Poemas, frases e mensagens de CarlosAle

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de CarlosAle

Queria fazer um verso...

 
Queria fazer um verso
que pudesse expressar
o retumbar da cascata
as ondas altas do mar
o dia com sua alva
a noite com seu luar

Queria mostrar no verso
a imponência do condor
as nuvens como ovelhas
o vento como pastor
e as abelhas bebendo
o mel na taça da flor

Queria mostrar o sol
acendendo como tocha
despertando a montanha
enxugando cada rocha
e aquecendo a corola
do cravo que desabrocha

Queria ver no meu verso
o resplendor do luzeiro
e num dia de outono
o empenho do barreiro
fazendo sua casinha
no ombro do ingazeiro

Eu queria versejando
falar de uma formiga
que levando uma folha
de capim ou de urtiga
nunca se perde na trilha
nem descansa com fadiga

Eu queria descrever
a lagarta de cor preta
que o carcará procura
com seus olhos de luneta
mas consegue escapar
quando vira borboleta

Queria mostrar a seda
na aranha peçonhenta
que caminha entrelaçando
um fio que não rebenta
mesmo sendo esticado
na ramagem quando venta

Queria saber falar
de um dia nebuloso
onde o sol se escondeu
esperando cauteloso
pra abrir sua cortina
de tecido luminoso

Queria mostrar o vento
desenhando sem modelo
na grande tela do céu
suas montanhas de gelo
desmanchando e refazendo
calmamente e com desvelo

Queria a serenidade
das águas de uma fonte
e a claridade que chega
esboçando atrás do monte
o final da madrugada
nos portais do horizonte

Queria ser um poeta
com o estro mais afim
quando vejo a roseira
vicejando no jardim
cercada de borboletas
pedindo verso pra mim

Eu queria ter o dom
de ilustrar o que eu vi
num certo dia de maio
quando um raro colibri
bailava suavemente
ao redor de um bogari

Eu queria versejar
como canta o sabiá
entre os ramos em flor
de um velho jacarandá
nos momentos de lirismo
que a primavera nos dá

Queria ser um poeta
que mostrasse comovido
no primor da natureza
que por nós é conhecido
um claro remanescente
do paraíso perdido
 
Queria fazer um verso...

O que é a paixão?

 
É aquele sentimento
que em excesso se reprova?
Quando não correspondido
cada dia se renova
ou se guarda em segredo
como faz a lua nova?

É o desejo de viver
um romance permanente
que se quer definitivo
sempre intenso e ardente
e que tenha a expansão
da lua em quarto crescente?

É o caminhar na praia
de um casal que não receia
ter seus passos um por um
apagados na areia
porque vão iluminados
no esplendor da lua cheia?

Ou apenas um ardor
que se almeja constante
mas se mostra com o tempo
uma chama hesitante
que só vai diminuindo
como a lua no minguante?
 
O que é a paixão?

O ciclista

 
Se um poeta é aquele
que alguma hora do dia
se dedica a escrever
o que sua verve cria
é isso que tenho feito
com a minha poesia

Mas privado das imagens
que a inspiração projeta
por vezes fico pensando
que ainda não sou poeta
e deixo de versejar
para andar de bicicleta

Só preciso pedalar
para ter esse prazer
de ir fazendo nas ruas
que estou a percorrer
a combinação perfeita
de esporte com lazer

E dobrando as esquinas
com a minha bicicleta
nem fico questionando
se sou um bardo atleta
ou apenas um ciclista
que é metido a poeta

Até porque escrevendo
não expresso a beleza
harmonia e perfeição
das coisas da natureza
que eu vejo pedalando
nas ruas da redondeza

Nas entranhas da cidade
deparo a fauna e a flora
seja numa trepadeira
que na cerca se escora
seja num joão-de-barro
lá no poste onde mora

E tanto no preto e branco
definido da andorinha
quanto no arroxeado
esboçado na azulzinha
eu vejo uma poesia
mais bonita que a minha

E me vejo a passear
pedalando a magrela
subindo por uma lomba
ou descendo com cautela
sem saber se ela me leva
ou se é eu que levo ela

Saindo da Agronomia
que atravesso primeiro
cruzando viela e beco
pela Lomba do Pinheiro
vou fazer em Belém Velho
meu passeio costumeiro

Variando meu percurso
com prazer vou pedalando
e a encosta dos morros
no entorno observando
tendo sempre na lonjura
o horizonte me chamando

Escanchado no selim
e estribado nos pedais
vou atento deparando
os campos e matagais
numa região repleta
de belezas naturais

Montado no meu camelo
subo e desço ladeira
nas ruas de Porto Alegre
sentindo a brisa fagueira
Se não faltasse pulmão
cruzava uma cordilheira

Se no trajeto escolhido
a subida é mais custosa
no declive a gangorra
vai descendo silenciosa
e posso parar na sombra
de uma figueira frondosa

E na sombra da figueira
eu descanso assistindo
um bando de passarinhos
em revoada subindo
e o colorido vistoso
de arbustivas florindo

E fazendo uma parada
ou pilotando a magrela
eu vejo um belo cenário
sem moldura nem janela
Sou como a ave que voa
no meu passeio com ela

Margeando a estrada
entre carro e pedestre
vejo toda a variedade
da vegetação rupestre
e no tempo que faz jus
a paisagem silvestre

É quando vem a vontade
nesse trecho que percorro
de morar numa casinha
dessas de cima do morro
com galinheiro, pomar,
horta, poço e cachorro

Pra ter na minha varanda
o mais extenso mirante
do panorama espraiado
no horizonte distante
desfrutando o privilégio
da beleza circundante

Entretanto essa idéia
é somente um devaneio
inspirado na paisagem
que vejo nesse passeio
manobrando o guidom
na estrada que costeio

E um roteiro diferente
que faço na zica amiga
é seguir pra Vila Nova
que é uma vila antiga
O bairro mais italiano
que nossa cidade abriga

Bisnetos de imigrantes
cultivam seus parreirais
nesse trecho do caminho
de paisagens rurais
que nossa serra gaúcha
nos faz recordar demais

Um cariz diferenciado
esse percurso descerra
Seus vinhedos no verão
parecem com os da serra
que lembram por sua vez
os vales da outra terra

O verde dessas videiras
tem variações sutis
contrastando com o céu
no seu imenso matiz
e o sol alegra as imagens
de ambientes pastoris

Em resumo é onde vou
nessas minhas pedaladas
com a minha bicicleta
pelas ruas e estradas
conhecendo a cidade
nos declives e lombadas
 
O ciclista

Décimas avulsas

 
As mulheres que são especiais
são a força da nossa inspiração
conquistando o mais duro coração
com somente atributos pessoais
Vendo numa as virtudes principais
é a quem dispensamos mais amor
que nenhuma chamamos de uma flor
sendo velha, grosseira e feiosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
faz o homem gemer sem sentir dor

Esses versos que estou escrevendo
num estilo medido e rimado
são vagões de sentido figurado
de um trem de poesia se movendo
E as rimas que você está lendo
são paradas em uma estação
O bilhete da interpretação
você paga pra ser um passageiro
da viagem que faz nesse roteiro
pelos trilhos da imaginação

Nesse mundo eu já tinha observado
que a maldade costuma triunfar
e aquele que passa a praticar
a bondade é sempre castigado
E buscar na maldade resultado
essa foi a mancada que eu dei
Quando soube o mundo que errei
num instante o castigo me enviou
Só pra mim é que ele funcionou
Quis dar uma de esperto e me ferrei

A saudade cercou meu coração
desde o dia que ela foi embora
igualmente uma lei que já vigora
decretando somente a solidão
Eu que fui como um dia de verão
sou a noite chegando no poente
Eu que fui a represa da enchente
sou um rio secando na vazante
Não existe saudade mais cortante
que a sentida por um amor ausente

Se agora eu ganhasse uma rede
eu buscava um livro para ler
Uma água de coco pra beber
e um gancho fixado na parede
Com a água eu matava minha sede
com o livro aprendia uma lição
Com o pé eu daria um empurrão
para ver se a rede balançava
e com esse balanço que ela dava
eu dormia com meu livro na mão

Se a mulher que me ama possuir
uma herança enorme pra gastar
e meu preço vier me perguntar
seu dinheiro não vai me seduzir
Eu só tenho apenas que sentir
que seu beijo e abraço tem calor
não me dando motivos pra supor
que o interesse é apenas passageiro
Eu não tenho amor pelo dinheiro
e dinheiro não compra meu amor

Cada um tem na sua própria história
um momento que foi de plenitude
Foi a fase que eu tinha juventude
a mais bela da minha trajetória
O que tenho guardado na memória
desse tempo é só felicidade
Porque o tempo da nossa mocidade
é o melhor pra ficar rememorando
Pelos trilhos da vida deslizando
Sou um trem carregado de saudade

Definir a beleza da mulher
é querer limitar o infinito
e nem mesmo o verso mais bonito
poderia cumprir esse mister
Hoje sei que o poeta o que mais quer
é compor para ela um doce hino
porque ser nossa musa é seu destino
cada dia, semana, mês e ano
E é por isso que afirmo sem engano
que sou fã do semblante feminino

Meu pomar, minha horta e meu jardim
quando lembro me ponho a chorar
Vim pra cá sem vontade de ficar
Voltarei lastimando porque vim
É por isso que estou sempre assim
com saudade apertando o coração
Eu só quero voltar para meu chão
donde fui sem apelo desterrado
Fui menino do mato e fui criado
nos rincões esquisitos do sertão

Eu já tive um momento de loucura
que pensava ser de felicidade
Mas trair a minha cara-metade
só deixou sofrimento e amargura
Enredado em fútil aventura
hoje eu sei porque nunca fui feliz
Pois eu tinha que amar só a matriz
no amor não se pode abrir franquia
Eu deixei de amar quem me queria
pra amar a alguém que não me quis

Poesia em sentido figurado
é um fruto da imaginação
Seu sabor é a interpretação
Sua polpa é o verso inspirado
O pomar onde ele é cultivado
é o grande pomar da estesia
Nesse fruto o leitor se delicia
com a casca, o gomo e a semente
O bagaço é cuspido e somente
a essência do fruto nos sacia

Nunca mais vou pegar em sua mão
nem cumprir as promessas que lhe fiz
Se contigo já fui muito feliz
hoje penso que tudo foi em vão
Pois você maltratou meu coração
como se meu amor não fosse nada
Para ter minha paz ameaçada
a saudade já chega e me tortura
Mas ainda que a noite seja escura
o sol chega trazendo a alvorada
 
Décimas avulsas

O resultado das apostas em jogos de azar

 
O assunto em questão
é um problema real
São os jogos de azar
que no estágio atual
já estão configurados
num flagelo social

Eu pergunto ao leitor
que aposta seu cascalho
em bozó, briga de rinha,
bingo, bicho ou baralho:
que lucro dá o dinheiro
recebido sem trabalho?

O apostador só quer
se divertir no início
depois fica seduzido
por um lucro fictício
e a praxe da jogatina
termina virando vício

Quem joga pode mostrar
os sintomas de um doente
Onde mora ou estuda
vai se tornando ausente
Ter mais tempo pra jogar
é seu desejo fremente

E quem fica endividado
com os jogos de azar
vende tudo o que tem
mas não para de jogar
que o vício no comando
não dá ordem pra parar

Investir na jogatina
é um processo oneroso
Quando o jogador acerta
com um prêmio fabuloso
paga tudo o que deve
em um ciclo vicioso

Se ganhar dinheiro fácil
era o primeiro incentivo
acaba na bancarrota
porque o vício ativo
conjuga o verbo jogar
sempre no imperativo

Tem muitos jogos de azar
que estão legalizados
onde poucos vencedores
tem sonhos financiados
com dinheiro que foi pago
por milhões de azarados

Quem procura no cassino
um negócio lucrativo
vê a sorte se ofertar
com um preço abusivo
e só premiar os donos
com poder aquisitivo

O freqüentador do bingo
clandestino ou liberado
de cartela em cartela
com o vício é premiado
e só busca o tratamento
quando está endividado

Já no turfe é a paixão
que arrecada o dinheiro
O prêmio passa montado
no cavalo mais ligeiro
e o acaso atropelando
sempre chega em primeiro

Se vê no jogo do bicho
que é comum apostador
sonhar com o resultado
e perder grande valor
e o bicheiro vai fazendo
fortuna com sonhador

Vejam que a loteria
é um estranho rateio
onde o governo promove
com o capital alheio
benefício só pra um
escolhido por sorteio

Foi não foi um pobretão
vai jogar na loteria
compra apenas um bilhete
que o capricho premia
e um novo milionário
vira da noite pro dia

Deslumbrado na riqueza
que não sabe onde gastar
com os seus novos amigos
em tudo quer esbanjar
como se aquela fortuna
nunca mais fosse acabar

Ele passa o ano inteiro
com o pé no aeroporto
Desperdiça nos presentes
da mulher de cada porto
gozando a ostentação,
o prazer e o conforto

Quando as suas despesas
já se tornam abundantes
termina dando um calote
em hotéis e restaurantes
retornando pra miséria
mais arruinado que antes

Se a sorte pode pagar
pra somente um sortudo
o azar sempre consegue
um rendimento polpudo
levando até o dinheiro
daquele que aposta tudo

Outro golpe que a sorte
pode dar na clientela
é entregar a bolada
a quem não precisa dela
e o azar não indeniza
os projetos que cancela

Eu pergunto novamente
que lucro dá o dinheiro
apostado em jogatina
parcelado ou inteiro
se bagunça o processo
do sistema financeiro?
 
O resultado das apostas em jogos de azar

A beleza das flores

 
As flores tem o desenho
mais belo da natureza
O jardineiro ocupado
em cuidar sua beleza
sempre olha o jardim
com renovada surpresa

Também o campo de flores
que a ventania agita
exibe muita beleza
difícil de ser descrita
e uma flor vista de perto
é ainda mais bonita

As flores dos arvoredos
na devida estação
abrem as suas corolas
como a cauda do pavão
e até nos rios e lagos
tem plantas em floração

Certamente elas não tem
poucos admiradores
Quem não para seu olhar
nas borboletas e flores
do canteiro quando estão
combinando suas cores?

Vicejando sempre foram
tema de muitas pinturas
Quem não gosta de escolher
essas frágeis criaturas
nos arranjos variados
que tem as floriculturas?

Cada espécie de flor
na sua beleza extrema
somente por existir
merecia um poema
Tanto verso já foi feito
e não esgotou-se o tema

Pensando nessa beleza
não é difícil supor
que nos tempos de outrora
o primeiro trovador
fez o seu primeiro verso
inspirado pela flor

É por isso que as flores
nas relações sociais
são o presente perfeito
em datas especiais
sendo um gesto de afeto
apreciado demais

Quem nunca deu uma flor
para a sua namorada?
Depois do parto a mãe
com flor é agraciada
e as coroas enfeitam
o fim da nossa jornada

No lugar onde trabalho
eu conheço um setor
onde uma funcionária
como é do seu pendor
de tempos em tempos dá
aos colegas uma flor

Todo homem ou mulher
durante o expediente
sempre é merecedor
de ganhar esse presente
e o perfume da amizade
se percebe no ambiente

Os colegas ficam gratos
com a sua gentileza
vendo em seu coração
aquela mesma beleza
expressada pelas flores
que enfeitam cada mesa

Eu com essa linda flor
também fui presenteado
ficando meio surpreso
no entanto motivado
a um pouco refletir
no seu significado

Nesse mundo que vivemos
tão carente de valores
onde as ações se pautam
pela troca de favores
é o amor sem interesse
expressado nessas flores

Esse presente ofertado
espontâneo e sem aviso
é a troca de uma flor
na ternura de um sorriso
pois a cordialidade
não nos causa prejuízo

Precisamos praticar
da mesma forma singela
esse gesto cordial
que é praticado por ela
quando faz que uma flor
se torne ainda mais bela
 
A beleza das flores

Rescaldo

 
Eu não sei se é o tempo
ou se é eu que estou errado
querendo ver no futuro
o que vivi no passado
naqueles dias felizes
que estive do seu lado

Que nossa história acabou
não pude me convencer
e os nossos bons momentos
não consigo esquecer
Queria voltar no tempo
mas isso eu não sei fazer

Não acredito que a dor
o tempo é que vai curar
pois o tempo que passou
fez a saudade chegar
e quando a saudade chega
não vem para consolar
 
Rescaldo

Ascensão, apogeu e queda de uma paixão

 
Hoje em dia um rapaz
não deseja ter família,
ser fiel a uma esposa,
educar filho ou filha
Diz até que casamento
é um fardo sem rodilha

Um amigo que casou
ele olha com desdém
Sua vida é uma festa,
a balada é seu harém
Pensa até que liberdade
só quem é solteiro tem

A viver sem compromisso
já está acostumado
mas um dia experimenta
um poder inusitado
Numa troca de olhares
ele fica apaixonado

Os amigos apresentam
a mulher especial
Ele entra na conversa
com assunto trivial
repetindo para ela
a cantada mais banal

A mulher que ele quer
joga com a sedução,
finge até desinteresse,
faz comer em sua mão
É ali que ele conhece
os arroubos da paixão

Começando o namoro
seu tormento é completo,
fica noites sem dormir,
passa o dia inquieto,
conhecendo uma lei
que vigora sem ter veto

Ele diz para os amigos,
mesmo para quem duvida,
que agora encontrou
a mulher da sua vida
pois em antes e depois
sua história é dividida

O sujeito apaixonado
muda até sua rotina
pra estar com a mulher
que lhe ama e alucina
Nessa mente obsessiva
já circula a dopamina

Quando pensa em declarar
tudo o que por ela sente
bota uma faixa na rua:
-Vou te amar eternamente!
como prova desse amor
de paixão entorpecente

Os seus nomes no umbú
ele escreve a canivete
Quando estão no celular
para ela se derrete
Manda flores e bombons
ou e-mail pela net

Ele troca de emprego,
muda pra outra cidade,
pra ficar mais perto dela
e abrandar sua saudade
pois só na sua presença
é que tem felicidade

Cego por essa mulher
pensa nela todo instante
Gasta tudo o que tem
pra comprar um diamante
e lhe dar como presente
que ela aceita radiante

Mas um dia ele descobre
que na trama tinha três
Ela toma a decisão
de voltar para seu ex
e o que sentia por ele
nega de uma só vez

Não querendo aceitar
ele começa a beber
Com a língua enrolada
diz que quer lhe esquecer
Quando fala da amada
dá risadas sem querer

Ele diz que quando bebe
sabe a hora de parar
divertindo os amigos
que estão naquele bar
Diz que é só a paixão
que lhe pode embriagar

E tomando outros goles
aos amigos ele diz
que ele é o bom partido
para fazê-la feliz
Só não entende por que
sua amada não lhe quis

Paga mais uma rodada
para quem está na mesa
Dizendo ser o mais rico
vai ficar com a despesa
mas só fala na mulher
que não quis sua riqueza

Com mais doses de bebida
vai ficando mais valente
Diz que bate em qualquer um
que esteja ali presente
se falar da namorada
que deixou-lhe de repente

Ele xinga os clientes
que estão naquele bar
Os amigos que ele tem
fazem ele se calar
E lembrando da mulher
ele começa a chorar

É levado para a casa
por amigos carregado
perguntando o motivo
de ter sido rejeitado
e adormece na varanda
num tapete estirado

Acordando já nem lembra
das bobagens que ele fez
Na ressaca só recorda
que a sua embriaguez
foi por causa da mulher
que deixou-lhe duma vez

Essa história termina
num tormento sem mister
e o sujeito que padece
pelo amor duma mulher
por entrar em desespero
se transforma em esmoler

Isso tudo é o que faz
os caprichos da paixão
Seja leigo o sujeito
ou de muita instrução
ela consegue apagar
a lanterna da razão
 
Ascensão, apogeu e queda de uma paixão

Conselhos de um caminhoneiro ao seu filho de mesma profissão

 
- Digo a você, meu filho,
se por vocação quiser
trabalhar honradamente
na carreira de chofer
sempre evite no caminho:
jogo, bebida e mulher

- Não é fácil no país
ser chofer de caminhão
Rodovias são precárias
sem qualquer manutenção
Onde sobram os buracos
falta a sinalização

- Todavia o motorista
batalhando por seu pão
toneladas de progresso
leva em seu caminhão
Integrando as fronteiras
faz crescer nossa nação

- Referente ao namoro
quero ir aconselhando:
o amor não é esmola
que se ganha mendigando
Coração não é hotel
cheio de vagas sobrando

- Pra poder se conservar
na postura sem malícia
nunca diga pra si mesmo
que namoro é a delícia
que começa na janela
e termina na polícia...

- Não esqueça que paixão
faz igual uma fumaça
que chegando sorrateira
vem nos olhos e embaça
vai depois se dissipando
perde força e logo passa

- Nunca troque sua rosa
pelas falsas margaridas
compensando no retorno
a tristeza das partidas
Pra andar no acostamento
muitas são as avenidas

- Mas querendo ter juízo
uma coisa eu lhe peço:
nas estradas desse mundo
não se renda ao excesso
nem esqueça quem está
esperando o seu regresso

- Sete coisas perigosas
pedem atenção constante:
motorista domingueiro
um valente no volante
o estresse do carreto
com o destino distante

- Animal solto na pista
os buracos no asfalto
uma ponte com neblina
o perigo dum assalto
São motivos suficientes
pra não viajar incauto

- Nunca viaje correndo
evitando usar o freio
Quem tem contas a pagar
vai e volta sempre cheio
Dê respeito a motorista
que viaja em passeio...

- É melhor ir devagar
que parar na oficina
ou tombar o caminhão
numa curva assassina
com o tanque já aberto
derramando a gasolina

- Nunca use o rebite
pra manter-se acordado
Quando chovendo viaje
com cuidado redobrado
Pelas curvas perigosas
só atento e concentrado

- Não imite um piloto
ao fazer ultrapassagem
pois o bom caminhoneiro
pra fazer boa viagem
leva sempre a sensatez
junto com sua bagagem

- Dirigindo apressado
a estrada é prejuízo
Já com marcha reduzida
descansado e com juízo
não se encurta a viagem
nem se apaga um sorriso

- Veja sempre na família
um valor que você tem
Se alguém lhe perguntar
de que terra você vem
diga vir de um lugar
onde só lhe querem bem

- Seja atento com motor
com faróis e com pneus
pra ter sempre garantido
o retorno para os seus
Nunca viaje sozinho
indo e voltando com Deus
 
Conselhos de um caminhoneiro ao seu filho de mesma profissão

O príncipe e a camponesa

 
Dizem que num certo reino
o imperador Lombardo
tinha um filho valoroso
conhecido por Ricardo
que naqueles arredores
não havia mais galhardo

Como estava desejoso
de fazer o seu enlace
o herdeiro do monarca
pra sair desse impasse
procurava uma dama
entre as de sua classe

Pra poder satisfazer
seu desejo com presteza
deu um baile no salão
convidando a nobreza
não apenas do castelo
mas de toda redondeza

No castelo um feiticeiro
praticando a alquimia
aumentar o seu prestígio
era o que mais pretendia
pois vivia escondido
sem nenhuma regalia

Os feiticeiros do reino
se consideravam sábios
estudando toda noite
volumosos alfarrábios
sendo por toda nação
vigiados com ressábios

Mas o mago ambicioso
já havia fabricado
recolhido em seu porão
um anel enfeitiçado
que daria a quem usasse
um poder inusitado

Uma certa baronesa
que o mago conhecia
aceitou enfeitiçar
o herdeiro com magia
pra subir ligeiramente
no degrau da fidalguia

Pois o mago precisava
promover a baronesa
e lhe dar pela magia
uma vida de princesa
pra ficar futuramente
dando cartadas na mesa

Nessa noite o herdeiro
recebendo a fidalguia
conversava com as damas
procurando todavia
uma que fosse perfeita
pra fazer-lhe companhia

Pois Ricardo no momento
que avistou a baronesa
disse para os convivas:
- Eu já tenho a certeza
que está aqui presente
minha futura princesa!

- Não vislumbro no salão
outra que seja mais bela!
Só conhece a beleza
quem já viu a face dela!
E passou o baile todo
cortejando a damizela

Os convivas os olhavam
meio que desconfiados
e durante toda noite
eles foram vigiados
mas saíram do salão
como dois apaixonados

Quando foi no outro dia
ele foi falar com ela
já estando decidido
a casar com a donzela
e passou o dia todo
sem sair do lado dela

E nos dias que seguiram
dela não se apartava
Por caçadas ou torneios
ele não se interessava
Na presença dos amigos
é só nela que falava:

- Nunca outro desejou
da maneira que a desejo!
Eu me sinto totalmente
delirante e arquejo
sem poder me controlar
no momento que a vejo!

- Eu não sei se ela é rosa,
cinerária ou lisianto,
flor-de-maio ou miosótis,
margarida ou agapanto,
eu só sei que ela viceja
no jardim do meu encanto!

- Ela me deixa suspenso
com a sua formosura!
Escuto aves cantarem
uma nova partitura!
Vejo a lua mais clara
e nas neves mais alvura!

- Eu enfrento uma tropa
um dragão ou o que for
pra ficar por toda vida
desfrutando o seu amor
quando meus dias serão
como a estação da flor!

Mas Ricardo se tornou
com o apaixonamento
nos solares e aldeias
no assunto do momento
circulando o boato
de um enfeitiçamento

Calculando o problema
avisou um conselheiro:
- Na passagem da coroa
do monarca ao herdeiro
a futura imperatriz
manda no país inteiro!

O monarca absoluto
se mostrou preocupado:
- Eu casei com Dorotéia
sem estar apaixonado!
Casamento é só moeda
nos negócios do estado!

- Como ele está preso
feito peixe na barbela
deixem a guarda real
vigiando o quarto dela
pra podermos descobrir
quem visita a donzela!

Pois Ricardo pela dama
dia e noite suspirava
Por feitiço avassalado
dela não desconfiava
Nos encontros do jardim
com ardor se declarava:

- Basta a sua presença
pra deixar-me ofegante!
Nossas vidas se uniram
numa rima consoante!
Pra manter o seu amor
eu enfrento um gigante!

- Que farei se nunca mais
contemplar sua beleza?
Se em nossas despedidas
quase morro de tristeza
e me alegro ao recordar
que será minha princesa?

- Sempre fico ansioso
pra ouvir a sua voz
esperando o momento
em que ficamos a sós
descobrindo o que amor
reservou só para nós!

- O amor que agora sinto
não senti por mais ninguém
com a força abrasadora
que eu sei que esse tem!
Só desejo para sempre
lhe amar e querer bem!

Percebendo que a paixão
foi ficando mais acesa
a fidalga interesseira
já com ares de princesa
meio que foi esquecendo
de ser uma baronesa

No solar que ela morava
com sobrada criadagem
recusou-se a receber
quem não era de linhagem
impedindo o feiticeiro
de fazer sua chantagem

Pois o mago desdenhado
no orgulho da donzela
concluiu que precisava
retirar o anel dela
pra poder recuperar
seu controle sobre ela

Conhecendo que a dama
era alvo de suspeita
planejou o que faria
pra magia ser desfeita
sem saber que um vigia
já estava na espreita

Como ele trabalhava
com a sua alquimia
escondido num porão
duma torre de vigia
tinha acesso ao solar
onde a dama residia

O piado de um mocho
avisou ser o momento
de o mago amufambado
ir subindo o pavimento
pra entrar no corredor
onde estava o aposento

Quando o mago chegou
onde a donzela dormia
se quedou maravilhado
pois a mesma parecia
pela sua formosura
uma flor em pleno dia

Recordando o motivo
de ficar extasiado
foi tirando da donzela
o anel enfeitiçado
pra voltar ao corredor
com o passo apressado

Mas chegando na escada
encontrou o sentinela
que estava esperando
pra fazer a esparrela
Sem ter como escapar
foi levado para a cela

Quando foi no outro dia
acordando muito cedo
a donzela decidida
a guardar o seu segredo
percebeu que o anel
não estava no seu dedo:

- Se Ricardo descobrir
que era tudo um feitiço
vou ficar como a rosa
que um dia perde o viço
sem ver mais o colibri
circundando submisso!

Pois a dama furiosa
chamou a sua criada
dando ordens para ela
procurar desatinada
o anel por todo quarto
e não encontraram nada

Nesse entre o herdeiro
de maneira repentina
esquecendo a baronesa
retomou sua rotina
abrandando os boatos
circulados na surdina

Como estava desejoso
de fazer uma caçada
preparou a comitiva
pra uma longa jornada
escolhendo uma floresta
como ponto de chegada

Pois o rei ficou feliz
ao saber que o herdeiro
retornou ligeiramente
a seu modo costumeiro
informando a novidade
para cada conselheiro

Na prisão o alquimista
tinha sido revistado
Escondido em sua roupa
o anel foi encontrado
Com bastante ligeireza
ao monarca foi levado

Não sabendo que o mago
já estava numa cela
a fidalga interesseira
sem receio nem cautela
foi pedir ao soberano
o anel que era dela:

- Digo à Vossa Majestade
que estou aperriada
pois preciso informar
que durante a madrugada
por vigia ou criado
minha jóia foi roubada!

O monarca escutando
respondeu colerizado:
- Esse larápio não é
nem vigia nem criado!
Ele é o feiticeiro
que está encarcerado!

- Como agora está preso
não feitiça mais ninguém!
Volte para o seu quarto
pra não ser presa também!
Se console com as jóias
dos baús que você tem!

Nesse entre o feiticeiro
conhecendo o resultado
numa cela escura e suja
se quedou desanimado
sem que pudesse entender
o que tinha dado errado:

- A vaidade foi o erro
da donzela interesseira
pois teria dado certo
feito da minha maneira
mas agora sem feitiço
vai continuar solteira!

Mas vamos deixar o mago
com a sua indagação
e até o fim da trama
encerrado na prisão
pra contar como Ricardo
viu-se numa aflição...

Pra Ricardo as caçadas
eram mais que um lazer
Quando estava acampado
para ali permanecer
não havia um trabalho
que não quisesse fazer

Certo dia que estava
construindo um tapiri
entretido na tarefa
viu chegando por ali
apartado da malhada
um robusto javali

Foi o azo que faltava
pra caçada iniciar
Os fidalgos avisados
começaram a montar
A matilha atiçada
fez o porco debandar

Um corcel rapidamente
foi frenado por Ricardo
que montou na sua sela
disparando sem retardo
num galope diligente
no encalço do javardo

Mas o grande javali
circundado pelo prado
desviava com sucesso
dentro do mato fechado
debandando na clareira
inda mais acelerado

O barão Hermenegildo
num cipó se embaraçou
Foi puxado para trás
no momento que tombou
sem poder se levantar
dessa queda que levou

E o conde Percivaldo
numa curva sinuosa
permitiu que o cavalo
de maneira vergonhosa
tropeçasse na raiz
duma nogueira frondosa

O marquês Tertuliano
com a pressa em passar
num terreno acidentado
fez seu baio resvalar
que sentindo o repuxo
começou a manquejar

E o Duque Marfumbino
guiando o cavalo seu
atalhando na campina
um revés nela sofreu
despencando num riacho
da pinguela que cedeu

A matilha que corria
em carreira desmedida
farejando uma raposa
num arbusto escondida
foi latindo para ela
do javardo esquecida

Só Ricardo tenazmente
prosseguiu na pradaria
espreitando o javardo
que de vista não perdia
Com destreza e volúpia
seu cavalo conduzia

Sem ajuda de cachorro
rastreando pelo prado
no cavalo Vitorioso
esperava o resultado
com o javali correndo
sem ficar distanciado

E o porco perseguido
por Ricardo na estrada
promovendo um desafio
sem igual numa caçada
escapava se afastando
feito carpa ensebada

Mas Ricardo pretendia
só acelerar o passo
pra manter o seu cavalo
bafejando no cachaço
do javardo que seria
derrotado por cansaço

Entretanto o javali
era firme na passada
Sem perder a rapidez
desde a sua arrancada
parecia uma flecha
pelo arco disparada

Avançando velozmente
pelo mato na carreira
esquivava pela trilha
numa fuga tão ligeira
que a planta engalhada
arrancava na touceira

Parecendo ser levado
pela força dum tufão
perpassando cupinzal
em que dava um topão
levantava pelos ares
espalhando pelo chão

Desdenhando a rapidez
que Ricardo o perseguia
parecia que o javardo
com a força que corria
não seria alcançado
nem por uma ventania

Vitorioso na montanha
por encosta ou ribeira
exibindo a sua raça
prosseguia na carreira
desenhando no trajeto
uma trilha de poeira

Sendo mesmo pertinaz
o cavalo de Ricardo
galopava projetando
sua sombra no javardo
pois voava pela mata
parecendo o furabardo

Vendo o javali fazer
galho de pau estalar
cipoal arrebentar-se
pedra no monte rolar
persistia no encalço
sem deixar se afastar

Pois Ricardo resoluto
conduziu o seu cavalo
sempre com velocidade
incessante no embalo
obrigando o javardo
a fazer um intervalo

Vendo o dito esbaforido
foi ligeiro que Ricardo
com o arco já no ombro
fez a mira sem retardo
disparando sua flecha
na costela do javardo

Atingido na flechada
a fera deu um grunhido
retornando à carreira
novamente perseguido
só faltando uma flecha
pra que fosse abatido

Pois varando as estepes
as picadas e atalhos
o javardo foi ficando
com a pele em fragalhos
sendo a mesma retalhada
na passagem pelos galhos

Sem poder se esconder
foi descendo num baixio
Resvalando nas areias
mergulhou fundo no rio
Pela sua afoiteza
num perau ele caiu

Preso pela correnteza
viu chegar esfomeados
perigosos crocodilos
atacando pelos lados
avançando sobre ele
com os dentes afiados

Pois Ricardo no baixio
com seu cavalo de raça
viu os ditos crocodilos
devorando a sua caça
Do maior dos javalis
só restou uma carcaça

Cavalgando na estepe
no regresso da viagem
Dom Ricardo já estava
percebendo a paisagem
como nunca poderia
avistada de passagem

Num atalho pelo bosque
deparou com arbustiva
com a fruta reluzente
parecendo nutritiva
não sabendo que a dita
pra saúde era nociva

Percebendo que a polpa
era farta em doçura
foi comendo com regalo
que estava bem madura
Mais adiante ficaria
com enjôo e tontura

Ao leitor que ansioso
quer saber da camponesa
vou dizer que ela saía
do seu lar para a devesa
quando avistou Ricardo
com aquela molestesa

Avistando o cavaleiro
parecendo combalido
foi correndo para ele
pra que fosse socorrido
vendo na fruta mordida
o que tinha acontecido

Quando ele da tontura
despertou recuperado
percebeu que tinha sido
para um leito carregado
Em seu lar a camponesa
lhe tratava com cuidado

Ao ficar observando
como era a família
viu na casa um ancião
de quem ela era filha
as galinhas e a vaca
a despensa e a mobília

Vendo como a camponesa
sempre a todo momento
dedicava ao velho pai
um distinto tratamento
Dom Ricardo estimou-a
pelo seu comportamento

Por seu turno a camponesa
quando soube que Ricardo
merecia reverências
por ser filho de Lombardo
perguntou-lhe o que fazer
para dar-lhe mais regardo

Dom Ricardo precisando
prontamente regressar
perguntou à campesina
se sabia lhe mostrar
o caminho mais ligeiro
para o monte-beira-mar

E se foram por subidas
e descidas para o monte
perpassando ribanceira,
matagal, devesa e ponte
procurando sua encosta
no perfil do horizonte

Quando seu acampamento
conseguiram encontrar
Dom Ricardo satisfeito
concedeu sem hesitar
sua tenda confortável
para a moça pernoitar

Quando foi no outro dia
na barraca da cantina
Dom Ricardo permitiu
que a singela campesina
se juntasse a sua mesa
mesmo não sendo grã-fina

E Ricardo em altas vozes
disse a todos na mesa:
- Mesmo não sendo fidalga
essa jovem camponesa
sempre trata o seu pai
qual se fosse a realeza!

Mas estava no momento
da campesina partir
Dom Ricardo relutante
sem poder lhe impedir
ordenou a seu valete
que a fosse conduzir

Antes da sua partida
a campesina zelosa
ensinou a Dom Ricardo
qual a fruta venenosa
sendo que a diferença
era ser menos lustrosa

Dom Ricardo não queria
despedir-se dela sem
uma boa recompensa
para ser grato também
ofertando à campesina
um garboso palafrém

Dom Ricardo inda ficou
mais um tempo acampado
conservando com o sal
tudo quanto era caçado
mas chegava a temporada
dos torneios no reinado

No retorno ao castelo
o herdeiro com franqueza
foi dizer ao soberano
que não tinha mais certeza
se queria aceitar
por esposa a baronesa

Ele então ficou sabendo
que esteve enfeitiçado
e aquele casamento
não seria celebrado
Tudo estava resolvido
com o mago encarcerado

Dom Ricardo a palavra
do monarca escutando
no invés de indignar-se
ou ficar se lamentando
com aquela novidade
retirou-se exultando

Nesse entre a patuléia
repetia em cada esquina
que havia uma suspeita
circulando em surdina
de Ricardo apaixonado
por donzela campesina

E o rei por ser ladino
já sabia o que fazer
empregando o feitiço
do anel em seu poder
O leitor já imagina
o que vai acontecer...

Pra movimentar as peças
como quem joga xadrez
foi até seu gabinete
convidando um marquês
com as filhas damizelas
que totalizavam três:

- Tendo sido enganado
por uma dama fingida
Dom Ricardo quer saber
quem é minha preferida
pois deseja desposar
com a minha escolhida!

- Sempre vi em vocês três
predicados não pequenos!
Se Bianca é virtuosa
e Sabrina não é menos,
Lady Julia tem ainda
atributos que são plenos!

O anel do feiticeiro
foi mostrado para elas
como se fosse relíquia
de remotas parentelas
O que ele pretendia
explicou às damizelas:

- Essa jóia tem valor
que sequer posso medir!
Eu gostaria de ver
em que dedo vai servir!
Quem será a minha nora
o anel vai decidir!

A marquesa Lady Julia
foi a privilegiada
mesmo sendo por acaso
que a jóia enfeitiçada
só serviu no dedo fino
da que era a enteada

Dom Ricardo nessa noite
no seu leito ressonando
foi varando a madrugada
com a marquesa sonhando
Viu-se no jardim do paço
pra donzela declarando:

- Pra manter o seu amor
eu enfrento uma quimera!
Do seu lado vou estar
numa eterna primavera!
Quando quero lhe rever
é tão longa minha espera!

- E chegando o momento
de rever sua figura
como não existe outra
com a sua esplendura
nada pode ser maior
do que a minha ventura!

- A sua imensa beleza
já por todos conhecida
nas mulheres do castelo
de vaidade desmedida
nem daqui a muitas eras
não veremos repetida!

- Se não posso resistir
a muito mais lhe querer
é preciso que me diga
tudo o que posso fazer
para ter o seu amor
que anseio em merecer!

Quando foi no outro dia
o primeiro dum torneio
Dom Ricardo preparou
seu corcel sem titubeio
Encontrar a damizela
era o seu maior anseio

Como era seu costume
desfilou na galeria
exibindo seu brasão
junto da cavalaria
terminando a parada
acenando à fidalguia

Avistando Lady Julia
no palanque de repente
com a força do feitiço
dominando a sua mente
desposar com a donzela
desejou ardentemente

Motivado por feitiço
desde o embate primeiro
Dom Ricardo já estava
com o seu golpe certeiro
derrubando o cavalo
junto com o cavaleiro

Nem a lira de Ariosto
ou a pena de Boiardo
poderiam descrever
como era que Ricardo
avançava na barreira
parecendo um guepardo

Nas disputas seu cavalo
era o mais encarniçado
Parecendo arremeter
com a fúria do tornado
Vitorioso avançava
num galope martelado

Sir Rivaldo, seu amigo
destacou-se no combate
No seu baio Puro-Sangue
o mais firme no embate
em vitórias conquistadas
com Ricardo estava empate

Se encontrando na arena
pra medirem a destreza
foram ambos aplaudidos
pelo povo e a nobreza
pois seria uma disputa
acirrada com certeza

Quando o júri deu sinal
ordenando a partida
os cavalos no impulso
dispararam na corrida
provocando no recontro
a mais firme rebatida

Foi tão forte o fragor
que ferindo os ouvidos
fez estrondo imitando
um milhão de estampidos
parecendo mil leões
ressoando seus rugidos

Sir Rivaldo velozmente
foi levado para o chão
pois Ricardo motivado
no impulso da paixão
fez igual uma centúria
pondo abaixo um portão

Bem distante do corcel
Sir Rivaldo foi lançado
como um freixo que caiu
por machado derrubado
sem poder se levantar
declarou-se derrotado

O herdeiro nessa hora
comprovando seu valor
dessa etapa do torneio
foi o grande vencedor
Todo povo na platéia
lhe aclamava com ardor

Mas chegava o momento
do herdeiro indicar
quem seria a RAINHA
DA BELEZA do lugar
Bastaria para isso
a grinalda lhe passar

Perpassando o palanque
ele já tinha certeza
que só uma escolheria
pra RAINHA DA BELEZA
Era a jovem damizela
Lady Julia, a marquesa

Recebendo a grinalda
do herdeiro e campeão
Lady Julia agradecida
estendeu-lhe sua mão
pra que ele a beijasse
como era a tradição

Mas Ricardo espantado
reparou que seu anel
destoava do requinte
do colar e do chapéu
e não tinha a fineza
que estava no seu véu

De repente o herdeiro
recobrou-se do feitiço
percebendo que por ela
seu desejo era postiço
calculou que seu anel
era quem fazia isso

E os dias transcorreram
sem Ricardo demonstrar
a menor das ansiedades
de com a jovem casar
Só queria no torneio
mais vitórias alcançar

Nesse entre o monarca
percebendo que o trono
já estava por um triz
de ficar no abandono
vendo os dias avançando
quase que perdia o sono:

- Para não ficar refém
dos caprichos de Ricardo
vou passar minha coroa
para um filho bastardo!
É melhor que me suceda
o que é o mais galhardo!

Escutando o argumento
respondeu-lhe a rainha
que de tudo discordava
e pra não ficar sozinha
respaldou na patuléia
as motivações que tinha:

- No primor da primavera
com a flora em pleno viço
a rainha das abelhas
não se afasta do cortiço
e o povo quer o trono
dado a um filho castiço!

Escutando essas palavras
e mostrando no momento
que dos anseios do povo
tinha mais conhecimento
o monarca à Dorotéia
expressou seu pensamento:

- Todo povo nas aldeias
já repete um brocardo:
a coroa do império
na cabeça de Ricardo
mesmo leve e suntuosa
vai pesar igual um fardo!

Pois de fato o herdeiro
numa pressa manifesta
com torneio acabando
não ficou pra sua festa
Na garupa do cavalo
disparou para floresta

Foi Ricardo cavalgando
entre faias e salgueiros
escutando o mais solene
rumorejo dos ribeiros
feito pela correnteza
que descia dos outeiros

Lá no alto da montanha
que estava margeando
farfalhava a folhagem
dos pinheiros ondulando
quando sobre a estepe
viu tulipas vicejando

Apeando nesse trecho
recolheu a flor bonita
arrancando prontamente
do seu traje uma fita
pra fazer um ramalhete
enlaçado com a dita

E seguindo a viagem
para o leste da colina
como era seu desejo
avistou a campesina
que estava passeando
pelo dorso da campina

Indo ao encontro dela
perguntou à camponesa
se daria-lhe a honra
de ser a sua princesa
mas que ela aceitaria
ele não tinha certeza

A singela campesina
ouvindo sua proposta
confirmando a suspeita
de já ter razão oposta
recebendo suas flores
formulou essa resposta:

- Sou apenas uma simples
camponesa da mão grossa!
A minha vida tem sido
da choupana para a roça!
Vivo com minha família
na mais humilde palhoça!

- No costume camponês
fui criada desde cedo!
A nobreza é um anel
que não cabe no meu dedo!
Eu sou a filha do campo
a irmã do arvoredo!

- Aprendi a respeitar
toda a força e grandeza
que eu vejo nos lugares
onde grassa a natureza
sem ter nunca invejado
os que gozam da riqueza!

- Como vou me acostumar
com as pompas do salão
se na relva mais macia
venho andar de pé no chão
e as águas da vertente
bebo na concha da mão?

- Entre um doce levante
e um brando anoitecer
quero andar no arvoredo
das campinas para ver
que a sombra da ramagem
faz desenhos sem querer!

- Quero ver o horizonte
sem muralhas me cercando!
Ao andar nos chaparrais
avistar nuvens passando
com a mão leve do vento
lhes puxando e esgarçando!

- Procurar na pradaria
onde nasce a violeta!
Ver a graça delicada
que exibe a borboleta
e o sol se espargindo
no entorno do planeta!

- Ver a neve borrifada
sobre a serra morena!
Ver a água transparente
da lagoa mais serena!
Ver no vasto firmamento
noites com a lua plena!

- Uma prole de linhagem
ou as glórias do reinado
não conseguem seduzir
a quem nada tem faltado!
Pois me dando um diadema
nada não terá me dado!

E Ricardo a escutando
inda mais lhe estimou
Deu razão à campesina
e com tudo concordou
Refazendo a proposta
desta forma lhe falou:

- Dou até minha espada
na enxada do plebeu!
Meu palácio na palhoça
pra ficar ao lado seu!
Só preciso que seu pai
nos consinta o himeneu!

- Eu espero a decisão
mesmo se ele pedir
pelo o aconselhamento
tempo para refletir
aceitando totalmente
o que ele decidir!

Pois o pai da campesina
foi bastante cauteloso
explicando para a filha
quanto ia ser custoso
ver Ricardo aprovado
para ser o seu esposo:

- Você vai lhe ensinar
o trabalho no roçado!
No lugar que estiver
você fica do seu lado!
Sugerindo alguma coisa
considere reprovado!

- Ele tem que aprender
a cortar lenha em grosso
e acordar de manhã cedo
pra buscar água no poço
com a vara de bambu
machucando no pescoço!

- Todos dias começar
de manhã sua jornada
já saindo para o campo
carregando a enxada
só voltando para casa
com a roça já plantada!

- Ele tem que persistir
no raspar da terra dura
aprendendo a esperar
pra ver a safra madura
merecendo o regozijo
com o tempo da fartura!

Pois Ricardo escutando
pela jovem a proposta
aceitando sem ressalvas
o que nela foi exposta
garantiu-lhes que daria
prontamente a resposta

E fazendo de bom grado
tudo quanto exigido
comprovou que poderia
ser pra ela um marido
e com isso a campesina
aceitou o seu pedido

Mesmo o rei e a rainha
deram seu consentimento
Com a minha narrativa
tendo aqui encerramento
entre amigos e parentes
celebrou-se o casamento

FIM
 
O príncipe e a camponesa

A beleza das mulheres

 
O encanto de uma flor
que se vê numa mulher
não é para ser versado
por um poeta qualquer
É preciso muita verve
pra cumprir esse mister

É preciso de Petrarca
fluência e sonoridade
de Homero a inventiva
de Camões profundidade
de Neruda a riqueza
de Lorca a intensidade

Se eu pudesse escrever
com o estro de alguém
do porte de um Vinícius
Drummond e Cabral também
não diria nem metade
do valor que a mulher tem

Ela tem da margarida
a graça e a singeleza
do jasmim tem a ternura
do lírio tem a pureza
da rosa tem elegância
do cravo a delicadeza

Contemplando a natura
com suas formas singelas
nas paisagens primorosas
as flores são as mais belas
e a beleza da mulher
supera a de todas elas
 
A beleza das mulheres

Cada não que recebo é um desgosto...

 
Você é intocável como a rosa
cravejada de espinhos para mim
Entretanto não saio do jardim
pra arrancar toda planta venenosa
Vendo sua corola mais viçosa
só aumenta a minha aflição
Sou um fruto caído no seu chão
que esperando acaba decomposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Eu fiquei recordando outro dia
do momento que eu lhe conheci
O primeiro interesse que senti
foi crescendo além da simpatia
Quando fico na sua companhia
só procuro nutrir sua afeição
pois entendo que numa relação
sentimento não pode ser imposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Não queria nem mesmo ter lembrado
que no abril começou nossa amizade
Já em maio pra ter felicidade
eu ficava mais tempo do seu lado
Se em junho fiquei apaixonado
vi em julho crescer minha paixão
Hoje sofro depois da confissão
rejeitada em meados de agosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Um sujeito que teve o predicado
de mostrar a você adjetivos
com certeza lhe deu muitos motivos
para ter seu carinho e cuidado
No período que fui analisado
você quis aplicar a correção
Pelos termos da sua revisão
me faltou vocativo e aposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Ao fracasso causado só por mim
eu não posso imputar outro autor
Se na trama quem vence é o amor
eu vou ler o romance até o fim
O meu sonho é você dizendo sim
Pesadelo é você dizendo não
Mas história de dor e solidão
é o enredo que não está proposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Eu não sei se agi com afoiteza
e o momento não era o devido
mas você recusou o meu pedido
sem mostrar no entanto aspereza
Eu preciso somente ter certeza
que você encerrou essa questão
Mas não tenho sequer a impressão
que me dê a idéia de sol-posto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Fiz de tudo para lhe conquistar
e ainda lhe tenho esperado
Com as flores e estando preparado
novamente irei me declarar
Se os amigos vierem me alertar
que você vai rasgar o meu cartão
eu respondo sem ter hesitação
que o repúdio ainda é suposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Já tentaram até me convencer
que a minha paixão é doentia
Como ela aumenta a cada dia
não consigo parar de lhe querer
Penso às vezes que para esquecer
só se eu fosse embora pro Japão
Mas refuto depois a solução
que faria somente a contragosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Minha ação não perdeu o objeto
pois a lei do amor lhe afiança
Eu não quero perder a esperança
mesmo estando meu sonho no projeto
Se viajo perdido sem trajeto
nas estradas da minha ilusão
esperando pela degustação
nosso vinho ainda está no mosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Eu não posso dizer que não lhe amo
desmentindo num verso apaixonado
no momento que sonho acordado
e no pranto que por você derramo
O seu nome sonhando ainda chamo
e não quero negar minha paixão
pra depois na primeira ocasião
declarar a você só o oposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Toda noite eu fico desejando
nos seus beijos matar a minha sede
Certa feita deitei na minha rede
e sonhei que estava lhe abraçando
Assustado eu fui me acordando
pois na rua estourou um foguetão
Como sonho não tem prorrogação
levantei nesse dia indisposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

É difícil aceitar que essa dama
a quem eu declarei meu sentimento
transformou meu desejo em lamento
abrandando o calor da minha chama
Mas se ela ainda não me ama
continuo a lhe dar minha atenção
Um soldado na guerra da paixão
não deserda nem abandona o posto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Eu não quero viver de amargura
mas a falta de afeto me afeta
Minha alma já anda inquieta
suspirando com essa desventura
Eu preciso saber se é loucura
ou se existe um motivo ou razão
pra esperança na mesma proporção
desse pranto que molha o meu rosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Quero ser pra você igual Romeu
superando a rixa das famílias
ou até navegar por muitas milhas
como fez o valente Odisseu
Quero ser cavaleiro ou plebeu
pra salvar a princesa do dragão
Mas você me negando a sua mão
vou chorar igualmente um rei deposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Pra provar a você o meu valor
só preciso ter oportunidade
Eu só quero lhe dar felicidade
todos dias lhe amando com ardor
Hoje sou no banquete do amor
um faminto atrás da refeição
pois o prato da minha solidão
com desprezo foi temperado a gosto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Do seu meigo olhar você me priva
Do carinho que tenho não desfruta
Meus projetos de amor você refuta
e das minhas propostas se esquiva
Mas diante da sua negativa
fiz uns versos pra ter consolação
Meu consolo é fazer lamentação
e o lamento deixei aqui exposto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração

Pra poder reverter perdas e danos
faço tudo que está no meu alcance
Só desejo a ventura de um romance
com você aceitando os meus planos
Nos amando seremos dois pianos
afinados num só diapasão
E o hino da nossa união
nesse dia feliz será composto
Cada não que recebo é um desgosto
que afeta demais meu coração
 
Cada não que recebo é um desgosto...

O fracasso da causa e a causa do fracasso

 
O fracasso da causa comunista
promovido em quase o mundo inteiro
sendo efeito do erro mais grosseiro
de se crer numa idéia utopista
ampliando os lesados dessa lista
que tem Laos, Camboja, Rússia, China,
Alemanha cercada na cortina,
a Coréia e países africanos,
repetiu-se aqui com os cubanos
e avança na América Latina...

Por aqui a esquerda brasileira
prometendo fazer muitas mudanças
retirou do país as esperanças
com mãos cheias de óleo e sujeira
Foi não foi levantou sua bandeira
escondida na sombra do gramscismo
A corrente do patrimonialismo
com os anos foi mesmo ampliada
Nossa pátria está sendo acuada
empurrada que vai para o abismo

Engendrando uma vã teologia
disfarçada de crença religiosa
a disputa na igreja foi rendosa
devorando no bolo uma fatia
Resultado de trama tão sombria
foi o lobo ficar mais atrevido
Atacou um rebanho iludido
na de Roma, Lutero e Metodista
pra rezarem cartilha marxista
como se estivessem num partido

Foi Karl Marx na sua juventude
um cristão numa vida desregrada
Caminhando em trilha tão errada
corrompeu-se por sua atitude
Com a alma sofrendo inquietude
conheceu a mudança imprevista
Os relatos dão mais de uma pista
de que a sua fé sofreu revés
aceitando por guia Moses Hess
para entrada na esfera ocultista

Pois é esse o mentor do socialismo
que nas teses que havia formulado
foi de Deus inimigo declarado
para ver triunfar o satanismo
Basta ver nos anais do esquerdismo
o terror do passado mais grotesco
a barbárie em drama gigantesco
genocídios,expurgos, crueldades,
escravismo e demais atrocidades
e a fome em grau sempre dantesco

Bibliografia:

Era Karl Marx um satanista?
Richard Wurmbrand

O Livro Negro do Comunismo
ANDRZEJ PACKZOWSKI,
JEAN-LOUIS MARGOLIN,
JEAN-LOUIS PANNE,
KAREL BARTOSEK,
Nicolas Werth,
e Stéphane Courtois
 
O fracasso da causa e a causa do fracasso

O drama dos jogadores compulsivos

 
Escondido no disfarce
da diversão inocente
o vício da jogatina
tem lesado muita gente
fazendo o trabalhador
ficar pobre e doente

Cerca de quatro milhões
nessa praxe doentia
de aposta em carteado,
bicho, bingo e loteria
tem um problema que só
se agrava a cada dia

O apostador da rinha,
caça-níquel ou corrida
corroendo seus recursos
em cada aposta perdida
é desse jeito que esta
destruindo a sua vida

Também os jogos em rede
que dão esse incentivo
para jovens e adultos
tem efeito obsessivo
É o mundo promovendo
mais um drama coletivo

Quem procura distração
com os jogos virtuais
e navega a internet
jogando tempo demais
fomenta para si mesmo
prejuízos sociais

Comprovando que o jogo
é vício muito voraz
quem decide não jogar
perde o sono e a paz
Você vai saber aqui
o mal que o jogo faz

Existe pai de família
que era trabalhador
mas perdeu a honradez
devido a ser jogador
pois os jogos de azar
são um mal devastador

Um sujeito que calcula
que pode lucrar ligeiro
nem percebe que está
só repetindo o roteiro
de quem perde no final
o controle do dinheiro

Na mesa do carteado
ele aceita uma proposta
e animado pela sorte
vai dobrando a aposta
mas no lance decisivo
o azar manda a resposta

Se às vezes sai da mesa
levando dinheiro vivo
com a emoção do jogo
vai ficando compulsivo
Quando volta pra jogar
já nem sabe o motivo

Dizendo que o azar
é um risco calculado
e pensando que está
com a sorte do seu lado
vai jogando todo dia
e acaba endividado

O dependente do jogo
sofre feito um escravo
Apostando o que não tem
se não vence fica bravo
Se vence volta a jogar
perdendo cada centavo

O vício da jogatina
chega sem lhe dar aviso
Quando ele reconhece
é total o prejuízo:
já perdeu o seu emprego
a família e o juízo

Quando o salão de bingo
funcionava legalmente
o serviço de primeira
e o luxo do ambiente
eram pra impressionar
e atrair o cliente

Hoje a sala é escura
insalubre e escondida
onde jogador retorna
quando tem a recaída
jogando pra lamentar
outra rodada perdida

Só aumenta o capital
do barão da jogatina
um algoz do jogador
que lhe vendo na ruína
abandona a carcaça
feito ave de rapina

Para o dono do salão
o negócio é lucrativo
mas quem fica esperando
por um lance decisivo
deixa as suas finanças
com um saldo negativo

O viciado jogando
esquece as obrigações
e ficando sem jogar
não quer outras opções
Esse flagelo funesto
já prejudica milhões

São jovens sem estudar,
empregados demitidos,
empresários competentes
que terminaram falidos
e os lares de milhões
totalmente destruídos

O povo tem que saber
que o jogo escraviza
onde perde quem não tem
ganhando quem não precisa
e o que se perde no jogo
dinheiro não indeniza
 
O drama dos jogadores compulsivos

Minha musa

 
Sentindo a inspiração
mais intensa e profusa
eu me ponho a escrever
com vigor, brilho e fiúza
pra revelar os encantos
que eu vejo em minha musa

Minha Rosa tem a graça
que inspira qualquer artista
e a mim faz desfrutar
de uma verve imprevista
sendo uma mulher bonita
em qualquer ponto de vista

Ela tem o esplendor
que ninguém sabe medir
Tão fácil reconhecer
e custoso definir
mas todo poeta aspira
em seus versos traduzir

Há mulheres graciosas
porém ela é demais
A beleza é um barco
atracado no seu cais
e no mar da poesia
quero ser o seu arrais

Um sorriso mais bonito
não há em todo universo
Tem tamanha excelência
que não cabe no meu verso
e deixou meu coração
no rio do encanto imerso

O brilho arrebatador
que dos olhos irradia
como as luzes da noite
e do sol trazendo o dia
sugere tanto mistério
e extravasa em poesia

O beija-flor é feliz
quando uma flor visita
e o sabiá cantando
sua canção favorita
Eu sou feliz descobrindo
quanto ela é bonita

Me enlevo na formosura
que da aurora é provinda
e reconheço que as flores
tem uma beleza infinda
mas não comparo a dela
porque ela é mais linda

Admiro a lua cheia
quando a vejo da janela
e cada estrela no céu
que na noite se revela
porém me fascina mais
quanto minha musa é bela

Eu vejo a brisa passar
acariciando uma rosa
e o vento jogar na rocha
uma onda vigorosa
e não consigo esquecer
quanto ela é graciosa

No mar o navegador
olha o céu e suspira
namorando uma estrela
que brilha como safira
e é isso que eu sinto
por ela que me inspira

O sol pode recolher
o seu halo rosicler
e a lua pode mudar
escondendo seu mister
mas nela sempre reluz
sua graça de mulher
 
Minha musa

Ela sabe que me deixou cativo...

 
Ela é a estrela que eu vejo
reluzir no espaço infinito
Ela é o meu verso mais bonito
num poema escrito de lampejo
Eu viajo no bonde do desejo
procurando por sua estação
Pras feridas da minha solidão
o seu beijo vai ser o curativo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Ela sabe que estou apaixonado
e faz tempo que tinha descoberto
Quando vejo que ela está por perto
sinto meu coração acelerado
Declarei que a quero do meu lado
só que ela mostrou hesitação
Se não ouço os apelos da razão
seu encanto é o que me dá motivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Não queria mentir que não a quero
se eu quero é que ela se decida
Ela é a mulher da minha vida
e é por uma rainha que espero
Quando um sentimento é sincero
não se pode esconder a intenção
Fiz chorando minha declaração
de lhe dar meu amor definitivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Nossa vida vai ser uma novela
com roteiro que tem final feliz
Nos projetos e planos que eu fiz
a estrela maior sempre foi ela
No cenário de luz da nossa tela
cada cena trará nova emoção
Só não quero é fazer figuração
nem rodar um final alternativo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Que o meu sentimento é verdadeiro
ela vai entender e dar valor
Quem almeja viver um grande amor
não espera que seja passageiro
Tudo que eu preciso é primeiro
sempre que ela der ocasião
demonstrar minha determinação
de passar no processo seletivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Faço tudo e mais o que puder
para tê-la na minha companhia
Nada eu considero demasia
para ter o amor dessa mulher
E se ela falar que não me quer
vou sofrer a maior decepção
Minha espera tem essa condição
mas não muda o meu objetivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Minha taça de amor já se derrama
e não posso servir na sua mesa
Na muralha da sua incerteza
vislumbrei o tamanho do meu drama
Uma rosa que fere quem a ama
sempre exige o dobro de atenção
Como estou no jardim da atração
é só ela a flor que eu cultivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Quem a minha atitude observa
se admira da minha confiança
É o meu coração que não se cansa
e a força do amor que a conserva
Tenho na confiança uma reserva
mas a conta cruel da aflição
vou pagando com juro e correção
e ficando com saldo negativo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Quando ela está na minha frente
faço tudo para lhe conquistar
Desta forma um dia vou provar
que a quero amar eternamente
Me pergunto já meio impaciente
por que ela não toma a decisão
Cogitando que ela diga não
nem sei como ainda sobrevivo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão

Eu conheço o conceito recorrente
da paixão como um fogo de palha
Toda alma possui a mesma falha
de pensar que é tudo diferente
Só que mesmo estando consciente
dos perigos de crer no coração
eu prefiro viver de ilusão
que anular o efeito sedativo
Ela sabe que me deixou cativo
nas algemas ardentes da paixão
 
Ela sabe que me deixou cativo...

Diga não à dopamina!

 
A paixão afeta a mente
como droga que vicia
por isso quem quer viver
honrando a monogamia
antes tem que descobrir
se o amor não é mania

Quando alguém se apaixona
já libera a dopamina
que na área cerebral
faz efeito e contamina
provocando dependência
como faz a drogaína

Toda vez que um solteiro
quer sair da solidão
e procura companheira
pra viver uma paixão
precisa tomar cuidado
pra não acabar doidão

Eu conheço um sujeito
que um dia se apaixonou
por uma moça bonita
que numa festa encontrou
e desde aquele momento
na dependência ficou

Paixão às vezes começa
por simples curiosidade
Os amigos estimulam
e surge oportunidade
até no clarão do dia
nas esquinas da cidade

Os sintomas do viciado
estão no comportamento
A pessoa que ele ama
não sai do seu pensamento
e pra curar a paixão
não procura tratamento

Ele vive distraído
e perde a concentração
Não fala coisa com coisa
apresenta excitação
Só se mostra interessado
em viver sua paixão

Tem sujeito exigente
pra escolher a sua amada
Mas quando vem a paixão
com sua força ativada
faz declaração de amor
até para a encalhada

Tem paixão do tipo leve
que é chamada paixonite
e também a mais pesada
que extrapola o limite
Essa numa abstinência
é comum que debilite

Tem agências promovendo
o encontro de casais
só porque a dopamina
nos decretos atuais
não está relacionada
com as drogas ilegais

Tem artistas que estão
fazendo a apologia
porém um apaixonado
no estado de euforia
sofre como um escravo
ansiando à alforria

A paixão afeta a mente
como faz a hipnose
Nos casais apaixonados
já circula igual virose
Tem até gente morrendo
de paixão em overdose

Eu mesmo fui um viciado
sofrendo na experiência
A paixão que me cegava
embotava a consciência
mas um dia eu decidi
renunciar à dependência

Não caia nessa armadilha
Pode ser sua ruína
pois é um mal sem remédio
ainda na medicina
Resistindo à paixão
diga não à dopamina!
 
Diga não à dopamina!

Eu sou aquele poeta...

 
Eu sou aquele poeta
que escreve por vocação
e produz a sua arte
ao sabor da inspiração
tirando a matéria-prima
das palavras que tem rima
como forma de expressão

Pois no meu ponto de vista
poesia é um meio
de mostrar o que é belo
e denunciar o feio
Nela eu posso expressar
o que é particular
e também o que é alheio

Poesia é um espelho
de uma vida feia ou bela
Quem tem sensibilidade
se vê refletido nela
E também sei e não nego
que até pra quem é cego
ela abre uma janela

Ela pode exprimir
sutilezas do amor
Revelar a diferença
entre espinho e a flor
e por uma analogia
fazer a fotografia
da paisagem interior

Um poeta quando vai
caminhando pela rua
reconhece a poesia
quando se revela nua
na folha que cai no chão
ou nas nuvens que estão
cobrindo a face da lua

Porque existe poesia
até nas coisas singelas
Mesmo estrelas sem nome
formam imagens tão belas
e as flores sem olor
também mostram o candor
do orvalho descendo nelas

Ser poeta é ver beleza
no rio embaixo da ponte
Na aragem sobre o vale
e na alva atrás do monte
quando cobre vagarosa
com sua neblina rosa
toda linha do horizonte

Na aranha quando trama
o mais perfeito crochê
Na abelha que circunda
a flor roxa do ipê
Nos campos onde também
nascem hortências que tem
o formato de um buquê

Um poeta se inspira
na notícia dos jornais
Em sua própria história
Nos temas sentimentais
No teor de outros versos
e em assuntos diversos
que pareçam triviais

O que escreve um poeta
tem um significado
que ele deixa ao leitor
para ser interpretado
Nas poesias que lavra
sempre usa a palavra
com sentido figurado

Poesia é parecida
com receita culinária
que o poeta cozinha
na panela imaginária
escolhendo diligente
cada um ingrediente
na despensa literária

O poeta que verseja
pelo dom favorecido
poesia é sua adega
e seu verso consumido
como um vinho ou licor
que não perde o sabor
depois de envelhecido

Por vezes é artesão
que até por encomenda
com as linhas do estilo
um bordado ou uma renda
vai tramando com empenho
pra fazer o seu desenho
ser melhor que a emenda

Também é o garimpeiro
buscando a inspiração
na jazida do talento
e se encontra um filão
lapida para o leitor
que avalia o seu valor
na devida exposição

E quando se apresenta
no palco da estesia
e consegue transformar
palavras em melodia
com a batuta do estro
o poeta é o maestro
da mais linda sinfonia
 
Eu sou aquele poeta...

Mote e glosas III

 
MOTE

SAUDADE NINGUÉM, POR CERTO,
DEFINIU NESSE CONCEITO:
ELA É UM MUNDO DESERTO
QUE TEMOS DENTRO DO PEITO

GLOSAS

OS POETAS SEMPRE ESTÃO
DEFININDO O SENTIMENTO
DE DOR OU SATISFAÇÃO,
REGOZIJO, DESALENTO,
TRISTEZA, FELICIDADE
É SOMENTE A SAUDADE
UM CONCEITO EM ABERTO
POIS POETAS DE VALOR
DEFINEM SEJA O QUE FOR
SAUDADE NINGUÉM, POR CERTO

UM POETA INSPIRADO
DISSE QUANTO AO PORVIR:
TUDO QUE FOI SEPARADO
QUER VOLTAR A SE UNIR
NO SEU VERSO TEM VERDADE
MAS NÃO DEFINIU SAUDADE
POIS NEM TUDO, COM EFEITO,
SE RECUPERA E ALCANÇA
E SOMENTE A ESPERANÇA
DEFINIU NESSE CONCEITO

UM POETA QUE ESCREVE
COM TALENTO O SEU VERSO
MUITAS VEZES SE ATREVE
A EXPLICAR O UNIVERSO
E MESMO TENDO VONTADE
NA ESSÊNCIA DA SAUDADE
NUNCA VAI CHEGAR NEM PERTO
IGUALMENTE A NOSTALGIA
AUMENTANDO A CADA DIA
ELA É UM MUNDO DESERTO

QUEM ESCOLHE ESSE TEMA
AO LEITOR FICA DEVENDO
QUE O SEU MELHOR POEMA
ELE ESCREVE JÁ SABENDO
NÃO TER A PROFUNDIDADE
DO MISTÉRIO DA SAUDADE
POIS O VERSO MAIS PERFEITO
DE MAIOR INSPIRAÇÃO
NÃO TRADUZ ESSA EMOÇÃO
QUE TEMOS DENTRO DO PEITO
 
Mote e glosas III

O meu verso é popular

 
O meu verso é popular
e não tem rebuscamento
Procuro a simplicidade
nas rimas que eu invento
e qualquer leitor assim
pode ter entendimento

Se um tema é adequado
a meu talento restrito
fazendo verso por verso
nessa arte me exercito
É o leitor quem avalia
se ficou feio ou bonito

Sei que ele é diferente
de um feito de improviso
Vou fazendo um esboço
depois leio e analiso
o que falta eu acrescento
o que sobra eu reviso

Nunca tive o talento
de um repentista nato
O que faço com rascunho
ele faz de imediato
mas escrevo inspirado
no verso feito no ato

Se meu português agora
é arcaico por decreto
eu ainda estou no lucro
pois nasci analfabeto
e o que diz a poesia
é num outro dialeto

Eu só peço ao leitor
que não seja exigente
Quem está acostumado
com erudição somente
procure outros poetas
no padrão equivalente

Eu sei que pela elite
um poema é dissecado
Em qualquer academia
é medido e pesado
mas o verso popular
basta ser apreciado

Essas minhas poesias
eu faço pro povo mesmo
Sofisticar a linguagem
é só trabalhar a esmo
Botando lenha no fogo
meu filé vira torresmo

Pois o verso refinado
nunca foi do meu feitio
Eu só faço o popular
aceitando o desafio
de dar nó nessa meada
para não perder o fio

Buscando a inspiração
o requinte eu afasto
pois meu estro não dispõe
de um repertório vasto
e a verve que eu tenho
é essa que dá pro gasto

Não quero dizer com isso
que não deixo escondido
nos drapeados do verso
um conteúdo cerzido
Um prazer da poesia
é decifrar o sentido

Mas sabendo o leitor
que na estrofe escrita
por uma comparação
a mensagem vai ser dita
ele entende o estilo
que a rima delimita

E nem posso discordar
nem disso faço questão
se algum leitor disser
que na sua opinião
os ditados populares
tem mais imaginação

Posso até já ter o dom
mas não nasci um poeta
Essa arte é pra mim
como andar de bicicleta
Tenho muito a pedalar
pra me tornar um atleta

Nas ruas da poesia
faço apenas um passeio
Pedalando cauteloso
vou botando pé no freio
Não estando interditada
eu atravesso no meio

Por achar que pra poeta
tenho alguma vocação
encontrando um assunto
que me dê inspiração
fico muito mais feliz
que arigó em feriadão

Se meu verso vai vingar
eu posso apenas supor
Sou suspeito pra dizer
se ele tem algum valor
Mas depois de publicado
quem decide é o leitor
 
O meu verso é popular