Poemas, frases e mensagens de silva.d.c

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de silva.d.c

Interior

 
Amo, nas tardes quase noites
O teu corpo de dia, amante

Bebo como se tivesse sede
Um líquido quase dor
Mente, a sabor fresco na boca.

Não sei se o que escrevi
É o peito deserto aos olhos de não saber ler

Mas o sol diz que brilhou
Sobre a ausência do corpo depois de morrer

Mármores deitados
Sinto-me cobertores de sombra

Então adormeço a vida
E amo a dor de não te ter.
 
Interior

Os inocentes não têm bandeira

 
Morrem pessoas todos os dias, mulheres, homens e crianças. Todos os dias morrem mães, pais e filhos, à bomba, ao frio, à fome, morrem sem nome, sem pátria e sem bandeira, morrem sós, sem um avatar solidário que lhes largue uma lágrima à tragédia. Somos todos terroristas. Não há tragédia maior que a indiferença, não há ferida que mais doa que a discriminação. Morrem inocentes todos os dias, à fome e à bomba, e é o nosso dinheiro que prime o gatilho, que lhes tira o pão da boca, que nos faz terroristas, reféns e cúmplices da mentira e da média. Somos terroristas. Iludidos por uma bandeira hipócrita que nos dói só por alguns. Esta é a hipocrisia da vida, divide-nos em dois grupos, os que não têm cérebro porque têm bandeiras e os que não têm bandeiras porque têm cérebro. O luto é pelos inocentes, por todos os inocentes. Os inocentes não têm bandeira.
 
Os inocentes não têm bandeira

Forma de cair

 
Não há outra forma de cair
Senão a forma que a vida mostra
Nem outra maneira de viver
Do que aquela que cair ensina
Quem isto entende, tem como endireitar as costas
Seguir em frente e levantar a cabeça
Porque depois da queda, o momento em que ergue o corpo
É todo força, movimento e vida

Não se pode viver curvado
Com uma visão deformada das coisas
Abrir os olhos ao acordar, é natural até morrer
Mas acordar não é viver
Nascer é estar vivo, até porque nascer todo o homem nasce
Só que estar vivo não é viver

Viver é movimento somado à vida, à existência
É atrito, é sentimento, é uma química que acontece na alma
De alguém que cai e depois se levanta
E sem mágoa, cresce pelas cicatrizes do corpo
Para elevar o patamar do mundo.
 
Forma de cair

A busca inglória da felicidade nas paisagens estéreis do mundo

 
Desejar ser feliz é o caminho mais curto para a angústia. Idealizar o conceito de felicidade em algo ou em alguém é castrar a própria possibilidade de ser feliz. Quando alguém define, escolhe ou estabelece um objecto ou uma pessoa como imperativo para ser feliz, coloca-se na delicada situação de dependência externa para alcançar o fim. O simples facto de estabelecer uma meta, de definir um ponto na paisagem estéril da realidade como imperativo para atingir qualquer estado de espirito, no caso felicidade, coloca a pessoa perante a condição dual de alcançar ou não o propósito desejado, e a partir desse momento, depende da dualidade em que se encontra e tem a sua acção também condicionada. É, assim, quando ajustada ao propósito, o desejo de felicidade, que a própria manifestação existencial se castra da sua expressão natural e livre, ou seja, do objectivo da felicidade materializado em algo externo ou colado a alguém, resulta apenas uma busca inglória destinada ao fracasso. Isto acontece porque, ao se impor um estado de espirito à natureza humana, anula-se a própria natureza humana pela determinação consciente de que, o objectivo, está ao alcance da busca. Colar o conceito "felicidade" a algo ou a alguém, é anular o controlo que se detém sobre a existência e sobre a felicidade, pois esse controlo fica delegado a entidades exteriores que não podem ser controladas. A felicidade esconde-se nas coisas simples, resume-se à existência, ao universo de cada homem e das suas escolhas. O aceitar a existência, a vida, a morte, aceitar o caminho, o chão, a linha continua da alma, e fazer tudo isto sozinho. Aceitar a felicidade, aprender a aceitar, é escolher ser feliz. É tornar-se aquilo que se já é.
Nada se realiza sem a fundação sólida da base. Nada se forma a não ser da essência do que já é e da do que se quer formar. O próximo segundo é a continuação do actual, a realização assumida do que ainda não aconteceu. A busca inglória da felicidade nas paisagens estéreis do mundo.
 
A busca inglória da felicidade nas paisagens estéreis do mundo

A água cai e fertiliza a terra

 
A água cai e fertiliza a terra sem explicar como nem porquê
Assim nasce uma vida enquanto realizo o mundo inteiro
E sinto na planta dos pés esta verdade universal

Nos primeiros passos que dou a descobri o passar das horas
A imaginar o passar dos dias e a inventar o passar dos anos
Vivendo breves metamorfoses
Numa directa existência rumo a um vazio memorável

Do nada nascem poemas
E nascem jardins entre prisões
Da liberdade nasce uma brisa que suave me toca o corpo.

Vivo breves metamorfoses sem me conhecer
Vivo outra vez
Mas estranho-me sempre nas úlceras do tempo.

A água cai e fertiliza a terra sem explicar como nem porquê
Nascem jardins entre prisões enquanto realizo uma dor.
Quero-me através do tempo como se fosse hoje falar de mim
Para não me esquecer que vivi.
 
A água cai e fertiliza a terra

O vento amaina

 
O vento amaina cansado.
Nasceu no quarto negro do universo
E veio passear à terra
Conhecer as curvas do mundo

O vento toca a textura das folhas
A pele dos frutos
A ondulação do mar
A espessura dos cabelos das pessoas
Toca o limite das coisas por ir contra tudo
Sem limite, nem forma

O vento é o grito de um deus cego
Com a diversidade do mundo agarrada à garganta
Não faz distinção
De espécie
De cor
De sexo
De raça
Toca o limite das coisas e vai contra tudo

O vento amaina cansado nos cantos do corpo
Sem voz na rouquidão dos homens
Perde força
Natureza
Sentimento.
O vento amaina
Nas ruas de uma cidade
Contra esquinas, esquadrias e cimento.
 
O vento amaina

Poema e chuva

 
Enquanto, lá fora, chove despropositadamente
Tento escrever, nesta folha, um poema com muito propósito
Que seja algo mais que a extensão de um pensamento
Mais que a resistência e que o atrito dos labirintos da mente
Tento escrever um poema que venha de dentro
E se cumpra inteiro, morrendo nos olhos de quem o lê

Se eu o escrever corpo, vida e cor
E me sentar à porta a olhar para ele
Será poema em tudo o que existe
Em tudo o que vejo, puro e livre, e aceito porque me é dado.
Sempre que o céu se curvar e tocar a terra
Por meio de brilho e de chuva a salpicar as pedras
Desprender-se-á de mim sem choro e sem dor
Todo ele paisagem, perfeição e paz
Porque sendo céu, não é terra, e sendo terra, não é céu
Um equilíbrio que é bom de ver, sem que precise de pensar nele.
Ter-se-á então cumprido ao morrer-me nos olhos
Nascendo, sem esforço, no momento seguinte
Também ele, poema e chuva.
 
Poema e chuva

Debruçado sobre a janela

 
Debruçado sobre a janela, atento na natureza
E na simplicidade com que ela se manifesta em todos os momentos
Com a expressão de que existe, sem esforço, em si mesma
E isto é algo que me encanta quando o consigo realizar.

Tenho lugar sentado à janela do sonho
Passageiro oculto em viagem com vista para o tempo
O destino é além do campo e da visão, onde não há destino
Quando todos os pontos são pontos de encontro
Sem lugar específico e em todos os lugares
Sem forma definida e em todas as formas
Onde mentes se tocam num vácuo absoluto e vagaroso
E experimentam a totalidade do universo na universalidade do amor

Sou permeável como uma nuvem e nada absorvo
Nada me condiciona a forma
Apenas vejo e aceito a imagem do mundo que vejo
Como se apresenta, tantas vezes carregado e denso
Então, sem pensar, dispenso tudo o que vi
Sem me demorar em tempestades
Chovo tudo, com ligeireza, para o chão.

A realidade é uma farsa
O mundo gira e passa pela anarquia dos sentidos
E como o sentimos
Aquilo que aparenta ser
É na verdade um pouco menos de tudo
E muito mais de nada
Mas é sempre o mesmo, quer a janela esteja meia aberta
Quer esteja, meia janela fechada.
 
Debruçado sobre a janela

Ants

 
Hoje estou cansado
Dói-me o corpo da realidade compressora sobre a carne
E dói-me a cabeça com o peso destes pensamentos sólidos.
Estou cansado
Não pelo que fiz hoje
Mas pelo que tenho agendado para fazer amanhã.

Se soubesse que ia morrer esta noite
Decerto andaria folgado e leve
Por não ter nada para fazer amanhã.
O que me cansa são os dias programados
A repetição no pensamento, antes da repetição dos dias
E cansa-me mais a certeza de pensar nisto
Do que tudo o que tenho para fazer e que sei que não farei
E esta certeza aleija-me o corpo como culpa de faltar com a vida.

Quisera o destino que fosse humano
E que tivesse pensamentos sólidos
Sobre qualquer coisa que cheira a céu e a divino
Quando deveria ser formiga, feliz por não pensar repetições
E por andar sempre junto à terra.

Ando farto de ser deus do meu destino por cumprir.

Hoje estou cansado da realidade de não ser formiga.
Estou sentado numa cadeira a ver formigas
A passarem encarreiradas na labuta automática de não pensarem amanhã
Nem no segundo seguinte, nem na morte a consumir-lhes o tempo.

Estou sentado na cadeira que me persegue para onde eu for
E cansado de fugir dela
Cansado de ser eu e ter pensamentos sólidos
Agarrado à vida e a coisas vagas como amanhãs com cheiro de morte.
Cansado
De ver formigas.
 
Ants

As cidades ainda brilham

 
Na mala fechada, viagens, fins de tarde
E avenidas iluminadas, desenhadas num postal.

As cidades ainda brilham
Nos cafés o teu perfume, um sorriso solto na praça
Nas montras, a tua pele.

As cidades ainda brilham
E o teu nome suspirado, não podia fazer mais eco
No silêncio daqueles lugares.

Na mala fechada, viagens, madrugadas
E avenidas iluminadas, desenhadas num postal.

Estou de partida amor, estou de partida…
 
As cidades ainda brilham

Cada vez que assomo à janela

 
Cada vez que assomo à janela
E o vento bate assim, fresco na cara
Ah, sinto o meu mundo todo estremecer
Sinto um arrepio no corpo inteiro.

Das savanas de África aos néones de Tóquio
Tudo me diz quem sou e que o meu lugar é aqui
Aquilo que sei de mim e do mundo, é porque não fui, indo
É porque nunca me esqueci

Apesar de todas as viagens
Nunca chego a esquecer a transparência do que me leva

E as viagens são como o vento que bate fresco na cara
As partidas espontâneas, os percursos com todos os seus tesouros
Os regressos onde o pó do caminho se torna origem de novo

Mas cada vez que assomo à janela
É sempre aqui que me encontro, que estremeço
E tenho a certeza de fazer parte de tudo.
 
Cada vez que assomo à janela

Fortuna

 
Os anos passaram e tive a sorte de envelhecer muito depressa
De ficar velho ainda novo
A tempo de voltar a ser criança
Um pouco antes de ficar velho.
 
Fortuna

Alguém inventou a luz

 
No início não havia o nada
Estava lá tudo
O verbo
O fogo, o ar, a água e a terra
Até os homens

Havia silêncio
E o verbo era respeito
Escuridão
E os homens eram um só
De mãos dadas
Para não caírem no tudo

Depois alguém inventou a luz
E acendeu-a
Sobre todas as coisas
Sobre todos os seres
Até sobre os homens

Então os homens puderam ver o horizonte
Abraçaram o desejo de tudo
E afastaram-se do mundo

Transformaram o fogo
O ar, a água e a terra
Até outros homens
Em verbo maltratado

E o nada nasceu
No coração dos homens.
 
Alguém inventou a luz

Cabem no meu corpo todos os rios do mundo

 
Cabem no meu corpo todos os rios do mundo
Trago-os nos sulcos da pele, como vida nas mãos
Com os que já morreram e com os que em mim ainda irão nascer

E tocando-lhes, percorro-os com os dedos
Seguindo novos caminhos, novos sentidos
Pois cada ruga da minha pele é água e terra
É corrente e paisagem da vida que vivi

Sinto-lhes o norte, o sul, e sei para onde vou

Assim será até ao dia que morrer, e se entretanto me olharem
Se de mim falarem, não digam que sou velho
Digam antes que sou, um coleccionador de rios.
 
Cabem no meu corpo todos os rios do mundo

Império

 
Império só, embrenho no mistério desse reino longínquo, impossível de conquistar.
Este mistério é o manto com que deus se cobre de noite para não ter frio enquanto dorme, deitado na relva do seu jardim. Porque deus é tudo o que existe entre a terra e o céu.
Vago reino impenetrável de candeias acesas em procissão, marcha lentissima que enfeita de luzes o céu e de ilusão a minha alma, roubando-a para a segurança dos seus portões.
Sinto, imaginando-o, como a única realidade de o sentir. E se por ventura consigo senti-lo real, sinto-o por fora da alma, como se tivesse outro corpo. Porque este reino de mistério é de ilusão e a minha alma real.
 
Império

19.06.16

 
enquanto existimos somos tão pouco, somos apenas um pouco mais do que nada, e isso é ser muito...somos o aroma que a nossa essência liberta em comunhão com o mundo...tocamos, sem realmente tocar, somos tocados, sem verdadeiramente o sermos, estendemo-nos fora de nós e do limite do que é físico, chegamos além do que compreendemos e a este alcance, chamamos sentimentos...somos o aprendizado que deixamos, o compêndio final do que fomos e que ficará no tempo, para ser lido quando não precisarmos dos olhos para ver...estamos e permanecemos agarrados à hipótese de existir sem nunca a experimentarmos, sem nunca nos testarmos por dentro...fora ela, a hipótese, somos tudo, tudo o que está fora da consciência da nossa acção e do seu alcance, todos a quem o aroma da nossa essência envolve e nos são perfeitos desconhecidos, o tudo que somos e não entendemos, e que só entenderemos, quando suprimirmos este desejo de ser a qualquer custo que nos cega o coração.
 
19.06.16

O céu, é uma janela nos teus olhos

 
Tu, não pertencias
Junto de nós
Mortais.
A tua alma
Era grande demais
Para um mundo
Tão cheio
De coisas pequenas.
Naquele dia
Os homens cinzentos
Choraram
E o céu
Ficou mais azul
Por te abraçar.
 
O céu, é uma janela nos teus olhos

Nas traseiras da minha casa

 
Nas traseiras da minha casa
Há um pedaço de terra mal-amanhado, ao abandono
Onde de forma natural
O mistério da vida é, facilmente, desvendado

E este pequeno pedaço de terra, nas traseiras da minha casa
É o universo inteiro e inexplorado
E a querer-lhe mal ou bem, não há ninguém
Pois é virgem, intocado
Nele existe uma só mecânica que mantém a vida
E que respeita a mecânica anterior que a concebeu
Sendo esta a lei, única, a ser cumprida

Facto simples de confirmar
Ao olhar o fruto que se desprende da árvore e cai no chão
E fica ali, o tempo que lhe comporta a existência
A fazer adubo e a enriquecer a terra da sua mãe.
 
Nas traseiras da minha casa

Como são feitos os sonhos

 
Todos os sonhos são feitos de terra
De ar, de água e de fogo
E são alimento da ilusão.

Os meus sonhos são feitos de dias e de noites
São permeáveis ao cansado de limites temporais
Calmos oásis onde descanso tardes
Trespassadas pela areia das horas.

Os meus sonhos são feitos de homens e de mulheres
Máquinas oleadas deste tempo
Programadas, adaptadas pelos seus próprios sonhos

E são sonhos que sonham também
Sonhos feitos de imagens, de rios e de flores
De paisagens calmas e de pores-de-sol.

Os meus sonhos são abrigos e refúgios
Onde me escondo para não viver

Mas a realidade é feita de não sonhar
E esquecer-me disto é mentir-me agora, hoje
Como tenho mentido a vida toda
E esquecer-me disto é não viver

Esquecer-me disto é sonhar.
 
Como são feitos os sonhos

Há uma hora que não chove

 
Uma tarde cinzenta
Tal como eu
Vale-me, a pastilha de menta
A que ela me deu

Eu disse-lhe – sorri
E ela sorriu
Mas não para mim.

Eu não queria chorar
Mas chorei
A lágrima caiu.

Eu não queria ficar
Mas fiquei
E ela partiu.

À distância o estupor
Sei que não me lamenta
E da sua ausência, sinto a dor
Mas também, a frescura e o sabor
Da sua pastilha de menta.

Uma tarde cinzenta
Tal como eu
Vale-me, a pastilha de menta
A que ela me deu

E que me refresca por dentro
O peito agora a seco
Com uma lufada de alento.

Há uma hora que não chove.
 
Há uma hora que não chove

Viver é sair para a rua de manhã, aprender a amar e à noite voltar para casa.