Poemas, frases e mensagens de sampaiorego

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de sampaiorego

mais um ano

 
a minha juventude foi muito agitada. desajeitada e rebelde – gosto de culpar o 25 de abril por todos os males de que padeço. mas não é verdade – o que seria das minhas palavras sem abril? não trocava abril por nada. crescer com a revolução é um daqueles momentos únicos que a vida não repete – sem abril estaria vazio. talvez até vazio de erro – faço parte do erro. agarrei a liberdade sem defesas e acabei por sucumbir ao seu encanto – por ali fiquei a trovar. sem métrica. sem rima e a um compasso que nunca soube acompanhar – agora que envelheci escrevo prosa para sobreviver – estou triste. escrevo – quero desabafar. escrevo – quero respirar. escrevo – quero dar uma sova. escrevo – quero dizer amo. escrevo – quero odiar. escrevo – escrevo para tudo e para mim – escrevo porque quero continuar a envelhecer com as palavras que ainda não escrevi – escrevo para não morrer no meio de um amor não correspondido: a vida – a vida nunca me amou. talvez por não ser poeta. talvez por nunca ter dito que gosto muito de todos aqueles que fazem parte da minha vida – amo-vos. amo-vos. amo-vos. a todos – escrevo para falar – bem hajam
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sampaio rego - 17 de abrli de 2014
 
mais um ano

quase escrevia a frase mais bonita de sempre

 
escrevo num quase tempo. um quase texto – percebi que o tempo apesar de malévolo levou-me ao refinamento do supérfluo – escrevo – avalio o tempo ao segundo de um quase – tenho quase a certeza que vou acabar este texto um dia – este quase não tem definição. talvez previsão. talvez adivinhação. talvez ilusão. talvez desilusão. talvez alucinação. talvez um jogo de xadrez onde o cheque à vida é diário e o mate é uma certeza absoluta – xeque-mate. e o que há para fazer fica para sempre parado no quase – quase conseguia realizar aquele sonho. quase – não sei explicar o quase – passei a vida encavalitado em muitos quase[s] e agora quase nada me resta –

– sartre trata o nada em oposição ao ser –

aceitamos a vida com uma palmada no rabo. um biberão. o primeiro passo. o primeiro dia de escola e depois. é como se tudo acontecesse em vinte e quatro horas – existo cunhado por um nome. um número de existência e tudo se resume a uma impressão digital. única. dizem os entendidos – pelo batismo. sou de um outro mundo. crente. piedoso. justo. vigiado por um deus que está em todo o lado – a vida eterna é prometida para lá da minha compreensão – um choro. uma concha. e água na cabeça iluminada por uma luz que nunca iluminou coisa nenhuma – quase cheguei a acreditar que os santos um dia me ouviriam – nunca me deram importância. nem mesmo quando lhes prometi levar ao seu dono o meu peso em cera pura – bastava que me tirassem este quase das mãos. bastava – para o mundo sensível sou um pedaço de papel. existo em livros enormes de letras douradas. capa rija. guardado por funcionários públicos indiferentes ao serviço de um estado também indiferente – vivo ali até que o bicho da traça se alimente do meu número – esqueço o nome. somos todos números e moro na página cento e cinquenta do ano da santíssima trindade – sou filho de um ano – quase era um ano bom se não fosse aquela tromba-d\'água – ceifou a flor da árvore e o fruto putrificou voltado para um raio de luz vagaroso – quase lhe acontecia vida – não aconteceu. chegou tarde. quase chegava a tempo. mas o céu escuro anunciava dúvidas e depois. do nada. apareceram aquelas pedras enormes de granizo –

– uma fotocópia por favor. frente e verso –

no tempo uma recta sem fim. deito mão a uma equação de resultado infinito: quase era imortal aos vinte. quase era imortal aos trinta e aos quarenta o corpo deixa de fazer somatórios e afinal tudo se resume a resto zero – a fumarola acesa e a missa de corpo presente agendada. falta apenas acertar a hora com os convidados – quem disse que as retas não tem princípio nem fim? a força gravitacional não admite corpos suspensos no ar por muito tempo – o centro da terra é humano e o eixo imaginário afinal existe. quase perpendicular a uma quase tangente. roda numa espiral de morte anunciada e tudo se resume a tempo –

– galileu afirmou que o movimento só tem sentido quando comparado com outro ponto de referência –

não tenho ponto de referência. tudo roda com o desinteresse do tempo pelo que acontece. consome voltas a um eixo que roda unicamente sobre si – quase não sou – quase saía a cor branca. saiu vermelho vivo. e o meu quase preso aos caprichos de um jogo de sorte ou azar – sorte. azar. sorte. azar. sorte. azar. sorte e roda a rodar – azar. quase dava escritor – os polos iguais repelem-se. não deixam juntar as letras com perícia para uma quase lucidez da arte de bem escrever –

– tudo é uma roleta de casino. vermelho ou preto. par ou impar –

e a demência a ganhar tempo para tomar de vez o corpo e tudo amarrotado dentro do pensamento – páginas de mim agoniam numa quase morte no caixote do lixo – tudo morre. até a minha quase vida feita em papel – morte gritam as palavras. morte gritam os verbos no gerúndio e o passado a rir distrai o futuro com um quase ser feliz – quem sabe um dia tens o tempo dos homens justos numa árvore plantada na página dos fidalgos da casa mourisca e verás que os negrões de vilar dos corvos nunca foram assolados por tragédias. quase eram. mas não foram – há um tempo para os homens que sabem escrever e um quase tempo para os outros – nasci e morri dentro de um quase. quase era afortunado. quase sabia ler. quase escrevia a frase mais bonita de sempre. quase guardei as pessoas de que gosto para sempre. quase a vida foi justa. quase já não tenho medo. quase tudo aconteceu como imaginei. quase não me arrependo de nada – quase –

– "Em todos os homens a consciência tem só uma maneira de ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa." [júlio dinis] –

aprendi a contar o tempo de uma forma estranha. não reconheço os dias. sei que aparecem pelo nascer do sol – todos os dias ouço a chegada das manhãs – trazem penduradas ao pescoço umas quantas estrelas famosas – todas mortas. digo que estão mortas. quer dizer. quase mortas. soletram com dificuldade o seu nome – fico com a ideia de que o sussurram para não serem enterradas em valas comuns –

– no fim da vida. as estrelas guardam dentro si matéria degenerada –

todas as estrelas querem pertencer a uma constelação e assim adquirir por direito próprio um nome na lápide: ursa maior. nasceu e morreu para dar quase dimensão à arte – cassiopeia. nasceu e morreu bem-fazente do quase surrealismo – ursa menor. nasceu e morreu para dar norte a todos os quase homens errantes – pegasus nasceu e morreu para dar asas à quase imaginação – hércules. nasceu e morreu para dar quase força aos imperfeitos – cruz. nasceu e morreu para fazer quase perto o longe –

– cinquenta –

ano a ano risco no calendário um traço de trezentos e sessenta e cinco dias – já só o faço uma vez por ano. tenho medo de ouvir dizer: quase chegava ao novo ano – não sei o que há do outro lado deste quase –
 
quase escrevia a frase mais bonita de sempre

coisa

 
para uma gaivota-coisa

deixem-me ser
um pedaço de coisa
de qualquer coisa
de uma coisa de nada
talvez de um espaço
vazio e sem coisas
aqui vale o tacto
das coisas que dizemos
para vos fazer sentir
que afinal sou uma coisa
no meio das vossas coisas

assim serei nesta coisa
que deixo aqui para lerem
na esperança
de ser
uma pequena coisa
nas palavras
que acasalam
com o vosso olhar
nestas coisas que escrevo
sou esta coisa
de coisa nenhuma
mas hoje
onde o mar sabe levar e trazer
coisas
onde apenas as gaivotas
sabem ler
esta coisa de tentar
pôr as palavras a voar

mas há coisas e coisas
e eu tenho uma coisa
que não se escreve
é uma coisa meiga
daquelas coisas
que apenas damos
aos amigos
os beijos
é a maior coisa que tenho
no meio de tantas palavras
sorriem os beijos
e assim faço desta coisa
um simples beijo
que escrevi como
outra qualquer coisa
uma coisa importante
para a leitura
com um beijo-coisa
que não é qualquer coisa

sou assim mais uma
coisa
presa a coisas que sinto
ser coisa
é medonho
talvez arrogância
de querer ser uma coisa
que não sou
sou esta coisa que sou
nasci com uma dor que com o tempo
passou a uma coisa minha
uma coisa que me mata
de coisas que não compreendo
nem sei lutar
com coisas que afinal são minhas
com coisas que levarei
para um mundo de coisas eternas

sou uma coisa
sim
uma coisa
tão pequenina
tão inútil
para o tamanho da palavra
COISA
escrevo coisas
para aliviar este homem
feito de coisa nenhuma
 
coisa

a morrer do mundo

 
como é que um homem deita o corpo a descansar se o descanso está a falecer – tudo o que vejo é apatia. tudo o que sinto é desespero. tudo o que faz cor dá negro – tudo está falecido antes de estar – e olho. e volto a olhar. e tudo está a desaparecer. até a luz. ainda hoje pela manhã era dia aberto e agora já é noite – quer dizer. ainda não é. mas já se faz anunciar – e rodo para norte o corpo. e depois para sul. sem saber como sossegar – entre mim e o nada uma flor. desgostosa. desamparada. desprotegida. sem nome – nunca soube o nome de flores. talvez seja um girassol. um jacinto. uma estrelícia. uma papoila. ou uma rosa – não interessa o nome dos que estão doentes. afinal está murcha. está a falecer. talvez falta de chuva. não chove dentro das casas. ou então. talvez seja falta de pessoas capazes de trazer a água do céu para casa . não sei. se soubesse talvez pudesse ajudar. mas não sei – sei tão pouco da vida – estou somente capaz de observar as coisas. sinto-me estranho. esquisito. talvez não venha de mim este mal-estar. talvez sejam os outros a fazer de mim um homem sem certeza na vida – para ser sincero não sei. eu estou igual. sempre fui pálido. com olheiras. lábios gretados. e a cabeça sem saber para que lado tombar. sempre me senti a falecer. sempre olhei mais para o passado do que para o futuro. aquele é certo. e no futuro há sempre homens a olhar para longe – agora tudo mudou. não há futuro. e as pessoas falecem antes do reconhecimento do óbito. e já não há gritos porque não há corpos para chorar. e já não há flores porque também estas já faleceram antes dos corpos. e já não há campas abertas porque o coveiro faleceu no dia em que lhe roubaram a pá. e já não há missas porque o padre faleceu antes de deus mandar o seu filho à terra para falecer por gente que não vale coisa nenhuma – também deus já sabia do falecimento do seu filho mesmo antes de falecer. e cristo também sabia que tinha nascido para falecer numa cruz feita por homens que nunca trazem água para as flores doentes e sem nome – todos querem um pedaço de tempo a qualquer preço – e tudo seca quando as nuvens não carregam água. e judas sabia que só o falecimento do filho do criador daria sentido à sua vida. e a vida está cheia de gente que só aparece com corpos a falecer – as moedas de judas só entram na narração para criar enredo. faleceu para ficar na história. faleceu pela ganância. e nunca ressuscitou. e nunca soube o nome de uma flor. e nunca trouxe água na palma da mão. e o mar morto infestado de sal não deixa o corpo desaparecer. e o mal sempre à tona da água. e o homem também – só não sei o que vou fazer ao meu corpo para o fazer descansar. estou numa história que não é minha. não consigo dormir. não consigo amar as vozes que reconheço. não consigo sossegar. e tudo dentro de mim está cada vez mais distante do mundo dos que ainda não faleceram – quando era novo sabia tudo e agora nunca sei nada. talvez esteja a falecer também das ideias – e o mundo anda. e eles mandam o mundo andar como se o pão sobrasse pela falta de bocas. e uns comem. e outros olham. e a chuva parada entre o céu e a terra. e os pássaros com asas de cera gritam pelo nome da santíssima trindade e moisés às gargalhadas. não há terra prometida. nem vida depois da morte. e a igreja falecida manda rezar. e o comunismo falecido manda gritar. e o capitalismo falecido manda roubar. e as doutrinas na mão de gente que nunca faleceu por nunca ter nascido para a vida das flores sem nome. dos pássaros. da chuva. das manhãs feitas de sol. da juventude. dos doentes. da mulher esperança. do pai de mãos ásperas. da justiça. da rua verde. da cerejeira. do cão. do abraço. do olá. do bom dia. da história contada à cabeceira da cama ao filho com medo de um fantasma que se chama papão. da estrela polar. e da lua que cresce e minga com os dias que fazem dos velhos gente sábia e respeitada – nunca se ama o que não tem nome. nunca falece o que não nasceu para os olhos. o que não tem rosto – faleço. faleço todos os dias – escrevo para continuar a falecer desta dor que nunca foi capaz de saber viver dentro de um corpo que teima em parecer saudável – um dia falecerá de vez
 
a morrer do mundo

macho man poético

 
abomino
homem prostituto
não o da rua
esse lá terá as suas razões
ou nenhumas
mas o outro
o poeta sedutor
rima beijos
com gargarejos
dor
com amor
caçador com
impostor
 
macho man poético

ressacado

 
quase louco
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estou muitas vezes assim – o hoje amarrado a um dente do siso que sempre conheci a abanar – [agora] raivoso coloquei-lhe uma guita em volta. a outra extremidade amarrada a uma porta que aparta o presente do futuro – um dia. um dia atiro a porta contra o destino
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ou
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fecho-a de vez
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ressacado

desambiguação

 
volto a face para sul. é para lá que correm as gaivotas – no norte sobrevive ainda a macieira do pecado. mas a serpente cresceu. e um dia transfigurou-se em homem-pássaro. pássaro-liberdade. pássaro-mar. pássaro-palavra – fez-se gaivota. cinzenta. malhada. e dona de tudo o que é imenso: mar. sal. vento. e a falésia sempre a gritar por um nome que desconhecia e no eco. o aparecimento de um novo mundo a dizer: voa. voa – todo o homem é feito de pecado – e os sonhos realizados. e tudo cada vez mais azul. e a estrela do mar subiu ao céu. e a água a ir e a vir. e a areia a receber as pegadas do homem que se purifica com a primeira onda da manhã – ilusão – penso. pensar é fundamental para quem gosta de escrever – penso. e tudo é reboliço por dentro. e para fora só o movimento dos olhos na procura de um papel em branco – depois. escrevo nada. isto é. não sou capaz de escrever nada do que sinto e dentro de mim tanta coisa por dizer – não basta pensar para escrever. não basta levar o pensamento às mãos. há um sentir particular dentro de mim quando penso. ou talvez seja o contrário. é o pensar que me traz este sentir e juntos fazem-me ter medo de esquecer tudo o que sou no momento – quero guardar numa folha este homem que ninguém conhece – não sei se deva – é esta a melhor maneira de guardar o que só os meus eus sentem quando penso? não sei – homem real. homem pecador – mas sinto. sinto um sofrimento por não saber escrever o que sinto. se soubesse. se soubesse tirar o meu coração para dentro das mãos – não sei. não posso. não sei – e as mãos sempre revistas. e os olhos a pedir para escrever tudo o que viram por dentro e por fora. e o corpo trémulo por cada palavra caída de dentro de si – sinto. sinto esta coisa de nunca ser eu quando escrevo. e tudo o que tenho para escrever não interessa a ninguém a não ser a mim – homem desapontado – que falsidade. que injustiça. que angústia. se tudo o que tenho é dos outros. se tudo o que sou é o que sinto. o que vejo. o toque da pele com pele. o beijos. os sorrisos. as lágrimas. e as vozes. as vozes que guardo nos ouvidos e os abraços que de tão apertados quase me silenciam a respiração. e as mãos amarradas a todas as mãos. como se todos fizéssemos uma corrente de ferro capaz de amarrar o mundo dentro do meu corpo – sou tanto neste meu silêncio imperfeito de palavras por dizer – e o mundo dos outros sempre a carregar-me as costas com coisas. e tudo parece nada. e eu a colher. e o tempo a passar. rápido. acelerado. brusco. sem piedade. e agora já tudo parece tudo. e eu a colher e a filosofia é sofia e kant a dizer que a “missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem” e sempre que penso não sou nada porque tudo é tanto para saber. e eu cada vez mais distante de ser homem. de ser saber. e ele volta a dizer: “a felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação” e eu cada vez mais infeliz porque tudo o que vejo é tudo menos imaginação – o que vejo é tudo. e o corpo tão pequeno para tanto. e nunca descanso. nunca durmo. e o cérebro sempre a pedir mais espaço. mais saber para me fazer feliz e no mais de tudo o menos de saber viver com o que tenho. e tudo anda. e o corpo pede. e o cérebro exige. e mais uma chave no molhe de chaves. e mais uma porta a abrir dentro de outra porta. e outra. e outra. e tudo confuso e cada vez menos chaves para abrir tantas portas. e a confusão. e a loucura. e a dor. e os gritos que só dentro se ouvem. e depois uma janela voltada para os quatro pontos cardeais. e as asas sempre a querer mais vento para se manterem no céu em labaredas. e eu de cabeça no ar e tudo dentro de mim a ficar cheio com tanto do mundo. e os olhos em compaixão. e a boca a ferver. e a tinta da caneta seca de tanto pensar e nada escrever - sou tanto dos outros que de mim já só os ossos são duros de roer – o meu mundo é dos que me sabem ler
 
desambiguação

[também] somos o que fazemos com as palavras

 
vânia!

o celular - na minha terra telemóvel - é uma modernice do novo homem tecnológico – este homem. ligado a um futuro que não pára de surpreender. faz-me existir com o número 00 351 XXXXXXXXX – esta é a minha conexão ao satélite que liga o continente europeu com aquele que suporta o brasil. américa. onde reside a minha amiga vânia lopez – escreve a vânia:

-- um dia. não distante. prometo-te surpreender

diz que vai usar o seu celular marcando o número que me faz existir para o mundo – acredito. mas pelo sim e pelo não espero sentado para não cansar as pernas – quando concluíres a “call” cara colega. um sujeito antigo. subjugado agora ao valor das memórias vai responder a “você” assim:

- - sim. boa tarde. quem fala?

e vossemecê do outro lado responde em bicos de pés que não param de elevar o sorriso ao patamar das deusas mitológicas

- - oi meu qu(i)rido. qu(i) legal falar com você. qu(i) surpresa boa. valeu. estou tão feliz – nem acredito que fui capaz de ligar. qu(i) legal

dois mundos ligados por fios invisíveis giram amarrados a um fuso desgovernado pela emoção – tudo agora é enviesado. o eixo do mundo. as palavras permutadas. os corpos que cruzam palavras com sentimento. os braços descaídos para bolsos com medo de não saberem o que dizer e os olhos em órbitas desconhecidas percorrem uma nova trajetória emocional sob influência de uma nova lei do universo: escrever cria afetos – ligam as palavras o que o mar teima em separar – para o mundo literário chegou uma nova descoberta. um novo enviesamento tecnológico emocional – tudo sorri dentro de uns fios imaginados que ainda ninguém conseguiu ver – neste mundo os olhos são cegos. descansam para outros encantos que as palavras juram existir de verdade – as cabeças não param de imaginar o que vem da voz. doidas pela descoberta. ajardinadas pelo aroma. enfeitadas pela alegria. tombam para a emoção cruel da distância aprisionada a um fio-algema – seguram o céu ao imaginário de duas crianças escondidas em corpos feitos à palavra-papel. tantas vezes incompreendida. tantas vezes ignorada. tantas vezes manipulada. tantas vezes a teimar a verdade. escrevem-se numa vida censurada em solidão – comoção. agitação. perturbação. emoção e tudo oblíquo desde o dia em que o criador engendrou um homem de pó e uma mulher da sua costela. enviesámos para sempre em palavras – só ele sabe o porquê de nos colocar a rodar de lado para o universo – bem que podíamos estar verticais. olhos nos olhos. a tocar com as mãos numa perpendicular ao corpo. a dizer: estou aqui porque neste momento não poderia estar em mais lado nenhum. estou aqui porque descobrimos muito mais do que palavras escritas. descobrimos afeição – não é assim. mas a culpa também não é nossa. nós fazemos a nossa parte. gostamo-nos – quem manda pode – palavra a palavra vamos eletrizando o espaço com um perfume alfabético guardado em boiões de uma prosa universal – bem nos queremos escrevendo ou falando – ninguém arquitetava um mundo assim. cada vez mais global. cada vez mais informal. nunca bell imaginaria que a sua descoberta um dia habitaria tão perto das estrelas – se ele pudesse afigurar que um simples par de números estivesse ligado a um país. a uma operadora e a um nome que por sua vez. com a voz. faz com que a ida e a vinda de todas as palavras acabem por informar em grandes parangonas:

-- a lua está cada vez mais perto do mar

estamos os dois na lua – longe vai o tempo daqueles telefones enormes operados por senhoras de blusa branca. esguias. sempre a sorrir. cabelo apanhado. lábios pintados de um vermelho a trazer alquimia à voz: alô! quem fala?... tem uma chamada em linha da senhora vânia lopez aceita atender? o que era longe fez-se perto. o que era solidão fez-se saudade. o que era tempo fez-se presente. falamo-nos com abraços feitos de voz – mas o mundo não parou num telefone de manivela e agora as palavras acontecem velozmente – inesperadamente chega uma nova vaga de afetos tecnológicos:

--qu(i) saudade tinha de ouvir você. legal mesmo

verdade. verdade mesmo digo eu que já o sentia sem celular – este legal que pode ser também bestial. brutal ou boçal se as palavras não afagassem – ainda agora vi um golfinho a saltar para dentro de uma cratera lunar e um homem verde a ficar cor-de-rosa. talvez azul. cor do mar que separa a idealidade da nossa escrita – estou certo que um dia este mar será o nosso “mare nostrum” – mergulham as palavras que escrevo no avental de quem me quer bem. procuram conforto. proteção. talvez um comentário carinhoso escrito em verso livre ou um like de polegar virado para o céu – são rosas senhora. são rosas. e no regaço a mágoa de quem não sabe escrever a raiva dos continentes cercados de água por todos os lados menos pela escrita – são rosas com espinhos ou são espinhos com rosas – a lua presa a um mar que teima em dividir o que as palavras querem unir numa nova estrada metafórica – as mãos pedem cada vez mais acerto. ritmo e harmonia na escolha das palavras que atapetam oceanos em cores de amizade – há flores que teimam em nascer nesta encruzilhada de mãos amarradas aos pés – é afinal esta coisa de escrever que me faz pintar um quadro para ti: traço acanhado. suave. harmonioso. silencioso. pacato e a decair para o tom verde-esperança. o mar sem ondas. parado entre marés onde o futuro é ilegível e se pode ver um golfinho sentado na orla crescente da nossa lua sorrindo à beleza de um pensamento cristalino – a lua que canta fado no beiral da minha janela é a mesma que dança samba na avenida do marquês de sapucaí – é a tela que tenho para te oferecer minha amiga. uma tela feita do meu mundo. do meu sentir. do meu eu por inteiro onde a água engole as palavras de um mar ainda insuperável – sobrevive esta pequena luz de palavras em confronto com uma triste nostalgia de quem espera pelo tocar das vozes – só as sombras sabem o que existe do outro lado escuro da lua – um dia derrubarei com palavras que ainda não escrevi todas as sombras do mundo e a água será para sempre engolida pela terra – escreveremos então um novo poema a duas mãos – [também] somos o que fazemos com as palavras
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correspondência com a vânia

o meu celular. aqui na minha terra telemóvel. coisa da era dos homens do futuro e com o número 00 351 XXXXXXXXX - esta é a minha ligação ao satélite que liga o continente europeu com aquele que suporta o brasil - deste lado um homem vai responder - - sim. quem fala? e do outro lado do celular a voz. a voz caçadora de emoções. vânia. ui meu qu(i)rido. qu(i) bom falar com você - e o mundo sempre a girar. e o eixo que suporta os nossos pés a dizer: a lua está cada vez mais perto do mar. ainda agora vi um golfinho a saltar para dentro de uma cratera e um homem verde a ficar cor-de-rosa. talvez vermelho. talvez azul. cor do mar que separa a terra que mergulha nas palavras que escrevo - são rosas senhora. são rosas. e no regaço a dor de nunca escrever a ira do coração. são rosas com espinhos. são espinhos com rosas - e a lua à distancia de uma mão e o a.e.i.o.u. a pedir outras letras um v. um n e as flores a nascer nesta encruzilhada de mãos amarradas aos pés - é afinal esta coisa de escrever que me faz pintar um quadro para ti. traço pequeno. irrequieto. em tons verdes e o mar sem ondas. parado entre marés e o golfinho sentado ao tempo de um pensamento - é tela senhora. é uma tela senhora dos mundos pincelados de brilho. contrastes de luz que só as sombras compreendem

06 – 11 -2011 - [revisto em 18.06.2014]

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[também] somos o que fazemos com as palavras

assim

 
não estou
[escusam de me procurar]
parti
parti assim assim
fui-me em silêncio

esqueci tudo
estou por tudo
cansado do tempo
abandonei
o corpo
assim assim

bem
quer dizer
não sei
talvez tenha morrido
morrido assim assim

quem sabe
este meu assim assim
seja um erro na linha do tempo
um momento vazio
um segundo eterno
mas não é
agora já não é
o tempo
o tempo consumi-o todo
num corpo assim assim

restam os chinelos de agasalho
parados
sem pé
guardam o espectro
de um tempo dependurado
assim assim

perdido
nas paredes os gritos
sufocados pela cor da tinta
branco assim assim
branco. branco. branco
e o corpo.
perdido em busca de outro corpo
e o laço da corda
baloiça
assim assim

onde estou se não estou aqui
para onde fui
se da cor não sou
nem assim
nem assim assim

diz-me tu
que escreves assim
sou o que não sou
sombra
sombra assim assim

se um dia o sol morrer
mesmo que seja
assim assim
a sombra será eterna
nesta dor de ser
assim

inventei-me todos os dias
numa história
era uma vez
depois
depois não sei
foi tudo assim assim

dentro do tempo
o corpo
assim assim
perdida nas paredes
a vida
assim assim
a cabeça
assim assim
e a seus pés
decapitados pela razão
os olhos
assim. mortos de pó
 
assim

balancete

 
sou – tu. escrita. és agora o meu alimento – bem sei que as palavras estão sem sal. sem vinagre. sem cozedura. sem a força do deus fogo. bem sei – trago dentro de mim umas quantas frases feitas e não sei para que servem. recordações – amargurado. escrevo – a mágoa alonga sempre o que escrevo – as palavras multiplicam-se na proporcionalidade da mágoa – o que não era relevante é agora tudo o que me resta de um tempo fértil – e eu em banho-maria. a levantar fervura de recordações que nem sabia existirem – um homem com recordações pode morrer a qualquer momento – tempo-sábio. aprendemos tanto com a soma dos dias – trezentos e sessenta e cinco dias vezes cinquenta e dois isto é igual… não interessa. sei que é muito tempo – depois. chega a prova dos nove e quase tudo é resto zero – nas contas do tempo sobram unicamente as recordações. centésimas que fazem a diferença no acerto das contas – agora sou feito de tempo e recordações – escrever é um ato solitário – quando escrevo encontro o silêncio de todas as almas do mundo. cobrem-me com uma proteção sagrada. e a mão escreve num silêncio divino. em estado puro. sem pecado. sem remorsos. sem relógio. sem idade. sem nenhum dedo a julgar. e a balança parada num equilíbrio justo: de um lado o homem errante. do outro. em jeito de contrapeso. o perdão sobre a minha palavra de honra – sou feito de tempo – o silêncio para quem escreve é a prova de que a vida existe – no interior as palavras libertam-se finalmente das correntes. e o passado volta a ser hoje – com a escrita consigo ser hoje o que fui no passado e então. como criança. sou novamente feliz – ser feliz. alguém consegue ser feliz enquanto pensa?
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– só escrevo com a mão direita e a direito
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estou só. como gosto. e não tenho para quem ler esta folha. que ainda agora era branca. bastou um leve mover de mão. exagerado. para sarrabiscar tudo o que carrego numa saudade-medo – tenho medo de me esquecer – um dia esqueço-me – sinto que as palavras são a única forma de não deixar esquecer este sou – podia trazer outro sou para a escrita. mas não. trago este – não escolhemos o sou nem o seu fruto. somos o que somos e não há forma de fugir às palavras que me crescem nas mãos deste sou – da mesma forma que as macieiras dão maçãs e não dão cerejas – sou este sou e nunca conseguirei ser outro – cada árvore dá o que tem na raiz. e a minha raiz é esta. assim. com o corpo caído para norte e a mão a teimar escrever para sul – escrevo torto por linhas direitas – escrevo para dizer que existo. se não tivesse estas palavras como testemunhas. neste papel que já foi árvore. ninguém saberia da minha existência. talvez nem eu – neste tempo grisalho. os sonhos são cada vez mais pequenos – quando escrevo faço-me existir. lerem-me é saber que existo de verdade – escrevo logo existo
 
balancete

estado totémico

 
nunca sei de onde me chega esta coragem de vos dizer como sou – louquice – retalho-me pelo que sinto – se soubesse não era louco. não me retalhava. não me temia – louco pode ser um qualquer. ou não – por uma coisa pessoal. ou não – com coisa do demónio. ou não – ou simplesmente um raio de uma porta emperrada. ou não – ou então. talvez o mais certo. é esta loucura acontecer numa luta contra o destino – uma questão de sobrevivência. coisa da alma – mas o cérebro sabe que a morte é inevitável – é necessário ser louco quanto antes – a morte só é silêncio para quem parte – quando partimos levamos tudo – este tudo para mim que gosto de me dar são as palavras que ficam por dizer – a morte só não cala a escrita
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[resposta ao colega transversal no meu texto ressacado]
 
estado totémico

estes lados. nossos

 
hoje tenho entre os dedos um pedaço de terra. trouxe-a de um jazigo para amaciar uma saudade – depois da tua partida senti-me sempre tão perdido. tinha ainda coisas encaixotadas do passado para te dizer. eram importantes. digo eu – não devias ter apanhado esse autocarro. bem sabes que o caminho por aí é demorado. estreito. essa estrada é sempre tão isolada. tão triste. tão sem vida. tão escura. – tenho medo que estejas sozinho e com frio. podias ter levado aquele sobretudo de lã às cores. fazia-te bem mais novo. era lã pura. combinava contigo – um dia vesti-o. irritei-me. não me assentava nos ombros. sempre foste mais aprumado. tinhas as costas sempre tão direitas – as minhas. bem. as minhas sempre foram apenas mais umas costas – tenho dias em que adormeço a acreditar que é possível viver nos sonhos – ontem consegui falar-te com os lábios. sempre depois daquele beijo obrigatório na face. quente. senti eu – deixaste-me ficar um trago açucarado na boca. mel – calei-me. guardei-o no silêncio criado pelos meus olhos. nosso – apeteceu-me estender as mãos. tocar-te – tive medo de acordar. guardei a mão na algibeira. é nesta que tenho cravada a linha da vida que um dia foi cortada pela tua ausência – nesta linha que continua a crescer aos ésses . criei uma árvore em terra fértil quando ainda não via todas as folhas. algumas viviam no topo das árvores. sem luz – era pequeno demais e tu viravas-me sempre para nascente – nos dias em que me pegavas ao colo. as árvores eram enormes – a vida ainda acontecia nos teus braços. fortes. tão fortes que sempre sorria quando me erguias em direcção ao céu – ainda nem imaginava que havia um céu capaz de receber todos aqueles que gostamos – apenas sabia de um jardim infantil criado para mim – havia sempre tanta gente a dizer coisas neste jardim. faziam um quase barulho. talvez um quase música – tu. falavas como se as palavras ainda não tivessem sido inventadas – nunca paravas – e nos teus olhos. nos teus olhos a alma das pessoas – neste mundo. havia um baloiço que nunca parava de ir e vir. como tu. partias para o teu mundo que mais tarde haveria de ser também meu – regressavas sempre. por mais que o tempo matasse o próprio tempo. sempre com um sorriso. sempre o soube – parecia tudo tão simples. bem sei que tu também eras simples – este baloiço andava para lá e para cá devagar. havia ali algo que eu ainda não percebia. sabia apenas que voava sempre de norte para sul – tu bem que me apontavas o caminho. mas era demasiado pequeno para entender que até o sol um dia pode morrer – mas não desistias. os teus gestos eram sempre palavras novas na certeza de ver um homem feliz – na tua presença o baloiço nunca parava: livre. procurava sempre novas palavras. novos ouvidos. novos olhares. novos gestos. esquecias sempre o teu caminho. cortavas o futuro. alagavas todos os longes. ficava apenas um ali. um acolá – as argolas de ferro que te seguravam à vida já rangiam – nesses dias. ouvia-se o vento. mal eu sabia que este ir e vir era já a vida a esgotar-se – cansado. respiravas ainda amparado no sinal da cruz com que te deitavas – tu ainda tinhas um deus. ele também era meu. estamos amuados – para te ser franco dele nada sei – no ar as folhas chamavam o outono – depois. apareceu aquele autocarro. as argolas partiram-se e as cordas começaram a chorar – nesse dia que viajaste fiquei tão só – tínhamos ainda tanta coisa para dizer – mais tarde um homem de chapéu preto chamou-me pelo teu nome. aquele que eu nunca uso por ser só teu. deu-me uma chave com um fita preta sem nenhuma palavra tua – tu não eras homem para partir sem palavras. não eras – tu sempre me dizias: porta-te bem enquanto estou fora. não aborreças a tua mãe – alguém te enganou. digo eu – fomos enganados – tiraram-te a memória para poderes partir sem boca – a dor comeu o silêncio – sei que um dia vais voltar. ou então esperarás por mim. tens de me explicar onde deixaste aquele santinho que usavas na carteira. nunca mais o vi. acredito que volte contigo – sei que um dia me vais pedir para falar da vida que guarda todos os dias – enterro tudo num buraco. onde criei a árvore – a pá é a tua voz.
 
estes lados. nossos

teresa teixeira – sterea

 
“Às vezes, amigo, caem-me palavras líquidas dos olhos de te ler...”
sterea – 02.06.2011

comentário feito no meu texto “nunca acaba amiga”

como dizer-te que as tuas palavras sufocam – o ar desaparece. um nó feito de comoção aperta. e eu sem saber deslaçar esta aflição – na cabeça nascem atalhos que me levam para perto do que me dizes – há palavras que são eternas. e o corpo certifica para sempre o que é ser feliz – a cadeira ainda é a mesma desde aquele dia em que te li pela primeira vez. só o couro perdeu a cor. gastou-se na procura de um lugar seguro onde guardar as palavras que me deixas – escrever é bom – saber que me lês é especial – sempre que me escreves deixas-me cansado – fico sem saber o que fazer ao coração – deito as mãos ao peito e sei que ele bate das tuas palavras. sempre certo. ritmado pelos afectos de quem gosta de ler o que as palavras escondem – e o pensamento sem nada dizer. perdido nas entre linhas da vida que deixas tombar sobre o papel. feito de bondade – as estrelas brilham mesmo quando não há noite – o tempo é a tua alma. fez-te palavra – resta a memória – o que seria dos homens sem memória. sem nomes. sem lugares. sem abraços. sem bondade. há rostos que não se podem esquecer. momentos – momentos escritos são para sempre – memória – e leio e releio e o corpo ali. aqui. acolá. os olhos parados em sorrisos. eternos – não há força que desocupe o tempo quando dizes que as palavras são feitas para abraçar. e eu a agigantar-me ao mundo. a acreditar que o passado nos teus olhos é esperança. até a dor termina quando sorri pela vontade de te dizer: obrigado. obrigado por me fazeres feliz. obrigado por me ajudares a escrever. obrigado por me ajudares a ver o caminho. certo pelas palavras com que me abraças – memória – o que seria dos homens sem memória – há um outro tempo na tua escrita desigual. mulher-abraço. mulher-doce. mulher-dor. mulher-esperança. mulher-futuro. e uma mulher-mulher capaz de escolher a bondade. estender as mãos à vida. à amizade – e eu deste lado a ouvir o que escreves – ouço palavras como se fossem ditas ao ouvido. e o nó aperta. sufoca. e o ar foge. e a dor de estar feliz aqui dentro a dizer-te: doce memória. bendita memória – e abro mais um texto. e lá vens tu devagar. em silêncio é primavera. pelas rosas brancas – as amendoeiras sempre dão flor. todo o ano. o fruto pendurado em palavras que não acabam – e lembro vinhas do douro a correr rio. é outono. à lareira chama-se o inverno. largam-se as palavras. frias. à sombra do que arde. é quando a tristeza volta às noites longas. aqui o tempo parou. para sempre – e eu estou no meio de palavras-bondade. palavras-mel. palavras-saber – memória – quando escreves há em ti palavras que me apertam e só a dor. em sorrisos. me faz lembrar que sou mortal – quanta bondade. quanta ternura. quanta beleza há nesses olhos que sabem ler estas minhas palavras tortas. loucas. perdidas no tempo que imaginava só meu. pela incompreensão de nem eu as entender – e eu ali a contar pedras no chão. juntava-as com o arrastar das pernas de um lado para o outro. uma a uma. até fazer um muro que nunca mais me deixou ver para outro lado. um muro de vergonha. um muro apenas atravessado pelo som que anunciava a partida dos sorrisos. em bocas que nunca souberam dar um beijo – um beijo teresa. um beijo na face que já não tinha lado – não há lados para aqueles usam palavras para acarinhar. para dizer gosto – gosto porque gosto. porque é quente. é verão. porque é frio. é inverno. e no teu tempo inventas outro tempo. o tempo do que é desigual pela força de um outro tempo. feito à força de nunca veres o erro nos outros – sou erro. mas depois de te ler. volto a ser apenas eu. desigual sim. mas eu. assim como sou em cada palavra que escrevo feita memória – tu nasceste com essa grandeza de saber ler as palavras com abraços. e depois. escreves essas coisas que me fazem ver novamente o tempo como se hoje fosse o primeiro segundo de um dia que nunca tive. um tempo novo onde o erro ainda não tinha nascido – memória – e os muros voltam a cair. as pernas voltam a fazer cair as pedras para lá das nuvens onde vivem os arrependimentos que nunca consegui escrever. linhas em branco. imagino eu – não podes. nunca mais. fazer destas coisas teresa. estou sem ar e as palavras respiram com dificuldade e não tenho forma de te dizer obrigado. sem ter de que parar a meio para voltar a ganhar fôlego – estou cansado. estou cansado mas feliz. por ainda conseguir dizer-te obrigado. obrigado por manteres a memória como um abraço feito de palavras que não sei esquecer – obrigado teresa. até sempre –
 
teresa teixeira – sterea

imelda marcos

 
certo dia. na feira da literatura do luso poemas. um poeta ambulante desta “escola”. elitista [penso]. postou no seu espaço de opinião umas linhas de sua autoria sobre um qualquer assunto que já não recordo – lembro-me que gostei – despertada a minha modesta atenção. peguei no teclado. toquei as teclas com muito jeitinho e comentei como entendi – não sei se bem ou mal. comentei com a arte que ao longo do tempo fui capaz de amealhar – não foi muita. confesso com vergonha – já fiz muitas coisas na vida. não nestas coisas da literatura. destas. infelizmente. nada sei. mas de outras que sendo menos eruditas. ensinaram-me a compreender vagarosamente o que os hábeis escritores vão escrevendo numa arte que invejo – confesso que a minha destreza para a escrita é muito modesta. mas na oralidade o desastre é multiplicado por dez – um mal nunca vem só – daí a importância da “escrituração” para os mancebos como eu – escrever é comunicar – nesta habilidade feita a punho é sempre possível voltar atrás. reescrever o que pensamos estar menos bem. repensar. voltar a reescrever – fico sempre com a sensação de que quando reescrevo a emenda é pior que o soneto – aprendi a suportar com tristeza esta marca – burro velho não aprende línguas –

[prosseguindo. penso ainda]

comentar um autor. que através da escrita. teve a mestria de conquistar a minha [leitor] atenção. deve ser gratificante – que inveja tenho desta gente que é lida – eu bem tento. mas nada. ninguém me comenta – só deus [se houvesse] e eu é que sabemos a dor que me consome o corpo – as palavras são sempre tão difíceis de juntar –

[andando]

confesso que para mim comentar é na maior parte das vezes um impulso impregnado de gratidão. com resultados quase sempre inesperados pela perturbação emocional com que me entrego ao teclado. quero dizer: desfecho de escrita duvidosa –

[raios partam a minha sorte]

é amargo para quem não tem o dom da escrita – dentro da cabeça milhentas coisas lutam desesperadamente por um lugar no papel. as ideias penetradas por um sentimento maravilhado pulam de lado para lado. empurram-se. esmagam-se e arrumam-se como podem no espaço branco de uma folha a4 sem expressarem uma milésima parte do que deveriam dizer – tanto deslumbramento e o corpo sem forma de o mostrar – e a desarrumação aos gritos no branco da folha – desordem emocional é tudo o que ganhei por um dia ter aprendido a ler –

[que inveja da cegueira dos analfabetos. nenhuma letra os atrapalha]

mas nem sempre somos o que queremos. na maior parte das vezes somos o acaso de um caso na vida – um dia o meu pai e a minha mãe resolveram dar um beijo no período fértil. aconteci – cresci a imaginar coisas e de cravo na mão parti no meio de uma manifestação a cantar zeca afonso – quando olhei para mim era homem –
[menos homem do que sou hoje. era um garoto de maior idade]
assim foi. e o tempo a fazer-me crescer e a consumir vontades – os dias eram pequeníssimos para tudo o que sonhava fazer – as coisas do saber exigiam-me tempo que não podia dar e tudo foi ficando adiado em nome de ideais que hoje já não existem –

[também o meu muro caiu. eu e berlim unidos pelo mesmo destino]

os dias tornam-se compridos e impertinentes – envelheço a sonhar com uma casa virada para o mar. um sofá. uma lareira e uma mesa carregada de saber: livros e livros de gente que não sabe que existo. eu ali estou – sozinho para eles. acompanhado de amigos para mim – todos tão diferentes e todos como eu. unidos pela força das palavras – eu e eles virados para a lareira. eu e eles a ouvir o ir e o vir do meu mar e todos felizes com tão pouco – no resto do mundo as minhas gaivotas rasgam o vento numa liberdade que nunca alcancei – se eu pudesse acontecer de novo – na cabeça a morte trágica de romeu e julieta alimenta-me a esperança de eu também partir envenenado por uma última leitura do amor da minha vida: júlio dinis – havia tanto nos livros deste homem: saber. honra. verdade. tradição. família. trabalho. esperança. amor. caridade. humildade. humanidade. havia sonhos – sempre sonhei com um mundo bom –

[adiante]

uns dias mais tarde recebi em jeito de resposta ao meu comentário um pequeníssimo amontoado de palavras. que reconheço. talvez por minha culpa. nunca fui capaz de as compreender – lembro-me de ficar irritadíssimo – resisti – ao longo de muitos dias não fui capaz de encontrar no meu conhecimento o mérito suficiente para compreender o meu ilustríssimo escrevente – fiquei arrasado. mas logo percebi que o autor escreveu tudo num superlativo absoluto sintético – não tenho estudos para superlativos – envergonhado. remeti o meu corpo ao silêncio –

[desonra pensei. e como manda a tradição do país ao melhor soldado japonês. suicidei-me no meu silêncio]

não se vive em desonra – como foi possível não ter sido capaz de interpretar um simples amontoado de palavras – sei que estavam cobertas por uma ambiguidade sarcástica – como foi possível isto acontecer – tudo isto sufocava. tudo isto era como o enrolar da jiboia. apertava cada vez mais e a asfixia total era uma questão de tempo – o que o nobre colega retratou naquele breve comentário pode ser descrito como uma pintura abstrata lírica. de cores pouco definidas. traço largo. firme e suficiente forte para abraçar toda a ingenuidade do leitor ao ponto de o deixar confuso [louco] –

[havia naquelas palavras um cheiro forte a tons pastel-terra. lembrando o outono. o cair da folha. as primeiras geadas e a morte dos mais débeis à crueldade da natureza]

lembro-me de ficar com um misto de intriga e fascínio pela imagem do avatar do colega – era arrasadora: os olhos inclinavam-se para dentro. protegidos por uns óculos de massa que mais pareciam uma prisão. a boca como se nunca tivesse falado. perfeita – a barba [percebia-se] cortada à tesoura. a tombar para a esquerda como se impõe a um verdadeiro revolucionário com estudos – toda a imagem era profundamente perturbante. uma mistura deliciosa de madre teresa de calcutá com a heroicidade de che guevara – lembro-me de pensar: a história jamais apagará um retrato como este – nunca lhe perdi a admiração. ainda hoje. em segredo. pé ante pé para não incomodar. lá vou eu dar um escapadelazinha ao seu covil de saber – fico sempre estarrecido com a humildade de quem sabe que sabe –

[sou um romântico]

fiquei tempos sem fim a olhar para as palavras. ora lia o meu comentário. ora lia a resposta ao meu comentário – hoje posso garantir com verdade que não foi nada fácil aguentar aquela dor de saber que nada sabemos – é como nas corridas de fundo no atletismo. a meio da prova. surge uma dor na zona abdominal. chamam-lhe dor de burro. confesso que não sei o porquê – na dor de burro. sabemos que dói. colocamos a mão sobre o local da dor para comprimi-la mas não há nada a fazer. só pára mesmo de doer quando paramos de correr. neste caso de ler – assim fiz. e logo a dor parou – hoje à distância do tempo já gasto. lembro-me do local da dor e de um pequeno excerto do comentário que originou uma das piores dores de burro que tive na vida – dizia o meu caro colega que as minhas palavras lhe traziam à memória imelda marcos pela adoração que esta tinha por sapatos – este comentário mudou a minha vida – hoje sou um comprador compulsivo de sapatos. fanático e sem tratamento – tudo faço para embelezar os pés – aprendi que é absolutamente necessário estar bem calçado para que a escrita se torne credível. formosa e principalmente lida – nunca escrevo descalço. não. nunca mais quero ter aquela dor de burro –

[escrevi. li. pensei. escrevi e passaram-se provavelmente dois anos]

e agora vou dormir em paz

sampaio rego – 22 de julho de 2013
 
imelda marcos

borboletas de agosto - 1 de 5

 
1.

5 de agosto o teu dia. todos têm um dia para nascer. apenas um. tu nasceste quando minguam os dias. ao contrário. em mim. os dias nunca param de crescer. nasci numa primavera tua – o calor de agosto é único. sufoca no pico do sol. mas com o cair da noite desdobro o primeiro casaquinho de lã. agasalho a primeira pele. encolho a face. guardo metade dos sorrisos. arrumo o corpo a favor do vento e caminho devagar de encontro ao tempo orvalhado – a melancolia dos dias pequenos está por aí a chegar – quando o agosto acaba. o setembro surge sempre a correr. a primeira humidade toca nos ossos. a solidão começa a ganhar lugar às pessoas. e as palavras quentes acabam por desaparecer – os dias escurecem mais cedo. e o corpo recupera a memória. esta necessita de sombra. de silêncio. de solidão. de cadeira. de borralho. de encostar o corpo aos olhos e rever tudo de novo. recuperar num outro tempo recordações perdidas – nada pode ficar para trás. nada pode ficar esquecido para sempre – um dia. sem que o corpo reconheça emoção. e a chuva se fizer ouvir nas telhas de vidro. levo o corpo à janela. descubro mais um natal. sei-o porque as casas estão enfeitadas com lâmpadas às cores. desejam boas-festas a um ritmo cadenciado com o apagar e acender das luzes – também tenho uma memória assim. acende-se e apaga-se ao ritmo da saudade. só não tem luz às cores. tem abraços apertados que ficaram perdidos em fotos a preto e branco – envelheço por cada natal . envelheço por cada agosto. envelheço pregado a um passado de palavras por dizer – o meu passado sempre foi agosto e natal. agora. agora é mutilação. é falta. é palavra cortada a meio. é história interminável – só a morte voltará a alinhar os corpos lado a lado. o nosso lado –
 
borboletas de agosto - 1 de 5

retalhos – número de série 18082014s(r)ego23

 
para o
escrevinhador:

a soma do tempo é feita palavra a palavra
 
retalhos – número de série 18082014s(r)ego23

correspondência violada - 01

 
e agora.

como resolvo estar vivo se é na morte das palavras que nós encontramos as mãos com que escrevemos
como faço para estar vivo se é com a tristeza da perda que as minhas gaivotas voam
diz-me
diz-me
se morrer é esta coisa de dizer coisas sem sentido
se morrer é abraçar as tuas palavras como se fossem tiradas de dentro de mim
se morrer é gritar pelas cores que enxergo no que escreves
e eu cada vez mais negro
-
encosto-me
encosto-me numa marquesa que já foi rainha
e escrevo
nunca fui nada
penso.
quero pensar nesta garganta que já não faz barulho
e o vazio é enorme
vai daqui até dentro do meu dedo indicador
-
onde está a aguardente
quero queimar a voz
as palavras tem que nascer roucas
como o coração
rouco de gritar por socorro
e eu só
morto sem saber

só tu aí me ouves

-

correio privado com a minha querida amiga vânia - abril de 2012
 
correspondência violada - 01

nunca acaba amiga

 
nunca acaba. as mãos nunca acabam. elas escrevem como sempre. com o mesmo cheiro a mar. com a mesma gaivota a voar em círculos. bem sei que os círculos estão cada vez mais fechados. mas não fiques triste. só assim estão porque aprenderam a amainar os ventos. mesmo aqueles em que o vento se faz a norte dos olhos. lá para os lados do desalento. do fim do mundo – nesses dias amiga. nesses dias os olhos procuram sempre o fim do mundo. muitas vezes perdidos. desnorteados. confundidos. amedrontados pelo que ouvem aqui e acolá – mas sabes amiga. eu sei que sabes. sei tanto de ti que posso dizê-lo com toda a certeza: tu sabes que o fim do mundo fica para lá do horizonte. o que vejo todos os dias ao entardecer. quando o sol cai e a escuridão rompe pelas palavras como um farol pelo mar dos que escrevem com a noite. este farol minha amiga cuida de mim. não. cuida de todos aqueles que se atrevem a escrever com o corpo encrespado. como tu amiga. como eu que sou teu amigo – procuramos tudo dentro do corpo. até as palavras – muitas vezes sem o corpo compreender a carne cansa. desiste do belo. enruga. começa a cair aos pedaços como se de lepra se tratasse – sabes amiga. descobri que as letras também caem. caem porque é outono no corpo. e no outono as folhas cobrem sempre o chão em silêncio. o sol mais pequeno amarra-se às árvores com a luz que sobrou dos dias que já foram grandes. segura pequenas primaveras – também nós seguramos primaveras. e ficamos ainda mais belos quando não temos palavras um para outro. belos porque sabemos existir em silêncio – mas minha amiga. as letras não enganam o sol. o vento frio anuncia as primeiras geadas nas mãos onde ainda cabe tudo. mãos que apertam as janelas contra o peito que nunca acaba de encher – mas a vontade ainda é silêncio. a vontade ainda é outono. ainda há folhas por cair. ainda há outono no ar. outono dentro da janela – lá fora. do outro lado da janela que me segura. as árvores vivem agora despidas – no chão as folhas. nos ramos demoram-se os últimos sorrisos. como é possível sorrir amiga quando o corpo está nu. e o vento é um mundo desconhecido – ainda ontem era verde. ainda ontem o mundo era verde. verde esperança. ainda o tenho á frente dos olhos. dentro das mãos. dentro da janela. dentro do hoje que quero falar contigo em silêncio verde. com palavras fortes. verdes. capazes de resistir ao vento que teima em correr entre os dedos verdes também – hoje amiga. hoje minha querida amiga. que o dia está com um sol que só apanha metade da janela onde estou todo. e tu. a todo momento podes aparecer em silêncio. e em silêncio dizes-me. dizes-me silêncio. porque as folhas continuam a cair em silêncio. o mundo não acaba com os silêncios enquanto houver árvores. e há tantas árvores despidas como eu. como tu. despidas pelo outono. despidas porque gostam de meter as mãos por dentro de si para aquecer os gestos que querem deixar partir com as folhas de outono. folhas das árvores abertas ao tempo. e são tantas. sabes amiga são tantas. conto uma. duas. três. quatro. cinco e mais e mais e mais. cada vez mais mundo. e o tempo a passar entre elas em forma de vento – hoje minha amiga. é outono. é outono porque me despi para ti com palavras feitas de folhas. é um outono bonito. mesmo estando eu deste lado da janela e as folhas do outro lado. mas estou feliz. estou tão feliz que estou a fazer de conta que sou o vento. amarro nas folhas que fazem o outono e sopro para ti. sopro para o teu fim do mundo. sopro com o peito cheio de palavras que ficaram por dizer. mas se vires folhas no ar. belas. harmoniosas. livres. sorridentes. não tenhas medo. é o meu outono a fazer primavera na tua vida.
 
nunca acaba amiga

para uma amiga com aftas na língua

 
com que então a menina anda metida nas aftas. a vida da treta é dolorosa para quem como nós gosta de dar à língua a qualquer custo – escutamos então o mundo em silêncio – mas não te apoquentes. isso passa rápido e logo ficas novamente tagarela – quando era pequeno dizia que tinha “africas” na boca. talvez venha daí o meu primeiro abeiramento ao continente africano – adoro áfrica e o seu povo. o “selvagem”. o “virgem”. o “puro”. o das savanas. das florestas. dos rios com pirogas cortados a lanças plagiando anzóis – gosto das suas mulheres de seios nus. sentadas num almofariz de pedra gigante. catam cabeças da criançada parada num tempo sem números – nesta terra o dia acaba coma as árvores a engolir o céu como se fossem feijoeiros mágicos devorando um sol que nunca viu o mar. e os peixes vestem-se de rugidos ferozes. aterrorizando o escuro. e o silêncio quebrado pela fogueira a dançar rezas de um feiticeiro amamentado pelo leite de hiena – hoje. quero acreditar num deus que fez o mundo em setes dias. só hoje – estou a falar de homens bons. sem pecado. estou a falar de áfrica. do cheiro à terra queimada. da noite às cinco da tarde. do calor a deslizar pelo corpo em gotas pegajosa onde os mosquitos se amarram como se fossem aquelas fitas do antigamente que se penduravam nas portas das casas. dos leões. das gazelas. rinocerontes e toda a bicharada amiga do tarzan e da jane – gosto de áfrica. dos homens que usam uma tanga para tapar o que ninguém quer ver. gosto das velhas com as mamas a cair no umbigo e a rirem da cara de parvo do caixeiro viajante que lhes quer vender um soutien – lá estou eu a divagar. queria apenas dizer-vos que uma amiga tinha “africas” na língua – mas afinal o que são umas quantas “áfricas” na ponta da língua. nada. uma mesquinhez. umas minúsculas borbulhas excitadas com algum condimento mais apurado. afrodisíaco na construção excessiva de ditongos orais numa necessidade quase orgásmica para poder atingir o prazer supremo da comunicação – não basta falar com os olhos. não. não basta. e mesmo que as mãos pulem dos bolsos e se amarrem em abraços aos corpos que nos pedem socorro por um beijo que lhe diga: gostamo-nos – nenhum beijo substitui a palavra atirada de uma língua mesmo com aftas – sou louco. dizem – grave mesmo é se nos aparece um leão entre os dentes a correr atrás de uma gazela. e uns quantos canibais de ossos enrolados no cabelo. em gritos de fome a dizer: os restos da carne do almoço nos dentes é nossa – lá estou eu novamente a vaguear. a fantasiar tipo peter pan – por falar nisso. hoje comi peixe ao almoço será possível ter um canibal sentado no dente do siso de cana de pesca a lançar o anzol para a boca do estômago á procura de uma qualquer lombriga pré-histórica – não sei. talvez o remédio para estes meus devaneios cerebrais seja mesmo entregar-me a uma casa de saúde mental para finalmente descansar nas paredes brancas. curar-me penso eu – quartos brancos. janelas brancas protegidas por grades verdes esperança. paredes brancas. aparadeira branca. escondida numa mesinha de cabeceira também branca. chinelos brancos. pijama branco com o bolso bordado a letras douradas: casa de saúde dos aflitos. fundada em 1790 e inaugurada por sua excelência marquês do pombal. columbófilo. dono de vários pombais e outras excentricidades com aves de rapina – tudo branco. e um homem preso a um colete de forças negro feito por escravos embarcados na nau catrineta – e lá vem a nau catrineta anónima a navegar nas paredes do meu hospício. em ângulos de noventa graus. como se o mundo ainda tivesse um bom fim num dos cantos da minha imaginação – mas não. para a cada ângulo de visão uma recta com fim noutro ângulo – vejo tudo em ângulos que não sei dar nome. são ângulos meus. onde nas dobras faço acontecer sonhos estúpidos em histórias de coragem duvidosa. protegidas por roupagem branca lavada com omo – com omo toda a roupa e imaginação fica mais branca do que o branco – dentro destas casas brancas nenhum homem é culpado de nada. somos mesmo brancos dentro de olhos pretos – não sei onde estou. perdi-me. sei que estou a escrever uma missiva resposta a umas quantas “africas” no ponta da língua – quem me dera ter na ponta da língua agora umas respostas para todas as dúvidas brancas com que me embrulharam à nascença – talvez seja doença. talvez os diabetes em formação de ataque. excesso de doce. e as espadas empunhadas em gritos aflitos avisam o cérebro que está para breve o fim da lucidez e finalmente o triunfo do eterno sobre a vida terrena – no céu os anjos são brancos. tão brancos que até se confundem com as nuvens e todos os homens são transparentes. e os poemas a rimar com palavras que nunca foram usadas por poetas de olhos encovados de dor na procura das palavras certas. é preciso sobreviver para além do cabo da boa esperança. o fim do mundo – e as andorinhas brancas fazem ninhos de algodão nas mãos dos que querem escrever e não sabem. talvez um dia nasça uma capaz de voar para lá do que os homens sabem – não quero mais ter a cabeça no inferno. quero ir para o céu. para as nuvens que não vejo desde aquele dia em que me empurraram para o mundo cerebral – não quero cérebro. um homem sem cérebro não tem maldade e quando não há maldade não há lombrigas e sem lombrigas não há canibais a pescar e sem canibais não há leões. nem gazelas e muito menos carne no meio dos dentes e sem dentes não há mordeduras e as marcas não são nódoas. são beijos loucos nascidos para amar – eu gosto de amar. amo tudo. até o candeeiro da minha rua que fundiu por viver ao abandono de gente como eu – um dia pego num escadote e mudo-lhe a lâmpada. e depois talvez me enforque num filamento iluminado de esperança – e agora vou fazer o jantar. cabrito assado no forno com batata a murro. não gosto de cabrito. mas apetece-me dar uns murros – o mundo é cego e eu vivo dentro dele
.
- // -
.
Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
.
Alberto Caeiro
 
para uma amiga com aftas na língua

abyssus abyssum invocat

 
o meu nome é sampaio – isto ainda não acabou mas sei obrigatoriamente que um dia vou sossegar – um alpendre virado a sul. uma cadeira de baloiço. um livro por escrever e a saudade a causar uma nostalgia-descanso – do outro lado dos olhos. além-terra. o mar: sereno. formoso. robusto. estático. sem nada a ir e a vir – só silêncio – na cadeira o corpo preso a um olhar demorado na fímbria do tempo andado – contemplação – nada volta – costas. ombros. braços. mãos. dedos. finalmente tudo pronto para um adormecer tranquilo. tudo em descanso. e tudo são agora recordações que enterro para sempre na preia-mar – as pernas estendidas seguram na extremidade pés deformados. cobertos por sapatos pretos-baço numa simetria perfeita – os atacadores cruzados em forma de cruz tombam numa laçada forte para sul. como se quisessem apontar com seguridade o caminho reservado a quem adormece em paz – em cada pé um caminho feito. em cada sapato um pé-de-meia escondido para o dia de todos os dias – três ou quatro fotos. a chave da morada onde o meu pai descansa. o anel de duas cores. o abraço guardado de cada um dos meus filhos e os lábios-aroma da mulher da minha vida – os pés de tempos em tempos cruzam-se. descansam um em cima do outro. revessam-se pela mesmice do descanso – sempre foi assim. nunca se deram parados e tantas vezes andavam sem sair do sítio. mas andavam – conhecem-se como ninguém. o caminho de um foi o de outro – do alpendre tudo se apresenta imóvel. o corpo. os olhos. o mar. as gaivotas. os sonhos. a contrição. as desilusões. a esperança e a promessa imutável de que um dia partiria feliz – mas as promessas também se quebram. cristal – só bóreas continua inalterável. sacode a ira com um último sopro gélido. trespassa-me a camisa no decrépito solar rompendo a pele num arrepio quebradiço. cristal-prenunciação – o silêncio é agora imperecível num horizonte que se esgota com a permissão dos olhos. mais pequenos a cada lembrança. quase escuros. inofensivos e a energia do ser augura finalmente aprovação para o fim – o que me sobra dos olhos já não aguenta as minhas gaivotas naquele voar descuidado. livre. espontâneo. destemido. guerreiro. agora voam a favor do vento norte sobrevoando o sobrolho em círculos que se tornam mais pequenos a cada volta – sempre amei a liberdade das gaivotas. talvez por nunca ter percebido se é feita só de vento – finalmente na face uma expressão eterna de um sorriso que num vi – por fim livre. fora do corpo – morte e vida severina
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*abyssus abyssum invocat - um abismo atrai o outro
* morte e vida severina – joão cabral de melo neto
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abyssus abyssum invocat

não tirem o vento às gaivotas - sampaio rego sou eu