Contos infantis

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares da categoria contos infantis

ESPERANÇA

 
ESPERANÇA
 
Era uma vez...
Uma criança
Por nome Esperança!
Esperança brincava,
Sorria, corria e pulava.
Mas vivia triste, e triste
Era o seu sorriso.
Porque não enchia a pança!
Enquanto outras crianças...
Faziam festança.
Lambuzavam-se
E estragavam a comilança!
Estas crianças faziam assim:
Não porque eram más; mas
Porque os adultos não ensinavam
A dividir, a amar e pensar...
Nos por menores!
Esperança esperava um dia ter:
A mesma alegria e ser amada.
Quanto sonho de criança...
Tinha Esperança.
De encher a pança
E participar da comilança!
Ah, Esperança! Doce anjo...
Menino, menina, criança...
Doce bombom da infância!
 
ESPERANÇA

A galinha do vizinho

 
               A galinha do vizinho
 
A galinha do vizinho que bota ovo-
amarelinho:---Chama-se Filó
Xereta como ela só,pula o cercado-
e vem comer no meu terreiro
Cisca e come todo o meu milho-
até o derradeiro
Como se não bastasse,traz toda-
a ninhada
Mas...são tão bonitinhos,são-----
oito pintainhos
Correm a traz da mamãe que cisca daqui,dali e, ao encontrar um inseto ou-
uma minhoca,cacareja chamando a filharada
Meus olhos sorriem alegres com a -
festa da ninhada

Nereida
 
               A galinha do vizinho

Selene, a Notívaga

 
Selene, a Notívaga
 
Selene, a meio da adolescência, acalentava sonhos. Ambicionava vir a ser lua cheia. Sentia-se importante a iluminar a noite grega e divertia-se por lhe ser permitido o estatuto de notívaga. O ego aumentava à medida que se via observada por milhares de humanos, na sua grande maioria, em sua opinião, pateticamente apaixonados, com olhares melados, achando-a divinamente bela. Quantas vezes suscitou o ciúme das jovens enamoradas que viam os seus amados fascinados por si.
A natureza dormia, agora, o sono dos justos e o lobo Serafim dava ordens à alcateia para saírem em grupo para caçar, até os predadores temem virar um dia troféu na boca de um inimigo mais astuto.
Do alto da sua imponência, Selene, observava as investidas de Serafim sobre os incautos animais que estivessem a dormir com o rabo de fora ou aproveitassem a noite para recolher mantimentos. Ao mesmo tempo distraía-se com um par de morcegos pendurados de cabeça para baixo, que mais pareciam dois bacalhaus secos, se não fora o facto de as asas infectas e imundas denunciarem o seu pacto com as forças malignas.
Selene sentia-se privilegiada por poder testemunhar simultaneamente todas as movimentações da natureza por baixo do seu olhar atento e crítico. Como ela gostaria de descer à terra para correr e brincar no capim, tal como via os pequenos veados fazer. Estes corriam até entontecer e por fim ria extasiada ao vê-los cair esparramados em cima das flores e das silvas e quando já refeitos do esforço comiam com satisfação as amoras e os ramos das flores silvestres.
Selene adorava vê-los com as bocas tingidas de vermelho e imaginava como deviam ser deliciosos aqueles frutos tão agradáveis à vista. Lá em cima, de onde via tudo sem poder tocar em nada, deliciava-se com o aspecto dos frutos e com o aroma das flores. Indignou-se por nunca ter provado nada e imaginou que sem comer fosse o que fosse jamais poderia engordar e ser lua cheia, afinal ela era apenas um quarto crescente, uma meia lua a quem não era dada ainda muita credibilidade entre os lunáticos.
O dia amanheceu e Selene cedeu o seu posto de vigia a Solano, um jovem bem apessoado, louro incandescente, para quem ela nem ousava olhar, sempre lhe foi dito que o não poderia fazer ou, simplesmente, derreter-se-ia.
Jeremias, o galo da manhã, iniciou a cantilena matinal do alvorecer içando a crista com ar de autoridade e sabedoria ancestral.
Já se derretiam os primeiros pingos de orvalho quando Simão saltou da cama, pegou no balde e dirigiu-se à vacaria para ir ordenhar Joaninha. O leite caía morno no balde e depois de terminar a ordenha a primeira tigela de leite era para o gato Tareco, seu companheiro de todas as horas, no velho solar do Monte das Tílias onde vivia com a mãe, Dª Lurdinhas.
Simão adorava a lida do campo ao mesmo tempo que tinha consciência que a possibilidade de arranjar noiva era muito remota não só pelo isolamento onde vivia que distava muitas léguas da aldeia mais próxima, bem como pelo facto de não saber lidar com as coisas do amor e ter a certeza de que era um desastrado nessa matéria. A Lurdinhas, também não lhe
interessava arranjar noiva para o filho por correr o risco de ficar sozinha naquele fim de mundo.
Selene enternecia-se com a timidez e solidão de Simão e iluminava-o como se este fosse um príncipe encantado vestido de luar. Sabia-o tímido e como conhecia todas as jovens casadoiras, começou a congeminar uma forma de lhe encontrar uma noiva, já que imaginação era coisa que não lhe faltava. Depois de muito pensar concluiu que nenhuma era merecedora das atenções de Simão.
De repente, na sua cabecinha lunática, fez-se luz e Selena pensou em descer à terra vestida de princesa. Se bem o pensou, melhor o fez, mal Solano ocupou o seu posto, desceu à terra e bateu à porta de Simão que não queria acreditar na visão que os seus olhos enxergavam. À sua frente, como que por magia, uma jovem de tez muito clara sorria docemente para ele e aquela figura de conto de fadas deixou-o enfeitiçado.
Selene apresentou-se como a filha do Conde de Luar e Lurdinhas ao ver a jovem convidou-a para entrar, também ela completamente rendida ao brilho que o olhar da jovem emanava, aos traços finos e encantada com o vestido bordado a prata.
Lurdinhas preparou o melhor pequeno almoço para obsequiar a jovem e esta saboreou tudo na esperança de engordar e virar lua cheia, o que em seu entender lhe permitiria ser livre e transformar-se verdadeiramente numa jovem de carne e osso. Selene não se levantou da mesa todo o dia e comeu tudo o que Lurdinhas tinha em casa até que chegou a hora do seu plantão e Solano se recolheu. Distraída não viu que chegou a hora do feitiço acabar e rebentou como um balão super-cheio, só parando no lugar de onde nunca deveria ter saído.
Do alto, continua a velar por Simão, mas como luz que o ilumina e protege, conhecedora que é, agora, do seu lugar e da sua missão.


2º Prémio no XXXII Concurso de contos das Ediçºões AG

Maria Fernanda Reis Esteves
51 anos
natural: Setúbal
 
Selene, a Notívaga

O Unicórnio Transparente

 
O Unicórnio Transparente
by Betha Mendonça

Montada num unicórnio transparente com asas prateadas, Antônia viajou seguindo os rastros do luar sobre o Deserto de Laranja ao Por do Sol. A monotonia das dunas sopradas pelos ventos lembrava ondas de laranjada a rebentar nos rochedos caramelados. Elas modificavam a paisagem todo instante, o que dificultava encontrar a Lagoa de Suco de Morango, no Oásis dos Sonhos, suspensas sobre as nuvens de chantilly.

O unicórnio já cansado era alimentado hora a hora com algodão-doce lilás, mas se não chegassem logo ao destino, o ser encantado morreria de fome. A cada ruflar de asas o pobrezinho parecia mais sem forças para continuar até que surgiu no meio do nada uma plantação de pés de algodão-doce de várias cores.

Antônia apeou o unicórnio próximo aquela área e quando ia pegar um bom estoque de algodão lilás apareceu um grande corcel negro alado que era o dono daquele local e disse:

- Pare sua ladra!Tudo aqui me pertence e nada sai sem minha permissão!

- Desculpe senhor Corcel!Não sabia que esse algodoal tinha dono. Meu unicórnio está faminto e cansado. Se não for alimentado com algodão-doce lilás morrerá...

- E eu com isso? Retrucou o outro com voz de trovão. Fora já daqui! Ou eu mesmo sopro fogo e mato os dois!

- Mas... Mas... Senhor!... Balbuciou a menina, que recebeu como resposta um fogaréu saindo da boca do cavalo alado...

Mais rápido que depressa ela e seu acompanhante voaram para longe dali. A cada instante o unicórnio transparente ficava mais fraco e eles desceram na ventania laranja. O ser encantado parecia dar seus últimos suspiros e tudo por causa do egoísmo e falta de compaixão do Corcel Negro! A menina inconformada, já ia chorar quando ouviu um gemido triste entre as quentes areias. Era um pequeno corcel alado marrom, filho do grande Corcel Negro que machucara uma das asas e perdera-se no deserto.

O coração carinhoso da pequena se enterneceu. Ela tirou da bolsa óleos medicinais, massageou a asinha doente e colocou-lhe ataduras. Vencendo a ventania levou o cavalinho até a plantação de seu pai. Que ao vê-la bradou:

- De novo, menina?Ah, vou fazer de você um torresmo!E quando ia soprar fogo sobre ela o corcelzinho gritou:

- Não papai!Ela me salvou!

O grande Corcel ficou envergonhado ao saber que apesar de ter sido mau com a garota e seu acompanhante, ela fizera um grande bem salvando a vida de seu filhote. Arrependido, ele colheu uma leva de algodão lilás, montou Antônia em seu dorso e voou até o unicórnio que agonizava. E qual a surpresa: ele estava mais lindo, transparente e forte que sempre! A bondade também alimentava o seu frágil corpo que já se recuperara com a atitude da menininha. Assim, ele e Antônia voaram em paz para sua casa no Oásis dos Sonhos.
 
O Unicórnio Transparente

Quem conta um conto...

 
ANITA E O PRINCIPEZINHO

-Vês aquela estrela?...
O principezinho apontou o céu, e o seu dedo frágil, recortado em contraste, fez o universo parecer uma tela pequenina, de veludo azul escuro.
Anita olhou, mas só viu o escuro, não viu o azul. Muito menos a estrela...
-Não, não vejo nada...
-Ah, isso é de teres ainda guardada muita luz nos teus olhos... - disse o principezinho sábio.
-Experimenta fechar os olhos. Vá, deixa a luz apagar, devagarinho, dentro dos teus olhos... guarda as imagens brilhantes no teu coração e encosta a porta, sem a fechares... só encosta, devagarinho...
Anita assim fez e logo sentiu um manto de paz envolvê-la... pareceu-lhe que a brisa da noite a atravessou devagar, e ela deixou-se ficar, de olhos fechados, no limiar da porta do seu coração. Hesitante, abriu os olhos e dirigiu-os outra vez para o escuro do céu.
-Ah!! que bonito! - disse ela, esquecendo-se da luz que abandonara.
-Vês?... Para vermos as estrelas, temos que nos cercar de escuridão!
-Pois é... agora já vejo: o azul intenso do céu, as estrelinhas a brilhar...
Virou-se de repente para o principezinho, mas ele já não estava ali.
-Principezinho! Principezinho!... Já não sei qual era a minha estrela! Diz-me!... Onde estás?...
O principezinho estava quase adormecido, sentado à beira dos sonhos.
-Hããã...
Bocejou e os seus olhos riram...
-Todas as estrelas podem ser tuas, agora que as descobriste...

N.A.
Para uma Anita e um Principezinho da vida real... qualquer semelhança com a ficção terá sido mera coincidência.
 
Quem conta um conto...

As chinelas

 
                 As  chinelas
 
O seu pisar demonstrava que não estava
para brincadeira
Por mais que procurasse não conseguia
encontrar. Muito bravo perguntou:
---Onde estão minhas chinelas?---Estou com o pé no chão,procurei e, nada,quero--
minhas chinelas!
Mamãe bastante tranquila se chegou --
rapidamente e avisou :---Estão na janela!
---Na janela,minhas chinelas? Que eu--
saiba são guardadas no armário!
---Coloquei lá fora apenas para tomar um
arzinho,já que foram lavadas e, acredito que já estão prontas para calça-las
Mas ei que surge um imprevisto!
O cãozinho magrela subiu na janela,alcan
çou as chinelas e, roeu...roeu, comeu a fivela
e agora assustado com a bronca, é sebo nas
canelas.

Nereida
 
                 As  chinelas

Anjinhos Faxineiros

 
Anjinhos Faxineiros
 
Anjinhos Faxineiros
by Betha Mendonça

Havia grupo de nuvens cinza-chaminés-de-fábricas na tarde daquela terça-feira sujando grande parte do azul-piscina que banhava o céu. Imediatamente o Arcanjo da Limpeza convocou os Anjinhos Faxineiros para limpeza da área. Eles chegaram prontos para o trabalho: trajavam macacões quadros-de-xadrez, botas negro-asfalto e luvas emborrachadas de cores diversas.

A turminha começou o serviço jogando água-de-flores e anil. Com escovões trataram de esfregar com força as nuvens e conforme o faziam, elas clareavam e caiam em torrencial chuva sobre a Terra.

Desastrado, o anjo Maciel de vez em quando derrubava baldes e lanternas. Grandes barulhos repercutiam cá em baixo na forma de raios seguidos de trovões.

A chuva que aterrorizava alguns fazia bem a para plantações, rios, mares e todos os animais do planeta. Perfumadas flores coloridas desabrochavam, lavouras de alimentos que saciam a fome das pessoas se desenvolviam e tudo isso era bom para o clima e a humanidade.

Agasalhada sob macio edredom da Cinderela Flavinha deixou de temer as chuvas e ventos quando sua mãe contou que os Anjinhos Faxineiros também limpam os temores dos corações das crianças, que como eles são seres celestes.
 
Anjinhos Faxineiros

Pity boa praça

 
             Pity   boa praça
 
Pity é muito guloso
Corre pula é tão formoso
Pity é uma gracinha
Quer um osso,quer sopinha

É um amigão
Agitado quer ação
Procura...procura
A bola que é escura

Enterra seu osso
Em um buraco colosso
Procura...procura,não acha
Então quer uma bolacha

Meu amigo
Me segue,te sigo
Tão companheiro
Tão verdadeiro

Pity é boa praça
Fofo,peludo,uma graça
Já percebeu então
Pity é o meu cão

Nereida
 
             Pity   boa praça

O semeador de estrelas

 
O semeador de estrelas
 
Num reino muito distante, tão distante que uma andorinha, nem à velocidade da luz poderia alcançar, mesmo voando a vida inteira, vivia um pobre lavrador. Chamava-se Seudónio e a sua casinha era humilde, os seus hábitos simples e o seu coração quase tão grande como esse reino distante, tão vasto, que ninguém lhe conhecia as fronteiras.
Era pobre, o sr. Seudónio. Cultivava uns pés de ervilha, uns pés de feijão, alguns alqueires de centeio e uma mão cheia de batatas, no pequeno terreno à volta de sua casa. E vivia disso, sem grandes queixas, sempre com um sorriso e algum pão de sobra para dar a quem lhe passava fome à porta.
Certo dia o sol desse reino distante e vasto arrefeceu... Começou a definhar, a definhar, dizem que do mal dos tempos, e acabou por se extinguir. Mas antes, deixou a cada ser que vivera sob o seu brilho, um quinhão da sua herança: a todos, um por um, no seu derradeiro dia, deixou uma pepita do seu brilho. Cada uma, uma pequena preciosidade cor de ouro afogueado, de textura única, ao mesmo tempo acetinada e quente, ao mesmo tempo fluida e tacteável, ao mesmo tempo brilhante e mate. Um verdadeiro tesouro.
Logo houve quem quisesse vender. E quem quisesse comprar. E quem quisesse guardar. E quem quisesse usar. Cada um fez da sua pepita solar o que bem entendeu: uns, por necessidade ou prodigalidade, trataram de trocá-la por dinheiro, pensando, com ele, comprar talvez uma passagem para outro reino distante, onde houvesse sol. Outros compraram - por ambição e especulação ou, simplesmente, por investimento. Outros guardaram-na, para os descendentes, talvez, ou simplesmente por avareza, bem lá no fundo do baú mais seguro da cave. Outros usaram-na como jóia, em ricos adornos, roupas, acessórios.
O Sr. Seudónio não sabia o que fazer com tamanha preciosidade. Primeiro, trouxe-a no bolso, afagando-lhe o toque de vez em quando, como quem chora de saudade o sol de que ela era feita... Depois colocou-a em cima da mesa da cozinha e deixou-a lá, a iluminar-lhe as noites escuras e frias. Houve quem lha cobiçasse e lha tentasse comprar. Até quem lha tentasse roubar! Sim, porque, desde que o sol não era sol, tinha proliferado um novo tipo de crime: roubar as solgemas alheias (solgema tinha sido o nome dado às pepitas de sol), até matar, por elas!! Mas o Sr. Seudónio tinha todos os cuidados, e, além disso, muita gente lhe respeitava a bondade, lembrando o bom vizinho que ele sempre fora e defendendo-no, se preciso fosse.
Fosse como fosse, a sua solgema lá continuava, exposta na humilde mesa. E, não se sabe se era da amabilidade do Sr. Seudónio, ou se era do calor e da luz que dela emanava, toda a sua casa estava quente e iluminada, sempre, sempre. E ele estava sempre pronto a acolher quem viesse com frio e com falta de luz!...

Mas a sua casa era pequena e os pobres órfãos de sol eram muitos... já quase ninguém tinha a sua pepita: ou por necessidade ou por vício, tinham-na trocado pela escuridão total...
O Sr. Seudónio começou a entristecer-se, por não poder ter uma solgema maior, para ajudar a todos...

...ainda por cima, porque agora, sem o astro outrora rei a brilhar no céu, todas as suas culturas se tinham tornado impossíveis! Não havia ervilhas, feijao, pão, batatas, para partilhar... só a luz da sua maravilhosa pepita de sol!

Uma noite, depois de um cochilo sobre a mesa onde brilhava a pepita, ele acordou com uma idéia salvadora: iria partir a sua solgema em pedacinhos! Era isso! Parti-la-ia em pequenas sementes, que espalharia no seu quinteiro agora infértil, de terra preta e empedernida! Não era ele um semeador? Não fora ele sempre um lavrador de esperanças? E sorriu, com a recordação grata da emoção de o ser: um semeador de esperanças - sementes que ele deitava à terra e cuidava diligentemente, até ter a alegria de as ver despontar em rebentos novinhos e cheios de vida nova!
Se bem o pensou, assim o fez: pegou num martelo velho e triturou a solgema em mil pedacinhos. Depois, pela noite infindável fora, foi espalhando na terra negra do seu terreno as sementes miudinhas.
E aconteceu uma coisa estranha... o seu quinhão de terra acabou, ele passou ao quintal do seu vizinho, depois de outro, e de outro... e os grãos luminosos não acabavam nunca!...
Andou, andou, andou, sempre semeando luz e brilhos, até que notou que vinha uma multidão em burburinho atrás dele. A princípio não entendia o que diziam, ou o que queriam, mas com a proximidade, foi percebendo que se revoltavam contra ele. Vinham armados, de mangas arregaçadas, com os olhos raiados de sangue, furiosos. Gritavam que ele não tinha o direito de esbanjar a solgema assim, enterrando-a na terra, gratuitamente. Que ele era um sovina, um velho louco, um somítico caquético. Que era desumano e cruel, por ter preferido dissipar o pouco que lhes restava, a pepita a que ele, em generosidade, os deixava aquecer...
Mataram-no, cegos, ímpios.
Tentaram roubar-lhe os restos de sementes, mas elas tinham-se colado às suas mãos, e foi impossível desagregá-las e reparti-las.
Enterraram-no mesmo ali, juntamente com elas, por
vingança e maldade...
Horas depois, talvez tantas quanto dura uma noite, um pequeno broto de sol rompeu a terra, no sítio exacto onde repousava, sob ela, a mão do bom Seudónio. Um pequeno astro quente e brilhante foi nascendo devagarindo, inundando o reino de luz... Subiu, subiu, cresceu e fez-se Sol.

Já era dia alto quando os mesmos que cometeram a atrocidade acordaram e perceberam.
E nessa noite, maravilhados, tremeram ainda mais de fé e arrependimento, quando viram pequenos pontos de luz subirem das suas terras e elevarem-se ao céu...
 
O semeador de estrelas

O Pirilampo Apagado

 
O Pirilampo Apagado
 
O Pirilampo Apagado
by Betha Mendonça

Ele vivia no sul de um país tão longe, mais tão longe e mágico, que dele nem se sabia o nome. Era um vagalume ou pirilampo, tipo de inseto que emite luz fosforescente que brilha como estrela em noite escura.

Os amigos o chamam Mô. Sua luz - fosse dia mais ensolarado – ofuscava claridade do sol. Ele tinha grande carisma (dom divino que faz com que um indivíduo se distinga dos demais), mas brincava tanto de alegrar a vida das pessoas, que não se dava conta do poder que possuía de tornar os seus dias mais alegres e iluminados.

Durante grande tempo o pirilampo do sul espalhou sua luz por todos os cantos onde passava. Um dia apaixonou-se por uma formosa flor.Esse romance estava fadado a não dar certo: flor e inseto são espécies diferentes. Nada disso parecia ser impedimento para nosso brilhante amigo. Ele ficou tão feliz, mas tão feliz que voava de um lado ao outro, acendendo e apagando sua luz, como uma lâmpada que enfeita árvore de natal.

Passaram-se meses. Um dia, sem que ninguém soubesse ou entendesse o motivo, apagou-se a luz do vagalume que iluminava quilômetros de corações. Seu brilho já não clareava nem o interior de uma geladeira. Com coração mais frio que o gelo, ele recolheu-se ao silêncio solitário dos que perderam o amor que abrigava no peito nalguma esquina da vida.

Amigo leitor, se você ao andar na rua, encontrar um amor perdido e machucado, por favor, envie para mim!Deve ser do meu amigo hoje um pirilampo apagado. Quem sabe se devolvermos o amor ao seu coração, ele volte a clarear dias e noites com seu brilho pirilâmpico?
 
O Pirilampo Apagado

Ana e os Sóis Interiores

 
(para a minha filha Ana, que nasceu hoje!)

Deixei a vida de escravo para ir trabalhar para o campo.

Foi uma decisão tomada num impulso momentâneo. Que surpreendeu toda a gente! Era um dos que tinham capacidade produtiva, sendo, por isso, considerado valioso. Isto apesar de sempre ter sido sonhador. Apenas a minha mulher me apoiou.

Mas os sonhos concretizam-se quando a semente germina. E o futuro vinha aí. Uma filha aproximava-se!

Alguns amigos, bastante curiosos, perguntavam-me:
- Que vais fazer para o campo? Nada percebes de agricultura.

E eu sempre respondia:
- Vou plantar dentes-de-leão azuis! Vou crescer vida! Vou ser feliz!
- Dentes-de-leão azuis!? - Retorquiam - Mas estás doido? Isso não existe! Ao menos, planta algo que te dê pão.

Mas eu não ouvi. Limitei-me a persistir.

Foi num pequeno planalto, protegido pelos braços dos montes e que logo pela manhã era acarinhado pelos raios de luz, que decidimos semear os nossos sonhos. E instalamo-nos numa pequena casinha de madeira.

Passados uns meses, as cegonhas cor-de-rosa chegaram. A Ana nasceu e a nossa família cresceu. Para agradecer a bênção recebida, plantamos uma romãzeira ao lado da casa. Aí, mais tarde, colocar-se-ia um baloiço para a nossa filha voar.

A chegada da Ana renovou a nossa esperança e reforçou o carinho com que tratávamos a terra.

A nossa filha foi crescendo e amava a terra. Tinha uma ligação especial com a romãzeira, que tratava por irmã. Deliciava-se com as nossas histórias e vibrava com os dentes-de-leão azuis.

Mas o tempo foi passando e nada de dentes-de-leão. Muito menos azuis.

Avizinhavam-se novas mudanças e decisões eram necessárias. Numa noite, após o jantar, disse à minha mulher:
- Querida, a nossa filha vai para a escola e necessitará de mais apoio e de material escolar. Até hoje mantivemos o terreno dos dentes-de-leão livre, mas se calhar chegou a hora de isso mudar. Que achas?

A Ana, que ouvia a conversa, agarrou-nos as mãos e, levando-nos até ao campo vazio, disse:
- Pai, Mãe, não desistam. Aqui haverá sóis interiores! - e libertou, sobre o lugar dos nossos sonhos, as lágrimas que tinha no rosto.

Comovidos, pegamos na nossa filha e, sem nada dizer, confortamo-la no nosso abraço e, fomos dormir.

Talvez fosse mero acaso, talvez fosse pelas lágrimas. Mas, no dia seguinte, os dentes-de-leão floriram azuis.

Ah! Eram qualquer coisa de fantástico. De noite, faziam a aurora sorrir. De dia, entoavam as melodias do vento.

Tinham características especiais. Pois nascidos do amor, quando colhidos com ternura, libertavam o pólen da luz e o calor da renovação. Eram, tal como a Ana havia dito, autênticos sóis interiores.

Em pouco tempo, éramos notícia internacional. E eram tantas, as pessoas que os queriam ver e comprar.
No entanto, a Ana dizia:
- Não são para vender. São para oferecer aos que necessitam de sonhos.

também disponivel em:
http://inatingivel.wordpress.com
http://plenoazul.wordpress.com
 
Ana e os Sóis Interiores

A borboleta Marina e a Margarida

 
A menina naquele dia solarengo, acordou cedo. Levantou-se da cama, espreguiçando-se, e com as suas mãos de seda, afastou o cortinado, abrindo a janela. Lançou o seu olhar azul, para o céu. Adorava olhar para o céu não só porque tinha a cor dos seus olhos mas porque lhe parecia infinito, tal como a sua imensa curiosidade sobre tudo o que a rodeava.
Margarida, disse um olá ao sol, com a sua voz estridente. O sol sorria-lhe nesse momento, por entre a folhagem frondosa das árvores, que baloiçavam docemente, num bailado ritmado, como se ensaiassem uma melodia harmoniosa.Desceu até à cozinha, bebeu o leite apressadamente.

- Margarida, se vais brincar lá para fora, põe
o chapéu. – Aludiu a mãe na sua voz de Panda feliz.
- Sim, mãe. Posso ir agora? – perguntou, ansiosa.
- Vai, sim… mas não te afastes muito, porque gosto de saber onde estás a brincar.

Margarida, saiu de casa para ir brincar com as papoilas, as borboletas e os pássaros, os seus melhores amigos. A natureza era uma espécie de mundo mágico onde ela se sentia feliz.
Depois de andar alguns metros no seu grande quintal, aproximou-se da “papoila-mãe”, que tinha uma cor esbatida. A sua cor era de uma avermelhado tingido, como se o tempo e o sol a tivessem vergado de cansaço. Ao reparar que as restantes papoilas se encontravam ainda fechadas, abrigadas do orvalho da manhã e das sombras que as cobriam, Margarida, retorquiu com a sua voz de pássaro constipado:
- Olá… Dona Papoila!! Diga-me... porque estão a dormir a esta hora do dia, as papoilas tuas filhas?
- Hum… Margarida, madrugaste hoje, querida!?
– Respondeu a papoila-mãe a sorrir. Apressou-se depois em explicar.
- Bem… acho que elas estão apenas com sono e cansadas. Ontem, os grilos e as cigarras resolveram fazer uma festa, para comemorar e chegada da Primavera. Todos os anos é a mesma coisa! Acabaram por andar todos em cantorias e em correrias desenfreadas pelo matagal, até a noite chegar com as suas sombras da cor do breu. As tuas amiguinhas acompanharam-nos nessa festa de arromba sempre abertas e felizes, mas acabaram, depois, por adormecer completamente extenuadas.
Margarida, franziu o sobrolho ao ouvir aquela explicação. Exclamou então:
- Hum… Papoila-mãe. Explica-me o que quer dizer “breu” e “extenuadas”?
- Bem… “breu”, quer dizer muito escuro, como o alcatrão, entendes? E quanto à palavra“extenuada” quer dizer abatida, cansada, enfim… tudo isso no fundo significa o mesmo…
-Ah… sim? Percebo…! – Margarida, lançou uma gargalhada como se a descoberta do significado das palavras fosse uma flor a desabrochar ao amanhecer. Adorava aprender coisas novas e sobretudo gostava muito de todas as flores. Se pudesse escolher transforma-se num lírio branco.
Despediu-se a sorrir da mãe-papoila e foi à procura dos pássaros e das borboletas, para brincar.
Junto de uma roseira florida, que espalhava o seu perfume inconfundível através dos afagos do vento, encontrou 4 dos seus amigos pardais, que ao vê-la aproximar-se, esvoaçaram para os seus ombros. Margarida estranhou o ar mortiço dos seus olhos normalmente irrequietos e perguntou:
- O que têm para estarem tão tristes?
Os pássaros entreolharam-se como se escondessem um segredo e permaneceram calados durante alguns segundos. Margarida, sentiu-se de repente inquieta e voltou a perguntar.
- Amigos… vá lá… digam-me, o que se passa?
- Bem… bom…!! Margarida, - disse PITUCO, o pardal mais falador.
- Na verdade temos uma notícia triste para te dar… - hesitou e logo depois prosseguiu como se tivesse ganho repentinamente um novo fôlego.
– Na verdade o que temos para te contar é que a borboleta Marina, morreu… ontem...
O quêeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee?????? – Margarida lançou um grito e de repente desatou a correr e a chorar inconsolável.
Pituco, o pardal mais desinibido, acompanhou-a na sua corrida desenfreada e poisando de novo no seu ombro esquerdo, exclamou com uma voz melancólica.
- Vá lá..., Margarida, não fiques assim triste! Vais ter que aprender que só há morte porque existiu vida. Tudo quanto nasce acaba por morrer mais cedo ou mais tarde.Na verdade com o tempo tudo se transforma. Repara nas flores. São lindas, não são? No entanto também morrem, tal como as pessoas, as árvores, os pássaros, as borboletas, enfim... tudo quanto faz parte da natureza. A vida deve-se viver intensamente porque é apenas um processo que depois acaba noutro. Todos nos sentimos tristes com a morte, mas há uma espécie de milagre que acontece e que tu vais compreender, com o tempo. No fundo, as coisas só morrem definitivamente, quando as esquecemos, quando as apagamos do nosso coração. Percebes??
- Não… não percebo! – Gritou Margarida inconsolável!
- Percebes, sim… amiga! Repara... Vês aquela pomba, além?
-Sim…
- Bem… talvez aquela pomba que ali vês seja a alma de uma pessoa, de um pássaro, ou de uma outra borboleta. Tal como a Marina, tiveram em tempos... que se despedir do mundo. O que importa é aquilo que o nosso coração vê e sente. Percebes? Não fiques triste… porque se fechares os olhos vais conseguir ver sempre com o teu coração tudo quanto amas.
- Achas... que sim? - perguntou, desolada.

Margarida parou de soluçar, mas nesse dia não quis brincar nem com os pássaros nem com as suas amigas papoilas. As borboletas tinham-se ausentado para se despedir da sua amiga Marina.
Margarida regressou a casa triste. Quando chegou ao quarto fez um desenho da sua amiga borboleta. Colou-o num pedaço de madeira e de seguida colocou-o ao lado do seu travesseiro.
Adormeceu a olhar para o desenho, esculpindo no seu coração a imagem da sua amiga borboleta. Não a queria esquecer, como lhe ensinara o PITUCO.

Nesse dia tinha aprendido que só morremos… quando nos apagam do coração!
VÓNY FERREIRA

NOTA: Todos os poemas, e textos estão registados
Registo nº3329/2008 (Último Registo efectuado em Março 2009) Soc. Portuguesa de Autores e IGAC

P.S: - Dedico esta história à minha sobrinha Margarida e a todas as Marinas do mundo inteiro.
Porque sonhar... é preciso... assim como aprender a enfrentar as dificuldades da vida!
Vóny
 
A borboleta Marina e a Margarida

Alvorada Emburrada?

 
Alvorada Emburrada?
by Betha Mendonça

Alvorada morava na Cidade da Imaginação, sobre o canteiro de margaridas, na margem de ouro-envelhecido do Rio dos Sonhos.

Linda, cor moreno-caramelo, ultimamente vivia com a carinha cheia de nós de aborrecimentos.Boquinha fechada para os sorrisos e orelhinhas pontudas abertas as lamentações.Estava sempre afastada dos outros seres mágicos.

Em vez de pozinhos cintilantes com alegres e belos sentimentos, ela derramava lágrimas sabor limão, que enchiam de tristeza o coração das pessoas sobre as quais elas caiam.

Preocupados com o desânimo da fada todos os Seres Elementais do lugar se reuniram no Jardim das Belezas e a chamaram para uma conversa:

- O que há contigo?Tu és uma linda criatura, tens tantos dons e não os usas... Qual teu problema?Puxou assunto, o gnomo verde-pepino, chamado Janos.

- Er... Nada... Não é nada! Falou baixinho tapando a boca a fadinha.

- Como nada?Andas levando tristeza aos humanos dos quais te aproximas... Nem nas cascatas e no riso das crianças achas alegria... Insistiu a sábia fada Enluarada batendo as asas e espalhando pozinho gliter-lilás.

- É isso mesmo!Somos teus amigos e vemos que está acontecendo algo estranho contigo: onde a tua alegria?Indagaram todos em uníssono.

Sempre com as mãzinhas sobre a boca e caindo em grande pranto de limão azedo falou:

- Eu conto!... Mas ninguém chega perto de mim! Eu... Eu estou com mau hálito!Todas nós gostamos de mel e gengibre, mas fui gulosa e usei todo o meu estoque! Agora sem eles estou com um bafo horrível!...

- Aaaaaaaahhhh... Todos suspiraram tão aliviados que fez-se no local claridade de fogos de coloridos.

- Que bobagem!Nós somos teus amigos e não confiaste a nós teu segredo para que pudéssemos te ajudar!? Ralhou a Enluarada.

- Turma, vamos colher das nossas partes um pouco de mel e gengibre para a Alvorada!Convocou Janos.

- E tu Alvorada aprende: quem tem amigos nunca está só. Se fechar diante de um problema sem buscar ajuda não é atitude inteligente nem sensata. E assim todos ficaram felizes e despreocupados.
 
Alvorada Emburrada?

A história de Tico

 
Num lugar longínquo da cidade grande. Ouviam-se gritos, gargalhadas – eram crianças felizes... Jogando futebol num campinho. Entre as crianças havia uma muito especial – por nome Frederico, mas conhecido como Tico.

Chamava-o assim: por ser Tico bem pequeno e magrelo. Certa vez;Tico foi à cidade com sua mãe e num momento de descontração perdeu-se de sua mãe. E por mais que a procurasse não a encontrou.

Tico tornou-se um menino de rua. Sendo ele um menino bom, diferenciado, mesmo diante do que estava vivendo não se comportava mal. Pois tivera uma boa educação, além de ser amado por sua família. Sofria pelas humilhações, sendo um pedinte para poder se alimentar.

Dormindo nas praças, na maioria das vezes encontrava-se chorando tentando entender o que aconteceu com ele. Suas lágrimas lambiam sua face – mas ninguém o notava – ao contrário se mostravam indócil. Pensava: Porque ninguém me nota? Mesmo eu fazendo de tudo para chamar a atenção.

Porém, não perdia a esperança de um dia poder reencontrar sua família. E rogava a Deus em suas orações, que embora fosse criança, as suas súplicas deveriam chegar a Deus! Clamava Tico: Papai do céu faça com que eu possa encontrar a minha mãe – livra-me do mal. Obrigado! Beijo Papai do Céu. Boa noite, bom dia, boa tarde era sempre assim.

Um dia Tico presenciou uma vovozinha – cair na sua frente. Derrubando as frutas que levava na sacola. Ele por sua vez imediatamente ajuntou tudo (apesar de faminto) devolveu. Ela, porém ficou surpresa ao ver uma criança de rua agir daquela forma. Logo pensou: Nem todas são iguais, muitas estão ali por necessidade e /ou destino.

Passou então ela a observar Tico e cada vez mais ficava amigos – foi quando Tico contou sua história. Então ela resolveu ajudar - acolhendo ele em seu lar para poder procurar sua família e, em momento algum desistiu de procurar.

Tico era um menino tão generoso que mesmo diante das circunstâncias pensava nos novos amigos – sempre que podia levava comida para eles e se alegravam com ele. A sua amiga de tanto buscar encontrou sua mãe. Quando quase perdera as esperanças.

A mamãe de Tico durante todo o tempo que ele passou na rua não se cansou de procurar seu filho – saia todos os dias para procurá-lo. Grande foi à emoção quando se encontraram – entre choro, abraços, e sorrisos. Daquele dia em diante a família dele aumentou – não podia mais viver sem sua amiga.

Dessa forma: todos agradeceram a Deus – Papai do céu pela volta de Tico. A mamãe de Tico fez uma festa bonita com muita guloseima, bombons, balões, palhaços, muitas brincadeiras enfim Tico voltou ao seu mundo feliz.

E não se esqueceu de convidar os seus amigos, sua mãe se comprometeu de ir buscar e levá-los. E passaram a ajudar meninos de rua inclusive de ir à procura de seus familiares.

Guarulhos, 7 de Nov de 2014

Por: Mary Jun
 
A história de Tico

(O gato Tico ( Uma história para Marina)

 
Alguém viu o meu gato? Bisbisbis… chamo, chamo e ele não dá sinais de vida!
Oi… Tico? Resolveste fazer greve depois do berro que te dei quando te apanhei de volta das postas de bacalhau para o almoço?
Que canseira! Sabes, Marina? Ando meia triste desde que o Tico fugiu. Falta-me qualquer coisa. Posso dar-te mil e uma comparações para que entendas a razão do meu desassossego, mas basta-me a mais evidente.
Imaginas a vida sem o carinho familiar? Imaginas os teus dias sem o olhar de lince, meigo e maternal, da tua mãe?
Não? Sim eu sei que não.
Então… princesa, sabes o que sinto neste preciso momento.
Não ter o Tico a ronronar à volta das minhas pernas, é como ser flor sem chuva, abelha sem mel, barco sem mar, borboleta sem asas.
Uma enorme melancolia atravessa o meu coração porque não estou habituada a uma ausência tão prolongada.
Será que ele se apaixonou por uma Tica qualquer e resolveu amuar comigo?
Imaginas a minha desilusão, Marina?
Eu é que deveria ser a sua prioridade porque o salvei de uma morte anunciada quando o apanhei na berma de uma estrada cheia de penhascos, a miar, a miar, como se anunciasse o fim do mundo.
Há amor maior do que esse? O da amizade?
- Acho querida que estou com ciumes e isso nem sequer é bonito. Desculpa Marina, mas como sou humana mostro-te livremente os meus defeitos.
Irra… e o Tico que não aparece!!
Não faz mal. Vamos fazer as duas uma pequena brincadeira Marina? Vamos?
Então… fecha os olhos. Isso… eu já fechei os meus também…
- Vamos imaginar que estamos as duas em cima de uma prancha, num mar calmo, tão sereno que mais parece ser o céu. Agora, dá-me a mão. Vês…? Estamos as duas a flutuar ao sabor das ondas, e… bem lá ao longe, ena, sabes quem anda numa diversão danada?
- O Tico. Ali está ele todo divertido a surfar em ondas quietas, com a sua nova namorada. Safado…!
Não te rias Marina! Estou mesmo zangada com ele.
- Quê? Achas que até é divertido? Ah… acho que tens razão, minha querida!

PS: - Helen, talvez esta história seja demasiado infantil para a Marina. No entanto escrevia-a com muito carinho!

VÓNY FERREIRA
 
(O gato Tico ( Uma história para Marina)

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CHUVA

 
Era ainda o tempo em que as nuvens falavam e só se vestiam de algodão puro, de fiar. É claro que não havia ainda boletins meteorológicos nem medidores de poluição! Todas as nuvens eram virgens, se vestiam de branco e adoravam o Sol, senhor absoluto do reino do Céu Azul. Sim, nesse tempo não havia ainda chuva. Nem necessidade dela. Os rios eram jovens e felizes, fortes e dóceis, havia minas naturais de água fresca onde eles não chegavam e, todas as madrugadas, o orvalho dava de beber a quem tivesse ainda alguma sede...

Por isso as nuvenzinhas viviam despreocupadas no Céu Azul, brincando à apanhada com o vento e puxando raiozinhos loiros ao sol, o que, diga-se a verdade, o irritava profundamente. Mas aí é que estava a graça!
Ah, mas o que elas gostavam mais, era disfarçarem-se e desafiarem os meninos da Terra a descobrir-lhes o feitio: "Que sou eu, que sou eu agora?..." - perguntavam de lá de cima, metamorfoseadas em cordeirinhos, em flores, em anjos, em castelos... E os meninos gritavam-lhes hipóteses, rindo e pulando, até acertarem e elas se desmancharem a rir com eles...

Havia nuvens de todas as idades e origens. Algumas, as mais velhas, já não toleravam muito bem o calor do Sol e só apareciam de manhã ou à tardinha: essas falavam muito com as pessoas adultas e davam-lhes conselhos sábios! -"Hoje o vento está de feição... é dia bom para joeirar o trigo."; "Amanhã é bom dia para semear..."; "Vá, põe-te aqui à minha sombra, que o Sol hoje está de mau-humor..."
Havia também nuvens malvadas, que andavam sempre às turras, outras preguiçosas, que nunca saíam da cama do horizonte, outras doces, mansinhas, que se atreviam quase ao nível das árvores e brincavam de perto com os passarinhos e os meninos...

Mas tudo vivia em harmonia: Nuvens, Gente, Sol e Água...

*

Um belo dia (nesse tempo, todos os dias eram belos...), ainda o sol e as nuvens dormiam, nasceu um amor impossível. Nem os passarinhos mais madrugadores, as únicas testemunhas do nascimento desse amor, queriam acreditar!...

Reza então a história, contada por eles de bico em bico, que Alva, uma jovem e sonhadora nuvem disfarçada de mulher, dançava sozinha no Céu ainda pálido de sono... O vestido em que ela metamorfoseara as suas partículas vaporosas, era branco e leve. Pequenos e delicados flocos de si mesma, retocados com o róseo tom que o sol nascente lhes emprestava, imitavam na perfeição o rosto e as mãos duma bela mulher. A lua, em fina tiara de ouro quase nova, apanhava-lhe os cabelos, feitos de restos de noite...
E assim, formosa e gentil, bailava elegantemente, imaginando-se nos braços de um príncipe encantado...

Cá em baixo, o dia também acordava.
Romindo, um jovem e forte camponês, já trilhava os caminhos agrestes da serra, no encalço de mais um dia de trabalho. Ele olhava o vale verdejante, onde as casinhas da sua aldeia fumegavam os primeiros suspiros das lareiras, e pensava como era afortunado por viver entre tanta beleza...
Foi então, num subir de olhos ao Céu, para agradecer a Deus, que ele a viu. Alva, a nuvem. Como era bela! Linda, mais linda que todas as nuvens, mais linda que todas as mulheres que ele conhecia!...
Ela, parecendo saber-se fitada com tanta intensidade e admiração, corou e suspendeu o bailado. Ficou a pairar, entre o primeiro raio de sol e o primeiro beijo de vento...

*

Foi paixão à primeira vista, já se sabe. Logo ali o coração de ambos jurou amor eterno, viesse quem viesse.
Mas veio o Sol. E o Vento.

A princípio, ainda estremunhados, quase foram cúmplices desse amor, pelo que já contei (do que me contaram os pássaros, claro). Depois, como a função do rei Sol sempre foi aquecer, e a do Vento, dispersar, o que se passou foi inevitável: Alva, a nuvenzinha vestida de mulher, foi-se esvaecendo, meia levada no vento, meia evaporada pelo sol... e dali a pouco só restavam floquinhos brancos reflectidos teimosamente nos olhos de Romindo.

Ah, mas amor é amor e este tinha nascido para ser um amor eterno!... Dali em diante, todas as manhãs e todas as tardinhas, naquela hora em que a Paz parece descer sobre a Terra em passos de silêncio e luzes de médio fulgor, ela lá estava, esperando o olhar dele!... Sempre linda e donairosa, ora vestida de branco, ora vestida de rosa, ora vestida de azul... às vezes enfeitada de estrelas, às vezes cheia de lua, às vezes de lua nova...

Romindo vinha sempre, ao cimo do monte de onde a vira a primeira vez... Ficavam extasiados, a olhar um para o outro e a falar coisinhas patetas (nesse tempo as nuvens falavam, lembram-se...?), tipo "Hoje vai estar um dia lindo, não vai?..."; "Gostas de mim, muito, muito, muito?..."; "Vou ter tantas saudades tuas!...". Pronto, essas coisas desnecessárias que os namorados dizem, enquanto os olhos dizem um ao outro aquilo que realmente é importante: "amo-te, amo-te, quero-te..."

Mas aí é que começou o problema. Nesse "querer". Como é que um homem ia "querer" uma nuvem?... As leis desse tempo, apesar de serem todas naturais e sem aditivos preconceituosos, eram já leis. E diziam que homem nenhum podia casar com uma nuvem. Onde já se viu?... Era anti-natural, e já vimos que as leis eram naturais, nesse tempo!
Foi um drama! Quando, de cabeça ainda nas nuvens, depois de Romindo a ter pedido em casamento, Alva foi pedir permissão ao rei Sol, e ele só lhe deu uma gargalhada, ela quase caíu do Céu Azul...

Pobre Alva! A gargalhada do Sol foi tão sonora e sarcástica, que todo o Céu e a Terra ouviram, nuvens e gentes. Vieram logo todos, prontinhos a bisbilhotar. E todos, uns querendo adular o rei, outros querendo menosprezar o sonho, gargalharam com ele, condenando por unanimidade o amor de Alva e Romindo.

O pobre Romindo, caído das nuvens, jurou viver triste para sempre...
Alva... bem, com Alva aconteceu uma coisa estranha e inédita: ela ficou tão triste, tão triste, que toda a sua alma feita de pequeninas gotículas de água pura, quis morrer. Ela começou a definhar, a ficar cinzenta e disforme... uma força tão grande como o amor que tinha por Romindo, começou a puxá-la para a Terra e toda ela era desejo de o tocar, de o abraçar...

Dizem que veio morrer com ele, no mesmo sítio onde se viram pela primeira vez... Caíu do céu em lágrimas, banhou-o de amor, e morreram abraçados, felizes...
Nesse mesmo local jorrou uma nascente, da água mais pura e límpida que a Terra já fez nascer...

Parece que esta história de amor se repetiu muitas vezes, em todas as terras, em todos os tempos, com outras nuvens e outros mancebos. Aliás, parece que ainda acontece, sempre que chove...

Com o meu "obrigada" a quem já me tinha comentado...

Enviado por
Betha_M_Costa Publicado: 14/04/2010 17:22

Amo contos!Os infantis então...Esse está bem ao entendimento e linguajar das crianças.Estou no aguardo da continuação!
Bjins, Betha.

*
Enviado por
VónyFerreira Publicado: 14/04/2010 15:30

Uma ternura este conto.
Sendo para crianças, a menina que há em mim agurada impacientemente a continuação do mesmo.
Beijo, Teresa.
Vóny Ferreira

*
Enviado por
celiacc Publicado: 14/04/2010 14:38

Olá
Que bom que a história continua.
Adorei este começo.Vou ler esta história ao meu neto e ao meu filho Rui, logo, quando chegarem da escola e do Centro Ocupacional.
Tenho a certeza que vão adorar, embora a diferença de idades seja enorme.

Obrigada por nos ofereceres tão linda e educativa partilha.

Beijo grande
célia

*
Enviado por
rosafogo Publicado: 14/04/2010 14:21

Fico aguardando, agora me deixaste com àgua na boca, não se faz... uma destas, fui criança nesta altura, quando o vento estava de feição que bem me sabia correr e ser empurrada por ele.

beijinho, adorei.

rosa

*
Enviado por
rosafogo Publicado: 14/04/2010 18:20

E depois, e depois?!
Pousaria a Alba na serra? Ou o vento o levou até ela?Não... ela chorou de saudade quando o Romindo desapareceu no fundo da ravina.
Aguardo, com alguma sofreguidão.
Soubesse eu e escreveria tão bonito como tu, mas
quer Deus que eu me contente com o que tenho.

Beijinho amiga
da rosa

*
Enviado por
Betha_M_Costa Publicado: 14/04/2010 18:16

Lindo como os sonhos da infância, Sterea.
Continuo a apreciar o conto.
Bjins, Betha.

*
Enviado por
Edilson José Publicado: 14/04/2010 17:44

Um encanto minha amiga!
Forte abraço.
Edilson
 
A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CHUVA

Um conto que é romance

 
Vou escrever algo:

Quando quero escrever um conto sai um poema, quando quero um poema sai um pensamento, quando quero um pensamento sai uma palavra
e as silabas são sempre todas, á letra. Por isso vou escrever um romance, uma história de desamores de amores no singular . Esta história ao contrário das histórias verdadeiras é mais verdadeira ainda, porque os personagens eram mesmo um só.

Não era uma vez...penso que foram vezes uma muitas vezes (Voltem atrás e leiam direito)

e para que não me passem uma rasteira nesta história ...foram vezes uma muitas vezes.

Uma dessas vezes, quando era pequenino (ainda o sou, só que agora excito-me com coisas tipo parênteses fecham parênteses, ao quadrado)
Quando falam, falam sempre do passado, recordam-se histórias, sempre saudosistas como se a saudade não fosse dor, sim saudade é o que não é.
Falo do futuro para dizer.: no futuro quero esse passado.

Ele era o mario, sem acento (que isto dos correctores já não são como antigamente), ela era a maria, simplesmente. Simplesmente maria.
Os dois juntos em cima um do outro davam meio. Meio que foi o seu viver na venda de brinquedos, dos tempos em que os brinquedos falavam.
Meio de vida para disfarçar as desgraças que são mesmo a anti-tese de todas as graças. A sua graça era mario a sua desgraça era maria,
como diz o provérbio, era versa vice.

E os dois juntos, um em cima do outro, em qualquer posição, mesmo que na cama sutra, davam meio. Viviam da venda de tráfico de brinquedos.
Eram heróis malditos porque o amor que os unia ( como se amor pudesse ser outra coisa) não lhes dava réstia para verem que no mundo ao lado
do seu universo viviam seres traquinas e galáticos, as crianças. E eu era galáctico como ainda o sou, traquino.

Lembro-me que tinham forte concorrência, porque o Barbosa mesmo sem estar em cima de ninguém e isento de cama-sutras, era grande, aliás
(perdoem-se esta expressão complicada e os parênteses da minha invocação sempre a fecharem-se sobre nós mesmos). Nós mesmos, pleonasmo
absoluto porque nós somos sempre os mesmos, nunca outros nós. Como estava a dizer o Barbosa era grande, isto é, era maior do que si mesmo, e
como se não bastasse essa concorrência ao mario e à maria, também vendia brinquedos. Só que o Barbosa, como era enorme e tinha um coração maior
que o mario e a maria, que eram pequenos, conseguia a proeza de vender brinquedos a si mesmo. Ora, em boa hora vos conto neste romance, que o mario tinha um coração maior do que o seu minúsculo quintal, onde fanava-mos a fruta do nosso contentamento, em linguagem antiga e salazarenta o mata-fome, mesmo com verde fruta, porque há fruta verde que é madura (perguntem ao Adão ou á Eva). Agora vou escrever aquele bocadinho que se inventa roubando á imaginação, a maior das verdades.
O Barbosa que era gigante, não sei porquê, zangou-se com a maria por causa de um olhar atrevido de gigante que lançou ao mario ... e porquê?

Ora a história dos ciúmes não é para aqui chamada porque o Barbosa tinha um coração pequeno, mas bem maior que o quintal minúsculo do mario e da maria, tal era o tamanho da desporpoção da grandeza das suas ideias bem maiores que o seu corpo ciclopado. O Barbosa era maior do que o mais pequeno dos mundos.
Como naquela altura a concorrência apertava porque ninguém fazia compras, ambos, Barbosa e mario e maria tinham um problema, os catraios assaltavam-lhes os quintais para lhes roubar a fruta verde, esgotada na fome. E um dia tipo era uma vez...

O mario, que era o homem da causa sem u, mandado pela sua minhota esposa (interrompi o conto para escrever no msn: acabei de jantar e o aperitivo é um conto ..envio-te depois)...
Como já tinha uma expressão estudada para este conto que é um romance), escrevo:
Ah onde é que eu ía. E há quem diga, não é onde, é aonde.

Estava eu com o Barbosa a contempla-lo e ele, mestre da bondade de, dizia-me que o meu pai iria comprar aquele blindado que não era um avião mas voava e até voava com fumo invisível.
Fixe. Estava eu muito fixe e o Barbosa também. Naquele tempo toda a gente sabe que o tabaco era caro e ganhar o valor de alguns volumes era negócio. Hoje há quem chinoca isso e tem lugar até, se aceitar um, recebe outro por cima. Coisas que por um pouco a culpa é da Internet. Causa de parênteses... e correctores.

Claro, claro o mario era assim, pegava numa espingarda brinquedo e dava tiros a sério, foguetados. Nunca em toda a minha vida um foguete que ainda me assusta, medava-me tanto (esta palavra não é conhecida pelo corrector do sistema). O foguete agora merda-me. E estava ele, o mario, aos tiros e como a espingarda não era tão "redbull dou-te asas) não tinha áudio. Era desprovida de som e vai o mario, mais sabedor disso do que ele próprio, enganava-se imitando com a boca o troar de canhões dizendo e soprando: pluf, pluf .pluf..porque era pequenino. E nós fugíamos em debandada. Um dia Barbosa apareceu, dizem a passar na rua como sempre e passando alguns meses, muito tempo depois de mario e maria deixarem de aparecer. A escola que morava perto deles era boa vizinha, mas de verão lá ía ela de férias e vai que ninguém, se apercebeu que o mario e a maria tinham morrido. Dizem inclusivé: estão mortos, irremediavelmente mortos. Algum intelectual fora buscar esta expressão ao fio da navalha e vai daí convenceu toda a gente. Pelo sim pelo não e também pelo cheiro, vice-versa e nauseabundo. Eles cheiravam mesmo mal, cheiravam mais mal do que cães mortos. Tinham morrido e como tal, normalmente ninguém acreditava. Então para o povo os brinquedos eram eternos, e para os gentios o mario a a maria eram dois brinquedos que, juntos não davam meio e como se isso não fosse pouco tinham morrido. Lá estava o Barbosa na história, sem saber ler e escrever e era grande e como se isso não bastasse tinha-lhe saído a sorte grande: acabara-se a concorrência e mesmo que ninguém comprasse ( e não compravam porque quem mandava era um tal de Salazar, e o homem era à justa. Depois, muito lentamente veio a novidade: Primeiro morreu um, depois morreu outro. Jaziam na tal sutra abraçados na cama. "Estás a brincar" diziam todos. Não morreu mesmo. Mas quem? Os dois? O mario primeiro, a maria ...que se passou? Então, desprovida da verdade, a bisbilhotice (outro pleonasmo) inventou mais do que história com H. Hoje num outro conto sei que um morreu primeiro que o outro. Mas quem foi primeiro? Foi certamente um e outro porque estavam lá. A mario ou o mario morreu e o mario ou a maria morreu também. Dizem, um primeiro e o outro pelo primeiro. mario não é a história de quem morre primeiro e maria primeiro não morre. O Barbosa por um pouco não morria primeiro e só porque o neto vivia com ele e morreu-lhe antes. (porque se alistou ao longe). Barbosa era o único que tinha razão porque acabara de perder os seus brinquedos mais lindos que eram reais ( o mario e a maria). Morreu. Despediu-se dos brinquedos e foi-se com ele, para saber primeiro que todos, quem morreu primeiro: se o ovo ou a galinha.

Esta história tem um atributo meio singular. É quase muitas vezes verdadeira. Ainda hoje quero essa espingarda brinquedo a disparar tiros a sério, que com elegância matam o atirador de amores. O mario e a maria morreram e viveram um para o outro. Tal conto de fadas, e o Barbosa, sem saber ler e escrever.
 
Um conto que é romance

Sementes de amor e esperança

 
Sementes de amor e esperança
 
O dia amanheceu com aquele cheiro a hortelã. Tio Janeca chamou o sobrinho Zeca que, ainda, dava voltas na enxerga de palha a que chamava de cama.
- Levanta-te, Zé preguiçoso, que o galo está quase a cantar!
Zequinha era um jovem amargurado, órfão de pai e mãe, no auge dos seus 15 anos, abandonou os estudos porque a inteligência não o havia contemplado e porque ficara entregue aos cuidados do Tio Janeca, seu único parente, eremita por opção, agora, acompanhado do desmiolado rapaz, invasor das suas horas de meditação e contemplação da natureza.
- Oh tio, eu hoje podia dormir mais um pouco, a Xinha está prenha e agora não dá leite, se não tenho de ordenhar a cabra para que é que preciso levantar-me tão cedo?
- Anda, senta-te aqui junto a mim e come estas sopas de café com leite!Sabes? A natureza respeita os seus horários e, tal como tu, também dorme, mas para isso Deus fez a noite. Se somos parte dela temos de respeitar as suas regras.
- Oh tio, mas eu sou parte da natureza?
- Claro que sim, tudo o que foi criado por Deus faz parte da natureza. Olha vem daí, vamos sentar-nos debaixo deste velho carvalho.
- Agora respira fundo e pensa nas estrelas, nas nuvens, no sol e nos ciclos da lua…
Consegues perceber como cada um deles surge e desaparece conforme o horário que lhe foi destinado pelo Criador?
- O tio sabe cada coisa, nunca tinha pensado nisso, eu cá só me apetece dormir.
Nisto, Zacarias, o galo capão, cantarolou a cantiga que Deus lhe encomendou para acordar a humanidade e Zeca entendeu finalmente que àquela hora da madrugada a natureza despontava na sua plenitude e quem muito dormia nunca haveria de testemunhar tamanho milagre.
Ali, mesmo na sua frente, o carreiro das formigas atarefadas atropelava-se na correria desenfreada pela sobrevivência, ainda mal rompera a aurora e já estes seres minúsculos cumpriam o seu destino.
O Tio Janeca tirou do bolso das jardineiras umas pequenas sementes e ordenou a Zeca, com a convicção de quem já viveu o suficiente para ensinar as experiências que a vida lhe transmitiu:
- Anda, quero que deites estas pequenas sementes à terra!
- São sementes de quê tio?
O velho eremita respondeu:
- São sementes de amor e esperança.

Maria Fernanda Reis Esteves
49 anos
Natural: Setúbal
 
Sementes de amor e esperança

A Velha Aborrecida

 
A Velha Aborrecida
 
A Velha Aborrecida
by Betha M. Costa

Era uma vez uma velha. Uma velha que de tanto caminhar já ia adiante dos anos. Vivia aprisionada na torre mais alta do castelo mais alto do Mundo da Imaginação. Castigo imposto pelos Magos do Enfado, por ela viver aborrecida e só enxergar o lado negro e negativo de tudo.

E dormia a velha por séculos até que um velho - mais aborrecido e enjoado que ela – apareceu, deu-lhe um safanão e disse: - Ó, mulher!Chega de descanso!Põe a barriga no fogão desse castelo e faz uma gororoba que eu estou com fome!

A rabugenta idosa pulou da cama de susto. Ao avistar o anoso e feio homem que a despertara teve o desejo de lançar-se janela abaixo... Aí lembrou que ia virar caquinhos de chatice espalhados ao chão devido à altura da torre e vociferou:

- Eu no aguardo de um jovem e lindo príncipe para despertar-me com um beijo apaixonado... E aparece ISSO!Sacolejou apontado para o idoso.

- ISSO?Isso é mais que excelente para salvar do sono eterno tão desagradável pessoa, sua... Sua... Mistura de cruz-credo! Retrucou o homem enquanto exibia com as mãos as pelancas do seu corpo e alma pergaminhados.

A velha aborrecida olhou-se no espelho de frente, perfil, costas. Vistoriou de cima a baixo o seu corpo despencado e falou com a voz amorosa:

- Está bem! Vamos juntar nossas dentaduras no mesmo copo? E eles viveram felizes para sempre... Digo, por mais seis meses, pois ambos morreram envenenados pelo excesso de aborrecimento e baixo astral que existia na comida da velha.

Moral da história: o mau humor envenena e mata as pessoas, crianças!
 
A Velha Aborrecida

Era uma vez um pasto...

 
Era uma vez um pasto...
by Betha Mendonça

Era um tempo distante. Desses que a gente quando olha para atrás – nem a colar miudinhos os olhos – pode enxergar, mas ainda há quem consiga lembrar...

Nesse tempo distante havia um grande pasto. Tinha cor verde-dólar. Fazia ao norte fronteira com um jardim florido que lembrava um arco-íris-de-história e ao sul com um pântano verde-gosma-de-et. Tal lugar abrigava gado de toda espécie e pelagem.

Como onde há diversidade: os mais fortes e/ou espertos sobressaiam, e, os menos fortes e/ou menos espertos ficavam perdidos no meio do fogo cerrado de tais grupos.

Bad Ox liderava (ou pensava que liderava) a ala bovídea que se julgava mais politizada, intelectualizada, verbalizadora de tudo de profundo e metafísico. Só não era do dono da verdade, por que ainda não adquirira poder e grama suficiente para comprá-la.Quando zangado via tudo vermelho-sangue-coagulado e desferia chifradas a esmo entre aliados e desafetos com a mesma paixão bovina.

Litlle Cow ficava junto às vacas aparentemente mais frágeis e delicadas pastando na ala norte. Miúda. Parecia uma novilha, mas não era bovídea a pensar na morte da bezerra, não!Estava sempre atenta a qualquer mugido do seu desafeto.

Por longo tempo Bad Ox trocou com Litlle Cow chifradas e mugidos. Ficaram tão famosos que vinha gado de outras terras para vê-los. Com o passar dos anos a contenda entre eles ficou sem graça. O local foi esvaziando e ao mesmo tempo diminuindo de tamanho. Os rebanhos se espremiam num pequeno espaço entre o jardim e o pântano. Parte dele foi devorada pelos jacarés do lodaçal e outra parte envenenada pelo odor das flores. Por isso – nem com olhar miudinho ou microscópio eletrônico – esse tempo distante pode ser visto, mas ainda é lembrado por esta Crasy Cow que vos muge.
 
Era uma vez um pasto...