Poemas, frases e mensagens de DomingosdaMota

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de DomingosdaMota

Oh!

 
Da leveza das pernas, oh, o vértice;
oh, a boca do corpo, se a vertigem
alucina o desejo sem um óbice,
um óbice que seja duma virgem;
do vértice do corpo, dessa boca
que incendeia a volúpia, de tão ávida
e entumece os poros, de tão sôfrega
e afogueia os lábios, de tão cálida;
do vértice, da boca, do seu vórtice,
do frémito orgástico, e depois
do fogo que se veio, ardeu e foi-se,
deixando revolvidos os lençóis,
as pernas pensativas, e, num ápice,
o ciúme que gela e turva o cálice.

Domingos da Mota

(inédito,
http://domingosmota.blogspot.com/)
 
Oh!

Ensaio sobre a "tristeza de gente"

 
Triste, mais triste que os tristes
Quem perante a falta de ética,
Arrazoa, segue, insiste
Numa postura patética.

Domingos da Mota

[inédito,
http://morcegoseolhimancos.blogspot.pt/]
 
Ensaio sobre a "tristeza de gente"

A terceira margem

 
Na margem esquerda do tempo
(se o tempo fosse um rio)
pintaria o destempo
que passa como um navio

e atento à passagem
do navio visaria
focar a terceira margem
do tempo que me fugia.

Domingos da Mota

(revisto)

(poema a partir de Rascunho, e de alguns comentários de que foi alvo, publicado também em http://domingosdamota.blogspot.com/)
 
A terceira margem

Soneto

 
Um verso que desperta, inopinado,
dá passagem a outro, clandestino,
em busca dum terceiro, mais ousado,
ou dum quarto com ar de peregrino,

e seguem o percurso adequado,
por muito que o sexto, valdevinos,
reaja contra o sétimo, excitado,
e levante uns bramidos sibilinos.

Mas assentes as coisas, lá se vão,
até que aparece um que sublinha
o travão implacável que o terceto

impõe a quem avança em contramão:
um freio que provoca e desalinha
o derradeiro verso do soneto.

Domingos da Mota

(soneto entretanto revisto, em http://dmdamota.blogspot.pt/2016/06/soneto.html)
 
Soneto

Para sempre

 
Cavalgamos a luz... / e eis-nos ante
o súbito lugar da eternidade:
o nó cego do tempo que nos há-de
cumular de silêncio: doravante,

rente ao chão do futuro deslizante,
confina-se o devir que nos invade:
irrompe, surde desde a intimidade
da terra com a terra: culminante

solapa-se o sentido dos sentidos:
soterrados, dispersos, dissolvidos,
talvez foz, para sempre, assoreada;

talvez chuva de cinzas e de vento:
no baldio mais chão do esquecimento,
talvez húmus apenas: pó / ... e nada.

Domingos da Mota

(revisto,
http://domingosmota.blogspot.com/)
 
Para sempre

Contra o vómito

 
Porque o poema é sempre contra o vómito.
Porque o poema é sempre, SOBRETUDO,
contra engolir o vómito.

Vasco Gato

Uma fossa, uma latrina,
um esgoto petulante,
um verme que congemina
ser o Inferno de Dante;
um caga-raiva mais sujo,
mais empestado que as fezes,
mais reles que um sabujo,
mais desprezível, mil vezes,
a vomitar o seu ódio
com insultos viscerais,
um verme que busca o pódio
entre vírus e demais
bactérias resistentes,
a julgar-se um Tiradentes.

Domingos da Mota

(Inédito, da série Dedicácias,
http://morcegoseolhimancos.blogspot.com/)
 
Contra o vómito

Variações sobre o SONETO DO CROQUETE

 
Não fui embaixador. Mas o croquete
também me atravessou o gorgomilo:
intróito gustativo do banquete
servido com primor e melhor estilo;
não digo que o provei de mil maneiras,
por vezes era apenas mais um frete
que vinha coroar as costumeiras
retóricas balofas; e o topete
de tantos e tão hirtos comensais
que metiam no bolso alguns talheres
como se fossem modos naturais
de avaliar costumes e saberes,
em congressos, lições e conferências
de altas e supremas excelências.

Domingos da Mota

(inédito,
http://domingosmota.blogspot.pt/)
 
Variações sobre o SONETO DO CROQUETE

Estrelas cadentes

 
Engastarei as sílabas
já gastas de tanto decantar
o amor silente,

depois de gizar novas
pilastras, arcos, capitéis,
estrelas cadentes

Domingos da Mota

[inédito]

http://domingosmota.blogspot.com/
 
Estrelas cadentes

Soneto da tentação

 
Alude à fibra da sua.
Se for assim, corresponde
ao sinal que acentua
a tentação, quando e onde

o desejo acomete
e o perfume irradia
de tal modo que promete
uma agitada porfia.

Gostava de a abordar,
ou melhor, ir mais além,
ir mais fundo, mergulhar

lá onde a sua também
é capaz de sublevar
o delírio que sustém.

Domingos da Mota

(inédito,
http://domingosmota.blogspot.com/)
 
Soneto da tentação

Prosa para 2014

 
Apesar do fedor de quem tresanda
nos altos e nos baixos corredores
do poder que desanda quando anda
ao dispor de corruptos detentores;
malgrado quem comanda e descomanda,
por grandes mordomias e favores
que tenha e conceda a quem desanda
debaixo do nariz dos auditores;
tendo em conta o pivete sobredito
que demove quem ouse remover
as teias do sombrio valhacoito,
pudesse desmentir o antedito.
Mas apesar da falta de poder,
bem-vindos sejam os meus sessenta e oito

Domingos da Mota

(inédito,
http://domingosmota.blogspot.com/)
 
Prosa para 2014

Contra a infâmia

 
a partir de um poema de Bertolt Brecht

O poeta
Morreu
Subitamente.
Os amigos lamentam a partida.

Os inimigos procuram execrá-lo.
Os idiotas vomitam idiotias.
Os filhos da puta dizem-no filho da puta.
E os cobardes mostram o que são.

O poeta já não pode ripostar.
Mas deixou-nos,
Para ler, os seus poemas,

Uma obra acesa contra a infâmia.
Importa conhecê-la,
E divulgá-la.

Domingos da Mota

http://domingosmota.blogspot.com
 
Contra a infâmia

Pequeno tratado de comércio

 
Trocam o santo-e-senha
cortesias e louvores -
sobretudo o que mantenha
o comércio de favores

Domingos da Mota

publicado também em http://domingosdamota.blogspot.com
 
Pequeno tratado de comércio

A ferro e fogo

 
Se um Nobel da Paz apela à guerra,
levado pelo quero, posso e mando,
se um Nobel da Paz lança e desferra
a máquina de guerra, onde e quando

o tráfico de armas exaspera,
pois há que renovar os arsenais,
se um Nobel da Paz declara a guerra,
como cabo-de-guerra e muito mais,

esse Nobel da Paz beligerante,
o comandante-em-chefe do mais forte,
é um Nobel da Paz que doravante
aumenta o pânico, o terror e a morte,

lá onde se propaga tanto ódio,
numa guerra cruel, a ferro e fogo.

Domingos da Mota

[inédito]

(http://domingosmota.blogspot.com/)
 
A ferro e fogo

SOPA DE PEDRA

 
No poema cabe tudo,
sobretudo o que não há:
cabe o mundo com os modos
funcionários de viver
e cabem todos, mas todos
os excluídos de o ter,
cabe o pão que o diabo
amassou e pôs no forno

(só não cabe o bacirrabo
com a sua voz do dono),
cabe a pedra, cabe a sopa,
cabe o estômago vazio
e a boca, muita boca
com a vida por um fio,
cabem o sujo e o limpo,
cabem o lodo e a lama,

a cicuta e o absinto,
o imposto e a derrama,
cabe o preço, cabe a prece,
cabem deuses e demónios,
cabe até o que parece
mais real que muitos sonhos,
cabem horas e minutos
e segundos de alegria,

cabem passos dissolutos,
cabe mesmo o que não queria,
cabem o fogo e a cinza,
o perfume e o fedor -
o poema bem ranzinza,
mas não fede, não senhor,
cabem o silêncio e o grito,
mais o grito que o silêncio,

importante requisito
para dizer o que penso.
Se depois de tudo isto,
não há vagas, está fechado
o poema, eu insisto
com a glosa do tema:
faço uma sopa de pedra,
e com a pedra um poema.

Domingos da Mota

a partir da leitura do poema, NÃO HÁ VAGAS, de Ferreira Gullar

(publicado também no blogue http://domingosdamota.blogspot.com/)
 
SOPA DE PEDRA

Se hoje é dia disto

 
Se hoje é dia disto, eu sou daquilo;
se é dia da poesia, a minha prosa
pesada e sopesada, quilo a quilo,
não deixa de ser líquida ou gasosa;

se é dia do leitor, mesmo que leia
e releia e tresleia tanta vez
e até confunda o canto da sereia
com o leve presságio dum revés,

para ler não me basta um dia só,
muito menos se o faço por prazer:
quando a trama apetece e aperta o nó
que estimula o enredo, vou reler,

volto atrás, paro, avanço e busco a fonte
que fica para lá do horizonte.

Domingos da Mota

(inédito,
http://domingosmota.blogspot.com/)
 
Se hoje é dia disto

Soneto das Horas

 
aos queridos mortos

Durs Grünbein

E manda-o também esperar a hora
de dar à luz a sua própria morte (...)

Rainer Maria Rilke

Por tardia que seja, é sempre cedo
que se faz a viagem sem regresso,
não sei se aliviada, se com medo
da crença de que a vida tem um preço

a pagar no além, depois da morte.
Mas pior que a triste despedida,
seria apresentar o passaporte
da alma face à ausência doutra vida.

Outra vida haverá, havendo o ciclo
do carbono que muda e transmuda,
e mesmo que o faça em contraciclo
com a essência das coisas, talvez surda

um ácido, uma base - uma semente
que fecunde a matriz dum novo ente.

Domingos da Mota

(inédito,
http://domingosmota.blogspot.com/)
 
Soneto das Horas

Aylan Kurbi

 
Arrastado na fuga para a vala
comum que aprofunda a crueldade,
foragido da guerra ou duma bala
perdida nos confins da iniquidade,
ao dar à costa, depois do naufrágio,
o corpo exangue do menino morto
agravou a ferida do presságio
de que a esperança pode ser um porto
de desabrigo, de pavor, de medo,
de quem sendo novíssimo tem cedo
o caminho das pedras tão hostil
ou das águas sem pé dum mar revolto,
mar encrespado convertido em esgoto
de perdição e de cinismo vil.

Domingos da Mota

(inédito,
http://domingosmota.blogspot.com/)
 
Aylan Kurbi

Sarabandas

 
Numa guerra como esta,
de alecrim e manjerona,
aparece quem detesta
e quem dispara e detona

sarabandas e arejos,
entre ditos e dichotes,
abrenúncios e harpejos,
sugestões de piparotes

no cocuruto de quem
desembesta, com acinte,
o menosprezo, o desdém,
do alto do seu requinte.

Numa guerra de alecrim
e manjerona, talvez,
haja não, só porque sim,
e muito sim de viés,

mas toda essa porfia
não passará de sarcasmo
sem dois dedos de ironia
e uma pitada de pasmo.

Domingos da Mota

(inédito,
http://morcegoseolhimancos.blogspot.com/)
 
Sarabandas

Poema de Natal

 
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen

Não digo do Natal - mas da natura
de quem faz do poder um pesadelo
que aprofunda as sementes da amargura
através do garrote e do escalpelo;

não digo do Natal - mas da tortura
que macera as feridas com desvelo,
impassível à dor que já satura
os ombros causticados pelo gelo.

Dissesse do Natal - seria bom
que pudesse cantar, subir o tom
das loas e dos hinos e dos ritos,

se em vez duma esmola, tão-somente
renascesse o respeito pela gente
que povoa o Natal dos aflitos.

Domingos da Mota

(inédito,
http://domingosmota.blogspot.com/)
 
Poema de Natal

Anamnese

 
Mais que fazer
se desfazem

os anos que
por mim passam

Nem sei se levam
se trazem

o que depois
desenlaçam

Domingos da Mota

(publicado também em
http://domingosdamota.blogspot.com/)
 
Anamnese

«Tudo é semente.» Novalis