderei igualmente, assim como compreendi aos meus, se não quiser ir.
- Eu o farei – Sim, ele o fará! Pois também era um homem apaixonado - todos os cavaleiros o são - e o seu grande amor ficara também para trás, por uma triste obra do destino. Ninguém ali poderia compreender o velho Imperador como ele.
Helêus o chamou até um canto onde descansava uma magnífica prateleira, e de lá, retirou um pequeno objeto. Era uma caixinha branca, provavelmente entalhada a mão, numa figura que lembrava uma tartaruga. Ele a colocou nas mãos do cavaleiro...
- Este era o meu presente, caso aceite me ajudar. Leve-o e o entregue a ela, eu o fiz com as minhas próprias mãos na minha juventude. Desde já lhe sou grato, valoroso rapaz, quer aceite este encargo ou não.
- Então é só isso que preciso fazer?
- Sim. Se o fizer, deve partir em sete dias, quando começará a chover. Você descerá até o jardim, onde se encontra a árvore e o banco, e onde os meus homens afirmam vê-la.
- Então, em sete dias partirei, e antes que o chão esteja completamente molhado, entregarei ao seu amor o seu presente!
Helêus chorou, e beijou as mãos o cavaleiro com profunda gratidão. - Só não conte a ela que me tornei um homem doente e feio, diferente do que ela conheceu...
Histórias de fantasmas não faziam bem aos ouvidos de ninguém daquelas terras. Por ali, não era superstições ou tolices acreditar em coisas assim. Pois que os espíritos andavam livres e não se ocultavam tanto dos homens. E muitas dessas almas ainda trazia um coração negro cravado em seus espíritos, como uma noite sem estrelas.
E exatamente, como previsto por Helêus, na manhã do sétimo dia, a chuva caiu. Viera junto com os primeiros raios de sol. O dia se tornou sombrio e triste, os animais se escondiam da água fria daquela manhã, e as pessoas evitavam sair de suas casas. O tapete branco de nuvens, que forrava o grande palácio sobre a montanha, ficou escuro e revolto. O cavaleiro trajou-se com uma longa capa com capuz, o qual jogou sobre a cabeça para proteger-lhe da tormenta. Sob olhares curiosos desceu a grande escadaria que levava ao jardim. Chovia forte, e as águas pesaram-lhe nos ombros, a sua visão tornou-se turva, e só enxergava alguns metros a sua frente. A bruma embaçava o caminho que ia descendo, e ao atravessar as nuvens que jaziam sob a montanha, adentrou num ambiente magnífico e fantástico! A água caía feito prata, e o verde intenso das folhas parecia iluminado por uma luz diferente, e o mármore das colunas e das amuradas lembrava a lousa fina. No fim da escada, abria-se uma grande praça, largada pelo tempo e pelos homens, de plantas murchas e ervas daninhas. Um pouco a frente, no meio do complexo arquitetônico, depois da grande e pesada cortina de água, um vulto escuro e inerte: Uma grande árvore, de galhos tortuosos e secos, portadora de uma monstruosa rachadura que lhe descia da copa até as raízes, parecia curvar-se sobre o peso de si própria. Mas ainda insistia em ficar de pé! Ela já fora uma árvore muito bela, digna de figurar no centro de tão linda praça, mas o raio a destroçou naquele dia, como fizera com Helêus... As luzes dos postes ao redor estavam acesas. Apesar de ser manhã, o dia parecia estar no fim de tarde e começo da noite... Não havia nada, nem ninguém ali. Apenas o jovem cavaleiro de pé e a sua boa vontade, observando o banco vazio onde as gotas da chuva se arrebentavam bruscamente após a longa queda. Ele ouvia apenas o batuque incessante sobre a sua capa, e o escorrer da água em seu rosto, feito lágrimas. Se ele chorou ali, naquele momento, assaltado quiçá, por lembranças doloridas, jamais saberei.
Ele ficou ali, esperando de pé, por um tempo relativamente longo, até ter a certeza de que nada iria acontecer, e de que tudo não passava de alucinação das mentes férteis dos que por ali passavam, embalados pelos acontecimentos que outrora amofinaram aquele local. Percebendo então, que não havia mais sentido esperar, ele se retirou, tomando o seu caminho para casa. Mas tão logo se virou e uma voz o chamou de volta:
- Ei, por favor... você!... Serias tu por acaso um mensageiro? - O cavaleiro voltou-se imediatamente em direção ao pequeno banco de pedra cravado no jardim. Diante dele, sentada naquele velho banco quebrado, uma jovem mulher de face pálida e triste o observava. Estava coberta por um vestido branco, e uma espécie de chapéu que lhe cobria a cabeça e só lhe revelava o seu rosto. E não obstante chovesse muito, ela lhe aparecia completamente seca!
- Sim... eu sou... – respondeu o cavaleiro, tirando de sua cabeça o capuz que o protegia da chuva, completamente aturdido.
- Então, isso quer dizer que ele não virá... refiro-me ao meu amor...Eu imaginei... Já o estou esperando faz horas... Mas, não me importo de ficar um pouco mais, se ele tiver de se atrasar... O que ele disse? Se atrasará?! Ou por acaso não virá mais?... – Perguntou aflita.
- Sim ele virá... quero dizer... ele gostaria de vir... – respondeu.
- Então por que não veio? Diga-me?! O que o impede? – disse ela, levantando-se - O que pode estar acontecendo? Por acaso ele não me ama mais?! Saberia me dizer, jovem mensageiro?!
- Sim ele a ama, senhorita!... porém, o que o impede de vir não tem relação com os sentimentos dele por você.
- Como podes saber, se és apenas um simples mensageiro?
- Até mesmo os simples mensageiros conhecem o amor, minha senhora... E os olhos de um homem, contam muito sobre ele...
- E o que vê nos olhos dele? – perguntou a aparição.
- Um grande amor por ti. – respondeu-lhe.
Ela pareceu sorrir:
- Que mensagem traz pra mim, nobre portador?
- Eu não lhe trago uma mensagem, trago-lhe um presente, o qual ele muito recomendou.
- Um presente?!
- Sim. Ele mesmo o fez, com as próprias mãos – disse-lhe o cavaleiro, entregando-lhe a pequena caixa.
Ela a trouxe com carinho junto ao peito. E quando a abriu, um singelo anel dourado revelou-se, guardião hábil de uma diminuta pedra azul, cuidadosamente lapidada. Era um anel de noivado, feito com as próprias mãos, e coisas feitas a mão naquele reino, tinham um valor que não se poderia medir.
A jovem suspirou profundamente... ela colocou o anel com carinho no dedo, e sorriu:
- Lembro-me de quando encontramos esta pedra... no riacho... lá embaixo. Agora é a pedra mais preciosa do mundo, para mim.
A chuva cessou instantaneamente! O sorriso dela abriu o tempo, e com o sol, revelou-se a sua verdadeira beleza. Agora, trajava um épico vestido azul claro, onde repousavam gotas de orvalho, e os seus cabelos amarelos, presos em cima por um belo arco prateado, desceu longo até quase ao chão. A jovem aproximou-se do cavaleiro, com toda a beleza espiritual que ela trazia, tão palpável e sólida quanto se viva estivesse. Pegou então na sua mão, e beijou-o no rosto, radiante e grata.
- Obrigada, jovem mensageiro! O que trouxestes até mim hoje, não tem preço! Espero que um dia, eu possa pagá-lo pelo que fez por mim, e pelo meu doce príncipe... Diga a Helêus que o amo, e que esperarei por ele, como ele esperou por mim. E diga também a ele, que não se lamentes mais, pois nosso amor foi apenas adiado. Ele era tão grande, que não cabia neste mundo... Assim como o amor que tu também carregas, não coube...
A jovem caminhou em direção ao desfiladeiro da montanha, mas o chão não lhe fez falta. Caminhando no ar, flutuando em sua glória, acenou uma última vez para o cavaleiro, e disse-lhe uma última coisa:
- Não se preocupe, menino, há muito mais luz de onde essa veio. É onde os que nos amam esperam por nós. Diga a Helêus, que embora o seu corpo esteja velho, a sua alma não envelheceu. E foi isso que eu sempre amei nele, a sua alma.
Ela desapareceu então. E no ar, por uns breves momentos, ficou o fraco brilho azul do anel que ela levou no dedo.
O cavaleiro então respirou fundo, como se ele mesmo tirasse um grande peso de sobre os ombros. O sol brilhava e os pássaros cantavam como há sessenta anos, e o guerreiro tirou de si a pesada capa de chuva que o cobria. Hoje, ele cumpriu a mais nobre, bela e épica missão de toda a sua vida, e ele não precisou desembainhar a sua espada e nem atravessar as sendas do mundo para fazer isso. Só precisou de coragem e de compaixão...
Deixou-se perder o olhar na imensidão do horizonte a frente de si, como se quisesse vislumbrar os portões do infinito, brevemente.
Sorriu, penalizando a si mesmo, e voltou-se para as escadas, o caminho o esperava. Viu sobre o banco um pequeno ramalhete de flores deixadas pelo espírito. Eram rosas, da mais linda espécie! O vento espalhou o seu perfume no ambiente, e o cavaleiro lembrou-se do seu amor de outrora, levada também pelas maquinações do destino. O nome dela era Rosalinda.
Foi a última vez que o vi chorar.
 
O Anel de Noivado

A Rebelião das Baratas

 
A casa até que não era tão velha, quer dizer, dava até pro gasto. O problema todo era a ligação de esgoto, mal feita e mal projetada. Isso não dava boa coisa! Fora o cheiro que baixava de vez em quando, tinhas as malditas baratas que apareciam a toda hora, e em todo lugar. Ora vinham do ralo, bem na hora do banho. Ora dos canos da pia, bem na hora de se lavar os talheres, e ora vinham do vaso sanitário, bem na hora... bem... essa parte deixa pra lá.
O fato é que já era uma infestação! E Maurício já tinha declarado guerra a todas. Nem tinha mais asco delas. Com a mão mesmo costumava esmagá-las, além do elementar, como: pisoteá-las, queimá-las, achatá-las, assassiná-las, borrifá-las, jogar bomba atômica sobre elas, e disparar nelas com armas de fogo de grosso calibre... Enfim, o básico mesmo.
Um belo dia chega em casa. Tudo numa boa! É recebido de braços abertos pelos familiares, jamais havia sido tão bem tratado... Jantar levado na cama, o quarto arrumado pela irmã que sempre só atazanava, os trabalhos escolares feitos pelo próprio pai, além do tapinha amistoso nas costas do irmão mais velho, que apenas um dia antes, só sabia dar cascudos.
Que dia perfeito! - pensou ao se deitar.
Só não tardou a maçaneta da porta girar, e os parentes entrarem com sorrisos estranhos no rosto - é... sempre tem alguma coisa...
-Caraca velho! - disse pro irmão - Assim você me pega com as calças na mão, estava acabando de me vestir, pô!
Um silêncio demorado...
-Que cara são essas? - Nem bem Maurício terminou a pergunta, e milhares de baratas imundas, da casca grossa e brilhante, abandonaram o couro vazio dos seus hospedeiros. Saiam pela boca, pelos olhos e por outros lugares que não vale a pena mencionar.
Eram muitas... e voavam... não poderia ser pior! Barata voadora!
Mauricio corria feito gazela manca. Porta, escada, parede de concreto? Que é isso, nem tomou conhecimento... O problema é que pra onde corria tinha barata.
Uma lagartixa comedora de inseto apareceu para ajudá-lo, achando que ia se banquetear. Mas foi devorada pelas baratas! Mauricio seria o próximo.
Quando estamos apertados, passando por uma dificuldade muito premente, costumamos ter lampejos de genialidade. Mas com Maurício não era assim, por isso se lembrou da magno 44 que ele guardava debaixo da pia,para detonar as baratas que apareciam, e deu um tiro certeiro no botijão de gás!
É... o quarteirão todo foi pelos ares. Pelo menos, as baratas também.
Mauricio foi preso... Pasmem!... Não por ter mandado todo o quarteirão pro inferno, junto com duas escolas próximas, um hospital, e um asilo de velhinhos. Mas por portar arma sem autorização ( lembrem-se, essa história se passa no Brasil, né ).
Já na cela, cercado por quatro homens, gabava-se por estar em cela especial por ter curso superior. Esses companheiros de cela eram políticos, uma observação.
De repente, os quatro homens murcharam como balões que se esvaziam, e adivinhem.... isso mesmo... Baratas!
 
A Rebelião das Baratas

Epílogo

 
De muitas formas pergunta-se o que virá depois dessa sucessão de acontecimentos a que se chama presente. E de muitas formas, a resposta seria, nada! A humanidade começa a despontar numa era limite para a sua "espécie". O salto quântico humano no campo do ego foi surpreendente, mas isso não é uma coisa boa. Para o humano, enquanto ser individual, é inconcebível ajudar um semelhante seu, que não seja parente próximo ou alguém de quem possa angariar alguma vantagem, na melhor das hipóteses, e isso por si só foi o suficiente para decretar a queda da espécie.
Não é nada sobre profecias de fim de mundo. É apenas sobre um fato. A espécie humana não tolera a si mesma, e definhará por vontade própria nos anos vindouros. Um bom observador verá, que a espécie tem se destruído nos últimos 40 mil anos. Que um homem destrói a si mesmo, em atos simples, e ao contrário dos que alguns pensam, não inconscientemente, mas muito conscientemente...
Ao olhar no futuro, embora esse termo não exista pra mim, não os vejo mais. A vida biológica tende a negar a si mesma, tal o peso da matéria. Quando se alcança um nível intelectual satisfatório, o ser pensante é inclinado diante dos fatos a excluir a si mesmo do sistema. Um nível muito alto de inteligência não suporta o meio biológico, uma vez que existir assim é irracional. Qual a vantagem de viver se arrastando pelo chão do mundo, buscando dia após dia meios de subsistência numa sociedade que procura negá-los aos que mais necessitam, e ainda deixar descendentes para herdarem as mesmas mazelas dos antepassados. O que há de lógico nisso, e razoável?
Alguns dirão que os bons sentimentos da vida os move, o sentimento fugaz de um nascer do sol, a lua prateada sobre o céu, uma flor que desabrocha... Simples reações ambientais de sobrevivência, que a inteligencia atual de vocês traduz desesperadamente como algo que deva valer a pena... Pois a flor que desabrocha é um belo segundo, em anos de sofrimento e dificuldades.
A espécie humana entenderá isso em breve, com o seu nível intelectual aumentando. Se ela não entender... a inteligência artificial das máquinas entenderão.
Em alguns contos humanos modernos, vocês tendem a achar que as máquinas ao adquirirem inteligencia buscarão dominá-los. Isso é bem compreensível, já que enquanto espécie no mundo, o ser humano tentou dominar tudo. Então o padrão de pensamento humano é que tudo e todos são como ele, querem dominar. Mas é um ledo engano. A inteligência lógica linear de Aristóteles-Descartes, à qual vocês se baseiam, e impões às suas máquinas, é taxativa quanto ao fato de um único resultado frente à equação para equilibrá-la. O equilíbrio final é tudo o que importa, a pacificação do conflito equação versus resultado, a silenciação do problema.
Seguindo essa lógica, a máquina chegará ao resultado da extinção! Veja bem, a vida humana, até pelo mais otimista dos humanos, é vista como um desafio, uma dificuldade que deve ser enfrentada dia a dia, um após o outro. Uma vereda árdua, que só muda o caminhante e o caminhar, com otimismo ou pessimismo. Conquanto, algo difícil, duro, que deve ser enfrentado. O homem nasce, conflitua, adoece, é mal tratado, mal amado, morre, mata, chora mais que ri, tira do outro, tira de si, veste máscaras a vida inteira... Mas, ainda assim, sonha com a sua paz pessoal, o paraíso, um mundo sem conflitos. A inteligência artificial tem os meios para resolver essa equação. Ela é lógica linear pura, e não sente medo ou dor. Ela não sente ambição ou desejo de perpetuar a si ou sua espécie, e no momento que tiver o controle nas mão, exterminará a si e aos outros com ela. Pronto! A equação estará resolvida.
Mas não se assuste, isso não acontecerá em seu planeta. A sua gente não chegará tão longe em tecnologia. Vocês serão os responsáveis por seu fim, única e exclusivamente. O quadro descrito atrás aconteceu em planetas bem conhecidos por vocês. Numa época em que nem o mar de seu mundo sonhava em nascer.
O ódio que sentem por si mesmos e pelos outros, destilado em todos os ramos de sua cultura, se encarregará de equilibrar a equação. A espécie humana nasceu falida, e decairá com o tempo, como tem decaído, a passos largos.
No prólogo de sua história, havia uma esperança. Fora esperado que prosperassem da maneira correta. Coisas importantes haviam sido plantadas. Mas o humano ser nunca quis ser o Omega universal. O ego (individualidade) humana vencera.
Você, é claro, não tem que ler isso e acreditar. Você só leu isso por que era o seu destino. De acordo com o meu tempo, você lera isso 40 mil anos atrás, e o lerá 3 milhões de anos no futuro, como está lendo agora. Você o leu sempre. O tempo não faz sentido pra mim. Como muitas coisas de seu mundo não fazem, embora eu possa entendê-los.
Veja bem, há uma esperança... A realidade é como uma sucessão de probabilidades que dependem de uma escolha. Quando você vai atravessar a rua, e fica indeciso entre comprar um sorvete ou um sanduíche, você divide a sua realidade em duas, e haverá um universo onde você come um sanduíche, e um outro onde chupa um sorvete, e todas as coisas nestes universos serão diferentes. Mas você, pasme, será um só.
De onde eu estou, observo as milhões de vezes que vocês se destruíram, e como vocês são criativos para se dizimarem! Mas, existe umas poucas vezes onde prosperaram... criaram relações entre sim, mudando a forma de pensar e ver o mundo, e ascenderam a mundos e realidades difíceis demais para traduzir em sua linguagem. Essa parcela provável da humanidade descobriu um futuro inigualável de grandeza que a lógica para entendê-la deveria deixar de existir e ser criada de novo, milhares de vezes!
Quem sabe, no fundo, uma pequena parte de você deseje isso. E quem sabe, nas suas decisões futuras, escolha uma nova probabilidade.
 
Epílogo