Épicos

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares da categoria Épicos

TEINIAGUÁ - a salamandra do carbúnculo.

 
TEINIAGUÁ - a salamandra do carbúnculo.

introito
I

Tantas quantos dias o ano
Tem-se a cantar essas rimas,
Embora as histórias primas
--‘Pós engano e desengano --
Fossem-me já obras-primas...

II

Sem embargo, se te animas
A saber d'estes rincões,
Vou falar aos corações,
Não por merecer estimas
Ou diversas opiniões.

III

Sim pelas nobres razões
E face aos vários humores,
Onde lágrimas e suores
Compensem os seus senões
Como defeitos menores.

IV

Possam fazer bem melhores
E maiores as nossas vidas!
Possam, porque se perdidas
As idades dos louvores,
Só resta a das despedidas...

V

Se há verdades insabidas
E ignorâncias sem tamanho,
Perdoe-me as glosas d'antanho
Quem -- das querências queridas --
Ler as palavras que apanho.

VI

Conquanto pareça estranho
Narrar épica canção
De nossa crioula nação,
Sobre-eleva-se ao tacanho
Seu extremado brasão!

VII

Possam, precisas ou não,
Fazer-te as horas mais ricas,
Do que devendo me ficas:
A princesa e o sacristão
Tu - lendo a lenda - os imbricas.

VIII

Ora espirituosas dicas;
Ora visões opulentas;
Possam as rimas trezentas
Ser panaceia de boticas
Para as almas turbulentas.

IX

Possam, à guisa de ementas
Dispostas no cabeçalho,
Ter no diário trabalho
O apanágio de horas bentas
Contra todo intento falho.

X

Possam -- as rimas que espalho --
Reunir o meu ser disperso.
Desde os confins do Universo
Sobre os pampas onde orvalho
A aurora crioula que eu verso.

XI

Pois, por entendê-la ao inverso
De qualquer filosofia
Que fiz diária a poesia:
Um dia p’ra cada verso;
Um verso p’ra cada dia.


o encontro com Teiniaguá

XII

Sem embargo e todavia,
Principia a antiga lenda .
Em face de grã contenda,
Um gaúcho indo à porfia
A nada e ninguém se renda!

XIII

Mas, por solitária senda,
Cortava os pampas o andante,
Que há anos se fez viajante
Em busca d'haver emenda
Contra seu fado inconstante.

XIV

De facto, ele andava errante
Quando viu a salamandra,
Que por sobre as brasas meandra:
Ornada em rubi faiscante,
Corria arenosa gandra...

XV

À noite, piando a calhandra,
Não vê senão Teiniaguá:
Uma teiú que Anhangá
Fez da princesa malandra
Com toda magia que há.

o carbúnculo

XVI

Andava aqui e acolá
A cingir sua cabeça
O diadema da promessa
D'haver quanto se lhe dá
Àquele que amor confessa.

XVII

Sua situação era essa:
Vê a moura enfeitiçada
-- Em salamandra mudada!... --
Levá-lo na noite espessa
Até d’uma furna a entrada.

XVIII

Lá, ela mantém vigiada
Arcas e mais arcas de ouro
Do incalculável tesouro,
Que enterrara em debandada
Um antigo sultão mouro.

XIX

Por isso, de mau agouro
Conhecem esse lugar
Onde estava a pernoitar
Co’a jovem cujo desdouro
Tantos fora amedrontar.

XX

Contudo, faiscava o olhar...
Face à terrível imagem
Da salamandra em viragem,
Ele deve atravessar
Sete provas de coragem.

XXI

Abrindo logo passagem
No fundo da furna escura
Enxerga humana criatura:
Outro estranho personagem
De muito triste figura.

o diálogo com o Sacristão

XXII

É o sacristão. Procura
Pôr fim àquele feitiço
Que mantém o compromisso
D’um cristão cuja loucura
Furta ao sagrado serviço:

XXIII

--“De facto, foi pelo viço
Da bela que, prisioneira,
Me aprisionara faceira,
Desgraçando à causa d'isso.
Toda a terra missioneira.”.

XXIV

“Pois, então, de tal maneira
A Teiniaguá me enamora,
Que não a esconjuro, embora
Pela moura feiticeira
Deitasse a salvação fora.”

XXV

“Por fim, insana me implora
Tão ardoroso carinho
Em troca do santo vinho
Que nos altares se adora...
Para meu mor descaminho!”.

XXVI

“Flagrado o crime, sozinho
Fora condenado à morte.
Mas, mudando minha sorte,
Gira o céu em torvelinho;
Toda a terra treme forte.”.

XXVII

“Teiniaguá surge do Norte,
Das margens do rio vinda
Mais horripilante ainda,
Que sanguinolenta coorte:
Avassaladora e linda!”.

XXVIII

“Logo a catástrofe finda:
Toda vila vem abaixo
Co’o chão, em forte rebaixo!
Só o silêncio deslinda
A escuridão lá em baixo...”.

XXIX

“Viemos dar n’esse altibaixo
Que é o Cerro de Jarau.
Qual tenebroso sinal
Onde o extraordinário encaixo
D'um meteoro terminal.”.

XXX

“E hoje, em remoto local,
Há tão-somente essa furna
Onde rasteja noturna
Ela, um brilhante animal
E eu, de face taciturna...”.

XXXI

Co'a mirada mais soturna,
Silencia o homem assim.
Na salamandra, um rubim
Faísca por cima da urna
Oferecendo-a, por fim.

XXXII

Dissera ao outro, ainda e enfim:
-- "Se tens o coração puro
Mais o espírito seguro,
Com coragem porás fim
A esse mal em que perduro."

XXXIII

Após, n'aquele antro escuro,
Diz o herói resposta sua:
-- "Ouvi minha avó charrua
Contar esse causo obscuro,
Há anos em clara lua.".

XXXIV

E, encarando-os, continua:
-- "Eu sei quem sois e quem fostes:
Não mais princesas ou priostes.
Não com gente a luta crua,
Sim contra celestes hostes!".

XXXV

“Vistes erguidos os postes
Dos suplícios assassinos...
-- Calaste clarins e sinos,
Teiniaguá, embora arrostes
O entrelaçar dos destinos!... --”

XXXVI

“Portanto, não são mofinos
Meus intentos junto a vós.
Não sou juiz nem algoz
Tampouco, com dedos finos,
Ambiciono ouros após!”

XXXVII

Dito isso, traz n'uma noz
O homem ao jovem sem medo
Um gole de chá azedo
Cala de vez sua voz
E cerra os olhos mais cedo...

XXXVIII

Desacordado mas ledo,
Enquanto jaz semimorto,
Anda com só desconforto
Súbito em denso arvoredo.
Falando n'um transe absorto:

XXXIX

--”Era alma sem corpo. Em torto
Caminhar por mato adentro
Sete vias desde o centro...
Incerto se vivo ou morto,
Só silencio e concentro.”

as espadas ocultas na sombra

XL

“O primeiro caminho entro:
Pirilampejam centelhas
Do choque de espadas velhas.
Tinem de tremer por dentro,
Olhando senão de esguelhas!”

XLI

“Sombras se medem parelhas.
Pelejam d’alfange à palma
Sem que se veja viv’alma...
Roçando-me o aço às orelhas,
Só a promessa me acalma.”.

XLII

“Sigo em frente: Fronte calma
Face ao furor sarraceno.
Nunca jamais me apequeno,
Pois que venha o que vier: ‘Alma
Forte e coração sereno!’”.

a arremetida de jaguares e pumas furiosos

XLIII

“Finda a picada em ameno
Campo sobre amplas coxilhas.
Ciente que só maravilhas
Tudo -- mesmo sob sol pleno! --
Seguindo as seguintes trilhas.”.

XLIV

“Vêm feras feito matilhas
Assomando a mim esconsas:
Pintadas e pardas onças
Igual cercassem novilhas
Ou vacas velhas e sonsas.”.

XLV

“Porém, por razões absconsas
Os jaguaretês em roda
Tão-só balançam a coda
E eriçam pelo às responsas...
Passando, nada incomoda.”.

a dança dos esqueletos

XLVI

“Mudando a paisagem toda
N'um só lampejo instantâneo
Através do subterrâneo
Ando a ver lúgubre moda:
Dança o esqueleto sem crânio!”.

XLVII

“Era um ossário coetâneo
Dos Césares! Catacumba...
Tocam tambor e zabumba
Como se algum sucedâneo
De despachos de macumba.”.

XLVIII

“Antes que também sucumba,
Passo ossadas dançarinas
À luz de vãs lamparinas.
Incólume, deixo a tumba
Vagueando em meio a neblinas.”.


o jogo das línguas de fogo e das águas ferventes

XLIX

“Galgo, após, alvas colinas
E chego a perfeito inferno:
Onde um fogo sempiterno
Em labaredas ferinas
Jorra nas neves do inverno.”.

L

“E frio e calor alterno
Na travessia terrível...
É tremor irreprimível
Em face do horror superno
D’uma dor d’aquele nível!”.

LI

“Murmurava-me inaudível:
‘Alma forte...’ Ou urro cansaço?...
Vapor esguicha no espaço
Junto ao fogo inextinguível,
Enquanto vou passo a passo.”.

a ameaça da boicininga amaldiçoada

LII

“Nova paragem eu passo.
Esta, um deserto sequioso!
Mas aonde ando andrajoso
É semelhante a um regaço
Quando há repouso gostoso.”.

LIII

“Cerca, entretanto, do gozo
Escuto o chocalho cruel:
Boicininga, a cascavel
Me arma um bote perigoso
Com seu sibilado infiel.”

LIV

“Encaro a língua revel
Mais as presas e a peçonha
D’essa criatura bisonha,
Buscando de déu em déu
Outra ventura risonha.”

o convite das donzelas cativas

LV

“Quando me vêm sem-vergonha
Uma após outra as donzelas
Cativas, malgrado belas,
N’um rir que nunca enfadonha
Por prazer tão-só em vê-las.”

LVI

“Tão enternecido d’elas
Junto à sanga de olho d’água
Quis que deixasse de mágoa
Para melhor conhecê-las,
Onde a cachoeira deságua.”.

LVII

“Conquanto me ardesse em frágua,
Mais me contive, perplexo,
Da imaginação sem nexo
Que adivinha a renda à anágua
Cobrindo virginal sexo...”.

o cerco dos anões

LVIII

“Indo para um bosque anexo,
Cercaram-me anões em malta
N’uma valentia incauta
Com tal falar desconexo
Entre animoso e peralta.”.

LIX

“Tentam deter-me na falta
De meios de facto violentos
Com caprichosos aumentos:
Quer volatim; quer pernalta
Vêm, acrobatas, aos centos!”.

LX

“Mas certo de seus intentos
Repito o mote contrito.
Porque já estava escrito
Que mesmo com passos lentos,
Atravessa-se o infinito.”.

o prêmio

LXI

Tudo isso é muito bonito,
Mas aonde irá com tanto?
Sim, fora quebrado o encanto
D'aquele casal maldito
Por um guasca puro e santo.

LXII

Ao despedir-se, entretanto,
Nada aceita para si!
Ruma à vila de Quaraí...
Finda da noz o quebranto
E o sacristão fala ali:

LXIII

-- “Toma a moeda. É para ti.
Lembrança d’essa vitória
Cuja saudosa memória
De quanto vi e vivi
Mereceste em tua glória.”.

LXIV

Ao que responde: -- ”Ilusória
Antes essa vida que segue...
Por mais que isso tudo eu negue,
A Teiniaguá é história!”
Porém guarda a moeda entregue...

LXV

E anos consigo a carregue
Embora amargue miséria!
Como se a nobre matéria
Tivesse azar que persegue
Com força má, deletéria.

o desencantamento

LXVI

Decide gastar qual féria
Em mau negócio de gado.
Esquecendo do passado
Para empreender coisa séria,
Não lembrar atucanado...

LXVII

E aconteceu de ser fado:
A moeda traz outra moeda!
E para si envereda
Todo o rebanho invernado
Em compra rápida e leda.

LXVIII

O outro, contudo, arremeda:
--”Ai-Jesus! É coisa feita!
E não de gente direita..."
Mas o mistério lhe enreda
Fama de vida suspeita.

LXVIX

Diante do caso ele aceita
Volver à só salamanca.
E saúda com voz franca"
O sacristão que lhe aceita,
E bendiz junto a barranca:

LXX

--“A maldição se me arranca
Teu louvado ao Senhor Cristo!”
Tal como fora previsto
-- Ele ameríndio e ela branca --
Formaram um povo misto.

epílogo

LXXI

Ao fim e ao cabo, com isto
Os pais d'essa crioula gente
Um país bem diferente
Lograram-nos por bem-quisto
D’aquele amor transcendente.

LXXII

Resta-nos seguir em frente
Qual soube o guasca fazer
Diante de risco qualquer
Sem temor, ir tão-somente
Pronto p’ro que der e vier...

LXXIII

Assim, se a sorte couber
Todos os desejos teus,
Mesmo perdidos nos breus
Possamos sempre dizer:
--”Mestiços, graças a Deus!”

FOZ DO IGUAÇU - 26 12 2010
 
TEINIAGUÁ - a salamandra do carbúnculo.

Nightmare Before Cristmas

 
a todos um bom Natal com Jack, com Tim ou com o coro Santa Madre de Oeiras...é o que vos desejo! ehehhe! e muito vinho.

enjoy!

http://www.youtube.com/watch?v=Bz2Ho62dVr0
 
Nightmare Before Cristmas

Portugal ao contrário

 
Como se pode começar
Aquilo que já acabou
Como se pode acabar
Aquilo que não começou
Triste fado o fado nosso
O fado de um povo triste
Que nem a rezar pai-nosso
Evita este alegre despiste
O de ser ex-povo poeta
Porque virou nobre pateta

Ó meu querido Portugal
Que me dás o dia inteiro
A possibilidade de funeral
E todos os dias de nevoeiro
De afonsos sem qualquer dom
Sem segundos nem penúltimos
Porque agora sobes o tom
De sermos os primeiros dos últimos
Como cantar então a tua glória
Se só na derrota cantas vitória

Deste destino não me livro
De tanto bruxedo e feitiçaria
Narro-te em trovas de um livro
Porque é negra a tua magia
Desfeito dos teus feitos heróicos
Que te dilataram a fé e o império
Agora um punhado de paranóicos
Armados em heróis a sério
Cambada de panascos importantes
Que além do mais são praticantes

Já não acredito em querer
Que um dia vá acreditar
Na fé desse grande crer
Que me possas salvar
E me faças outra vez de novo
Filho de gente que sente
Gente de gente, gente do povo
Do povo de nação valente
E agora vai pior que mal
Numa estupidez imortal

Onde raio estão nossos irmãos
Para onde fugiram nossos amores
A quem dar as nossas mãos
Num país de desertores
Viraram-se todos ao contrário
Fugindo apressados à realidade
Montados neste triste cenário
Sem esperança na saudade
E do amigo ficou o esboço
Do inimigo a apertar o pescoço

Ó Portugal da mensagem
Já sem rosto de Pessoa
De Camões sem linhagem
Sem Porto e sem Lisboa
Virou fantasma o Viriato
Sebastião um morto-vivo
O teu povo no estrelato
Tua pátria um nado-vivo
E já nem o velho do restelo
Te idolatra como camelo

Foste castelos de tantas quinas
De reis e governantes além-mar
E agora hipotecas as salinas
Porque te esquivas ao teu mar
Foste o senhor de tanta guerra
Em busca do além-mundo
E agora enterras a tua terra
Enterrando o machado bem fundo
Que será de ti ó Portugal
Que só de besta se faz bestial

Reina e impera a estupidez
Governa a avidez e a ganância
E de olhos fechados tu não vês
Que a tua prol é ignorância
Que a votar não vota bem
Que a não votar vota mal
Porque o voto vota alguém
Que não te vota Portugal
São votos brancos, votos de chulos
São tudo votos, votos nulos

Canto-te assim o fim do império
Numa poesia de raiva e dor
Que te prova muito a sério
O tanto de tão pouco amor
E que te vê a desmaiar
Em queda tornada coma
Num hospício a tratar
E à venda na vandôma
A Europa desfigura-te o rosto
E o teu vinho sabe a mosto

Ó Portugal moribundo
A afogar-se à beira-mar
Destes mundos ao mundo
Sem o mundo nada te dar
Vais agora de vento em popa
Rumo à morte com certeza
Das migalhas fazes a sopa
Restos cozidos-à-portuguesa
Eis Portugal ao inverso
Lagutrop do meu verso



JSL
 
Portugal ao contrário

a merda é uma merda

 
que merda esta merda ser merda, é a merda, mais merda que eu já vi.
escorre merda entre a merda desta merda e não há balde de merda que apanhe a merda solta da merda a crescer na boca de merda que a merda tem.
a merda da censura é a maior merda que já nasceu da merda, e nem o cheiro da merda da rosa cheira menos a merda que a merda que a rosa tem.
bolas de merdas a rolar entre merdas de bolas, engatilham merda no merdieiro mor, morto pela merda que só atira no que não é merda.
eu sou a merda da gabrielas e quero a merda de uma desculpa de merda. mas quero.
quero a merda de uma consequência, nem que seja de merda.
mas quero.
 
a merda é uma merda

DONA BLANCA, RAINHA – a mula sem cabeça

 
DONA BLANCA, RAINHA – a mula sem cabeça
introito
I

Embora muitos já tenham
Se dedicado a escrever
Sobre a mula antes mulher...
E outros mais ainda venham
Fazê-lo por mais saber...

II

Talvez tenha algo a dizer
E eu dizendo alguém escreva
Inclusive o que não deva
Sob pena de se esquecer
Alguma moral coeva.

III

Quando se trova na treva,
Eis que o silêncio revela
Diante de íntima procela:
“Da vida nada se leva,
Sequer a memória d’ela…”.

IV

Não leva aquele que vela
Nem mesmo a angústia das preces
Como na incerteza d'esses
Que semeando sem estrela
Perdem o tempo das messes.

V

Sim, vão cuidar de benesses...
Pois, por trás das causas nobres,
Há sempre as causas dos nobres.
Ou melhor, seus interesses...
E arcas cheias d'ouros e cobres!

VI

Se todos, ricos ou pobres,
Vivendo vida ilusória
De que serve querer glória?
Enfim, por quem soam os dobres
Da existência meritória? ...

o desencantado

VII

Fica, de infeliz memória,
O infante que evocarei
Por tudo que sou e sei...
Lembrarão a triste história
Do que chamaram d’El-Rey:

VIII

-- "Fiquem os erros que errei...
Porquês de porque tão triste...
E minha mirada que insiste,
Face àquela que tanto amei,
Mesmo que o tempo já diste."

IX

"Recitem, de dedo em riste,
Os versos duros que cismo
Em balde, defronte ao abismo,
Sobre o bem e o mal que existe
À espera d’um cataclismo."

X

"Entre esse e o próximo sismo,
Preparado para o pior
Seja mais conhecedor
Dos extremos do egoísmo
Nas desventuras do amor."

XI

"Visto que, em face da dor,
Boas razões todos têm,
Um monstro, a sua também
Mesmo que ele cause horror
A vitimar outros cem.."

XII

"Ser gentil quando convém,
Mas cruel de perverso dom,
É ser mau: Mesmo que o tom
Da voz dissimule bem,
Nunca diz nada de bom…"

XIII

"Como o mais horrendo som
Pôde vir d'uns lábios belos?
Meus mais profundos anelos
Malbaratou junto com
Coroa, escudos, castelos..."

XIV

"Desgostos e desmazelos
Têm me corroído a entranha
Desde que a terrível sanha:
Vi no pior dos pesadelos
A mudança crua e estranha..."

a rainha amaldiçoada

XV

Foi n’um dos reinos d’Espanha
Pelas brumas do medievo
Aquando de régio enlevo
Houvera cousa tamanha
Que recordar mal me atrevo:

XVI

Era infante e após, longevo,
O rei que sombrio enfrenta
Essa lembrança violenta
D’onde o remorso malevo
Tantos anos lhe atormenta.

XVII

A consorte fria e cruenta
Às voltas com sortilégios
Nega sempre os beijos régios...
E, entre esquiva e desatenta,
Cuida de seus privilégios.

XVIII

Entretanto, sacrilégios
Perpetrava com loucura
Pela noite mais escura.
À maneira de aquilégios,
Mas sondando sepultura...

XIX

Dia seguinte, ela figura
Pelo castelo, tristonha.
Crendo real quanto sonha,
Em alheamento procura
Dissipar a hora medonha.

XX

Mas não há quem lhe disponha:
--”Findo o riso, mudo o canto!--
Diz ela, queda em quebranto...
Os pingos nos ís se ponha
Face ao terrível encanto.

XXI

--”Por que ainda sofro tanto?
Mais que triste a minha sorte!
Não que alguém aqui se importe,
Mas, ao menos por enquanto,
Para o amor, antes a morte.”

XXII

“Ou então meu tonto consorte!
Rondando-me os olhos vis,
Por mais e mais infeliz…”--
Mantendo seu nobre porte,
Um outro tanto maldiz:

XXIII

“Suporto-lhe ardor e ardis:
Ele exige um beijo, eu nego!
Quer me abraçar? Não me entrego!
Mas cerca-me de imbecis
Sem nunca me dar sossego…”

XXIV

“Sem embargo, quando chego
Ai de mim, ele me segue...
Malgrado mais eu me negue,
Insiste com seu chamego...
Antes fosse amar um jegue!

XXV

“O tonto, ele antes se esfregue
Nos andrajos d’um mendigo,
A tentar deitar comigo!
Vá ao diabo que o carregue
E esse amor leve consigo!”

XXVI

Chegando junto ao jazigo
Onde enterram uma criança…
Tão longa e só sua andança
Que retorna ao hábito antigo
De esperar sem esperança.

XXVII

Logo lhe vem à lembrança
A maldição repetida:
Sétima filha seguida,
Recebe por triste herança
Estranha forma de vida.

XXVIII

Vive de si esquecida
Certa que a qualquer momento
Viverá o encantamento.
Pelo qual desde nascida
Ela espera um livramento.

XXIX

Porém, firma insano intento
Ao lançar mão de magia,
Crédula que o conseguia
Com feitiços ao relento
Nas névoas da noite fria.

XXX

E, assim, prevaleceria
Sobre o mal com um mal maior.
Decidida a fazer pior
Que tudo que se conhecia
Em acto de extremo horror!

XXXI

Evoca com todo ardor
As obscuras potestades,
Cujas imundas vontades
Induziram-na ao terror
Das ocultas realidades.

XXXII

Submissa a tais entidades,
Arvora-se feiticeira
E igual fera carniceira
Ela usa de atrocidades
Nas noites de quinta-feira.

XXXIII

Ultrapassada a fronteira
Entre a luz e a escuridão.
Seu confuso coração
Entrega-se à derradeira
Das obras de perdição.

no soflagrante

XXXIV

Alta noite volta então
À campa do cemitério
Onde, de semblante sério,
Antes, defronte ao caixão
Dera a uma mãe refrigério...

XXXV

A rainha, no seu mistério,
Logo o caixão desenterra
E àquele corpo se aferra!
Devora-o, n'um transe etéreo,
Com todo o mal que isso encerra.

XXXVI

Mas, enlouquecido, berra
O rei, que oculto no breu,
A surpreende já sandeu.
E juntos, caindo por terra,
Se entreolham para horror seu...

XXXVII

Diante do que aconteceu,
Ouviram n’esse instante
Um relincho lancinante!
Algo que nunca se esqueceu
E nem se soube o bastante.

a transformação

XXXVIII

Assim, d’ali sai errante
A semelhante às jumentas:
Solta fogo pelas ventas
Com suspirar ofegante
Em cavalgadas violentas.

XXXIX

Tem o clarão das tormentas
Mas a cabeça invisível…
Que embora pouco plausível,
Corre as estradas poeirentas
Até o intransponível.

XL

Sem embargo, algo terrível
Atravessa horas vazias...
Longas sete freguesias
Galopava a mais temível
Das sós fantasmagorias.

XLI

Para além das fantasias,
Falam do estranho perfil.
Tem sempre quem diz-que viu,
Fazendo más correrias
Pelos sertões do Brasil.

XLII

E pensar que era infantil
O temor d’aquela infanta…
Tentando agir, agiganta
O mal que sempre serviu
Sob sua púrpura manta.

XLIII

Por fim, a mais sacripanta
D’entre todas as pessoas
Por incapaz de obras boas...
Visto que a não desencanta
A récita d’outras loas.

XLIV

Perdendo as duas coroas,
Toda ao mal foi se entregar.
Com noturno cavalgar,
Deixa Madris e Lisboas
Para distante lugar.

XLV

Nos confins onde foi dar
A acreditam concubina
D’algum padre cuja sina
É os sertões assombrar
Até à luz matutina.

XVLI

Noite após noite, a mofina
Relinchava umas mil vezes!
Perpetrando estupidezes,
Colina atrás de colina,
Ia espalhar longe as reses.

XVLII

Desaparece por meses
Mas volta sempre, certinha,
Quando novembro avizinha.
Qual dizem nos entremezes:
“Anda solta uma burrinha…”

os sertanejos

XVLIII

Mas aquela terra tinha,
Gente audaz e valorosa.
Ouvindo essa antiga prosa
Decide lhe ir, fosse ex-rainha
Ou mesmo de padre esposa.

XLIX

Esperto que nem raposa
É de todos conhecido...
Tão sábio quanto sabido,
Um sertanejo que goza
Da fama de destemido.

L

Diz-que é facto vero e havido
Que sangrando o lobisomem
Ele tornava a ser homem
Como não tivesse sido
Animal que jamais domem:

fanfarronadas

LI

-- "Ainda que grande o tomem
É coisa bem admirável
Que deixe de ser intocável
Enquanto bebem ou comem
Ficando assim vulnerável."

LII

"E de modo comparável
Também esse burro acéfalo,
Como Alexandre ao Bucéfalo,
Eu montarei memorável
Co'a força apenas do encéfalo!"

LIII

"Não é nenhum heptacéfalo...
Ao contrário, p'ra matança
Sem a cabeça se lança!
Caçam-no que nem alcélafo:
Na galopeira se cansa...

LIV

Se lhe sangrar, logo amansa!"
-- Diz, todo metido à rábula
E deitou a contar fábula
Dos doze pares de França
Aos cavaleiros da tábula...

LV

Com tanta conversa pábula
E extrema fanfarronice,
Narrava um disse-me-disse,
Descrevendo outra parábola
À beira já da sandice...

LVI

Quem por acaso o assistisse
Ali, na praça da igreja,
Irrefreável já deseja
Deixar a pacata mesmice
E ir aonde a mula esteja.

o entrevero

LVII

E se assim for, assim seja:
Foram em rancho ao contacto
Onde, de vera e de facto,
Mula sem cabeça veja,
Encarando-a estupefacto.

LVIII

Diante da grandeza do acto,
Toda a alimária da tropa
Bem ajaezada galopa
Para destino inexacto,
Quando com rastro se topa...

LIX

Estava ali sob a copa
De paineira barriguda:
A marca profunda e aguda
D’um coice dado à cachopa
Cortando moita de arruda.

LX

O mistério se desnuda
Logo que a escuridão cai:
Alto relincho lhe trai
E em trote forte a cascuda
Das brenhas da mata sai.

LXI

Cerca e grita: --”Avançai!”--
Se aproximando de roda
Aquela gentalha toda,
De lanças em punho, vai
Lhe cutucar sua coda.

LXII

Um, uma embira enoda,
Outra laçada tentando...
Muito se admiraram quando
O laço fechou em roda
Quase o pescoço enforcando.

LXIII

"Tem cabeça!"-- Saem gritando --
"A gente apenas não vê! ..."
De facto, isso foi mercê
Àquele rosto nefando
Que amaldiçoado se crê.

LXIV

Logo entenderam porquê:
Vendo em seu rosto a desgraça,
Essa maldição se passa...
N'um olhar que acaso dê
A mula que ali se caça.

LXV

Assim, a embira que a enlaça
Faz com que enfim apareça
A sua horrível cabeça
Cujo olhar feroz de ameaça
Os faz recuar bem depressa.

LXVI

Porém, lembrando a promessa
Que o sangue finda o feitiço,
Outro lhe finca o roliço
E corre a sangria espessa
Pondo fim ao rebuliço.

LXVII

Pouco depois de tudo isso
Viram arfar o animal
Que de modo espiritual.
Como mulher cheia de viço
Torna à forma original.

LXVIII

D'uma beleza sem igual
E ultramarina mirada
Não tem lembrança de nada
Esquecida já do mal
E da vida enfeitiçada.

epílogo

LXIX

Cumprida toda jornada
Resta, portanto e por fim,
Concluir, de mim para mim
Toda uma vida passada
Entre horas tristes assim.

LXX

De horas bem tristes sim,
Cuja graça é esquecer...
Exacto por não saber
Aonde que chega, enfim,
Quem nunca soube viver.

LXXI

Tomar tenência é mister
Antes que se acabe o mundo...
Porque a existência, no fundo,
É poesia a se escrever
De dentro d’um eu-profundo.

LXXII

Pois todo o verso é oriundo
Dos sonhos de não dormir.
Possa eu saber no porvir
Não me angustiar pelo imundo,
Malgrado o entenda existir.

LXXIII

Possa algum bem d'isso vir
E seja capaz da dor
Quem, contudo, sonhador
Observava a noite cair,
Após o sol ir se pôr.

Belo Horizonte - 05 05 2011
 
DONA BLANCA, RAINHA – a mula sem cabeça

PACHA MAMA - a mãe Terra

 
PACHA MAMA – a mãe Terra

introito
I
Pelas terras do Peru
Ouvi cantos de ternura
D'uma gente que procura
Com sentimento nu
Acarinhar a Natura.

II
Tem por milenar cultura
Saciar a fome que clama:
Para cada verde rama
A Terra, sã sepultura,
Seu alimento reclama.

III
Ai ai ai ai, Pacha Mama!
Cerca d'esta encruzilhada
Começa a longa jornada
Rumo a terra cuja fama
Desde os Incas recordada.

IV
A terra onde é celebrada
A Pacha Mama, a mãe Terra!
Onde na paz ou na guerra
Antes de seguir estrada
Dons n'uma cova se enterra.

V
Quem de longe se desterra
Deixa à Terra como prenda:
Oferta ao início da senda
Que serpenteia pela Serra
Até chegar onde entenda.

invocação a Pacha Mama
VI
-- "Recebe, oh Mãe, a oferenda
Que em minhas mãos te consagro:
Coca, yicta, vinho e pão magro!
E que cada humano aprenda
Em cada grão um milagro!..."

VII
"Corre nas chuvas o almagro
-- Sangue da terra p'lo chão --
Fertilizando o rincão
Onde só a lhama e o onagro
Têm conosco habitação."

VIII
"Traz ao nosso coração
A abundância do altiplano!
E faz alegre o paisano
Que em teus filhos um irmão
Mire eu sem qualquer engano "

IX
"Urge um amor soberano
D'entre teu ventre materno,
Que vença as neves do inverno
E renove, ano após ano,
Da vida seu ciclo eterno."

lamento cusquenho
X
"Quem fez o quéchua tão terno,
Os homens fez mais risonhos.
Nos cerros frios, os sonhos
Têm dado aos poetas governo
Mesmo que em tempos bisonhos...

XI
Assim escrevem tardonhos
Com versos de nostalgia
Tanta e tão vária alegria
Que mesmo uns olhos tristonhos
Logram enxergar fantasia.

XII
Com as lentes da poesia
Mundos d'aquém e d'além
Indistintos eles veem
A festejar noite e dia
Nas horas de Deus-amém!

XIII
Como nos Andes convém,
Eu mascava yicta com coca
Face à voluta barroca
Que alta arquitrave sustém
E a luz de antigos evoca.

XIV
Flautas na ruas se toca
Pela cidade de Cusco...
São melodias que busco
Aos versos de minha boca,
Nas sombras do lusco-fusco.

XV
Têm um compassado brusco
Havido com arte e engenho,
Que enchem o ar onde desdenho
O espírito tão patusco
D'esse lamento cusquenho.

na trilha dos Incas
XVI
-- "Alto voa! Alma que tenho,
Como os volteios do condor!
Voa mais que o cerro maior
Até terras d'onde venho
Onde deixei vida e amor."

XVII
"Onde deixei o melhor
Que tenho dentro de mim...
Só e inopinado eu vim
Às alturas em redor
A me exigir outro fim.

XVIII
"Vós-outros que amais enfim
Os cantos que antanho fiz,
Ouvi este que vos diz
Das mazelas do confim
Por um dia mais feliz."

XIX
"Perdoai se parecem vis
Ou obscuros estes meus cantos
Que me guiem vossos pés santos
Pelas alturas do país
Aos mais remotos recantos."

XX
"Para andar tantos encantos
Nas trilhas da Cordilheira
Convém, de qualquer maneira,
Antes rezar acalantos
À sombra d'uma figueira"...

XXI
"Do altiplano alta fronteira,
As serranias nevadas
Se estendem pelas estradas
Subindo íngreme ladeira
Através de frias geadas."

XXII
"Junto a profundas quebradas
Anda quem de Cusco sai
E a Machu Pichu se vai
Para dos Incas pegadas
Seguir seja filho ou pai."

XXIII
"Àquele que anda não trai
Pacha Mama, muito embora
Os perigos de cada hora
Ou da névoa que ali cai
E ao caminheiro apavora."

XXIV
"Quase ancestral eis-me agora,
Religado à Terra e ao Céu.
Enquanto do cerro o véu
Logo dissipava a aurora
Que me acompanha o tropel."

XXV
"Paro para no papel
Pôr este caminho em versos,
Recolhendo-me os dispersos
Cantares tidos ao léu
N'este e n'outros universos!"

XXVI
"Lá, era como se imersos
Eu e Deus pela neblina
A ver a que se destina
A vida ainda que inversos
Os dons por sobre a colina."

XXVII
"Deitado em verde campina.
Contemplo o céu mais azul
Que na América do Sul
Se revela após chuva fina
E de chafurdar n'um paul..."

XXVIII
"Lá, no folguedo tribul,
Bailando o Carnavalito
De Pacha Mama o bom rito
Com veste alegre e taful
Celebram para o Infinito."

carnavalito da quebrada
XXIX
O canto humahuaquenhito
Ecoa pelo penhasco!
Festeja esse povo o fiasco
Da morte no alegre grito
Que afasta o olhar do carrasco.

XXX
Assam cordeiros, churrasco,
E se embebedam de chicha.
Lembram do Caludo a rixa
Enquanto com bromas e asco
Desenterravam a bicha!

XXXI
Sem embargo, se azevicha
O boneco d'este diabo
Sempre mais sujo no rabo...
Rastejante lagartixa
Fingindo-se bicho brabo!

XXXII
Enterram, ao fim e ao cabo,
Chamando a celebração
"Domingo de Tentação",
Quando qual cova de nabo
D'ele fazem a doação:

XXXIII
À Pacha Mama enfim dão
No boneco do Caludo
A oferenda e, sobretudo,
Rogam por volver então
Ano que vem a este entrudo.

XXXIV
Bailam e bebem. Contudo,
Alimentam a mãe Terra:
Na cova também se enterra
Da festa um pouco de tudo
E da alegria algo encerra...

grileiros, garimpeiros e ladrões
XXXV
Mas na quebrada da serra
Os ecos d’aquela festa
Vêm aos povos da floresta
Com alaridos de guerra
Contra outra gente molesta.

XXXVI
A derrubar quanto resta,
Da sul-ocidental Hileia...
Na insustentável ideia
Que quase ninguém contesta
Desde a invasão européia.

XXXVII
Uma infeliz verborreia
Que exaltando o Capital
Acima de bem e mal
Como se entidade ateia
De religião racional.

XXXVIII
Onde uma piramidal
Sociedade se sustenta
D'essa riqueza nojenta
Mas inútil se, afinal,
Jamais a todos contenta.

XXXIX
Ao contrário, se apresenta
Como extrema rapinagem,
Que exaure toda a paisagem
E com fúria ultraviolenta
As matas viram pastagem.

XL
Os tesouros da pilhagem
Levam embora deixando
Só miséria e doença quando
O solo exposto à grilagem
Maninho fica esperando...

XLI
Após a floresta arrancando
Seca após seca castiga
A terra que agora abriga
O vazio mais nefando
No lugar da selva antiga.

XLII
Como se fosse inimiga
De tudo o que é bom e belo
Gente que vem no atropelo
Tem co’a Terra eterna briga
D’ela sendo o pior flagelo.

XLIII
Hoje, eu ainda desvelo
Sobre os versos que componho
Quando da fortuna o sonho
Fez terrível pesadelo
E este deserto medonho...

XLIV
Eu ergo os olhos, tristonho,
E contemplo ressequida
A terra antes cheia de vida.
Mas com Pacha Mama sonho,
Rogando alguma saída.

XLV
Se dos Andes a subida
A imaginação transporta
É porque na terra morta
Onde habito está perdida
Toda a luz que me conforta.

XLVI
E tudo que ainda importa
É reduzido a dinheiro...
Teme-se que o mundo inteiro
Por esta via tão torta
Deixe a todos sem sendeiro.

XLVII
E que o valor verdadeiro
Que têm as coisas para o homem
Se veja só quando somem:
Águas que havia de primeiro
Os sóis faiscantes consomem...

XLVIII
Por isso da Terra o abdômen
Ora faminto e sedento
Não gera mais o rebento
Tampouco folhas que tomem
Mais humidade ao relento.

XLIX
Por sob asfalto e cimento
Pacha Mama jaz inerte...
Ainda que em vão eu oferte
Sementes, versos e alento
Talvez o mal não conserte.

L
Rogo a que logo desperte
Após a estação das águas.
E cure todas as mágoas
Por tanta busca solerte
Em tão ardorosas fráguas:

clamor das terras baixas
LI
--“Com novos dosséis e anáguas,
Vem revestir de arvoredos
De novo os planaltos ledos
E o baixio onde deságuas
Os rios com seus segredos.”

LII
“Vem nos livrar d’estes medos
Que têm nos amargurado
Ao buscar do modo errado
De Deus meros arremedos
Em barras de ouro moldado.”

LIII
“Vem lavar tanto pecado
Contra todas as criaturas
E torna de novo puras
Como foram no passado
As almas que tu seguras.”

LIV
“Vem, Pacha Mama, por juras
De novas preces humanas
Trazer a estas terras planas
O mesmo amor que perduras
Nas terras altas peruanas.”

seca na Amazônia sul-ocidental
LV
Estradas interioranas
Seguindo sertões por rumo,
Muitas colunas de fumo
De queimadas nas savanas
Se elevam aos céus sem prumo.

LVI
E depois, calcinado o humo
Só tocos e cupinzais...
Mais pastos, cercas, currais
E lenhas para o consumo
De carvoarias demais!

LVII
Lá, de Pacha Mama os ais
Se escuta por toda a parte...
Onde a terra se reparte
Sobre antigos seringais
Sem que a mão do homem se farte!...

LVIII
Lá, sem beleza e sem arte,
Léguas e léguas cinzentas...
Que d'estas vilas poeirentas
Esconde o céu e, destarte,
A lua e as estrelas lentas...

LIX
Entardeceres magentas
Reluzindo mil fogueiras...
Ardem florestas inteiras
E queimam ultraviolentas
Sumaúmas, castanheiras!

LX
Nada resta das jaqueiras;
Tampouco jacarandás...
Apenas pastagens más
E colonhões nas ladeiras
Com boiadas pastando atrás.

LXI
Do inferno o calor que faz!...
Sem a humidade da mata,
O fogo incêndios desata
E só mais tristeza traz
Enquanto tudo desmata.

LXII
Sobre gente tão ingrata,
Pacha Mama não sorri...
Pois nada mais cresce ali
E a chuva, pouca e sem data,
Como antes nunca mais vi...

LXIII
Tantas terras conheci
Pelo Brasil iguais a esta...
Terras onde alta floresta
A ferro e fogo perdi
Nem pasto ralo ali presta.

LXIV
Ao solo o sol tanto cresta,
Que mais ninguém a semear!
Grandes roças por plantar
A pouca água que nos resta
Vão nos açudes tirar.

LXV
Se a vida não tem lugar,
Pacha Mama silencia...
Resta uma terra baldia
E os homens a penar
Sua existência vazia.

epílogo
LXVI
"Oh doce Mãe, tu que um dia
Nos geraste de teu barro,
Recebe este humilde jarro
Como oferta de alegria;
D'esperança a que me agarro."

LXVII
"Este é um tempo bizarro
No qual de tudo se explora.
A imagem à mente apavora...
Soluço, solto um pigarro
E escondo um rosto que chora."

LXVIII
"As águas se vão embora
Porque tu, Mãe, te ressentes
D'estas matas florescentes
Que tu já não vês agora
Pois das planícies ausentes.”

LXIX
"Mãe, guarda as tuas sementes
Como um tesouro oculto
Até que esse povo estulto
Se liberte das correntes
Em meio a eterno tumulto.”

LXX
“Mãe, que em teu ventre sepulto
Esteja a árvore futura
Até que cresça segura
Sem mais o molesto insulto
Que hoje tanto lhe figura.”

LXXI
“Recebe, Mãe, com ternura
Esta confusa oração,
Feita de só comoção
Diante de tanta amargura
Que me sangra o coração.”

LXXII
“Mãe, abençoa este chão
Com folhas, flores e frutos.
E no labor dos produtos
Dá-nos, Mãe, o teu perdão
Aos olhos de novo enxutos.”

LXXIII
“E que enfim os usufrutos
Que fazemos de ti, Terra,
Guardem a vida que encerra
Teus desejos resolutos
Pelas quebradas da serra.”

Belo Horizonte – 19 09 2016
 
PACHA MAMA - a mãe Terra

Incompreensão

 
Ultimamente comecei a trumbicar: balanço pra frente e caio para trás. Hoje dei até uma giradinha na malemolência ; o distinto, sempre colado a mim, segurou-me pelo braço. Minha filha assistiu a cena e perguntou nervosa:
– O que foi? O que foi?
O distinto respondeu com desprezo:
– Ela deu pra isso, agora!
Resolveram que eu devia deitar (detesto!) e lá fiquei eu esticada em minha cama, pensando na vida. Minha filha, carinhosamente, sentou-se ao meu lado e perguntou
– O que está sentindo, mãinha? Está triste?
Daí eu, compungidamente, suspirei e afirmei:
– Estou pensando nas coisas que eu não tenho mais...
– Credo, mamãe!
– É sim! Depois que vim para Aracajú, não tenho mais (e comecei a contar nos dedos) – não tenho mais enxaqueca, não tenho mais falta de ar, não tenho mais dores reumáticas e não tenho mais que pintar os cabelos porque o distinto jura que eu estou linda de cabecinha branca e eu acredito nele – meu amor jamais mentiu e não há de ser agora que comecemos a nos enganar.
Tudo isto melhorou a vida. É uma delícia quando dançamos juntinhos ou, lembrando o velho swing, damos uns passinhos maneirosos.
– Mamãe! – disse minha filha, rubra, quase apoplética – quando você quiser dar um show completo, reúna a família toda, ouviu? Tremelique, bambeie pra todo mundo, porque, pra mim – CHEGA! – e saiu, batendo a porta.
 
Incompreensão

Francisco e Victória

 
I

Vou contar sobre dois jovens,
Na escola começa a história,
Quando no início do ano,
Francisco conhece Victória.

Naquela sala de aula,
Ele conhece seu amor,
Sem imaginar o destino,
Ele segue sem temor.

Victória teve surpresas,
Fazia tempo que não amava,
E na sala conheceu Francisco,
Ela nunca imaginava.

Ela foi muito simpática,
Já Francisco era mais frio,
Mas logo amoleceu,
Logo também sorriu.

Apavorado ficou Francisco,
Olhou, sonhou e imaginou,
Depois de a aula acabar,
O jovem então pensou:

“Tanta beleza num só corpo,
Como pode ela existir?
Que moça maravilhosa,
Não consigo resistir!”

“Que morena agradável,
Que sorriso mais brilhante!
Seu perfume é muito doce,
Seus olhos são diamante!”

Com algo ele não contava,
Algo que ele não sabia,
Quando Victória o conheceu,
Seu coração forte batia.

Francisco dormiu pensando,
Sonhou com a bela moça,
Com sua boca de morango,
Com sua pele feita de louça.

Victória ao mesmo tempo,
Dormir ela não conseguia,
Enquanto a paixão brotava,
Em seu diário ela escrevia:

“Conheci um belo jovem,
Acho que estou amando,
Ele é alguém diferente,
Já estou me acostumando.”

“Ninguém pode ter noção,
Do tamanho desse encanto,
Quando olho nos olhos dele,
Meus problemas na hora espanto!”

Sonharam um com o outro,
Naquela noite sem calor,
Imaginavam ambos no paraíso,
Compartilhando um forte amor.

No segundo dia de aula,
A situação então melhorou,
Victória teve coragem,
E a Francisco acenou.

Era o início de toda história,
De tudo que aconteceu,
Agora os dois estão presos,
No futuro que Deus escolheu.

Os dois conversaram então,
O recreio juntos passaram,
Perguntaram sobre a escola,
Sobre a vida dos dois falaram.

Com o tempo tudo aumentou,
O amor então nasceu,
Os dois se apaixonaram,
Foi assim que aconteceu.

Mas tinha um grande problema,
Algo para atrapalhar,
Nenhum tinha coragem,
De o amor então confessar.

Ambos com o mesmo problema,
Pensaram em se declarar,
Mas o maior medo dos dois,
Era fazer tudo desabar.

Esse foi só o começo,
De Francisco e Victória,
Mas logo contarei mais,
Depois continuo a história.

II

O tempo foi passando,
E eles apaixonados,
Sem um saber do outro,
Os dois ficaram parados.

Esqueceram então a paixão,
Que foi ficando de lado,
Guardaram tudo em segredo,
Pra ninguém sair machucado.

Amigos então se tornaram,
Com medo de a relação destruir,
Os dois se acertavam muito,
Não podiam se iludir.

A paixão que eles sentiam,
Ambos tentaram ocultar,
Como amigos se amariam,
Mas a si mesmo não pode enganar.

Então os dois foram amigos,
Gostavam de se homenagear,
Então do nada Francisco,
Começava a ela falar:

- Conheço uma linda dama,
É uma menina tão bela,
É morena e delicada,
Victória é o nome dela!

- Essa mesma bela jovem,
Para meus defeitos não liga,
Pois acima de todas as coisas,
Ela é minha a amiga!

Quando Francisco falava assim,
Victória ficava se preparando,
Quando ele acabava,
Ela chegava recitando:

- Francisco, meu querido,
Com quatorze anos te conheci,
E depois desses momentos,
Nunca mais te esqueci!

- Para sempre te amarei,
Com você não falta nada,
Você sempre me completa,
E me sinto muito amada!

Mas depois de alguns meses,
A paixão foi esquecida,
Ela ainda existia,
Mas não era percebida.

Victória de vez em quando,
Algum namorado arrumava,
Mas sempre durava pouco,
E o Francisco já não gostava.

Às vezes ela gostava de algum,
E para Francisco contava,
Ela perguntava – O que acha?
Então em voz alta ele falava:

- Vamos ver então a foto,
Esse é teu namorado?
Eu não gosto desse cara,
Muito menos do penteado!

- Olha a cara de malandro,
Deve ser um sem-vergonha,
É um grande ignorante,
Que escolha tão medonha!

- Imagina esse sujeito,
Nem estudo deve ter,
E acima de todas as coisas,
As roupas dele devem feder.

Ele dizia de tudo,
Chamava o cara de estrume,
Dizia que era pro bem,
Mas na verdade tinha ciúme.

Victória ficava brava,
Chamava-o de bobão,
Mas no fundo ela sabia,
Que ele tinha razão.

Francisco por sua vez,
Muito também se enganava,
Achava alguma menina,
E dizia que já amava,

Victória ficava sabendo,
E logo já se endoidava,
Então em tom de briga,
Ao Francisco ela falava:

- Essa vaca não vale nada,
Espere um pouco pra ver,
Ela é uma gaveta,
Você deve reconhecer!

- Não faça papel de tolo,
Ela não está te merecendo,
Ela é uma traíra,
E sua cabeça está fazendo!

Assim como os de Victória,
Os namoros dele não duravam,
Mas ambos eram tolos,
Isso eles nunca negavam.

Não importa o que acontecia,
Ficavam juntos depois,
Se amando continuavam,
Era lindo o amor dos dois.

Francisco e Victória,
Acabavam sempre ligados,
Dizendo que eram amigos,
Mas no fundo apaixonados.

III

Eles se amavam muito,
Era algo fenomenal,
Mas às vezes brigavam,
E ficavam um tempo de mal.

Ambos eram sensíveis
Bastava um mal entendido,
Bastava uma briguinha,
Para um sentir-se ferido.

Não era nem implicância,
Faziam isso sem querer,
Apenas os dois tinham medo,
De pra sempre o outro perder.

Quando Francisco saía falando,
Algo que ela não gostava,
Victória então ouvia,
E apontando o dedo gritava:

- Por que é assim tão bobo?
Você é um cara tão chato,
Prometo pra ti Francisco,
Um dia ainda te mato!

- Nada é o que você vale,
Não agüento mais te ouvir,
Para de falar besteiras,
Ou da sua vida eu vou partir!

Francisco ouvia tudo,
Os braços já ia cruzando,
Esperava ela acabar,
Depois dizia exclamando:

- Não me importo com você,
Cansei de te ouvir reclamar,
Se é assim que tem que ser,
Eu nunca mais vou te amar!

- Eu estava contigo brincando,
E você já se ofendeu,
Fez tempestade em copo d’água,
Você nunca me entendeu!

Os dois ficavam com raiva,
Se olhavam como animais,
Então Victória dizia:
- Não me olhe nos olhos mais!

Cada um seguia seu rumo,
Com o coração em pedaços,
Pedindo a Deus do céu:
“Refaça os nossos laços!”

Os dois ficavam acabados,
Mas nunca se entregavam,
Diziam – Eu estou bem!
E que nunca se importavam.

Francisco chorava muito,
Erguia ao céu a mão,
Ajoelhado em sua cama,
Pedia ao pai então:

“Se um dia eu pequei,
Meu Deus, então me castigue!
Mas por favor, eu imploro,
Victória de mim não tire!”

“Eu amo tanto a menina,
Não deixe isso acontecer,
Minha vida sem seu carinho,
É como o sol escurecer!”

Em outro canto da cidade,
Victória também chorava,
Com o travesseiro no rosto,
Sozinha ela pensava:

“Não sei como será agora,
Viver sem meu grande amor,
Sem ele não sou feliz,
Sem ele só sinto dor!”

“Esteja onde estiver,
Francisco escute minha voz,
Eu te amo e te amarei,
E quero o melhor pra nós!”

Então passavam os dias,
A situação continuava,
Só dor e muito choro,
Até que um dia tudo voltava.

Os dois se encontravam então,
Simplesmente se abraçavam,
O sol voltava a brilhar,
Passarinhos de novo contavam.

Os dois de novo amigos,
A alegria retornava,
Depois de um forte abraço,
Victória então falava:

- Francisco meu querido,
Que bom que tudo melhorou,
Com esse abraço apertado,
Minha vida feliz voltou!

- Não vivo mais sem você,
Perdão se contigo briguei,
Mas saiba que acima de tudo,
Eu sempre, sempre te amei!

Francisco ouvia tudo,
Depois o mesmo fazia,
E com sorriso no rosto,
Ele alegre logo dizia:

- Não se preocupe Victória,
Eu também muito errei,
Então por favor, perdoe-me,
Se contigo um dia briguei!

- Escute com atenção,
Eu sei que você sentiu dor,
Victória não mais te largo,
Tu és o meu grande amor!

Depois desses episódios,
Toda a alegria retornava,
O amor que um dia existiu,
Agora em dobro estava.

Por anos então foi assim,
O amor só aumentava,
E a paixão sempre existiu,
Mas pra si cada um guardava.

IV

Os amigos de Francisco,
Diziam que ele devia,
Falar sobre a paixão,
Dizer tudo que queria.

Mas ele nunca fez isso,
Pra depois ele deixava,
O tempo ia passando,
E Francisco nunca falava.

A garota também não fazia,
A paixão nunca entregava,
Nenhum dava iniciativa,
Por isso nada mudava.

O tempo logo acelerou,
O amor sempre aumentando,
Francisco e Victória,
Sempre juntos andando.

Passou então cinco anos,
Os jovens logo cresceram,
Francisco e Victória,
Agora amadureceram.

Brigavam e se acertavam,
Sempre assim iam levando,
Mas uma coisa era certa,
No final estavam se amando.

Agora com dezenove,
Tudo continuava em paz,
Victória uma bela moça,
Francisco um grande rapaz.

Depois de todo esse tempo,
Os dois continuam a amar,
Então Francisco pensou:
“Eu devo me declarar!”

Victória ficou mais linda,
Agora uma mulher,
Francisco apaixonado,
Ela é tudo que ele quer.

Ele observava a menina,
Fundo nos olhos olhava,
Ele sentia a paixão,
Que aquele olhar expressava.

Como poderia ser,
Francisco imaginava,
Sorrindo e a ela olhando,
Ele sozinho pensava:

“Que cabelos magníficos,
Parece uma sereia,
Imagina eu e ela,
Passeando juntos na Areia!”

“Que corpo escultural,
Que curvas maravilhosas,
Você é morena linda,
A pessoa que darei rosas!”

“Garota te amo tanto,
Venha ser feliz comigo,
Seja a minha mulher,
Não quero ser só seu amigo!”

Coisas lindas todos os dias,
Victória também imaginava,
Encarando o belo Francisco,
A garota logo pensava:

“Homem da minha vida,
Eu sei que me amas também,
Eu quero você só pra mim,
Eu quero ser sua, meu bem!”

“Francisco, meu doce Francisco,
Venha sentir meu sabor,
Entrego-me de corpo e alma,
Eu sou sua, meu amor”

Assim passavam o tempo,
Até que Francisco pensou,
Então depois vou contar,
O plano que ele bolou.

V

Francisco criou coragem
Então resolveu contar,
E agora como fazer?
Eles precisam se encontrar.

Francisco falou com ela:
- Victória quer me encontrar?
Vamos tomar um Sorvete,
E uma coisa quero falar.

Ela logo aceitou,
Combinaram como seria,
Na terça-feira de tarde,
Na praça da sorveteria.

Francisco ficou feliz,
A Deus logo agradeceu,
Comprou um botão de rosa,
E um cartão ele escreveu:

“Victória,vou te contar,
Sempre fui teu amigo,
Eu sempre escondi a paixão,
Mas agora não mais consigo!”

“Agora amor eu te peço,
Te peço, minha amada...
Victória você aceita,
Ser minha namorada?”

Ela também muito pensou,
Desenhou um coração,
Logo que fez recortou,
E dele fez um cartão.

Nenhum sabia que o outro,
Pretendia se declarar,
Ambos se prepararam,
Para tudo ao amor falar.

Chegou então o dia,
Francisco se perfumou,
Colocou uma bela roupa,
E o cabelo penteou.

Victória passou batom,
Colocou um lindo vestido,
E usou também o perfume,
Por Francisco preferido.

Francisco saiu mais cedo,
Esperou sentado à praça,
Ensaiando sua fala,
Enquanto o tempo passa.

Avistou então Victória,
Que vinha lá na calçada,
Francisco então levantou,
Pra esperar a sua amada.

Victória enxergou Francisco,
Logo saiu correndo,
Pensando em seu amor,
Um erro foi cometendo.

Um veículo vinha de longe,
Este vinha correndo,
Francisco se apavorou,
Ao ver nela o carro batendo.

A batida foi muito forte,
O motorista na hora fugiu,
E vendo tudo embaçado,
Victória no chão caiu.

Quando Francisco viu tudo,
Viu a moça ensangüentada,
Logo saiu correndo,
Em direção a sua amada.

Chegando perto da moça,
A mesma quase morrendo,
Ele com os olhos molhados,
Ela foi logo dizendo:

- Meu amor, seja rápido,
Meu tempo está acabando,
Diga tudo duma vez,
Pois Deus está me chamando!

- Victória eu te amo,
Sempre fui apaixonado,
Desde o primeiro olhar,
Sonhei em ser seu namorado!

- Victória, minha deusa,
Eternamente te amarei,
Vou seguir a minha vida,
Mas fiel a ti serei!

Victória estava fraca,
Seu sangue escorrendo no chão,
Devagar pediu a Francisco:
- Segure a minha mão!

- Francisco agora te deixo,
Perdoe-me doce amor,
Agora tenho que ir,
Não esqueças do meu calor!

- Francisco te digo adeus,
Perdão se um dia falhei,
Um dia vais me encontrar,
Saibas que sempre te amei!

Aos poucos os olhos dela,
Foram pra sempre fechando,
A última coisa que viu,
Foi Francisco por ela chorando.

Sua mão perdia as forças,
Aos poucos enfraquecendo,
Soltando a mão de seu amado,
E seu corpo adormecendo.

Parava os movimentos,
De seus dedos e do seu ventre,
Então a partir de agora,
Victória dormiu pra sempre.

Francisco olhou pro céu,
Seu coração estava a pular,
Chorando como criança,
Começou então a falar:

- Deus, meu Deus do céu,
Por que estás me castigando?
Levaste minha amada,
E me deixaste aqui chorando!

- Victória, minha vida,
Não posso me acostumar,
Quando tudo estiver ruim,
Não tenho você para me acalmar!

- Victória, meu amor,
Tiraram você de mim,
Agora há pouco estava viva,
Por que tem que ser assim?

- Adeus minha morena,
Aqui termina nossa história,
Adeus meu eterno amor,
Adeus doce Victória!
 
Francisco e Victória

crónica de um dia repetitivo

 
deixei o teu nome deitado quando preguiçoso e dolente me ergui ao dia...

na lembrança dançava um desordenado compasso quando olhei o espelho e este me sorriu com face provocatória de desdem ...

bocejei a saudade de ontem, guardei uma lágrima como recordação daquelas que não verti na despedida da conveniência...

faço a barba, tomo um duche, espartilho-me na roupa mais prática que não faz de mim aquele tipo que elas gostam de ver...

...engulo o comprimido e penso no coração que, tão subcarregado de asneiras, já não tem espaço para mais afectos.

agora moram nele dois "parafusos" que ajudam a circulação dos sentimentos que me correm o corpo...

eis-me pronto no disfarce contranatura do homem que nasceu nu e nu despe preconceitos do "parece mal"...

saio de casa, sincopo passos, dou bons dias e caminho rumo ao destino...

estou bem disposto, mas ràpidamente fico melancólico com tantas árvores que vejo despidas e tantas folhas que piso no caminhar...

diria que piso a esperança da primavera passada e desprezo o castanho amarelado desta tela da natureza...

sigo em frente, entro na estação do combóio, a menina de todos-os-dias-à-mesma-hora, olha sorri e cumprimenta-me.

retribuo e vejo como vem bonita na sua ultra mini saia que mostra bem acima as suas pernas torneadas-

desenho mais perfeito...não há.

avanço com o olhar mas a neblina não me deixa ir longe.

fico aquém da minha ambição, apesar de continuar a esgotar-me em mil e uma fisionomias que olho na dispersão da procura.

finalmente o combóio.

lotadissimo, como sempre.

espalmo-me contra a moça da perna longa e saia curta.

peço desculpa,mas...tem de ser.

ela compreende e aceita. compreende, aceita? fico na duvida, mas não faço nada que não deva.

bafos e bafos de respiração jogam contra a minha colónia rotineira.

suo, farto-me, mas o destino chega, finalmente...

saio do combóio, entro na rolante e deslizo até aos confins do metro.

aqui, a fila é enormérrima. que fazer?

alinho na militarização composta dos utentes em parada.

estamos todos perfilados numa continência imaginária, só nos falta a farda ou a sotaina de meninos de coro catequisados .

num trovão de velocidade, eis que chega o metro. empurrão mais empurrão e...eis-me dentro do combóio.

mais uma vez comprimido. agora, contra dois metros de cintura duma negra que deve ter acordado tarde e deixado o banho para depois...

...lá se vai a minha fabulosa colónia, absorvida pelo fedor suorento da parceira que me espartilha contra outros... lá fica amarrotado o metro e setenta e três centimetros que meus pais me ofereceram ...

a minha saída deste suplicio avizinha-se. finalmente, é, já, na próxima...

quando essa felicidade chega, sinto que estou como uma folha de papel que se amachuca e joga fóra...

...e estive eu com tanto cuidado a escolher a roupa para vestir quando ainda não cheguei onde queria e já estou a pedir novo banho, nova muda de roupa...

todo eu procuro alisar-me do amarrotado que sinto. na verdade, a vaidade sente-se cruelmente ofendida com o desaforo turbulento que me esperou nos transportes...

...e agora? eis-me no centro da cidade que dizem de ulisses esse glorioso romano que em tempos remotos andou por aqui e deixou inumeras lembranças no subsolo da cidade.

subo a ingreme rua onde calcorreei a juventude e entro na brasileira.

servido por uma mineira café-com-leite lá dos brasis, tomo um café bem negro.

vadio mais um olhar, como se revivesse os tempos que por aqui universitei, culturando em tantas conversas com pessoas geniais, como, ary, ferreira de castro, nemésio, vilarett, martins correia e até juscelino.

de repente páro. se não o faço a emoção toma conta de mim e lá perco mais umas tantas lágrimas desprevenidas.

ah! como o tempo passa, como tudo e tanto ficou para trás na doce lembrança a que chamavam de verdes anos e do que por aqui se passava...as bailarinas do são carlos, a malta das belas artes, os poisares de intelectuais ao fim da tarde na bertrand e na sá da costa, as costureirinhas rumando a casa depois dum dia de trabalho...puxa! como o tempo passa e como as saudades se amontoam e enforcam o nó que sinto na garganta...

pago o café e desando daquela enciclopédia de recordações.

rumo ao meu destino, atento e venerando a minha atenção.

esta cidade desgasta-me a lembrança, mas vivo-a a cada momento. afinal foi nela que nasci e nela que me fiz homem, apesar de ter sido um menino de liberdades limitadas pelo regime opressor.

é nela que me visito e me amo a cada esquina. sim porque ter nascido aqui e viver a intensidade da sua luz, do seu calor, do seu sol, não é mais do que, narcisamente, amar-nos a nós próprios.

vou em frente. finalmente o meu destino, o ponto de encontro. olho o relógio e...como sempre estou adiantado.

espero. esvazio os olhos de saudades e guardo outras.

ambas guardarei para sempre até que um dia chegado corte a raíz ao pensamento e eu fique, para sempre, no mundo do silêncio, do pó, da cinza e...do nada!

João Videira Santos


Com registo na SPA
 
crónica de um dia repetitivo

Se ..

 
Tradução minha de um dos poemas mais intensos e cheios de significado que conheço.
Original If de R. Kipling.
Aqui partilhando convosco esta experiência.
Obrigada
Ana G

Se conseguires manter a lucidez,
Quando à tua volta todos a perdem e disso te culpam
Se conseguires em ti crer quando todos duvidam,
E ainda assim ser complacente com tais dúvidas.
Se conseguires esperar sem desesperar,
Ou ser caluniado sem recorrer ao embuste
Ou ser odiado sem que ao rancor cedas caminho,
E ainda assim não seres nem vaidoso nem pretensioso

Se conseguires idealizar sem que os sonhos te dominem
Se conseguires pensar sem fazer de um pensamento O objectivo,
Se conseguires cruzar-te com o Sucesso e com a Tragédia,
Sem te deixares levar pela emoção
Se aguentares escutar a verdade que proferiste,
Por velhacos, deturpada em armadilha para ingénuos,
Ou observar tudo pelo que deste a vida, destruído
E vergado, tudo de novo construíres com o que te reste
Se conseguires juntar os ganhos de uma vida
Arriscá-los num lance de "cara ou coroa",
Perder, e de novo começar,
E nunca, sobre a perda, suspirar.

Se conseguires forçar o teu coração, nervo e tendão
A servirem-te, ainda que já não sirvam
E a aguentar quando já nada em ti existe
Que a Vontade que te diz “persiste!”
Se conseguires falar a multidões
e manter a tua honestidade
Ou conviver com Reis
sem desprezar a humildade
Se de amigos e inimigos te defendes
Se todos para ti contam como iguais
Se conseguires em cada minuto penoso
Ver sessenta segundos imortais

Tua é a Terra e tudo ao teu redor
E – o essencial - tu serás um Homem, meu filho!
 
Se ..

o poeta e a sua musa

 
O cenário é este:
É noite e, de frente para o mar, com as ondas a bater nos rochedos, dentro do carro está o poeta e a sua musa encantada. Uma estrela cintilante lá no alto é a única luminosidade que faz peceber os seus rostos, nesta noite quente de verão...nesta noite quente de verão...nesta noite quente de verão...

Poeta - ...ter-te aqui a meu lado é ter o mundo em minhas mãos, os tesouros dos piratas, as arcas escondidas. És a luz do meu caminho, a palavra que se estende ao amor. Sabes que te amo acima de todas as coisas, das leis e da morte. Amo-te muito mais do que um simples milagre. Para mim tu és o sol e a lua amortalhados em...

Musa – Ó poeta, desculpa lá interromper, mas, afinal, viemos para aqui para foder ou para te ouvir dizer poemas?!
 
o poeta e a sua musa

Épico - Cidade dos Condenados

 
Cidade dos Condenados – Parte I

Rosto caído e olhar sombrio
Percorrendo as ruas da cidade dos condenados
Onde tudo é desconhecido
E onde a cruel realidade é visível a todo o instante.
Visão de terror misturado com titulados de horror
Corações sofredores que escondem a sua dor
Onde a revolta e raiva são sentimentos dominadores
Que não permitem a existência de outros sabores…

Cidade dos condenados
Onde impera a lei da bala e do ódio
Em que os incêndios são o prazer do povo
E onde não há futuro…apenas a visão do demónio.

Não quero ver mais a cidade dos condenados
Não a quero para mim….
Tirem-me daqui…

Sonhos destruídos – Parte II

Sonhos destruídos
Lembrados ao som de um novo disparo
Que friamente parou o bater de um coração,
Roubando a esperança de um novo despertar
De uma nova ilusão, de um novo viver, de uma nova emoção.

Sentimento de maldade sobe pelo corpo
Sinal de indignação e de desconforto
Porque não acredito em mim?
E porque me deixei levar pelo lado negro da razão?
O sol já deixou de me brilhar
A noite toma conta de mim, escondendo-me o porquê de me ter deixado levar
Mostra-me a inutilidade humana perdida ao ritmo do vento
E que me faz acreditar que viver é somente um momento.

Sonhos de esperança quero voltar a sentir
Quero me libertar da confusão que me prende
E que me passa a vida constantemente a mentir….

Sentimentos desconhecidos – Parte III

Sentimentos desconhecidos permanecem em mim
Vitoriosos da conquista de toda a minha composição
Dominadores dos meus sinais vitais
De uma forma que não parece ter fim.
Já não quero saber, já nem sei se estou a sofrer
Ou naturalmente a deixar-me morrer
Sonhos já não fazem parte de mim
Álcool e drogas vão alimentando o bater do meu coração
Enquanto espero pelas ultimas horas num canto desta cidade.
Sentimentos, dos quais não me liberto… que desespero
Que me fazem tremer, sentir a tristeza e miséria à minha volta
Como imagem distorcida da vontade do meu coração.

Será isto tudo apenas uma ilusão?
Infelizmente é apenas uma vida de desilusão….

Bomba de Esperança – Parte IV

Bomba de esperança explode na minha cabeça
Nem tudo pode estar traçado para um fim igual a este
A cidade condenada pode se libertar da escuridão que a prende
E os rostos podem voltar a ver a imagem curada deste reino do mal
Haverá força, motivação para quem sempre teve sofrimento como noção?
Já ninguém conhece o seu rosto, já ninguém sabe o seu nome
Já ninguém consegue ver a passagem da luz, em algo tão sombrio.
Porque não tentar?
Porque acabar assim sem lutar mesmo que isso indique o fim?
Porque não ter no meio de toda esta desilusão um rastilho de esperança?

Será que a cidade dos condenados se consegue salvar com uma Bomba de Esperança?
Eu acredito que sim.
 
Épico - Cidade dos Condenados

Amor quixotesco

 
Amor quixotesco
 
E rangiam madrugadas em dentes
e rugiam feras em ouvidos
e por dentro floresciam flores
e por dentro um sol de amores
sopravam raios de pendores vãos
escorridos pelas mãos
em um reverbero conflito.

E assim, na revolta que sangra
ao peito, jorro desfeito
nascendo ao "por-se a dentro".

A vida, lápide impaciente,
secciona a veia da pobre Sereia...
que jaz silente à areia
(pálida, esquálida, cálida e feia.)

Hemorrágica areia trágica deste oceano
turbulento, venéreo e purulento...

Óh valor imensamente dado! [ao que não tem fundamento!]

Enquanto, à noite, forceja em passo infinito
ao som um grito parido ao céu.

Que mais é a vida? -Grita o Nada-

Além que um barco de papel à tormenta?

E nós?

Cavalinhos, cavalgando moinhos que ela inventa.

Só mais um murmuro, um último filamento,
antes de deitar-me para não mais acordar,
"acordear" com um ponto final pensamento
o gorjear do que aqui na verdade há:

"Alguém aí tem um band-aid para estancar este imenso hemorrágico sofrimento que acaba de acabar?"

E assim abro um sorriso,
faço tudo o que é preciso
quebro o espelho de narciso
(para ele não se afundar!)

Fico feliz seguindo minha vida.

Quem precisa de ferida?
Com uma vida viva para gozar?
 
Amor quixotesco

a senhora da boca grande

 
a senhora da boca grande soprou a bolha da vaidade, desceu aos ombros do desdém e repousou no umbigo da sua leviandade. atravessou um país vestida de organdi, noiva de seios caídos nas praias da ignorância. em cada cidade abastecia de vénias e palmas e ia engrossando a sua sombra no assalto ao pico da futilidade. subiu ao alto da torre da bajulação e lançou-se num grito autoritário. pensando subir, prendeu o seu vestido branco sujo na nuvem da insensatez e viu-se nua em queda e espanto. desconheceu-se na zoeira inesperada de gargalhadas acidentadas na curva do abismo directo ao chão que a cobriu de terra. acordou tarde demais enterrada num corpo velho e trôpego sem memória ao fundo do quintal da sua lataria. rasteja hoje, na sua humidade, com os dentes debaixo do sovaco. não fala, baba-se.

a senhora da boca grande soprou a bolha da vaidade, desceu aos ombros do desdém e repousou no umbigo da sua leviandade. atravessou um país vestida de organdi, noiva de seios caídos nas praias da ignorância. em cada cidade abastecia de vénias e palmas e ia engrossando a sua sombra no assalto ao pico da futilidade. subiu ao alto da torre da bajulação e lançou-se num grito autoritário. pensando subir, prendeu o seu vestido branco sujo na nuvem da insensatez e viu-se nua em queda e espanto. desconheceu-se na zoeira inesperada de gargalhadas acidentadas na curva do abismo directo ao chão que a cobriu de terra. acordou tarde demais enterrada num corpo velho e trôpego sem memória ao fundo do quintal da sua lataria. rasteja hoje, na sua humidade, com os dentes debaixo do sovaco. não fala, baba-se.
 
a senhora da boca grande

CANTO DA MANHÃ

 
 
Ao longe é possível ouvir, um canto harmonioso, penetrante,
Que vem rebatendo pelas montanhas, num vento faminto.
É Verão nas terras do Norte,
Mas sempre predomina o clima glacial.
São nas manhãs, com o Sol despreguiçado,
Que sua Rainha escolheu para nos deleitar
Com seu cântico nobre.
Fascinante, verdadeiramente esplêndido!
E toda manhã, o povo absorve, aspira,
Toda melodia declamada pela Sua Alteza.
Todos que petrificados, admiram na do alto de sua sacada.
Sua majestade entoa delirante,
Uma canção que faz de seus opositores,
Renderem se a sua Magnitude Real.
Sua Rainha canta para encantar,
Mas, esconde sua dor, sua saudade,
Apenas revelada na discreta lagrima,
Escorrida pelo rosto rosado.
Ela prediz em seu canto,
O desejo de ter seu amado.
Aquele que um dia partiu,
Deixando a lembrança como esperança.
Mas ... logo o dia se estende,
E Sua Rainha como um regente,
Diz ao povo presente:
É hora de lutar minha gente !!!!

(reeditado)
 
CANTO DA MANHÃ

Odin....Odin....Odin....

 
Em trono de
Vahalla,
Odin,
Munnin e Huginn,
assentes em seus ombros,
murmurram anseios d´homens,
de eternos lutadores,
esses guerreiros d´Asgard...

Cai valoroso,
pela Espada de Burheinn,
Espadas avermelhadas,
Valquírias carregadoras
de heróis ressuscitados...

Soam sopros de homens
entoados em clamor
deste eterno Lutador!

Gritam Cornos
à partida da Dor!

Homem Renascido
que enfrentas o Temor
destes Heróis Perdidos
Adormecidos pela Dor!

Francisco Canelas de Melo
 
Odin....Odin....Odin....

Carta aos cavalheiros ( uma leve influencia do Conde de Rochester)

 
Sinto muito cavalheiros, mas não poderei ajudá-los, pois minha espada é feita de um aço muito nobre, jamais usei minha espada em um confronto com outra, e sinceramente, não pretendo usa-la, para mim, não existe melhor lugar para se guardar uma espada do que dentro uma bainha bem quente e umedecida, e disto eu entendo muitíssimo bem, por tanto cavalheiros, tirem suas mascaras, sinto muito em decepciona-los, mas eu não exerço este oficio, sei que muitos dos cavalheiros aqui presente, sem contar estes, que já estão de saída, sentirão inveja ao me verem em ação, pois sintam, a inveja nada mais é do que o reflexo de suas incapacidades, por não conseguirem extrair o verdadeiro nectar de uma mulher, sinto muito cavalheiros, mas para tal destreza é preciso muito domínio, algo que jamais terão, pois são tão esdrúxulos quanto seus membros, que após um extasie instantâneo, adormecem, deixando suas damas desoladas, encharcando os lençóis de seda, portanto posso afirmar, jamais conseguirão fazer uma dama chorar de prazer, pois farão apenas sexo, um sexo vazio e mundano, jamais conseguirão extrair este nectar precioso, sinto muito cavalheiros, mas para tal magia não existe ensinamento, e mesmo se existisse, jamais aprenderiam, pois são tão limitados quanto suas acrobacias grotescas, mesmo se usassem os mais fortes alucinógenos, a unica coisa que conseguiriam, além de anestesiados, tornarem-se super macacos, pois são exatamente o que são, primatas vestidos, não cavalheiros, não se ofendam, até que não estou sendo veemente, pois se fosse, duvido que chegariam até o final desta nota, estou sendo o mais ameno possível, estou usando palavras simples para que entendam, sei que é difícil acompanhar tal raciocínio, mas que culpa tem este humilde Conde? Se além de toscos, seus cérebros são atrofiados e inerentes ao seus testículos, vai ver que é por isso que ejaculam précosimente, por terem em suas mentes, pensamentos tão vagos e tão pequenos, capazes de caberem em uma ervilha, desculpem minha franqueza, mas minha superioridade em relação a este assunto, comparada com tal ignorância, os deixam em desvantagem, sei que muitos sentirão raiva, pois sintam, a raiva nada mais é do que esta ignorância latejando em suas mentes, mas não se preocupem, a raiva é compreensiva, pois até os cães a tem, já o ódio, este é um sentimento medíocre, então se sentirem ódio, é porque estão em uma escala muito mais baixa do eu que imaginava, se vão gostar ou não de mim, não importa, mas sei que irão lembrar, principalmente na hora em que estiverem espavoridos em cima de uma dama, tentando faze-la chegar ao orgasmo, até mesmo os ilusionistas se lembrarão de mim, e também os ditos super homens, quando acreditarem terem extraido o verdadeiro nectar de uma mulher, sinto muito cavalheiros, mas jamais conseguirão fazer o sorriso de uma mulher se abrir como uma borboleta, e falando nisso senhores, preciso ir agora, tem uma dama esperando ansiosamente por mim, louca para sentir o toque do desejo e mergulhar numa fantasia interessante, onde as rosas extremessem com um simples sopro, onde o céu ao invés de azul, tornasse rubro, impregnado de paixão e volúpia, e o silêncio produz um unico som, o som das lágrimas que choram de prazer.



Sandro Kretus
 
Carta aos cavalheiros ( uma leve influencia do Conde de Rochester)

HASTEIES ORGULHO PÁTRIA MINHA!

 
HASTEIES ORGULHO PÁTRIA MINHA!

Límpido e risonho é o céu do Brasil...
Sua bandeira é grandeza, é varonil...
As cores da república são pura vida,
A vida do Brasil em cores refletida...

Amar o Brasil, respeitar suas divisas.
Vestir suas cores nas ações concisas...
Verde, azul, amarelo, branco, nação...
A mistura das cores é prisma, união...

Respeites o Brasil, ame-o ele é nosso...
Ame-o, respeitando-o diga eu posso!
Seu povo é irmão, é digno e sofrido,
Trabalhador, e precisa ser acolhido...

O sentimento nacional, une, comove,
Desperta a crítica social e promove
Ação, “um por todos e todos por um”,
Elevando o censo no cidadão comum...

Que levantes de teu berço esplêndido...
Esse despertar acaba com o silêncio...
Hasteies o orgulho no mastro do brio,
Resgates suas cores, saindo do estio...

Ibernise . 
Indiara (GO),30.10.2007
Poema Inédito.
Núcleo Temático Educativo.
Direitos autorais reservados/Lei n. 9.610 de 19.02.1998.

Excerto do Poema

As Unidades militares do Exército farão desfile cívico do Sete de Setembro, hoje nesta segunda-feira, dia em que se comemora os 187° anos da Independência do Brasil.
O correio alcançou D. Pedro, no dia sete de setembro de 1822, às margens do riacho do Ipiranga. Ao receber os decretos e a correspondência, proclamou a Independência, retirando de seu chapéu as fitas com as cores vermelha e azul das Cortes portuguesas. Formalizava-se a separação entre Brasil e Portugal.
D. Pedro: Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil
Em maio de 1822, D. Pedro determinou que nenhum decreto das Cortes seria cumprido no Brasil sem a sua aprovação. Alguns dias depois, a 13 de maio, os democratas resolveram conceder ao príncipe o título de Protetor e Defensor Perpétuo do Brasil. D. Pedro só o aceitou parcialmente, como relata em carta enviada a seu pai, D. João VI: "Honro-me e orgulho-me do título que me confere este povo leal e generoso; mas não o posso aceitar tal como se me oferece. O Brasil não precisa de proteção de ninguém, protege-se a si mesmo. Aceito porém o título de Defensor Perpétuo e juro mostrar-me digno dele enquanto uma gota de sangue correr nas minhas veias."
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sete_de_Setembro
http://www.multirio.rj.gov.br/historia/modulo02/sete_setembro.html
 
 HASTEIES ORGULHO PÁTRIA MINHA!

Fim Anunciado

 
Parte I
- Vida

Percorro sem sentido,
Sem destino,
Cada segundo da minha vida.
Mas que vida?
Nem eu seu se isto é vida,
Já não sei o que fazer,
Nem sei se estou a viver….ou se estou lentamente a morrer.

Injecto-me com algo que se chama “vitamina”
Que recupera-me por segundos a vitalidade que já tinha desaparecido
E que me faz viver ao máximo segundos,
Minutos,
Distanciando-me por momentos,
Do abismo e de um final tristemente anunciado.

Mas,
Que vida é esta sentida somente à custa de impulsos “vitamínicos”?
Simplesmente, uma vida PERDIDA!


Parte II
- Reflexão

Reparo no que agita o meu redor,
E deixo-me ficar.
Não consigo embarcar na agitação e em constantes apelos de mudança.
Limito-me a descansar nos períodos em que o meu corpo não sofre,
Em que não me pede ajuda relaxante
E que me deixa respirar e sentir cada membro meu.

Mas que vida é esta? O que faço aqui?
Porque me perdi no caminho que deveria fazer?
Porque percorri o caminho que me tirou a vontade de viver?

Agora é tarde,
Nunca me conseguirei salvar,
Estou cansado,
Arrepiado de ver a morte chegar.

Parte III
- Sofrimento

No que me tornei!
O que hoje sou…

Sou tudo sem ser nada,
Nesta vida que nunca desejei…

Sinto dor a respirar,
Sinto fragilidade no caminhar,
Não tenho um lugar para ficar,
Muito menos,
Vontade e força para conseguir mudar.
Já não sou dono do meu corpo,
A minha alma foi conquistada
Está sob domínio de uma poção malvada.

Estou cansado…
…. Desesperado…
………… Acabado…

Parte IV
- Fim

Resolvi desistir.
Terminar de uma vez com a indecisão de continuar
Com esta vida miserável.
Resolvi dizer adeus aos golpes de dor,
Que o passar das horas constantemente me provocavam.
Resolvi confessar a minha fraqueza,
Perante os desafios que constantemente me foram aparecendo
E os quais não fui capaz de ultrapassar.

Hoje desisto de mim,
Desisto de ser quem sou,
Finalmente poderei dizer que o sofrimento acabou
E que teve um FIM!

Um fim doloroso,
E um fim anunciado…
 
Fim Anunciado

As estrelas Sussurram

 
Sinceras as tuas palavras de ódio e desilusão, quem sabe quando chegar o inverno eu lhe deixe sem coração
Não invente magoa e nem desespero, porque sequer eu te espero. Contemple tua morte que criaste com tanto esmero

http://ssussurross.blogspot.com/
 
As estrelas Sussurram