Poemas, frases e mensagens de Bobo.Poeta

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Bobo.Poeta

Ciao.

Ai Flores, Ai Flores de Verde Pino

 
Ai Flores, Ai Flores de Verde Pino
 
AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi á jurado?
Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss' amigo
e eu bem vos digo que é san'e vivo.
Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss' amado
e eu bem vos digo que é viv'e sano.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san'e vivo
e seerá vosc'ant'o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv'e sano
e seerá vosc'ant'o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Atribuído a D. Dinis
Cantigas d' Amigo

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade.
 
Ai Flores, Ai Flores de Verde Pino

Nom Chegou Madr' o Meu Amigo!

 
Nom Chegou Madr' o Meu Amigo!
 
CHEGOU, MADR', O MEU AMIGO

Nom chegou, madr', o meu amigo
e oj'est o prazo saído.
Ai, madre, moiro d'amor!

Nom chegou, madr', o meu amado
e oj'est o prazo passado.
Ai, madre, moiro d'amor!

E oj'est o prazo saído!
Por que mentiu o desmentido2?
Ai, madre, moiro d'amor!

E oj'est o prazo passado!
Por que mentiu o perjurado?
Ai, madre, moiro d'amor!

Porque mentiu o desmentido,
pesa-mi, pois per si é falido . Ai,
madre, moiro d'amor!

Porque mentiu o perjurado,
pesa-mi, pois mentiu a seu grado .
Ai, madre, moiro d'amor!

Atribuído a D. Dinis
Cantigas d' Amigo.

* per si é falido, faltou voluntariamente ao que prometeu;2 a seu grado:
* desmentido: o que mente, o falso

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade.
 
Nom Chegou Madr' o Meu Amigo!

Ce n' est qu' un aurevoir garder

 
Ce n' est qu' un aurevoir garder
 
Ce n’ est qu’ un aurevoir garder

Faut-il nous quitter sans espoir
Sans espoir de retour
Faut-il nous quitter sans espoir
De nous revoir un jour ?

Must it leave us without hope
Without hope of return
Must it leave us without hope
Of seeing each other again one day?

Refrain*

Refrain

Les vieux amis du temps passé,
Se sont-ils oubliés ?
Alors que nos coeurs ont gardé
L'amour du temps passé ?

Old friends from long ago
Are they forgotten?
While our hearts have kept
Love from long ago?

Refrain

Refrain

Formons de nos mains qui s'enlacent,
Au déclin de ce jour,
Formons de nos mains qui s'enlacent,
Une chaîne d'amour.

Let's make from our clasped hands
At the end of this day
Let's make from our clasped hands
A chain of love.

Refrain

Refrain

Amis, unis par cette chaîne,
Autour du même feu ;
Amis, unis par cette chaîne
Ne faisons point d'adieux.

Friends, linked by this chain,
Around the same fire;
Friends, linked by this chain
Let's not say farewell.

Refrain

Refrain

Car l'idéal qui nous rassemble
Vivra dans l'avenir,
Car l'idéal qui nous rassemble
Saura nous réunir.

For the ideal that brings us together
Will live in the future,
For the ideal that brings us together
Will know how to reunite us.

Refrain

Refrain

*There are two possible refrains:

Ce n'est qu'un au revoir, mes frères,
Ce n'est qu'un au revoir !
Oui, nous nous reverrons, mes frères,
Ce n'est qu'un au revoir.

It's only good-bye, my brothers,
It's only good-bye!
Yes, we will see each other again, my brothers,
It's only good-bye.

and

Au bon vieux temps mes chers amis,
Au jours du bon vieux temps,
Buvons un verre maintenant,
Aux jours du bon vieux temps.

To the good old days my dear friends,
To the good old days
Let's drink a glass now,
To the good old days.

Lisboa, NOV/2010.
 
Ce n' est qu' un aurevoir garder

Romances Tradicionais - Bela Infanta

 
Romances Tradicionais - Bela Infanta
 
ROMANCES TRADICIONAIS
BELA INFANTA

Estava a bela Infanta
No seu jardim assentada,
Com o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava.
- "Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava."
- "Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada...
Dize-me tu, ó senhora,
As senhas que ele levava."
- "Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava."
- "Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Eu sua morte vingava."
- "Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!..."
- "Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?"
- "Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por i."
- "Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?"
- "De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli1:
Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei pra si."
- "Os teus moinhos não quero,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem to trouxera aqui?"
- "As telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim."
- "As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?"
- "De três filhas que eu tenho,
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir."
- "As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui."
- "Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir."
- "Tudo, não, senhora minha,
Que inda te não deste a ti."
- "Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo,
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!"
- "Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!"
- "Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui."

In "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa" de Eugénio de Andrade
 
Romances Tradicionais - Bela Infanta

Romances Tradicionais - Donzela Que Vai à Guerra

 
Romances Tradicionais - Donzela Que Vai à Guerra
 
DONZELA QUE VAI À GUERRA

- "lá se apregoam as guerras
Entre França e Aragão:
Ai de mim que já sou velho,
Não nas posso brigar, não!
De sete filhas que tenho
Sem nenhuma ser varão!.
" Responde a filha mais velha
Com toda a resolução:
- "Venham armas e cavalo
Que eu serei filho varão."
- "Tendes los olhos mui vivos
Filha, conhecer-vos-ão."
- "Quando passar pela armada
Porei os olhos no chão."
- "Tendes los ombros mui altos
Filha, conhecer-vos-ão."
- "Venham armas bem pesadas,
Os ombros abaterão."
- "Tendes ios peitos mui altos
Filha, conhecer-vos-ão."
- "Venha gibão apertado,
Os peitos encolherão."
- "Tendes las mãos pequeninas
Filha, conhecer-vos-ão."
- "Venham já guantes de ferro,
E compridas ficarão."
- "Tendes los pés delicados,
Filha, conhecer-vos-ão."
- "Calçarei botas e esporas,
Nunca delas sairão."

- "Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não."
- "Convidai-o vós, meu filho,
Para ir convosco ao pomar,
Que se ele mulher for,
À maçã se há-de pegar."
A donzela por discreta,
O camoês foi apanhar,
- "Oh que belos camoeses
Para um homem cheirar!
Lindas maçãs para damas
Quem lhas pudera levar!"
- "Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher de homem não."
- "Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco jantar;
Que, se ele mulher for
No estrado se há-de encruzar.
"A donzela, por discreta,
Nos altos se foi sentar.
- "Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não."
- "Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco feirar;
Que, se ele mulher for,
Às fitas se há-de pegar."
A donzela, por discreta,
Uma adaga foi comprar.
- "Oh que bela adaga esta
Para com homens brigar!
Lindas fitas para damas:
Quem lhas pudera levar!"
- "Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração,-
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não."
- "Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco nadar;
Que, se ele mulher for,
O convite há-de escusar."
A donzela por discreta,
Começou-se a desnudar...

Traz-lhe o seu paje uma carta,
Pôs-se a ler, pôs-se a chorar;
- "Novas me chegam agora,
Novas de grande pesar;
De que minha mãe é morta,
Meu pai se está a finar.
Os sinos da minha terra
Os estou a ouvir dobrar;
E duas irmãs que eu tenho,
Daqui as oiço chorar.
Monta, monta, cavaleiro!
Se me quer acompanhar.
" Chegavam a uns altos paços
Foram-se logo apear.
- "Senhor pai, trago-lhe um genro,
Se o quiser aceitar;
Foi meu capitão na guerra,
De amores me quis contar...
Se ainda me quer agora,
Com meu pai há-de falar."
Sete anos andei na guerra
E fiz de filho varão.
Ninguém me conheceu nunca
Senão o meu capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra coisa não.

Épicos.
In "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa", de Eugénio de Andrade.
 
Romances Tradicionais - Donzela Que Vai à Guerra

Da Pastor Bem Talhada

 
Da Pastor Bem Talhada
 
Da Pastor (*1) Bem talhada

Da Pastor (*1) bem talhada
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant' eu vi, mui coitada
e diss' "Olmais (*2) nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada
pois que mi o meu á errado!

Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão (*3)
e diss' "Amigo, loução,
que faria per amores,
pois m' errastes tam em vão?"
e caeu antr' ~uas (*4) flores.

~Ua gram peça do dia
jouv' (*5) ali que nom falava
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss' "Ai, Santa Maria,
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, por quant' eu sei, senhora!"

"Se me queres dar guarida,
disse a pastor"di (*6) verdade,
papagai, per caridade,
ca morte m' é esta vida!"
Diss' el: "Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos é servida
erged' olho e vee-lo-edes!"

Atribuído a Dom Dinis I
Cantigas d' Amigo

(*1) Pastor = jovem, e como senhor(a) não tinha feminino;
(*2) Olmais = daqui em diante!
(*3) verão = primavera
(*4) ~uas = umas
(*5) jouve = jazeu
(*6) di = diz

in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa de Eugénio de Andrade.
 
Da Pastor Bem Talhada

Romances Tradicionais - Nau Catrineta

 
Romances Tradicionais - Nau Catrineta
 
ROMANCES TRADICIONAIS
A NAU CATRINETA

Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.
Deitam sortes à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão-general.
- "Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal."
- "Não vejo terras de Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar."
- "Acima, acima, gajeiro,
Acima, ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal."
- "Alvíssaras, capitão,
Meu capitão-general!
)á vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar."
- "Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar."
- "A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar."
- "Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar."
- "Não quero o vosso dinheiro,
Pois vos custou a ganhar."
- "Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual."
- "Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar."
- "Dar-te-ei a nau Catrineta,
Para nela navegar."
- "Não quero a nau Catrineta,
Que a não sei governar."
- "Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?"
- "Capitão, quero a tua alma
Para comigo a levar."
- "Renego de ti, demónio,
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus;
O corpo dou eu ao mar."

Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.

In "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa" de Eugénio de Andrade
 
Romances Tradicionais - Nau Catrineta

Romances Tradicionais - Conde Nilo

 
Romances Tradicionais - Conde Nilo
 
ROMANCES TRADICIONAIS
CONDE NILO

Conde Nilo, conde Nilo
Seu cavalo vai banhar;
Enquanto o cavalo bebe,
Armou um lindo cantar.
Com o escuro que fazia
El-rei não o pode avistar.
Mal sabe a pobre da infanta
Se há-de rir, se há-de chorar.
- "Cala, minha filha, escuta,
Ouvirás um bel cantar:
Ou são os anjos no Céu,
Ou a sereia no mar."
- "Não são os anjos no Céu,
Nem a sereia no mar:
É o conde Nilo, meu pai,
Que comigo quer casar."
- "Quem fala no conde Nilo,
Quem se atreve a nomear
Esse vassalo rebelde
Que eu mandei desterrar?"
- "Senhor, a culpa é só minha,
A mim deveis castigar:
Não posso viver sem ele...
Fui eu que o mandei chamar."
- "Cala-te, filha traidora,
Não te queiras desonrar.
Antes que o dia amanheça
Vê-lo-ás ir a degolar."
- "Algoz que o matar a ele,
A mim me tem de matar;
Adonde a cova lhe abrirem,
A mim me têm de enterrar."

Por quem dobra aquela campa,
Por quem está a dobrar?
- "Morto é o conde Nilo,
A infanta já a expirar.
Abertas estão as covas.
Agora os vão enterrar:
Ele no adro da igreja,
A infanta ao pé do altar.
"De um nascera um cipreste,
E do outro um laranjal;
Um crescia, outro crescia,
Coas pontas se iam beijar.
El-rei, apenas tal soube,
Logo os mandara cortar.
Um deitava sangue vivo,
O outro sangue real;
De um nascera uma pomba,
De outro um pombo torcaz.
Senta-se el-rei a comer,
Na mesa lhe iam poisar-,
- "Mal haja tanto querer,
E mal haja tanto amar!
Nem na vida nem na morte
Nunca os pude separar."

In "Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa" de Eugénio de Andrade.
 
Romances Tradicionais - Conde Nilo