Contos Minimalistas

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares da categoria contos minimalistas

Velho Diário

 
Folheou páginas dos pecados e elas sorriram desavergonhadas. Os rabiscos quase apagados jogaram-lhe na face o ardor de mil beijos escondidos sob os mantos das árvores. Enquanto inocentes cinderelas retornavam dos encantos e magias em horas determinadas ela fugia, descalça e de camisola assanhada, dos guardiões da pureza e candura. Liberta, sob o olhar feiticeiro da lua, percorria a noite enquanto o chão era feito de sombras de folhas rendadas. O vento aqui e acolá assoviava alcovitando os momentos furtivos. Era ela, cega aos perigos, tão espevitada, recusava pureza, fitas e laços, soltando os cabelos para o vento bolinar, sempre rumando para o que lhe atiçava emoção. Os olhos tremeram quando as páginas se despiram e ela reviu um corpo quente em bronze luzidio, dentes alvos e lábios polpudos. O olhar de um mar noturno em tempestade trazia a nau para misteriosas viagens. Navegava no momento como um rodopio de valsa. A paixão flutuava numa dança de pecado - Foi pecado? - As páginas tremem, interrogando-a neste patamar do tempo e mostram também seu retorno sorrateiro, no primeiro raio da aurora, para o calor dos lençóis e do travesseiro que nunca cansaram de ouvir suas confidências e preces para que suas travessuras não fossem descobertas. Pedia perdão aos céus, com a promessa de não cometer de novo – mas tudo se repetia, pois uma voz sempre exigia sussurrando-lhe no coração: se o sabor tem o doce néctar da flor, para que pedir perdão se esses pecados são feitos de amor? - Leu e releu por um bom tempo o versinho grifado e fechou o velho diário, sem remorsos, deixando dormir as páginas amarelecidas de insubordinação.
 
Velho Diário

Língua Reta

 
mastigar a palavra
prematura
toda brilha
bem narrada

toda

l
i
t
e
r
a
t
u
r
a


lamber fora
a língua nova

evolui a criatura


a
t
u
r
a

a língua reta
a fala pura?
 
Língua Reta

Invasão de Privacidade - Reedição

 
Entornou um copo de saudade e roubou a chave do tempo. Destrancou a porta entrando sem pedir licença. Observou a mobília, os quadros nas paredes, os desenhos do tapete e as almofadas coloridas no sofá... Esparramou-se, confortavelmente nelas, e, indiscretamente, se pôs a interrogar as lembranças.
 
Invasão de Privacidade - Reedição

Noite de sol

 
Esta foi minha participação no VIII Evento.
Como foi pedido um conto com apenas 70 palavras, não dava para dizer muita coisa.
Tentei descrever um pouco do que vi e senti no altar, no dia do meu casamento.
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Jamais esquecerei aquela noite!
Ela estava radiante, como se o sol do meio-dia tivesse emprestado a ela seu brilho e gravidade, pois tudo ali girava ao seu redor e ela passava arrastando os olhos de todos. Os meus, arregalados, não piscavam, não queriam perder nem mesmo um segundo daquela luz que vinha em minha direção, passo a passo. E me estendeu a mão...
Mal podia esperar para beijar a noiva!
 
Noite de sol

GRAVADA NO TEMPO

 
Lá de cima... Menina queria ser paisagem.

- Menina, não desce esses degraus, vai que escorrega? –

A voz vinha da janela logo atrás. Com irritação de criança batia o pé e sentava no primeiro degrau da escada escavada na ribanceira. Com o cotovelo na coxa e a mão no queixo, resignada, olhava o barquinho avariado balançando na beira do rio. Já tinha sido todo azul, mas o casco descascado só mostrava resquício da cor esmaecida.
Sentia a ânsia maluca de descer as escadas e ao mesmo tempo colher florezinhas... A vontade de descer com as mãos cheias até adentrar no barco e libertá-lo daquela prisão, pra depois fugir com ele descendo o rio e ir jogando pétalas na água, fazendo de conta que alimentava peixinhos.
A ribanceira era coberta por arbustos com flores brancas e miúdas, entremeados com capinzal. Havia sido desmatado um estreito espaço para que fosse escavada uma escada de chão. Lá embaixo, a alguns metros do rio, havia uma casinha de madeira sem pintura e telhado de palha. Era cercada por coqueiros e no fundo do pomar, sobressaia uma frondosa jaqueira e mais para trás, um lindo açaizal, cujas palmas tremeluziam ao vento. Pertencia ao dono do barquinho que dançava amarrado no pequeno trapiche - um tablado de madeira com estacas afincadas dentro do rio.
Que doído era querer fazer parte daquela tela viva e não poder, pois um olhar lançado da janela era extremamente vigilante. Os pezinhos batiam no degrau de terra, agitados, por conta daquele desejo de criança sapeca, enquanto via o rio correndo lá embaixo e alguns barquinhos zarpando com a água beirando os conveses... Barquinhos minúsculos com seus motores fazendo ‘puc-puc’ e rumando pra longe. Os olhos os acompanhavam até eles sumirem dentro do rio. Era assim que imaginava tudo. Pensava que quando os barquinhos se apagavam no horizonte era porque eles haviam emborcado na água. Sempre que isso acontecia, retornava a vontade de descer a ribanceira e fazer parte daquela paisagem... Do trapiche com o barquinho amarrado, da casinha de palha com as árvores...

- Filha, está na hora de entrar. Quer comer vento é?

Levantava, espanava a sujeira do short e corria pra dentro de casa. Depois de tudo, se pendurava na janela e ficava namorando o barquinho balançando no rio dourado de raios de sol.
 
GRAVADA NO TEMPO

As garças

 
...
As garças sonham alturas;
desfiam nuvens, não embaraçam
as linhas traçadas no céu.
 
As garças

A Bolha

 
A Bolha
 
A Bolha
by Betha Mendonça

Tanto gás carbônico, ela tinha aparência maior que as outras. Cheia de poder e sapiência, vestida em traje de gala movimentava-se dentro do flutter de champanhe, senhora absoluta daquele espaço. As outras bolhinhas eram as outras... Menos que uma parte do átomo para si! Como era seu destino, subiu em direção à superfície do copo e PLOFT: estourou! Exatamente como todas as bolhas estouram.

*Imagem Google
 
A Bolha

Vestida de azul

 
Luana Pompadour desapareceu vestida de azul. Na rua onde morava, diziam que ela esfregava-se nas paredes; louca, sentia saudades do amor. Duarte era seu nome. Foi embora sem deixar nenhum bilhete. Deixou apenas uma caixa decorada com fitas vermelhas e chocolate amargo.
Às 3 da madrugada, esperava um telefonema, um e-mail e nada. Duarte, fez promessas de longos beijos até a eternidade. Tinha a voz suave e os cabelos negros. Era alto, e forte. Quando estava alegre, acomapnhava-se do violão, assobiava músicas de Cartola e Noel Rosa.
Luana, ainda tonta de muita espera, em algum lugar do mundo, prepara-se para celebrar o Natal.
 
Vestida de azul

Capítulos incompletos - Aparição

 
Capítulos incompletos - Aparição
 
Ele surgiu no horizonte, escondido por entre as árvores que ladeavam a alameda. Os olhares cruzaram-se. Não acreditava no que via
- Impossível não podes ser tu, és uma miragem, vives numa outra realidade, num outro mundo que não o meu.
- Sou o que vês, o que sentes, sou as tuas memórias.
- Desejo tanto que sejas tu, quero tocar-te, amar-te, explorar os tempos de uma vida perdida ...
- Meu amor a minha única realidade és tu! Ainda que vivas das recordações de um beijo fugaz, de um amor imaginado! - Ela correu para o abraçar, mas a sua imagem desvaneceu-se. Afinal era apenas uma doce miragem ...
O fantasma do amor apagou-se com as névoas matinais, mas o que sentiu, isso foi bem real!

João Salvador - 03/02/2016
 
Capítulos incompletos - Aparição

Caminho do Meio

 
Quebraram espelhos e relógios,
para chegarmos mais próximos de
nuvens, estrelas e pássaros.
 
Caminho do Meio

invasão de domicílio

 
Entornou um copo de saudade e roubou a chave do tempo. Destrancou a porta entrando sem pedir licença. Observou a mobília, os quadros nas paredes, os desenhos do tapete e as almofadas coloridas no sofá... Esparramou-se, confortavelmente nelas, e, indiscretamente, se pôs a interrogar as lembranças.
 
invasão de domicílio

(Indig)nação

 
Saiu de madrugada com a filha doente no colo. Pensou em pegar um taxi, mas o dinheiro mal dava para o coletivo, que pelo horário demoraria muito. Foi a pé até o hospital mais próximo, quatro quilômetros. Implorou ajuda, mas teve que esperar mais uma hora pra descobrir que não havia plantonista, não havia vaga. Depois de outras horas, conseguiu uma ambulância que os levaram até a um outro hospital. Mas a história se repetiu, dessa vez como falta de recursos dado a gravidade do problema. Ouviu a criança dizer que estava com medo, antes de desfalecer nos seus braços. Foram em mais dois outros hospitais, no último conseguiu atendimento... Tarde demais!
A notícia saiu na televisão.
Uma nação inteira indignada!
Por três minutos, até começar "Os gols da rodada".

Fiz para o VI Evento.
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INFELIZMENTE BASEADO NUMA HISTÓRIA REAL.

Há algum tempo, envie um e-mail para a Rede Globo. Estava indignado com a morte de uma menina por falta de assistência médica. Uma atitude que tomei por impulso, realmente pra criticar, como uma forma de desabafo. Infelizmente o tema é bem atual. Há poucos dias, ocorreu um caso semelhante, desta vez com um bebezinho de sete meses. Mas de qualquer forma se você não se lembra, não viu, fique tranquilo, em breve vai acontecer de novo. (desculpe o humor negro).
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Hoje (dia 28/03/10), assistindo ao fantástico, vi o caso da menina Mayara que morreu por falta de atendimento médico. Mais uma vítima da falta de competência, bom censo e vergonha dos políticos e governantes dessa piada que chamamos de país. O pior é que mal podemos reclamar deles, são bem a cara o povo brasileiro, que se salvando o dele, o resto que se foda. Somos muito bem representados.
Foi “engraçado” (triste) o nível de atenção que se deu ao caso. Tudo bem que foi só por causa da imprensa, dias atrás, que a menina ainda teve tardiamente um atendimento, mas mesmo assim acredito que tudo acabou ai, ela morreu, eles anunciaram, e acabou. Bem, afinal pra que falar sobre isso, é ano de copa, eleições e ainda temos o transito pra tomar conta. Esse sim, ultimamente, vem recebendo uma atenção especial, afinal é uma mina de ouro, uma fabrica de dinheiro. Dá retorno, então vamos fazer propaganda. Só fico indignado em ouvir as pessoas na rua incentivando a palhaçada, onde na verdade, são necessárias apenas leis mais severas que punissem com rigor a imprudência. No lugar disso vem uma multa pelo correio (que também anda uma bosta) e você acaba se sentindo roubado. Ainda somos obrigados a pagar por cursos idiotas pra ver senas de acidentes (que pena que da forma de estão fazendo não “tá” dando pra pagar e escapar da perda de tempo. Além do dinheiro, você ainda tem que perder seu tempo. Mas fiquem tranquilos, logo alguém acha um jeito pra você perder apenas o seu dinheiro. Aqui sempre dão um jeitinho).
É! O transito serve bem pra tirar a nossa atenção (até aqui, agora, quase perco o foco). Voltando ao caso da menina. O que esta faltando?
Nós, da classe média, quase não aguentamos mais pagar impostos. Ainda temos que pagar escola particular pra nossos filhos (já que a pública é uma merda. Se bem que parece que não há repetência. Se for isso mesmo, olha a forma imbecil que se resolvem as coisas no Brasil. Tampam o sol com a peneira. Os índices da educação ficam uma beleza. Quem sabe enganam algum inglês), um plano de saúde caso não queira ver um filho passar pelo mesmo problema da Mayara (se bem que os planos hoje... Os políticos tentaram alguma coisa ai. Parece que vão conseguir quebrar de vez os planos de saúde no Brasil. Mais até lá vão poder usar da hipocrisia.) além dos pedágios e das multas (Do jeito que vai ainda vão criar a “Multa Obrigatória”).
Creio que não é dinheiro que falta (logo quem sabe até teremos o pré-sal do Luiz Inácio Brás, que parece que já quer garantir um lugar pra ele na Petro-Lula, além dos políticos querendo um pedaço do bolo). O problema é realmente de competência. Talvez mais de competência do que de decência. Ou não?
Bem, sou eu que estou perguntando. O que falta? Faltam morrer mais quantas Mayaras?
Por Deus, será que nosso digníssimo presidente não fica indignado? Será que nossos políticos não ficam com vergonha?
Na televisão falaram em indignação com respeito a um comercial estrangeiro (quem não sabe o que é não perca tempo). Isso que aconteceu com a Mayara é que deve realmente nos indignar (falar que o Brasil é puteiro para gringo no carnaval, o Cazuza já falou isso antes, e concordo com ele).
Por Deus, a imprensa podia ajudar mais. O Brasil precisa da imprensa. Se esse texto chegar as mãos de alguém dela, peço que façam alguma coisa. Tirem o foco do transito, ou pelo menos deem a mesma atenção para a saúde, para a violência (Nesse mesmo dia o fantástico anunciou a morte do pai do Bochecha a tiros). Sei que estão de cima, mais é preciso mais. É muito triste ver um cara inteligente como o Pedro Bial perdendo o seu tempo escrevendo texto pros caras no Big Brother, e eu aqui que mal me dou com as palavras tentando falar alguma coisa.
Façam alguma coisa. Pensar numa menina de oito anos falando para pai que tinha medo de morrer ali...

Gustavo Espinha Lourenço.
(Indignado, indignado, indignado.)

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No outro dia continuei escrevendo com vontade de mandar outro e-mail, mas não mandei. Sabia que tinha sido uma coisa imbecil, que nada ia adiantar, mas serviu de desabafo. Postei isso aqui para ficar guardado, pra poder lembrar um dia, e quem sabe também, deixar alguém indignado como eu fiquei.
Segue abaixo o texto que escrevi no dia seguinte.
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Como minha raiva não passou resolvi continuar escrevendo.
Fiquei pensando em tantas coisas que podia ter escrito no primeiro texto e que deixei pra trás, mesmo porque, acredito que do tamanho que ele ficou 80% das pessoas que começassem a ler parariam na metade. Não era nenhuma piada ou uma fofoca falando da vida de uma celebridade, mas um texto que fala da morte de uma desconhecida.
Fiquei pensando na alegria de alguns (inocentes, desenfornados, comprados pela mídia) comemorando o fato do Brasil sediar as olimpíadas (não queria ver meu dinheiro sendo gasto nisso), sendo que no mesmo dia um telejornal mostrava uma reportagem mostrando que em algumas cidades no norte do país as pessoas tinham que deslocar centenas de quilômetros para poder se tratar de um câncer (fazer a quimioterapia), pois por perto não havia nenhum tipo de recurso. Nesta ocasião minha mãe estava fazendo "químio", o que me deixava ainda mais indignado. (Na verdade, como um bom brasileiro, se não fosse por isso eu nem tinha prestado atenção na reportagem. Não seria do meu interesse e o norte que se dane). Completando o primeiro texto, os gastos com as olimpíadas, pra mim será uma reforma no quarto principal do grande puteiro (não quero ofender ninguém, mas se não indignarem com o fato, pelo menos fiquem com raiva de mim. Sintam alguma coisa).
Pelo que se briga aqui no Brasil. Vi tanta gente correndo atrás do camburão que levavam os Nardones. E agora a Mayara, alguém ainda vão falar dela?
Pensei num fato ocorrido recentemente aqui em Uberlândia: estudantes brigando por uma causa dentro da Universidade Federal. Pensei no momento que era por algo que valesse a pena. Infelizmente o motivo era que eles queriam a liberação de bebida alcoólica em eventos realizados no campus (algo assim). Deu vergonha por um momento, por ser um ex-aluno. Mas agora acho que esta valendo. Vou aderir à causa, me juntar a eles e ficar bêbado. Quem sabe a raiva passe.

Se possível, façam alguma coisa, chamem a atenção pro caso. Vocês podem. (só não sei se adianta alguma coisa)

Gustavo Espinha Lourenço
(já mais conformado. Talvez tivesse valido mais uma oração pra Mayara)

(Não procurei corrigir o texto. Se houver erros, que fique assim. Retrata bem a péssima educação que eu tive no ensino fundamental. As consequências me perseguem).
 
(Indig)nação

mil contos no ar

 
a porta se entreabriu
pela fresta, aqueceu o sol
brevemente, uma parte do carpete
do entediado escritório

a ponta do lápis
traçava planos no bloquinho
o telefone cochichava ao ouvido
quando um copo se destacou do porta-copos
e a porta se fechou

a ponta do lápis
gesticulou e o copo repleto d'água
aproximou-se sem jeito
posicionando-se sobre a mesa

a cadeira se mexeu desconfortável
enquanto uma mala achegava-se a seus pés

bateu no gancho o telefone
tão abrupto que, rolando pela mesa
teria caído o lápis, sua ponta desgastada
não fosse o providencial amparo do copo

a cadeira deu um passo à frente
e a mesa abriu espaço para a maleta
era visível a tensão no ar
descrevendo espirais esfumaçadas

algumas persianas próximas
velando o movimento de passos e rodas
fecharam-se por precaução
como sempre convinha

o copo foi esvaziado
e jogado no cesto mais próximo
e também um cigarro nas últimas
apegou-se ao fundo do cinzeiro

a tranca da porta girou
acompanhada pela trinca da maleta
em cúmplice sincronia

a cadeira permitiu-se um ranger
e o telefone saiu do gancho
do cinzeiro, uma pálida luz
ainda emitia, fraca

havia concordância nas notas
como nos rabiscos no bloco
mas não na gaveta que, sonolenta
se abria ao rigor da pistola

ela mirou o espaço adiante
a maleta se fechou bruscamente
e a cadeira deslizou para trás
desejando com suas rodinhas voar
para longe dali

mas era tarde demais
foi furada e o carpete e as persianas
respingados

a maleta nunca mais foi vista
 
mil contos no ar

À míngua

 
O meu amor morreu à míngua. Não conhecia o mundo do lado de cá da América do Sul. Chamava-se Klungo. Veio do Congo para São Paulo no final século XX. Distraído, olhava vitrines e edifícios; foi atropelado por uma motocicleta que passava na avenida São João.
 
À míngua

A última sessão de cinema

 
Imaginava um final alternativo para o mundo quando acenderam-se as luzes . A velha senhora levantou furtivamente, deixou o saco de pipoca no chão. Desfilou trôpega, entre as filas,ao sabor do neto,seu pequeno algoz.
Fecho os olhos e as pálpebras lumierescas exibem estilhaços da imagem .The end, no mundo e no amendoim.
 
A última sessão de cinema

Pretty Baby

 
PRETTY BABY

Na cabeça de louros cachos, circundado pelo diadema de retrós, um dilema atroz.
 
Pretty Baby

calafrio

 
calafrio
 
A janela estava fechada quando se ergueram, no horizonte, nuvens escuras. O pequeno mundo fechado vivia seu encanto. As fantasias tinham pele de realidade; a melodia, o vinho, a seda e o perfume conversavam entre si como se consistente fosse a amizade. Porque o tempo se esqueceu de desamarrar o laço do presente, o momento adormeceu feliz e não se preparou pro temporal que, de repente, surgiu. O vento abriu a janela revelando o retorno do sol que já não cala o frio.
 
calafrio

Anástrofe

 
Dormitava num vácuo escuro e frio quando um brilho expulsou a treva. A claridade mostrou no centro uma taça borbulhando fogo e percebeu-se, de repente, a girar no entorno, como que adorando, reverenciando a compoteira em chamas. Nebulosas sedosas lhe acariciaram o corpo sussurrando o nome da luz: - Amor... Amor... Amor. Tome-o... Tome-o... Tome-o para si. Logo, tomou posse dessa sedução, desse incentivo, se lançando rumo à fonte luminosa, esticando-se em sentimentos carinhosos e dedicados, até encostar a ponta da alma naquele clarão. Assustou-se! Foi vertido do alvo um líquido quente amarelo citrino, formando poças num chão ainda feito de sonhos. Estremeceu o peito condoído; não queria machucá-lo. Queria amá-lo, entregar-se completamente ao seu interior pra alimentar as brasas que acendiam aquele corpo. Adentrou mais um pouco e mais outro e percebeu que, a cada investida, mais líquido da chama descia. Não se importou. Queria ser parte do centro e tanto insistiu que acabou por se alojar naquele imo, mas, percebeu que, nada ali havia vazado. Lá dentro tudo era iridescente e intocável. Então veio a dura constatação: não fora dele o desmanche. E mais ainda; não restava mais nada de si.
 
Anástrofe

A arte da uromancia

 
Sério, sisudo de todo o siso do mundo. O mundo das almas de borracha. Olhar sombrio de carrasco aposentado . Assim foi o meu pai. Olhos que não viam, incandesciam.
Encostado á árvore, leio o destino no rastro de minha urina. Meu I Ching natural.
Líquido e morno, examino sua pequena foto. (É, levo-o prisioneiro, na carteira).
Uma sina escura e tortuosa forma-se ao pé da árvore. Num dia inerte, um olhar ao céu.
Entediado tal cachorrinho de madame .Atrelado ao séquito de sua dona . Flanando pelas ruas de norte a sul . No domingo sem esperanças, entre árvores antigas.
Ei-las, as velhas senhoras. Melancólicas,trôpegas de tédio. Nas suas vidas vazias, a minha vida.
 
A arte da uromancia

Palco

 
o ensaio é longo.
a estreia é curta.

corta a cena,
a vida educa.
 
Palco