Poemas, frases e mensagens de Marip(r)osa

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Marip(r)osa

O semeador de estrelas

 
O semeador de estrelas
 
Num reino muito distante, tão distante que uma andorinha, nem à velocidade da luz poderia alcançar, mesmo voando a vida inteira, vivia um pobre lavrador. Chamava-se Seudónio e a sua casinha era humilde, os seus hábitos simples e o seu coração quase tão grande como esse reino distante, tão vasto, que ninguém lhe conhecia as fronteiras.
Era pobre, o sr. Seudónio. Cultivava uns pés de ervilha, uns pés de feijão, alguns alqueires de centeio e uma mão cheia de batatas, no pequeno terreno à volta de sua casa. E vivia disso, sem grandes queixas, sempre com um sorriso e algum pão de sobra para dar a quem lhe passava fome à porta.
Certo dia o sol desse reino distante e vasto arrefeceu... Começou a definhar, a definhar, dizem que do mal dos tempos, e acabou por se extinguir. Mas antes, deixou a cada ser que vivera sob o seu brilho, um quinhão da sua herança: a todos, um por um, no seu derradeiro dia, deixou uma pepita do seu brilho. Cada uma, uma pequena preciosidade cor de ouro afogueado, de textura única, ao mesmo tempo acetinada e quente, ao mesmo tempo fluida e tacteável, ao mesmo tempo brilhante e mate. Um verdadeiro tesouro.
Logo houve quem quisesse vender. E quem quisesse comprar. E quem quisesse guardar. E quem quisesse usar. Cada um fez da sua pepita solar o que bem entendeu: uns, por necessidade ou prodigalidade, trataram de trocá-la por dinheiro, pensando, com ele, comprar talvez uma passagem para outro reino distante, onde houvesse sol. Outros compraram - por ambição e especulação ou, simplesmente, por investimento. Outros guardaram-na, para os descendentes, talvez, ou simplesmente por avareza, bem lá no fundo do baú mais seguro da cave. Outros usaram-na como jóia, em ricos adornos, roupas, acessórios.
O Sr. Seudónio não sabia o que fazer com tamanha preciosidade. Primeiro, trouxe-a no bolso, afagando-lhe o toque de vez em quando, como quem chora de saudade o sol de que ela era feita... Depois colocou-a em cima da mesa da cozinha e deixou-a lá, a iluminar-lhe as noites escuras e frias. Houve quem lha cobiçasse e lha tentasse comprar. Até quem lha tentasse roubar! Sim, porque, desde que o sol não era sol, tinha proliferado um novo tipo de crime: roubar as solgemas alheias (solgema tinha sido o nome dado às pepitas de sol), até matar, por elas!! Mas o Sr. Seudónio tinha todos os cuidados, e, além disso, muita gente lhe respeitava a bondade, lembrando o bom vizinho que ele sempre fora e defendendo-no, se preciso fosse.
Fosse como fosse, a sua solgema lá continuava, exposta na humilde mesa. E, não se sabe se era da amabilidade do Sr. Seudónio, ou se era do calor e da luz que dela emanava, toda a sua casa estava quente e iluminada, sempre, sempre. E ele estava sempre pronto a acolher quem viesse com frio e com falta de luz!...

Mas a sua casa era pequena e os pobres órfãos de sol eram muitos... já quase ninguém tinha a sua pepita: ou por necessidade ou por vício, tinham-na trocado pela escuridão total...
O Sr. Seudónio começou a entristecer-se, por não poder ter uma solgema maior, para ajudar a todos...

...ainda por cima, porque agora, sem o astro outrora rei a brilhar no céu, todas as suas culturas se tinham tornado impossíveis! Não havia ervilhas, feijao, pão, batatas, para partilhar... só a luz da sua maravilhosa pepita de sol!

Uma noite, depois de um cochilo sobre a mesa onde brilhava a pepita, ele acordou com uma idéia salvadora: iria partir a sua solgema em pedacinhos! Era isso! Parti-la-ia em pequenas sementes, que espalharia no seu quinteiro agora infértil, de terra preta e empedernida! Não era ele um semeador? Não fora ele sempre um lavrador de esperanças? E sorriu, com a recordação grata da emoção de o ser: um semeador de esperanças - sementes que ele deitava à terra e cuidava diligentemente, até ter a alegria de as ver despontar em rebentos novinhos e cheios de vida nova!
Se bem o pensou, assim o fez: pegou num martelo velho e triturou a solgema em mil pedacinhos. Depois, pela noite infindável fora, foi espalhando na terra negra do seu terreno as sementes miudinhas.
E aconteceu uma coisa estranha... o seu quinhão de terra acabou, ele passou ao quintal do seu vizinho, depois de outro, e de outro... e os grãos luminosos não acabavam nunca!...
Andou, andou, andou, sempre semeando luz e brilhos, até que notou que vinha uma multidão em burburinho atrás dele. A princípio não entendia o que diziam, ou o que queriam, mas com a proximidade, foi percebendo que se revoltavam contra ele. Vinham armados, de mangas arregaçadas, com os olhos raiados de sangue, furiosos. Gritavam que ele não tinha o direito de esbanjar a solgema assim, enterrando-a na terra, gratuitamente. Que ele era um sovina, um velho louco, um somítico caquético. Que era desumano e cruel, por ter preferido dissipar o pouco que lhes restava, a pepita a que ele, em generosidade, os deixava aquecer...
Mataram-no, cegos, ímpios.
Tentaram roubar-lhe os restos de sementes, mas elas tinham-se colado às suas mãos, e foi impossível desagregá-las e reparti-las.
Enterraram-no mesmo ali, juntamente com elas, por
vingança e maldade...
Horas depois, talvez tantas quanto dura uma noite, um pequeno broto de sol rompeu a terra, no sítio exacto onde repousava, sob ela, a mão do bom Seudónio. Um pequeno astro quente e brilhante foi nascendo devagarindo, inundando o reino de luz... Subiu, subiu, cresceu e fez-se Sol.

Já era dia alto quando os mesmos que cometeram a atrocidade acordaram e perceberam.
E nessa noite, maravilhados, tremeram ainda mais de fé e arrependimento, quando viram pequenos pontos de luz subirem das suas terras e elevarem-se ao céu...
 
O semeador de estrelas

Dálio e Líria, uma história para aprender o amor

 
Dálio e Líria, uma história para aprender o amor
 
[“-Contas-me uma história?” – a menina perguntou ao sono, que a aconchegava nos braços, como a brinquedo desejado.
“-Claro!” – disse o sono em voz meiga. “-Fecha os olhos e escuta-me...”

Era uma vez um reino onde nada era real. Tudo era de brincar: as casas, as árvores, o sol, as nuvens, o amor, a alegria a tristeza... as meninas e os meninos, as mães e os pais, tudo! Até as brincadeiras!...

Um dia, Líria, uma menina desse reino de brincar, cansou-se de tanta fantasia e faz-de-conta e resolveu ir à procura da realidade.
“- Cuidado!” - diziam-lhe os duendes, as fadas, o pai e a mãe, e até um sapinho-príncipe que ela conhecia. “- O mundo real tem muitos, muitos, perigos, lá o sofrimento dói a sério, a chuva é mesmo fria, o ódio magoa, o sol faz mal à pele...”
Mas quê?!... a menina estava determinada em ir em busca da Vida verdadeira. E foi.
A mãe preparou-lhe uma refeição aconselhada pela fada Crescina, que ela comeu a brincar e que a fez crescer. Ficou forte e linda! Depois o pai, ainda na brincadeira, subiu-a aos ombros e colocou-a sobre um cavalo branco todo enfeitado de flores de fantasia... e ela partiu, pela estrada calcetada de berlindes e contas...

Cavalgou, cavalgou, atravessou campos pintados de fresco com florzinhas de aguarela, atravessou um rio feito de papel de prata azul, passou colinas feitas de veludo almofadado... até que veio o véu negro da noite e a cobriu de sono e cansaço. Ela apeou-se do cavalo e adormeceu depressa, sem sequer reparar que o chão de relva onde se deitara não era lá muito fofo...

Quando acordou, o sol pareceu-lhe ofuscante e impertinente. Onde é que estavam as nuvenzinhas-a-fingir-cortinas que todas as manhãs lhe traziam beijinhos meigos de sol!?... Notou então que se havia deitado sobre pedras e erva húmida e que o seu vestido estava molhado e sujo. Sentiu frio... Bolas, será que já estava no mundo real?... Como, se ainda não atravessara nenhuma fronteira, se ontem tudo ainda era tão igual ao mundo que deixara, se hoje, apesar do vestido sujo e do frio, tudo ainda lhe parecer tão bonito?...

Resolveu então continuar o caminho, encontrar respostas...
Procurou o cavalo branco, mas... ele desaparecera!...
Sentiu fome. Olhou em volta: perto dela, um silvado acenou-lhe amoras negras, a rebentar de doçura e sumo. Hummmm!... Apressou-se a alcançá-las só que... ui!... picou-se nas silvas agrestes e quase desistiu. Mas as amoras continuaram lá, a tentar-lhe a fome e ela persistiu.
Depois de alguns arranhões, do susto de ver o seu sangue verdadeiro a escorrer-lhe na pele, da raiva verdadeira a fazer-lhe correr lágrimas com sal, a menina alcançou as amoras e deliciou-se. Soube então o que era a grata sensação de cumprir um desejo... e as amoras ainda lhe pareceram mais suculentas e gostosas!...

O sol, que não estivera com contemplações e se adiantara na jornada, já ia alto e dardejava raiozinhos endiabrados sobre a paisagem de largos horizontes. À direita, havia um bosque verdejante; à esquerda uma seara em ondulações de trigo maduro, à sua frente, uma estrada que desaparecia entre dois montes encostados um no outro, como que a medir forças... e atrás de si, uma charneca envolvida em neblina, sabe-se lá escondendo o quê!... Não, fosse qual fosse o caminho que escolhesse, não poderia voltar para trás!... havia algo a repeli-la, naquela charneca, algo, não assustador, mas já não alcançável, que a afastava, que a empurrava para a frente, para a frente...
Decidiu-se pela floresta, porque viu uma casinha, lá bem ao fundo, com a chaminé a pintar o céu azul de fumo cinzento, e a sombra das árvores lhe pareceu mais acolhedora que o ondular quase de aço quente da seara. A estrada não, não quis seguir pela estrada que, apesar de rectilínea e convidativa, lhe pareceu incerta, árida e traiçoeira, assim a sumir-se entre a dúvida de duas escarpas rivais.

E lá foi, sentindo o afogueamento do calor a tingir-lhe as faces de vermelho e a molhar-lhe a testa de suor... Tudo era novo para ela: o toque áspero dos ramos secos, a satisfação de descansar na sombra dos ramos frescos... a dor nos pés, que ela logo esquecia, quando corria atrás de uma borboleta que a encantara... a sede aflitiva, que ela saciou com um gosto novo, quando encontrou um riacho de águas frescas... Por um momento quase pensou estar de novo no seu mundo de brincar, de tão cristalino e cantante que era o riacho!... Mas não, era água mesmo, água que molhava, que ela não podia apanhar entre os dedos, mas que refrescava, que lhe matava a sede, que lhe lavava a pele e os vestido!... “-Ah, afinal este mundo real também tem coisas maravilhosas!” – repetia ela, entre encantada e surpresa, para os passarinhos que a acompanhavam, tão admirados quanto ela por verem ali uma menina tão-de-brincar...

E pronto, encontrou-o. Ao desembocar numa clareira, deu de caras com ele. Era um rapaz com cara de poucos amigos, roupas sujas, suor a escorrer-lhe pelo peito quase descoberto, mãos ásperas de lenhador. Ele olhou para ela com ar entre estupefacto e desconfiado. Líria já tinha lavado o vestido e parecia uma boneca cara, de porcelana, com os seus cabelos feitos de anéis de ouro em fios, os seus olhos entre-azul-e-verde-com-o-sol-lá-dentro, a sua pele de rosa com orvalho, os seus lábios pintado de frutos silvestres...

“-Donde é que saíste, menina?...” – perguntou ele, em tom irónico. “- De algum conto de fadas, foi?...”

Líria baixou os olhos e resolveu não responder... Se lhe contasse, ele acreditaria?... claro que não! A sua intuição dizia-lhe baixinho que neste reino de vida real não se acreditava muito em fantasia... bastava ver o brilho irónico dos olhos dele!...

“-Hã.... eh... eu perdi-me”, titubeou ela.

“-Ah, logo vi!...”. Pôs-se a olhar fixamente para ela e perdeu-se num gesto de mãos a acariciar-lhe os lábios grossos, que sorriam ironicamente.
Que inconveniente!, pensou Líria, sentindo uma impressão nova. Seria raiva? Ódio? Ah, este mundo a sério bem podia ser mais objectivo e aqueles sentimentos novos mais fáceis de encaixar em palavras e definições!...
Sentiu-se perdida, pequenina, naquele imenso momento novo. Pareceu-lhe que ele nunca mais deixava de olhar para ela e desfazia aquele sorriso atrevido. Até os passarinhos que a tinham vindo a acompanhar, se calaram, na expectativa...

Finalmente ele desfez o gesto contemplativo e, quase de maneira brusca, disse-lhe:

-Vá, não tenho tempo para ti, tenho que trabalhar... Se tiveres fome, vai por este caminho, logo encontrarás a minha casa. Já deixei o lume aceso, podes entrar, preparar alguma coisa para comer, e depois descansa um pouco, pareces cansada. Quando eu terminar, vou ter contigo e explicas-me quem és e donde vens.

Ela rodeou-o, quase a medo, e lá foi, pelo caminho que ele indicara.
Quase respirou de alívio, quando se viu livre daquele olhar que parecia querer absorver-lhe algo novo que ela sentia dentro do peito... a sua alma de verdade, pensou ela, e isso quase a assustou.

A casa do lenhador era modesta, mas limpa e arejada. A primeira impressão que lhe causou, porém, foi de solidão e tristeza: não havia cortinas com folhos nas janelas, nem jarras com flores, nem lustres cintilantes a pender do tecto, nem quadros coloridos nas paredes, nem tapetes fofos pelo chão… e nada, mesmo nada de fantasia. Será que o mundo real tinha que ser assim tão frio e austero?

Olhou os campos circundantes, através da vidraça nua e as flores lá fora lembraram-lhe o reino de onde viera: coloridas e alegres, baloiçavam no vento como borboletas de fantasia. Apeteceu-lhe trazê-las para dentro daquele casebre, trazer a cor, o perfume, a delicadeza dos seus bailados na brisa... Saíu, apanhou um enorme braçado de flores de muitas cores e trouxe-as para dentro, espalhando-as pela casa, em ramos artisticamente compostos. Pareceu-lhe muito melhor!
Então, sentiu fome.
Lembrou-se que o lenhador lhe tinha dito para preparar alguma coisa para comer - isso devia ter alguma coisa a ver com o lume, a crepitar docemente a um canto da sala ampla. Mas ela era um menina de um reino de brincar, como poderia saber o que preparar para matar a fome?... Pela manhã tinha comido amoras silvestres, e para isso não precisara de lume, nada! Só o sacrifício de uma ou outra picadela, desferida pelas silvas a quem as “roubara”… Ah que mundo complicado! Agora, nada era a fazer-de-conta, muito menos aquela dorzinha no estômago, como se tivesse engolido um ratinho a sério, e ele a estivesse a roer por dentro…
Abriu os armários toscos ao lado da lareira e tudo o que encontrou foi um pedaço de toucinho e uma côdea de pão. Pouco, sequer dava para alimentar o seu ratinho, que ela sentia bulir no estômago, quanto mais para dois ratinhos, o seu e o do rapaz, que tão generosamente, afinal, se dispusera a partilhar com ela tudo o que tinha… E, como gente de coração verdadeiro, achou que não era justo comer tudo sozinha. Lembrou-se que, quando fora colher as flores, vira uma pequena horta, com feijões tenros, tomates vermelhinhos, cenouras e cebolas a espreitar da terra, cabacinhas rechonchudas e outros legumes prontinhos e apetitosos. No fogo, um grande pote de ferro borbulhava vapores, fazendo tamborilar o pesado testo como rítmica pandeireta… Instintivamente, levantou-o, cuidadosa, e introduziu na água fervente o pedaço de toucinho. Depois saiu para a horta, levando uma enorme cesta, que encontrara atrás da porta. Trouxe nabos, hortaliças, batatas, feijões, cebolas, cenouras, cabacinhas; colocou tudo na panela de barro, cortado em pedacinhos com uma faca que ela tivera de aprender a manusear com cuidado, porque cortava a sério!...
Dali a pouco um aroma agradável rescendia da panela, enchendo a sala. O seu estômago ronronou e, desta vez, ela achou que a sua fome era, afinal, um gatinho manhoso… e tão manhoso e atrevido, que nem a deixou esperar pelo lenhador: depressa a fez servir de uma enorme malga do caldo que “produzira”, e que ela achou a coisa mais saborosa que alguma vez, no seu mundo de fantasia, tinha provado.
Estava tão cansada agora, que só lhe restaram forças para entrar no pequeno e único quarto da casa e deixar-se cair sobre a cama simples, entre as flores que lá tinha espalhado...

Adormeceu.

Quando Dálio (assim se chamava o jovem lenhador) chegou, o cheiro da sopa quente surpreendeu-o agradavelmente: aquela menina, que mais parecia surgida de um conto de fadas, afinal era uma fada mesmo! As flores “transplantadas” por ela reflectiam a luz da tarde e enchiam os cantos de cor. Pareceu-lhe que um toque de magia tinha iluminado o ambiente…
Guiado pelo aroma, dirigiu-se ao canto da lareira e descobriu a sopa retemperadora preparada por Líria. E soube-lhe tão bem, tomá-la na tigela grande onde ela própria a tomara também, e que deixara por arrumar, tomada pelo cansaço… Depois, com um sorriso agradado nos olhos simples, lavou a tigela ele mesmo, arrumou-a, retirou o caldo do fogo. Devagarinho, abriu a porta do quarto e espreitou-a. Era linda, pensou ele, sentindo-se corar. Devia ser da sopa quente, deduziu. Ficou ainda uns momentos a olhá-la, até se decidir entrar no quarto, cobri-la com muito jeitinho com um cobertor de lã, retirar outro do único armário existente, e, em bicos de pés, depois de outro olhar ao rosto de boneca de Líria, sair e fechar a porta com todo o cuidado.
Havia uma enxerga num recanto da sala com algumas almofadas simples, que lhe servia de canapé. Embrulhou-se, ele próprio, no cobertor que trouxera do armário, e deitou-se, adormecendo quase imediatamente.

Na manhã seguinte, Líria acordou sentindo um calor doce inundar-lhe as faces: era o sol, pensou, que entrava livremente pela janela aberta e trazia chilreios de passarinhos…
Mas afinal não era só o sol… quando as suas longas pestanas esvoaçaram e lhe abriram o olhar, ela viu-o. E voltou a sentir aquela estranha e real perturbação dos sentidos: o coração desatava a bater mais depressa, o rosto pegava fogo, as suas pálpebras recuavam o voo aberto e os seus olhos fugiam dele, pousavam, tímidos, nas suas mãos, nos objectos, nas flores espalhadas pelo quarto… nas flores espalhadas pelo quarto!!!... - De repente esqueceu o olhar dele e levantou-se, numa aflição! Que acontecera às flores espalhadas pela casa?...

Ela não queria acreditar. Quase a chorar, corria de flor para flor, desgostosa, realmente desolada… Primeiro ele não compreendeu. Ficou a vê-la chorar as flores mortiças, sem viço, moribundas, como quem chora a morte de alguém…
-Que fiz eu, que fiz eu?... Elas eram tão lindas, eram um pedacinho da minha terra de sonho… Porque murcharam, porquê…?
Dálio sentiu o coração enternecer-se quase até lhe doer… Percebeu que tinha de lhe ensinar coisas que ela não aprendera no sítio de onde viera, fosse ele qual fosse. Uma terra onde tudo seria perfeito, talvez… como ela. Explicou-lhe então, numa voz doce (era extraordinário como a sua voz podia ser tão doce! – pensou ela, lembrando-se da rudeza que ele aparentara, na véspera), que as flores cortadas estavam condenadas a morrer mais cedo, mas eram eleitas e felizes, porque contribuíam para alegrar, para oferecer como símbolos de amor, para embelezar, para dar vida, para estar perto dos corações humanos, para homenagear. Uma flor podia ser mensageira de tantas emoções! No jardim, acabaria por morrer também, sem ter cumprido essa missão maravilhosa!...
-E depois – continuou ele, dirigindo-se a uma mesa onde tinha um jarro de água fresca – podemos sempre cuidá-las e dar-lhes de beber, assim, olha… - e ia colocando os ramos meio murchos no jarro da água - para as fazer durar o tempo de as amarmos...
Líria escutou tudo atentamente, ouviu-o falar de jardins, de ramos de noiva, de coroas de flores - da vida, da morte, enfim -, sentindo-se cada vez menos inibida por ele, cada vez mais perto de ser sua amiga a sério. De gostar dele a sério.
Falaram um bom tempo, e ela contou-lhe também da sua terra de fantasia, da magia do "faz-de-conta", das ilusões ingénuas...

De repente ele calou-se, mas ela continuou a compreendê-lo, só olhando-o nos olhos. E aprendeu também que no silêncio também pode haver entendimento, que os olhos também falam…
Quando voltou a olhar para as flores, viu que tinha acontecido uma coisa maravilhosa! Elas tinham, pouco a pouco, recuperado a vitalidade e pareciam celebrar o amor e a beleza, endireitando os caules e reavivando as pétalas, em exuberância de cores e perfume!
-Vês, Líria?... – ela já lhe tinha, entretanto, contado a sua história. – As flores são frágeis, ainda mais quando cortadas do jardim que as criou… por isso temos que cuidar delas, colocá-las em água sempre fresca, aparar-lhes as pontas mortas… tratá-las com amor. E, principalmente, nunca descurar o jardim onde nasceram: replantar, regar, cuidá-lo, para que haja sempre flores frescas para colher…

Abraçaram-se e entenderam-se. Como se houvesse uma razão para que a fantasia nunca deixasse de florir nas suas vidas...
 
Dálio e Líria, uma história para aprender o amor

A lenda da princesa Flor-de-ipê-rosa

 
A lenda da princesa Flor-de-ipê-rosa
 
Era uma vez uma tília, numa certa Primavera do norte, onde nasceram muitas princezinhas novas, todas iguaizinhas, filhas-folhas de faces verde-fresco e contrafaces verde-veludo-claro.
Um dia o vento do sul trouxe-lhes dedos de carícias mornas e fez-lhe cócegas de ternura e brisas... Elas, as folhas-princezinhas, murmuraram risinhos soltos e deixaram-se apaixonar pelos segredos do vento. Sempre que ele chegava de mansinho, nos anoiteceres tardios de Verão, elas desabrochavam perfumes novos e soltavam-nos, como pétalas volantes, nos braços do vento doce, que as abraçava, amoroso e cúmplice, e lhes contava histórias do sul...

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A mais linda história, porém, foi a que ele contou, uma certa noite sem luar, com todas as estrelinhas à escuta, tremeluzindo de emoção e curiosidade: o vento, incansável viajante, sabe coisas incríveis, fantásticas, de mundos tão distantes como os nossos sonhos! Por isso as folhinhas princesas tanto gostavam de conversar com ele!
Nessa noite, então, ele contou-lhes duma certa princesa sua amiga do peito:

Era uma doce flor de ipê rosa que, certo dia, quis fugir do Outono que ameaçava condená-la às masmorras do chão frio, e voar para longe, para o mundo distante onde moravam o céu azul e o rei sol. Pediu então a ajuda do vento seu amigo. É claro que o vento, que tanto lhe queria também, não pode deixar de a ajudar... Com dedos de ternura e jeito, amparou-lhe o frémito de libertação da árvore-mãe, e levou-a no dorso para a Terra do Sempre, onde sempre, sempre, há riso de sonhos e beijos de raios de sol... A florzinha, vestida com o seu melhor vestido de princesa, aquele de seda cor-de-rosa enfeitado de perfumes de pedras preciosas, sabia que lá iria encontrar o SEU raio de sol entre todos os raios de sol daquele reino encantado. E foi vestida assim, de rosa e perfumes, que ELE a achou... E o sol sorriu, o vento choramingou, o arco íris veio espreitar! Foi um encontro lindo, digno de todas as histórias de fadas e encanto!...
É claro que o vento, nas suas andanças irrequietas, teve que sair apressado... e nem ele mesmo sabe se a imagem daquele beijo que trouxe gravada, como a página final dum livro em que a legenda é: "...E viveram felizes para sempre...", ainda mantém as cores originais... mas o vento é crente, as folhinhas jovens da tília são sonhadoras e consta que a própria Primavera se enterneceu com essa história de amor e os fadou para serem felizes... afinal, na Terra do Sempre a Felicidade é sempre... para sempre. Prova disso é que a fada-madrinha Primavera volta todos os anos, ao Norte e ao Sul, de varinha de condão a cintilar esperanças, cumprir promessas que sonhos plantaram...

M***

P.I.* A Primavera tem a virtude e o condão de trazer sempre, sempre, a esperança e a renovação! Ela é incansável, mora na Terra do Sempre, e tem rotas definidas, de norte a sul... e volta sempre, trazendo vestidos de pétalas novas e perfumes de cores frescas, a cada indeciso equinóco da nossa vida!

*Post it
 
A lenda da princesa Flor-de-ipê-rosa

A LENDA DOS TRÊS RIOS

 
A LENDA DOS TRÊS RIOS
 
A LENDA DOS TRÊS RIOS

Nos tempos da criação, três grandes rios brotaram vigorosos, lá para os lados de Espanha. Ainda sem bem se saberem orientar, o instinto guiou-os para oeste, na busca do Grande Mar, onde se reuniriam às águas que haveriam de cobrir (e descobrir) o planeta em inquietas epopeias.
Já a meio da viagem, cansados e enlameados, decidiram que pernoitariam juntos, tencionando prosseguir viagem aos primeiros alvores do amanhecer.

Douro, Tejo e Guadiana, eram esses os seus nomes, deitaram-se tarde nessa noite. Reunidos à volta dos seus sonhos de alcançar o Grande Mar, ficaram em amigável cavaqueira até as suas águas repousarem as lamas no fundo, e o sono os vencer. E, entre outras conversas de jovens aventureiros, fizeram uma aposta: quem primeiro chegasse ao mar, seria o rio vencedor...

O Tejo, o mais robusto dos três, não queria sequer considerar a sua derrota. Fingiu adormecer, mas mal sentiu os outros dois respirar pausadamente, num sono solto e profundo, deitou-se ao caminho. Escolheu o caminho mais fácil, entre planícies a perder de vista e criou lezírias maravilhosas. Acusando o cansaço, espreguiçava-se, indolente, e foi perdendo a pressa, convencido do seu certo avanço. Relaxou tanto, que se dava ao luxo de dormitar sonecas aqui e ali, ou ficar embevecido a admirar a paisagem que atravessava a azul, como um pincel de pintor exímio...

Guadiana, que tentara manter-se semi-alerta na intenção de ser o primeiro a partir, acordou ainda o sol não tinha nascido. Não viu o Tejo e alarmou-se: agora teria que esforçar-se em dobro, correr, cortar caminho, mas, ah, ainda iria vencer!, pensou, determinado.
E se assim o pensou, melhor ainda o fez: resolveu rumar a sul, determinar fronteiras, fluir cauteloso mas firme, de encontro aos braços do mar aberto. Sem quase se deter para admirar as terras que percorria, seguia, diligente, na esperança da chegada em estuário de festejos...

O Douro, o mais jovem e estouvado dos três, deixou-se dormir!...
Quando acordou, já o sol ia alto, precipitou-se na corrida, alarmado e ressentido com os seus parceiros de jornada.
Quase enfurecido, escolheu o que lhe pareceu o caminho mais rápido, ainda que acidentado e sinuoso: ficou-se pelo norte, mesmo ali, e rompeu escarpas, galgou ravinas, rasgou ventres pedregosos. Sem sequer se deter a ver por onde ia, cortou a torto e a direito, em contornos caprichosos...

Chegou ao mesmo tempo que o sol, ao ocidente prometido. O Grande Mar recebeu-o de braços abertos e o Sol dourou a apoteose da sua vitória em tons inesquecíveis.

Tejo e Guadiana, no limiar da foz que escolheram, só perceberam a derrota, quando o grito de vitória do jovem Douro ecoou nos ares do entardecer. E o Mar, tingido a ouro, estremeceu, transbordando de emoção...

foto de Artur Durana em http://ipt.olhares.com/data/big/102/1028144.jpg
 
A LENDA DOS TRÊS RIOS

A verdadeira história das Mães

 
A verdadeira história das Mães
 
O homem, todos sabem, foi feito de barro.
Depois, Deus criou a mulher, dum pedacinho que sobrou e mais um pedacinho que faltou e teve que ser tirado ao homem... dizem que foi de uma costela, mas não, foi matéria mais nobre... foi um pouco mais acima, do coração.
Depois, Deus amassou muito bem, esmerou no feitio, e lá saíu, prontinha, a mulher.

As mães, essas, foram um caso à parte. Foi difícil...
Deus queria um ser especial!
Pensou, pensou, fechou nos olhos a recordação doce da Sua Mãe, e, finalmente, abriu-Os e deitou mãos à obra. Queria que ela fosse tudo o que Ele precisasse, quando não Lhe apetecesse ser Deus, e quisesse ser apenas menino...

Então tomou uma nuvem do amanhecer, daquelas mais fofas e rosadas, e moldou-a em abraço de embalar...

Pegou-lhe com jeitinho e escondeu-lhe um ninho dentro, feito só de esperanças...

Deu-lhe o poder de ser seiva, no seio, e a seda das pétalas, nas mãos...

Tocou-a com um raio de sol e deu-lhe a graça de ser agasalho...

Juntou-lhe um toque de brisa e deu-lhe a flexibilidade da compreensão...

Temperou-lhe o porte de flor e acrescentou-lhe resistência...

Colheu um pedacinho de algodão doce, e acrescentou-lho, para a doçura... (nesse tempo o algodão doce crescia nos campos, só para Deus, claro...)

Passou-lhe a mão sobre a cabeça e legou-lhe sabedoria e instinto...

Depois, tirou um bocadinho da carne do Seu próprio coração, e enxertou-a no coração dela: assim tinha a certeza que ninguém mais, além d'Ele, seria capaz de ter tanto Amor no peito...

E assim, num domingo de Maio, há muito, muito tempo, Deus criou a Mãe...
 
A verdadeira história das Mães

Deixem dormir o menino...

 
Deixem dormir o menino,
tem tempo de acordar,
pois é assim pequenino
que ele aprende a sonhar.

Deixem-no dormir enquanto
'inda não sabe sorrir,
no seu soninho, entretanto,
ele vai rindo a fingir.

Deixem-no sonhar que ainda
vive em nuvens de algodão,
como antes da sua vinda
para o mundo que lhe dão.

Deixem sentir o menino
que o colo de sua mãe
é o melhor pedacinho
da vida que aí vem...

E quando ele acordar,
por favor, tenham cuidado!,
há que em carinho cuidar
a Terra que é seu legado.

(dedicado ao meu sobrinhetinho... 19/10/2011!)
 
Deixem dormir o menino...

A verdadeira história da Chuva

 
A verdadeira história da Chuva
 
Era ainda o tempo em que as nuvens falavam e só se vestiam de algodão puro, de fiar. É claro que não havia ainda boletins meteorológicos nem medidores de poluição! Todas as nuvens eram virgens, se vestiam de branco e adoravam o Sol, senhor absoluto do reino do Céu Azul. Sim, nesse tempo não havia ainda chuva. Nem necessidade dela. Os rios eram jovens e felizes, fortes e dóceis, havia minas naturais de água fresca, onde eles não chegavam e, todas as madrugadas, o orvalho dava de beber a quem tivesse ainda alguma sede...

Por isso as nuvenzinhas viviam despreocupadas no Céu Azul, brincando à apanhada com o vento e puxando raiozinhos loiros ao sol, o que, diga-se a verdade, o irritava profundamente. Mas aí é que estava a graça!
Ah, mas o que elas gostavam mais, era disfarçarem-se e desafiarem os meninos da Terra a descobrir-lhes o feitio: "Que sou eu, que sou eu agora?..." - perguntavam de lá de cima, metamorfoseadas em cordeirinhos, em flores, em anjos, em castelos... E os meninos gritavam-lhes hipóteses, rindo e pulando, até acertarem e elas se desmancharem a rir com eles...

Havia nuvens de todas as idades e origens. Algumas, as mais velhas, já não toleravam muito bem o calor do Sol e só apareciam de manhã ou à tardinha: essas falavam muito com as pessoas adultas e davam-lhes conselhos sábios! -"Hoje o vento está de feição... é dia bom para joeirar o trigo."; "Amanhã é bom dia para semear..."; "Vá, põe-te aqui à minha sombra, que o Sol hoje está de mau-humor..."
Havia também nuvens malvadas, que andavam sempre às turras, outras preguiçosas, que nunca saíam da cama do horizonte, outras doces, mansinhas, que se atreviam quase ao nível das árvores e brincavam de perto com os passarinhos e os meninos...

Mas tudo vivia em harmonia: Nuvens, Gente, Sol e Água...

*

Um belo dia (nesse tempo, todos os dias eram belos...), ainda o sol e as nuvens dormiam, nasceu um amor impossível. Nem os passarinhos mais madrugadores, as únicas testemunhas do nascimento desse amor, queriam acreditar!...

Reza então a história, contada por eles de bico em bico, que Alva, uma jovem e sonhadora nuvem disfarçada de mulher, dançava sozinha no Céu ainda pálido de sono... O vestido em que ela metamorfoseara as suas partículas vaporosas, era branco e leve. Pequenos e delicados flocos de si mesma, retocados com o róseo tom que o sol nascente lhes emprestava, imitavam na perfeição o rosto e as mãos duma bela mulher. A lua, em fina tiara de ouro quase nova, apanhava-lhe os cabelos, feitos de restos de noite...
E assim, formosa e gentil, bailava elegantemente, imaginando-se nos braços de um príncipe encantado...

Cá em baixo, o dia também acordava.
Romindo, um jovem e forte camponês, já trilhava os caminhos agrestes da serra, no encalço de mais um dia de trabalho. Ele olhava o vale verdejante, onde as casinhas da sua aldeia fumegavam os primeiros suspiros das lareiras, e pensava como era afortunado por viver entre tanta beleza...
Foi então, num subir de olhos ao Céu, para agradecer a Deus, que ele a viu. Alva, a nuvem. Como era bela! Linda, mais linda que todas as nuvens, mais linda que todas as mulheres que ele conhecia!...
Ela, parecendo saber-se fitada com tanta intensidade e admiração, corou e suspendeu o bailado. Ficou a pairar, entre o primeiro raio de sol e o primeiro beijo de vento...

*

Foi paixão à primeira vista, já se sabe. Logo ali o coração de ambos jurou amor eterno, viesse quem viesse.
Mas veio o Sol. E o Vento.

A princípio, ainda estremunhados, quase foram cúmplices desse amor, pelo que já contei (do que me contaram os pássaros, claro). Depois, como a função do rei Sol sempre foi aquecer, e a do Vento, dispersar, o que se passou foi inevitável: Alva, a nuvenzinha vestida de mulher, foi-se esvaecendo, meia levada no vento, meia evaporada pelo sol... e dali a pouco só restavam floquinhos brancos reflectidos teimosamente nos olhos de Romindo.

Ah, mas amor é amor e este tinha nascido para ser um amor eterno!... Dali em diante, todas as manhãs e todas as tardinhas, naquela hora em que a Paz parece descer sobre a Terra em passos de silêncio e luzes de médio fulgor, ela lá estava, esperando o olhar dele!... Sempre linda e donairosa, ora vestida de branco, ora vestida de rosa, ora vestida de azul... às vezes enfeitada de estrelas, às vezes cheia de lua, às vezes de lua nova...

Romindo vinha sempre, ao cimo do monte de onde a vira a primeira vez... Ficavam extasiados, a olhar um para o outro e a falar coisinhas patetas (nesse tempo as nuvens falavam, lembram-se...?), tipo "Hoje vai estar um dia lindo, não vai?..."; "Gostas de mim, muito, muito, muito?..."; "Vou ter tantas saudades tuas!...". Pronto, essas coisas desnecessárias que os namorados dizem, enquanto os olhos dizem um ao outro aquilo que realmente é importante: "amo-te, amo-te, quero-te..."

Mas aí é que começou o problema. Nesse "querer". Como é que um homem ia "querer" uma nuvem?... As leis desse tempo, apesar de serem todas naturais e sem aditivos preconceituosos, eram já leis. E diziam que homem nenhum podia casar com uma nuvem. Onde já se viu?... Era anti-natural, e já vimos que as leis eram naturais, nesse tempo!
Foi um drama! Quando, de cabeça ainda nas nuvens, depois de Romindo a ter pedido em casamento, Alva foi pedir permissão ao rei Sol, e ele só lhe deu uma gargalhada, ela quase caíu do Céu Azul...

Pobre Alva! A gargalhada do Sol foi tão sonora e sarcástica, que todo o Céu e a Terra ouviram, nuvens e gentes. Vieram logo todos, prontinhos a bisbilhotar. E todos, uns querendo adular o rei, outros querendo menosprezar o sonho, gargalharam com ele, condenando por unanimidade o amor de Alva e Romindo.

O pobre Romindo, caído das nuvens, jurou viver triste para sempre...
Alva... bem, com Alva aconteceu uma coisa estranha e inédita: ela ficou tão triste, tão triste, que toda a sua alma feita de pequeninas gotículas de água pura, quis morrer. Ela começou a definhar, a ficar cinzenta e disforme... uma força tão grande como o amor que tinha por Romindo, começou a puxá-la para a Terra e toda ela era desejo de o tocar, de o abraçar...

Dizem que veio morrer com ele, no mesmo sítio onde se viram pela primeira vez... Caíu do céu em lágrimas, banhou-o de amor, e morreram abraçados, felizes...
Nesse mesmo local jorrou uma nascente, da água mais pura e límpida que a Terra já fez nascer...

Parece que esta história de amor se repetiu muitas vezes, em todas as terras, em todos os tempos, com outras nuvens e outros mancebos. Aliás, parece que ainda acontece, sempre que chove...

(pronto, para adormecer impaciências, enquanto não há chuvas novas...)
 
A verdadeira história da Chuva

LINDA...

 
Rezo-te sempre um poema
quando me lembro de ti
e só Deus sabe o dilema
que as palavras são em si:
pr'adorar-te, todas elas,
querem sair-me da alma...
mas das santas, só as belas,
me deixam em paz e calma,
pois lembrar-te (só lembrar-te!)
faz a Terra mais bonita,
faz o Céu obra de arte
e a Oração mais bendita!

M*ãe
 
LINDA...

A M E ~

 
Aleatoriamente,
sem primazia de símbolos,
leio-te:

Amor
Maior
Ensinamento

Mimo
Essencial
Alimento

Esperança
Alma
Matriz

Apoio
Embalo
Meiguice

Encanto
Milagre
Abraço

Mel
Alento
E aço

...

e ao olhar (de) um filho

o que ainda falte…
é só um til.
 
A  M  E      ~

A bruxinha Xuda Rela

 
A bruxinha Xuda Rela
 
Naquela noite era o Grande Baile das Bruxas. Na casa de Xuda tudo andava em rebuliço, pois as suas irmãs andavam aos gritinhos pela casa, numa ansiedade febril.
Xuda era uma bruxinha feia, a mais nova de quatro irmãs. Verdade seja dita, ela era quase a reinvenção da Gata Borralheira: naquela casa ela limpava, cozinhava, arrumava, enfim, servia as irmãs como reles escrava. Zera, Nuil, e Karta, as outras irmãs Rela, eram já bruxas experientes, para elas ficavam as artes nobres da bruxaria e da magia. Xuda era a mais nova e a menos feia (eu sei, eu disse que ela era feiinha, mas para as bruxas, feiura é atributo essencial, quanto mais feia, melhor). Por isso, para ela, ficavam as tarefas banais, menos nobres.

E enquanto as suas três irmãs se preparavam para a grande noite das Bruxas, e poupavam o estômago para as iguarias do festim, Xuda choramingava em cima do caldo de patas de aranha que sobrara do dia anterior, e sentia-se a mais infeliz das bruxas.

Infelicidade de bruxa traz ressentimento e sede de vingança, até os humanos humanos, sabem disso. E daquela vez, Xuda não queria deixar passar mais uma desfeita daquelas, em branco. Ah, não! Elas não a deixaram ir ao baile e riram-se na cara dela!?... pois iam ver se ela não sabia mexer o caldeirão delas!...

Mal Zera, Nuil e Karta saíram a grande velocidade nas suas vassouras, todas aperaltadas com os seus melhores chapéis bicudos e as suas melhores verrugas postiças, Xuda foi logo para o proibido quarto das bruxarias. Puxou de um dos pesadíssimos livros de receitas de magia verde (de raiva!) e deitou mão à obra: ia preparar um caldinho para as irmãs! Quando elas viessem, tarde da madrugada e mortas de cansaço, iria servi-lo, toda cheia de miminhos e denguices, para lhes "assentar o estômago e lhes facilitar o sono"...

Começou a juntar os ingredientes, que já tinha preparado de véspera: 6666 sementes de abóbora-menina, arrancados a dente à meia noite em ponto, caca fresca de coruja, meio litro de óleo de fígado de carapau estragado, tripas de osga e 3 olhos de rato vivo. Ah, e um dente de gato morto, para temperar...

Pronto, já estava. Agora era esperar por elas e dar-lhes o caldinho...
Segundo a receita, aquilo era dose para amansar uma manada de búfalos furiosos e fazê-los lamber-nos os dedos dos pés como gatinhos mal mortos! Então... "era só esperar, e as suas maninhas iriam ser suas aias e fazer dela sua mestra e senhora!" - dizia ela, entre o dente da frente que lhe faltava, e a língua bifurcada, que tinha sido uma vez mordida por uma cobra que ela estava a comer...

Mas... parece que houve um ligeiro engano na dosagem, quer dizer, na contagem das sementes de abóbora! e até correu tudo direitinho: elas chegaram, Xuda serviu-lhe a sopinha quentinha, elas adormeceram...

...só que, ao outro dia, Xuda foi encontrar, em cada uma das camas das irmãs... uma enorme abóbora-menina!
Três enormes abóboras-meninas era o que restava a Xuda como irmãs...

...

Menos mal. Abóboras não fazem de ninguém gato-sapato. E sempre dão uma boa sopa...
 
A bruxinha Xuda Rela

O chapéu de palha

 
Havia um guarda-vestidos na sala, grande, com um espelho onde cabiam ela e os seus sonhos miúdos. Bem, na verdade não era assim tão grande, a casa é que era pequena, e os quartos, só suficientes para caber uma cama, uma mesinha de cabeceira e a arca de latão, que escondia tesouros e cheirava a naftalina e flor-de-laranjeira, quando se abria - por isso o móvel grande acabara na sala.

Ela, por ser pequena, é que via tudo em ponto grande: a vida, a casa, o guarda-vestidos, o espelho. E os irmãos: a mana-grande –a sua princesa heroína, linda e prendada, e o mano-a-seguir, o robin hood fora da lei lá de casa, sempre a fazer-lhe das suas...

O guarda-vestidos, claro, não guardava só vestidos... guardava também o fato de domingo do pai, aquele com relógio-de-corrente de ouro, guardava as peças de tecido de onde a mãe cortava modinhas de festa, guardava o vestido de cintura descaída da mana, já atenta às modas, guardava os calções de merino e o casaco de tweed do robin-hood, guardava o seu vestido de cetim-pérola, guardava uma caixa grande, com o enxoval do mano-que-ia-nascer... enfim, guardava-tudo, das lãs de inverno às chitas de verão, da goma dos domingos às roupas de mão-em-mão...
Ah, e sobre ele, sentavam-se duas bonecas: a dela e a da mana-princesa. Claro, só para brincar de vez em quando, o resto do tempo, olhavam para ela com ar de desdém, lá do alto dos seus olhos de plástico e dos seus vestidos feitos a preceito, dos restinhos que sobravam das mãos de fada da mãe.

Sem bem saber porquê, ela sempre se sentira paninho de terceira, restinho de chita – não que não se sentisse amada e mimada, não!... os manos grandes até diziam, com uma certa razão, que ela era a “menina do pêro” lá de casa: menina do papá, sobretudo. E amor, não, nunca faltou, que ela sentisse, como o pão nosso de cada dia.
Mas nunca se sentia bonita como a mana-princesa, nem forte e aventureira como o mano-a-seguir. Era uma menina cor-de-rosa-pálido, sossegada (fora uma birrinha ou outra, claro, quase sempre reclamando o mimo que era seu por direito...), tímida, mesmo. E achava o espelho do guarda-vestidos da sala, um lugar onde queria ir, mas que temia, por ser tão grande, por ser tão fiel à verdade – e ria dela, juntamente com as bonecas, lá no alto. Ela juraria que, às vezes, chegava a ouvir os seus cochichos, dos três, as bonecas aperaltados e o espelho frio: “cresce e aparece, patinho feio”...

(Foi por essa altura que ela criou espelhos imaginários dentro dela – esses, faziam-na a mais bela das princesas, dentro deles, vivia as mais mirabolantes aventuras...)

*

Um dia, porém, foi à feira da cidade, com a madrinha. Era longe, mais de uma hora a pé, mas ela já era crescida... e depois, a madrinha gostava muito dela, a certeza de que iria ganhar uma prenda, lá lhe foi dando ânimo aos pezitos pequenos, para o ir (!) e o voltar (.....).

Foi um chapéu: um lindo chapéu de palha, enfeitado com um grande laço de seda vermelho e rebordo igual. Bom, não seria tão distinto assim, nem o laço seria seda, mas naquele tempo, as coisas tinham outro valor, já se sabe. E era novo! Novinho, a cheirar a erva-doce e a sol...

No caminho de volta, já lhe valeu, para proteger a sua pele de porcelana baratinha, do sol rico dessa tarde de verão. E... para encobrir pinceladas novas de rubor, quando o seu olhar de borboleta irrequieta se cruzava com o de certo menino de fato branco, também de regresso da feira da cidade: o Zé brasileiro, seu colega da 4ª classe, chamado assim por ter nascido no Brasil, donde tinha regressado com os pais, há pouco tempo atrás.

Não se sabe se foi do chapéu (que lhe ficava realmente bem), se da cor vermelha do vivo e do laço, se do sol que lhe tingiu as faces, se de ter visto o Zé brasileiro, no caminho de volta... o certo é que, naquela tarde, ela se achou linda, enfrentando o espelho grande do guarda-vestidos de sua casa... pela primeira vez, dentre as poucas que, ao longo da sua vida, ela se iria achar assim.

As bonecas, essas, calaram-se de inveja, e começaram, desde aí, a morrer de morte esquecida...
 
O chapéu de palha

Carta ao Pai Natal

 
Olá, Pai Natal!

Antes de mais nada, juro que eu acredito em ti! Nunca tive razões para não acreditar, sempre me deste tudo o que pedi, em todos os natais da minha vida! Desculpa lá, Pai Natal, eu sei que já algumas vezes te falhei: quando os meus colegas lá na escola começavam a armar-se em crescidos e a dizer que tu eras uma mentira para enganar crianças, e que quem nos dava presentes eram os nossos pais, sempre me fingi também de espertalhão e disse com eles... mas, podes crer, no fundo, no fundo, continuei teu amigo e a acreditar que existes, sim senhor, e que voltas sempre, não importa o frio, não importa a crise, não importa a pouca fé...

Há três anos, ainda era eu mesmo miúdo, pedi-te uma PlayStation, uma pista de automóveis, um kit de construção de um avião e uma bicicleta - e tu deste-me tudo, tudinho!, direitinho e entregue a horas, na noite de Natal. Até os meus pais ficaram admirados com a tua generosidade e sorriram felizes (nessa tempo eles sorriam mais, acho que era porque tinham os dois trabalho...)!

Há dois anos, notei que a minha mãe ganhou uma ruguinha nova na testa e ela parecia já não rir tanto... isso foi depois de ter perdido o emprego. Mas o meu pai sorria-lhe sempre e nós dois juntos, eu e ele, fazíamos sempre os olhos da minha mãe ficarem mais bonitos, mesmo com aquela ruguinha entre eles...

E tu, Pai Natal, voltaste, amigão como sempre, e trouxeste-me tudo o que eu pedi: 2 jogos novos, um blusão bué da fixe que eu tinha visto no shopping, e o meu primeiro telemóvel, com máquina fotográfica e tudo!...

No ano passado houve menos sorrisos... a mãe continuava desempregada, o pai a trabalhar só de vez em quando... dizem que a empresa dele entrou na lei ofe, sabes, parece que não podiam pagar-lhe o salário todo, então pagavam-lhe só metade e o meu pai só tinha que trabalhar metade. Por isso lembrei-me que também tu eras capaz de ter a mesma lei, e pedi-te menos coisas: umas botas quentinhas e um carregamento de cinco euros no telemóvel, que já há muito tempo não usava para falar, só para tirar fotografias.

Este ano, querido Pai Natal, continuo a contar contigo... o pai também já não tem emprego, a mãe quase não pára em casa, nunca descansa, porque anda a limpar outras casas. O que vale é que o pai agora a ajuda muito, faz o jantar e trata de algumas coisas... Ah, e tem imenso tempo para mim! A gente diverte-se imenso, mas quando é para fazer os deveres, acabou a brincadeira!

Mas eu sei que os natais já não são como os de antigamente. Imagino que para ti, Pai Natal, também seja difícil, com a crise que toda a gente diz que está instalada (no meu sofá da sala também, diz o pai, na brincadeira)...

Pois é. Por isso este ano a lista dos presentes é esta (desculpa ser um bocadinho longa, mas também estou a pensar no pai e na mãe, desta vez):

-1 bacalhau
-1 saco de batatas
-1 litro de azeite
-1 couve
-1 kg de arroz
-6 litros de leite
-1 kg de farinha
-1 dúzia de ovos
-1/2 kg de aletria
-1 pacotinho de canela
-1 bolo-rei, nem que seja pequenino
-ah, e se puderes, 1 caixa de bombons, daqueles que eu gosto... mas só se puderes!

Pronto, é isto...
Muito obrigado, Pai Natal! Gosto muito de ti.

Assinado:

O menino que tu sabes
 
Carta ao Pai Natal

BOA NOITE, MAMÃ...

 
BOA NOITE, MAMÃ...
 
BOA NOITE, MAMÃ...

"Dorme, meu menino, dorme..."
Diz-me a mãezinha, cansada.
Mas o escuro é enorme,
Mamã, eu não vejo nada!

Como se faz pra dormir?...
Onde é a porta do sono?
Não tenho chave pr'abrir,
Diz-me quem é o seu dono...

Mamã, se fico acordado,
Sei que tenho a tua mão,
Sinto-te aqui a meu lado,
Ouço até teu coração!

E lá fora uma estrelinha,
Desafia-me da janela,
Dá uma alegre corridinha
E quer que eu vá atrás dela!

Mas a voz do teu carinho
É embalo, minha mãe,
Fico aqui no escurinho,
Enquanto o sono não vem...

Ah, já o meu sorriso cansa,
Faz um ó-ó de bocejo!
O soninho já me alcança,
Até já no escuro o vejo...

Mãezinha, dorme também,
Vem, mamã, pé ante pé,
Enquanto o dia não vem,
Empurrar meu balancé...

E a brincar comigo assim,
De mãos dadas com as minhas,
Já o sono é um jardim,
A chave?... vê se adivinhas!...

É o teu carinho, mãezinha!!!
 
BOA NOITE, MAMÃ...

O Sr. Joaquim Macio

 
O Sr. Joaquim Macio
 
O Sr. Joaquim Macio era uma árvore de fruto. Daquelas velhas, rugosas, agarradas à terra e aos afectos com raízes que se mostravam em artérias cansadas e nodosas.
Vivia num bairro pobre do Porto, onde as crianças cresciam seminuas de risos e calçadas de Deus-dará... Como árvore de fruto que era, o Sr. Macio era um polo de atracção para elas, que, como passarinhos em bandos, lhe rodeavam a generosidade da fruta madura. Mas era uma árvore ambulante, o Sr. Macio... Quando o chilreio da sua chegada, anunciada pela buzina polifónica do seu já cansado carrinho de mão, se fazia colheita, as crianças do bairro rodeavam-no, em gorjeios de ávido desafio...
O carrinho, ele construíra por suas mãos, com caixas de fruta, de madeira alheia, ferragens doadas e pneus desprezados. A buzina, uma preciosidade, comprara-a na feira de Vandoma, lá para as bandas das Fontainhas. A fruta saía de si, dos seus amanheceres laboriosos, e do seu mendigar nobre pelos pavilhões do Mercado Abastecedor de Frutas.
-“Ó Sôr Barafusta, num tem por aí uma frutinha mais pró passado?...”
-“Carago, ó Freitas, arremata-me isso por cem escudos, pá!... é milhor que deitar fora, hoje é sesta!!”
-“Os putos lá da minha rua nunca comeram manga, bai ser uma festa, ai non!...”
-“Ó Cooooosta!!!”
Toda a gente conhecia o tronco, quer dizer, o carrinho de madeira do Sr. Macio... e se havia alguns que não se coibiam de lhe levar uns trocos pela fruta arrematada, muitos havia que lha davam de graça, como as estações às árvores de fruto...
E ele lá seguia, percorrendo a manhã, enchendo os seus ramos pródigos de cores sumarentas da fruta a cair de madura...
...E à tarde, era Verão no bairro pobre... Verão generoso, que ele repartia com os olhos a luzir gosto e bondade...
As mães vinham, fingindo apreçar a fruta, que não era de pesar ao quilo, mas à vontade. Ele vendia, com mão que não conhecia o peso certo e aceitava paga só de quem sabia poder pagar-lhe (ele era uma árvore antiga, grande, altaneira, dos seus ramos viam-se as janelas de todas as casas)... às outras, ele cobrava só com um “bai lá embora, bai!... olha o miúdo que quer comer um carangueijo!... laba-o, oubiste?...”.
E a festa da apanha da fruta acabava com o chão juncado de sumos pegajosos e as mãos cheias de colheita farta. E com o coração macio do Sr. Joaquim Macio, leve e alegre, como o seu carrinho de madeira e a sua buzina polifónica...
 
O Sr. Joaquim Macio

A menina que caíu ao céu

 
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A menina que caíu ao céu

Amélia era a minha melhor amiguinha. Lembro-me que passávamos tardes inteiras a brincar na rua, nas escadas que davam para o quinteiro à frente da minha casa: fazíamos uma fogueira de brincar, com tudo o que era preciso, menos o fogo, que a minha mãe passava a vida a dizer que com o fogo não se brinca!... então, apanhávamos pequenos pedacinhos de cisco, amontoávamo-los por baixo de uma lata de sardinha vazia, que enchíamos de água e fazíamos um caldinho de azedas, colhidas nas paredes do quinteiro. Ah, a água também a íamos buscar a minha casa, directamente do caneco, porque estávamos expressamente proibidas de subir as escadas e ir para perto do poço de água, acontecesse o que acontecesse!...

O poço de água, com a parede exterior visível feita de pedrinhas miúdas que o meu pai arranjara com muito empenho, era uma tentação! Havia um balde, que se descia com uma roldana, e, lá no fundo, aguinha fresca, tão fresca, que, quando a minha mãe me permitia ir com ela, ajudar a encher o caneco, e me dava a beber um bocadinho, por uma jarrinha de barro que estava guardada numa reentrância da parede interior do poço, os meus lábios ficavam a saber a neve e a gelo - eu sabia a que a neve e o gelo sabiam, porque gostava de chupar os "pendurelhos", que nos meses de Inverno enfeitavam de cristal os ramos da laranjeira grande, mesmo à minha porta...

Nas vezes que me tinha sido permitido ir junto do poço - sempre acompanhada da minha mãe ou de alguém "crescido" -, ficara sempre maravilhada: lá no fundo, a água parecia tão azul e calma! (Lembro-me sempre dela azul, engraçado... talvez porque só me fosse permitido ir lá no Verão, quando as escadas não tinham gelo, ou as ervas do chão não me molhavam as meias, ou o céu não era cinzento e assustador, reflectido no fundo do poço...)

Um dia, eu e a Amélia estávamos a brincar às senhoras cozinheiras e faltou-nos água, para o caldinho da tarde... eu queria ir a minha casa buscá-la, mas a porta tinha-se fechado, com um golpe de vento e então pedi à minha amiga para ir buscar uma latinha de água à casa dela, que era só, só, um pouco mais além...

Ela foi, e eu, distraída com o meu cãozinho Moleque, fui apanhando pimpilros, o nosso "arroz", por essas paredes fora.

Quando voltei, depois de uma corrida atrás do Moleque, que como de costume desandou, à vista da cadelinha da Sra Micas Lampião, não vi a Amélia em lugar nenhum... nenhum, mesmo!, fui procurar na minha casa (a minha mãe já tinha chegado, entretanto), fomos procurar na casa dela (que encontrámos também com a porta fechada), fomos rua acima, rua abaixo, chamámos, gritámos... mas da Amélia, nada, nem o vestido com papoilas que ela trazia!...

Até que alguém (dos que já se tinham juntado a procurar a Amelinha) se lembrou de subir as escadas do quinteiro...

Dizem que ela foi para o céu - caíu ao céu, com certeza, penso eu - eu sempre achei que o céu era no fundo do meu poço, tão azul, tão sereno, tão puro...

M***
 
A menina que caíu ao céu

Era uma vez, no reino Família...

 
Há muito, muito tempo (já quatro anos, cheiíssimos de alegrias, sobressaltos, aventuras, travessuras, sorrisos, lágrimas pequeninas, birras, descobertas e muito Amor!...), num reino muito próximo, nasceram dois principezinhos – um príncipe e uma princesa lindos, pequeninos, que fizeram as delícias dos seus reais papás e de todos os súbditos da Família. Família era o nome do reino…

Então, em Família, essa terra encantada, prepararam-se festas e mimos para os pequeninos herdeiros do trono: havia muitos beijinhos no ar, muitos sorrisos nos lábios, muitos brilhos nos olhos dos que faziam parte do reino e mesmo de gente de reinos distantes, mas que gostavam muito das gentes de Família. E ainda aqueles que eram de Família, mas que estava longe e que tinham muita saudade, mas um coração enorme, que não conhecia fronteiras nem distâncias.

Toda a gente queria ver os pequenos gémeos, um rapazinho lindo, a quem deram o nome de Daniel, e da preciosa princesa, chamada Alexandra. Eram lindos e frágeis, mas todo o Amor do mundo os amparava, e todos os Anjos do Mundo os protegiam… A sua mamã tinha a ternura nos olhos, quando olhava para eles, o seu papá, tinha o carinho nas mãos, quando os tocava, os vovós e as titis davam-lhes imensos miminhos e eles foram crescendo, em harmonia e perfeição…

Os dias foram passando, dias cheios e felizes, em que cada gesto novo, cada palavrinha nova dos meninos, era ocasião de festa e motivo de pura felicidade. Ah, como são felizes, os primeiros anos dos principezinhos, como são gratificantes os laços que criam com os seus familiares (familiares são os habitantes do reino “Família”, claro!...)!

Entretanto, os papás dos infantes deram-lhes um bonequinho de carne e osso para brincar: um lindo maninho a quem deram o nome de David, também ele príncipe real, que chegou envolto em ternurinhas fofas e puro Amor. Os nossos gémeos forma aprendendo a partilhar e a multiplicar afectos e novas brincadeiras foram inventadas, só, só para eles…

Este ano, quase a completarem quatro aninhos de vida, uma titi linda deles deu-lhes de presente um priminho príncipe… que logo foi partilhado em Amor, com Daniel, Ali e David. Foi uma alegria! E, claro, todos os “súbditos” de Família rejubilaram também com a notícia e com a bênção!

Hoje, os principezinhos gémeos fazem quatro anos. Imenso tempo, para gente tão pequenina! Quantas descobertas eles já fizeram, quantas conquistas eles já conseguiram, quanto amor eles já aprenderam, quantas pequeninas deceções eles já ultrapassaram! Viver é assim, aprender crescendo e crescer aprendendo! Muito ainda irão ter de enfrentar, mas a atmosfera da Família contém muito Amor e Força – o que é preciso é só respirar…

Hoje é dia de festa em Família, todos os súbditos respiram Alegria. Parabéns, Daniel e Ali!!!

Parabéns, Daniel e Ali!
 
Era uma vez, no reino Família...

M**+* * *