Poemas, frases e mensagens de MarisaSoveral

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de MarisaSoveral

FANTASMAS DA CIDADE

 
Noite fria, gélida…
O bafo é fumo quente…
Levanto a gola do casaco
Aconchego a «charpe»
Pelas ruas pouca gente…
Mas muitos fantasmas
Corpos escondidos
Nos recantos
Cobertos de solidão!
Muitos…muitos…tantos!...

No calor do néon
Da zona comercial…
Aí está a sua cama
Os pertences numa saca
…a garrafa, o naco de pão…
Sombras na cidade sombria
Enroladas num cartão!

Que vidas!..
Caminhos de perdição?
Marginalidade um ditame?
Por querer ou não querer
Essa dura condição?

Foram crianças de colo…
Amaram e foram amados…
Com sonhos e pesadelos…
Ou não!..
E acabaram despejados!

Chegaram à asfixia
De «não vale a pena»!
Ou «que hei-de fazer desta vida»?
Viver é coisa pequena
Seja curta ou comprida!

Sinto frio…muito frio…
Um frio não só corporal
Sinto raiva…muita raiva…
Desta vida problemática
Deste mundo desigual!

14.11.2010
 
FANTASMAS DA CIDADE

PELA CIDADE PENSANDO EM TI

 
Peregrino pelas ruas da cidade, cruzo
a violência urbana e o tempo em flaches mentais.
Vejo os slogans modernos e sedutores das fachadas,
presumidos aglutinadores
e os cobertores deixados pelos cantos
dos encharcados de miséria, acompanhada!
Tudo está podre e corrompido! Putrefacto!
Os rostos passam por mim absortos
naquele vértice sombrio
onde conflui preocupação e tristeza
em rostos mortos!

Tu nunca me disseste, a verdade
pousavas a tua mão na minha e dos teus dedos
brotavam fadas, nada era real
a não ser o teu colo macio para me aninhar e sonhar
com cores e luzes artificiais!
E os meus olhos reluziam tanto até ficarem cansados
e as tuas palavras para me embalar,
iam fugindo, numa melopeia de conforto
como cobertores de lã e alfazema
para me aconchegar!
 
PELA CIDADE  PENSANDO EM TI

VIAGEM NA ESTRADA DA VIDA

 
Reflexão necessária
Sobre a incógnita
Lugar de permanente tensão
E de um incomensurável
questionamento…
Corpo comunicante
Corpo minha única propriedade!
Com a sua medida
No espaço e no tempo…
Road movie
Exercício de inquietação e intimismo
Corpo que canta…corpo que chora…
No efeito hipnótico
E profícuo do ritmo carnal
Das amplidões!

Viajas no meu corpo
Cheio de fantasia
E percorres à mão
Cantos e recantos
Espraiando nas ondulações!
Olho o teu rosto
As tuas expressões
As tuas crispações
Toco-te
De forma virtuose
Como se fosses
Um violino!
E é na música do teu corpo
Que sinto a transcendência
Via láctea
De estrelas ofuscantes…
Dos lábios
Solta-se
O ai fundo
O alívio
Como se tivesse
Ultrapassado
O mundo!..

08.02.2011
 
VIAGEM NA ESTRADA DA VIDA

PESSOAS

 
Amo as pessoas,
Simplesmente, amo as pessoas!
As feias porque não têm culpa
As bonitas porque são presentes dos deuses!
E tanta gente feia é bonita
E tanta gente bonita é feia
Tudo é relativo e subjectivo!

Gosto de apreciar as pessoas…
O movimento dos seus lábios
E os seus lábios cerrados!
A sua pele, indistintamente da cor
Macia ou com rugas!
Os cabelos que o vento penteia
E que outros ventos despenteiam!
As inclinações expressivas dos rostos
E os rostos apagados pela tristeza!
A sua fragilidade tímida
E a energia atraente!
As pregas flácidas do cansaço
Os olhos cheios de olheiras
E a forma indolente de espreguiçar!
Os olhos sonhadores e distantes
E os inquisidores!
As mãos que gesticulam
E as mãos em repouso!
O rosto que enrubesce de repente
E os olhos tímidos que resvalam para baixo!
A forma de andar, cruzar as pernas
Exalar o fumo do cigarro
E levar o copo aos lábios!
O jeito de encorrilhar a testa
E arquear as sobrancelhas!
A gargalhada sonora
O riso abafado
E o sorriso cheio de intenções!

O que mais aprecio na vida
É sentar-me numa esplanada
E ficar a admirar as pessoas
As suas coisas especiais
Apanhando-as desprevenidas
E sem poses!

Mas também de as conhecer na intimidade
Desorientadas pela urgência do desejo!
Com crispações e gemidos
Vulnerabilidades de entrega
Mãos inquietas
Lábios molhados
Corpo inundado de frémitos
Respiração sustida
Espasmos incontroláveis….

Amo as pessoas
Que acreditam em coisas fantásticas
Têm sonhos ridículos
Pensam em voz alta
Hesitam avançando
Dizem que não sabem nada
Andam sempre à procura e nem sabem de quê
Confessam desejos e erros
Emanam carência
E são inquietas e desassossegadas!..
ENFIM!... EU AMO AS PESSOAS!

01.12.2010
 
PESSOAS

FELICIDADE À FLÔR DA PELE

 
Depois dos fulgores, intensos e urgentes do corpo, ficamos de corpos acoplados! Eu olhava os teus olhos…
Janelas da alma? Não creio…é difícil ter certezas!
Os teus olhos enterneciam-me, tinham o brilho inebriante do amor!
-Meu amor, amo-te tanto! Amas-me?
Teus olhos sorriram! Olhei para os teus lábios vermelhos de beijar…
-Isso não se pergunta! Sente-se!
-Sinto em mim e tu?
-Sinto em mim e em ti!
Naufragando na emoção os meus olhos humedeceram!
-Choras?
-Falo!
-Pelos olhos?!...
-Tudo fala em mim e me fala de ti! Vais deixar-me?
-Estou contigo!
Baixei o olhar para as tuas mãos e com um dedo acariciei a tua pele!
Perfeitos os teus dedos, as tuas unhas…
E os dedos deslizaram pelos teus lábios acetinados….
Que fascínio de te amar bocadinho a bocadinho de passear pelo teu corpo os dedos e os lábios…De te amar tanto!
O meu rosto ficou inundado, como chuva a cair em convulsão…
Gotas deslizantes, esvaídas da felicidade abissal e inexplicável!

15.01.2011
 
FELICIDADE À FLÔR DA PELE

SE PUDESSES LER O VENTO ...

 
quando ao principio da noite algum espinho
fica preso ao meu pensamento… o sono não vem
a noite agita-se em sonos curtos
e espaços longos obscuros
cerceados da flor singela
que desperta o sorriso
num embalo de luz
por dentro de mim

de manhã a luz filtra-se
pelas frinchas
mesmo a luz cinzenta
de um dia que acordou molhado

sinto no peito a ânsia
a ânsia de encontrar
a certeza de pensamentos
fluindo num espaço de convicção afectuosa
mas não,
o espaço imenso onde nada acontece inundou-me
nada anuncia a paz

dia triste
a chuva cai silenciosa
as árvores agitam-se
de testa colada ao vidro frio ouço Bach
fixo-me nas árvores fustigadas pelo vento e penso
se pudesses ler o vento e o que ele te leva de mim

out.2011
 
SE PUDESSES LER O VENTO ...

MARRAQUEXE E O DESERTO

 
“Voulez-vous des aphrodisiaques, madame?”
Ouvi e estremeci, enleada pela volúpia dos odores
Que belo corpo másculo, vestido com um djellaba
De cor castanho terra, como as muralhas dos Kasbahs.

Na Medina o bulício é como uma colmeia
Numa incessante azáfama laboriosa de vida,
Mas também muita gente cruzando à deriva,
Rostos do imaginário das mil e uma noites.

Os souks são variados, cada um com o seu mister
Com cheiros penetrantes, como o acre dos couros
A música das palavras que eu não consigo entender
E os ferreiros com a incessante sinfonia dos martelos.

Mais empolgante que ruínas, palácios e museus,
É vaguear na palpitante e esotérica Medina,
Beber um chá de menta, olhando o minarete
E apreciar aquele mundo, tão vivo e perene

Praça Djema el-Fnaa, mestiça, africana e oriental,
Com a algazarra galvanizando toda a minha atenção
Um palco, abraçado pelos actores de uma peça
Em que o guião é escrito pelo fremir da vida.

Estranhas ciências, tantas artes inclassificáveis,
Racionalidades refractárias e insondáveis desígnios
Sentidos telúricos e caleidoscópicas fumaradas
Que invadem todo o espaço que fica em sfumato

Tambores e cornetas repetem as lenga-lengas
Serpentes dançam ao som das flautas berberinas.
Contadores de histórias, videntes e astrólogos
Curandeiros das mordidas de tarântulas e escorpiões.

O crepúsculo está agora no coração dos souks
A luz incendeia as variadas cores das especiarias,
Faísca nos desenhos geométricos dos tapetes
Com as suas histórias épicas ancestrais e eternas.

No imenso emaranhado das ruelas sombrias
Sinto o envolvimento da intimidade do abraço.
Um formigueiro de gente colorida fluiu apressada.
Vultos de um mistério que eu nunca irei conhecer,

Com eles sentei-me à mesa para o jantar ritual
A jovem de olhos negros sensuais, trouxe sorrindo
A água e o sabão na bacia martelada de metal
Depois com a toalha secou-me as mãos com leveza

Antes da comida alguém disse «Bismillah»
E no fim todos disseram «All hamdu Lillah»
Depois os tambores rufaram incendiados
E os corpos se deram frenéticos às danças

Fiquei deitada em almofadas fruindo um fuminho
Estonteada com o saraquitar das ancas e dos seios
Os homens chispando virilidade e desejo latente
Eles e elas expelindo a alegria do prazer ofegante

Foi de grande densidade e exotismo o choque cultural
Uma experiência única cheia de mistérios por desvendar
Depois para sul, passando o Rif e o Muluya - Tiznit,
Eis o Sarah e a verdadeira alma africana do Magreb

Aí ficamos contemplando a imensidão sem limites
As dunas arenosas sucessivas ondulando ao vento
Na aridez desmedida o nosso encontro foi rutilante
E deixou-me em lágrimas de pleno contentamento
 
MARRAQUEXE E O DESERTO

CONJECTURAS OUTONAIS

 
 
Ventos rudes de Outono, gemidos
de folhas secas, aos pés calcadas,
chamando pelo Inverno…
Inevitável cessar, para reaparecer
do fundo do desconhecido, impenetrável
que das águas revoltas vai renascer!

Surpresas volatilizadas em crença
essências chamejantes… cintilantes
como lenha escarlate estalando,
com fragrâncias intensas de pinheiro
em seiva em catadupa deslizando!

Tudo soa, ecoa, tange e vibra
entre as paredes de um escaninho
esculpido em massa de enternecimento
devagar, suavemente de mansinho!
Por acção dos elementos essenciais
misturados num húmus vital
transmutação física recôndita
trabalho de mãe Gaia fundamental!

um dia o assombro, o misterioso prodígio
das profundezas da terra se soltará em graça
no esplendor esfuziante do seu desígnio!

2011
 
CONJECTURAS OUTONAIS

SECURA

 
Tenho sede, tanta sede
Mas não há bebida
Que mitigue esta secura
De areia
No deserto
Em que vivo!

Há alguém por aí
Que significa tudo para mim
Que transborda em cascata
Que está aí
E está aqui
Mesmo que a sua existência
Seja como uma estrela
Que eu admiro
Ao longe!

Os olhos soçobram em névoas
Sofro
Implacavelmente sofro
O ar inquinou
Sufoco
De exaustão!

Sinto que nasci inocente
Mas fui amaldiçoada
O caminho é de ruínas
Maledicências do mundo
Que se grudam no espírito!
Mas o céu está cerúleo
E é imenso e é profundo!

03.12.2010
 
SECURA

EM OUTUBRO ACONTECI

 
Foi numa noite de Outubro que tudo aconteceu
A noite outonal devia estar fria, ventosa, inóspita
As folhas deviam correr rodopiando pelas ruas
Imagino que havia nevoeiro e até alguma chuva

Entre o amor e o ódio o pássaro indomável voou
E com os seus gritos de liberdade todos se calaram
Tu devias ter sorrido aliviada da pressão sentida
E no escuro alguém estremeceu e apertou as mãos

Num outro quarto olharam-se e disseram com desdém
«Pronto foi agora, gritou, já está…tinha que acontecer!»
E deitaram-se extenuados cogitando e sem sono

Eu sei que podia ter sido assim, o filme era de estupor
Eu sei que senti um frio estranho, sem olhos para ver
E que tudo foi e seria, raiva e ódio, inveja e vingança.
 
EM OUTUBRO ACONTECI

ESCALAR

 
Mais um dia na minha vida
Com horas para escalar
Degraus de escada viscosa
Onde posso escorregar
Numa pedra sinuosa!

Que é a vida? Que é isto?
As tuas palavras soam:
«Simplesmente estou
Depois deixo de estar
O sangue secou!»

A morte não me preocupa
Mas quero viver, quero ficar!
Lamento já ter subido
Tantos degraus da vida
Alienada e perdida!

O ritmo agora é inquietante
Mais arfante o exercício
As brumas ocultam o início
De mim me torno distante!

As horas não me deixam parar
A escalada é tenebrosa
E eu não posso sossegar
Consciente, inconsciente
Ir em frente é o destino
Nem sei onde vou chegar!

31.11.2010
 
ESCALAR

The Waterfall (Georgia O'Keefe - (1939)

 
The Waterfall (Georgia O'Keefe - (1939)
 
Sempre gostei da musicalidade da água
De ficar de olhos fechados a ouvir
Podem ser adágios, gotas de bágua
Podem ser vibratos inquietos a cair

Gosto de sentir no meu corpo o seu afago
Pode ser a chuva, a cascata, o rio… o mar
Meu Gerês, onde a água ecoa sem parar
Paraíso de águas puras de meu agrado

Na água vejo inquietação, movimento
É como a vida, um tropel constante
Sempre a correr, não pára um momento!

Olhando a água, a vida está a passar
Ultrapassa tudo, de forma incessante
Mesmo que suspensa eu fique a divagar!..

09.11.2010
 
The Waterfall (Georgia O'Keefe - (1939)

MEU AMOR!...

 
Eu digo ao teu ouvido
Palavras de amor,
não duvides!
Ouve, são palavras de amor intenso!..
Vê o meu sorriso, este sorriso é só teu!
Lembra-te do meu sorriso comum
De sobriedade
E como ele agora mudou
Espelhando felicidade!

Toco o teu corpo
Estrada para os meus dedos
Vaguearem carícias de pele
E na tua pele escrevo
AMO-TE, ADORO-TE…
Risco viajante e vagabundo
Na pele inspiradora
Lá fora é o deserto
Tu és o mapa-mundo!

Entras em mim
Lacrimejo o teu corpo
Na tortura do desejo
Desgrenhado
E ávida cotejo,
Na luta corporal
E latejo!

Lábios que beijam e sussurram
Meu amor…meu amor
Pelo teu corpo
Libertador!
Quero o suplício
A tortura
Sou tua escrava
Com a tua bravura
Dentro de mim
Escava!

Não são apenas palavras
São amputações do espírito!
Entrego-me em aluvião
Incondicionalmente
Em ti busco o infinito!

23.11.2010
 
MEU AMOR!...

NATAL

 
A neve já cai nas serras.
Os caminhos estão fechados.
Os rostos se afogueiam nas brasas da lenha!
Batem leve, levemente… (Augusto Gil)!
O frio e a neve associam-se ao Natal,
Difícil imaginar um Natal com calor,
Com um mergulho no mar
Parece estar fora do contexto bíblico!
Para além de um conhecido limitado,
Não havia mais mundo,
Nem mundos…
Mas outros mundos foram descobertos…
O Novo Mundo surgiu e além deste outros mundos…
Ptolomeu, Copérnico, Kepler, Galileu, Newton…
A ciência derrubou mitos e místicas!..

A tolerância, a boa vontade, o amor, o amor…
O Natal é quando um homem quiser (Ary dos Santos)
E esse é que é o aspecto «religioso»
Da questão!
Não ser humanista por um dia
Ser humanista dia a dia!

Em criança,
Sentia a magia do Natal
A simplicidade
A mescla do frio/calor…
Agora já existem muitas perdas
E o calor se fez frio
E o frio se fez calor sintético!

O Natal é demasiado excessivo!
Está muito adulterado!..
Qual é o espírito do Natal?
O que devia ser?
Amor…
Há tantas promessas de amor
… e tão pouco amor há!
Vida artificial!
Fogueira de vaidades
Luz intensa
Que ofusca a luz natural!
De todas as formas ou de qualquer forma
Para todos um bom Natal!

12.12.2010
 
NATAL

URGÊNCIAS DA NATURA

 
A minha força,
Vence toda a ira, todo o furor
A minha chama impetuosa
Arde-me na alma e no coração!
Quem não sente e não ama
Vive em sofrimento, empalidece…
A chama que me inflama
Como ardência de absinto
Torna suave até a dor
Amo a chaga e a dor nem sinto!

«Procura ser feliz,
Nutre o ardor em ternos afectos
Cúpidas vontades
Dança voluptuosa
Sobe ao pináculo do deleite
Não há tempo a perder!»
Gaia me ciciou fogosa!..

«Vida e morte vivem juntas
Não se podem separar
Não sabes se há amanhã
O vento é um inimigo, a onda é infiel
E as águas podem levar-te
Sequazes da sombra vã!»

Choro suspiro e gemo,
Enraiveço-me, ardo,
Mas já não temo!
Meus nimbos de papel
Em alegrias se dissolveram
Num delirante tropel!

Corro para as florestas,
Para os vales, para as grutas,
Para o leito dos rios,
Para as margens dos riachos
Celebrando o amor!..
Suaves zéfiros acariciam os arbustos
Ervas florescem no prado
A serpente entre as flores do paraíso
Elanguesce de fervor
E eu ouço o seu brado!

16.12.2010
 
URGÊNCIAS DA NATURA

FLUTUANDO

 
Deixa-me entrar dentro da tua cabeça
só vejo flores a rebentar dos teus cabelos
olha para os meus olhos, devagar
para raiares a minha vida sombria…

Gosto tanto de ti
que chega a ser insano
preciso das tuas palavras
encostadas ao meu ouvido
brisas de calor e arrepios
quero-as tanto
que perco o sono.

Desassossegada
acordo cansada e silenciosa
e tenho em mim
o ruído das palavras
que não ouvi
que apenas pressenti.

Não sei o sítio a que pertenço
O que faço aqui
Porque não estou aqui, nem aí!
 
FLUTUANDO

MOMENTO ONÍRICO

 
Aqueles momentos de felicidade
Estão gravados em mim
Estarão por toda a vida
Chamavas-me libélula
Quando acicatava o teu corpo
Espargindo carícias húmidas
Pela tu a geografia apetecível!

Depois de tudo
Ficávamos dentro do abraço!
Pela janela entreaberta
Entrava uma brisa morna
Que abanava a cortina
E deixava a lua espreitar
Iluminando os teus lábios estriados
Que me apetecia morder!..

Tu sussurravas-me ao ouvido
E o cigarro passava da tua
Para a minha boca…
Os rolos de fumo
Vagavam
No mundo onírico
Que nos envolvia!

03.01.2011
 
MOMENTO ONÍRICO

O DIA CLARO!?..

 
Nem sol, nem chuva
Tudo é baço, pardacento
Acordo e penso
A tua palavra não vai chegar!
E eu estou cansada de esperar!?..
Para quê acordar?
Na cama debato-me
Com o dilema: ficar… levantar…
Sem coragem e sem chama
Só queria dormir
Até o dia claro
Se o dia claro surgir!..

O teu silêncio
Dói no vazio de mim!
Acendo-me em fogueira
Crepitando até à cinza
Debalde…
Não há a palavra
E ainda assim
Penso nela
Penso que vai chegar
Talvez
Entre o crepúsculo e o amanhecer
Para me acalmar
A ânsia romper
E ainda assim me excitar!..

Aninho-me no calor da cama
E sonho já cansada de sonhar
Com o dia claro
Com a duplicidade do ritmo da paixão
Com os sorrisos, as palavras, os movimentos
Com o desejo libertador
De expulsar recalcamentos!

14.12.2010
 
O DIA CLARO!?..

CASUALIDADES

 
Não sei porque razão estas coisas têm que me acontecer
Sei que quando te vi, senti-me de imediato agarrada
Gostei do teu sorriso, do teu olhar de intenções a arder
E da entoação que davas à frase deglutida pronunciada

Falavas e eu ficava presa a ti, em intervalos de paladar
Com um som de um bater de língua no céu-da-boca
Gritos mudos de desejo, como sinos em mim a badalar
Incentivavam uma junção transgressiva e muito louca

Por terras estranhas, caminhamos numa outra cadência
Tu foste até ao fundo de mim num imenso arrebatamento
E disponíveis estávamos na descoberta da nossa essência

A nossa viagem foi uma reprodução de uma tela de Chagall
O mundo visto de cima era muito pequenino, um divertimento
E de nuvem em nuvem dançávamos o nosso bailado sexual
 
CASUALIDADES

EROS

 
Será que o meu desejo tem corpo, existe e está a pensar em mim?
Tu a minha alma gémea, aí por qualquer lado, pensando em nós?
Será constante a fantasia de nos completarmos, com alguém por aí?
Num encontro intenso de plenitude de nos sentirmos completos?

Será que Aristófanes tinha razão? Separados mas um só!
Bastando-se, fecundos e iluminados, pela sua própria luz?
O Andros, a Gynos, o Androgynos a união plena e dual,
Não pela carne, mas por algo superior e difícil de exprimir!

Dois acoplados, erectos ou rolando velozes como um raio
Ele filho do Sol, ela filha da Terra, eles filhos da etérea Lua
Mas plenos de força e desafiadores dos deuses! Zeus rugiu:
Cortem-nos ao meio, perderão força, ficarão humildes!

Cortados e com as faces viradas para as suas partes amputadas
Choraram desesperados! Zeus virou seus sexos para a frente
Assim conheceram o desejo carnal, mas difícil era o saciamento,
Os corpos uniam-se, mas as almas dificilmente se encontravam

Buscavam Eros, que como dizia Diotimia, era o intermediário genial
Entre os homens e os deuses, para ascender ao patamar da imortalidade
Só ele podia levar ao Todo, projectando-os para um estado superior
Mas entre Eros e os homens os obstáculos de percurso eram tremendos

Difícil a união perfeita, a plenitude em que tinham vivido
Extinguidos os gemidos do amor, o vazio de novo aparecia
Corpos juntos, mas com as suas almas cheias de angústias
Coarctados de serem um só, sofrendo a dor da insatisfação

11.10.2010
 
EROS