Poemas, frases e mensagens de tania orsi vargas

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de tania orsi vargas

SOBRE O MEU NOME ALGUÉM FALOU:
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"...que força tem essa consoante "T", força que log

AO EXCELENTÍSSIMO SR. NINGUÉM

 
Esta que ora escrevo não tem destinatário. Pois não é bom escrever assim, sem se preocupar com as palavras? Com sim e não, talvez, certamente, esses advérbios que se posicionam como cães de guarda das nossas ações? Pois são eles criaturas que demarcam os limites da nossa transigência ou da nossa vontade, são eles que transgridem ou não as leis do bom convívio, ou ainda informam a quem interessa se vamos finalmente tomar uma iniciativa.

Na mais completa liberdade eu posso dizer ao sr. Ninguém o que bem entender, pois ninguém é aquele que é a negação de uma existência, ninguém é o João que nasceu predestinado a ser arigó, pobre bicho, ao deus-dará da vida. Ninguém é a melhor pessoa deste mundo, o eleito de todas as horas de tédio e vagabundagem solitária... e é um amigo como (só ) ninguém pode ser. Não nos cobra nada, não espera nada de nossa coerência, postura, o escambau. Não nos recrimina, nem adula, nem faz cara de nojo diante de nossas idiossincrasias menos civilizadas.

Eu creio mesmo que a solidão é o paraíso a ser canonizado. Um altar para a ausência do outro! Uma vela enorme, de dois metros para queimar em honra daquele que podemos construir à imagem e semelhança de nada, um nada a serviço do nosso bem-estar, um nada para amar e para odiar.

Pra ti meu querido amigo Ninguém, escrevo estas palavras na mais completa tranquilidade, numa pasmaceira de fazer inveja a muita cidadezinha coió, abrindo a boca num enorme bocejo de preguiça e tranquilidade, pois sei que nenhuma oração adversativa se atravessará em nossa correspondência, nenhum anatipático ponto de interrogação surgirá inesperadamente querendo xeretar a minha paciência, nenhum adjetivo irritante e acusatório apontará o dedo na minha cara.

Pois estou tomando gosto pela novidade e logo minha vida se transformará no paraíso da não presença do outro. Servirei meu vinho no copo que bem quiser, nunca sentirei aquele olhar de reprovação por ter derramado o leite no tapete, jamais terei que encontrar a porta do banheiro fechada.

Uma total ausência humana deixará meu dia completamente limpo, livre e desimpedido. Por isso meu caro Ninguém, estou a lhe escrever agora, pois sei que serás a única pessoa que doravante adentrará ao sagrado recinto do meu eu. Uma não presença das mais simpáticas e desinteressadas. Você, Ninguém, não tem pés pra pisar meus calos, nem mãos pra estender em pedidos, nem olhos pra censurar, nem ouvidos pra não querer ouvir. Você é o mais perfeito destinatário para esta carta que estou a enviar. E o carteiro, ao tentar entregar esta correspondência, vai perceber que tem as mãos vazias e concluir que o envelope se perdeu. Afinal, isso não será nenhum fato extraordinário na vida dele. Mas pra mim vai fazer toda a diferença!
 
AO  EXCELENTÍSSIMO SR. NINGUÉM

OU VAI OU RACHA

 
Não há nada mais patético do que paixão não resolvida. O distinto ou distinta consegue se iludir por anos e anos, sempre contando com o dia em que o outro finalmente vai desencantar. Mas estatísticas se houvessem, mostrariam que as chances de um amor perdurar por anos sem o devido alimento do toque e da presença são praticamente nulas. Amor que não se nutre senão em lembranças, algumas palavras enviadas, telefonemas, vai amarelando que nem vestido branco guardado no fundo do armário. Vai ficando ressecado e aí tem aquele cheiro de naftalina-ilusão pra que as traças das carências sem fim não destruam o tecido depositado no fundo da alma-baú.

Pois quem realmente quer se tornar um companheiro e viver pra sempre numa cabana com seu amor não se faz de rogado por tanto tempo. Um dia aposta todas as fichas. Aposta alto e até empenha as calças pra ter mais uma chance no jogo. No jogo da vida não dá pra blefar, pois a farsa pode ser logo desmascarada e facilmente o outro se inteira de que o parceiro não tem todas aquelas fichas, nem um jogo alto há muito tempo.

É preciso saber a hora de abandonar a mesa. Não tendo cacife nem moeda não há como vencer. De nada resolve ficar deplorando a fraqueza do outro jogador, pois isso resultará somente em aumento da perda. Melhor sair enquanto a dívida do desgaste não se avoluma e deixar que a roleta cante suas pedras a quem estiver realmente afinado com essa mesa dos jogos do amor.
 
OU VAI OU RACHA

DIANTE DO ABISMO, MELHOR É NÃO OLHAR PRA BAIXO

 
Muito difícil, senão impossível , compreender as razões dos outros, aquelas cuja gestação foge ao nosso alcance, o que acontece noventa e nove vírgula nove por cento das vezes. Somos caixas de mistérios uns para os outros, uma vez que aquele que "somos" já é um tanto inacessível para nossa própria avaliação, imaginem para a compreensão de quem está em outro corpo. Temos sensações, momentos, vontades, raivas, paixões, mas tudo isso junto mais parece um quadro de arte abstrata, algo que se olhado de cabeça pra baixo não fará muita diferença, pelo menos para a grande legião de leigos em autoconhecimento.

Estou a fazer considerações em forma de comer pelas beiradas pra chegar a um fato que entre tantos que ocorrem nos contatos entre os seres, aparece na nossa vida o tempo inteiro, pois o tempo inteiro estamos a desejar e muitas vezes a não obter o desejado, e desejo no sentido mais amplo é o que move as pessoas diariamente.

Sendo assim, como aceitar um não tão acabadamente negativo, um não redondo, ou carregado de espinhos, um não cortante como navalha, um não que abre um abismo diante de nós ? Como assimilar um não sem nenhuma rachadura pela qual penetrarmos,superfície intacta, bloco de concreto, um não sem compaixão, um não insinuado por silêncio, ausência, muro intransponível?

Os nãos mesmo sonoros, diretos, corajosos, sinceros, podem fazer um rombo no nosso peito, jogar-nos na sarjeta de sofrimentos inimagináveis. Batem em nosso rosto como bofetada. Ah, na verdade, dito ou subentendido, ou percebido por dedução, tal palavra tão corriqueira tem no entanto impactos muito cruéis na vida de todos nós quando significa rejeição, desprezo, falta de compaixão, indiferença, fracasso, perda...

O "nunca" é um não jogado pra longe, que se perde pra regiões distantes. O "talvez" é um meio não, com possibilidade de se tornar inteiro. "Quem sabe", além de tudo, ajunta um pronome indefinido no lugar de alguém que pode saber a resposta, e "só Deus sabe" é a definitiva e suprema rua da amargura com sentido obrigatório.

Assim como as personagens dos folhetins açucarados constroem castelos de sonhos, nós aqui, personagens de um suposto deus de bondade, poderíamos construir milhares de condomínios de sinistras mansões com todas as negações proferidas através dos tempos, e, com as consequentes lágrimas, ornamentar parques com imensos lagos de água salgada, além de tudo energética por conter vibrações angustiantes que a geraram.

E já revelo a motivação para esta ladainha de argumentação temerária, este tratado de última hora sobre a dor das frustrações. Toda essa conversa surgiu só porque aquele imbecil NÃO atende mais o telefone, e ainda por cima descobri o quanto ele lembra o meu pai, inclusive no tom de voz, Electra feliz, deita e rola e eu me estrepo. Aí fico esperneando em ligações intermináveis, em mensagens desesperadas, imagino todo tipo de represálias pra vingança no grau adequado ao agravo doloroso. E do lado de lá, silêncio. O silêncio de uma negativa dói aos ouvidos como insuportáveis decibéis. Enquanto isso, aguardo o som da maldita palavra, ou sua imagem, vindo pra mim. FIcar sem este fecho é como ter um morto querido não sepultado, preciso desse lacre na porta que se fechou, por mais que doa. Ah, mas assim já é muito drama para uma terça-feira à tardinha, de um mês que finda, de um ano que logo passará como "passam a mão e o rio que tocaram teus cabelos"... e ainda falar em rio, agora... este já habita outra geografia... mais um pra retirar da agenda...e pensar que deslizei um dia sobre aquelas águas, ... e diante de tal abismo, melhor é não olhar pra baixo!

Queres me matar, oh de dentro? Se te pego entre o polegar e o indicador... Vai-te, oh carcereira!
 
DIANTE  DO  ABISMO,  MELHOR   É  NÃO  OLHAR  PRA  BAIXO

quando tu viras holofote

 
QUANDO TU VIRAS HOLOFOTE

Os que te vêem como holofotes se escondem nas sombras da dubiedade, alvos móveis difíceis de enquadrar. Se fazem de mortos e te dão corda pra manter a tua atenção e quando tu menos esperas, estás entrando em fila e pagando ingresso pra que se dignem a um olhar. Mas caímos nestes engodo porque no fundo também gostamos de ser centro, pelo menos para um par de olhos neste universo aonde todo mundo espera muito e oferece pouco.
 
quando tu viras holofote

REINCIDÊNCIAS

 
E ele sempre volta,
assim se desculpando...
pedindo licença ao instante
que se mostra impaciente ...
ele volta sempre assim,
olhando ao redor...
um passo à frente,
outro em recuo,
e finalmente aí está,
como recém-nascido
para a mesma velha vida,
lagarto que expõe o
corpo ao sol,
a paisagem incrustada
em sua memória instintiva,
com seus sinais de alerta;
urubu pousado no moirão
esperando alçar o vôo,
sabendo de cor
as ciladas em que cairá,
e mesmo assim exposto,
dará sempre um primeiro
passo,
enquanto sua natureza
de bicho- homem estiver
desperta.
Pois viver é mesmo
essa grande reincidência,
esperança mal contida,
medo, arrogância, ternura,
grito ecoando até silenciar
a última nota ...
 
REINCIDÊNCIAS

FALA , MENINA ! ! !

 
Essa menina não fala?

Deixou a boca na gaveta!

Fez a todos uma careta,a menina calada e séria...

e desejou que um furacão a eles levasse sem dó,

que suas tripas se unissem em nó...

"Se não falas não te deixo sair mais daqui...

Vamos, fala menina!"

Mas ela sabia que não era verdade.

Entretanto adulta, já não há como

negociar seu silêncio...

e não falar vai levá-la para o abismo da solidão.

Mas ela não sabe pedir perdão...
 
FALA ,  MENINA ! ! !

ALÉM DO HORIZONTE

 
E os olhos alongaram-se em busca
daquele horizonte, e foram além
da intenção de entrever respostas,
foram ainda mais longe das verdades
imediatas...
quiseram mais,
quiseram a paz das tardes mornas
e dos recantos dos jardins !
Quiseram tocar a prometida alvura
dos brancos retalhos da alma
nas verdades que não podem ser reveladas,
sem que se despetalem as flores,
sem que os corpos se façam cinzas.
Quiseram tocar a maciez dos sonhos
mais caros,
aqueles que escapam à simples compreensão
humana.
Os olhos em vigília alongados sobre tua
presença
sonharam perfumes e cores raros,
verteram lágirmas,
brilharam na escuridão das noites insones
e se fizeram estrelas, as mais cintilantes,
só pra ver mais longe
dentro de tua alma...

Mas o humano desejo morre na incoerência
de querer alcançar o infinito em um amor
que por ser finito e tão fugaz,
e de tantas fragilidades construído,
nada mais pode oferecer do que raros
momentos de uma felicidade
que não nos pertence por inteiro,
que bebemos com a avidez de bocas secas,
que agarramos com mãos em desepero
e que nos é emprestada de um deus avaro
que, de vez em quando, contempla e se apieda
dessa grande solidão dos homens !
 
ALÉM  DO  HORIZONTE

. . . ESPERANDO VOCÊ VOLTAR

 
. . . ESPERANDO VOCÊ VOLTAR

Plantei meus pés e criei raízes,

formei frondosa copa de sonhos,

a primavera chegou e floresci saudades...
 
. . . ESPERANDO  VOCÊ  VOLTAR

INDAGAÇÃO

 
Há um verso engasgado

uma fome que não sacia

um som inarticulado

um inferno sob os pés

há ventos forçando as janelas do meu peito

há tristeza encruada e sem jeito

há um sol a queimar e a pergunta na boca muda:

existe vida neste mar?
 
INDAGAÇÃO

SOLIDÃO - O GRITO DO SILÊNCIO

 
Um traço leve, tão tênue,
que de frágil vibra e treme,
é folha seca, ao vento,
zigue-zague, "in extremis".
É como a última lágrima,
de um choro convulso e quente
que desce aos poucos na pele,
de um rosto compungido,
é como um breve zunido
de um inseto pequenino,
é como suspiro de dor,
como voz vinda de longe...
Como brando mexer de asas,
da borboleta que pousa,
como mão do doce amado,
deslizando em nossa pele...

Não há nada tão suave,
qual o lago ao sabor da brisa,
em cujas águas deslizam
minúsculos seres anônimos!

Um traço leve tão tênue
que de frágil, vibra e treme,
que não se traduz em palavras,
quiçá em fortes tremores,
nas mãos geladas, nos olhos,
na intenção esboçada.

A noite é de ronda, silêncio,
atravesso a madrugada,
a rua está tão vazia,
angústia debruça à janela,
e tudo está já tão longe,
pessoas, caminhos, certezas,
"preciso aprender a ser só..."

Um traço leve, tão tênue,
que de frágil, vibra e treme,
é este anseio contido,
em minha alma dolorido,
é este grito tão mudo,
que ressoa em meus ouvidos...
 
SOLIDÃO -  O GRITO DO SILÊNCIO

CICATRIZES

 
O meu avesso,

assim resguardado

aos olhos do mundo,

é um estranho mural de arte moderna,

relevo das cicatrizes

dos amores

vividos e chorados...

Entre elas, no entanto,

há o tecido intacto e perfeito

que guarda os paraísos

que fluiram suavemente

entre uma dor e outra,

como o chão de areias lisas

dessas praias, com suas chagas

expostas de tantos pés caminhados...
 
CICATRIZES

DE CABO A RABO

 
Isso era no tempo do relho pendurado à parede. Ele impunha mais respeito que muita autoridade e não deixava ninguém na casa esquecer quem era o senhor das decisões. Passando por ele os pirralhos sentiam um calafrio, além de umas lembranças daquele couro estalando nas canelas. Na verdade a sua função era mesmo mais decoratiava e intimidadora. Pois a grande autoridade doméstica impunha respeito só com o som das botas ou das tamancas troando no assoalho escovado com água e sabão. Ao ouvirem tal aviso, todos se punham em silêncio de sinal de alerta e à mesa não se ouvia um pio.
Era uma dessas tardes modorrentas quando o céu carregava de nuvens pretas e o mormaço sufocava. Seu Bento Rabel, tendo voltado mais cedo da sua costumeira ida à vila para fazer as compras da casa, vinha com sua charrete puxada pelo pangaré que, quase estrebuchando, parecia não ir mais muito longe. Avistando um arroio resolveu o homem dar uma parada para se refrescar e deixar o animal beber água. Apeou e se pôs a desprender os arreios devagar. Quando terminou de soltar as presilhas o bicho deu um inesperado pinote e se foi rumo ao capinzal que ia terminar numa mata de árvores baixas mas cerrada. Correu na direção e só viu quando as patas traseiras sumiam pra dentro daquela cortina verde, cerrada. Estacou, arriou o chapéu e passou a mão pela testa para secar o suor que pingava insistente. E agora? "A la pucha", o que teria feito ele disparar assim? Parecia assombração, tche! Agachou-se à beira da água que colheu com as mãos em concha, levando à boca com avidez.
Era mesmo um calorão naquele novembro recém iniciado. Logo apareceriam as falhas nas pastagens e o gado iria perder peso. Bento esperava poder negociar algum deles antes disso, pra garantir algum dinheiro com que comprar novas cabeças mais adiante. Viver daquelas terras com criação de gado não oferecia grande retorno uma vez que pela pouca extensão dos campos que lhe restaram, tinha que se limitar a pouco mais de cem cabeças de gado. Estava a pensar sobre isso, quando avistou seu cavalo emergir e trotar em sua direção. Tinha uma pata machucada e mancava visivelmente. E agora? Este momentâneo contratempo ocupou toda a sua atenção e fez com que esquecesse novamente as preocupações. Tomou providências para o problema surgido, como depois tomaria outras do dia a dia e assim evitava encarar a realidade de sua estância que logo teria que ser dividida entre os filhos e sabe Deus o que eles fariam pra sobreviver, e mais adiante, seus netos.
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O futuro chegou depressa e com ele o êxodo para outras regiões em busca de trabalho. Muitos jovens deixando pra trás sua terra de nascimento e ganhando a estrada. Levando consigo as lembranças da infância, os ditos, o sotaque da campanha conservado com afinco por muitos, pra não perder de todo a sua identidade. Meu marido era um desses que veio pra capital em busca de novos horizontes e terminou na mesma escola que eu. E até o final da sua vida ainda conservava um modo de falar bastante peculiar da região de origem e com ele eu assimilara muito da cultura da região da campanha tão diferente da nossa cultura marcada pela colonização alemã. Assim sempre reparo no modo de falar do rapaz que trabalha como pedreiro e pintor de paredes. Aí lhe perguntei sobre isso e ele disse que um dia ainda vai voltar pra Cacequi, lá perto da fronteira com a Argentina e me conta coisas de sua família, sua infância, e eu o escutando lhe dou oportunidade de estar um pouco com seu passado recente, mas me enriqueço de aprender coisas deste Rio Grande quase desconhecido pra quem vive na região metropolitana.

A ocupação da terra tem sido uma questão dolorosa que não parece ter fim. E o rebenque das adversidades tem cantado no lombo desse povo que sobrevive sabe-se lá como, indo por aí em bandos ou se amontoando em espaços exíguos ao redor das cidades. Algo com que seu Bento não sonhou nem em seus piores prognósticos para o futuro. Uma manada sem tropeiro, uma excrescência nas estradas, uma pergunta que não se cala diante da indiferença de muitos, mas que está a pedir uma resposta urgente.
 
DE CABO A RABO

DO NASCIMENTO DE ANJOS

 
Quando a Poesia vibra em tons róseos

e como suave brisa eriça a nossa pele,

ela transmuta sentimentos em embriões

de anjos.

Então os guarda em compartimentos

de almas boas,

para que sejam gestados

e logo mais,

nasçam com os primeiros

raios de uma alvorada benfazeja...
 
DO NASCIMENTO DE ANJOS

E NÓS MORREMOS DE QUALQUER COISA...

 
Eu também estou de mal com o tempo. Mas quando morrer, zera tudo. Aí começa outro? Não quero voltar pra cá como gente outra vez. Quero nascer qualquer planta, um tinhorão, aquele sim, é duro na queda. Tinha um bem vistoso, aí o muro caiu em cima, parecia mortinho. Sobrou um pedaço de caule, pus na água e em seguida surgiram lindas raizes branquinhas. E folhas. Está novamente em um vaso. Este sim, nasce de um pedaço de caule. E NÓS... NÓS MORREMOS DE QUALQUER COISA!!!
 
 E NÓS MORREMOS DE QUALQUER COISA...

CARNAVAL

 
estando em mim
como bandeira hasteada
fogueira acesa
ventania e sonho
sorvendo ares
e olhares fixos
e calores vários
nas arquibancadas
minha nudez emplumada
pousa sobre as alturas
pássaro entronado
em cativante alçada
dona do mundo sou
madona abençoada
mulher transfigurada
efígie, laço, armadilha
sou lança, sou grilhão
sou branda e etérea
passageira da avenida
nestes trajetos da euforia
sou colombina, sou menina
de sorriso terno
e sou intensa e bela
e majestosa no meu momento
abram alas para este sorriso
bebam dele e se embriaguem
pois é carnaval, ainda é...
meus pés desenham livres
o que a alma canta intensamente...
soem os clarins na madrugada,
os tambores, os pandeiros,
enquanto eu pouso em cor
e bebo a noite, mariposa,
e queimo as asas em tua luz,
singrando teus mares escuros
oh noite que escondes o meu amor...!
 
CARNAVAL

EM TEMPO ALGUM...

 
Nunca ver, nunca tocar
enredar-se nas teias das palavras
que capturam nossa alma e a
prendem com tantos nós de doçura
sentir-se tocados por mãos invisíveis
morrer e nascer a cada instante
sem nunca ter estado verdadeiramente vivos um
para o outro...
E se nunca fomos elementarmente presentes
não trazemos "marcas" de vivências
a nos fazer companheiros na barca do passado
estamos unidos por laços invisíveis
por vibrações que atravessam espaços
sentimos juntos mesmo à distância
e nossas ausências também doem
como feridas abertas
tendo as mãos nunca tocadas...
tendo o carinho jamais consumado...
e a tristeza de ser tão sós !
 
EM  TEMPO  ALGUM...

SEDA PURA

 
" Este é um momento de "rasgar sedas"? Rsss... sim! Que a seda seja então rasgada com gosto, com vontade, com prazer, e depois espalhada aos ventos da vida, plena de acontecimentos. "
TANIA MARA SOUZA

Tecido de suave textura,
farfalhar nos salões do império,
deslizante sob a mão que acaricia,
feito em lençóis para noites de amor...
Lenços brancos de iniciais bordados,
em mãos trêmulas, emocionadas,
gira nas saias das valsas vienenses...

Sinuosa ela expõe, em fenda ousada,
no calor do tango "a media luz",
a linda perna em provocante nudez!
Seda dos pecados inebriantes
em abraços de madrugadas tênues...
cetim,fulgurante, shantung, tafetás,
do quimono chinês, em estampas florais,
da combinação provocante
nas lojas de "griffe"!

Meninas sorrindo no retrato,
camisa escandalosa , sapato,
retalho na gaveta, cheiro de sândalo,
um robe esquecido no armário vazio...
...pétala de rosa,
tua mão em minhas costas desliza...
...ao som do bolero,
vestido de festa, camisola cor de sangue,
gravatas, ternos, perfume francês.

Cortina esvoaçante, intimidade devassada,
provocante nudez em pele tão alva,
salões iluminados, lustres de cristal,
"La casa d'Irene se canta, se ridi",
discretos pecados na seda das alcovas...

Ah, as texturas da vida, tão fugazes,
vestidos amarelados nos museus,
restos de vida, fotos nos cemitérios,
uma noiva morando naquele retrato,
enredos guardados em tumbas tão frias!
A alegria equivocada na juventude,
A tristeza lúcida na velhice.

Algodão acetinado, "crêpe" de seda pura,
tua mão na minha, naquela tarde de verão,
claridade inusitada pelo vão da janela,
raio de sol filtrado pelas cortinas,
primeiro beijo, primeira paixão,
a vida deslizava pelos nossos corpos,
sem pressa...!

Como fugir ao fascínio provocado
por este brilho, por esta maciez
dos desejos que teimam em desafiar
o tempo, que insistem em nos
jogar nas tempestades só para
colher a pequena flor amarela
das ilusões?
Shantung, tafetá, cetim, musseline...
Flutuam no tempo vestidos tão leves,
flutuam no ar uns cheiros de rosas
temporonas,
e um raio de sol recém-nascido
anuncia bom tempo em douradas
transparências...
 
SEDA  PURA

A NOITE E O GOOGLE EARTH

 
A noite chora lamentos e faz ecos nas copas das árvores. É como suave manto escuro pousado sobre nossas cabeças. Uma negra aquarela derramada , diante da qual ficamos de cara com o infinito espaço escuro pontilhado de astros. Ela cobra seu preço a quem não se entrega, àqueles cujos olhos teimam e cujas almas se atormentam , aos noctívagos errantes, aos desesperados, aos bêbados trôpegos, alheios a tudo, aos que trabalham, aos solitários, aos que choram, pois assim como a escuridão é convite ao sossego, ela é também opressão ...

A noite é uma dama suave mas severa e não aceita acordos, mas não há nada melhor que uma doce transgressão quando a voz do amado diz " este é nosso momento"...

O Google Earth, mostrando o planeta em luz e sombra chocou-me com a visão explícita do fato conhecido de que ela não é mais que a ausência da luz do sol acontecendo em um dos lados do mundo, mas a "nossa" noite, a noite dos homens e mulheres não é isso, não mesmo! A noite imemorial que assombrou os humanos desde o nosso surgimento, a mesma que encantou (e ainda encanta) os poetas com seus luares, aquela que foi fonte de indagações com suas constelações desde épocas remotas, que apontou direções, esta ainda é a mesma que chama olhares quando está clara e luminosa, que acolhe benevolente os que desejam ficar solitários, que pousa nos telhados, no arvoredo, como breu. Ela é sempre a misteriosa sombra que aos poucos baixa e nos envolve, que tange a boiada dos que a ela se entregam como filhos naturais abraçados pelo deus do sono. Mas que também fascina hipnótica com seus presságios e significados escritos no imaginário por milênios. Ela mantém luzes acesas, olhos abertos e brilhantes, janelas faiscantes contra sua tela de piche, a revelar quadros de aflição, insônia , nascimento e morte.

E atrai misteriosos personagens, convida à meditação, acorda fantasmas e acolhe almas cansadas. Numa grande cidade vê meninos que cresceram encerrados em apartamentos, andando por ruas e avenidas quase desertas desfrutando de um espaço provisório, felizes com suas bicicletas. As cidades que não dormem mais estão produzindo seres mutantes? Ou simplesmente neuróticos estressados?

Há tanta luz artificial pra esconder aquela que já se ressente de ser ignorada e menosprezada. Os galos já não cantam mais anunciando as madrugadas, porque elas se tornaram apenas palavras e se recolheram pra dentro dos livros indo adormecer nas linhas de algum poema...
 
A NOITE E O GOOGLE EARTH

CARTAS A UM POETA ( Excertos)

 
Eu te disse, "me cativas, mas não quero ficar presa, calustrofóbica eu sou." Tu me dizes, "gostei da imagem, mas não te preocupes, afinal, só queria tocar de leve, passar como brisa ao acaso, não quero ser teu visgo, isso por certo não sou. "

MORAL DA HISTÓRIA

Um belo empate, sem direito à prorrogação!

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Você me disse:

"...que força tem essa consoante "T", força que logo se amacia, se estende nas vogais do fim, como se a voz fosse pra longe, pra longe.... ter uma consoante linguodental, assim, bem no começo no nome, já lhe incomodou alguma vez?! Ter um nome que é um trem que chega com impacto sonoro e a seguir, some... "

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Imagina, Ramiro, e eu que ia te convidar pra ir a Buenos Aires num mês de julho, chegando para o feriado do dia nove, dia da Independência, ir a um bar no Santelmo, tomar vinho branco e ouvir uns tangos. E você acha que eu vou sumir? Eu posso sumir deste ponto do mapa , se é que minha cidade está num mapa que se preze, mas será para ir a lugar melhor e de preferência com uma pessoa assim, feito você. Não seja injusto, viu? Não, você tá querendo agrado...
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Não tenho medo de me enroscar com nada, pois desato qualquer coisa do jeito que puder. Não abrindo do jeito normal, eu rasgo, corto, rebento ou jogo fora, não tenho paciência pra ficar indecisa. E por sinal, sei fazer laços nas gravatas e gosto de desatá-los devagar. Um homem de terno e gravata, flores brancas na madrugada, encantamento de doer.

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Ventos de não trazer estão soprando pras tuas bandas,

Ventos endemoniados que fustigam a nossa cara e riem de nossa perplexidade?

Ventos, oh ventos que levantam a poeira e ralam a pele.

Ventos de não trazer , quem sabe?

Você soube de mim e então chamou tais ventos.

Você os quer por certo, e eu pergunto

que ventos não te trazem, serão maus ou bons?

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Beijo com muuuuiiiiiiito abraço, eu adoro abraçar as pessoas. Juntar as duas metades. Parece que só existo assim. E, na falta do outro, eu abraço a mim mesma. Sério! Já experimentou?

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Concordo contigo, todo mundo mente, então eu deveria ter dito, não COSTUMO enganar as pessoas , costumo ser bastante verdadeira. Entre o bastante e o totalmente vai a mesma distância que existe para percorrer entre o possível e o impraticável.

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Esta história foi uma bobagem , foi um raciocínio construído sobre base confusa. Quem sabe você é O MELHOR DOS PIORES, ou será O PIOR DOS MELHORES? Será que o MELHOR DOS PIORES equivale ao PIOR DOS MELHORES? RESPONDA RÁPIDO!

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Eu também estou de mal com o tempo. Mas quando morrer zera tudo. Aí começa outro? Não quero voltar pra cá como gente outra vez. Quero nascer qualquer planta, um tinhorão, aquele é duro na queda . Tinha um bem vistoso, aí o muro caiu em cima, parecia mortinho. Sobrou um pedaço de caule, pus na água e em seguida surgiram lindas raizes branquinhas. E folhas. Está novamente em um vaso. Este sim, nasce de um pedaço de caule. E NÓS MORREMOS DE QUALQUER COISA!!!


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Desde que lembro de mim, eu fico horas a sonhar acordada. Quando bem pequena eu adorava ficar num balanço (a gente sempre tinha um) feito de cordas e uma pequena taboa que servia de acento, preso a um galho forte de árvore. E ali ao invés de movimentar o corpo eu permanecia largada, a cabeça apoiada na corda do lado direito meio pendida pra frente, um dos pés adiantado e forçando um
leve movimento e ali as horas iam em grandes passeios. O que eu pensava? Isso não lembro mais. Mas o que eu sentia, isso eu ainda sinto, uma coisa boa demais, uma sensação de que tudo seria sempre aquela calma, aquela sensação de estar no lugar certo, fazendo o que era de ser feito, sem preocupações, sem desejos, sem arrependimentos e tudo o mais que passamos a sentir depois de crescidos. Eu agora penso muito, mas muitas vezes são questionamentos sobre minha vida, lembranças, preocupações.
E se sonho agora, com o quê? Eu apesar de ter dito que parecia já ter feito tudo que tinha que fazer, ainda espero muito da minha vida. Não penso em morrer tão cedo. E isso inclui outra pessoa, um amor..., uma possibilidade que parecia fora do meu alcance surge assim, clara ,irrecusável, a minha frente.


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E minhas mãos estão estranhas e parecem me olhar e pedir socorro. E eu não sei o que fazer com elas nesta manhã de céu tão azul e uma inutilidade desconcertante. O que valeria a pena ainda neste fim de festa? O que seria preciso pra preencher os dias e suportar as noites?

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Apesar do tal Modo Condicional nas amizades da internet, espero que possamos conversar por muito tempo ainda. Um extenso e intenso DURANTE, sem pensar na tristeza do nunca mais.
Hoje, tenho certeza, estamos felizes, assim, quase de graça, só por nos termos permitido dispor desse sentimento como quem colhe uma flor na passada e sai sorrindo sem nem saber por que.

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BEIJO... você já reparou nesta palavra, a letra B faz um beijo que se liberta nas vogais eeiii e novamente os lábios se arredOOOndam num O que se entreabre num prenúncio de outros (beijos) mais!

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Beijo você, beijo e pronto, não quero saber se você não está inteiro, se está pela metade ou se nem está, eu quero beijar assim mesmo, quero muito, aliás, permitir-me quebrar as regras me faz mais viva e isso é o que importa. Viva!!!!!!!!!!!!! Eu estou viva!!!!!!!!!!!!!!!!! E isso é maravilhoso!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Ficar sem tuas palavras é sentir o vazio mais fundo. E eu não sei como classificar melhor tal sentimento porque ele carece de mais evidências para ser avaliado. Ao mesmo tempo em que é intenso, também a fragilidade dos contatos faz como que fique um tanto irreal e sujeito a uma diluição em dúvidas, falta de referências. Descumpro qualquer promessa de me afastar um pouco de vez em quando, de puxar a âncora e partir desta costa. Tomei gosto por tudo nestas paragens. E de tanto andar a esmo já conheço caminhos que quase me levam ao ponto mais alto de longe vislumbrado. O MELHOR DE VOCÊ É VOCÊ REVELADO!

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E eu sozinha naquela cama estreita pude ser eu de outros tempos, também estava feliz ali, essa felicidade de criança que nunca morre dentro de nós , está só à espera de que lhe demos uma chance.

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Vê como nossas lembranças se entrelaçam, fazem um desenho novo das coisas antigas, aí você está lá na minha festa, assim como eu estou na tua e te observo de longe, ou te vejo criança, correndo lá no meu quintal, rindo muito e eu te mostro a minha laranjeira preferida.

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E eu menina, com um vestido azul, entro pelo portão e te olho por um tempo sentado no teu lugar preferido . Aí pergunto:

-Você é o Ramiro? Aquele que vai crescer e me encontrar daqui a muitos anos, por dentro de uma máquina?

Você então explica, olhando em direção ao nada:

- Certamente, então você ainda não entendeu que sempre estivemos juntos mesmo tendo vivido em lugares tão distantes? E quando chegar a hora, você se tornará Tanita, a moça das sandálias que não me vê quando passa do outro lado da rua...E com quem vou simpatizar muito!

E eu respondo:

- Não tinha pensado nisso, mas se você diz, eu acredito, eu nasci pra acreditar em você !

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O bom do mundo da imaginação é que as carruagens não precism viarar abóboras. Entretanto, nada como uma carruagem no plano físico, com cor, cheiro e gosto e muito aconchego. Este fecho de carta é que me mata ainda.

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Bom que dói, faz tanto tempo que não vejo alguém dizer isso. Mas nessa contradição está a intensidade do prazer sentido mais revelada que com superlativos. As contradições sempre nos dão a melhor medida de tudo. Entre o bem e o mal se constrói uma coisa exclamativa que explode com o choque entre os dois opostos e isso é um vislumbre de paraíso, querendo dizer com isso, aquilo que nenhuma palavra ou mente ou intelecto pode alcançar.

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Eu tenho uma outra forma de enfrentar as desgraceiras, os aborrecimenos inevitáveis. No caso de ser absolutamente impossível uma adaptação ao evento ou processo desagradável , aí eu digo pra mim mesma: ISTO NÃO É REAL, É UM FILME. AÍ EU DEIXO A FITA CORRER NA TELA E DESLIGO. ANOS ATRÁS EU FAZIA ISSO COM UMA VIZINHA INCÔMODA. EU OLHAVA PRA CASA DELA E VIA A TELA DO CINEMA. ASSIM, ELA SE TORNAVA UMA PERSONAGEM.
MAS PARECE QUE ANDAS BEM ABORRECIDO COM O GOVERNO. É FILME, amigo, UM GRANDE ABACAXI, COMO DIZIA MEU PAI. MAS FICA CALMO. LOGO MUDA A QUADRILHA , VEM UM NOVO PRESIDENTE E AÍ TEREMOS UM "LANÇAMENTO" COM NOVAS AVENTURAS E COMO TU DIZES, OUTROS QUETAIS. E quanto à adaptação ao evento é procurar tirar algum proveito da situação. Toda vez que algo muito desagradável acontece, alguma consequência positiva há de surgir. É a lei da compensação. Sabe aquela piada em que o menino pergunta ao pai o que é compensação? Pois é, é bem boba mas eu acho engraçado. O filho pergunta e o pai responde: "É assim meu filho, se sua mãe me trair eu sou corno, em COMPENSAÇÃO você é filho da puta. "NEM SEMPRE A COMPENSAÇÃO TRAZ UMA COISA BOA, eis uma grande filosofança de porta de venda que é uma reflexão irrefreável, daquelas do Millor.

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Pra começar, eu sou hétero... (risos) A parte mais sensual do homem pra mim é o antebraço , especialmente terminando com uma mão forte. Juuroooo !!! Eu acho que é porque meu pai usava sempre camisas com manga que dobrava até o cotovelo. Eu achava ele lindo. E tem a estátua do Laçador, com a tal camisa dobrada, o meu primeiro sex symbol (escrevi direito?) Minha educação sexual começou aos cinco anos com uma surra de varinha fina dada por minha mãe que deve ter retardado meu desejo por pelo menos , uma década. Na verdade, as coisas ruins que me aconteceram não foram tão terríveis pra se chamar de inferno. Ou talvez eu é que tenha uma capacidade de sobreviver aos abalos e recomeçar. Fatos externos , com exceção de situações mais raras, não são o pior , estou a dizer o óbvio. Pois eu sou um exemplo. Alguém já me disse em brincadeira: "quando Deus te fez assim tão bonita e com tantas qualidades, as outras reclamaram muito. Mas aí ele disse: - calma, esperem, vocês vão ver o que eu vou colocar dentro da cabecinha dela. Acho que isso é adaptação de uma piada, não é? Volto outra hora, ainda estamos no caminho do purgatório...!!

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Eu até agora, só recebi umas mensagens galantes que me fizeram dar muita risada:" Boa noite, linda Tania, gostaria que lesses esses versos," ou "estou contemplando você..." Teve um que após uns quinze dias repetiu a mesma mensagem. Aí eu respondi agradecendo e disse: "prezado amigo, pelo visto, hoje chegou novamente a minha vez na sua agenda...!!" Então, nunca mais escreveu.

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Quanto tempo dura uma espera? Angústia medida em minutos, ou horas, ou dias? Descanso eterno, por todo o sempre, nunca mais. Nunca mais será o SEMPRE que praticou uma AUTOFAGIA ?

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Até à tarde os demônios já terão organizado a bagunça e eu estarei novinha em folha pra interagir normalmente. Infelizmente, te fiz meu leitor de forma compulsória. Uma coisa que contatos virtuais nos permitem, abusar da boa vontade, e , não sendo boa, abusar ainda assim.

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Provisório tudo é, mas há os provisórios que a gente já sabe que nunca passarão disso, e há outros que são somente um momento que espera pelo próximo, e há ainda os que a gente nem sabe da existência, estando ainda indefinidos, em partes que ainda precisam se unir como peças de montar. Estes na verdade são a nossa própria vida, uma infinidade de retalhos que vão sendo costurados conforme decisões momentâneas, escolhendo entre o verde e o azul, entre o de estampas floridas ou o preto fechado. E neste constante ocupar-se, as longas noites podem amanhecer na magia das escolhas, no encantamento dos encontros inesperados, cruzamentos de caminhos, no trabalho de ir dando forma a esta colcha de retalhos. E por que não apenas fruir, você pergunta, apenas deixar-se levar ? E estremecer de leve a cada leitura das palavras do outro, e encher-se de uma alegria inesperada e de esperanças malucas, adivinhando coisas nas entrelinhas, sendo feliz naqueles instantes de individualidades misturadas.

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E nestes retalhos, vai um pouco de meus estremecimentos, dúvidas, alegrias, tristezas. Fica tudo guardado no silêncio do sótão, naquele baú especial da memória, mas impresso pra ser guardado como precioso relato de viagem , tendo andado com meu barco por mares mansos, mornos, acolhedores, encantadores e também por aqueles sob tempestades, rajadas de vento, raios e trovoadas.
 
CARTAS A UM POETA  ( Excertos)

VOCÊ ESPERA EM VÃO

 
Esperas são formas de ilusão,
são tempo morto tornado em cinzas
pelo fogo que queima as entranhas,
queima até a útlima brasa, mas em vão!
E nem essa rima tão sonora,
expressa a força que tem
o sofrimento de quem anseia,
retalha a alma por um amor já vivido,
sofrido, mastigado, remoído até a
exaustão.
Essa rima me persegue, talvez ela aqui
se imponha, tal a dor de velhas mágoas.
Ah, as velhas mágoas de amor,
são como espinhos cravados e não
retirados...
Todos temos nossas histórias, nossos
mistérios
nossos nós não desatados,
mas peso nas costas de carga vencida
pra que serve, a quem ilude,
a quem alimenta o fruto
já colhido há tanto tempo,
provado em loucura e deixado ao
relento?
Erramos, ferimos, e o gosto ficou
amargo?
Não há como consertar, não há como
planejar o encontro inesperado,
pois os caminhos já pisados
ao amanhecer de um encontro feliz,
agora serão trilhas vividas,
com marcas de outros pés...
os pés que já fomos, não voltamos a ser
e os amores perdidos no tempo
não voltam!
Restam apenas os corpos
e desejos ilusórios
de reviver tais momentos!
Velhos amores são como velhas casas,
tem portas que rangem, telhados
vulneráveis,
caixas cheias de papel amarelado
e trazem em si os velhos fantasmas
com suas correntes e antigos fados...
 
VOCÊ  ESPERA  EM  VÃO