Poemas, frases e mensagens de GeMuniz

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de GeMuniz

OUÇA: QUERO VER VOCÊ

 
OUÇA: QUERO VER VOCÊ

Ouça:
Quero ver você

Antes
De o mês acabar,

Antes
De a vida acabar...

Preciso juntar
Seu destino ao meu
Pelos refúgios
Da minha estrada perdida

(Um caminho,
No seu,
Me achará...)

Dispense
O que irá me dizer

Suspenda
O qualquer improviso

Apenas sossegue,
Chegue e
Me enlace...

(Nem disfarce
O choro, o sorriso...)

Não.
Não usemos
A palavra amor

Não.
Não violentemos
O silêncio das frases

Só serão
As brisas indeléveis,
Suaves do momento
Amordaçando o barulho do tempo,
Audazes...

Seremos poeira apenas...
Grãos ao relento
Suspensos
Ao nosso próprio
Vento

(Anverso
De versos
Sem versos...)

Esgotaremos
As dores das almas
Nos linhos suados
E brancos
Sob nossos corpos
Desdobrados,
Embolados
Sobre a trama
Crua e reta
Do ranger dos estrados...

O resto
É apenas o dejeto
D’um passado
Divagações d'um amanhã
Que o miolo equilibrado
Do universo
Sacode e
Explode...

Então ouça:
Quero ver você

Antes
De o mês acabar

Antes
De a vida acabar

(Antes
que o amor,
De amor me mate)
 
OUÇA: QUERO VER VOCÊ

O VERSO QUE ARDE

 
O VERSO QUE ARDE

Acredita: Há quem teima
e queima
o corpo todo
ao meter o peito
no esteio do poema

Tu que por aí assopras
a flama de que não há
chama insuflada
no fogo cruzado
das palavras...

Saibas... jamais se apaga
um verso que arde...
Só a relha frase descama...
Escamoteia-se em centelha
esguelha de nova lança

Aquece de vez tua língua leda!
Músculo que ateia poesia
satura fura e tatua
o tímpano incauto
de qualquer orelha!
 
O VERSO QUE ARDE

SONHAR ACORDADO

 
SONHAR ACORDADO

Sonho acordado
O tempo todo...

De todos
Os modos...
Para todos
Os gostos...

E o delírio
É tanto,
Tamanho...

É um tal
assanho...

Incomensurável
Urdidura

A formar
Uma morfínica
Trilha
Que desemboca
Na toca do ar...

Ah, insondável
Armadilha
Da ventania
Voraz
Nesta minha
Mente vadia...

Pertinaz
Pacífica
Usura
Prolífica...

Forma de loucura
Pura...
Futura...
Madura...

Fez-se a aventura
Seguramente
Insegura
De leva-e-traz...

Todo o sonho
Sonhado
Sonha
Que me cura

E a alma
Delira que
Em si
Ela mesma existe
Mesmo sem
Em mim
Estar...

Em sua sábia
Brancura
Não desiste
E vai,
Bailarim,
Em despiste,
Sonhando-me
Por detrás...
 
SONHAR ACORDADO

SOU O QUE SOU

 
SOU O QUE SOU

Violão acústico e voz: GÊ MUNIZ

SOU O QUE SOU

Sou o que sou...
Fui murado por ferro
Semeado por trigo
Armado e sem perigo

Preso a terra
Entre pernas e umbigo
Decomposto e corrompido
Como um corpo no jazigo

Sou o que sou...
Uso esporas e chicote
Encobertos num véu
De puro e doce mel

Presa à boca
Feroz língua de fel
Solta, a voz de menestrel
Traço sons em tons-pastel

Visto o que vi
Me faltou a visão...
Rindo por rir
Que perdi a razão...

Amei sem saber
Sumi sem querer
Mas como prever
O que vai haver?

Então é melhor
Somente dizer:

Sou o que sou...
Corrente e talismã
Furtada de um lar
Largada na mesa d'um bar

Finjo que sou
Astral e material
Que vivo dormindo
E acordo num sonho real

Sou o que sou...
Reticente e volúvel
Saboroso e amargo
Feito um café solúvel

Livre estou
Num demônio angelical
Cruzo o céu de um abismo
Desprezando o bem e o mal
 
SOU O QUE SOU

AMOR. OU NÃO SERIA?

 
AMOR. OU NÃO SERIA?

À meia-noite
Um meio-dia ardia
À palma da mão fria
Desterrada ao açoite

Meu calor foi-te
Amor. Ou não seria?
Um cobrir-se do dia
No debulho da sonoite...

Foi veredicto agudo
De prisão decretada
Contra a língua beijada?

Foi o coração, conluio
De sangria estuporada
Desperdício à tua facada?
 
AMOR. OU NÃO SERIA?

GIZ

 
GIZ

Paixão inexplícita escrita em giz
Traçada e apagada todo dia
Brota tênue, semente em raiz
E arde em fogo brando pelo correr da vida

Conquisto-te inteira e por um triz
A cada mínima entrega, a cada acolhida
Adormeço em teu beijar aprendiz
Que, fremindo, dá-me paz e guarida...

Em mim, devoção que jamais iria supor
Em nós o real sentido da palavra amor
Por ti o melhor que pr'a ninguém fiz...

Entrego-me aos teus olhos, teu rubor
E deliro no sonho d'um sol se por...
Será que entendo o que é ser feliz?
 
GIZ

COMETER ERROS NOVOS

 
COMETER ERROS NOVOS

Por ora transito

Nos
Mesmos
Erros

Reflito

Antigos
Vícios

Nenhum
Inédito
Equívoco...

Nenhum logro original
A que possa
Dar-me o crédito
De merecer o elogio
Do desprezo, do demérito...

Estou um
Errante medíocre,
Mendicante, recidivo
(No mérito incorreto
Do cansativo desvario)

Hei de
Acometer
Desvios novos,
Belos equívocos,
Criativos...

Quero o júbilo aflito
De acertar
Os fundilhos
Do "por um triz",
Do "quase certo"
Do "por uma maldita nesga infeliz"...

E, quase
Morrendo
No vício
Fascinante
De vacilar

Criar-me-ei feliz
Numa vida que enfim
Me valha
Pela falha perfeita,
Insuspeita:

Terei
Minh'alma
Eleita e aceita
Imortal
Tal um mito
Como o mais nobre
E falível deus
Do Olimpo
 
COMETER ERROS NOVOS

Contemporânea

 
Contemporânea

2015 e eu pedi
que fosse ontem,
que fosse sempre.
Eu implorei
que fosse antes
d'eu ser aquele
que não me tornei.
Ah, se eu ignorasse
no que redundarei...
Só o que não saberia
é que tudo se resumiria
a "era uma vez".
 
Contemporânea

JUNTOS, IRMOS EM FRENTE

 
JUNTOS, IRMOS EM FRENTE

Surgiste do nada
E nem percebi
Na curva discreta
Daquela estrada
Aonde bateu o raio...

O trovão foi claro
Estupenda a visão
Como tudo
Que clareia a imensidão
Do esteio do escuro

E as minhas mãos
Cansadas
Cederam,
Fenderam-se ao poente...

Meus olhos comeram
Cru e quente
Aquela sensação
Dormente, tão minha
De que encontrei
Um real sabor,
Incandescente

Finalmente
Horizonte limpo
À minha frente
Como sempre sonhei
Minha italianinha...

Agora, é tocar...
Amar, viver
E, juntos,
Irmos em frente...
 
JUNTOS, IRMOS EM FRENTE

CONJUGAL

 
CONJUGAL

Antes,
A destreza da língua
Que se aninha dentre teus lábios
De leveza infinda
Naquele arroubo matinal
Onde o dia
Submete-se, cordial,
Ao mais e mais
D'um carnaval conjugal...

Depois,
A brisa quase dormente
Da longa e paciente tarde
Em que te reinventas
D’um sol que te arde
Em fascínio igual
À vísceral força luzente
Do amor que te alimenta...

Agora,
Essa noite adolescente
Que pisca o grafite dos teus olhos
Nas pedras distraídas da rua
E, livre, te faz correr
Criança descalça
Como que atrás
Da última alegria tua...

(Ah...
Eu amo o amor que me clama
Por esse observar do amor
Que, em ti, me chama)
 
CONJUGAL

Antiguia: Dicas infalíveis aos nobres comentadores do Luso-Poetas para melhorar a qualidade dos seus comentários.

 
ANTIGUIA: Dicas infalíveis aos nobres comentadores do Luso-Poetas para melhorar a qualidade dos seus comentários.

Como disse Plubius Syrus (ou teria sido o saudoso Dr. Sócrates, o grande boleiro corintiano em alguma roda de samba? Pouco importa...): "Arrependo-me muitas vezes de ter falado, nunca de me ter calado”. Convenhamos: quem quer saber de qualquer forma de silêncio aqui no Luso-Poemas? Não estamos aqui para isso. Afinal, somos escritores sempre com algo importante a dizer guardado logo aqui, debaixo da manga. O negócio então é publicar e comentar.

Mas, principalmente, comentar - a mais freqüente e numerosa forma de expressão literária deste site. – Foi justamente pensando em melhorar esse importantíssimo passatempo da vida dos Lusuários que, baseado nas minhas experiências como comentador assíduo e bem sucedido deste espaço por um bom tempo, humildemente achei por bem dividir minhas conclusões com os companheiros de escrita. São 10 importantes dicas de como se redigir um comentário com propriedade e decoro sem incorrer no trágico risco de ter a opinião devidamente deletada por algum autor - e, ainda mais - partindo-se do princípio que os comentários são a mola mestra que sustenta a criatividade dos Lusuários neste sítio, seja lendo-os ou propriamente comentando, ser incensado à condição de um grande e respeitado comentador do site. Leiam com toda a atenção e aproveitem essas pérolas:

1 – Da importância da ignorância (ainda que falsa): Mesmo seja o seu português castiço e de muitos recursos léxicos, é de muito bom tom distribuir em seu comentário uns poucos erros gramaticais. O motivo é simples: erros reforçam no autor comentado a idéia de que ele próprio é superior em conhecimentos sobre a língua em relação ao comentador. Isso em si já provoca certa simpatia e tolerância. Dois errinhos tais como justapor “concerteza” (um erro muito em voga aqui no Brasil atualmente), ou grafar azia (pirose) com “h” ou trocando o “z” por um “s”, são daqueles tipos de erros muito bem quistos quando percebidos na escrita dos comentadores cuidadosos que aspiram ao sucesso. Pequenos erros de concordância nominal ou verbal naturalmente são bem-vindos.

2 – Das comparações: Jamais compare um poema ou texto lido com o estilo de um grande poeta ou escritor. Isso é tremenda falta de educação com o autor, motivo sério e justo para biquinhos e birras. Afinal, onde já se viu alguém ter a pachorra de identificar os maravilhosos versos dos nossos Lusuários com os versos de um reles... sei lá, só para citar: Fernando Pessoa ou Drummond, por exemplo? Realmente é situação de magoar o nosso prezado autor e com total razão. Todo autor do Lusos é um universo “incomparável” de criatividade.

3 – Da abrangência do texto: Uma conveniente e bem trabalhada dificuldade para se definir o texto comentado aumentará em muito a sua abrangência e poderá causar uma excelente avaliação do seu comentário. Veja o exemplo: “O seu poema tem um quê de nonsense, um extraordinário ambiente emocional que me tira os pés do chão...” Ou seja, palavras que elevam o texto a uma categoria diferenciada, inexprimível, porém, a rigor, dizem absolutamente nada. O bom comentador deve ser mestre nesses artifícios, pois mecanismos como esse permitirão a ele comentar ‘ad infinitum’, apenas variando e combinando uns poucos desses elementos. Aquele que fizer isso bem, jamais precisará repetir o conteúdo de sequer um único comentário e, ao mesmo tempo, sempre terá algo de diferente e indefinível a dizer. Afinal, queremos ser mais originais do que o tradicional “maravilha”, pois não?

4 – Da importância da inexatidão: Nada mais irritante do que aquele comentador que busca exatidão matemática na escolha das palavras para justificar alguma passagem do texto lido. Para que diabos agir assim? Toda compreensão consistente é totalmente desnecessária e até nociva ao comentário. Pior ainda se for fundamentada e real. Há de se entender que, na grande maioria das vezes, nem o autor sabia direito o que pretendia dizer com o raio do escrito. Como poderia um simples comentador ter a pretensão de o saber? Olhe lá: Evite a prepotência e a arrogância.

5 – Das conjunções adversativas: Nunca diga “interessante, mas...” Conjunções adversativas devem ser totalmente banidas de qualquer texto comentado, sob pena de justíssima deleção.

6 – Das perguntas ao autor: Jamais termine uma opinião sua com “você também não acha”? Ai, ai, ai. Erro fatal. O autor não é obrigado a achar nada do seu próprio texto. O texto já é um achado em si. Não coloque o autor em maus lençóis. Por que defender inutilmente as próprias convicções num comentário e ainda por cima buscar alguma explicação com um provocador “você também não acha?”. Um comentário do Luso não é lugar para se pedir posicionamentos, mesmo de maneira sutil. Onde já se viu? Isso beira à falta de escrúpulos.

7 – Da recreação: Desde os tempos do Império Romano qualquer homem de ardil sabe que não é a verdade que segura uma argumentação, mas a recreação. Diversões e pândegos nunca são questionados. Seja leve e divertido.

8 – Das citações: Evite quaisquer tipos de citações de autores consagrados para alicerçar os seus comentários. Soa demais arrogante. Prefira exemplificar com situações cotidianas, tais como “o cachorro da minha tia”, “o gato amarelo da minha irmã” ou “o papagaio do meu primo”. Eis aqui ótimas citações. Lembre-se, quanto menos seres do gênero humano envolvidos na sua exemplificação, melhor, ou seja: diminui o risco do autor se identificar negativamente com algo ou alguém no seu comentário.

9 – Do desenvolvimento de idéias próprias: Não trace paralelos sobre o texto lido com outros textos ou livros, com filmes de cinema ou peças de teatro vistos ou revistos. Importante: Não compare nada no texto lido com os seus sonhos. Comentário não é divã de psicanalista. Ah: não escreva considerações pessoais de cunho universal ou filosófico sobre o tema em questão: texto de outrem não é lugar para você mostrar conhecimento e idéias pessoais sobre o assunto, mas só para enaltecer as idéias do autor. Francamente, advirto: isso é erro primário.

10 – Da sinceridade e dos questionamentos: Por fim, o mais importante: jamais seja escrupulosamente sincero e detalhista a ponto de questionar cada pormenor do texto ou corrigir qualquer impropriedade lógica ou incongruência textual. Sinceridade é coisa para comentadores amadores. Aquele que preza o comentário como um veículo de interação com o autor, diz apenas o que ele precisa ouvir. Lembre-se da velha premissa: uma mão lava a outra.

Portanto, aqui foram elencadas algumas dicas de ouro para todos se darem muito bem na feitura dos comentários, agradando incrivelmente aos autores. Em pouco tempo colherão excelentes frutos se seguirem as recomendações, quem sabe até, ainda hoje. E agora, o que estão esperando? Mãos à obra! Seus amigos autores os esperam de braços abertos... Bons e felizes comentários a todos.
 
Antiguia: Dicas infalíveis aos nobres comentadores do Luso-Poetas para melhorar a qualidade dos seus comentários.

Coração Flutua Contra a Gravidade

 
Coração Flutua Contra a Gravidade

Age em mim
Um sol
Que arde
Na escuridão

Enxota
A própria luz
Retém sua
Emanação

Afasta-se
Da mãe Terra
Nas costas
D'um abismo

Expele
Com frieza
Suas lavas
De cinismo

Pelo ar estoura
Um peito...
Com forma...
Solidez...

O gelo esquenta-me
O corpo
Na falta
De lucidez

Meu reflexo
Pensa,
No espelho
Nada sinto

Falo a voz
Dos mudos,
Ouço sons
Do Olimpo

Pois é alta a noite
E durmo...
Nada
Me atrapalha...

Em colchão
De serpentes
Em lençóis
De navalha

Quando acordo
o corpo
É um
Peso-vivo

Visto-me
para o café,
morto
rindo
E altivo

(Eu sou absurdo
Dói em mim saber
Que entendo tudo
De nada entender)

O tempo já corre inverso...

O mar já toma a cidade...

Meu coração flutua
Contra a gravidade
 
Coração Flutua Contra a Gravidade

O LADO AMOROSO DE MIM

 
O LADO AMOROSO DE MIM

Nada fora dele
me negue
me atinja
me finja

Nem eu próprio sem amor me conceba...
Nele me saberei e me criarei

Por trás dos olhos dele me escondo e exponho
O estrondo que gritou neste sonho imenso

De derramá-lo fervente em meus braços
Queima-me com prazer
Dentre os vãos dos dedos
Faço a dor, faço o espaço
Esfumaço-me... Tal um cigarro
Esquecido da boca o prazer viciado

Meu querer se perde na solidez solta e só
D’uma orquídea erradia em seu tronco
Na sua forma mais arredia
Na sua beleza mais baldia...

A suavidade entinta as cores da flor às sombras
Salvam-se pétalas do cego furor destrutivo das ervas
E os meus tremores coabitam com a minha sensatez...

Escura e dura essa difícil escalada
Pelo negrume do meu muro
Onde o amor se disfarça
Em meus lábios contentes

As fragilidades racham mais as antigas fadigas
Na coerência desafiadora dos meus regaços
Nessa viagem indômita torno-me um gigante.
Léguas e léguas de ternuras e um simples passo...

Meu amor agora é sentimento cansado, mas contente...

Deito-me com os titãs, com os vermelhos dragões
Que me lambem os pés como cães bem-comportados
O amor vê-me a face a dormir e se enamora
Estou chafurdado de vida pelo avesso do sono...

E assumo o lado amoroso de mim
O lado que, de mim mesmo,
Olhando, o outro lado gosta...
E, gostando, numa franca aposta
Entrega sem receio tudo
Lado e lado
De si para si...
 
O LADO AMOROSO DE MIM

FALAR DE COISAS FRIAS

 
FALAR DE COISAS FRIAS

querias
que te falasse
de coisas frias.

de blocos
de gelo
e aquosa solidez.

querias tanto
que nem
respondias.

como te emocionavas
à pausa congelada
de minha voz,
entrecortando-a
por tantos prantos,

mas chorar
querias tanto...

te lembras o quanto?

querias que te falasse
de nós
e das dúvidas
que nos assolavam
quanto à brevidade
dos sentimentos que nos unia.

tu imersa,
sem entender-se,
às lágrimas...

solidificavas
cubos cristalizados
de ironia.

querias...

apenas escutar
o tom
de minha voz;

eu queria
tanto
ver-te naquele estado
que falava,
falava
e repetia.

e me desdobrava
em desencavar assuntos
a fim
de não cessar nunca
meu refinado
e resfriado
discurso.

tu te lembras,
bem sei.

mas todo
esse gelo
transformou-se
em pântano.

minha língua
enferrujou
um outro tanto.

foi assim
que o silêncio
tomou o ar,

de vez.

e o pouco que restava
de quente
naquele nosso terno
abraço
transformou
o último frescor

: em frigidez.
 
FALAR DE COISAS FRIAS

Uma visão Luso-Poemas: É Preciso Ter Menos Razão...

 
Uma visão Luso-Poemas: É Preciso Ter Menos Razão...

Claro. As pessoas sempre mantêm com firmeza as suas convicções quando consideram ter razão sobre algo. Nada mais justo. O “certo é o certo”, é assim que se diz, não? Nada mais ético, mais honesto para com os outros, para consigo mesmo. Desde sempre, indivíduos detêm certa dose de razão. Sob alguns ou outros aspectos pode-se afirmar até, com relativa tranquilidade, que a grande maioria das pessoas encontra-se assentada sobre determinados “lençóis freáticos de razão pura”.

Acontece que a soma de cada uma dessas “razõezinhas” pessoais é, geralmente, o que costuma resultar em absolutamente nada.

Por que é assim?

Por que, logo após uma dessas acaloradas discussões sobre um tema, cada um defendendo a sua razão - aquele tipo quente de debate onde todos buscam de forma aparentemente civilizada (ou não) manter com dignidade as suas convicções - geralmente chegamos à conclusão de que esta não serviu de praticamente nada que não para presenciarmos um punhado de indivíduos “cobertos de razão” tentando se prevalecer sobre outros participantes igualmente detentores das suas próprias razões, todas elas muito boas?

Muito interessante é que cada uma dessas razões é exposta de forma coerente, vibrante e convincente, e, por sua vez, anula (e é anulada) diante às outras belíssimas razões contrárias ou paralelas, por melhores que elas sejam.

Haveria alguma forma de se construir algo duradouro, com vida própria, apesar dessa enorme avalanche de coerência viajando em mãos contrárias?

Penso que sim: Abrir mão de razões específicas. Esquecer, ao menos uma vez, de que é preciso expor e prevalecer a própria razão perante as idéias dos outros. Porque se faz necessário abrir mão das próprias conveniências para se obter algo num âmbito coletivo. Para isso, é importante compreender o que é vital ao todo, apesar de, muitas vezes, isto chocar-se às próprias convicções. Sim, é preciso “ceder” para estacar os alicerces que viabilizem certo objetivo comum para um resultado concreto num ambiente de real democracia.

Democracia... Então caímos na política?

Ser verdadeiramente democrático exige uma determinada e direcionada abnegação e humildade (não a humildade dos hipócritas ou dos ingênuos, mas sim a dos generosos, ou melhor, a dos inteligentes) e não buscar sobressair-se melhor sobre os outros apenas pelo fato de ter “mais razão”. A razão absoluta é aquela que massacra e avilta. Espezinhar os outros com excesso de razão pode até significar perder o controle da própria razão. Para um grupo, consegue-se unidade de pensamentos sobre determinada causa comum quando ela é a resultante da “soma dos sacrifícios individuais”, e não a “adição de todos os gostos pessoais”.

Como tudo na vida, também o bem-comum cobra o seu preço para realizar-se. Porém, as pessoas comumente avaliam em justamente o contrário: que é expondo o seu ponto de vista e defendendo-o com unhas e dentes que se chega ao consenso. Não: o consenso é produto do reconhecimento, da boa-vontade e da aceitação das necessidades coletivas e da supressão “consciente” (aqui friso a palavra consciente) de determinadas razões particulares, certamente aquelas inúteis ou prejudiciais ao todo. Uma verdadeira revolução surgirá quando cada cidadão, por sua conta, estiver apto a aceitar e, principalmente, “compreender” com todo o seu ser que, primeiro, contam as prioridades comuns à maioria e depois, apenas num segundo ou terceiro plano, as individuais.

O diacho é que vivemos os sensacionais “tempos modernos”: A liberdade deve ser “supostamente ilimitada”, onde as pessoas são educadas para buscar ter razão sobre tudo, em fazer prevalecer sua inteligência e suas maravilhosas idéias para construir um mundo melhor primeiro para elas e depois para os outros... É com essa irônica e romântica justificativa que os indivíduos sustentam sua prerrogativa de defender as suas idéias em detrimento de outras. Todos são, per si, os salvadores, os detentores das definitivas soluções. A isso basta – simples - que “todos os outros as aceitem”. Para isso vale tudo: ênfases, imposições, xingamentos, intimidações, e por aí vai.

Aqui no Luso-poemas, como no restante das situações da vida, essa é a ordem das coisas. Não vejo aqui alguém realmente disposto a abrir mão de algo em prol do consenso. Sim, eu leio o fórum. Todos são muito politizados e inteligentes para defenderem e bem os seus pontos de vista. Pronto: está montado o ambiente ideal para jamais haver acordo sobre o que quer que seja. Logicamente, demora pouco, muito pouco, para que um “Lusuário” que se arrogue “cheio de razão” soque (ideologicamente) a cara de outro e que este outro, com uma significativa dose de razão contrária, devolva ao primeiro, na mesma conta, o safanão recebido. Tudo isso acontece, é claro, em nome de estarem defendendo o melhor para o site. São, no fundo, como se poderia dizer? Uns beneméritos...

No “Fórum” em particular as contendas sempre acabam assim: uns virtuais olhos roxos, algumas mágoas, egos murchos, exaltados ou arranhados... Sim, é claro, aqui chamam a isso de “debate democrático”. Se é democrático, impessoal, com respeito apenas aos textos ou às ideias, reparem, por que sempre acaba caindo a discussão para o âmbito pessoal?

Ok, eu já imagino que muitos me dirão: - Você nunca veio aqui para discutir nada... Verdade. Isso que alguém contesta, com “certa dose de razão”, é apenas o usual exercício da democracia: expor com liberdade as suas idéias e impressões. Melhor assim do que não poder expressar-se... – Melhor assim? - Será essa a única alternativa democrática aplicável? Respondo que minha proposta não foca isso. Respondo que minha proposta não é mais uma tratativa para eu prevalecer algum tipo de “idéia”. Simplesmente é uma observação de que talvez seja necessário haver disposição e doação individuais para se buscar “consensos coletivos”. Penso que alguns outros não demorarão muito em tentar quebrar a minha cara em nome da manutenção do que entendem por liberdade de expressão e democracia... Afinal, por aqui, tudo acaba em pancadaria e é preciso, mais do que qualquer outra coisa, “ter razão”, não?

Infelizmente, procurar sobressair a própria razão a todo custo impondo-se sobre outras idéias, ao invés de redundar em democracia, tem se constituído - e com muito êxito - nas maiores e mais longevas ditaduras ao decorrer da história. Por aqui, penso, temos alguns pretensos ditadores com ótimo potencial para o ofício. Costumam estar travestidos na pele da figura libertária e democrata que os permita falar o que lhes dá na telha com claro fito de manipular em causa própria, porque, afinal, se “estão com muita razão”, devem, até por uma questão de “consciência”, defendê-la, mesmo à custa de oferecerem ofensas pessoais, cinismos e idiossincrasias.

Isso é o tudo de todo o porquê de, neste site, eu ser, segundo o conceito de alguns “engajados”, um grande alienado quanto às “importantíssimas e cruciais questões em prol da comunidade Luso-Poemas”. Claro, podem quebrar a minha cara à vontade por aqui, afinal, seria o Fórum o local correto para essa exposição. Mas era preciso dizer o que eu disse assim, neste formato (mesmo até que, sobre esse assunto, “eu possa não ter qualquer razão”).

É por essa e por outras que eu acho que por mais que se considere ter “plena razão para tal”, não se deve (embora, admito, realmente se possa), por exemplo, comentar que um texto escrito por alguém está uma “merda”, nesses termos ou próximo disso. Há milhares de formas mais interessantes e proveitosas para se dizer algo do que fazê-lo assim. É de obviedade ululante que o formato é ofensivo e gratuito a quem lê, busca a humilhação e o escárnio e qualquer justificativa em contrário (como insistir que a crítica é apenas e unicamente ao texto), refinada hipocrisia. Afinal, o que se ganha de real agindo assim? Sentimento de liberdade? Poder? Confiança? Alívio? Ascendência sobre terceiros? De que se beneficia o autor ao ler esse tipo de crítica? Vai agradecer pelo comentário extremamente “sincero”? Vai reputá-lo como balizado e isento? Francamente... Sim, o “excesso de razão” pode ser uma dolorosa tirania.

"Não existe o universo sem a infinita diversidade. Qualquer intervenção humana recairá no artificial". Entendam como quiserem.

(Gê Muniz)
 
Uma visão Luso-Poemas: É Preciso Ter Menos Razão...

DEIXA-ME VIR A MIM

 
DEIXA-ME VIR A MIM...

Sou a contra-face
Da contra-face tua
Na face da lua que renasce

Sou o desvario sadio
No vazio do teu poema
O dobrar do cabo bravio...

Sou teu último dilema
Das manhãs enfermas,
Nos limites mágicos
De tuas secas fronteiras

(Deixa-me vir a mim...)

Gê Muniz
 
DEIXA-ME VIR A MIM

SONETO DO PRÓPRIO ESQUECIMENTO

 
SONETO DO PRÓPRIO ESQUECIMENTO

saudade crassa, doente... pois suma
lapsa, d’uma vez, pr’a trazer em seu lugar
a bruma farta de saudade nenhuma
apartada do meu ser, afastada do meu estar...

quero esquecer de que nunca me esqueço
que o fogo lento do tempo me incensará
nessa amplidão sem fim, sem recomeço...
(nem quero saber dessa dor que arderá...)

lembrança de tudo o que fui: se esfarele
feito um naco extenso d’um pão velho
esfacelando meu peito em farinha leve

deixem-me cravado, exposto à flor da pele
apenas um reles caco alumiado de espelho
que inverte a verve do passado - e a expele
 
SONETO DO PRÓPRIO ESQUECIMENTO

PELA VIDA INTEIRA

 
PELA VIDA INTEIRA

Nasci como todos...
Brandamente equivocado,
Sem destino, meta
Ou fim anunciado

Estou
Bela e pujantemente
Perdido
E muito melhor,
Pleno e sabedor
Disto...

Admito
Há nisto,
Um prazer
Um sabor
Iludido...

Flutuo,
Um revoar desenfreado
Pelas baias
Douradas

Do tempo

Que marcha determinado
A madurar artérias
A cada badalar
Equivocado
De meu coração
Ansiado

Estou convicto
De que nada,
Nem ninguém
Poderá subtrair-me
Desta augusta certeza:

A de saber-me,
Sem eira, nem beira,
Ao solo movediço
De uma esteira
A ser bovinamente empurrado
Por este rio comprido
Que viaja com destino

Ao mar

Porém
Sem nunca,
Jamais desaguar
Ao seu primordial
E genuíno
Elemento
Por uma vida inteira...
 
PELA VIDA INTEIRA

ONDE BANHO MEU SONO AUSENTE

 
ONDE BANHO MEU SONO AUSENTE

a imensidão se amalgama n'um dossel
recolhe a sombra diáfana do sol
e a transforma nos refletores da lua
aos recônditos amplos do palco dos ares

impulsionado pelo arrastar do tempo
a noite espessa embrulha a floresta das feras
superando o ímpeto de estragos do vento
(anseios trôpegos do meu ser em espera...)

logo eu que andava com sede imensa de céu...
respirando o dia qual peixe fora do rio
a replicar, vadio, o arrepio frio dos pólos
pelos poros de minha pele escamosa e tensa...

pois é esse avanço sutil da madrugada
que me sussurra uma fábula nova e a espalha
ao pleno vôo das gaivotas novas sobre as ondas...
meu coração, nesta saga, se pacienta

essa emoção me orienta nesta roda do zodíaco
que reflete pontos de prata espelhados no regato
d’onde nascem meus desejos, bem aos pés das águas
em que banho meu sono ausente, desiderato Dionísiaco...
 
ONDE BANHO MEU SONO AUSENTE

Vida tão e só interessante: cansei

 
Vida tão e só interessante: cansei

Que morram de vez
Os insurretos sonhos
Para que eu
Encontre na vida
Apenas o não-sabor da vida
A temerosa e desenxabida vida concreta
Tão "maravilhosamente" abscondida
Nesses fogos de artifícios todos
 
Vida tão e só interessante: cansei

Gê Muniz