Textos surrealistas

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares da categoria textos surrealistas

FOI-SE (A VIDA)

 
Chegou
Para pintar
De negro o dia,
E derrotar
A harmonia.

Chegou
Para transformar
Corações
E derrubar
As frágeis ilusões.

Chegou
Com seu andar
Imponente,
E seguiu indiferente.

Chegou
Ao seu destino ávida de vida
E entrou sem avisar...
Com a sua acção homicida,
Fez-se anunciar!

Partiu,
Deixando um pranto frio,
Sem uma palavra de alento
Ou um esgar de ressentimento -
Indomável como o vento
Norte...

E recolhendo a Foice
- Dona Morte -
Foi-se!...

17/4/2008, NelSom Brio
 
FOI-SE (A VIDA)

A minha agenda

 
A minha agenda
Gostava e não gostava… que vissem a minha agenda telefónica que data de janeiro de 1950, quando vim morar de novo para Lisboa. Quando me casei estive em casa dos meus sogros um ano ou pouco mais e depois resolvemos ir para a nossa casa e alugamos uma na Amadora. Ao fim de um ano saturados, viemos para a capital de novo. Ao fim de uns seis anos fomos morar para o Restelo, aí sim que belos anos! Aí foi de novo reinstalado o telefone é verdade e que maravilha era nesse belo tempo, utilissimo! Então como fazia falta a agenda, era necessária para poder anotar novos números, contactar com a família, amigos, e médicos etc… naturalmente, estava sempre connosco. Os primeiros dados que apontei nela, tudo nos conformes, números redondinhos, letra certinha, belo tracto, sim, guardado na gaveta com a caneta sempre no seu posto avançado. Mas verdade é que ultimamente já nem sabia onde a caneta parava e tinha que ir arranjar outra à pressa para apontar qualquer coisa, descuido evidente. Depois o pouco tempo, muito trabalho mais crianças, começou a faltar ocasião para assentar de imediato, e comecei a pôr bilhetinhos a escrever de qualquer maneira…instalou-se a baralhada. Quando a conversa se estendia nem sempre estava muito concentrada, o tempo a passar o trabalho por fazer então começava a desenhar na coitada da agenda, caras que se calhar eram o reflexo do meu estado de alma naquele momento. Depois era difícil compreender aqueles traços, desenhos, graciosos, palermas, geométricos e tudo mais que me vinha á cabeça. Os novos números ficavam encavalitados nas linhas e difíceis de perceber, mas sempre os entendia ao fim e ao cabo. Ainda a tenho, conservo-a com carinho, a capa ainda está preta, um pouco baça e escassos os vincos dourados. Tem umas poucas braçadeiras de fita-cola a segurar a capa e as descoladas folhas. Depois do ipsolon está mais limpo, só uma coisita ou outra, todo o resto parece, Deus meu, um estudo picassiano. Papéis colados, desenhos, números riscados, rasurados, as folhas intercaladas de variadíssimos papéis velhos com gatafunhos de cores e feitios, datas antigas, apontamentos, pelos cantos e enviesados, letras, algarismos e rabiscos até no reverso das capas… uma vergonha. Veio o progresso e os telemóveis, registam tudo e lá ficam gravados todos os requisitos, mas não tenho coragem de a deitar fora embora já nem tenha telefone fixo ela continua na gaveta sem préstimo nenhum a ocupar espaço, será pateta mas verdadeiro. Gosto de a olhar e sentir nas minhas mãos. Por quê? Não sei…talvez pelo sentimento a uma companheira de horas de vida, sim é isso! …
 
A minha agenda

Deus Psicopata

 
Deus desceu sobre o planeta Terra com uma tocha na mão. Por onde caminhou e encontrou templos, igrejas, sinagogas e altares levantados para glorificar seu nome e o nome dos santos e deuses, colocou fogo. Fez isso também com todos os livros ditos sagrados onde havia menção do seu nome em diversas culturas e crenças diferentes.

Deus agiu como um psicopata, frio e sem compaixão, pois já estava cansado de ouvir seu nome usado em vão: terrorismos em nome de Deus, massacres em nome de Deus, guerras em nome de Deus, violências em nome de Deus, castrações em nome de Deus, patrocínios em nome de Deus, dízimos em nome de Deus, suicídios em nome de Deus.

Diante da ignorância dos Homens, Deus resolveu eliminar o seu nome da Terra e fez o Homem esquecer que sua fé só dependia única e exclusivamente de todos esses subterfúgios relacionados a Deus.

- Homens de pouca fé! Disse Deus.

- Não sabem que a fé não depende de Deus!? Depende somente de cada um de vocês! Quero ver como vocês conseguem viver sem usar o meu nome, sem ficar citando passagens bíblicas e de livros sagrados como escudo da sua ignorância, jogando sempre nas minhas costas as desgraças que causaram, o dinheiro que arrecadaram, as pessoas que mataram, pedindo proteção e perdão pra mim.

- Vivam por sua fé, façam o bem sem olhar a quem, mas, esqueçam do meu nome, da palavra que escreveram nos livros sobre mim, façam seus próprios mandamentos, sejam, individualmente, Deus de si mesmos.

- Então, saberei quem de vocês tem fé e pode ser chamado de filho de Deus!

Deus deixou a Terra depois de exterminar com todas as coisas que fizessem lembrar do seu nome. A partir desse momento todos os Homens teriam que viver por si só e pela fé verdadeira da sua vivência.

Deus não existiu mais na Terra.

Cada um soube de si e da fé que teve.

*Existem pessoas que acreditam que seu Deus está de acordo com a matança que fanáticos proporcionam no mundo, como se Deus fosse um Psicopata, esquecendo-se da primeira lei do Amor: "Ama o próximo como a ti mesmo". O fanatismo é um transtorno de comportamento e deve ser tratado por profissionais especializados.Este é apenas um texto de ficção, não se refere a minha crença, ele tem o objetivo de ser reflexivo e introspectivo.
 
Deus Psicopata

"and the oscar goes to?"

 
Convocam-se todos os poetas, aspirantes a tal desígnio e pseudo-poetas para a tão aguardada cerimónia de gala, onde será enfaixado o poeta mais aclamado desta nobre pátria, com a devida pompa e circunstância. A todos os interessados recomenda-se vivamente que reúnam as hostes, pois o vencedor será aquele cuja ovação alcançar um maior estrondo. Além do tão esperado galardão que irá coroar o mais elevado poeta, haverá também um enfaixamento especial para aquele poeta que conseguir arrancar um maior número de lágrimas aos presentes (é permitido o uso de carpideiras). Apela-se ao recurso a todas as armas ao dispor, no sentido de angariar reconhecimento e excentricidade junto do público.

"En garde!"
 
"and the oscar goes to?"

A Melga, o Xavier Zone Publicações, o Trabis de Mentol e o José das Torres Bravas

 
Estava eu entretido a falar ao telefone com uma elevadíssima poeta do Luso Fofoqueiro, minha colega, quando dou conta de uma valente melga, pousada em cima de um poema (no meu computador) de altíssima gramagem do “nosso” já famoso Xavier da Zone das Publicações. Dizem que a alcunha vem de um tio que trabalha na Zone TV Cabo. Deu-se-me um arrepio pela espinha, o animal, feroz, amolava o ferrão para atacar a alma do poeta.

Entrei em pânico! Como era possível haver uma melga tão estúpida? logo havia de escolher este trabalho do nosso ilustríssimo poeta, vencedor de uma quantidade de campeonatos nacionais, taças de Portugal, taça dos campeões, e até uma taça inter-associações de poesia, varias vezes considerado o melhor poeteiro do campeonato entre outros feitos. Estava sem saber o que fazer, tinha logo que acontecer no meu computador. Puxei pela cabeça para tentar resolver a situação a bem, (ainda tenho esperança, de um dia entrar numa daquelas listas de boas intenções e indicações que o famoso Xavier Zone das Publicações, faz de vez em quando).

Desesperado, liguei para Trabis de Mentol, descendente do famoso Dr. Bayard, o dos rebuçados peitorais. Depois de lhe explicar o sucedido exigi-lhe uma solução, afinal ele é o dono desta merda toda. Reconheço, que também ele, ficou surpreendido e com medo, de que, por causa de uma melga qualquer, pudéssemos perder o grande poeta XZP. Pediu-me um minuto para pensar.

Chefe é assim! Necessita sempre de tempo para pensar.
Percebi que estava a ligar para os novos administradores, ouvia a voz da Alexandra Assina de Cruz, mais conhecida por alexis e também o Cão Poeta, o Rogério de fradelos. O barulho era ensurdecedor, a discussão estava ao rubro e a palavra circulava de um lado para outro. Alguém sugeriu usar Raid mata melgas, mas logo a ideia foi abandonada, poderia matar toda a poesia, principalmente os haikais, pequenos e frágeis poderiam não resistir aos químicos, para não falar já dos poemas do Trigo, sempre tão sensíveis.

Num ápice, senti que havia uma solução, a voz mudou de tom e a alegria invadiu o meu telemóvel.
Disse-me para mudar com muito cuidado de texto. Sem que a melga desse conta, indicou-me um texto do José das Torres Bravas, consta que é descendente de uma família da costa brava, um tal que fala de poetas de merda, e a explicação é simples: como esse texto fala de merda e as melgas dão-se bem com este tipo de textos, nada melhor do que entregar à melga um texto com merda suficiente para ficar saciada. Até porque, se não houvesse merda suficiente para alimentar a melga, pedia-se ao José das Torres Bravas para acrescentar mais uns parágrafos polémicos, que logo haveriam de aparecer uns comentários de trampa para continuar a saciar a dita cuja.

Assim fiz, e queiram vocês saber que a melga continua por aqui. Arranjei uma maneira de poder dormir de janela aberta e luz acesa, sempre que aparece uma melga, abro o Luso Fofoqueiro e ali ficam elas entretidas.
 
A Melga, o Xavier Zone Publicações, o Trabis de Mentol e o José das Torres Bravas

o polvo

 
Feliz com a vida, estava o polvo a marinar em lume brando, enrolando a cebola na volúpia dos esguios tentáculos, expelindo a negra tinta ao verde da salsa e aspirando o perfuma da folha de louro, quando aos altifalantes da rádio rebenta a notícia: "meia tonelada de polvos deram à costa na região de Vila Nova de Gaia..."
Ainda atordoado com o estrondo da informação radiofónica, o polvo suicidou-se por asfixiamento no exímio laço do tentáculo menor em volta do pescoço, por medo à usurpação do seu lugar de relevo ao jantar.
 
o polvo

a revolta da hipotenusa

 
Basta, Pitágoras! Não mais serei a escrava desse famoso teorema que eleva o teu nome aos píncaros. A partir de hoje, deixarei de ser a mera soma do quadrado dos catetos, desprovida de qualquer personalidade própria, para me afirmar como linha independente. Dispo-me da hipotenusa! Sou livre, ouviste bem?! Apenas lamento pelos catetos, que até se elevavam por minha causa. E agora que o teu triângulo rectângulo fica desfeito, aproveita para enfiares o dito ângulo pelo recto acima!
 
a revolta da hipotenusa

a revolta das vacas

 
dez vacas entraram num supermercado

(perto de si)

ameaçaram o leiteiro

destruíram as bolas de queijo

fugiram num carro roubado

(testemunhas afirmam ter visto um pacote de leite ao volante do veículo)
 
a revolta das vacas

Horizonte da alma

 
Navega o amor as águas
dos mares invisíveis...

Vejo flores no caminho,
e no horizonte da alma.
 
Horizonte da alma

Hoje matei um polícia

 
Hoje matei um polícia. Parei o carro e num rompante disse-lhe que não tinha triângulo. Disse-me que não era importante! Insisti, e acrescentei que também não tinha macaco. Respondeu-me com um ar meio amaricado que era a minha sorte, são animais protegidos, e teria que me prender. Desesperado, disse-lhe também que o carro era roubado. E não é que o merdas do bófia, irritado, queria obrigar-me a sair dali rapidamente, dizia que não queria problemas. Passei-me dos carretos, saquei da pistola de água do meu filho, automática de canos sobrepostos e numa assentada dei-lhe duas esguichadelas de azedume. Chamados os sapadores, encontraram o corpo a boiar numa poça de água. Segundo fontes próximas da vítima, diz-se que morreu de uma congestão. Tinha almoçado feijão-frade com umas pataniscas de bacalhau mal demolhado.
 
Hoje matei um polícia

dicas para ser um poeta famoso

 
Dicas para se tornar um poeta famoso:

- faça exercício, muito mesmo, até à exaustão.
(Para ser poeta é preciso suar!)

- descasque cebolas daquelas mesmo fortes, até ficar lavado em pranto.
(Poeta que é poeta, chora!)

- faça incisões pelo corpo, mas a sério, e não pequenos golpes.
(Poeta que se preze, sangra!)

- torne-se um coitadinho aos olhos da sociedade.
(Poeta que é digno, vitimiza-se!)

No caso de nenhuma das fórmulas anteriormente descritas produzir os efeitos desejados, existe sempre um último trunfo, uma espécie de ás na manga: Morra!

(Depois de morto, todo o poeta se torna famoso, ou então anda pelas bocas do povo!)

Este texto é mera ficção, alguma semelhança com a realidade é pura coincidência.
 
dicas para ser um poeta famoso

sintoma

 
sintoma
 
amanheço e ela ainda está lá e perco-me, quando pela vidraça, galhos retorcidos se enraízam em meus olhos. a mente agita-se muito antes do café, pois do outro lado da rua algo que foi frondoso alicia e prende-me a visão como se fosse espelho refletindo meu eu despaginado, assediando-me nua de histórias, de flores e frutos. enquanto minhas mãos erguem os emaranhados cabelos, fito o corpo ressequido se elevando ao céu - como se pedissem perdão dos pecados - suplicando a volta da carne; ramificado esqueleto sepulto em um vão do céu e estampa-se acima dos telhados como imitando meus bronquiais poluídos e en.carecidos de oxigênio colorido. não. não extinta, ainda, como aquela árvore, porém, por vezes, ergo-me hirta, desconsiderando o embalo do vento, feita espectro diurno que no recluso da noite permite pousos insistentes de pássaros florescendo asas nos pensamentos - vigias noturnos a quererem deixar festivo meu vulto que se amanhece já despido dos idílicos adornos. desvolumado pra reter luz, caminha sem silhueta que se deite sombra pra se arrastar no chão dando certeza da existência. incomoda-me, nas manhãs, a aparência falecida daquela árvore; falida e ainda assim, tão altiva. que nem eu.
 
sintoma

Miguel Angelo e a capela Sistina

 
vejo pedaços de orelhas
espalhados por todo lado

Van Gogh
com os seus girassois amarelos
e Picasso
montando a sua bicicleta de lata
soldando pedaços metálicos cortantes
para fazer a sua própria estátua

vejo Monet
com as suas formosuras belas
é impressionante o seu pincel
e aguarelas
e
Salvador Dali
perdido no tempo
marcado num relógio de ponteiros derretidos
agora vejo a crucificaçao por outro ângulo

Miguel Ângelo

Miguel Ângelo

já pintaste a capela sistina,
não ?
então pintamos nós!
 
Miguel Angelo e a capela Sistina

Quatro Cenas. "de uma monarquia retraída abaixo d'um umbigo"

 
 
"...porque a roupa revela o homem...."

(Hamlet) Cena III, Ato I

I

ah, a fama!

de ares e trajes, circunspectos! ao relativo retrocesso de se guiar em brilho ofegante que, à pretensa vaidade, há. de mesmos contatos sublinhados em vergonha que não consta. da mentira de um aperto aparente, em patas dessa gente, que sujeita-se em descer, até.. será a fome? aquilo de ruim que mais os consomem? e os tornam disformes? e. ainda assim, que tanto/tanto valeria-lhes um naco da migalha de um pão, ali, sortido de sua embriaguez(seria a fome?)?

II

ah, a fama!

eles tomam suas dores repartidas, às suas mesmas nalgas re-paridas e continuam a protelar! eles comprometem-se ao lado daqueles que lhes servirem! qual moeda de troca aberta, em silhueta esbelta de um apêlo e consulta vulgar.. um abraço! uma média-conduta!(míseros filhos de putas..) um conselho! uma mentira e outros erros, e também.. lenha pra aquecer seus ossos ocos e mancos, quais.. débeis-dedos! e finos, então..

III

ah, a fama!

leitura-exposta! dizeres agregados à mesma podridão imposta quando em guerrear com a sua frente! servindo-se da mesma iguaria que repele antes de a vestir! inócuos lados de um membro retirado, pois o filho de putas, não foi capaz de segurar o próprio ovo! e é um primata-pouco, jocoso e desprovido daquilo que o mancha de novo: eunuco! rei alheio de seus bens ao impulso de quem o apreciar.. eunuco! mero-obtuso.. pois nem ao menos tem voz cativa de povoar um mestrado de idéia-própria a seu uso! eunuco, pois é copista em discurso! eunuco quanto à linha que o disparar a si, enquanto curto.. enquanto barato-prostituto aceso que é.

IV

ah, a fama!

e as minhas desculpas a quem canta/diz a esse comércio, mas que ao menos, me deem o pouco de crédito que gastei a ver linhas-putas na latrina de um reles parvo-animal(condicional, até).. porque dele, é: a fama concorrida! em toalhas fedidas em assoar-lhe o acervo medíocre que só um macaco-castrado, tem: e,

à sua reunião, ora. disposta!

texto inédito!
 
Quatro Cenas. "de uma monarquia retraída abaixo d'um umbigo"

probabilidades

 
Qual a probabilidade de me espalhar ao comprido, sabendo de antemão que caminho sobre um chão acabado de encerar?
É pertinente o dilema sobre qual o teorema a aplicar, a fim de tal probabilidade determinar!
E no caso de me estatelar, qual será a probabilidade de algum osso quebrar?
O melhor mesmo é apurar com exactidão a probabilidade de sofrer danos colaterais!
Antes que cheguem os senhores de branco com os coletes de forças, vou jogar com a estatística!
 
probabilidades

"do tempo, fragmentado."

 
 
"(...)Apaga-te... apaga-te breve vela!
A vida nada mais é que uma sombra que anda...
um pobre ator que se pavoneia e se agita durante sua hora no palco e depois não é mais ouvido.
É uma estória contada por um idiota
cheia de som e fúria que nada significa.
- Nada!"

(Macbeth)

(...)

compunham-se de duas cômodas e um estrado gasto, o quarto visitado de olhos íngremes a visitarem-se ao redor de um espelho com riscos, sem prevenção anterior da sujeira qual adornava este objeto. a janela entreaberta era um modelo casual de custos furtivos em dada loja de "usados" qual, por sobremaneira era peculiar aos defeitos de fabricação prévia. de porta fechada, era ainda possível ouvir um misto de barulho corriqueiro de andanças pela rua abaixo e também de vozes ao bar que funcionava à entrada. o ar, empoeirado e catastrófico, matinha-se ao peso dos olhos dele, que postergavam-se ao cair de seus pensamentos, estes alheios, porém, à própria forma de inclusão ao modo do qual iria vivê-los, adiante..
mal dormira.
de um começo tenso à noite deliberada por gerir a sua sanidade, ao fim temeroso que sempre desviava em dada hora de tensão.. ele abstivera-se por tanto tempo! só pra depois deixar-se conceder.. era mesmo um modo ruim de começar o seu "trabalho", mas já que ainda estava vivo, iria terminá-lo, sim!
o som da água fria que cercava-se entre a torneira aberta há alguns segundos, arrepiava-o conforme o contato de tê-la(a água) próxima, e de seu rosto.. ele ouvira histórias ruins em registro de como pessoas criavam em si, nódoas na pele por terem usado essa água, intitulada por sobre montes de risco e algum "aparato" tóxico, advindo de fábricas clandestinas ao redor da cidade onde estava.
mesmo assim, lavou o seu rosto.. era preciso, pois ainda continha uma parte do sono pesado que o derrubara na cama à noite anterior em meio às crises antes de dormir.. estava cansado. de corpo e alma, mas precisava ficar de pé e resolver o seu tempo gasto, ali. naquele fim-de-mundo.
ao olhar-se ao espelho, deparou-se com a imagem que sempre tentava dissimular: um cabelo desgrenhado entre os olhos, nariz de "pugilista"(por tantas vezes tê-lo quebrado), com barba rente e por fazer em seguir de pêlos brancos ao redor destas, dando um "ar" de relaxo e mesmo assim, instigante ao que de forma por o olhar de novo.. e as pessoas sempre olhavam de novo para ele!! onde quer que fosse! onde quer que estivesse parado, pois era um parâmetro que ele teve de se acostumar desde a sua infância, onde após uma tragédia cabível de bebida, lar violento e confronto, uma parte de si fora desenhada de maneira cruel.. uma cicatriz, uma forma desenhada em seu rosto de tal maneira que o suscitavam-lhe à informação de outrens, toda uma condição de atenção imperiosa.. dando-lhe o "status" de inclinação ao medo, ojeriza e outros sentimentos argutos..
mas isso também era coisa que ele já tinha se conformado e aprendido a tolerar.. os olhares, as provocações, os risos.. muito embora ainda lhe ardesse a febre interna de transfigurar em ato-real, toda uma pretensão física da qual tinha se posicionado.. era muito forte e capaz de brigar com vários ao mesmo tempo sem importar-se com a dor ou qualquer ponto de covardia.. ele gostava de brigar e gostava de estar ao centro de um confronto onde, desde cedo já o impulsionava a descer ao inferno e caminhar por lá de livre arbítrio à sua "danação.."
e por isso escolheu aquele trabalho.. aquele modo de vida onde jamais teria paz. ele lembrava-se de suas vítimas e lembrava-se de seus nomes e rostos, e todos os segundos que gastara com cada um deles.. e era isso que o perfilava! era o seu combustível e a sua carga de vida..
era a sua vocação.

(...)
 
"do tempo, fragmentado."

Cem cavalos fora de horas

 
- o sol espreita os cascos do tempo e em cada esquina uma voz arde no corpo das árvores

- as memórias de cabelo longo esvoaçam ao silvar do combóio recolhendo nas estações as insónias do Outono

- cem cavalos arrastam o Inverno, fora de horas, em contrapeso, e a cara das moedas batem no fundo do poço, soltando as coroas para o bilhete da despedida

- dobram-se os joelhos ao luto dos vidros, e as cortinas tapam negras a garganta do medo

- os pulmões do céu escureceram por cima dos pensamentos curvos dos ladrões de luar

- a noite chegou na gravidade das pedras, e na urgência das pálpebras, engoliu o relento, num relógio disparado, pela alucinação galopante

- agora, ao longe a trovoada dá as boas-vindas ao pesadelo das facas
.
- cortam a direito na madrugada a solidão sem fim.
 
Cem cavalos fora de horas

orgasmo literário

 
a noite estava fria e as atenções estavam centradas na visita de sua santidade ao santuário de fátima, não se antevendo, por isso, que uma multidão acorresse à cidade outrora rainha das termas, onde iria decorrer em pleno coração a apresentação do mais recente livro de José Ilídio Torres, professor que lecciona numa escola do concelho. para meu espanto, assim que começo a descer a avenida rumo à praça da república deparo-me com um ajuntamento anormal de pessoas. por momentos ainda pensei que tivesse acontecido alguma tragédia, mas logo que me acerquei da referida praça, as dúvidas caíram por terra. o motivo de tamanha azáfama era mesmo o evento literário em questão. era ver cartazes e mais cartazes espalhados, todos fazendo uma especial alusão ao autor que parecia minúsculo no palco montado ao fundo da praça. como rapaz tímido e reservado que sou, não me atrevi sequer a aproximar-me da plateia, ficando a admirar aquele orgasmo em tons literários que se prolongou noite dentro até altas horas da madrugada, tal o número de autógrafos, alguns em lugares muito pouco ortodoxos, que o autor distribuiu pelas fãs.
 
orgasmo literário

A tua normalidade dava uma novela mexicana

 
A tua vulgaridade é um romance de cordel. És tão normal que metes dó, divides-te em dois pedaços, um em cima o outro em baixo, com traço de fracção no meio, só para te anulares melhor. Atrevo-me até a dizer que quando se inventou o zero, já estavam a prever o teu nascimento. E quando o homem pensou o que era a esquerda e a direita, era já a prever onde te ia colocar.

És tão vulgar a falar. Jurei um dia ver um tremoço a cantarolar no meio dos teus dentes, a fazer uma gentil serenata à mini que explorava as caves do desconhecido. As tuas unhas são normais, nada mais. Julguei por momentos ver um sinal estranho no teu braço, mas depois vi que não era nada. A tua vulgaridade mete nojo mesmo.

Dizem que és vulgar na cama. Não te experimentei, de tão vulgar que és. Dizem que gemes como um disco riscado, que gritas como um botão cansado de ser carregado. Pelos vistos, até aí és mecânica, previsível. Até que chegou o dia em que percebi a tua magia. A tua vulgaridade era única. Quase especial, de tão vulgar que era. E aí, deixaste de fazer sentido. Acordei e percebi que te tinha sonhado, na mais pura vulgaridade do meu pensar imaginado. Era impossível existir alguém assim...

Mas isto não ficou por aqui. No dia seguinte, mal dormido, e queixoso da comida também, e por sinal da bebida, vi-te a passear, vulgar, no passeio dos comuns pedestres. E já te tinha visto todos os dias. Eras um enigma especial, um tesouro por abrir, um ser tentador, e por sinal tentado também. Aquele sinal da bebida, que uma coisa leva à outra, e por aí adiante.

Ficava então a questão: eras sonhada? Real? Enigma? Tremoço entalado na dentuça vulgar?

Eu acho que és tão vulgar como a minha imaginação. E tenho a certeza que nessa noite não dormi bem.
 
A tua normalidade dava uma novela mexicana

A padeira dos beijinhos no curação

 
Entrei na padaria que por sinal está muito bem servida de aparências. Tem lá um bijou de bata branca, que até fico com a língua enrolada ao céu-da-boca. Mas adiante, que isto são rosários de outras contas, costumo pedir sempre um papo-seco de meio sal, mas como hoje faço contas de estar até tarde na cusquice no Luso, pedi um pão especial que eles lá têm para locais deprimentes.

Dirigi-me então áquele bálsamo para os olhos, e pedi-lhe uma rosca de Bulling. Estou com esperança de mandar três ou quatro poetas para o estaleiro, andam por lá umas poetas sempre a falar em roscas, roscas para a frente, roscas para trás, e, depois de tanta rosquice deixam ficar beijinhos no curação.
A pobre coitada, ainda com farinha no sobrolho esquerdo, que por sinal ficava-lhe muito bem, disse-me:

- Ó pá, que grande caralho! esse pão ainda está no forno, vai demorar ainda um pouco a ficar no ponto. Ainda há dois minutos tinha mais de uma dúzia de cacetes aqui na cesta, mas uma comandita organizada e com estatuto de elevado grau intelectual, acabou por levar as roscas todas.
Mas a loiraça de bata branca, nivelada quatro dedos acima do joelho, continuava a galar-me com um olhar que até me fazia subir o desempenho para lá do umbigo, e sem papas na língua continuava a palrar como se de um anjo se tratasse, não fosse a farinha bem me tinha levado na pandeireta.

- Ultimamente tem havido muita procura deste pão, dizem que é por causa de uns poetas que andam armados em maus, e lembraram-se de fazer bolinhas de pão para mandar uns aos outros, aquilo parece-me mais um ninho de víboras, isto é o que se ouve aqui! Eu nem gosto de ouvir as conversas dos outros mas, deitei o ouvido para dentro da matilha e só ouvia falar em cobras e lagartos.

Sou padeira e não percebo nada dessa merda de fazer poemas com bolinhas de miolo de pão, até já disse ao poeta que veio buscar os últimos cacetes, que se fosse eu, levava era broa de centeio, tem uma côdea dura para caralho, sempre dava para aleijar mais um pouco. Agora valha-me Deus! Atirar bolinhas de miolo de pão! fosse comigo freguês, fodia-os a todos, até lhes atirava com hortaliça, pepinos, grelos e outros instrumentos de prazer, que assim nunca mais se metiam comigo.

Agora, aquilo não são zangas, é passatempo de gente com unhas de gel, gente que manda beijinho para cá, beijinho amarelo, beijinho cor-de-rosa, e depois ainda se despedem com etiqueta de gente que tem a mania que tem estudos. Mulher que é mulher, amarrava nos cabelos da pindérica e arrancava-os um a um, tal como os homens, muito blá, blá e mais nada, o pontapé no cu fica na gaveta das regras da cultura. É por isso que gosto de ser padeira, e principalmente de Aljubarrota, com a pá ia tudo pró caralho e mais nada.

(entretanto entra um poeta daqueles inofensivos, pergunta: há pão sem sal?)

Responde a padeira cada vez mais bonita, uma padeira zangada é outra coisa. Isto sim é mulher com pelo na benta, até os peitorais saíram por cima com os nervos.
- Só tenho aquele, a próxima fornada é para este poeta ilustre
- Serve, esse levo comigo, é o meu favorito
 
A padeira dos beijinhos no curação