Poemas, frases e mensagens de Perseus

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Perseus

Vestida de Sol

 
Numa busca desesperançosa
Pelo mais sombrio pântano
Foi com surpresa e espanto
Que eu percebi a aurora

Entre as copas da vegetação
Entre as mais vis feras
Você me lembrou como era
Valiosa a iluminação

Na escuridão do lamaçal, um farol
Guiava-me como uma estrela
Atraindo e salvando pela beleza
Encontrei você vestida de Sol

Poema em homenagem a uma amiga inteligente e espirituosa que conheci.
 
Vestida de Sol

CELULAR

 
A qualquer hora do dia
Estou sempre em alerta
Paro tudo o que fazia
É mãe, tia, irmã na certa

Me ligam por qualquer coisa
Dizem sempre que é urgente
Deixe o filme na locadora
E não esqueça o detergente

De reunião ou compromisso
Não se pode escapar
Estou preso e submisso
Ao que ele tem a ditar

Quando ligam entro em choque
E para aumentar minha dor
Há diversos tipos de toque
E a função despertador

Para camuflar o inimigo
Inventaram mil aplicativos
Mas poucos vêem o perigo
Atrás dos jogos e mimos

Preste atenção no que digo
A nós ele não dá trégua
E ainda se diz um amigo
Quem por ele nos inquieta

No trânsito, cuidado
Ele vai desconcentrar
E não é exagerado
Dizer que pode matar

Essa coisa está viva
Não é apenas aparelho
A todos nós cativa
Em padrão infravermelho

Imagino o mundo de antes
E é a maioria que diz
A vida era menos estressante
Por isso minha infância feliz

Sofro, mas o carrego comigo
O meu tem tela táctil
E de segunda a domingo
Lembro que o inferno é portátil
 
CELULAR

Pescaria na Lagoa

 
Difícil o anzol do peixe tirar
Até dá nojo as iscas verdes
Custa muito arranjar o molinete
Mas como é divertido pescar

Na lassidão da calma lagoa
De paciência vamos precisar
Se a sorte for mesmo boa
Muitos peixes vamos pegar

Ah, a natureza tem o que dar
Como é bela a vida marinha
Pescando ao lado de Rosinha
A tarde passa num piscar

Poemas lhe conto em sussurros
Te amo quero logo lhe falar
Até quando a vara envergar
Ficamos à sombra do arbusto

À tarde o almoço aprontar
Com efeito, tem peixe quente
Depois uma soneca tirar
Porque faz feliz a gente
 
Pescaria na Lagoa

Os Simulacros dos Alienados

 
Suas vidas são um simulacro
A cópia da cópia da cópia
A mesmíssima retórica
De outros tempos atrás

Todos encenam num teatro
A antiga peça do viver
Drama repetido do querer
Dos pais dos seus pais

Os sentimentos replicados
Nas recorrentes ocasiões
Repetem todos os bordões
Como autômatos amorais

As fórmulas do comportamento
Agora de natureza cíclica
São receitas de todas as mídias
Não há mais os originais

Numa prisão sem grades
Títeres, sabem de tudo isso
Não havendo como fugir disso
Preferem não pensar mais
 
Os Simulacros dos Alienados

Verdade é Sentimento

 
Há uma verdade que tenho para mim
E não a guardo em reserva mental
É que não se fala o fundamental
Compartilham sempre as coisas afins

Verdadeiro é o que se guarda na mente
Muito que se exterioriza é mentira
E não conheço medidor que afira
O que atrás se verdadeiramente sente

Também é o que se guarda no coração
Na dissimulada inveja
No disfarçado rancor
Na depressão que encarcera
E na ambição sem pudor
Ou quando se ama ou se pede perdão

As palavras nos podem fazer sofrer
E acabarem por revelar o segredo
É por isso que as proferem com zelo
Mostrando apenas o que não faz doer

Pois é de dentro que vem o alento
É a certeza que escondida está
E que de tão óbvia chega a cegar
Toda verdade reside no sentimento
 
Verdade é Sentimento

ÔNIBUS

 
Dentre todos esses meios
Que tem pra se locomover
O mais usado, acham feio
Às vezes nem querem saber

É lento, mas necessário
Para muitos indispensável
Faz parte do rito diário
Do trabalhador responsável

Mas há razão na repulsa
Não é veículo sofisticado
E quem veste a carapuça
É tido como pobre coitado

Porém é útil e seguro
Serve a todas as idades
Ainda que não dê orgulho
Correm nele pelas cidades

Para entrar, tome fila
Logo, logo está lotado
Mas nas horas tranquilas
Nem parece um enlatado

Dentro, grande conflito
Todos querem acomodação
E cuidado com o bandido
Que pode roubar o tostão

Quem só anda de pisante
Não tem outra opção
É encarar o tratante
Do cobrador fanfarrão

Hoje pra mim é passado
Subi na escada da vida
Mas se o carro é enguiçado
Ainda é uma alternativa

Por isso este ledo poema
Em homenagem ao busão
Que há tempos me serviu
E nunca deixou na mão

Poema singelo, elaborado com colaboração de Caíto e Belinha.
 
ÔNIBUS

Levantar-se

 
Se por acaso caíres em desgraça
E não mais acreditarem em ti
Age, persiste nas boas ações
Elas falarão por si próprias
E com o tempo reerguerás
 
Levantar-se

Controlar o Monstro Interior

 
Ciente das suscetibilidades da vida
Ela apresenta todos os seus desafios
Corro por ela como num violento rio
Sempre procurando evitar as brigas

Há um lado meu de que não gosto
É o mesmo que o outro detesta
Aparenta uma fera de boca aberta
A dentição afiada define o rosto

Controlar o monstro é penosa lida
Mais difícil nas horas estressantes
Quando a raiva bate num rompante
Contar até dez é técnica batida

Evitando sempre magoar um irmão
Seja no bar, trabalho ou em casa
Evitando sequer trocar uma farpa
Eu sim, por dia mato um leão
 
Controlar o Monstro Interior

Amor, Coragem e Cautela em Palavras Aproximadas

 
Não há sinonímia perfeita
Ter-se medo não é cautela
E a afeição que sinto por ela
É maior que qualquer desfeita

É preciso coragem para declarar
Ainda que não haja plano
Visto que a amo há mais de ano
E não consigo mais segurar

Em sentido meio aproximado
Parece até que perdi o decoro
Para expor o que guardo com cuidado
É preciso evitar ser vergonhoso

Pois há de se respeitar o coração
Porquanto nas coisas do amor
Valentia é agir com furor
Mesmo com certa precaução

Mas não de uma forma qualquer
Pois abrir bem o próprio peito
Deve ser feito com muito jeito
Sem exagero no modo sequer

E lhe faço um lindo bilhete
Com cuidadosas palavras
Libertando-me da amarra
Do temor que ainda me prende

Sem do sentir fazer abuso
Contendo a carta o necessário
Intrépido é o amor revelado
E verdadeiro é o conteúdo

Com ele lhe mando esta flor
Esperando resposta sincera
Pelo menos até a primavera
Da minha declaração de amor
 
Amor, Coragem e Cautela em Palavras Aproximadas

Formas-Pensamento

 
No campo das energias sutis
Que permeiam todas as mentes
Os sensitivos são os que sentem
Como se traduzem em pensamentos

Forças negativas e malignas
Podem formar imagens desvairadas
Aprisionando mentes desavisadas
Entorpecendo suas almas incautas

Pensar é questão de fé e disciplina
Um policiamento constante e ostensivo
Um corrigir de erros e desatinos
Em busca da paz e tranquilidade

Energias destruidoras e malignas
Formam pensamentos caóticos
Que pertubam até um estóico
Adoecendo almas poluídas

Seja de qualquer origem e natureza
Há de ser combatidas com diligência
Um exercício de meditação e paciência
Que não dispensa a fé e a presteza

Tornar o podre na beleza
Num processo de sublimação
Que de fato tem o condão
De nos aproximarmos de Deus

Devemos nos lembrar de São Paulo
Que tudo de belo verdadeiro e justo
E tudo que há de bom no mundo
Ocupe os nossos pensamentos
 
Formas-Pensamento

Enxaqueca Ocasional

 
Mente em parafuso
Dolorosa é a condição
Furadeira na testa
Prensa no cabeção

Tomo a salvadora pílula
E faço a laica oração

"Remedinho, remedinho
Faça efeito, por favor
Da cabeça em desalinho
Tire a maldita dor

Meu querido comprimido
Você é meu bem querer
Seja logo rapidinho
Para o dia não perder"
 
Enxaqueca Ocasional

Movimento Não-Movimento Luso-Poético

 
Somos uma organização acéfala
Com agentes por todos os lados
Trabalhando de forma incessante
Produzindo em larga escala

Amamos e rimos das rimas
Respeitamos ou não a métrica
Apenas devemos à poética
O desejo de elevar a alma acima

Com uso de alta tecnologia
Expressam-se inumeráveis espíritos
Dá-se voz a incontáveis delírios
Hipermoderna é a nova poesia

Pois é assim que age a natureza
Fazendo uso de milhões de sementes
Esperando uma concepção decente
Orgulhamo-nos quando tocamos um coração
(ainda que apenas um)

Juntando eruditos a incipientes
Pode-se errar no português
E até se utilizar do inglês
Nossa turba é mesmo eclética

Somos uma multidão de anônimos
Não caracterizamos um movimento
Nem esperamos reconhecimento
Queremos apenas nos expressar
(ainda que de forma efêmera)

Poema propositalmente irregular como os sentimentos de inúmeros poetas.
Uma homenagem aos luso-poetas.
 
Movimento Não-Movimento Luso-Poético

O Que Me Cabe Do Meu Destino

 
Vi no horizonte do mar um veleiro
Enfrentando as ondas revoltas
Perguntei-me se tinha alguma rota
Traçada por um capitão astuto

Assim penso também em minha vida
Em que nada parece planejado
Que entre tempestades e calmarias
Desconheço um rumo estabelecido

Confiando em divina providência
Ainda que não conhecendo o desígnio
Faço a minha parte nesse caminho
Obedecendo bem a minha consciência
 
O Que Me Cabe Do Meu Destino

Dois de mim

 
Da janela do consultório
Vejo os prédios do Recife
Tudo simétrico e ilusório
Como eu na superfície

Mas há duas pessoas em mim
Vivendo em aberta discórdia
Uma sempre dizendo sim
Quando a outra não concorda

A máscara para os outros
Sentinela da boa aparência
Vive na razão e na ciência
Encobrindo o seu oposto

No profundo, o obscuro
Que ninguém entenderia
Não encontra o que procuro
A paz que me salvaria

Esse outro dentro de mim
Crê ver o que se esconde
Entendendo-se um serafim
Nem lhe posso dar um nome

Por ele vejo um mundo
Que só existe na imaginação
Mas o outro o faz de mudo
E guardo o segredo então

Com esquisita propedêutica
Ensina mistérios inexistentes
Mas o lógico tem em mente
O poder da farmacêutica

Uma dose, uma trégua
Para o embate uma parada
Levo a vida por essa regra
Com a alma fragmentada
 
Dois de mim

Marca de Más Lembranças

 
Dessas nossas dores da vida
De que passamos por um triz
Não querendo, lembramos ainda
É aquela maldita cicatriz

Quadra em resposta ao poema "Cicatriz" de Caíto.
 
Marca de Más Lembranças

Férias dos Outros

 
Tempo inteiro estou no ar
A transmissão é ao vivo
Mesmo sabendo do perigo
Não consigo me desligar

O mundo hoje é formidável
Tecnologia sempre melhor
Estamos todos conectados
Difícil mesmo ficar só

Viver sem o outro é impossível
O homem é animal gregário
Mas estar sempre vigiado
É exagero incompreensível

Ficar numa ilha parece ilógico
Precisamos de calor no inverno
Mas como já disse o filósofo
Os outros são nosso inferno

A cada passo sou criticado
A cada crítica um desafio
Até me cansam os elogios
Quero ficar solitário

É tudo tão cheio de gente
Ouvindo, falando, olhando
Viver bem com o outro depende
Do quanto estamos amando

Mas cansei do pelourinho
Férias eu quero tirar
Eu só quero estar sozinho
Eu preciso descansar
 
Férias dos Outros

Meus Poemas, Tuas Sombras

 
Oferece-me uma pedra de marfim
Já pensou por um instante?
Que já foi de um elefante?
Afasta essa peça de mim!

Fala que malabarizo rimas
E você, que copia os grandes?
Já, de fato, teve amantes?
Ou teu amor é sombra fria
Dos poetas já mortos?

Faço poemas porque sinto
De verdade, não minto
Se forço uma rima ou outra
É que a mente está trabalhando
Ourives?! Você tá brincando!
A métrica não me importa
As ideias é que batem à porta

Faço poemas brincando!

Não são os melhores textos
Mas são meus em toda inteireza
Apesar de comuns como os seixos
Que dão aos montes na natureza
Não vem de bicho poeta morto nenhum
 
Meus Poemas, Tuas Sombras

Inimigo Oculto

 
Ah, meu caro inimigo oculto
Me desfavorece numa briga suja
Nada mais que trocas de insultos
Rejeita a paz querendo luta

Defendo-me de seus ataques
Apesar de querer destruição
Tento impor a minha vontade
Minhas forças chegam à exaustão

Fortalece-se com o que tenho de pior
Expressa-se com estranha natureza
Ciente, conhece as minhas fraquezas
Peço a Deus que não me deixe só

Divina luz protege e ilumina
Mas o remédio também causa dor
Expus-me num palco como um ator
Espero o fim do ato que me alucina

Vá embora infame criatura
De mim não levará a alma
Conheço suas diversas caras
Sou mais forte que sua vil impostura
 
Inimigo Oculto

O Poder do Outro

 
Você realmente diz o que fala?
O que de fato guarda na mente?
Desconfio de um mal subjacente
Encoberto pelo medo que abala

Que força é essa que a censura?
Como um espectro que amedronta
Como uma barreira que a afronta
Um vigia que sempre a procura

Quer agora dizer o que profere?
Pensa que não sei que mente?
Não acha melhor ou prefere
Falar o que realmente sente?

Sua vida corre atrás da máscara
Esconde-se por medo da família
Guarda-se do jugo das amigas
O que tem a me dizer, Bárbara?
 
O Poder do Outro

Loucos Devaneios De Uma Criança Velha

 
Loucos! Loucos devaneios!
Fantasias de uma criança
Ainda povoam minha mente

Acreditando que um pode fazer um mundo melhor
Sonho em grandes soluções político-econômicas

A mim só dirigem-se risos

Internem-me!
Mandem-me ao manicômio!

Lá encontrarei os meus
E traçaremos planos para o futuro

Na nossa casa verde mudaremos nosso mundo
E a felicidade, ainda que fantasiosa, será real

E a realidade, que fora, todos sabem triste
Lá dentro tornaremos saber muito melhor
 
Loucos Devaneios De Uma Criança Velha

Rodolfo G. Neves