Poemas, frases e mensagens de Lau'Ra

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Lau'Ra

Sempre Cantei em Silêncio

 
Sozinha no quarto,
Fico sentimental,
Lembro todos os momentos
como se visse a nossa fotografia naquele velho jornal.

Oiça a guitarra
em sinfonia com a voz.
Quem me dera a mim assim cantar
para te poder dizer,
Para te poder chorar
tudo aquilo que me proibi de te contar.

Sempre cantei em silêncio.

Hoje cantei normalmente.
Todas aquelas palavras,
Deixadas ao vento,
Elas procuram-te
para te sussurar todo o meu tormento.

Sempre cantei em silêncio.

Sabes;
nunca te entreguei as cartas que te escrevi,
Nunca lambi um selo,
Nunca te cantei as lágrimas que escorreram no meu rosto,
E comecei a acreditar que nunca iria fazê-lo.

Sempre cantei em silêncio.

A noite é uma coisa interessante,
Mística.
A lua olha-nos lá em cima,
Sabendo-nos longe
mas deixando-nos sempre na dúvida
se somos os únicos a olhá-la.

Sempre cantei em silêncio.

Hoje vou sentar-me na varanda,
Vou pegar na minha guitarra,
A minha caneta.
Com ela vou tocar,
Com ela vou escrever,
Com a minha mão,
E nada mais nem nada menos
do que com o meu coração.
Hoje vou olhar a lua,
E escrever-te uma canção.

Não,
Hoje não vou cantar em silêncio.

18/9/10

Laura A. Justino
 
Sempre Cantei em Silêncio

Incógnita

 
Estou a fixar uma porta fechada que não diz nada. Que palavras agora poderiam quebrar este silêncio? Que palavras poderiam concertar os fragmentos de ideias que não consigo desvendar?

Deixo-me nua perante o escuro que me viola com toda a sua frieza, que me rouba a luz e me confude os caminhos para o Inferno.
Esse escuro pedófilo que roubou a esta criança a vontade de viver, de querer sequer sonhar, esse escuro que me rodeia e observa, mas não se deixa ser visto.

Em momentos de fraqueza constantes, desejo poder fechar os olhos e fazer tudo isto desaparecer. E entre tudo isto; as palavras que não deviam ter significado, os pensamentos que não deviam ter criador, as imagens que deviam ter ficado desfocadas; acordar é o pior.

Abrir os olhos dói e deixa-me sem forças.
Sei que, abertos, mais nada os meus olhos vão encontrar. Serão as mesmas ruelas, as mesmas paredes, o mesmo terror, a mesma luz que continua desconhecida, o mesmo nuvoeiro que se deixa pairar sobre quem já nenhumas forças tem.
E fraca, levanto-me para encarar este mundo que me acha forte, que me admira e deseja ser como eu, este mundo que não tem nada de mim, este mundo que não devia existir e que simplesmente odeio.

Não sei o que me assusta mais, não ter a que me prender ou ter demais que me mate. Por vezes, sou o meu maior medo, por vezes, assusto-me a mim mesma.

Luto contra estas imagens sangrentas que me invadem a cabeça e pedem para matar, estes pensamentos que não deviam existir, estas palavras que já quis gritar. Luto contra mim, contra a minha doentia saciedade. Não sei quem sou nem quem deveria ser.

Não tenho porquê. E, por vezes, desejava que este silêncio me sussurasse simplesmente..."porque sim". Mas continua mudo, vendo-me sufocar.

Finjo num filme demorado, sou actriz de um filme irónio sem fim, que nunca ninguém chegou a entender. Sou impossível desvendar e assim, vou permanecer. Sou apenas esta pessoa sem fundo à vista, que sorri com os lábios e fixa o vazio com o olhar, sou aquela que diz as palavras em que não crê e sonha com tudo aquilo que não deveria vaguear na sua cabeça.

E isto não é nada mais que isso, um filme irónico. Vivo num mundo que rejeito, que não tem nada de mim mas que tudo me dá dele: o escuro, o sofrimento; a Realidade. Enquanto isso, na minha mente, vivo noutro que não chega e não se encaixa, que tudo tem de meu, mas que nada de seu me dá. E no fim, são apenas isso. Sonhos. E nem sempre, no fim, ficam.

Por vezes eles perdem-se pelo caminho, por vezes eles são deixados ao lado do urso de peluche, ao lado da inocência.
Às vezes são sugados, outras simplesmente abandonados.

Já conheço o escuro de cor, deixei de procurar caminhos e de apalpar paredes.

Cansei-me destes desejos, cansei-me de falar e ouvir dizer.
Deixo-me ficar muda, sentada no chão, enconstada à parede rasgada de palavras que não fazem qualquer sentido.

Mas, se um dia tentares decifrá-las, teme o que os teus olhos poderão ler. Contem as lágrimas, elas chegarão tarde demais ao funeral de uma alma perdida, de uma mente perturbada. É isso o que sempre serei, uma mente pertubada cheia de imagens doentes, de palavras por metade, uma mente impossível de entender, uma alma que já subiu e não deixou nenhuma escada de retorno.

E, sem porquê, assim permanecerei, incógnita no silêncio assassino.

Laura Justino
 
Incógnita

Asas de Papel

 
Sentei-me numa cadeira de cartão, perante uma secretária de vidro.
Peguei no meu lápis de seda.


Fiz um traço, depois outro. Desenhei caminhos, lágrimas, repressões, todos eles entre riscos. De tudo isso, resultaram asas.
Asas de papel.
Tão sonhadoras, mas mais que isso, frágeis.

Recortei-as e colei-as na parede, ao lado das palavras que em tempos foram ditas e de outras que em tempos tiveram sentido.
Colei-as ao lado do ódio e do amor, ao lado do choro e do sorriso, ao lado das memórias, das lembranças que ainda assombram e ao lado das canções já esquecidas.

Sentei-me no chão, de pernas cruzadas, apenas coberta com um trapo velho.
Está frio e continuo aqui, a olhar aquelas asas.
Espero, sentada e apenas vestida pelo trapo das desiluções ainda um pouco recentes e já um tanto distantes, trapo esse feito de outros panos ali cosidos, como o pano do adeus e o pano da esperança, esperando que toda a magia dos sonhos se possa tornar realidade, que estas asas me possam levar longe.
Mas elas são frágeis e mal despegam da parede.

Estas são asas fortalecidas pelos sonhos, pelas lágrimas que escorreram numa rosto pintado a óleo numa tela branca, pelo querer de ir para além do horizonte que me foi desenhado e imposto, no entanto, não deixam de ser asas de papel.

E eu continuo à espera, olhando-as, imaginado-me em cima de um comboio que me possa levar às estradas de quem quero ser.

Laura Justino
 
Asas de Papel

Pureza

 
Tens o meu olhar. Tens o rebento de todo o meu desfecho nessa tua mão deserta.
Pergunto às vozes da minha cabeça se buscam companhia. Pergunto a partes de mim se não se podem calar, que me ensurdecem os ouvidos, ou se podem falar mais alto porque também o vazio nos enche os tímpanos.
Questiono todo o momento em que ressuscito as cinzas de uma chama mal ardida, pelo pavio de uma cera de má qualidade.
Sou a cera de toda a mediocridade.

Ardo, derreto e endureço.
Ardo, desfaço-me em formas estranhar de ser.

Viajo nas ruas com uma personagem a cada lado.
Amanhã voltas a esta avenida que conheces como não querias conhecer.
Viveste aqui toda o infinito que te corrompe as mãos como lepra.

Se queres morrer, não te chega a falta de oxigénio.
Foi mais um dia e tu nada tiveste.
Foi mais um dia e tornaste-te imortal. É tarde de mais para matares a tua própria essência.

Mentiste a ti mesmo o teu tempo impensável aos céus que hoje acreditas tu na mentira que não tem ponta, como uma bola de corrupção violenta.

Não tens braços que não sejam feitos de nuvens.
O tempo foge-te das ruas e do resto das estradas do teu rosto.
Sabes que cá amanhã ficas, se eu te deixar.
Se te fores hoje, bem sabes que não fugi de ti, fui corrompida pela imundice de todo este conceito do que se é ser.

Achas que não te amo, mas como não te posso amar se não te posso anular e tudo o que me resta é a tua impressão inalienável, que consome toda a verdade em mentiras alimentadas por ilusões.

Sopro a vela, em desejos que se apagam. Mas ela só se eleva mais aos céus e derrete-me em formas ainda mais demónicas.

Dispo a roupa, que a mim não me convém a conjugação.
Se a alma me está despida de carne, se alma me foi vendida como veio ao mundo a ele mesmo, violada, tiro também a roupa. Mais me vale a coerência, se a insanidade for para prevalecer.

Coerência de louco é admirável, coerência de louco faz-nos questionar de que cor é o céu e se os mortos ressuscitam.

Tens medo da coerência, de toda a verdade feita, se ela te embeber todo e não te deixar um único resto ao mundo a que deverias pertencer.

Mas que mundo, mas a quarto, mas que a que cova pertences tu e todos os teus?
Que cova, que mundo será suficientemente grande para que acartes a dentadura, a mentira, o sonho sem asas, as mil almas se habitação.

Despes a roupa. Despes a morte.

Ficas tu agora nua.
Ficas com uma personagem em cada lado do teu corpo, que te fazem sombra.
Ficas com a mentira como manchas de tabaco entre os dentes e caspa entre o coro, para te a sujidade te vista.
A pureza já não é tua. A pureza pertence aos mortos.
Já se foi o tempo, já se foi a verdade e a cortina que tapava todo o meu teatro.

Esperam-me as vozes a um canto, com bastões de dúvidas e ideias de criança para me espancarem.
Esperam-me os nomes na esquina da adultidade para me arrancarem os cabelos e me despirem da sujidade.
Esperam-me todos aqueles braços feitos de nuvens que sangram chuva, que apelam a verdade, que apelam a pureza de uns olhos que viam tudo em fundo de luzes.

Acabou-se a juventude.
Acabou-se a inocência.
A vila torna-se hipócrita. Morres levitada pelos fantasmas das tuas crenças, que hoje absorveste em sarcasmo e sorrisos baratos para que te consumam os pensamentos e te façam adulta.

Despe-te.
Põe-te pura, põe nua, sem pinturas nem farrapos.
Despe-te e espera que as vozes te tatoem os braços, se não te conseguiram tatoar a mente.
Mas não morrerás sem deitar um último suspiro.
Mas não morrerás senão em paralisia, bufando os nomes dos braços feitos de nuvens.

A pureza é dos mortos.
Serás nobre, serás pura uma vez mais.
Serás uma cova cheia.

Serás pura e sozinha, morta.
Voltarás às raízes da tua essência.
Serás pura e sozinha, como eras quando vieste ao mundo.

Acabou-se o tecido vermelho da cortina.
Acabou-se o tecido da roupa bem tricotada.
Acabou-se a pintura de um rosto filtrado pela sujidade.

Serás pura.
Serás cheia.
Serás nuvem.
Serás morte.
Será o meu olhar.
Será o meu desfeito desenhada numa mão deserta.

Choverei sobre ti.
Verás por mim.
Morrei na tua mão, ressuscitarei se os loucos deixarem.

Seremos puros.

L.I.Justino
 
Pureza

Onde te Prendi

 
Por vezes desejava que a minha mente não fosse tão selvagem e o meu coração não fosse assim tão rebelde.
Por vezes ele salta batimentos, por vezes sustenho a respiração só para ouvir o silêncio que estes pensamentos preenchem.

Por vezes desejo que os meus ouvidos parem de procurar as tuas palavras no silêncio e que os meus olhos parem de percorrer o teu corpo, de tal forma que são capazes de o sentir.
Mas tu não estás aqui, nunca estiveste.

Procuro-te na minha mente quando o mundo desaba, procuro o teu sorriso, procuro aqueles sussuros desvalecidos que me dizem "vai correr tudo bem".
Eu tenho uma história, uma história para ser contada. Mas eles não me vão compreender, eles não vivem no meu pensamento.
Eles sabem que sou, mas será que me conhecessem? Eles nunca andaram naqueles lugares, naquelas ruas, naqueles sítios na minha mente.

Fecho os olhos e logo me abres a porta, a escuridão desaparece e as lágrimas evaporam, talvez para depois voltarem quando os abrir e não vir os teus braços à minha volta, quando te abandonar e voltar a marchar na parada da solidão.
A parada onde os tambores são mudos, onde, sozinha, percorro um caminho sem destino debaixo de um céu cinzento.

Não te culpo por ires, culpo-me a mim por prender este amor que deveria ir contigo.
Não te culpo por ficares, culpo-me sim a mim por te prender na minha mente quando não vagueio na tua.

No fim, vou prender sempre alguma coisa.
Por isso, fecho apenas os olhos e visito-te, naquele sítio rebelde onde te prendi.

Laura Justino
 
Onde te Prendi

À luz da minha Doença

 
Vem,
Deita-te sobre o esterco
Reveste o corpo com a penumbra da memória
Ou com o lençol branco da tua glória.

Vem,
Deita-te ao meu lado
Ou sobre mim.
Estende-te e cobre-me o corpo de Fado
Ou simplesmente de ti.

Penteia o cabelo
Se ele te cai para frente.
Se não és quem és, então não tentes sê-lo
Que não gosto de gente que mente.

Radias a morte.
Queres-me consumir com ela.
Cortas-te para te sentires forte
Enquanto me beijas à luz da vela.

Apaga-a.
Deita-te.
Cruza os braços sobre as minhas costelas
Que a noite já se foi,
E eu não sei quem fui
E a luz já não vem das velas.

Olha-me e diz que me amas mais
Que aos teus Deuses,
Mira-me a pele sem melanina ou vida
A vagina sem pelos ou sida
E diz que me amas.

Sem medos,
Sem famas,
Sem constrangimentos
Ou fingimentos.

Abre a garrafa de vinho,
Não precisamos de copos.
Embriaga-me, esboça um sorriso miudinho
E admite que sou a tua doença.

Qual é a minha?
Se não tenho uma, será proeza
De tentar esconder as cartas
Já espalhadas sobre a mesa.

Sabes-me insana,
Sabes-me louca.
Vês a aura de que mim se emana
E a merda que me sai da boca.

Conheces-me.
Eis a minha doença.
Ter medo que me tenhas nem só um pouco
E ao mesmo tempo que não te pertença.

Bebe o vinho, meu amigo
Bebe o vinho de um só trago comigo.
Brindemos à minha doença.
(Eu a ti, que nunca te pertença!)

Laura A. Justino
 
À luz da minha Doença

Ser Saudade

 
Tenho de me organizar, penso.
Tenho de me colar as peças.
Tenho de me rebuscar em cada ano que me saltou entre os cinco espaços de cada mão.
Tenho de me olhar ao espelho e reconhecer-me.

E embora eu não me veja, sinto que me assombro em cada reflexo de candeeiros fracos e psicadélicos.
E embora eu não o diga, eu nunca fui a mesma e aceitei-o.

Derreto-me com a febre.
Embebedo-me em receios e ideias.
Chamo o cancro com cada cigarro que me beija o canto da boca e me escurece os dentes.

Do que me vale debater-me, do que me vale o dilema, a alma já há muito que não me é brilhante.

Oiço tiroteios duplos. Eles que me acertem no peito.
Sentei-me num trono de esperanças moles e pernas perras.

Tentei respirar.
Tentei suspirar embora toda esta dormência que me acomoda à solidão e à paralisia.

Olha para todos eles, para todos os restos de peças montadas.
Olha para eles e questiona-te sobre o teu próprio jogo.

Sente o frio que te corre por entre a camisola esburacada.
Veste-te de preto para não reconheceres a tua própria sombra.
Sentes-te em observação por olhos que não são teus.
Rodeias-te de almas perdidas e velhas num parque sem nome, numa cidade sem filhos.

De quem és filha?
De que és criadora?

Ainda não encontraste uma forma de te matares, encontraste todas e mais umas.
Morres todos os dias, ficas a metade com os anos.
E todos estes anos que te escaparam pelos dedos não são teus, são da tua sombra talvez.

Não sentes saudade, não sentes nostalgia.
És a saudade, és a nostalgia.

Que horas são? Diz, são que horas?
Conto o tempo, quem sabe para o levar comigo numa morte lenta, demorada.

Doí-te?
Sim, doí-me o tempo.
Doem-me os olhos, as pernas, os joelhos mal formados.
Doí-me toda a proporção deste corpo que me mantém acordada de noite.
Doí-me a saudade. Doí-me a nostalgia.

Morrem as almas, já velhas.
Fica vazio o parque, renasce o frio.
Fica a saudade, fica a nostalgia.

Sentes?
Não, não sentes, está afogada na dormência e na paralisia.

Pousa a mão sobre o coração.
Pousa a caneta sobre o cimento.
Deixa-te ficar, como sempre te deixaste.
Deixa-te.

Não vale a pena a solidão, não vale a pena a comodidade nem os ouvidos que escutam os acordes da tua vida.
Queres impressionar os olhos dos demais, já que os teus não te vêem.
Deixa-te disso.

Morre, enquanto o sol rasga as árvores para iluminar as almas que lá não estão e o sino da Igreja marca as nove horas.
Morre.
Fuma.
Morre.

Sê só a saudade. Sê só a nostalgia.

Laura A. Justino
 
Ser Saudade

Canta-me sobre o Ontem

 
Olho-te o corpo. Quanto mais te vejo, menos te quero descobrir.

Procuro-te no teu vulto. Se não fosse esta luz irreal, eu chamaria o teu nome à distância.
Não me reconheço nessa folha de papel cheia de tinta que espero que não seque.

Não me reconheço nessa sala que redecoraste. Nela vejo pedaços espalhados pelo chão de um puzzle que um dia pendurei na parede em frente à cama, numa moldura.

Vasculho e perco-me no pensamento de cada carta que escreveste no infinito e que não pareço encontrar entre as peças desenhadas em recortes.
Escreveste, escreveste-nos na Imortalidade.

Que imagem é esta agora? Diz-me que imagem viste em ti. E nesta imagem disfigurada na tela que pintaste, encontro-te os olhos.
Fixo-os.
Deixa-te estar à minha frente, em silêncio. Respira.
Respira só mais uma vez.

Encontro-te na rua e entre a gabardina preta que deixas a cobrir-te o corpo, só os teus olhos brilham, entre um rosto apático, desconhecido e escondido por entre uma barba por fazer.

Como podes tu teres deixado tudo perder-se quando o teu olhar se equivale a mil e uma luzes de uma cidade acordada?
Não percebo como foste, quando te deixaste ficar.

No escuro, saberias ao mesmo - à verdade, a doce, a tentação, a eternidade de vaga paixão.
Debaixo de lâmpadas fundidas ainda saberia cada canto da tua pele, o cheiro do teu cabelo, a textura das tuas mãos e os traços do teu rosto.

Incidido pelos raios, temo que esqueces que um dia me abraçaste e que cantaste para mim.
Lembras-te de quando me sorrias nas noites que pareciam nunca envelhecer, de quando vivias por mim e eu te deixava tomares-me o corpo, a alma e os sonhos?

Aqui estamos nós.

Deita-te na minha cama e deixa-te iluminar pela luz que passa pelas fendas dos estores. Enrola-te nos meus lençóis, estende-te no branco.

Olho-te na distância, a mais um canto completante do quarto escuro e silencioso.
Oiço a tua respiração entre cada pedaço de silêncio e observo o teu corpo mover-se ao som dela, que ser torna quente e pesada.

Contrais cada músculo, de olhos fechados. Pensei que estarias a sonhar.
O que estarias a sonhar? Sobre aquela cidade, num novo mundo? Em mim?

Respiras e eu continuo sentada, encostada à parede e de joelhos contra o peito para aparar o bater do meu coração.

Páras. Respiras agora mais calmamente.
O teu corpo encontra-se iluminado pela luz azulada da lua que te beija como eu desejaria.
Cada traço do teu vulto está preenchido pela sombra e a luz, que lutam por te tomarem.

Observo-te.
Estás estendido, assim como os teus braços e as tuas mãos que estão viradas para o tecto.
As tuas pernas parecem longas, deitando-se misticamente sobre a cama, enrolando-se com os lençóis de seda branca.

Abres os olhos e sinto-me a aparecer, a focar-me, a materializar-me.
E ainda no escuro, consigo ver-te os olhos amendoados a dirigirem-se na minha direcção, abrindo-se como se em camêra lenta.

Fixas-me e não consigo tirar os olhos sobre o teu rosto. Os teus cabelos parecem terem dançando exaustivamente e folgosamente e agora prolongam-se na almofada, sem saberem para que lado se virarem.

Não me pareces assustado. Aliviado, talvez. Feliz?
Ainda me reconhecesses?
Olhas-me como se ainda me conhecesses e não fosse preciso dizer.
Ainda me chamarias o nome, se te pedisse?

Olhas-me. Olho-te. Fixamo-nos. E entre a tua alma procuro o que não quis deixar de encontrar.

Sim, reconhecesses-me como se nunca tivesses ido, como se ainda ontem tivessemos adormecido nos braços um do outro.

Há quanto tempo que não me olhavas assim! Como se soubesses o que me vai na mente, como se nunca me tivesses deixado.

"Foi bom?". Quero perguntar-te. "Porquê?", talvez também calhasse bem.

Perdão, senti-te dizer com o olhar.

Ficamos então na distância, a fixarmo-nos como se fosse uma daquelas noites que deveriam permanecer na eternidade, que sempre foram nossas e por momentos pareceram questionadas.

É verdade, somos o passado um do outro. Escritos na Infinito de cada um.
Foste o meu tudo, quando eu não era nada. Fui o teu sonho, quando a luz não te alcançava.
Éramos só nós e só nós nos parecia bastar.

Diz-me, isso não te chegou quando me decidiste abandonar, à procura de um novo mundo, de um sonho que pensavas alto?
Cansaste-te de mim? Não fui suficiente, quando querias mais?

Conta-me. O sol é mais brilhante lá? As ruas são orientadoras? Como viste o meu rosto quando não o possuias entre as mãos? Mantinhas-o na mente, num pensamento exaustivo de saudade?
Conta-me. Diz-me se valeu a pena.

Diz-me se fomos uma história de amor real ou se não passámos de duas personagens sem papel onde serem escritas, que acabaram por desvanecer com o tempo quando o Esquecimento chegou e tomou o seu lugar na sala de cinema.

Olhas-me da cama, ainda estendido, tão docemente. Sempre nos olhámos assim. E a certa altura, não te foi suficiente.
Não sei se querias algo mais comigo ao teu lado, ou se eu não te bastei simplesmente.
Sempre fomos o errado do certo.

Foste, deixei-te ir.
Não te prendi, mas também não te esqueci.

Enquanto sonhavas longe de mim, desenhei-te o corpo numa tela gigante e preguei-a por cima do meu espelho.
Não queria ver o reflexo de quem deixaste para trás, de quem não te chegou, mas sim de quem não poderias deixar de ser.

Tantas perguntas me vagueiam na cabeça enquanto me beijas entre o silêncio.

Amaste-me durante o caminho ou rasgaste a minha fotografia e deixaste cada pedaço voar ao som do vento?

Olhas-me e sinto quem foste, quem te fugiu durante este tempo ausente.

Voltaste. Acordaste.

Avanço sobre o pavimento, sobre as palmas das minhas mãos e sobre os joelhos.

Avanço até sentir a tua respiração dançar com a minha de modo que os teus olhos fixam os meus, de tão perto.
Estendi uma mão no ar para te tocar na pele, para sentir que és real. Estendo-a lentamente, com medo que te esfumes ao toque.

Sinto-te finalmente quente, sóbrio.

Nos teus olhos sinto finalmente o amor ao qual escrevi cartas de adeus.

-Devias ter feito as malas e vindo comigo. Levar-te-ia comigo ao topo do sonho...

Fomos uma fita de filme deixada em stand-by para que pudesses sonhar e experimentar, ver o mundo "lá fora".

-Ao topo? Mas tu caíste. E esse topo de montanha não me trazia ar puro, sufocava-me.
Nunca poderia ter feito as malas com mesmas roupas que tu, quando as suas cores divergiam. O nosso destino não era o mesmo, meu amor.

Envolveste o meu corpo com os teus braços e pude finalmente chamar-te o nome, ver em ti o nome que amei.

-Não deixes ir. - disse, enquanto os teus lábios corriam na direcção dos meus.

Após o silêncio e o escuro, seremos nós de novo uma história de amor, desta vez num livro de folhas que não caem ao toque?
Diz-me.
Canta-me.

Laura Justino
 
Canta-me sobre o Ontem

Lábios Vermelhos

 
Olha a rapariga dos lábios vermelhos.
Olha-a bem, com os cabelos ondulados caídos sobre os pequenos seios e as pinturas nos braços, em cada poro da pele.

Olha-a bem, admira-a.
Pede-lhe que seja tua amiga e te conte o seu segredo, sentada ao teu lado, mesmo sabendo que nunca te permitirá fazer ceder a distância.

Pede-lhe um cigarro, se te apetecer, e vê-a tirar da mala que lhe vai caindo pelo ombro o maço, com a segurança nas mãos e a confiança nas pestanas.

Ela que te conte o seu segredo.
Ela que te diga que não és tu.
Ela que sorria para que o mundo a fixe na sua magnificência de pérola pálida e te destroce os teus sonhos.

Conhece-a bem. Mas nunca a sentiste ainda.
Deixa-a retocar o batom e pousar os óculos de sol sobre o nariz polido.
Deixa-a enrolar o cabelo no topo da cabeça para revelar as maçãs de rostos recortadas a lâmina.

Deixo que me digas que és uma estátua, mas não és feita de pedra.
Deixo que pronuncies que foste pintada, mas nunca concebida.

Quem te concebeu? O pénis da revolta e a vagina do pecado?
Diz-me... de quem és filha?

Descreve-me a matéria do teu corpo, do que são feitos os teus ossos e as íris dos teus olhos, que reluzem mas não brilham.

Deixo que brinques com o cigarro aceso entre os dedos, sem te interromper.
Eu ainda guardo o meu na mão, por violar.

Quero que expludas na tua luxúria para que eu o possa acender, com o pescoço esticado e o filtro nos lábios.

Explode e deixa-me os teus restos.
Vai com o eyeliner dos teus olhos, quando os lavares com sabão.

Olha ali a rapariga dos lábios vermelhos, encostada à ombreira dos Armazéns do Chiado.
Olha-a ali, sozinha e ainda desejada.
Mira-a, sem fixar.

Grava-a atrás dos olhos para a puderes ver quando ela já ali não estiver.

Diz adeus à menina dos lábios vermelhos e observa-a a desfilar, sem ter explodido.

Deixa-a ir, como a deixaste brincar com o cigarro sem se queimar.
Deixa-a ir, sem sequer te olhar.

Lá vai ela balançado, com batom na carteira e o espelho que a saúda.
Saúda-a tu também, abana-lhe a mão.
Despede-te.
Despe-te de ti mesma.

Conforta a ombreira, exactamente onde ela repousou sem nome.
Toma o seu lugar, aquece-o agora com o teu calor e observa-a balançar-se, ir-se, sabendo que ela não explodiu e que tu nunca foste ela.



Laura A. Justino
 
Lábios Vermelhos

Strings

 
hands tied up,

like branches of a tree,

born to attached,

yearning to be free.

Sitting on a rock,

I watch the hit and run of the waves,

Wondering if to stay or to go,

If any destiny saves.

To be saved,

wishes every reality son,

Searching among the fading goodness ,

some cruelty left undone.

And with hands tied up,

I search the darkness,

To find the corners of sanity,

leading me to the exits of madness.

But what sanity is this,

Where happiness means strings,

forcing us to belong to another,

cutting our wings.

No sanity belongs to this world,

When all its meaning are shuffled,

And our souls, knurled,

beg not to be troubled.

And in the glance of childhood,

we question,

if any soul told us about this big tree,

-No, none!

Laura A. Justino
 
Strings

Fotografia Silenciada

 
Tranço o cabelo. Não há nenhuma dor que me apanhe as pontas dos cabelos sem eu querer que fogo me queime o corpo.

Os meus lábios mexem-se e ainda assim não dito nenhum som. Embebedo-me em silêncio, o melhor dos remédios para uma mente que não se acomoda com o ruído de toda a existência de uma cidade tão estritamente desenhada em cinzento.

Levanto-me e não me deixo abanar.
Sei que a hora de ir não tarda. Sei que toda esta ânsia não durará num quadro que foi pintado em aguarelas , em tempo de nuvens.

Encosto-me à parede e deixo-me ficar. Sei que um sorriso não viria pedido. Sei que um choro já foi ditado em outros tempos de sol e radiações de nada.

Deito-me no sofá vermelho de uma garagem velha. Oiço o ricochete da guitarra em torno de ferro velho sem dono. Volto às origens.

A pedra rola se for bem talhada. A pedra talha se não for para rolar.
Quem não vê, pinta. Quem não faz, ensina. Quem não é, tenta ser.

Quem não amargura, deixa ficar silenciada a fotografia de tempos.
E quem já não te ama, esquece-te.

Laura A. Justino
 
Fotografia Silenciada

Vício

 
Fumo.
Caio na cama e rebolo.

Fumo.
Caio na cama e durmo.

Não me consolo.

Não me conformo com palavras mascaradas,
Nem com o som do teu sorriso.
Não me consolo com bebidas açucaradas
Ou com a ideia do que preciso.

Não escrevo com juízo.
Não escrevo com consciência.
Não escrevo nem sei o que escrevo.

Não me atrevo
A te deixar ficar
Nem a não querer que vás.

Os teus pés são de cabra,
O teu riso é fugaz.
Tens droga na ponta da língua.

Saltas-me à boca
Sem eu querer que me sejas saliva,
Forças-me os dedos,
Drogas-me e esperas que viva.

Não me vicias.

Fascina-me a tua antiguidade,
As cicatrizes da tua hipocrisia.
Admito, gosto da tua droga
Mas não me vicia.

Rebola,
Enrola e
Acalca.

Não há maneiras de emendar
Uma mente que deseja não ser mente,
Um corpo que nâo quer ter corpo
Ou uma ideia que adora ser só uma ideia.

Corre-te na veia.

A frustração,
A utopia,
A inconsciência,
A droga que vicia.

Não te quero,
Nem te desejo, confesso;
Mas corre-me agora na artéria
A ideia que só quer ser ideia.

Já rebolada,
Já enrolada,
Já fumada.

Obrigada.

Laura Justino
 
Vício

Escoriações

 
-Porque é que a amas?
-Porque os cabelos dela são tão negros como a minha alma.

-Porque é que o amas?
-Porque os olhos dele são tão profundos como o poço em que o irei afundar.

Beija-lhe a barba, sem lhe arrancares a pele. Beija-o, sem o veres por dentro.
Beija-lhe a gordura dos lábios sabendo que queres consumir todo o interior dela.

Entrelacem-se, aceitem e neguem o destino na mesma instância, e não reconheçam a cova moldada à forma dos vossos corpos, altos e moribundos, que caiem para a frente para não terem de olhar para trás e ver os fantasmas escondidos atrás de cada árvore, inquietas à vossa passagem.

Mas não se amem... finjam-no apenas, porque se o poço for profundo o suficiente como são pesadas as pestanas dela, a humidade consumir-vos-à, encherá cada poro e sufocará os vossos pulmões.

Por isso, enquanto os tiverem, gritem o vosso silêncio, ainda que as baratas se debatam nas narinas.

Agarrem as mãos com escoriações e prendam-se à demência um do outro, se é isso que vos atrai.

Sabem que não se pertencem, porque ninguém pertence a nada senão à própria loucura.

Gostam de ser loucos, vocês. Amam a loucura um do outro e então o poço é-vos poético.

Poetizem-se. Possuam-se.

Deixem-se um ao outro.
Levem-se um ao outro.

Se querem morrer, morram.
Se quiserem viver, as árvores continuarão inquietas.

Mas o teu poço é fundo e os meus cabelos negros, e a tua loucura é a minha.

Então afundemos-nos. Então finjamos que nos amamos, mesmo se não for fingimento, e que os fantasmas não nos encurvam as costas.

Laura A. Justino
 
Escoriações

Melodia (do Adeus)

 
Corro entre cidades desertas em noites iluminadas por postes da modernização.
Fecho os olhos no que acho ser o frio do vento.
Fecho as cortinas e digo que está bem assim, um choro para adormecer em vez de uma melodia.

Os homens das gravatas pretas chegam em surpresa. Os homens das gravatas pretas chegam sempre.
Sentam-se na minha cama e pedem-me que tome conta de mim mesma.
Sentam-se de copos vermelhos nas mãos e cruzam as pernas.

Primeiro de tudo, diz um, explica-me todo o custo de um poste numa noite escura.
Segundo de tudo, diz o outro, o vazio de todo o aborrecimento da sinceridade.
Terceiramente, remata o último, justifica todas as questões no quadro de cortiça que ainda não foram riscadas a caneta.

Nunca percebi. Nunca sei.
Farei o que terei de fazer para calar o silêncio da verdade, para ouvir de perto o som da luz do poste que se ergue na cidade, que poderá cegar-me.

Perdi a tua presença debaixo da ponte. Vi dentro do teu espelho o esfumar de uma pistola.
A ideia de morrer jovem consumiu-me.

O caminho da autodestruição é curto e sem cartografia complicada.
Penso que não se pode acreditar sem se sangrar.
Regurgito o papel de cada fotografia que me incita uma memória e que não quero na veia.

Neste últimos dias, o sol parece brilhar sobre o parque da minha solitude.
Nestes últimos dias, o escorrega não me cobre mais do vento.

Mas o fim de mim não me interessa.
Não me interessa como a tua conversa alheia me pretende salvar, ou a ideia do teu amor promissor.

Encostas-me à parede com a frescura que te cobre o corpo e pedes que falemos, cobres-me a boca se o renegar.
A conversa, o teu corpo.

Pedes-me que volte à vida nem que seja por esta estação. Pedes-me que te olhe, talvez que te minta, talvez que te entregue todas as minhas benções dentro de lençóis brancos.

Pedes que me sente, que te oiça. Mas quando olhares para mim, estarei a digerir a imagem dos teus pés.
Não me perguntes onde tenho andado. Não tenho conseguido ver por onde tenho ido.

Chamas-me o nome por alguma razão. Não me queres apanhar o fantasma.
Quando olhar para ti, terás a vaguidão entre os olhos.
Não te posso amar.

Não me poderás amar.

Sou um todo reduzível a pó. Sou um todo acanhado no casulo de seda que me é inerente à figura. Desabrochei o quanto podia. Não mais me será possível.

Talvez doa menos assim, talvez toda o desespero nocturno desta desumanidade citadina me pese menos nos ossos colares.

Talvez seja um acto de fé fechar os olhos, pousar o copo vermelho e desfazer as gravatas de todo o meu egoísmo.
Quem sabe ignorar a cidade, deixá-la por pintar, sem postes nem modernidades obscenas.

Pedes que me ofereça, de alguma maneira, mas não posso. Não consigo.

Percorro as ruelas com trapos vestidos, renegadores de qualquer moda imposta, e não me encontro.
Talvez não sentir de todo seja a única forma de sentir.

Sento-me. Anseio sempre por me sentar.
As mentiras que me mancham a boca como a nicotina me mancha os dedos cansam-me.

A cura à dormência não me é prometida.
O exilir para a medriocidade não é criação possível.

Então eu que não sinta, nem os homens se sentem, nem tu me peças para renascer.

Pedinchas novamente que me sente, pedes mais uma vez que te oiça, mesmo que não te olhe.
Avisas que me queres olhar por dentro, relembras a antiga luta que tomava conta pelas minhas próprias mãos, o sangue vermelho que me corria nas artérias, a vontade de mudança, o extânse no meu rosto fabricado pelo olhar do outro, o toque do outro, a expressão do outro.

Não posso mais olhar, não posso olhar mais rostos nem buscá-los na humanidade quando a minha própria se for, toda a minha configuração.
Não posso mais pendura-me sobre o alcatrão nem revisitar os postes cegantes ou a rua regada nesse dia de Outubro.

Perdi demasiado no incógnito.
Não me amas. Não me podes amar. Não te permito que seja verdadeiro.

Sento-me, com os homens de preto. Fecho os olhos para não cegar, cerro o rosto para não sentir.
Adormeço.

Adeus deserto iluminado;
adeus frio gelado;
adeus copos vermelhos.

E de novo, o que já não é uma melodia.

Laura A. Justino
 
Melodia (do Adeus)

Acorda-me

 
Acorda-me, se puderes.
Acorda-me, se quiseres.

Planeia um sorriso e lança-mo.

Não tenho tido palavras. E, estranhamente, delas não preciso.

Num olhar protestante, regenei-te. Mas, diz-me, o que podia fazer, quando me empurro a mim mesma, num acto de pura revolta, para me afastar?
Anseio o desconhecido, mas, numa forma mística, recuso-me por não ter rosto. E se o tenho, não o reconheço.

Não soube amar. Não sei amar. E intriga-me, se amar é sentir e eu sinto tudo, não sentindo nada.

Arrepio-me, quando há vento. Assalta-me a pobreza, quando a abundância me vem.

Qualquer das maneiras, toca para mim. Num rosto escuro, deslavado, nas mais puras das nudezas e virgindades, em volto de uma barba rija, velha, aconchega-te na poltrona, descansa a guitarra nómada sobre o colo e toca para mim.

Toca uma música velha que eu sabia cantarolar, inspira-me com a rebeldia de cada acorde, num movimento rápido de dedos, tão rápido como um olhar que basta para tudo dizer, sem nada ser dito.

Não te amo, porque não sei amar. E logo eu, que penso que sei tudo, faltando-me ainda tanto na sabedoria.

Nasci ontem, num impulso. E como cada impulso, há momentos em que o arrependo e outros em que o emolduro.

Ensina então esta besta que não sabe amar.

Olhos castanhos profundos, que estendem a nostalgia por pestanas longas. Doce toque de mãos que outros dedos entre os seus já albergaram.
Uma perfeita fotografia que me soa a mentira.

Tudo me soa a mentira: um cigarro mal fumado, uma palavra íntima, um desejo de posse de uma outra carne e ossos, se forem os meus.

Embala-me a mente, desapega-me dela.
Vinca-me as rugas da expressão com um sorriso que não ame, mas abrace, que te queria só meu.
Ando adormecida, no meio de um jeito de não poder amar. Desajeita-me, então.
Abala-me o que nunca foi abalado.

E todo este tempo, eu dormi. Por isso, toca numa manhã virginal, de um branco puro, mas triste que corrompa as cortinas, como a ideia do Céu corrompe a vida.
E como se eu acreditasse nele, toca-me uma melodia suave que venha de longe, chamando.

Dormi tanto.
Então, acorda-me se quiseres.

Acorda-me, se puderes.

Laura A. Justino
 
Acorda-me

Agora que já não te amo

 
Amei-te, amei-te tanto.

Descobriste-me. Tornaste-me vísivel quando eu apenas pairava no silêncio.
Dizeste-me as palavras que me ensinaram a falar, que me ensinaram a sorrir.

A tua voz proclamou-me todos os significados impossíveis de decifrar. E agora, não posso esquecê-la.
Mesmo perdida numa multidão anónima e barulhenta, se sussurasses o meu nome eu viraria a cabeça à tua procura.

As imagens de ti deixadas em mim eram o que, em momentos em que não via a escada toda, me fazia dar o primeiro passo. Preenchias-me o pensamento, fazias-me sorrir para o vazio, fazias-me louca aos olhos dos outros que nunca realmente perceberam o motivo da minha loucura.

Fizeste-me quem sou. E, por momentos,foste. E levaste uma parte de mim, que me pregou este vazio pesado no peito.
Agora, passados estes anos que se desfizeram em poucos segundos, voltaste. Talvez não para mim, talvez apenas a mim.

Voltaram as imagens do teu corpo, o som da voz, o retrato do teu sorriso, o sabor das tuas palavras.
E sentada em frente deste báu de memórias do presente já longuínquo, não me mexo.

Estou assustada, tremo ao sabor das memórias que chegam sem bater à porta.
Agora o relógio, que levava o passado e trazia o esquecimento, parou. Suspendeste o tempo e penduraste o calendário na parede, torto. O caléndário que marca o tempo que foi e já não volta, o tempo da inocência, o tempo da loucura. Agora, são apenas memórias.
E não sei para onde me virar, que parede agarrar e não deixar cair. Não sei o que fazer agora que não te amo a ti, mas sim às tuas memórias.
Sinto a falta das tuas palavras, do profundo do teu ser.

Ensinaste-me a amar-te em várias línguas, agora peço-te apenas que não fales senão as lágrimas vencer-me-ão e deitar-me-ão ao chão, fazer-me-ão cair no que não devia estar aqui; este tempo que o relógio levou e do qual o calendário se esqueceu, estes anos recentes aqui dentro, esquecidos pelos demais e agora amarzenados em memórias que doíem.
Elas doíem, mas fazem-me sorrir, porque quando o mundo se desfaz à minha frente, elas conduzem-me ao som das tuas palavras, ao poder do teu sorriso e então, tudo pára, as paredes que caíem suspendem-se apenas por mais uns segundos, e tu abraças-me.

És uma moeda de duas faces, é o comforto dos braços quentes que me agarram quando tudo parece cair, porque tu continuas lá, perdido em mim. No entanto, estou assustada. Estou assustada, agora perante pedaços de ti espalhados.

Amei-te durante tanto tempo e tenho medo, agora que já não te amo.
Sinto-me deslocada agora que amo quem já não és e não aceito quem te tornaste.
Não te amo, amo sim aquele que ainda, na minha mente, dorme ao meu lado e me ensina as estradas do mundo, aquele que vê a mesma luz que eu; o mesmo sol.

Não hesitei em dar-me, agora não sei tirar-me de ti, quando "tu" já não existes.
Não hesitei em fechar os olhos e cair, agora tenho medo de os abrir e ver no que isto se tornou.

Tenho medo de acordar da realidade que já não passa senão de uma fantasia, deste mundo de memórias que pretendo manter real, tenho medo de acordar e ver que já não estás, de olhar em redor e ver nada senão vazio.

Tenho medo, agora que já não te amo.

Laura Justino
 
Agora que já não te amo

O que o tempo me segredou ao ouvido

 
Choro agora
tudo o que o tempo decidiu guardar,
Oiço agora o relógio que não quer parar.

Abri os olhos,
Li a sentença,
Colada na parede à espera
que acordasse de uma fantasia imensa.

Estive longe a sonhar
com tudo aquilo que não se pode concretizar.
Acordei...
E percebi
que lua é impossível de tocar,
Que quem odeia também pode amar,
Que um dia o céu negro
de branco se poderá pintar.
Mas não hoje...
Ainda não.

Desde que acordei,
Preferia ter continuado a sonhar,
Mais valia ficar longe,
Do que aqui vir parar.

Aguardo sentada
os beijos que ficaram por chegar,
Anseio o toque dos braços
que me costumavam abraçar.

Oiço os passos
que te vão levar,
Sinto as lágrimas
que irão chorar.
Mas onde estás tu agora?
Já longe...
Lá bem longe...

Estás aqui,
Sempre estiveste,
Mas já há algum tempo distante de mim,
Apenas há espera
que um dia alguém proclame
que é o fim.

O tempo não pára,
Nem em suspender-se pensará,
Amanhã será outro dia,
E tu já não estarás cá.

Armários vazios vais deixar,
E uma cama vazia e cheia de
sonhos que costumavas sonhar,
Vão apenas haver
paredes há muito tempo pintadas,
Deixadas no escuridão
de umas cortinas fechadas.

O que o tempo
me segredou ao ouvido,
Foi aquilo que me fez ver
o que poderá vir a ser,
Aquilo que sempre esteve escondido.

Quem me irá apanhar quando eu cair?
Quem me irá proteger
do perigo que irá vir?
Quem me ensinará
tudo aquilo que me resta aprender?
Quem me ajudará
a dar o primeiro passo
nos caminhos que terei de percorrer?

Está a ir...
Ele está a ir...
Ele já se foi...
E ainda muito tem
de deixar partir.

Foi muito o tempo!
Foram longas as horas...
"Tick-tack",
O relógio sussura...

Não posso trazer de volta
o tempo que deixámos ir,
O tempo que precisarei
quando fores,
O tempo de rir,
O tempo não da chuva,
Apenas das flores.

Mesmo que doa,
Nada vou fazer,
Vou deixar o tempo ir,
E eu sei que vai doer.

Vou esperar pelas as desculpas
que não deixaram hora de chegada,
Vou esperar...
Esperar pelo o regresso
de uma alma amada,
Que soube também amar.

Laura Justino
 
O que o tempo me segredou ao ouvido

Culpa o Tempo

 
Hoje faz sentido. Amanhã secalhar já não e talvez me rirei destas palavras ou não me ligarei com elas, embora sabendo que continuarás tatuado no meu coração.
Mas hoje, sim. Hoje fazem todo o sentido.
Por isso escrevo-te do fundo do meu coração, lembrado o passado.

Já te declarei um tanto ido, mas esqueci-me de declarar que outro tanto ficaste. Senão todo e apenas escondido. Escondido em partes de mim que não me costumam visitar mas que, em noites escuras e de solidão, me supreendem e me invadem, trazendo toda a doçura do que foi, mas já não é, da loucura aberta ao mundo, da paixão ainda acessa.

Crescemos, ambos crescemos. Crescemos no mesmo sentido, apenas em direcções diferentes. Continuámos genuínos, apenas mais ausentes. Ausentes do que fomos. Mas eu sei que não te afastaste do quão genuíno sempre foste, apaixonado e verdadeiro.

Os teus olhos ainda me mostram a perfeição e a paixão, o teu sorriso ainda me mostra a beleza e a loucura. Mas as semelhanças que nos juntaram, foram as diferenças que nos separaram.

Por mais memórias tuas que tentei afastar de mim, por mais vezes me tenha dito a mim mesma que era hora de deixar ir, guardo aqui dentro um retrato teu e memórias que não posso mandar embora, memórias dos momentos incríveis que me proporcionaste, daquele pequeno mundo onde apenas nós existíamos, nós e aquela inocência que abrimos juntos.
Crescemos, sim, mas essa inocência, por mais descoberta que a idade e a experiência a tenha deixado, o amor trá-la sempre de novo a mim. A inocência do primeiro amor, a inocência de dar as mãos e ficar apenas debaixo das estrelas a mirá-las, sentados num banco de jardim.

Por mais velhos que sejamos, essa inocência não se irá, ficará o tempo preciso que o amor ainda ficar. Não memórias dele, do amor, apenas ele.
E tu, tu ainda permaneces. Permaneces ainda em mim, já não tão vivamente, apenas marcado, escondido nos meus sorrisos que me fazes soltar com memórias.
Ainda me fazes acelarar o coração quando te vejo sorrir, quando és tu mesmo e percebo que não mudaste tanto assim.

Mas, meu amor, crescemos e connosco levámos certos pensamentos, certa maneira de pensar e de viver. Não somos quem fomos, embora ainda semelhantes.
Posso não adorar as tuas escolhas, posso não adorar os teus caminhos, mas amo-te, ainda te amo. Desta vez, apenas mais discretamente. E eu vejo nos teus olhos e oiço nas tuas palavras que me amaste sempre. No entanto, esquecemo-nos do tempo, que ele existe.

Tempo, meu amor, culpa o tempo; o tempo que nos mandou crescer.

Laura Justino
 
Culpa o Tempo

Adeus Entre Sussuros

 
A saudade é a distância, não os metros, os quilometros.
Porque distância não são os metros nem o que quão longe está, mas sim o quanto inalcansável é.
É o caminho entre um olhar, entre o toque de duas mãos, entre as lágrimas que não se conhecessem umas às outras, entre os pensamentos.

A saudade é a distância, é a ausência.
A ausência das palavras, dos carinhos, dos risos, dos momentos singulares e até dos gritos, porque ao menos eles ainda dizem alguma coisa. Não é como este silêncio que tomou o lugar das palavras, que construíu esta ponte que o orgulho não deixa quebrar. E dói.

Dói ouvir este silêncio e os sussuros do relógio que leva o tempo sabendo que ele não volta e quando se for, irás com ele.

O amor permanece e é ele que torna esta saudade tão dura, tão real.

Secalhar quando fores, quando o tempo te levar, o amor permanecerá, não aumentará, mas ficará mais pesado no peito ao olhar em redor e não te ver.
Secalhar o tempo não se contentará em levar-te apenas e, para além disso, unir-se-á com a ausência e irá desvanecer o amor.

Para onde vais? Para onde é o que o tempo te levará?
- Não para o esquecimento, com certeza.

Não te quero apenas aqui, quero-te em nós. Quero que me tragas os momentos que roubámos a nós mesmos, traz-me de novo as palavras que o orgulho censurou.

Sinto-te longe e, no entanto, estás ali, tão perto de mim.
Sinto a tua falta.

Por vezes sorrio em frente para te mostrar que não és assim tão relevante, que o sol ainda me sorri.
Outras, no escuro que escondi iludindo-te com o dito sol sorridente, sentada sozinha com a saudade, a mágoa e a solidão, desejo que olhes nos meus olhos e que conhecessas as minhas lágrimas.
Mas, em vez disso, deixo-me ficar por estas palavras que nunca irás ler e deixo que o orgulho egoísta vença, torturando-me a mim mesma com os «tick-tack's» do relógio e acenando ao tempo, acenando-te a ti.

Adeus, meus amor;
Encontramo-nos nos meus sonhos.
 
Adeus Entre Sussuros

Inocência

 
Num reflexo de alguém que eu temo ser e também um tanto reconhecer, vejo-me num destroçar de sonhos.
Sinto-me a flutuar, como se num sonho sem sentido e interminável.

Tenho vindo a navegar numa névola constante e prepotente que se coloca perante os meus olhos, esses que discutem com um argumento inválido de não terem mais motivos para viver, de se quererem fechar.
A minha vontade de acordar recolheu-se ao som do disparo de luz solar, do aviso do dia que tinha chegado.

Sento-me sobre a cama por desfazer e fria e reflito sobre os últimos mil dias que tenho passado aqui. E então, avanço por entre o resto do túnel afunilado que me guia como um carrinho de mão ao passado, desde que a memória me deixa lembrar.

E nada. Leio apenas histórias platónicas de um mundo que não existe, de uma pessoa que eu inventei, de uma personalidade, identidade de quem não pertence a este corpo.

Penso quem foi que me amou, quem é que me lamenta a existência e se debate durantes noites escuras sobre se eu deveria ou não cá estar, penso em que me aborda nos sonhos, em quem me disse que eu poderia vir a ser alguém, eventualmente.

Penso em que me puxa para baixo, para não me deixar elevar e desaparecer entre a névola, onde eu perco a noção dos caminhos de volta e me mergulho na dormência para não me sentir o corpo agarrado à alma.

E então, volto a ler. Volto a ler palavras de nada. Desaprendi de ler, perdi a minha habilidade de falar, de me expressar. De pintar o rosto do abstrato, de escrever palavras sem significado, misturadas ao caso, dando a ilusão de serem e quererem ser algo, quando, no fundo, nunca serão nada.

Sinto que tenho dito muito ultimamente, mas que ainda há um vago de palavras em vias de serem usadas, como um recurso para algum momento que não parece chegar nunca.

Digo nada, e esse nada mergulha-se na profunda essência das aparências sem fim, no abstrato de um quadro com traços feitos por um braço sem dono, lançados casualmente à tela.

Tenho-me vindo a cansar do som da minha própria voz, da sua irregularidade, dos movimentos dos meus gestos, das feições mal desenhadas do meu rosto.

Já nem compor frases sei, parece-me.
Entre uma boca que deveria estar calada e uma mente que não deveria estar assim ocupada, afogo-me na minha mesma existência de ser nada.

Morro. E entre aquilo que é morrer, apercebo-me que mal soube viver.

Não tenho ninguém a quem me agarre, ou alguém que me faça querer ficar. Eu fui a tanto sítio, nesta cadeira.
Oh, esta mente...

O que me prende aqui?
Todas as memórias que terei no fim serão do que nunca passou de um borrão no ar, de um sonho que quase se sentiu tocar, que se jurou viver.

Afasto as pessoas, e se a minha mente se pudesse separar do meu corpo, já o teria abandonado debaixo de um poste de rua apagado, junto a um caixote de lixo com cheiro a urina.

Vagueio e não assento, entre ali e aqui, entre o que quero, mas o que não pode existir; como a poeira (suja e modesta de sentido de viver, que se move, embora seja inanimada).

Pergunto-me assim se serei sempre isto. E despedaço-me perante esta ideia plena de ser nada, de continuar a ser nada!
Oh, eu serei nada...
Puramente nada, vagamente nada.

Perco-me de quem quero ser e entre aquilo que penso que sou. Plena insignificância.
E ficou um "eu" aqui sentada, lavada nos cacos das suas desiluções.

Sou horrível. Oh, o quanto desse adjectivo me deve preencher as banhas da loucura. O que serei eu, afinal? Um tormento à própria alma, diria.
Mas o que sei?

Só de pensar que foi isto que cresci para ser manda-me para um canto da escuridão já tão confidente, íntima.

Não sei quem sou. Sei nada...tenho cada espaço por preencher de tudo.
Do que ficou por saber, deixa-se um puzzle inacabado.
Doente. Afinal, sou doente. E continuarei a ser doente.

E por entre os bocados de todo o meu autismo, penso que estou vivendo para morrer.
E envelheço, para este fim.

Para morrer, talvez sentada numa velha cadeira de madeira baloiçante, que me mandará para a frente e depois para trás, como me mandou a saudade e o esquecimento; o tempo. E eu, já com os olhos pequeninos e com os lábios finos, gastos de tanto falar ( de tanto tentar chamar o que não é chamável), já quase inexistentes, estarei perante uma caixa de cartas vazia, com um cheiro a sujo.
Cartas, umas que escrevi e para as quais não encontrei destinatário (isto nas vezes em que soube discriminar o remetente), que sempre esperei, mas nunca chegaram.

Enfim, vivo para morrer em frente a um baú vazio de memórias, de uma vida mandada ao desperdício por uma alma demente.
Que pura e isolada demência de alma! .... E eu preciso de ti agora.
Oh inocência, o quanto eu preciso de ti...

Laura A. Justino
 
Inocência