Poemas, frases e mensagens de umero

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de umero

Carta aos desimportantes II

 
quando o poeta morrer
será louvado pelos vermes
que lhe erguerão uma estátua
no derretimento das epidermes

que dedicarão a ele e a seu tormento
um monumento

um assento lá no fim
ou extremo da mesa da desgraça
um obelisco na praça
ou jardim do apodrecimento

esse é o destino de vocês, seletos:
sofrer a invasão de vermes indiscretos.
 
Carta aos desimportantes II

Manual dos Desajustados

 
a Pedro Guerra
Mariana, 22/2/11

Na minha vida fiz tudo errado
e deu certo
não “certo” no sentido de “certo”
mas no sentido de que eu não poderia
deixar de estar aqui.

Aliás, eu bem poderia deixar
de ser essa poeira à beira do caminho,
essa embalagem descartável de um vazio maior
que a rotina dos infelizes.
Eu poderia muito bem
deixar de ser esse riso sem eco
nem continuidade
esse humor mau humorado
esporádico e desusado;
deixar de ser esse livro na estante
inconsultável e distante
esse brinquedo de um destino que não sabe brincar
essa fruta podre atirada no vácuo
essa sombra sem luz, arma sem guerra
boi subindo a serra, um mero
animal dormindo no zoológico de seus passos
ou inseto metamorfoseando
no casulo fotográfico das tempestades.

Eu poderia deixar de ser
esse inseto, poeira, sombra ou besteira
dita pela boca de uma criança boba
ou pelos fantasmas que inventei
quando eles mesmos me inventaram
com a reciprocidade caduca
de uma fuga maluca ou aversão
ou ojeriza ou arrependimento
de ser o que sou.

Mas deixar de ser não pude
e fui, cumpri o amargo papel
de desempenhar todas as coisas sem sentido
que se acumularam em minha memória
irrisória
como detritos no ralo,
como restos desprovidos de charme
do banquete do inferno de ser;
cumpri o papel
de elaborar uma imagem razoável
a partir de um ego detestável
e arrogante e fui uma promessa
de uma nova humanidade da qual
já não me lembro quais valores
fundariam o verdadeiro gosto de viver
sem depender dos horrores
da moda
que destroem o meio ambiente.

Mas essa promessa foi em vão;
essa imagem foi um mero vampiro
que apartei de meu íntimo e cultivei
no âmago de um amargo
sonho esquizofrênico sem sentido
nem embargo; e apesar de tudo isso
ganhei maior consciência de meu desastre
mas continuei poluindo
o meio ambiente, as cabeças e as fotografias
que se Deus quiser serão queimadas
no incêndio das almas penadas.

O papel que cumpri, cheio de memória
e história particular e intransferível,
que é justamente esta, a de bar,
a história sem memória contada
como anedotas numa conversa fiada,
no serões do sobrado
ou numa roda de drogados
por ser maior droga do que a própria
droga que alucina e assassina
o que há de mais paradoxal e imenso
na alma pequenina – foi um papel
que não cabe na tragédia do Paraíso
nem na comédia do Inferno
por ter sido demasiado irrisório e sem graça.

Na minha vida fiz tudo errado,
não pude deixar de ser e fui;
eu fui tudo o que fiz de errado
e que me levou ao flagelo
de ser um prédio cheio de andares
interditado e vazio, procrastinado
pela ânsia dos outros
de ver as coisas caírem aos poucos.

Flagelo de ser um oceano
cheio de peixes
ameaçados de extinção.
Flagelo de ser uma borboleta
sem asas, uma águia sem garras,
um Apolo sem cabeça, um terço sem cruz,
um poeta desgraçado,
sem escuridão para dormir
e sem luz.

Fiz tudo errado, inferno, fiz tudo
errado conforme consta
no Manual dos Desajustados
e por isso o tiro
saiu pelo cano, o cano pelo gargalo
e o álcool pela culatra
encharcando a todos
com uma saudade ingrata.

Não me pergunte se eu gostaria de voltar
ter uma nova chance, ou vida,
ou repetir exatamente o mesmo
o que seria algo tão besta
quanto o próprio Nietzsche.

Sim, eu gostaria de voltar a fazer
tudo errado.
Tudo errado! Tudo errado! Tudo errado!
Chutar o balde, derramar o leite sem chorar,
jogar fezes no ventilador, rir, chapar
revirar a mesa de cabeça para baixo
ficar de cabeça para baixo e sentar nela
para escrever ou morrer
e depois chutar o pau da barraca,
picar a mula, entrar pelo cano,
pagar mico, pagar em dólar, e sair
dando cavalinho de pau com um carro
imaginário;
eu gostaria de ser desconhecido.

Eu poderia deixar de ser
aquilo que fui
um mendigo fantasiado de trabalhador
um coelho fantasiado de mágico
um sapo fantasiado de príncipe
um bandido fantasiado de deputado
um lorde às avessas, um truão
a enfeitiçar as duquesas, as marquesas
e as condessas
numa corte de gelo e de Justiça
para depois bocejar:
“ai, que preguiça!”
Mas não posso.
Não posso deixar de ser,
de mostrar a segunda face
para que o espelho repita a mesma
bofetada que venho levando
da imagem, essa virgem
na Corte da vertigem.

Esse inseto que sou
não poderei deixar de ser.
Essa sombra, esse mendigo
essa coisa umbilical sem umbigo,
essa puta sem marido, essa história
sem memória, vitória sem glória
essa coisa híbrida de cabeça para baixo
e virada do avesso
tudo isso e muito mais
fui, e fui em vão.
A vida, o erro, a promessa vã e o delírio
fazem parte do bem maior... o automartírio.
 
Manual dos Desajustados

Você é pobre e burro

 
Na vida tanta riqueza
casa bonita, bairro nobre
coisa bonita, arte esnobe, do ouro ao cobre
e você aí:
pobre.

Na vida há tanta beleza
tanta mulher bonita, tanta flor
tanta comida, tanto sabor, do amargo ao amor
e você aí:
sonhador

Na vida há tanta abundância
tanta construção por toda parte
terra mexida, templo, palácio e baluarte,
e você aí:
à parte

Na vida há tanta inteligência
tanto autor de Homero a Dante
e de Dante adiante, visionário ou arrogante,
e você aí:
ignorante
 
Você é pobre e burro

Rede Globo & Ricardo Teixeira

 
O povo
é bobo
assiste
a Globo.

O povo
apóia
a Globo.
A Globo
apóia
o lobo.

A Globo
rouba
o povo.
O povo
quer ser
roubado
de novo.

“Boicote
à Globo!”
grita
o povo.

O boicote
é coiote
e a Globo
é lobo.
 
Rede Globo & Ricardo Teixeira

Poser photoshop

 
tua bunda, teus peitos
não merecem a porra
dos eleitos

tua vaidade imunda, teus trejeitos,
teu charme de cachorra
camuflam teus defeitos
 
Poser photoshop

morrer

 
a morte eu a esperarei
naquela esquina
que é por onde passam
muitos bandidos
prostitutas e maconheiros

a morte será trazida
por um bandido que dobrando
tal esquina assaltar-me-á
com uma flor

morrerei agredido pela flor

Úmero Card'Osso
 
morrer

Epifania

 
existe uma coisa que se chama epifania
que todo ser humano tem
em alguns momentos da vida
que são aqueles momentos
em que se sente que se está vivendo bem
uma maravilha sem tamanho
pois tudo parece tão ótimo e intenso
que ofusca com seu brilho de totalidade
as coisas pequenas e os problemas humanos.

pois é dado a todo ser humano
ter epifania
independente da sua condição
pois a felicidade verdadeira
está no espírito
na mente, na postura, na vontade
e na conduta.

portanto até mesmo o mais pobre
ou a criança desamparada
ou o errante sem rumo
podem ter, naquele momento certo
de autodescoberta
a tal epifania.

Ela vem ao coração
e à cabeça
como uma perfeita conjugação
de sentimento e pensamento.

A epifania faz desaparecer
os incômodos reincidentes
os sentimentos ruins
e as apreensões indesejáveis.

Todo ser humano tem um momento desse
na vida:
de repente ele se sente leve
e sorri e suspira
e ri e delira.
É uma felicidade inacreditável
que ele não julgava pudesse haver
tão assim sem objeto.

E de repente ele sente que a vida
não podia acabar
que esse momento de epifania
bem que podia se prolongar...

Mas os momentos de epifania
são raros
e com a mudança de humor
ou de clima
se percebe que na vida
há muita dor e sofrimento
que embora muitas pessoas
cultivem um modo de vida monótono
pacato e ameno
há conflitos por toda parte
transtornos de todo tipo e flagelos
inevitáveis.

Contudo, como uma volta à epifania,
o sujeito raciocina e descobre
que há muito para ser vivido
que existem vários graus de pureza
e que portanto existem vários níveis
não de condição mas de felicidade.

Percebe-se que é possível ser feliz sempre
contentando-se com o que se tem,
aprendendo a valorizar os estudos
e os amigos e as pessoas boas
e a vida.

E que assim como o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre
nos ensinou que não há como não ser livre,
a epifania nos ensina que não há como
não ser feliz.

O homem está fadado a ser feliz.
 
Epifania

Despedida de Saramago

 
Saramago morreu.

Vou morrer também.
Agora quero ir ao breu
à escuridão do além
à puta que pariu
porque Saramago morreu,
e quando um autor
que acompanhamos desde o início
degringola pelo precipício
da morte
sentimos que nossa sorte
jaz diminuída
e da vida pedimos licença
ou saída.
 
Despedida de Saramago

Mona Áspera

 
sorriso árido
alegria seca
aperto-de-mão infértil
se aproxima
chegando bem pértil
deita em cima
o sorriso agora é profúndi
alegria multiclimática
como no mapa-múndi
 
Mona Áspera

O poeta do esgoto da metafísica

 
Não tenho vergonha de nada do que fiz
não tenho vergonha, não tenho remorso
carrego o humor nas costas, trago-o no dorso
como uma mula a andar nas bostas : é o que fiz !
e se atravessando os bueiros da Metafísica
estive a resvalar em detritos dos ânus
dos deuses espúrios – pois são eles profanos –
foi porque escolhi ser a ratazana típica
dos porões ideológicos da inteligência.

Úmero Card'Osso
 
O poeta do esgoto da metafísica

Carta para questionar o valor da imagem

 
não deixes a televisão esfriar tua alma
não deixes
que alguém ligue a televisão
num momento de nervosismo
e ainda que fosse com calma
Resolve antes os teus rancores
sem distração, sem televisão, sem sabores
que são do tempo distorção
e da alma horrores!
Façam-me os favores
de se apresentar diante
do espetáculo estonteante da Vida como senhores
não como escravos
do individualismo, do imediatismo
de uma época onde não há bravos
Não deixes a televisão
ludibriar teus sentimentos
substituir teus relacionamentos
esfriar tua alma!
Não ligues a televisão num momento de imediatismo
de desassossego ou de calma.
Diante tão somente dos espetáculos da Vida
– distante dos tentáculos da mídia –
bate palma...
Bate palma, bate!
Bate palma, aplaude a Natureza!
Não aplaudas as imagens mortas
os labirintos de tristeza, de milhares de portas
da televisão, da novela das sete,
e ainda que fosse o labirinto
da internet...
Vós que sentais neste recinto!
Preferi sempre uma conversa tet a tet
do que conversas absortas
que tu mesmo exortas
a outros que nem vês
num neolabirinto pós-burguês...
Ah, quem são vocês? ... Quem são vocês?
Preferi sempre um diálogo com flores mortas
a um gozólogo de insensatez
ou a um monólogo com quem tendes
relacionamentos por paredes
ou pensamentos em que não credes...

Ah, por que foram se meter todos vós
nestas imagens vazias, alienadas,
nestas bobagens vadias, alternadas
em que estais, em verdade,
todos sós
de maneira que não estiveram os vossos avós?

Eu questiono o uso da televisão
o abuso do coração
o desuso da explosão
da vida dos que são
mais verdadeiros consigo
porque não afundam a própria alma
nos atoleiros da palma
da mão, ou do próprio umbigo
ao teclado
ao som de uma música de computador
cuja propriedade é ser sem propriedade... sem cantor!

Preferi sempre um diálogo com flores mortas
com santos imaginários
ou com fezes no deserto
que com certeza, às vezes,
indicam alguém por perto :
um amigo,
alguém que precise de auxílio
um amigo que não é um umbigo
ou uma página mal feita no exílio
que é estar num provedor
sob um congelamento infotécnico do humor...
Um amigo que no deserto
ou por trás de flores amassadas
acabadas, queimadas ou roubadas
será verdadeiro convosco, contigo,
comigo, e não se apresentará como um tosco
scrap, e-mail, add ou “quem quebrar esta corrente estará atraindo para si um grande azar”
e talvez um dia este poema, este lero-lero
termine com um bolero num bar
embora eu preferisse
um tango virulento, real, truculento,
um tanto sensual e sem chatice...

Ah, os onanistas na frente de um computador
como se condenam!
os que se entregam ao amor
infomanual ou videotécnico
das tardes de solidão ou abandono...
nas noites sem sono da televisão!
Os que viciam-se no pragmático
estuporamento de um tesão hiperartificial
seja por uma televisão sub-sensual,
seja por uma rede de computação
pornogramada para matar em vocês
a inocência de fazer tudo sempre
como se fosse paciência
como se fosse a primeira vez!

Eu poderia falar por horas e horas,
condenar, mostrar para todas as senhoras
com palavras lindas, ou feias
o que fizeram delas
nessas redes, paredes, labirintos
ou teias...
Condenar todo abuso
todo mal uso de computadores
da parte dos moleques
da parte dos senhores.
Mas por favor, não me aparte
desta briga
não me empurre com os seus vídeos
ou cedês, nem vocês, com a barriga.
Permiti vós, a mim, que sou tosco
dividir convosco parte
de minha justificativa infame
que me levará para a luta
ou disputa corporal num tatame
de forças que vão além da moral
porque minhas intenções
vão além de condenar o que fazem
porque não existe o mal
e sim, por um outro lado,
estou plenamente amparado
na justificativa sempre viva
ou intenção
de que essas pessoas mortas – sempre tortas –
endireitem suas vidas
estreitem os seus laços
registrem com amor todas as despedidas
arrebentem os cabaços!
Pois de minha parte, com muita arte,
não condeno o que fazem
mas o que deixam de fazer
por se prender
a qualquer bobagem
da tecnologia do lazer...

Ah, flores mortas, queimadas ou desenhadas!
Ah, fezes no deserto que indicam alguém por perto!
Ah, amigos! Que tu tenhas
amigos
sem umbigos, sem fios,
sem cabos elétricos, sem senhas!
Que tu tenhas
amigos!
Ah, Vida! Ah, conversas!
Ah, diálogos, ah, perversas!
Como dão-me prazer!

Úmero Card'Osso
 
Carta para questionar o valor da imagem

metafísica do azulejo estilhaçado por um tiro de fuzil

 
hoje eu quase levei um tiro
abri uma garrafa de vodka
olhei para meus tubarões no hospício
– um tanque de água espasmódica –
mordi uns pedaços do lixo
e isso me fez cuspir enquanto uma bala
muito mal imitada
por moscas que chupavam
ou em meu copo chapavam
alterou a lisura do azulejo
cujo pó e estilhaço
enfeitaram o pão e o pedaço
de carne que do lixo
apanho no ensejo
de saber que jamais entenderei o chumbo
ou o aço

Úmero Card'Osso
 
metafísica do azulejo estilhaçado por um tiro de fuzil

fragmentos poéticos de uma lésbica

 
ainda não entendi por que me excluem
num bar onde não estou bêbada e sou a única
e visto terno e gravata
e tenho os cabelos curtos e atacados com gel
no puteiro não me deixam entrar
no restaurante não me deixam transar
quero saber por que querem me internar
no manicômio ou no zoológico
por que não querem aparecer na foto em que estou
aliás, já entendi!
e nem quero saber!
é porque eu não adotei a metodologia do heterodisfarcismo
e é porque não tenho carro, nem nome, nem cigarro
e nem tenho verdadeiramente o que se pode chamar de cargo
e é porque sou sozinha em uma quitinete no Centro alugada
- sou mera professora do Estado, incessantemente vilipendiada –
dada a ler do marginal ao clássico, de Úmero a Homero
e a dormir na maior parte do tempo, ou a perder tempo com a televisão
pois nem voltar a estudar – para mudar de condição – eu espero
 
fragmentos poéticos de uma lésbica

A melhor época na vida de um sujeito

 
A melhor época na vida de um sujeito
é o futuro se ele for imaturo
e é o passado se ele for um fracassado

A melhor época para o resolvido
é a que lembra como tudo é difícil
e na vida de um que está dividido
é o interstício

A melhor época na vida de um cara que luta
é a que lhe antecipara momentos de disputa
e o melhor aprendizado na de um preguiçoso
é saber que até perder é gostoso

A melhor época na vida de um estudioso
talvez seja a da faculdade
e na vida de um sábio
é qualquer idade

A melhor época para o aprendiz
é a do giz
e a pior época, para ele,
é quando o giz passa a ser dele
 
A melhor época na vida de um sujeito

coisa esquisita é visita

 
coisa esquisita é visita em casa de parentes
quando o parentesco perdeu todas as apostas
no cassino das relações humanas

coisa estranha é visita em casa de amigos
que não são amigos como os antigos
que jazem sepultados nos próprios umbigos

as visitas que estamos
como meros e ambulantes estômagos
a digerir as conversas vencidas
cheias de toxinas em seus âmagos

muitas vezes, ou sempre
melhor é estar em casa
e melhor ainda é nem receber ninguém
a campainha toca como um eco
na caverna estática de morcegos sonâmbulos

coisa esquisita é visita em casa dessas gentes
que perderam o gosto do riso pelo muito que assistiram à Rede Globo
e agora há intrusos na sala, inconscientes
a assistir ao mesmo engodo
 
coisa esquisita é visita

Legalização da maconha

 
Se você é contra a legalização da maconha
você é a favor do trabalho infantil
da logística do tráfico do Brasil.

Se você é contra a legalização da maconha
você é a favor da morte oculta:
“moeda do tráfico”, “valor de multa”...

Se você é contra a legalização da maconha
então é a favor
a economia do terror
– de cada morte é co-autor.

Se você é contra a legalização da maconha
ou de qualquer droga
– inclusive a cocaína,
então você legitima
a economia assassina...

Se você é contra a legalização da maconha
do trabalho escravo cada centavo
se somará à dívida de sua vergonha.
 
Legalização da maconha

Condição da “poesia publicada”

 
Compro um outro livro
de que me livro
em breve
e outro, e outro, e outro
como um aborto
vão todos pro lixo
por pertencerem ao gênero do poeta
que somente bate palmas
que não faz um rebuliço
com as almas
e a uma boa bofetada não se atreve

Úmero Card'Osso
 
Condição da “poesia publicada”

lágrimas de noiva

 
nas escadarias de minhas empapuçadas pálpebras
as lágrimas arrastam a grinalda
porque vão se casar com minha dor
 
lágrimas de noiva

Carta aos suicidas sobre como me tornei um alcoólatra

 
bebo porque a bebida
é a medida do pouco tempo
que me resta

bebo porque a bebida
é o espelho
de um ego que não presta

bebo porque a vida
e a morte
fazem a mesma festa

Úmero Card'Osso
 
Carta aos suicidas sobre como me tornei um alcoólatra

Oração do indiferentismo

 
senhor,fazei-me instrumento de vossa seriedade, onde houver ódio, que eu leve uma gaivota, onde houver injúria, que eu leve um elefante, onde houver dúvida, que eu leve um urso, onde houver desespero, que eu leve um coelho, onde houver trevas, que eu leve um capado, onde houver tristeza, que eu leve uma minhoca.
oh, mestre! permita que eu procure mais um mandril do que ser consolado, que eu procure mais um crocodilo que ser compreendido, que eu procure mais um mosquito que ser amado, que eu procure mais um babuíno que ser justiçado, porque é tendo um bem-te-vi que se recebe, e é tendo um grilo que se é perdoado, e é morrendo que se vive
naturalmente e sem nada.
 
Oração do indiferentismo


Úmero Card'Osso