Contos de tristeza

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares da categoria contos de tristeza

A Dona poesia e o passarinho

 
A Dona poesia e o passarinho
 
Numa bela tarde de primavera, a dona poesia veste-se a rigor, da sua mala de madeira, escolheu melhor blusa de cetim, e do reportório, as mais belas frases, onde botara todo seu mundo.
Era uma tarde cinzenta, o vento soprava e do mar agitado vinha brisa fedorenta do lodo. Ela não se importou com o cheiro, alisou o cabelo e apressou os passos.
Na sua passagem pelo jardim, deparou-se com um pássaro que chorava convulsivamente, abrandou os passos e lacrimejou, estava tão emocionada, tirou da sua mala um lencinho e enxugou lágrimas ao pobre pássaro que nunca parara de chorar, afagou-lhe cabelo grisalho, porém, o passarinho chorava cada vez mais. Dona poesia, desfeita em lágrimas decidiu cantar-lhe uma serenata, o passarinho escutava comovido aquela melodia que soltava dum coração à pingar de amor. Secaram-se-lhe as lágrimas e no seu semblante aflorou alegria.
Em sinal de gratidão, o passarinho lhe emprestara a voz.
A dona poesia retomara passos apressados, pois tinha encontro com fazedores de poema.
A escassos minutos chegou ao salão dos poetas, era o dia de declamação de poemas e era sua vez de declamar, subiu ao palco, hesitou, quase que desmaiara, houve murmúrios na sala, o silêncio se tornou pesado e, como se acabasse de sair dum sonho, ela olhou pra plateia em alvoroço e da sua linda voz, ecoou uma serenata que deixara os espectadores em delírio, todavia os juízes não pareciam convencidos e puseram-se a cochichar…
Por fim levantaram-se e deram uma negação. Foi então que à janela assomou o passarinho que se pós a cantarolar a serenata. Dona poesia comovida acompanhou o passarinho e ambos cantaram a mais bela serenata de todos os tempos.
Os espectadores correram com os juízes. E a partir daí, as declamações de poemas passaram a ser dirigidas pelos espectadores, dos juízes nunca mais se ouve falar.

Adelino Gomes-nhaca
 
A Dona poesia e o passarinho

UMA CARTA PERDIDA (porque ainda não é Natal...)

 
UMA CARTA PERDIDA (porque ainda não é Natal...)

Naquele dia acordou para um torpor relutante de quem não queria acordar. Era o dia do seu aniversário e, com uma certeza fatídica, sabia que ia ser mais um dia de repetida solidão. Lembrava-se ainda de outros aniversários, em que a sua filha lhe anunciava a data, às vezes até por ela própria esquecida, na rotina absorvente de mãe de família: ela era sempre a primeira a trazer-lhe um beijo especial e um pequeno, mas precioso presente, que reflectia o brilho dum sorriso nos seus olhos...

Mas agora, tudo era diferente. O marido morrera, os outros filhos casaram, seguiram rumos distantes, e aquela sua filha mais nova, a mais estremecida e carinhosa, apesar de morar perto dela, vivia a um universo de distância. Já não a visitava, nem lhe telefonava, nem sequer mudava de caminho, para que os seus caminhos se cruzassem por acaso... Ela não compreendia essa distância, ou melhor, forçava essa compreensão, à custa de se convencer que a sua filha não tinha culpa, era só vítima dum marido dominador e violento, que a obrigara a cortar com todos os laços emocionais do seu passado. Queria-a isolada do mundo, pretensamente ignorada por os que se ressentiram do seu abandono, para melhor a dominar nos momentos de fúria e a convencer nos momentos de tréguas.

E ela era só uma mãe dolorida e impotente, que já tentara resgatá-la em vão correndo em seu auxílio, para logo ser afastada com um - "está tudo bem, mãe, ele é só muito nervoso, mas depois não sabe o que há-de fazer para me agradar...", - nublado com sombras, não sabia se de medo ou de teimosa obsessão.
Aquela sensação de raiva, desespero e impotência, voltara com força no dia anterior, quando alguém lhe veio dizer que: - "houve barulho outra vez na casa da Clarinha". "Diz que os seus gritos se ouviam da rua, ele devia-lhe ter batido muito!". "Coitadinha, parece que nem tem família!" "Se fosse filha minha!!..."
Ela mergulhara os olhos em lágrimas turvas, juntamente com o seu coração sujo de ódio. Por "ele", por ela, por si mesma, pelo mundo! E desistira de repetir que só a Vontade da filha a resgataria, que a ela, mãe, só lhe restava manter os braços abertos e o colo pronto para a acolher...

Por isso e por tudo o resto, ela sabia que iria ter outro aniversário, talvez com a lembrança dum telefonema dos filhos distantes, mas sem sequer um beijo de parabéns da sua filha, ali tão perto e ali tão longe... e resolveu, com uma súbita urgência, escrever-lhe uma carta:

«Clarinha, minha querida filha, em que canto do teu coração tu me perdeste? Porque eu sei que estou lá, apesar de tudo, apesar de te sentir tão longe, porque tu estás em todos os recantos do meu coração!
Escassos quilómetros nos separam, mas fizeste deles, ou deixaste que fizessem deles, infindáveis léguas de indiferença. Eu sei que és cativa dum casamento mantido pela violência e pelo medo, e pelo amor aos teus filhos, que queres também proteger... e tento compreender. Porque não quero acreditar que possas amar um homem que te maltrata, que te humilha e que te tolhe as tuas liberdades mais básicas. Minha querida filha, nunca acreditarei que não me ames, que não te lembres do carinho com que te criei e das esperanças que desenhei para ti. Não quero acreditar que perdi o teu amor por ter estado contra esse casamento. Por ter tentado desviar-te os passos do abismo que o meu instinto de mãe adivinhou. Se esse homem, a quem hoje chamas marido já te maltratava em solteira, que milagre iria alterar o seu comportamento depois de casado? E por esse meu desesperado grito de fêmea que defende a cria, foste ainda mais punida, afastada de todos que te queriam bem e de mim... de MIM!, de quem nasceste e que sente na alma cada tua dor física...
Querida filha, queria tanto compreender a força que te mantém presa! Queria conhecer-lhe as tramas, e os nós cegos, e os elos, para os desmanchar, e os desatar, e os cortar, e libertar-te, enfim, e devolver-te a Vida que sonhei para ti! No entanto, desespero, porque não sei se é isso que tu queres. Não sei se, cega de uma paixão ou dum amor que não consigo entender, achaste nesse viver uma qualquer maneira de ser feliz... E novamente me sinto petrificada e amordaçada pela ameaça de que, depois de ganhar a tua indiferença, possa ainda merecer o teu ódio...
E fico, na calada do lado negro da Vida, contigo nas minhas preces, sacrificando a minha vontade de interferir, pelo bem maior que é a precária tranquilidade das tuas breves bonanças, (que acredito também as tenhas...), nesse mar revolto em que navegas.
...Estou triste por não te lembrares que eu existo... Espero que, um dia, te consigas esquecer que eu já não existo...

A Tua Mãe»
 
UMA CARTA PERDIDA (porque ainda não é Natal...)

Uma Looonngaaaa Espera....

 
No fim de uma estrada de chão, tão comprida que atravessa o horizonte visível, jaz um imenso castelo gótico coberto de neve, que de tão branca, ao refletir a luz do sol chega a cegar, temporariamente, um viajante desavisado. Foi erguido há séculos, muitos séculos mesmo, antes dos historiadores nascerem, e da palavra história ainda ter um significado. Dorme, imperturbável, sobre o cume fino de uma montanha esquiva, num dos cantões da Hungria, desde quando toda a Europa não passava de um grande feudo, e o próprio país, sequer existia.
Ele é cercado por desfiladeiros íngremes de centenas de metros de profundidade, e por montanhas tão afiadas, que lembram a boca de uma fera carregada de dentes ameaçadores. O frio sopra com tal ardência e sem piedade, que congela até a alma os peregrinos que atrevem a se aventurar por ali. E isso não foi uma força de expressão! Nessas estranhas paragens, não é raro de se ver figuras humanas congeladas no tempo, em pleno ato de caminhar, como que tomados de repente pelo destino, prolongando-lhes o eterno agora. Já não são nada mais, apenas estátuas centenárias, que jamais descansarão!
E é, pois, no fundo deste palácio sombrio, no qual o próprio mal evita se aproximar, que vive um rapaz de aparência jovial. No entanto, mais velho do que o próprio castelo que habita... e do que, talvez, o próprio tempo.
Há um tesouro no mais afastado dos cômodos, no mais amplo dos quartos, no mais protegido dos lugares da Terra, onde o inverno, semelhante a um velho descabelado e de barba comprida e alva, sopra pessoalmente com o seu hálito frio, o gelo de todas as eras do universo! Um tesouro que o velho rapaz guarda com todo o zelo do mundo. O corpo inerte do primeiro e último amor que teve...
Por causa do frio o corpo jamais irá se decompor. E ali, ele contempla, com o olhar mais triste do mundo, a única coisa que ele nunca cansou de olhar ante as eras do planeta.
Ele está lá, eu posso vê-lo! Sentado junto a uma parede escura e fria, sempre olhando para a razão de sua alma...
Ele não vai morrer nunca! Porque a morte em pessoa não quer se aproximar dali...
E ele nunca se congelou, por que a chama do amor que traz consigo, o mantém vivo, quente e condenado...
 
Uma Looonngaaaa Espera....

OLHA-ME NOS OLHOS...

 
Olha-me nos olhos,
já não lembras o meu olhar,

já não queres sobrevoar as estrelas
que a dois olhamos

e saltar a distância
que entre nós existe.

Diz-me,

se ainda
desejas os meus beijos,

o entrelaçar dos meus pés nos teus.

Quero olhar o luar,
vestir o teu corpo com a minha voz,

sentir-te terno,

apaixonado pelo meu Eu.

Vem amor.

mariamateus
 
OLHA-ME NOS OLHOS...

' Os dias...

 
Sempre fui aquela pessoa que todos gostam pelo que é; mas estou cansada de tudo, principalmente de viver, sabe quando você achou que tinha uma razão de viver? E tudo simplesmente some da sua vida... apaga da sua mente, como se fosse apenas uma lembrança? minha vida perdeu o chão, o sentido e a cor, muitos pode achar tudo isso vai passar,
Mais essa dor aqui dentro, cresce a cada dia mais, ao saber que meus dias serão sempre "os mesmos" e nada vai mudar. Nada faz sentido, não consigo sorrir, não consigo fazer mais nada!
Por que a vida é tão injusta?... Queria entender... Por que estou aqui, se minha alma está em outro lugar? mais permaneço aqui , juntando os e tentando viver da melhor forma possível e hoje o que me fazia sorrir não está mais aqui.
 
' Os dias...

"L'amour qui a fait ça"

 
França, séc. XIX. Em uma taverna, à noite, quatro jovens conversavam:

— Sim, eu amei, amei perdidamente, senhores! Juro por Deus... ou por Satã, caso vós prefirais... E posso dizer-vos que não há nada mais doce e excelso que o amor. Ah! sentir-se acalentado pelo seio recendente duma donzela lânguida, e ouvir os maviosos suspiros emanados de sua alma pura! Vezes tantas desejei morrer de amor. Morreria sorrindo como morrem os anjos...

Isto é o que dizia Eugène aos seus amigos Auguste, Pierre e Victor, que junto a ele bebiam vinho. E estes protestavam:

— Duvido que saibas o que é o amor! — dizia Victor.

— Isto não é amor, é luxúria! — dizia Pierre.

— É, tu és mentiroso e devasso como um padre! — dizia Auguste.

Então, Eugène respondeu:

— Pois bem, senhores: contar-vos-ei, resumidamente, a história de uma donzela que amei, em demasia. Sim, amei-a como Lamartine amou a Graziela, Goethe a Carlota, Dante a Beatriz, Keats a Fanny e Poe a Eleonora. E quando eu terminar... isto é, se eu terminar, cabe a vós jugardes se foi amor ou não, o que senti por Sophie. Sim, é este o nome dela, Sophie...

Então, Eugène começou a história:

"Sophie era bela, oh!, muito bela... mas não era uma beleza comum. Era uma beleza "estranha", que talvez se assemelhasse à Ligéia descrita por Poe.
Inda me lembro da vez primeira em que contemplei os seus olhos negros e lânguidos brilhando: ela estava tão encantadora, porém parecia tão triste, a costurar perto da janela, enquanto eu em frente passava. Nossos olhares se encontraram, e nós dois coramos. A partir desse dia, eu sempre passava por aquele caminho, e sempre nos entreolhávamos.
Aos poucos, eu estava me apaixonando por ela, e ela também parecia estar por mim, apesar de nunca termos trocado uma palavra sequer. Porém, eu não compreendia a melancolia que sempre jazia em sua face celeste... até o dia em que resolvi lhe enviar uma carta em que eu dizia meu nome, e que contia tudo o que por ela eu sentia em meu âmago solitário.
No dia após ao que recebera a minha carta, ela não estava à janela... nem nos dias seguintes... Senti um profundo pesar. Mas certo dia, voltando mais cedo do que de costume, eu a vi. Logo, quando ela me viu, corou e saiu, rapidamente, da janela. Minha alegria recém surgida logo se esvaeceu novamente...
Resolvi perguntar a alguns vizinhos quem era tal jovem que me enlevava a alma e deixava-me ébrio de sonhos e amor. Disseram-me que se chamava Sophie Lescaut, tinha a mesma idade que eu(19 anos), e que dali a seis meses chamar-se-ia Condessa de Berville, pois estava prometida, contra à sua vontade, a Armand Dumas, o Conde de Berville, um velho rico, letrado e cortês.
Ao chegar à minha casa, verti copiosas lágrimas. Havia uma mágoa negra em meu coração... um sofrimento indizível...
Eu já havia perdido todas as minhas esperanças(em relação a alguém que eu nem conhecia, e amava não sabia por que), até que certa vez passando defronte da casa dela, eu a vi. Ela sorriu-me, eu retribuí com um sorriso triste, então, da janela jogou algo para mim e entrou. Oh! era uma carta. Abri-a e a li avidamente. Era uma resposta à carta que eu enviara a ela havia duas semanas. E eu não me enganara... ela me amava! Além de suas palavras que correspondiam com os meus sentimentos, ela marcava um encontro secreto comigo. Dali a dois dias, todos da casa saíriam e ela ficaria sozinha. Pediu-me que fosse às 21 horas.
No dia marcado, eu fui, e ela atendeu-me cortesmente, embora retraída e embaraçada, bem como eu também estava... entretanto, rapidamdnte já estávamos conversando como se nos conhecêssemos há muito tempo. De perto, ela era inda mais inefável. Sua voz era a canção mais doce que eu já ouvira em minha vida! Nem mesmo do piano de Chopin ou do violino de Vivaldi emanava eufonia tão divina... Em certo momento, beijamo-nos. Ela pareceu sufocada... em culpa! Estava mais pálida que eu a vira antes. Então, pediu-me para que eu saísse..."

Neste momento da narrativa de Eugène, ele foi interrompido por uma risada de Auguste, e que logo em seguida disse:

— Eugène, bebeste demais! Estás mentindo como um poeta romântico. Creio que andaste lendo em demasia Pushkin, Musset, Chateaubriand e Byron.

— Que Mefistófeles tome a minha alma se eu estiver mentindo! Deixa-me continuar, Auguste, e não me interrompas novamente... Bem como eu dizia...

E continuou a história:

"E no próximo dia, enviei-lhe outra carta de amor, mais apaixonada ainda que a outra, e Sophie, no próximo dia, respondeu-me, também deveras apaixonada, para nos encontrarmos no Bosque das Flores, às 19 horas, quando ninguém sentiria a sua falta. Oh! Encontramo-nos e nos amamos. Amei como jamais eu amara ou amei depois... Estávamos cada vez mais apaixonados um pelo outro, e após este encontro, seguiram-se, no mesmo lugar, vários outros...
A cada novo encontro, fazíamos mil promessas de amor. Pretendíamos sair de Paris e ir para alguma pequena cidade, onde ninguém nos achasse, e nos casarmos, embora ela às vezes repelisse tal ideia, pensando em Léopoldine Lescaut, sua mãe.
Mas enfim, certo dia, num dos nossos encontros secretos, tomamos decididamente esta resolução, e marcamos de fugir na próxima semana... mas eis que neste dia em que decidíamos a fuga, a mãe de Sophie sentindo a sua falta em casa, ordenou a um criado que a procurasse... e... no Bosque das Flores nos viu, escondido atrás de arbustos, beijando-nos ardentemente, e sorrindo, e conversando. Foi rapidamente contar à Léopoldine...
Naquela noite, ao Sophie(ah!, minha adorada Sophie!) entrar em seu quarto pela janela, sua mãe lá a esperava. Imaginai, meus caros, qual não foi o espanto de Sophie, que não sabia do criado que nos deletara! As duas tiveram uma longa conversa(malgrado Leópoldine ser a única a falar), e decidiu-se que o casamento que aconteceria dali a 3 meses com o Conde de Berville, foi antecipado para dali uma semana!
No dia seguinte, Sophie arriscou-se a me encontrar, e contou-me tudo. O quão imensurável foi a nossa consternação é impossível de exprimir em palavras! Choramos mares de lágrimas ardentes, juntos. Os nossos sonhos pareciam mais distantes, porém não desistimos da fuga, adiantando-a para dali quatro dias, no sábado(o casamento com o Conde seria na terça). Mas o nosso desespero não nos deixou perceber que Sophie havia sido seguida por um criado, por ordem de sua mãe(apesar de ele nada ter ouvido). Léopoldine logo a proibiu de sair de casa, até a data do casamento, deixando-a sob vigilância uma grande parte do dia.
Na quarta-feira, ela bordou quase o dia inteiro, e nos raros momentos só, escreveu uma carta. Na quinta, passei todo o dia escondido, observando sua casa, para ver se eu a via na janela... mas foi em vão. Até que na madrugada de sexta, quase amanhecendo(num dos raros momentos em que não se encontrava sob vigilância), ela apareceu à janela. Na hora, mostrei-me. Ela ficou contente, e jogou algo pela janela para eu pegar, e logo entrou novamente. Era uma carta e um pequeno lenço bordado delicadamente em que havia inscrito "Eugène, amar-te-ei sempre. Sophie."
Na carta havia escrito:

'Querido Eugène,
Minha mãe ficou sabendo do último encontro que tivemos e remarcou o meu casamento com Armand para hoje à noite!
Oh! não sei o que fazer! Confesso que não posso odiar o Conde... ele é um bom homem... porém, também não posso amá-lo...
Só tu, oh!... tu és o único que amo, amei ou hei de amar, Eugène! Prefiro morrer a viver de ti longe... E se este casamento realmente ocorrer... ah!, saibas que meu coração será sempre teu, embora todas as esperanças tenham murchado como flores solitárias e esquecidas. Não há como fugir! Todos por aqui já sabem do que ocorrerá hoje. Peço que venhas às 17:10 h, para nos despedirmos... teremos ao menos dez minutos a sós...
A eternamente sua: Sophie.'

Após ler a carta, desesperei-me! Pensei em me matar, pensei em matar o conde, pensei em arriscar uma fuga com Sophie(embora as condições tornassem impossível tal tentativa, sem que ninguém visse). No fim das contas, tentei acalmar-me, e decidi simplesmente ir lá na hora em que ela marcara.
Ao encontrarmo-nos, quase nos afogamos em tantas lágrimas e beijos. Mas notei que ela estava muito pálida, parecia doente. Ainda assim, era de todas as estrelas a mais bela e brilhosa. E ela disse:

— Serei breve, pois não temos muito tempo. Se eu me casar esta noite com alguém que não seja tu, serei infeliz até que eu morra, e como vês, estou doente, desde quando nos separamos. Sinto que não viverei muito... mas prefiro morrer logo a sofrer ainda nesta vida, sendo obrigada a viver com alguém que não amo. Por isto, peço-te um favor...

— Ah, tudo o que quiseres, Sophie... tudo... — eu respondi, com a face banhada em pranto.

— Pois bem, querido Eugène... então, mata-me! — respondeu ela, mostrando-me um punhal.

— O quê?!

— Mata-me!... Por favor!...

No momento em que ela disse isso, fiquei paralisado, sem saber o que fazer ou dizer; eu apenas negava... Ela pôs o punhal em minhas mãos e implorou para que eu a matasse... mas eu não fazia nada. Eu estava sem força alguma! Parecia que ela controlava o meu corpo... e até hoje não entendo por que...
Ela puxando facilmente minhas mãos onde jaziam o gélido punhal, dentro de alguns segundos perfurou o seu pobre coração! Oh, ela morreu silenciosamente, com exceção de um suspiroso 'adeus' seu,(que eu pelo menos penso ter ouvido)...

E apenas após a sua morte, percebi o que ocorrera: minhas mãos a mataram! Fiquei parado, confuso, atormentado... apenas observando minha Sophie, minha doce amada morta... morta de amor! Oh! Foi o dia mais soturno e sombrio de todos... e ainda sonho com ele, e vejo sangue em minhas mãos... As palavras mais tristes que eu ouvira em minha vida foram ditas naquele momento pelo silêncio da solidão fúnebre da morte! E foi a partir daquele dia que percebi que se não há alguém na vida o qual possamos amar com tudo... com todo o nosso coração e alma... não vivemos, assistimos à vida!

Beijei-lhe os lábios frios pela derradeira vez e saí pela janela, mais pálido e triste do que nunca, plangendo incessantemente. Fui para casa, chorei durante toda a noite: e alguns dias após, fiquei sabendo que uma jovem suicidara no dia em que se casaria. Fiquei semanas sem sair de casa, apenas bebendo vinho e lágrimas no mais profundo e obscuro spleen... e até hoje, cinco anos depois, vou ao cemitério visitá-la..."

Após Eugène calar-se, seus três amigos olharam-no surpresos, até que Auguste quebrou o silêncio, e disse sarcasticamente:

— Ah, meus caros, dizei-me que vós não acreditais nesta história contada por nosso amigo Eugène! Vede como está bêbado! Parece até o Edgar Allan Poe...
Caro Eugène, não me leves a mal, mas acho mais fácil de crer que Marquês de Sade foi um virtuoso do que que sua história é verídica!

Então, Eugène, bem sério, tirou do bolso uma carta que aparentava ter sido lida muitas e muitas vezes. E depois, um lenço em que havia bordado "Eugène, amar-te-ei sempre. Sophie."
E disse:

— Carrego para todos os lugares em que vou...

Os três amigos de Eugène, entreolharam-se estupefatos, e logo, puseram-se a ler a carta, e quando terminaram, estavam mais estupefatos ainda. Então, Auguste disse, seriamente:

— Então, é verdade! E deveras, tu lhe perfuraste o coração?

— Sim... — respondeu Eugène. E neste momento, um suspiro exalou de sua alma e uma grande lágrima escorreu-lhe pela face...
 
"L'amour qui a fait ça"

ANALÚ

 
Analú nasceu bela, pela alva, olhos muito azuis, e um chumaço de cabelo loiro que refletia o brilho do sol. Crescendo, veio despertando em toda a família grande alegria por esta menininha tão meiga e carinhosa. Nasceu numa bela casa, cheia de conforto e amor.

Com o passar dos anos, ela crescia e descobria coisas novas, e nunca deixava de prestar atenção a tudo em sua volta. Nos modos singelos, formava-se uma mocinha muito delicada. Mesmo sendo pequena criança, cuidava com primor do seu quarto, da casa, e ainda se divertia em olhar os livros de receitas da mãe, buscando novos sabores com o prazer de agradar os outros.
Já moça, despertava olhares de muitos, pois se tornara bela e atraente, e sempre sabia dar um sorriso cativante. Mas havia algo mais belo em Analú que seu corpo, era a pessoa no seu intimo, que era meiga, e ternamente amiga de todos. Disposta a ajudar e contribuir.

Mas, algo dentro de sua mente, começou a tomar conta como gangrena ou um vírus devastador. Rápido e sem piedade, veio um brotando um espírito egoísta, que veio a banalizar toda uma criação. A cada dia, ela deixava de dar sua opinião quanto ao que era mau ou bom, e ficava cada vez mais introspectiva. Era um comportamento novo, confundido com uma falsa maturidade. Mas, Analú depois de novos amigos, com o passar dos meses, ficou distante dos familiares. Nada de culpas, de criação errada, de mimos excessivos, apenas, um comportamento inesperado e ofensivo começou a aflorar nesta moça.

Analú veio a conhecer sua primeira paixão, entregou-se incondicionalmente a um homem que mal conhecia. Fora engodada pelo toque, carinho que desperta desejos, e momentos passageiros de diversão barata.
Toda uma família sentiu profundamente o novo comportamento degradante, em lágrimas e grandes decepções passaram a vivenciar seus dias. A moça se recusou a ouvir qualquer pessoa que se mostrasse contra suas novas atitudes e amigos.

Texto corrigido

Entrincheirou-se de orgulho e relutância. E repudiou a todos que tanto a amaram e dedicaram tanto de suas vidas.
Não havia mais compromisso, obrigações, cumplicidade para com sua família. Para ela, todos passaram a serem um estorvo. Então não importava mais em agredir, quer em palavras ou comportamento.

Passou a vestir-se de forma provocante e vulgar, a se embriagar e dormir fora de casa. Seu corpo começou a decair e seu intimo a transformar-se numa sombra obscura, intransponível. Recuava de conselhos. Ninguém conseguiu impedi-la. A reprovação de muitos levou a uma chuva de conselhos e alertas, sempre havia alguém que antes a conhecia e admirava e não suportava ver a transformação maléfica de Analú. A mudança era drástica, e não havia quem não espantasse ou sentisse pesar. Ela tinha apenas ouvidos para seus novos amigos. E em arrogância e dureza de coração desprezou a todos, ofendia, injuriava, humilhava quem tentasse impedi-la.

A moça endurecia cada vez mais, recusando-se a ouvir as suplicas dos pais e seus amigos. Passou a difamar mãe e pai como cruéis, insensíveis, retrógrados, colocando-se como vitima oprimida, angariando assim a amizade de outros jovens sem caráter e responsabilidade, gente revoltada, sem limites, que mais desrespeito e crueldade plantaram no coração de Analu. Nesta convivência, sentia-se diferente, independente, livre, sem compromisso com ninguém ou com o mundo. Chegou a ser presa algumas vezes por arruaças, e seu pai sempre a livrava da cadeia. Afinal, o lema era curtir a vida, e não fazer nada, apenas o que o desejo mandasse. Festas, bebida, sexo, e madrugadas acordada. Isso era felicidade pra Analu. Uma falsa felicidade.

Um dia, seus pais, cansados dos furtos e afrontas da filha, tolerando a casa cheia de vadios, seu pai tentou mais uma vez argumentar, mas foi inútil. Culminando tudo numa troca de palavras ofensivas, uma grande briga, Analú empurra sua mãe pela escada, onde resultou de a mesma vir a ficar dois dias internada num hospital. Não havia mais o que se fazer para tentar fazer Analú a reconhecer o amor que ambos sentiam por ela.

Decidiram então arrumar todas as coisas da filha e quando ela chegou a casa, seu disse que seria melhor ela morar com o homem que ela dizia tanto amar. Mas, em tom sarcástico, ela riu debochadamente e disse que não via a hora de se ver livre das garras dos seus pais, disse que vivia sufocada por eles, e que sairia de casa pra nunca mais voltar a vê-los. E assim, começou a arrumar suas coisas.

O pai com o peito doído, mas decidido, colocou tudo no carro, e a deixou com seus pertences na porta do casebre malcheiroso de seu namorado que ficava em outro município. Não conseguiu ficar ali para mais uma troca inútil de palavras, apenas entrou no carro, sem dizer mais nada. Veio um olhar marejado de pena, fruto de um coração cheio de dor e ingratidão.

Antes que o carro partisse Analú esbravejou: Graças que me deixaram em paz agora vou ser feliz. Não suportava vocês, e nem morar mais naquela casa. Não me importunem mais, sumam da minha vida!! Chega de uma vida medíocre e patética que vocês me deram. Não me procurem mais, nunca mais!!!

Bem, quando Analu bateu à porta, aparece seu namorado, com a cara de quem estava dormindo, todo amassado e com a barba por fazer, vestindo uma calça suja e desabotoada. Arregala os olhos e sem nenhuma demonstração de carinho espanta-se com ela e todas aquelas caixas e malas. Afligiu-se e disse que não podia ficar com ela. Tamanha surpresa! Forçosamente e em desespero, Analú invade a casa e joga as malas no pequeno quarto imundo e fétido. E impôs-se ali, sabendo que não tinha pra onde ir.

Os dias se passaram e ela, provou a miséria, a sujeira, o desconforto, e pior, o desprezo do homem que julgava lhe amar.
Nesse meio tempo seus pais tiraram férias e foram para longe tentando esquecer tamanho sofrimento. Não informaram pra onde. E neste lugar pra onde foram, tomaram uma decisão para tentar amenizar a dor que sentiam, sabiam que tinham feito tudo, mas foram desprezados pela única filha, então ali, decidiram fixar moradia, deixando pra trás as más lembranças que sua antiga casa trazia. E semanas mais tarde a mudança dos pais seguiu para este lugar que ficava distante de onde viviam.

Por volta de uns seis meses, Analu acordou com o corpo muito dolorido, e olhou-se num caco de espelho que havia num bancada perto do seu colchão. Estava com o olho roxo e ensangüentado da surra que ganhara na noite anterior, mais uma de tantas que agora experimentava. Decidiu arrumar suas coisas e voltar para a casa dos pais. Conseguiu furtar um trocado esquecido num bolso da calça do seu homem. E fatalmente teve que encarar a realidade de sua miserável vida. Pegou um ônibus e viajou pra cidade de seus pais, para a bela casa onde havia sido criada. Lá chegando viu outras pessoas, rostos estranhos. Perguntou pelos moradores antigos, e ficou sabendo que estes se foram e que não tinham deixado endereço, já fazia alguns meses. Tal notícia desceu como pedra no seu estômago. Bem, lembrou-se de seus antigos amigos, e foi procurá-los, e um a um escusou-se de ajudar Analu, mil desculpas deram e outros a desprezaram sem remorsos, até mesmo rindo de sua nova condição. Analu viu que não havia amigos de verdade.

Sentou numa sarjeta e começou a chorar profundamente. Lamentou-se de tudo que jogara fora e da forma tão ingrata que tratou sua família. Perambulou por vários dias pelas ruas, esperava anoitecer para ir às lixeiras vasculhar o lixo para encontrar algo pra comer. Dormia debaixo de marquises de lojas, passava frio. Ninguém soube informar o paradeiro de seus pais.

Passaram-se muitos anos... E as sementes plantadas deram seus frutos. Analú passou a viajar de cidade em cidade quando arranjava uma carona, até que veio parar num lugar bem longe de onde nascera, mas nunca mais encontrou seus pais ou notícias deles. Hoje ela é aquela velha cheia de trapos e sacos cheios de lixo que dorme debaixo da abertura de um esgoto, numa fenda do terreno onde ela encontrou pra morar. Cata comida no lixo até hoje. Levanta suspiros de pena em alguns transeuntes, que nada sabem da moça dura e orgulhosa que fora no passado. Hoje, seus pais não existem mais, e nem aqueles que lhe queriam tão bem. Não adiantou mais lamentar, apenas tentar sobreviver nas ruas.
Suas memórias lhe condenam todos os dias, e o tempo não curou o sofrimento diário. Pelos anos passados, seus pais deveriam estar mortos. Seu rosto enrugado ficou como máscara que esconde a princesa que ela um dia foi, e sua vida miserável não veio como castigo, mas como fruto por ela plantado.
Quando perguntam a ela por que ela mora nas ruas, ela diz: eu escolhi.

Caros poetas, este é um longo texto, mas a historia embora fora criada, tive como inspiração uma personagem que conheci realmente, e tem algumas semelhanças com o descrito aqui.
 
ANALÚ

A dor

 
Sinto-me uma completada idiota...
Lágrimas de dor escorrem sob minha face...
A dor de viver assim;
Falsas palavras que no final só me maxucaram.
Vivi uma ilusão todo esse tempo, achando que o que você sentia era amor!
Perdi o chão, a vontade de continuar.
Tudo isso é tão irreal...
E essa dor é tão real; queria que fosse apenas mais um pesadelo.
Meu maior medo se tornou realidade.
Prefiro sofrer do que me maxucar novamente,
Acreditar em suas mentiras!
Acreditar que tudo isso um dia foi real.
A dor permanece fria e mansa em mim;
Vou tentar seguir sem você.
 
A dor

Sentimentos.

 
Quando penso que minha vida está tomando um novo rumo.
Pensamentos deixa - me confusa...
Achei que esses sentimentos já haviam partido;
Mas vejo que me enganei...
Lágrimas de saudade e de dor, escorrem sob minha face.
Tudo o que eu queria nesse exato momento era ter você comigo.
São sentimentos que não queria ter, pois a dor de não te ter comigo, aumenta mais e mais.
O tempo passa, a dor aumenta...
Será que um dia terei você de volta?
Ou isso não passa apenas de um sonho?
São apenas sentimentos que queria não ter.
 
Sentimentos.

Negrinha*

 
Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.

Ótima, a dona Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

— Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.

— Cale a boca, diabo!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...

Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.

— Sentadinha aí, e bico, hein?

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.

— Braços cruzados, já, diabo!

Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.

Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.

Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste...

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...

A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”...

O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:

— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!

Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.

Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.

— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.

Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.

— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.

— Traga um ovo.

Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:

— Venha cá!

Negrinha aproximou-se.

— Abra a boca!

Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:

— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?

E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.

— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!

— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.

— Sim, mas cansa...

— Quem dá aos pobres empresta a Deus.

A boa senhora suspirou resignadamente.

— Inda é o que vale...

Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.

Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.

Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?

Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.

— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.

— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.

— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.

Chegaram as malas e logo:

— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.

Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.

Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia...

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.

— É feita?... — perguntou, extasiada.

E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.

As meninas admiraram-se daquilo.

— Nunca viu boneca?

— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?

Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.

— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?

— Negrinha.

As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:

— Pegue!

Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.

Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.

Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.

Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:

— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?

Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.

Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...

Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!

Assim foi — e essa consciência a matou.

Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.

Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.

Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.

Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.

Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.

Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.

Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.

Mas, imóvel, sem rufar as asas.

Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...

E tudo se esvaiu em trevas.

Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados...

E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.

— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”

Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.

— “Como era boa para um cocre!...”



Texto dedicado à uma amiga distante, muito distante.

*"Negrinha" é um texto de Monteiro Lobato.

"
Monteiro Lobato, natural de Taubaté (SP), nasceu em 18/04/1882. É uma das figuras excepcionais das letras brasileiras. Jornalista, contista, criador de deliciosas histórias para crianças, suscitador de problemas, ensaísta e homem de ação, encheu com seu nome um largo período da vida nacional. Com a publicação do livro de contos "Urupês", em julho de 1918, quando já contava com 36 anos de idade, chama para o seu talento de escritor a atenção de todo o país. Cita-o Ruy Barbosa, em discurso, encontrando no seu Jeca Tatu um símbolo da realidade rural brasileira. Lança-se à indústria editorial, publica livros e mais livros — "Onda Verde", "Idéias de Jeca Tatu", "Cidades Mortas", "Negrinha", "Fábulas", "O Choque", etc. Fracassa como editor, ao lançar a firma Monteiro Lobato & Cia., mas volta com a Companhia Editora Nacional, ao lado de Octales Marcondes, e triunfa. Tenta a exploração de petróleo, e acaba na cadeia, perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas. Não só escreve, como traduz sem pausa, dezenas e dezenas de livros, especialmente de Kipling. Uma vida cheia. E uma grande obra, que lhe preservará o nome glorioso. Foi um grande homem, um grande brasileiro e um dos maiores escritores — em todo o mundo — de histórias para crianças. Basta dizer que, no período de 1925 a 1950 foram vendidos aproximadamente um milhão e quinhentos mil exemplares de seus livros.

Era, de fato, um ser plural: escritor precursor do realismo fantástico, escritor de cartas, escritor de obras infantis, ensaísta, crítico de arte e literatura, pintor, jornalista, empresário, fazendeiro, advogado, sociólogo, tradutor, diplomata, etc. Faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 04 de julho de 1948.



O texto acima foi publicado originalmente em livro do mesmo nome, tendo sido selecionado por Ítalo Moriconi e consta de "Os cem melhores contos brasileiros do século", editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 78." (Fonte: Banco de escola, educação para todos)
 
Negrinha*

Os porquês duma criança…

 
Os porquês duma criança…
 
Os porquês duma criança…
Que pergunta a mãe:
-mamã, porquê partiu minha mana?
A mãe banhada de lágrimas responde:
-filho, ela foi brincar com os anjos lá do céu,
Um dia ela há de voltar.
-mãe, mas hoje é aniversário dela,
Porquê não podia voltar mais cedo?
Ó filho, o céu é distante e ela levará dias
Pra chegar a tempo.
-mamã, mas dizem que há renas no céu,
Ela podia pedir boleia ao pai natal…
-sim podia, mas o pai natal foi de férias
E só vem à terra pra próximo ano.
Ó mamãe, mas é muito tempo!
-não filho, o natal é já amanhã, vá dormir.
A criança ficou muito alegre, e foi deitar-se
Com intuito que no dia seguinte
Reveria sua irmã, que morrera há duas semanas.

Peta
 
Os porquês duma criança…

PERDIDA

 
Soltam-se palavras
como
desalmadas lágrimas

no
ruidoso silêncio
duma tarde

em
pálido sol

de
Outono.

Gélidas vozes

como
maciças sombras,

teimosamente batentes
na
minha mente,

perdida no querer
dum tempo

de

te ter.

mariamateus
 
PERDIDA

Insatisfação eterna

 
Insatisfação eterna
 
Lorraine jamais acreditara que a humanidade fosse imarcescível, sempre fora céptica relativamente às questões da vida depois da morte, para ela o homem era pura e simplesmente feito de matéria orgânica e minerais, que acabaria por se decompor e retornar à terra mãe.
Aos quarenta e cinco anos, com toda uma vida pela frente, formação académica em várias áreas e um nome de prestígio, nada faria prever que a sua constante e compulsiva insatisfação pessoal a levaria a cometer o maior acto de cobardia que alguém pode atentar contra si mesmo.
Após 12 anos de casamento, que não lhe deram rebentos, por força de uma incompatibilidade genética, o desgaste de uma vida sempre em mutação, pela busca de novos conhecimentos e a diferença de interesses que com os anos se vão acentuando, foram os factores que estiveram no cerne da sua ruptura matrimonial.
Um divórcio tratado juridicamente às pressas, ironicamente dito amigável, deixara Lorraine em desvantagem financeira relativamente ao homem que desposou aos 18 anos.
Lyon, a cidade que lhe serviu de berço, junto ao Jardin Botanique, no chamado coração da cidade, era, agora 15 anos volvidos, apenas uma lembrança envolta em muita saudade e nostalgia. De Jean-Luc a memória dos primeiros anos de felicidade em comum, do tempo em que ainda construíam sonhos conjuntos. Depois a ansiedade de não gerarem filhos e a traição do marido era o que mais vivo retinha na memória e lhe acinzentava o coração.
Laura, sua mãe, falecera vitimada por um linfoma, o que a desgastara e deixara só na companhia do pai, também ele, debilitado na luta contra o vil Alzeihmer.
O prédio de esquina da Rua da Palmeira, em Setúbal, acordara sobressaltado naquela madrugada fria do mês de Janeiro, quando um grito estridente e gélido, acompanhado por um arrepiante embate, acusou algo fora do normal e os vizinhos acorreram ao vão da escada. Lá em baixo, o que sobrava do atraente corpo de Lorraine, inanimado e indescritivelmente envolto numa pasta de sangue, é imagem que jamais será apagada da mente óptica de quem testemunhou tão triste cena.
No velório, poucas as pessoas que fizeram questão de lhe prestar uma derradeira homenagem, talvez porque aos poucos, tivesse afastado uma por uma as suas amizades e conhecimentos, uma vez que dedicou os últimos quinze anos da sua vida aos estudos e progresso na carreira, de tal forma que recusava todas as excelentes oportunidades de trabalho que tivera, sempre por achar que nunca se prestaria a ficar sob a tutela de outro profissional e ser sua subalterna. Por conta desta obsessão e preconceito, a sua condição financeira foi-se agravando e as dívidas contraídas para montar negócios por conta própria, que nunca resultaram, por força da sua arrogância e azedume, sucediam-se e amontoaram-se.
A urna fechada, protegia os mais curiosos de uma visão dos infernos, ao mesmo tempo que devolvia à memória de Lorraine um pouco de dignidade.
Nos rostos presentes na cerimónia fúnebre que antecede a derradeira passagem pelo crematório, raros eram os semblantes carregados de lágrimas, como se de um acto previsível e incontornável se tratasse.
Sobre a urna um pano negro com a cruz bordada a dourado e um único palmito de flores em tons de rosa e branco faziam lembrar que o corpo que ali jazia pertencia a uma mulher ainda na flor da idade.
Suspensa no ar, atónita e aparentemente perturbada, não fora tratar-se de um periespírito, Lorraine debatia-se contra a imagem que os seus olhos avistavam por baixo do seu corpo fluído, vestido de semi-matéria.
Gritou com quantas forças tinha, convicta de que seria ouvida, já que os patetas que se encontravam na capela mortuária deveriam ter uma espécie de torcicolo em série, uma vez que ninguém se dignava em olhar para cima e tirá-la daquele suplício, que era estar pendurada:
- Mas que raio de teatro é este? Que diabo estou eu aqui a fazer? Façam favor de me tirar imediatamente daqui!
Por mais que gritasse e estrebuchasse não lhe servia de grande coisa. Achava-se estranha e leve como uma pluma, mas sentia como se estivesse anestesiada, uma dor meio atordoada incomodava-a.
Os seus olhos fixaram-se, por fim, na urna e sem perceber bem como, uma vez que esta estava fechada, conseguiu ver o vulto que estava lá dentro, o que lhe provocou um enorme arrepio na medula. Aquela mulher ali em baixo, completamente desfigurada era ela, acabara de perceber que os seus intentos foram cumpridos e que, por mais que gritasse e se insinuasse, nunca seria vista pelos poucos amigos e familiares que ali se encontravam a velar o seu desfigurado cadáver.
Percebeu que flutuava e que por mais que tocasse nas pessoas que estavam na sala e as trespassasse, o mais que conseguia provocar nelas seria um arrepio passageiro. Irritou-se, afinal ela estava habituada a ter control das situações e não sabia o que fazer, nem para onde ir. Viu chegar o cangalheiro, pegar na urna e metê-la no carro funerário. Não sabia se havia de ir no carro funerário, ou recusar-se a fazer a derradeira viagem, que segundo os familiares presentes seria até ao crematório das Olaias. Lembrou-se que essa seria a sua última vontade e que pelo menos essa fora respeitada pela família e resolveu entrar na berlinda e acompanhar os seus próprios restos mortais.
Viu a urna entrar no forno crematório e não sentiu nada, pois ainda lhe doíam os membros inferiores e a parte da espinal medula. Depois acompanhou as cinzas que, tal como era sua vontade, foram deitadas ao Rio Sado, sobre a sua muito querida Serra da Arrábida.
Os acompanhantes do acto fúnebre dispersaram, cada um às suas vidas, e Lorraine ficou vagueando sem destino. Para onde ir agora que tomara consciência que desencarnara?
Difícil será encaminhá-la na direcção do caminho da luz.








Maria Fernanda Reis Esteves
50 anos
natural: Setúbal
 
Insatisfação eterna

A tua ausencia

 
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em tempos distantes...
simples olhares e sorrisos...agora nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade,
nem me deixaste sequer o direito de dizer-te adeus...olhar-te...
porque o fizeste, porque te foste?
 
 A tua ausencia

O mar tem estrelas

 
O fundo mar tem estrelas
No amanhecer...
O céu carregado de algas
Não quer morrer...
E tu, meu companheiro
De leito onde
Tantas làgrimas te escondi.
O mar tem estrelas
O céu tem algas,
Eu tenho dôr
Porque te perdi,
Quando caminhava na rua
E o céu chorava...
Chorava por mim
E tua alma lavava.
Deste farol que perigos avisa
me atiro, mergulho...
Porque o fundo do mar
Tem estrelas.......
 
O mar tem estrelas

MÃE(DEUS OUVE-ME!!!)

 
MÃE ESTOU TRISTE DE TE VER NESTE ESTADO
DIAS LUCIDA E FORTE COMO UMA ROCHA
OUTROS CONFUSA E INDEFESA COMO UMA CRIANÇA
SINTO DOR NA ALMA ,QUANDO SINTO SUA FRAGILIDADE
QUERIA TE DAR UM POUCO DE MINHA ENERGIA E
TE FAZER VOLTAR A SANIDADE .
QUERIA QUE SENTISSE O MEU AMOR.
O QUANTO É IMPORTANTE PARA SEUS FILHOS
NOITES MAL DORMIDAS A SENHORA TEVE CONOSCO
DIAS DE MUITA ALEGRIA NÃO PODERIA FALTAR
UMA FAMÍLIA QUE OUVE UM MISTO DE TUDO
BONS MOMENTOS TEMOS PRA LEMBRAR
NÃO SEI SE EM SUA MENTE FRÁGIL QUE ESTA
SE PERDENDO DIA APÓS DIA EM SEUS FILHOS
CONSEGUE PENSAR.
MÃE SEI QUE TEVE UM PASSADO E É DELE QUE
CONSEGUE LEMBRAR
NÃO SEI SE ESTAMOS EM SEU PASSADO ,
MAIS É EM SEU PRESENTE QUE QUEREMOS ESTAR
MÃE .........AGORA MINHAS LAGRIMAS CAEM
NÃO QUERO SENTIR SUA AUSÊNCIA,
MÃE VOLTA PRA NOSSA PRESENÇA
DEUS POR FAVOR DEVOLVA-NOS SUA MENTE
 
MÃE(DEUS OUVE-ME!!!)

Entre as paredes do meu quarto

 
Sinto-te ausente,
refugiado num mundo teu.
O qual se emaranhou no meu.

Hoje,

resta-me olhar os ponteiros
rodopiarem sem ti.

Numa espera vaga
do saber-te junto a mim
ainda que a léguas mil.

Penoso o meu sentir.

Quiçá já nada sinta.

Apenas o peso entranhado
nos ombros dum sentimento
por ti desligado.

Amordaço este querer-te
entre as paredes do meu quarto
qual sonho sonhei.

Mariamateus
 
Entre as paredes do meu quarto

Mena

 
Nunca se desdisse a frontalidade com que Mena pousava a alma em cima do mesmo bloco de granito, durante todos os dias que corriam em carreira. Chovia palha, quando a chuva não era mais que o que ela queria que fossem os sentimentos e as desditas. Ventava de menos.
Sim, a alma em cima de um bloco de granito, à beira de uma paragem desactivada de transportes públicos, eram coisas exangues.
E percebia-se que Mena nem sequer existia, porque o vento só reconhece quem tem coração que transpira estatismo eléctrico.
Apostou-se bem, quando ela um dia não apareceu, e o bloco de granito passou o dia nu. Sem a alma de Mena em cima. No dia seguinte voltou, e trovejava. Foram dois vencidos da vida, dois sublinhados pelo lápis invisível da morte, que lhe bateram nas costas para a felicitar. Esse foi o momento que Mena escolheu para se desfazer. Arrancou o único cabelo dourado da cabeça de rodilhas, e o ar foi subtilmente diluindo-se em volta dela.
Acabou por o mundo ver que Mena são dois dias que nunca se encontraram em si próprios, e fizeram denúncias simultâneas de incumprimentos metafísicos. Nasceu a discórdia nesse dia, e o ar concordou quando a matou.
 
Mena

Coincidências...

 
Coincidências...
 
Naquela tarde divagava caminhando em meio às flores do seu jardim.
Pensamentos longínquos ao lembrar-se de sua vida, de seus sonhos!
Que eram tão maravilhosos que de repente passou a ser um tormento.

Como entender! Por quê? Porque tudo aquilo estava acontecendo?
Logo ela, que buscou, conquistou e prosperou. Agora, o seu mundo é de total silêncio.

Apenas olha, fala, mas não tem retorno causando uma angústia.
Lápis e papel seria uma opção. . . Diante daquela situação!
Deus que solidão, mesmo com pessoas ao seu redor que não percebem o que ela está a viver.

Os porquês davam sequências aterrorizando dentro do seu âmago.
Só as lembranças o olhar perdido no infinito naquele instante,
Queria voltar ao tempo de outrora, na esperança de poder ouvir.

A vida trouxe-lhe surpresas e ao refletir pensou: ah, seria tão bom! Pensava. Seus conceitos agora seriam outros, quantas lembranças aglutinadas; quantas coisas não faria, e tantas faria. Continuou olhando no seu jardim o seu lugar preferido, lá, sentia-se feliz. Foi quando então percebera que ela agora parecia àquelas flores.

Quando tocada, acariciada, tão amada, mas não escutava suas palavras que certamente eram jogadas ao vento... Foi quando então despertou para a cruel realidade do seu mundo! Enfim, uma lágrima deslizou levemente por sua face rosada e pingou na rosa.

Num murmúrio fechou-se ainda mais dentro de si; ao admirar a linda rosa, perfumada e de fino trato. Porém, ela não ouvia ninguém; a única voz que ouvia era a voz de sua alma que explodia do seu âmago com toda altivez deixando-a em constante agonia... Mas por outro lado, não ouvia mais as criticas e nem os elogios... Ah, e as frases de amor! Lágrimas doridas: eternas moradoras de sua Alma!
 
Coincidências...

Nini e a Valsa

 
Já se vão mais de quinze anos, mas a imagem não me sai da memória.

Os seus maltratados sessenta davam-lhe a aparência de serem mais. Sujo, maltrapilho, barbudo e eternamente bêbado, Nini perambulava pela cidade. Talvez pela vida.

Eu já o conhecia porque não era raro que ele fosse dormir na sacada de minha casa. E por tanto expulsá-lo, acabamos criando uma relação singular que se não era de amizade, também não era de hostilidade.

E foi assim que ao lhe ver naquela tarde uma onda de carinho por aquele homem - que deixara de sê-lo, sabe-se lá por quantas desilusões, frustrações e mágoas - me tomou.

O botequim não diferia em essência de todos os outros. Talvez fosse mais limpo, mas isso, diga-se, não fazia muita diferença para a fauna que mais o habitava, que frequentava.

Igual a todos, abastecia os esquecimentos com a mesma cachaça, com o mesmo vermute e com a cerveja igual; mas, naquele Sábado o inabitual som de um acordeom, cujo proprietário tocava uma valsa antiga, conferia-lhe singularidade.

E ao primeiro acorde, por puro reflexo, Nini tomou uma imaginária dama e com ela valsou.

Dançou, rodopiou e ao passarmos por ele não se conteve e com gestos largos fez-nos uma fidalga mesura, que se dos outros arrancou gargalhadas, de mim arrancou um suspiro de pura saudade.

Saudade do tempo em que valsas só eram interrompidas pelas mesuras. Saudade do tempo em que se é limpo de corpo e de alma. Saudade de um tempo em que os salões eram acessíveis. Saudade de um tempo em que Nini podia dançar sem que rissem de sua capacidade de sonhar. Saudade do tempo em que a dama não era só outra saudade. Saudade do tempo em que meu nome era Fabio e não Nini.

Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, Primavera de 2014.
 
Nini e a Valsa