Poemas, frases e mensagens de Ombuto

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Ombuto

Corta-mato

 
"...Também faz-de-conta quem vem lá, e assim torna-se impossível ver claramente. Inúmeras vezes a cabeça guinou suavemente, sem que os olhos correspondessem. Interessava somente distinguir aquelas manchas animadas no horizonte. Porque o olhar, esse de tão fixo, era de medo e metia medo. Volta-e-meia, cansavam-se as vistas e uma espécie de estrabismo dava impressão à lógica. Mas mesmo assim, e com todos os pruridos circundantes, nada teve coragem de pestanejar..." (Ombuto in Terra ignota).
 
Corta-mato

Movimento

 
"...Há uma nítida desfluidez locomotora quando o movimento suplica por outra direcção. Algures no "flash" de uma câmara viva, ou como quem diz, no brilho de um olho, às vezes eternizam-se movimentos desprovidos de qualquer força. Há quem goste das captações de outrora, guardadas numa caixa de corda, que ao desenrolar toca baixinho uma história. Outros não, outros até podem ser movidos a vapor, mas não se deixam ficar, mesmo que entorpecidos pela cadência de um comboio antigo..." (Ombuto in Terra ignota).
 
Movimento

O bicho-papão

 
Dando uma vista de olhos pelos comentários, crónicas e artigos de opinião que se espalham pelos jornais portugueses, é vê-los desesperados (da esquerda à direita) pelo insurgimento popular a favor do fim do regime (dito democrático). Esta nova palavra de ordem é na boca destes militantes do partido do Estado, o novo bicho-papão que ameaça a democracia imposta. Afinal, o modelo de governação tem vindo a resultar generosamente para eles - e só por isso é perfeito e insubstituível (parece óbvio). Com referências directas ao populismo, que tanto abominam, o discurso em uníssono desta trupe (assim sendo, elitista), ao longo destes quarenta anos de traição, mostra sinais de fraqueza. Não que alguma coisa vá mudar, ou que possa haver a implosão deste regime. Não acredito. Acredito sim, que algumas máscaras possam descair um pouco mais, e que finalmente um dia possamos saber (para quem ainda não sabe) de que má estirpe são (ou foram) feitos os "tais grandes" anti-fascistas nacionais. Pena é, que a descendência deste mal não mostre intenções de abrandamento, quer pela mão dos seus discípulos aplicados, quer pela condescendência daqueles que se pudessem fariam o mesmo.

(Crónicas minimalistas: Ombuto, 2014).
 
O bicho-papão

Dias que se querem adiados diariamente

 
O simples facto de não sabermos, concretamente, como o dia vai começar, continuar e acabar (se acabar), deixa-nos completamente vulneráveis a nós mesmos, principalmente pela maneira como vamos reagir ao dia. Se a "matéria" de que são feitos os sonhos e os pensamentos, fosse facilmente convertível em realidades, provavelmente saberiamos ao pormenor e antecipadamente cada passo da nossa humilde odisseia diária. No entanto, existe algum tipo de índice de convertibilidade neste tipo de matéria, que nos transporta também, muitas vezes, para sequiosos rasgos de lucidez premonitória. Cada dia valoriza-se com mais ou menos intensidade, embora haja um custo acrescido pelo conhecimento desse valor, baseado normalmente na soma dos dias passados, que insistem em ser repensados. E sobre toda esta perda de dias, está acoplado um irreconhecível ganho, que não é contabilizado, é apenas sentido, armazenado e instântanemente esquecido. Se ganhamos um dia a mais na nossa carreira vivencial, é sabido que também perdemos mais um dia, relativamente a qualquer fim que possa estar próximo. E esta proporção de um para um, este equilíbrio subjacente na unidade temporal mais popular, literalmente equilibra-nos, perante o desequílibrio da nossa consciência sobre o futuro, imediato e longínquo. Possuimos uma reclamação constante em nós e uma sensação de injustiça por não sermos surpreendidos positivamente, neste ou naquele dia, ou seja, desejamos desalmadamente que a sorte nos sorria sempre, e só porque ela é a nossa eterna devedora - pensamos. Ficamos agregados de tal forma ao tédio desta cobrança, que as surpresas, se de facto existem, provavelmente também nos evitam, como que evitando o desconforto da nossa insatisfação. Sabemos intimamente que as acções diárias possuem um grande poder reflectivo - é óbvio - mas terão todas elas esse poder? Quem sabe! Nunca teremos certezas, embora, em última instância, a contagem dos dias nos pareça revelar que é possível medir a felicidade, porque é fácil aprender a somar um mais um, e assim pensarmos, mais uma vez, que mereciamos mais. Porém, quando expostos somos àqueles momentos, em que o som pára e os movimentos são tão lentos, de tal modo que podemos ver os pormenores superar a física, então aí sim, ficamos com a noção temporária de que a quantidade de felicidade é o bem mais comum e igualitário na face da terra. Ficamos com a impressão que nos foi dada, desde o ínicio, a todos nós, a mesma porção desse elíxir mágico e que a única diferença reside na desigualdade com que bebemos desse sumo apetecido. Talvez não haja mesmo a capacidade de medir o prazer de cada dia, mas há forma de conhece-lo pelo ângulo da nossa disposição e finalmente no fim, quando mais uma vez o Sol se puser, temos sempre a hipótese de fazer as pazes com essa força que se impôs, mas que também nos acolheu, durante o seu curto tempo de vida.

(Crónicas: Dias que se querem adiados diariamente: Ombuto, 2012).
 
Dias que se querem adiados diariamente

Estou a mudar p'ra pior...

 
Estou a mudar p'ra pior,
embora ainda não saiba...
Quem me dera estar melhor...
mudo, aqui onde caiba...

Sou tão pior quando falo...
Valia mais não falar...
Cortar a frase p'lo talo,
um dialecto apalpar...

Às vezes vejo o deserto
e sou tão igual a ele...
Imenso, mas incorrecto,
com tudo aquilo que é dele...

Estou a mudar p'ra pior,
antes de ter piorado...
De certo no meu melhor...
Metamórfico, parado...

("estou a mudar p'ra pior..." In Pequenos Rastos, A. Hayes, 2012).
 
Estou a mudar p'ra pior...

Esta noite...

 
Esta noite sonhei porque não quis.
Se quisesse sonhar não sonharia...
prefiro um efeito que contradiz...
pelo menos agita esta amorfia...

Esta noite não foi sonho o que tive...
foram momentos reais que passaram
e cada vez mais perto do declive...
sinto falta dos sonhos que faltaram...

O sonho hoje quase que me acordou...
fiquei algures na fronteira vazia...
no limite houve um barco que aportou...
trouxe com ele o sonho que queria...

Se nesta noite sonhei, foi comigo...
concentrado neste fragmento puro,
onde quase sempre vivo inimigo...
de outro pedaço de mim que procuro...

Ombuto (Alberto Hayes)
 
Esta noite...

Entendi que havia pressa

 
Entendi que havia pressa
mais em mim
do que naquilo que passa
a seu tempo
no cansaço que vem
no pulsar de uma veia
Mas a pressa
não tem oxigénio
hiperventila, gesticula
e afoga-se
no próprio sangue...

Fiz-me entendido
confuso e apressado
sobre a pressa
aquela que passa ao lado
sem chegar
E se ela corre por gosto
eu não sei
mas ela corre por dentro
isso eu sei...

Há um preço na pressa
e quando se paga
é mais depressa
a loucura de ser imóvel
o delírio da pequenez
E a paisagem
essa escorre
e apaga-se
na velocidade
de quem não vê...

Entendi que havia pressa
na vagareza
de pensar abstracto
E porque adiamos
é mais turvo
entender assim
à pressa...

Que se façam férias
sobre ti
pressa desentendida
E chamem depressa
o sabor do vento
que eu já não pago
a tua presença...

(Entendi que havia pressa: Ombuto, 2013).
 
Entendi que havia pressa

A educação dos grupos

 
A necessidade de grupo embrutece o indivíduo, embora lhe dê protecção e por vezes o protagonismo desejado. A democracia hoje para muitos é o pináculo da perfeição social, mas lembrem-se que o percurso da Humanidade ainda não acabou. Outras "perfeições" no Futuro ditarão modelos acerrimamente defendidos e combatidos. Tal como as leis que no Passado eram aplaudidas por preencherem os requisitos morais desse tempo, também hoje cumprimos esse papel regulador e estratificado (só que de um modo ainda mais massificado). Não é de hoje a vaidade de um voto por cada homem - lembrem-se das cascas de ostras na antiga Grécia - elas já representavam interesses de grupos através da maioria. Lembrem-se como foram formadas as nações que hoje chamamos de pátria e que defendemos como cães - não surgiram certamente através de um sufrágio universal. Somos simplesmente aquilo que a educação dos grupos quer que sejamos. Não somos originais na posição política e social, nem preocupados com o todo, nem justos, e nem visionários - apenas escolhemos os lados a que pensamos pertencer e nada mais.

(Crónicas minimalistas: A educação dos grupos: Ombuto, 2014).
 
A educação dos grupos

Será que viajar é mesmo preciso?

 
Está irritantemente na moda viajar, e eu incluo-me na adesão a esta moda, embora nem sempre tenha o carcanhol suficiente para este tipo de andanças. Tudo o que se escreve, tudo o que se lê e tudo o que se vende é sobre viagens. Uma celebridade divorciou-se e lá vai ela para a Tailândia afogar as mágoas. A actriz de meia-idade da telenovela da noite está em depressão e lá vai ela para Punta Cana curar-se com Margaritas. Um ilustre desconhecido vai trabalhar para Singapura e lá temos que gramar com as peripécias dele numa revista qualquer. Uma voluntária, no meio de centenas que estão no anonimato, vai prestar assistência nos bairros-de-lata do Uganda e lá temos que saber a que horas ela acorda para dar milho às capotas. O nosso amigo do Facebook passa o ano a viajar e lá temos que levar com as selfies dele, a cada 10 minutos, com os dentes à mostra em cima de um coqueiro.

Acho que se valoriza demais a viagem pela viagem, e não a verdadeira essência privada e individual que ela representa. É que um ar cosmopolita, livre, endinheirado e bronzeado, cai sempre bem no gôto de quem nos vê na imprensa ou, se não formos famosos, de quem nos vê nas redes sociais. Porém, acredito que muitos até nem gostem de somar milhas ao currículo, mas lá fazem um esforço na esperança de que alguma coisa mude na pasmaceira em que estão metidos. Como, contrariamente, também acredito, que viajar nestes moldes não passe somente de um agravar da tão temida zona de conforto. Zona esta, aliás, que está igualmente na moda, principalmente quando dela nos servimos para fazer, em ciclo vicioso, estas mesmas viagens.

Está massificado o acto de ir do ponto a ao ponto b e, de preferência, de avião para outras latitudes longínquas. Parecemos, como canta Carlos do Carmo, "bandos de pardais à solta" que esvoaçam para onde as Estações do Ano são ao contrário. Desta maneira, posamos no meio dos autóctones e com indumentárias inversamente térmicas às usadas por quem na Santa-terrinha ficou invejoso na labuta diária.

Hoje em dia o fenômeno da movimentação turística manifesta-se do pobre ao rico, do culto ao inculto e dos 8 aos 80 anos. Pelo menos que nos valha esta heterogeneidade sócio-cultural tão presente nestas romarias e, que forçosamente, tende a acentuar-se num Mapa-múndi já sem dragões assustadores. Assim deixam de existir snobismos, felizmente, na arte cada vez mais popular de conhecer o Planeta. O objectivo é coleccionar destinos, falar de monumentos remotos entupidos de gente, não esquecendo, claro, o snowboard todos os anos na Sierra Nevada. O que interessa é ir e, mais importante, provar que se foi, porque caso contrário a viagem nunca terá propriamente existido. Na verdade, para o migrante temporário, nem sei se há memória fidedigna nestas deslocações falsamente maquilhadas de aventura. No máximo, há quem se lembre que foi aldrabado no troco algures numa rodada de vodka, ou então, que devido às ostras estragadas, que passou um dia inteiro sentado na sanita do hotel a ouvir David Guetta pelo iPhone.

No fundo, grande parte desta histeria actual ao excursionismo (intra e inter-continental) desenfreado é culpa do Poeta. Fernando Pessoa relembrou-nos, e bem, aquilo que os antigos navegadores diziam: "Navegar é preciso; viver não é preciso". Ora, alterou-se o que outrora era bravura e epopeia, para esta espécie de comodismo misturado entre "O Barco do Amor" e "A Ilha da Fantasia". Isto é, toda a papinha é feita pela mão de outrem, ao mesmo tempo que nos fazem crer que seremos nós os descobridores de algo novo em exóticas paragens. Primeiro somos incutidos a gostar do que já está feito, e depois não há criativo desassossego, nem originalidade em cada pacote que nos é vendido a preços cada vez mais competitivos.

Ainda que viajar, seja de que maneira for, redunde sempre numa experiência fascinante, cheia de novas perspectivas e pensamentos, faz falta o viajante genuíno a correr nas nossas veias. Falta o Marco Polo que no Séc. XIII calcorreou destemidamente a Rota da Seda e que arriscou pisar as planícies do Gengis Khan. Falta deixar de ir para a Grande Muralha da China com um hambúrguer do McDonald's, comprado no vilarejo mais próximo, enfiado no bucho. Falta o desapego à banalização do viajante que só não quer ficar para trás por mera vaidade. Falta admitirmos, geográfica e socialmente falando, que já não existe Terra ignota e, que portanto, vale a pena olharmos para o espaço que temos à nossa frente com outros olhos.
 
Será que viajar é mesmo preciso?

A distância

 
Existem distâncias que se medem
e outras que se perdem no caos perdido.
São tudo encontros que vivem na ordem,
mas ignoram sempre o amor sentido...

Este longe que a loucura atormenta,
nunca esteve perto de quase nada.
Morou sempre no pilar que aguenta,
a distância que morre calada...

No ilhéu distante que agora se vê,
vive escuro monstro que vive perto.
Anda na extinta rota de quem crê,
que não fica longe do mar deserto...

A distância será mais que um lugar,
onde chegar através de um caminho,
é sobretudo uma forma de estar...
um vil castigo que actua sozinho...

Ombuto (Alberto Hayes)
Aquacultura Portugal (www.omeva.pt.vu)
 
A distância

A exacta medida

 
Sempre que se reveza o pódio de um bom momento,
entre palmas esbaforidas e hinos à certeza,
levantam-se braços e baixam-se cabeças.
Mas pouco ou nada se diz sobre a inexpressão,
e sobre o impávido movimento de cair em sí.

É preferível não saber sobre a falta de pólos inversos,
e tudo saber sobre as vertentes e as listas.
E porque é abjecta a saliência
que o desconceito faz na roupagem nua,
o melhor mesmo é fechar os olhos.

Ou então,
que desabotoadas sejam as intenções
que vestem os velhos hábitos.
E que não seja pelo calor das convicções
ou pela tensão da clausura em que está a expansão.
Que seja pelo desleixo, pela pura informalidade
e pelo fim da exacta medida,
que afinal,
nunca encaixou em nada.
 
A exacta medida

Nunca tive um gira-discos

 
Ainda que exista uma corrente de regresso, mais ou menos elitista, aos gira-discos, a verdade é que hoje o Youtube e o Mp3 praticamente extinguiram o som analógico e as saudosas aparelhagens de audio. De qualquer maneira, começo por dizer que eu nunca tive um gira-discos. Dadas as circunstâncias tumultuosas de adaptação que a minha família, e que os Retornados em geral sofreram no início, tive que me contentar com os reprodutores de cassetes e com os rádio-gravadores de cassetes. Apesar disso, existiam discos na minha casa, aliás, uma pequena mas bela colecção de LP's, que os meus pais ainda conseguiram encafuar numa mala qualquer. Gira-discos é que não existia mesmo. Imagino que não tivesse havido espaço nem tempo para tal, e que alguém durante o processo de Espoliação em Angola, alegremente o tenha subtraido.

O diversificado naipe de discos Ultramarinos ia (e vai) desde o Jazz aos Tangos argentinos, passando ainda pela música Clássica e pelo R&B. Os vinis devem ter estado guardados, aqui em Portugal, durante uns 15 anos. Só depois, é que um dia, resolvi levá-los a um amigo - com gira-discos - para ouvi-los com a maior curiosidade possível. Gostei particularmente de Bobby Womack.

Anos mais tarde, quando já havia maior estabilidade financeira, e após tanta insistência, lá os meus progenitores com alguma dificuldade resolveram comprar-me (e a crédito) uma aparelhagem da Sony. Contudo, não foi desta que tive um gira-discos. Afinal, estávamos no final dos anos 80 e o som digital do Compact Disc começava a ditar o rumo da indústria musical. Resultado: a minha estimada HiFi vinha somente equipada com 1 leitor de Cd's e 2 leitores de cassetes.

Foi por esta altura também que o acesso à música ficou mais facilitado e que a pirataria musical, presumo, teve a sua primeira vitória arrebatadora. A coisa era simples: pediam-se emprestados os álbuns e gravavam-se em cassetes. Não esquecendo que, para caberem mais, só as faixas que mais gostávamos eram seleccionadas. As velhas BASF Chromium (mais caras, mas que valiam pela qualidade) serviam bem o propósito, inclusivé, para copiar aqueles discos compactos que alugávamos. Sim, pelo menos aqui na minha cidade existiu uma loja deste tipo, que comicamente, até tinha um aviso na parede a proibir as cópias.

No que diz respeito ainda a esta tecnologia sonora do Passado, é curioso ressaltar o cheiro que todo o equipamento tinha ou que emanava das suas entranhas. Era um cheiro característico, que estava tanto nas esponjinhas cor-de-laranja que cobriam os auriculares dos headphones, como nas cabeças de leitura das fitas magnéticas. Talvez o fenômeno aromático tivesse a ver com algum tipo de metal utilizado na fabricação dos componentes desse tempo. Não sei. A verdade é que a memória olfactiva não me deixa mentir, e de cada vez que é activada, um rol de recordações (quase que emboloradas) ressurgem musicadas ao ritmo dos Cock Robin (imagino eu).

Money For Nothing dos Dire Straits, bem como 21st Century Boy dos Sigue Sigue Sputnik, são videoclipes que exemplificam bem este período, em que o Audiovisual teve a sua grande explosão e em que o consumo tecnológico massificou-se até hoje. Muito embora, desde então, eu ainda não tenha tido um gira-discos.
 
Nunca tive um gira-discos

Os "manientos"

 
Desde tenra idade que lidamos com a mania, inclusivé com a nossa. Ela é presenciada na escola, na nossa rua, no trabalho e mesmo entre amigos. Não deixa de ser um fenômeno alguém ter a mania que é melhor do que os outros e que mesmo assim, ainda se consegue destacar por esta bizarra característica. Sinceramente, sempre tive alguma dificuldade em ter algum tipo de amizade com a mania das pessoas, pelo menos aquelas portadoras de mania crónica, porque a mania aguda e passageira parece ser sintomática em qualquer ser humano que se preze. O maniento, propriamente dito, normalmente goza deste síndrome pela vida fora, não consegue desprender-se, embora num ou noutro caso ele se aperceba que tem que mudar qualquer coisa, então é comum encher a boca para dizer que tem atitude, signifique isso o que significar no dicionário da mania. Agora o mais relevante e curioso é que o maniento acredita mesmo possuir poderes especiais sobre os outros - os presumíveis inferiores a ele - de tal maneira, que chega em certos momentos, a mostrar compaixão e até mesmo um lado paternalista de educação e protecção, para com os seus fiéis súbditos. De burro, o maniento, faça-se justiça, não tem nada, pois sabe muito bem e cirurgicamente quando deve bajular ou desprezar, para alcançar os seus meios e os seus fins rumo ao estrelato. Em regra geral, o maniento é rodeado e suportado por dois tipos de pessoas: Os vulgos "Marias vão com as outras" e os outros manientos. Os "Marias vão com as outras", como se constata pelo nome, são aqueles que pelo sim e pelo não, preferem seguir um pouco todos aqueles que têm alguma plateia, o que efectivamente os manientos têm, vá-se lá saber porquê. Os outros manientos são aqueles que, como seria de esperar, encontram afinidades entre sí e portanto atraiem-se e entendem-se mutuamente, mais que não seja para se degladiaram em público, numa exibição em forma combinada e num acto desesperado pela satisfação das suas manias. A verdade é que, com toda a mania que me assiste, os manientos fazem falta à sociedade, são os desenhos animados da nossa vida adulta, os elementos interlocutores que recordam a infância dos nossos sonhos, quando um dia pensamos que seriamos heróis invencíveis.

(Os "manientos": Crónicas, Ombuto, 2012).
 
Os "manientos"

É a evolução baby

 
Comparativamente a um passado ainda bem recente, hoje desde o mais ilustre cientista da NASA, até ao miserável que não tem sequer para comer, todos têm acesso à mais alta tecnologia de comunicação - que se resume a um telemóvel de última geração com acesso à internet. No Mundo moderno, e grandemente motivado pelo flagelo da solidão, cada cidadão é um repórter e um voyeur compulsivo (pelo prazer doentio que sente) do cenário em que vive. Somos a plateia interactiva do nosso próprio comportamento exposto, que por sua vez se adapta ou desvia conforme aquilo que é opinado sobre ele.

Ainda que este acesso à realidade seja benéfico, é triste constatar que afinal continuamos a cortar cabeças em nome de Alá, tal como a Santa Inquisição queimava bruxas na Idade Média, ou que ainda matamos, invadimos e saqueamos países soberanos só porque somos mais fortes.

Se há 600 anos atrás um terço da população europeia era dizimada pela peste negra, hoje 90% dos infectados pelo ébola morrem nos hospitais de campanha espalhados pela mais decadente África subsariana. A diferença é que agora podemos ver online a matança que um vírus, descoberto e controlado nos anos 70, causa no início do 3º milénio. A diferença é que hoje não precisamos da ficção de Hollywood para vermos um homem desesperado evadir-se da quarentena, ou a ser perseguido e capturado por figuras de aspecto "astronáutico".

Mas se o espectáculo da vida real desiludiu aqueles que pensavam viver num século XXI bem distante da lei da espada, a verdade é que também abriu portas à verdade de muitos factos. Vale por exemplo pela História, que finalmente também começou a ser contada pelos vencidos. Vale pela destruição de muitas falsas certezas passadas, outrora somente favoráveis às minorias elitistas. Vale pelo facto de irmos comprovando, que mesmo com mais informação, continuamos propositadamente mal informados. E vale sobretudo, para que possamos saber com o que contar daqui para a frente. "It´s evolution baby"!

(Crónicas minimalistas: It's evolution baby: Ombuto, 2014).
 
É a evolução baby

O córrego azul

 
O ter que ir por ir, por precisar, por imaginar, é mais intenso do que ir. É uma vida paralela parada, pensada tantas vezes quanto respirar. O ter que ir de onde para onde não é jogável, não é negociável, é antes falado depois de um aperto de mão, depois de um beijo que se esquece porque não foi sentido. Vê-se agora quão louco foi misturar destinos, tê-los como certos à escolha, somente para ficar. Que loucura deixar de ir. Hoje lá estão as velhas novidades, as fotografias, as vindas e idas sonhadas. E quem não foi da primeira vez, já tudo viu expresso na alegria de quem foi. Ir já não é a mesma coisa, e ficar será sempre um insulto à continuidade. Resta então o ter que ir, ter aquela pressa bem feita, ter a postura de um viajante, e o resto finge resultar. O ter que ir é mais preciso do que se possa pensar, é pensar ser seguido pelo sim e de frente pensar ultrapassar o não. Mas ir para valer, ainda que tarde, significa entrar num córrego, como se a água fosse tinta e pintasse os pés de azul para sempre. Ir para valer, significa sentir a verde inocência de quem não se atrapalha por existir. Então vamos, temos que ir, e desta vez para valer.

(Ombuto in Terra Ignota).
 
O córrego azul

A Palavra...

 
Mais uma palavra agora,
duas palavras depois...
A frase por aí fora...
e surge um discurso ou dois...
Um tema que já tem hora,
mas que fica p'ra depois...

O silêncio ganha espaço,
na boca está e não sai...
Não deixa marca nem traço...
e pela frente se esvai...
Destrói o verbal abraço,
enquanto a palavra cai...

Por fim foi dada a palavra,
em moldes de forte jura...
No mesmo campo onde lavra,
a mentira em certa altura...
Se a palavra é uma escrava,
revejam a escravatura...


("a palavra..." In Pequenos Rastos, A. Hayes, 2012).
 
A Palavra...

Ossadas

 
"...Um afago à inteligência cintila, sempre que as ossadas do instinto marcam posição. Não se trata de entender o sentido daquela cinética que se perdeu na imóvel paisagem. Trata-se de ter sido vivo e agora menos-vivo, mas vivo, como se os monumentos calcáreos fossem também os estados contemplativos da inércia - duráveis, mas não eternos. Pelo menos, por hoje, os necrófagos já não se aproveitam das facilidades do acaso - abrem espaço para os indulgentes da decomposição, que por mera sobrevivência mostram bondade em transformar o esqueleto-do-vício. Quem dera as primazias do intelecto fossem merecedoras do mesmo valor - tal como são os ossos que suportam a rebeldia do inconformismo, e que depois alimentam as raízes da moderação..." (Ombuto in Terra Ignota).
 
Ossadas

Livraram-se as formigas que mordem dolorosamente

 
Livraram-se as formigas, que mordem dolorosamente, de tantas ocasiões para morder, porque não houve ameaça à altura dos seus medos enquanto vinham. Depois, contornaram a árvore sóbria, viva e imponente, que por elas passou sem movimento, porque outra presença haviam sentido em redor. Encarreiraram-se instintivamente, por ordem expressa do seu comportamento estruturado, fixo, eusocial e com movimento, e ainda pararam estranhamente a meio. Não sei quem descansava sentado, encostado ao tronco. Não sei, inclusivé, se uma arma de caça também se encostava à mesma coisa. Certo é que a imagem estéril inocentava qualquer agressão, enquanto combinada fosse com a lógica de uma desculpa por acontecer. O que se ouvia, naquela altura, não alertava para nada, não passavam de sons primordiais que faziam parte do presente, e coincidiam com a escalada das formigas pela perna de madeira. Suponho que após terem tomado as devidas posições, os artrópodes somente esperavam, se necessário, pelo sinal de ataque. Mas que silêncio antecedente se fez sentir, antes que o veneno fosse injectado simultâneamente e repetidamente na pele do caçador. Não esperei, e em cima da hora, a força do marfim falou mais alto, a ramagem estalou e a terra tremeu - um verdadeiro gigante acordou. Foi útil o alvoroço, para que acordasse também aquele que dormitava cansado à sombra - afinal sacudiu da perna humana os insectos, pisou no carreiro com total desprezo e por fim procurou um abrigo do seu tamanho. Posto isto, livraram-se as formigas-vermelhas de atacar, livrou-se a caça de oferecer a vida por migalhas, e o homem desculpado que se afastou sozinho, perdeu a presa, o sono e a morte - com razão, eu creio.

("Livraram-se as formigas que mordem dolorosamente": Ombuto in "Terra Ignota").
 
Livraram-se as formigas que mordem dolorosamente

Ideia-criança...

 
Cresce mas não cresce agora,
teimosia acostumada...
Ideia-criança chora,
contudo não está magoada...
Coragem que não melhora,
mas não cresce amedrontada...

Invencível ao nascer,
recente enquanto durar...
O frio de um alvorecer,
de um grito a configurar...
Este impermanente haver...
Um frenético apostar...

Império da fonte nova,
da matéria conseguida...
Ideia-criança prova,
da corrente apreendida...
És o ritmo, és a trova,
desta infância desmedida...


("ideia-criança..." In Pequenos Rastos, A. Hayes, 2012)
 
Ideia-criança...

criador...

 
Criação que origina o respirar,
que cria a mudança agora iludível...
É origem de um criativo olhar,
do tamanho do sonho imprevisível...

Meu criador, meu absurdo princípio...
Meu fim, minha esvaziante quietude...
Colocaste em mim o sabor insípio,
és a pergunta da minha atitude...

Aturo-me também na expectativa,
fabrico arestas de alegria e dor...
Utilizo em mim a parte adoptiva...
Neste elemento sou meu criador...

("sou meu criador expectante..." In Pequenos rastos, A. Hayes, 2012).
 
criador...

Descentralizando aquilo que é demasiado óbvio... que já não é certo, nem surpreende... agregando um simples lar... à central do esforço... ao conforto que prende... (Ombuto - A Fúria das Palavras).