Poemas, frases e mensagens de freitas.antero

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de freitas.antero

in-controlo

 
hoje vou nu,
despido de mim
e do que de ti há em mim.

só assim poderei olhar-te
sem que o peso do que de mim há em ti
me impeça de te olhar como te olho no meu silêncio

vou nestas botas gastas
para que não me fuja o trilho
aquele por onde vou até ti
e enquanto caminho assalta-me o acto de traição
que vou perpetrar sobre o teu corpo

mas não andará, já, o meu corpo traído

vou estar no mesmo lugar
sentado, de frente para a porta
e quando tu entrares
vais parar um segundo para ver que ali estou
e vais abrir um sorriso
e eu vou morrer.

depois vais-me contar o teu dia
os teus nãos e os teus sins
pois sabes que sempre te ouço

mas hoje não vou ouvir as tuas palavras
só o som que produzem
hoje vou ouvir o teu corpo
todos os meus sentidos pousados em ti
e enquanto falas
olho a tua boca e os teus olhos
e sinto a tua pele nua na minha

e vou querer entrar dentro da tua pele
e pousar-te uma mão no coração

e as tuas mãos, que não param de se expressar,
tocam-me e mostram-me o teu calor

e a dada altura vais estranhar as minhas botas
e eu vou dizer-te que só as calço quando os pés me ardem.

depois invento-te o meu dia
porque não te consigo dizer
que o meu dia foste tu
mesmo quando vestido

quando chegar a hora de te ires
vais aquecer-me a face com um beijo
e, como sempre, dirás
um beijo para o melhor amigo do mundo

e assim que te perder para a porta
vou sentir-me mais nu do que nunca
 
in-controlo

memento

 
sim.
já fumei escondido.
o cigarro teve outro sabor. atrevido.
foi fogo e medo e dedos trémulos.

e a primeira vez que a pele se me acendeu
a terra tremeu. as mãos queimavam e o corpo ardia
o isqueiro tinha olhos verdes
foi fogo e medo e dedos trémulos.

os dedos continuam
e quando faíscam, as primeiras memórias sobem
não afogam.
e o mais à frente é fogo e medo e dedos trémulos.
 
memento

apotegma

 
disse ele:
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”

deus não quer nada.
se deus quisesse alguma coisa não estaria ali aquela criança, de olhos molhados, e lábios pousados no seio seco da mãe.
e nem a mãe estaria de olhos molhados por ter somente um seio seco para pousar nos lábios do filho.

o homem não sonha.
o homem abomina os sonhos. Os sonhos são castelos no ar.
dezenas, centenas, milhares, milhões de castelos a voar, a voar, e a caírem.
a caírem.
a desfazerem-se em pó no chão do pesadelo.
do homem-pesadelo. Do pesadelo-homem.
o criador da não-obra.

a obra nasce quando a árvore fura a terra e corre para o céu.
quando o choro de uma criança irrompe do útero da mãe a reclamar os seus castelos no ar.
quando o sol ri ao mostrar o azul do céu e chama a árvore e a criança e lhes mostra a obra.
quando a terra faz amor.

depois, tudo cai no que deus não quer e no que o homem não sonha.

merda de mensagem!
 
apotegma

short stories #1

 
é o destino.
outros dizem: sorte, ou falta dela. dizem que o caminho já está aberto, prédefinido. então para que serve a escolha, o livre-arbítrio, o arrependimento e o remorso?

seja o que for, Luís mudou.

entrou no bar e escolheu a mesa da esquerda.
a noite estava animada e ele sentia-se eufórico.
Ana, rapariga nos vinte e dois, corpo cheio de energia e capaz de tirar toda a energia a quem quer que fosse, foi atende-lo.

que desejas?

desejo os teus olhos, disse Luís.

e para que os queres tu?

vem comigo e eu digo-te.

não perdes tempo, riu-se Ana.

Luís bebeu, riu, saltou e dançou.
ao sair virou-se e acenou a despedida e viu os olhos verdes de Ana sorrir-lhe um adeus.

às quinze e vinte e três do dia seguinte tocaram-lhe à porta. Luís deparou-se com uma pequena caixa de cartão, deixada na soleira.
tinha escrito na tampa, em letras negras:

tens mais dois desejos
escolhe-os bem

Luís abriu a caixa e viu o verde de dois olhos que já não tinham tempo.
 
short stories  #1

xadrez

 
e no auge da batalha:

oooooooooh! meu amor
oh, que bom.
foi tudo maravilhoso. o presente. o jantar. a música. e agora este calor imenso.
amanhã quero igual.

ó foda-se, lá estás tu com essas merdas.
 
xadrez

do som do riso ao cair

 
...

a minha mãe costumava dizer
que eu achava graça ao cair de uma folha

era sempre a rir

agora zango-me com o vento que faz cair as folhas.

disse.
 
  do som do riso ao cair

crónicas dos novos dias

 
dia primeiro

são cinco e trinta e oito da madruga-quase-dia do primeiro dia. e de repente a cama adquire uma qualidade de quase transcendência. deito-me. uau, que bom!

acho que ainda não lavei os dentes! foda-se, lá se vai a transcendência.
um palavrão. que por acaso até é pequeno. foda-se. seis letras e um tracinho. hipipapaquigrafo é maior. e o nome do senhor que trata do nariz e da laringe e do ouvido é ainda maior.
do senhor ou da senhora.
não quero começar o ano sendo acusado de machismo ou, pior ainda, de misoginia.
para que conste: eu sou absolutamente a favor das mulheres. em todas as posições.

dentes lavados. merda de dentes que nunca ficam branquinhos. o tabaco.

cama. caminha!

são cinco e quarenta e seis.
e à minha volta as luzes e o fumo e a música e os corpos ainda dançam. e o champanhe. mais champanhe. e minis. e saias minis. por acaso havia poucas. merda, quem foi o burro que se lembrou de pôr house?
celebrar um ano que finda ou um que começa?
as duas coisas, vá. começa-se às dezanove ou vinte do último dia e espera-se pela hora zero e grita-se eeeeeeeeeeeeei e dão-se beijos e tal.
e não se lembram as coisas boas do anterior. e as más. o que se fez. o que não se fez. o que não se devia fazer e o que se devia.

e enquanto o sono não nos engole começamos a pensar nas coisas que temos de fazer e que não vamos fazer.

amanhã vou deixar de fumar. é sempre uma das medidas a serem tomadas. é isso, vou deixar de fumar. mas o que vou fazer ao tabaco que ainda tenho? não o posso deitar ao lixo, isso seria desperdiçar dinheiro. pronto, quando este acabar deixo de fumar. mesmo. e, assim, pode ser que os dentes fiquem branquinhos. está decidido.

concretizar sonhos. é o que deve ser. o resto fica para o ano que vem.

e as luzes já enfraqueceram. não há mais ninguém a dançar, só a minha cabeça. devagarinho.

e.

o resto do dia na companhia da família. as coisas do costume. algumas dores de cabeça. alguma falta de vontade para estar a horas à mesa. segunda parte da celebração. grande almoçarada. depois a molenga da tarde. conversas e outras coisas que tal. vou ao piano martelar os últimos acordes da tarde.

ligo o carro e venho-me embora. e logo ali começa o vazio. que aumenta à medida que como a distância que me separa da minha casa. vazia. e quando, finalmente, me sento nesta cadeira, o buraco enorme que se fez faz-me ver, mais uma vez, que afinal a celebração é a família.

mais visitas à família.
é uma das medidas para o novo ano.
 
crónicas dos novos dias

plastídio

 
sei do riso
do choro
e do silêncio

e sei das coisas das coisas

aprende a minha mão
e deixa-me saber de ti
 
plastídio

da Didascália

 
convém sermos espontâneos.
devemos.
seguir o texto na espontaneidade.
mas, por vezes, a didascália está a cagar-se para o espontâneo.

pausa.

1 Tempo.

não mexer o corpo.
ficar parado.
e
dizer o texto.
 
da Didascália

sentir sentir

 
queria sentir sentir a tua falta
de quando me ensinavas os passos
e me dizias o caminho.
de quando a tua mão pousava no meu ombro
e me mostrava as palavras.
todas as palavras.
de como elas vinham por todos os caminhos
em todos os passos.

sentir o sentires-me.
acima de tudo. acima das palavras.

mas tu engoliste as palavras
ou elas engoliram-te.
talvez nunca as tiveste
ou talvez não tas ensinaram.
certo é que não mas mostraste
nem tampouco mas disseste.

e eu que abdicava de todas as outras
para sentir-te apenas uma
uma só.
que não nos teus lábios.

sentir-me a sentires-me. não.

agora invento palavras
por querer sentir sentir a tua falta.
 
sentir sentir

incandescente

 
A noite. A cidade. Os passos. Os nossos passos.
Engolimo-nos na cidade desta noite.
Fizemos do tempo sofá.

Ainda trago nas mãos o cheiro das horas que abraçamos.
Nos dedos todos os segundos. Contados. Acesos.
Na palma da tua mão o meu rosto, esculpido nas palavras que dissemos.
Soltas.
Sem outro significado que não o que os sentidos colheram.
Mesmo naquelas que não dissemos e que os olhos atiraram para dentro do corpo.

E o tempo - no sofá. À espera.

O relógio acordou.
Mostrou-nos que as horas também abraçam. Os minutos. Os segundos.
E outras e outros virão.

Só os dedos das nossas mãos sabem se irão ser contados.
 
incandescente

colisão frontal de um voo a destempo

 
quis voar antes das asas e agora temo perder o céu.

e este pensamento não se desvia de mim.
teima em colidir-me. de frente.

e por cada vez que o faz eu procuro-me nos escombros.
ergo-me por onde ele passou.
só assim o matarei.
para sempre.

resta-me esperar pelas asas. Depois…
depois, tomarei os ventos ascendentes, devagar,
e cada vez mais alto atingirei o pico de voo.

que o azul ainda seja.
 
colisão frontal de um voo a destempo

coisa imperfeita contínua

 
e levou-me os sonhos, dizia.
o meu corpo quebrado
e sem nada.

sobrou-te Um pesadelo.
há mais sonhos.
estão sempre a vir. mais e mais.
alguns reinventam-se
outros nascem pela primeira vez.

e, por fim, adormeceu.
 
coisa imperfeita contínua

doxomania

 
Belo!
Sou tão belo!
Que belo que sou!

Estes Dedos
Estas Mãos
Tão belos, tão belas!

E estes Lábios
E esta Boca
Tão belos, tão bela!

Que belo que sou!
Sou tão belo!
Belo!

Eu sou omniparente!

Vai-te foder – vomitaram todos os Espelhos da Sala.

Foi encontrado morto junto de uma fonte,
Com metade do dedo médio na boca.
 
doxomania

num dia bem de morrer

 
num dia bem de morrer
corriam pela calçada um homem e uma mulher,
de forma desenfreada.

a sete pés ao quadrado
fugiam doutros pés,
uns que andam de lado e às vezes ao revés.

pairaram na encruzilhada, lugar sempre de horror, que a dúvida está emboscada
para bem servir o amor,
os tais outros pés, sem dedos.

que não sabendo caminhar,
enredam os dias do medo,
a quem por bem se quer dar.
 
num dia bem de morrer

da magia da magia

 
Não vou dizer que te amo.
Seria um tiro. Mais que no pé.
Vou dizer que amo o momento de poder dizer que te amo.
Talvez outro tiro. Se tiveres o gatilho leve e não acreditares
Que o tempo nos guarda tempo.

Tempo? Tempo? Gritas tu.
Vira que vira
Sonho no sonho
Sonho e mais sonho
Vira que vira –

Pesadelo.

Tantos tiros. Tiros no tempo que to roubou.
Carregador vazio e guardas o gatilho.
Já não acreditas na arma. E viras as costas ao tempo
Porque moras no pesadelo.

É então que o relógio acorda
E por magia te dá corda
Mas vais limpar a arma
Porque ainda não abriste a porta da tua última morada.

Presentes o sol, a luz, o vento
E ouves o tempo no seu murmúrio
Dizer-te que ainda lá está
Abres a porta
E começas a amar o momento de eu poder dizer que te amo.

Porque o que há de mágico na magia é acreditar nela.
 
da magia da magia

da Glótica

 
e a tua língua ainda não me disse um beijo.
 
da Glótica

Pão d'água com Tulicreme

 
Era uma vez um Homem. Uma vez conheceu o Poeta. Depois queria ser o Mais Alto. Independentemente de.

Um dia:

E o som da bofetada –
Branco. Auto-branco.

E o som da vergonha –
Mudo.

E o som da palavra –
Semper Fidelis. À Egolocalização.

Mais uma vez.

Pão de água e Tulicreme não combinam. Da próxima vez a manteiga.
Não concordo com Nietzsche – quem quereria regressar à cena do crime e cometer os mesmos erros eternamente? O eterno retorno deveria servir para remediarmos os erros.

Regressado à Casa dos Poemas o Homem-Poeta falou.

E o som duma Palavra Dada –
.

E o Homem-Poeta continuou a escrever poemas felizes.
 
Pão d'água com Tulicreme

Amoris

 
As poesias de amor são impossíveis.
E o amor impossível vira sempre poesia.

E eu estou cansado de ouvir de amor!
Se ao menos falassem do Amor! Se ao menos falassem!
Colocam o amor num pedestal ornamentado dos mais absurdos adjectivos e não sabem que o Amor somos nós.

Que se fodam as rosas e as flores e a seda.

A seda é a palma da mão na pele. E a pele treme.

Que se foda o luar sentado à beira mar, numa noite de verão, com os cabelos sedosos a esvoaçarem ao sabor de uma brisa que traz um qualquer cheiro inventado.

O importante é o lugar sentado ao nosso lado.

Se ao menos falassem do Amor.
O Amor é sangue, é ranho e baba.
É rasgar a carne e, depois da dor, voltar a rasgá-la.
 
Amoris

the art of letting go

 
Parto sem dor.
De que adianta partir com dor, se a dor ainda nos faz doer mais.
Levo comigo o teu rosto, envolto em mortalha de memória.
Hei-de fumá-la até que do fumo só me reste a lembrança de que um dia fomos unos.
E essa, talvez me doa.
Talvez me doa pela constatação da impossibilidade de me tornar uno e por aí ficar.
Contigo.

Volto ao início de mim.
Torno-me uno, eu e a minha sombra.
Sombra do que fui e do que serei.
Disso, tenho a certeza. Seremos únicos e caminharemos lado a lado. A não ser que o Sol deixe de brilhar.

Parto sem rancor.
O ódio só nos torna cada vez mais sós.
Dizem que há um tempo para amar e outro para odiar.
Como é que se odeia alguém que se tornou em nós?
A sombra não odeia. Mas talvez ame. E talvez sinta dor. A dor de não ter uma sombra que lhe faça Sol.

Parto com alegria.
A alegria de saber que o meu rosto ficou contigo.
E que a memória na tua mortalha não sente dor, nem rancor.
A tua sombra talvez sinta a mesma dor que a minha.
Mas, um dia, talvez o Sol.
 
the art of letting go