Poemas, frases e mensagens de Manito

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Manito

Vozes do silencio

 
Da manhã do tempo ouço seu clamor,
Vozes do silencio de mim desgarradas.
Ávidos lamentos do não amado amor
Escondido nos cúmulos das incertezas
Amordaçadas.

Eco longínquo de vozes sem vida
Dos rascunhos de sonhos de amores não tidos
De verbetes não lidos da estrofe perdida
Nos mananciais de princípios e dogmas
Poluídos.

Reclama das horas sepultadas em devaneios
Por não amar com o amar que o amor quis,
Quando quis do amor subjugar os anseios
Enxertados com espectrais e renitentes receios
Desde a raiz.

Róseo fulgor não havido que haveria de ser,
Nesta negra e poeirenta mina de hulha,
Ora resta lutuoso brilho do anoitecer,
Sob o olhar vago e profundo da ave penitente
Que infeliz arrulha.
 
Vozes do silencio

Viajante no tempo

 
Conduzir-me há no tempo o que sei e sou,
Sinfonia amalgamada do alfabeto a erudição
Fonte rutilante de aurorais memórias e gratidão,
Que no verniz de polida imagem o saber cumulou.

Conduzir-me há no tempo a luta que não findou,
Na vertente do cansaço e das derrotas do coração,
Não por frágil que fosse e sim pelos afrontados “não”
No pretérito desposar da felicidade que falhou.

Conduzir-me há no tempo os acordes da canção
Da fé desfalecida na fragilidade dos membros
E acolhida na residente têmpera do espírito,
Transudada em vigorosa couraça e proteção

Conduzir-me há no tempo a coragem restante
De voltar a crer no amor, o fiel do destino,
Que descura a glória e acura o níveo toque d’um sino,
Como esponja dos desatinos do infiel errante.

Conduzir-me há no tempo o arguto olhar d’um vigilante,
Ainda que, deste Santo tempo, o mais infiel viajante.
 
Viajante no tempo

Paz

 
Ouvir-te o pairar não posso
Nem mesmo com o olhar te alcanço
Reconheço-te o aroma de ostra fresca e inerme
Degustar-te o fino sabor?... Nem me lanço!
Sinto-te, não minto, sem captar-te a epiderme.

Temperas-me o percurso ensolarado
Aos aposentos sombrios adornas as ribadas
Anestesias-me, das batalhas, as sangradas
Teu pisar manso, salvado ao marolear das ondas,
Atenua da trupe os cascos e os clarins das rondas

Não te enxergo a face, não te ouço,
Não te espiro nem degusto-te o gosto
Mas me extasia a ausência do teu murmurinho,
Encanta-me o balançar mansinho,
Da traineira, em teus braços, mirando-te o rosto.

Quando estás, pesca, indolente, a gaivota,
Espreguiçando-se, o entardecer beija o crepúsculo,
Da densa noite só o estrelado se nota.
Em teu alvo manto, onde não vige derrota,
Se o poder não o amarrota, o penar faz-se minúsculo.

Porém, se presente não te encorpas,
Arquivas em reminiscências o de cor... Paz ausente.
Daí, tua falta te põe em alta e saltas às retinas...
Das tropas em marcha, o aulido ouço-te, plangente...
Ao desabrido das atitudes vais-te... declinas...

Vais-te e faz-se o ranger dos gonzos, dos ferros!
Envenenam-te, do ódio, da inveja e da vingança, as toxinas...
Aos quadrantes ouço-te os soluços e os berros.
Então, devoro-te o amargor da ausência,
Vislumbro-te no sol que já não iluminas.

Reconheço-te perdida, ferida... pura carência!
Recomeço a sonhar... novo raiar do peito arranco!
E então, refugiado no Amor, na “sua” essência
Sonho-te colorindo-me o breu com pétalas pequeninas
De azul, de luz e de branco... De branco do mais branco!
 
Paz

Decrepitar finito

 
Há algo relevante além de mim,
Fulcro perene do infinito?
Íntimo de si, somente de si, (em mim)
O ego afirma convicto:
- O despertar humano erigiu-te assim.

Predisposição insaciável ou rito
Acorrenta-me ao pelourinho do “eu”
Encarcerado no limbo do cotidiano conflito.
Iludo-me e acredito estar vivo
E vivo no espelho das memórias
Granjeando o fio condutor que já não fito

Quando o fim (do “eu”) irá libertar-me enfim
Desse perpétuo sêmen do viral congênito.
Linhito de sonhos e paixões,
Das fúteis convicções entalhadas em granito?
Há algo relevante vindo para mim
Decompondo-me, decrepitar finito!
 
Decrepitar finito

Eis que vivo

 
Eis que vivo e vivo esperando.
Vivo o silencio, eu e o pensamento;
Pensamento de leveza azulada,
de medida lenta, sobrevoando,
vivo ainda, a alma já, de ímpeto,
quebrantada.
Eis que vivo e vivo em turbilhão,
folhetim solto ao vento.
Olhar desatento, invernal, sem emoção,
vivo só, com tudo que professo
e confesso, pelo bater do coração.
Vivo do sal, do prazo, de algum tento.
Já sem talento, eis que vivo,
eu e o pensamento.
 
Eis que vivo

Prisioneiro da liberdade

 
Encharcado do intenso azul
Prisioneiro da liberdade...
No rosto o vento do sul
No coração a saudade

Recostei-me àquela pedra
Lenta uma visão se esvazia
Encoberta, cinzenta... medra!
Sem sol, sem sal, sem maresia

Ah que maldade!... nem som
Da ave de longínqua estação,
Do chilro de suave tom...
No excitante calor do verão.

Pedra, a de então é a mesma.
O mesmo som das marolas...
Sou porem do que fui a sesma
E liberdade é pedir-lhe esmolas
 
Prisioneiro da liberdade

Mãe Ana... e Maria

 
No inverno foste meu manto
Meu recanto, meu solário e meu céu;
Foste do meu céu o perdão,
A harpa, o clarim e o canto;
Foste do meu canto o te-déum,
Seu intróito, melodia e refrão.

Em meu florir foste o botão
E do botão a flor preciosa
Que em meu jardim abriu em rosa.
Da rosa que floriu foste a cor,
Foste o canteiro fértil do amor;
Amor almiscarado pro meu respirar.

De ternura se te fizeste mar
E te fizeste chão do meu caminhar,
Princípio dos meus princípios,
Escrínio de iriantes dias,
Meu ancoradouro, minha guia,
Minha Mãe, minha Ana... e Maria.
 
Mãe Ana... e Maria

Delírio poético

 
De tênue lamparina o lampejo,
De gotejante cacimba o marejo,
Induzem-me a letrar meu canto.

Descartáveis motivos, no entanto,
Inóspitos, suscitam tormentas
E irrompe do magma da sorte,
Alquimia densa e forte,
E excitante jornada antevejo.

Contida alma a revelar, ensejo,
No embalo e sem demora,
E a letra assinalando a hora,
Liberta, esguia, insinuante,
Abraça a verve por consorte
Na viva via da vida restante.

No estertor da raspa vigente,
De antanha vida inocente,
Desajeitada e bruxuleante,
Canta a velha cigarra,
Sentindo o temporal ir-se embora.

Na enxurrada a dúvida agora;
De poeta, esse delírio errante,
Por desgraça ou por sorte,
Será vida ou será morte?
 
Delírio poético

Vigília

 
Procura o olhar da Luz o brilho
Na cinza agonizada que esfria,
Oculta, irrefletida, sem vida, sem sentido;
Pirilampo revoado ao clarão do dia;
Candelabro à escuridão rendido.

Da mesma luz branca o coração procura
O fluente brilho, dantes denso e quente,
Para emprestar às sombras regenerada alvura
E aquecer a face fria do presente

Na cela, as paredes mudas e frias
Aprisionar decidem a solidão da hora
E as moribundas certezas em pele e pano
Revelam-se falsas pérolas, sem demora,
Na prontidão do presente soberano.

Alertados todos, auscultam os sentidos;
À soleira o inimigo espia.
É noite, noite tardia e a flacidez ausente.
O silencioso coração que por si não pulsa
Silencioso, provado, mas presente,
Dos ritos pontuais sobe à gávea e vigia
Por sobre as ondas dos desertos temporais
E franqueia ao mar aberto da solidão tardia
A alma criança que ora... E vigia... E ora mais.
 
Vigília

Quando

 
Quando derribadas as utopias,
Açaimadas nas veredas da paixão;
Quando desbotadas e murchas as pétalas
Do irrigado e florido plantio da ilusão;
Quando as ausências povoadas de saudades
Empalidecem o horizonte da razão;
Quando dita o dia o despertar da luz
E teimosa segue a vida rendida á escuridão;
Quando os pesados grilhões da verdade
Aprisionam as asas da imaginação;
Quando acinzentada bruma das pagas
Apagam as cores da inspiração;
Quando a noite desperta o alarido
Nos surdos gritos subidos do coração:
Descalças de futuro e de presente,
investidas de seu domínio rígido,
Repetem-se agora as horas em vão
Consagrando-nos por oferendas
As débeis essências do passado,
As ausências travestidas de lembranças,
As somas dos silêncios do presente,
O amanhã de repleto vazio,
A solidão.
 
Quando

Corre Coração

 
Corre no pensamento coração, corre...
Corre neste entardecer sem brilho, e exaustivo,
Arranca-me o fôlego que te manterá vivo,
Oculta-te na dor da escuridão que morre!

Avança sem tropeços no passado,
Sem descanso na guarita da saudade,
Sem guarida ao torpor que o peito invade...
Corre, não te permita entregar-me derrotado.

Incontentado, saberei manter-te o impulso
Quando o percurso do vigor dos meus desejos,
Em devaneios doridos por reprimidos beijos,
Morrer-me na esperança, e de ti ver o amor expulso.

Corre então em meu lamento coração, corre...
 
Corre Coração

Ainda que te negue...

 
Ainda que o penar te negue
Ainda que de ti me esconda
Na ronda cantada dos pássaros
O amor em ti me sonda, me segue.

Ainda que a cerração te esconda
Ainda que por meu sol te negue
Inspira-te o pulmão no salso aroma
De Ti exalado pelo mar nas ondas

Ave que em sublime gorjeio,
Minh’alma arrancas da noite
E a adornas, consolas e acalma;
Atenuas-lhe o açoite, reforças o enleio.

És abrandamento em meu penar
Sendo sentidos, ele, a te ouvir
Em cantata de amor na natureza!
Nela não hei Te trair nem negar

Quedado, nem mais amor te peço,
Por saber, Te peço, saber amar,
Até sentir o coração em chamas
E nelas arder por amar em excesso

Nem ofertar-me mais dons te peço,
Só peço-te o dom de saber ofertar
Ofertar da noite o tremor e o medo
Do dia os segredos do Amar que professo.
 
Ainda que te negue...

Reverencia ao Mestre

 
Na magia da infância pelas sendas do saber
Um ser mais que encantado em presença abrasante
Tem no olhar atento e quente, sol daquele amanhecer,
Ádito de certezas a nutrir o amor infante.

Arauto que mil vezes verte verbos sem deter
Nos enredos que a vida determina em cada instante
Ceifando terra virgem, flor botão põe-se a colher,
Tem o Mestre a sua frente missão nobre e relevante:

Impregnar no palato dos futuros neo-doutores
Inaugural sabor do transitório e do infinito
Nas letras, nas ciências, na historia e nas artes

Sacerdócio ingente, supre ócio, esquece amores
Abraçando seu claustro (o ensino) oh ser bendito!
Forjam, sim, o porvir, em ouro e mel, tais baluartes.
 
Reverencia ao Mestre

Gota de orvalho

 
Descida do firmamento
Em movimento recamado,
Com suavidade e leveza,
Ao belo soma ornamento
Pelo céu estimulado.

Úmida, maternal, sem pecado,
se deita sobre arranha gatos,
Sobre ramagens e flores
E em ritmo contínuo e calado,
Transcende em altar os matos

É pérola inimitável
No seu estar passageiro,
Tal e qual o pensamento,
Que no tempo insaciável
Do presente é prisioneiro.

Viça pelas manhãs a rosa
E depõe-se no dia ao meio,
Mas, se o sol a quer enxuta,
Ao balanço da flor viçosa
Esparge sem ter receio.

Em folha seca pousada,
Brilhante qual passageira,
Úmida gota de orvalho,
Anuncia nova ramada,
Primavera alvissareira.

Ah, Déa de efêmera glória...
Celebrando seu estar solene,
O orvalho por ti se enluta
E a rosa tem na memória
O beijo que a faz perene.
 
Gota de orvalho

Quase oração

 
Mandei meu coração pousar na lua;
Com ele meu olhar para aos anjos procurar.
Ou quiçá ventura maior ao meu olhar debrua
E tua face meu Deus venha-me o céu iluminar.

Por muito que daqui da terra O busque,
São tantas penumbras e luzes de difuso aspecto
- Até do solar espectro - que talvez me ofusque,
Tornando-se embuste ao desatento intelecto.

Se em vão da lua espero por Tua face amiga,
Dela não me despeço sem Te admirar, presente,
Seja no intenso brilho da supernova mais antiga,
Seja no azul utópico da Terra em que vivo gente.

Mandei meu coração pousar na lua.
Com ele meu ouvido pra no silencio escutar,
Pois na terra dos risos e dos cânticos o ressoar atua
Na ara de tantos deuses e já não Te ouço me chamar.
 
Quase oração

Minha janela

 
Abro a janela, a do meu quarto...
Ninguém a espera
Não diviso, do dia que finda, a quimera,
Nem da lua o parto.

Encontro-me aqui, atônito...
Aparvalhado com a rudeza da hora
Dos pardais o gargalhar irônico
Do reluzir do céu a demora...

Porque abro-te então, crepúsculo, a janela?
Já, os sonhos, te arranquei na aurora...
Em teu anúncio frígida cela...
Porque atrais meu olhar agora?

Não me dizes, nem o sei...
Se a esperar não há ninguém, pois,
Quiçá seja a espera dos amores que não amei,
O reencontro do que ficou pra depois...

Muitos os charques que ao sol deixei!
Tantos foram os grãos que colhi...
Revisando, porém, o que plantei,
A mirar-me em seu vão,
Alentada janela...
...não é em vão estar aqui!
 
Minha janela

Entrega de coração o coração

 
Mostra-te no amor o aceno parco
Postigo de espia tênue e breve...
Aeriforme, borboleteante – delicado,
Deixa inteiro que seu vôo o leve.
Dá-lhe de coração o coração,
Seja no iracundo torpor do medo,
Seja nos braços febris da emoção.
Enreda-te em seu arco com avidez,
A todo risco mergulha em seu condão,
Tinge na sua cor teus medos e lividez,
Não desposes por segura a pétrea solidão.
 
Entrega de coração o coração

Luar Azul

 
Em matizado degradê qual manto fosse
Os oceanos, no azul em ti achado,
Em cantilena, rumorejam ária doce,
E na platéia o infinito estrelado.

Meu Solitário coração te faz lareira
Da nostalgia alimentada ao anoitecer
E de alegria se tinge a pasmaceira
Já não assusta o cinzento escurecer.

Em tons azuis se enfeita a aba da noite
No silencio do infinito rendilhado...
Se névoas te embaçam, triste açoite
Pro olhar com que te busco apaixonado!

De imensurável beleza o anil temperas,
No entardecer ao revoar das pombas
E no canto do galo, ao declinar esperas
O astro rei que te vem beber as sombras

Rainha Inacessível ao Senhor do dia,
Em banhos íntimos de recamadas cores
Se me entregas, despida, o corpo em orgia,
Ao murmúrio plácido de trovas de amores!

Arrebata-me, pois, Soberana dos espaços
Ancora-me em teu seio o coração triste
E à minh’alma acalenta em seus braços
Libertando-a do laço que desfazer resiste
 
Luar Azul

Era tão fácil amar-te

 
Era tão fácil amar-te
Amar-te tão simples era
Que não te dei de mim a melhor parte
Mas dei-te simplesmente tudo, sem espera.
Dei-te me todo, servo do teu encanto...
E dei-me tanto
Como jamais antes me dera
E, por amar-te assim,
Esqueci-me de como era viver sem ter-te
Amada por mim
 
Era tão fácil amar-te

Eu e o Soneto

 
Em data tida incerta, doce sina,
Vespertina rajada atinge densa,
Ramagem ressequida e já propensa
Sujeitar–se ao ancinho da capina

No horizonte que encanta e predomina,
Enterrando a apatia e a indiferença,
Descortina inesperada renascença,
Em canteiro que a rima ajardina

Um flerte insinuante então percebo,
De um ser pleno de luz e de harmonia...
Seduzido, quedei-me em sintonia

Rejeitar esse flerte não concebo,
Já amante da cadencia que extasia,
Dera ater-me ao Soneto noite e dia.
 
Eu e o Soneto