Poemas, frases e mensagens de hierra07

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de hierra07

Clarividência ou mero disparate?

 
Tudo em nós muda quando percebemos que não podemos mudar o mundo. Este efeito secundário do amadurecimento, apoquenta-me muitas vezes. O mundo contudo, vai-nos moldando aos poucos. Desconfio que, nem sempre essa mudança é para melhor. Aliás, tenho quase a certeza disso. Tornamo-nos menos crentes, mais desconfiados, menos solidários e sobretudo menos esperançosos.
Muito muda quando percebemos que não podemos mudar as pessoas. Tornamo-nos menos lutadores, menos perseverantes e desistimos delas por vezes com uma ligeireza excessiva.
Nada fica igual quando percebemos que não podemos mudar sentimentos. Que eles não nascem por muito que os reguemos, sobretudo se o solo se revelar infértil. Que eles não se transmutam não obstante a nossa vontade e por mais força e empenho que dediquemos a essa tarefa, quase sempre inglória.
Dias há em que nos sentimos meras marionetas. Não temos força para mudar o que quer que seja, mas tudo o que nos afecta, nos muda. Mas a verdade e a razão contrariam este raciocinio excessivamente linear, pois se o mundo é uma soma de nós, ele não pode deixar de mudar connosco. O que eu ainda não percebi é se a mudança é para melhor....
 
Clarividência ou mero disparate?

Quase

 
Vou sibilar baixinho dois ou três impropérios contra o mundo, apenas e só porque me apetece. Há prazeres que de tão apurados que são, se tornam incompreensíveis aos demais. Quase ninguém os consegue ver. O “quase” pode ser uma palavra bastante ambígua. O quase perfeito não existe e apenas significa que a imperfeição é latente. O quase bom é um pequeno consolo para as coisas que sabemos não serem tão boas quanto isso. O quase doce esconde uma amargura mal disfarçada. O quase amor esconde o fracasso da desilusão. O quase lá, esconde uma angustiante ausência. O quase golo, indica-nos que mais uma vez não tivemos pontaria. O quase ninguém pode esconder uma multidão em furia. Ontem quase que te disse tudo. O quase tudo, é na maioria das vezes, pouco mais que nada. Nada é “quase tudo” o que têm os mais ambiciosos.
 
Quase

Quebra-Cabeças

 
Salto passo a passo mais um pequeno percalço, uma pequena contrariedade. Acredito que cada pequeno obstáculo, não seja mais do que um poderoso antídoto à maliciosa rotina. A cada salto fica desenhada a fronteira entre a realidade, o sonho e o mito.
Ontem estavas aqui, hoje tenho de correr para te acompanhar. O vento que te trás é o mesmo que te leva. Procuro a custo algo que guardei na mala, esse obscuro e profundo reduto da mulher onde podemos encontrar quase tudo. Hoje procuro aquele pedaço de astúcia feminina que se propaga disfarçada de um inebriante aroma a morango. Deparo com um pequeno frasco mal vedado onde as pequenas gotas de perseverança se evadiam a uma velocidade furiosa.
Se houver solução para estes pequenos quebra-cabeças, ela estará por perto, algures dentro da mala, possivelmente dentro de mim…
 
Quebra-Cabeças

Espelho

 
De todas as qualidades, a franqueza é seguramente a que mais te falta. Não sei porquê, mas sempre que te olho fico com a inquietante sensação de que me escondes algo. Ocasionalmente pareces querer revelar mais do que é suposto. A tua relação com a franqueza, é a mesma que tem um aprendiz de cozinheiro com o sal, por vezes abusa, outras vezes omite quase por completo.Pode ser impressão minha, mas parece-me que nem tu consegues montar este "puzzle" que se te apresenta todos os dias pela manhã.É isso mesmo que vejo quando te observo: pedaços de vida que se reflectem na tua fronte gasta pelo tempo e pelo uso… restos de alegria, sobras de tristeza, retalhos de amor, detalhes de prazer, desespero q.b., gramas de riso, litros de choro, uma pitada de saudade e é tudo isto junto que tens dificuldade em reflectir com precisão quando te olho…
 
Espelho

O meu papel

 
Vou enroscar-me aqui à sombra da lua. Este é o meu fim e ao mesmo tempo o meu recomeço. Aos poucos começo a esparramar-me nas águas que me enleiam. Ainda me lembro de me aconchegar entre os teus dedos. Guardo religiosamente as tuas impressões digitais e um punhado de angústia.. Amarrotaste-me e lançaste-me ao mar. Nem me tentaste reciclar ou reutilizar. Para ti, não passo de um papel gasto, nunca chegarei a papiro. As minhas folhas não amarelecerão no teu livro. Rasgaste a minha página sem pudores, nem angustias. Não me importo. Não tarda, as águas trar-me-ão para junto da areia. O sol não tarda a secar-me. Amanhã estarei a colorir outro livro qualquer. Só a lua testemunhará para sempre a tua crueldade.
 
O meu papel

Pecados de Estimação...

 
Adoro acordar tarde e ficar inerte com o comando da aparelhagem na mão, a ouvir uma melodia que contagie. Adoro chocolate, seja ele branco, negro, doce, amargo. Adoro comer fora de horas, mesmo que o faça por simples capricho. Não vivo sem uma porção de luxúria, é como que uma pitada de pimenta na confecção de uma qualquer iguaria. Estes são os meus deliciosos e imprescindíveis pecados e contando bem, até são menos que os meus ódios de estimação. São os pecados mais tentadores do mundo e vistas bem as coisas só prejudicam quem os comete. O mundo pode manter-se descansado, daqui não virá mal para ele, nem para ninguém que o habite…
Os outros de facto, não me dizem nada…Deixo a ira, o orgulho, a cobiça e a inveja para aqueles seres menores, medíocres, enfezados que desconhecem o sabor do verdadeiro prazer em pecar…incessantemente nem que seja, devorando um apetitoso chocolate quente…
 
Pecados de Estimação...

Ai se eu soubesse..

 
Pergunto-me onde guardarás a tua insensatez que não a vejo e onde despejas a inconsciência que todos temos…Procuro ainda ávidamente pelos teus devaneios, sem ter qualquer sinal deles. E já agora gostaria de saber porque te escondes tu, atrás dessa almofada cor de caramelo. Serás louco, irreverente ou simplesmente desalinhado…? Insondáveis os caminhos onde te perdes e misteriosos os que te trazem de volta…Saboreio com requinte o meu doce rebuçado de morango enquanto aguardo pacientemente que percas a cabeça algures entre o ir e vir. E que ela fique não muito longe de mim, para eu não ter de fazer grande esforço para encontrá-la…
 
Ai se eu soubesse..

Maquiavel Recriado

 
Se amar-te é tornar os nossos pequenos reinos numa nação imensa, devo dizer-te que terás de aperfeiçoar essa tua retórica obsoleta.Talvez Maquiavel te inspire, como inspirou as grandes nações e quem sabe foi inspirado por elas, numa osmose que queremos para nós. Quero que saibas que, se a democracia é a cereja em cima do bolo, vou confeccionar uma cobertura de vetos e moções de censura, para que te delicies nela. Se o voto é o eco da democracia, eu vou ser a tua sombra. A democracia é isto mesmo, uma luta sem sangue de opiniões antagónicas que se querem unir sem que sejam aglotinadas. Neste meu plenário que bombeia sangue incendiáriamente, terás uma legislatura proporcional à tua dedicação e perseverança. No amor e na politica deixou de haver lugar para tiranias e imperialismos. Talvez por isso, me rendi às maravilhas do sufrágio universal. Se queres ser dono e senhor do meu reino, tens apenas e só que conquistar o meu voto...
 
Maquiavel Recriado

Arrumações...

 
Sacudia-as com a violência que uns dedos finos e umas unhas compridas podem comportar. Estendia-as com duas molas fortes e sem ferrugem para que o vento não as levasse por mais forte que fosse e a ferrugem não as corroesse por mais nefasta que fosse. Deixe-as ao vento durante dois dias quentes e duas noites de luar. O pó fugiu. Provavelmente pediu boleia ao vento e foi abrigar-se longe. De vez em quando faço isto, ponho as ideias à janela. Ninguém gosta de ideias a cheirar a mofo, pensamentos empoeirados, angústias envelhecidas e mentalidades com aroma de naftalina. Amanhã, posso orgulhar-me de pronunciar palavras límpidas, claras e harmoniosas, daquelas que luzem mais que diamante. Depois de amanhã, vou por o passado de molho e tirar-lhe umas quantas nódoas. Para a semana, sou capaz de tirar a paixão da gaveta e deixá-la fluir livre e endiabrada por uns tempos. Isto de arrumar a vida, dá o seu trabalho e toma o seu tempo…
 
Arrumações...

Edição revista e aumentada

 
Pergunto-me se seriamos felizes noutra língua que não a nossa. Se poderiamos traduzir o nosso amor para outro qualquer dialecto sem perder a chama, nem tropeçar em nenhum acordo ortográfico que lhe retirasse o sentido. Será que algumas palavras deixariam de vez de fazer parte do nosso mundo e outras juntar-se-iam a nós, adoçando a nossa conversa ? No fundo, gostaria se saber se que seriamos iguais às palavras que trocamos, ou elas se tornar-se-iam iguais a nós. Talvez! O certo é que esta reedição de nós, revista, traduzida e aumentada seria talvez a luz no fundo do túnel...
 
Edição revista e aumentada

Amigos de Verdade, Amigos de Peniche e Amigos do Alheio

 
Todos os estratagemas são válidos para acabar com a maldita insónia. Há lá alguma coisa pior que nos debatermos em busca do sono, que embarcou rumo a outras paragens só com bilhete de ida? Sim, há. Pior do que não ter sono é recorrer ao método mais estúpido do mundo para combatê-lo: contar carneirinhos. Como gosto de inovar e de me recriar, na minha última noite de insónias resolvi, ao invés de estupidificar a contar carneirinhos, contar amigos. É verdade. A ausência de sono misturada com alguma melancolia só podia dar nisto! Neste meu raciocínio sinuoso, resolvi como em qualquer eleição que se preze, abrir a urna e contar os que estão do meu lado. Algo, muito ao estilo da guerra da secessão, inspirada provavelmente na série Norte e Sul, mas para grande pena minha, sem Patrick Swayse.A Amizade é um relacionamento humano que envolve conhecimento mútuo, estima e afeição. Os Amigos sentem-se bem na companhia uns dos outros e possuem um sentimento de lealdade entre si, ao ponto de colocarem os interesses dos outros antes dos seus próprios interesses. Os Amigos possuem gostos similares ou não, que podem convergir. A Amizade resume-se em lealdade, confiança e amor. Com base nisto, comecei a minha contagem.Rapidamente me apercebi, que melhor do que contar os amigos, é perceber quais os amigos que com que posso contar. A coisa complicou-se e de que maneira! Percebi que as pessoas que estimamos e cuja companhia gostamos, aqueles que colocam os nossos interesses a par ou antes mesmo dos deles próprios, contam-se pelos dedos das mãos e portanto são uma péssima estratégia para combater o raio da insónia que não me larga.(Não me digam que vou ter de voltar à história dos carneirinhos? Porra…)Indaguei ainda, tendo a minha almofada como conselheira, sobre aquelas pessoas com quem tínhamos afinidade, gostos em comum, que considerávamos amigos e que se esfumaram no ar…Aí, veio-me à cabeça a coisa mais importante na sustentação de uma amizade: a confiança.A confiança é um conceito quase esotérico, muito próximo da mística fé. Um dia está lá, no dia seguinte foi-se sem deixar rasto. Como aqueles tipos que vão comprar tabaco e não voltam mais (alguns deles bendito seja o desaparecimento!!). Longe de termos a mania da perseguição ou pensarmos a todo o instante que somos alvo de intrigas, conspirações e planos macabros para nos aniquilarem, o certo é que em dada altura há algo que nos faz desconfiarmos. A desconfiança é insidiosa como um veneno e igualmente mortal. Ficamos doentes, frustrados, juramos que não confiaremos em mais ninguém, que não precisamos de amigos. Esperamos que da próxima vez estejamos mais atentos, mas efectivamente não estaremos.Todos tivemos os nossos “amigos de Peniche”. Aqueles que pensamos que estão connosco, mas basicamente estão apenas com eles próprios. O conceito vem da história. Na crise de sucessão de D. Henrique falecido sem descendentes e sob o risco de ocupação espanhola, pediu-se auxilio aos aliados ingleses que entraram aos milhares por Peniche rumo a Lisboa para auxiliar D. António Prior do Crato, a única esperança na manutenção da independência lusa (isto, claro está foi antes de acharmos que clube que é bom é o “Barca” e férias que são férias são em Ibiza e antes dos caramelos de Badajoz).O certo é que, os ingleses pilharam tudo por onde passaram e dar a ajuda pedida que é bom….nada…“ Nunca mais chegam os nossos amigos de Peniche…” diziam os lusos….Eu para mim, digo frontalmente: vão desembarcar noutro porto que a minha marina está cheia…Os amigos de Peniche não são muito diferentes dos amigos do alheio, porque nos tiram o que temos e nada nos dão em troca.Fiquei a matutar nisto e veio-me a cabeça um frase que li algures na blogosfera que define em muito este meu sentimento:No médico, paga-se no fim. Nas putas paga-se no princípio. A amizade, julgo eu, não é um consultório nem um bordel. Daí pergunto, será a amizade um daqueles créditos em muitas prestações e sem juros? Alguém quer ser meu fiador? E um aval pode ser?...Com isto tudo, está visto que não durmo mesmo…
 
Amigos de Verdade, Amigos de Peniche e Amigos do Alheio

Superstição

 
Coloquei a vassoura atrás da porta para que o azar não me visite. Não sei onde deixei o meu trevo de quatro folhas, o meu repelente contra o azar! Que inferno! Por isso cheira-me que o diabo sopra na minha direcção. Ontem entrei em casa com o pé direito e parti o salto do sapato. Hoje parti um espelho. Se ao menos eu achasse a minha pata de coelho, ficava mais descansada. O incenso invade-me as narinas, insufla-me os pulmões e adula-me a alma, mas é uma fraca protecção para todos os males que me espreitam. Acaricio o pêlo do meu animal de estimação enquanto lhe conto em jeito de confidência um punhado de angústias capazes de comover um felino. Ele salta do meu dorso e derruba a vassoura detrás da porta…

Devia ter adivinhado...Não posso esperar que a sorte entre pela janela...Ao fim ao cabo, Tu és o último amuleto que me resta...
 
Superstição

Sob o signo do desassossego

 
Nem Capricórnio, nem Touro, muito menos Escorpião. Hoje acordei sob o signo do desassossego. Talvez porque as noites são demasiados grandes e a lua demasiado esquiva. Só os pequenos prazeres têm ascendente sobre mim. Esta mistura de café cálido encoberto por esta neblina de natas, aquece-me as mãos coladas à chávena e rouba-me aos poucos o frio que me consome. Este livro que tenho à cabeceira rouba-me o tempo. O horóscopo que leio todos os dias rouba-me muita da minha lucidez. Este pequeno espaço que guardo para ti, ninguém consegue roubar-me. Nem Plutão tem a tua resistência. Se bem me lembro, o universo engoliu-lhe o estatuto por se tornar demasiado pequeno. Enquanto aqui estás, peço-te que acendas as estrelas. E já agora, seria pedir muito se fizesses corar Vénus, envergonhar Urano ou pura e simplesmente furtares um dos anéis a Saturno? Nem teria de ser um muito grande, nem muito valioso. Bastava apenas que me servisse no dedo.
Vou acender a lareira, talvez o lume te queime ou nos acenda de vez…Que Júpiter não saiba disto…
 
Sob o signo do desassossego

Amor ou erro de Sintaxe?

 
Trocamos uns quantos monossílabos descabidos, hiperbolizamos sentimentos e no final acabamos por dar de barato o coração a quem julgamos merece-lo. Um dia acordamos e deparamos com esse mesmo amor hipotecado à ordem de alguém que já não reconhecemos.
Os eufemismos começam lentamente a ficar na gaveta, substituídos por palavras ásperas. Aquela paixão esdrúxula que nos consumia, não passa agora de um erro que bem poderia ser de sintaxe, tal é o desconforto que nos causa.
Deparamos com o Amor, decomposto, fraccionado e humilhado, que é vendido a soldo numa qualquer leiloeira de aspecto manhoso.
Este é o amor pleonástico, errante, que teima em não vingar. Aquele que deixa de ser um fim, para se tornar na sua antítese: o desamor, o não-amor, ou no seu antónimo - o ódio.
Toda esta conjunção de metáforas estúpidas, apenas significa que mais uma vez e apesar de acentuado esforço, não encontramos nenhum sinónimo para a palavra felicidade, nem conseguimos colocar o acento tónico na palavra amor...
 
Amor ou erro de Sintaxe?

Não Duvides

 
Sabemos que na vida temos: dúvidas no inicio, incertezas no fim e interrogações pelo meio. Apenas vivemos com a certeza de que ter certeza é um erro mais absoluto do que a própria qualidade do certo, em tudo quimérica. Hoje tenho como certo, o incerto. Deposito todos os dias as minhas incertezas numa conta chamada esperança, que quem sabe um dia poderei movimentar. Movo-me entre certezas hipotéticas, provisórias ou quase certezas, à espera que se esfume qualquer ponta de duvida e que se evapore qualquer pitada de indecisão. Aprendo a tratar o “talvez” por tu, como se fosse um amigo. Um amigo falso, traiçoeiro, um verdadeiro Judas. Hoje apenas acredito na dúvida. Acredito que a qualquer hora ela se possa dissipar e se converter na qualidade de ser certo, que não é mais que uma habilidade de não ser confuso. Mas a certeza tarda. Nunca cumpre horários. E quando chega, geralmente já não têm qualquer serventia…
 
Não Duvides

Andar em círculos...

 
Muitas vezes nos perdemos ao nos tentarmos encontrar. Somos levados por um caminho que não esperávamos seguir e quando o percorremos vemos que afinal não era por ali. Deambulamos por ruas estranhas, becos esconsos e ruelas sem sentido e chegamos a sítios onde não imaginavamos chegar. Em seguida percebemos que o nosso caminho também não era este. Quando damos conta já cruzamos meio mundo e meio mundo nos cruzou, mas o mais dificil é encontrarmo-nos. Aí percebemos que talvez não fosse necessário ir tão longe.
 
Andar em círculos...

Lixo Electrónico

 
Tudo isto porque fiz “download” de ti! Deve ter funcionado aqui a chamada atracção para o abismo, de tal forma que, recusei pensar duas vezes ignorando até os sábios conselhos do anti-vírus. Hoje sei que, nunca deverias ter penetrado no meu sistema ou ainda que o fizesses teria de, por sensatez, votar-te à clausura num qualquer espaço perdido do disco rigido onde vegetarias em quarentena. Tentei com todas as minhas forças, ganhar a confiança das teclas e descobrir a palavra chave que me desse acesso a ti. Falhei redondamente nesta tarefa ingrata. Alturas houve em que bastava abrir os olhos para que fossem invadidos de dígitos e caracteres que flutuavam, em jeito caprichoso, numa dança impossivel de compassar. A ti devo esta avaria imensa, esta contaminação de numerosos sectores nevrálgicos do meu frágil sistema, que me impede de funcionar convenientemente. Agora só me resta dar-te o golpe de misericórdia. Não hesitarei em pressionar a tecla “delete”, vendo-te desaparecer da minha frente, rumo a um balde rudimentar que imediatamente despejo. Uma coisa te garanto: Não voltarás. Desta vez a minha imprudência salvou-me. Então não é que me esqueci de fazer “back up”?
 
Lixo Electrónico

Terapia

 
Irrompo porta adentro tentando abrigar-me da chuva. O velho casebre tem um perfume doce e uma respeitabilidade quase sagrada, que profano com a minha presença involuntária. As poças de água que se formavam no chão reflectem imagens familiares, como se fossem espelhos. A roupa estava tatuada de pingas. Umas grandes e ensopadas, outras pequenas e fugazes. Por vezes acho que a chuva se abate do nosso lado do céu como uma manobra subtil para escaparmos ao desatino. As pingas ajudam-nos a exorcizar os nossos medos. O ar invade-nos de chuva para não nos corromper com lágrimas. Á medida que as pingas secam, os problemas evaporam-se. Oiço com atenção o abrandar da chuva lá fora. Por mais desconfortável que me sinta, não toco em nada do que me rodeia. Há dias em que por mais frio que esteja, não me apetece quebrar o gelo.
 
Terapia

Do tamanho do mundo

 
Por vezes o que queres não vem e o que tens não é suficiente. Nesses momentos o mundo assume a pequenez de um berlinde, ficando incapaz de responder a tudo o que exiges dele. Talvez por se encontrar demasiado pequeno, demasiado acanhado, estreito em demasia ou apenas insuportavelmente sufocante. Quando por acréscimo, a dúvida se torna maior que o mundo, este perde todo o sentido, ainda que por tempo limitado.
A dada altura, tens o coração numa mão e o mundo na outra e alguém te diz que tens de decidir…
Desesperas, como eu. Apetece-te ser uma verdadeira bandida, daquelas sem moral nem escrúpulos e ficar descaradamente com as duas coisas. Roubo o mundo e levo-o debaixo do braço enquanto guardo religiosamente o coração ao peito donde nunca sairá, apesar da turbulência, do medo, do receio, não obstante os enganos sucessivos...
Guardo-o religiosamente mesmo quando na verdade, reparo que ele se encontra quase tão pequenino como o mundo…
 
Do tamanho do mundo

Pequena Porção de nada...

 
Tudo em que creio é tão pequeno e frágil como uma gota de orvalho. A todo o momento espero que ela caia e lance tudo por terra. Imagino o estrondo que causaria, imagino a angustia como efeito secundário, imagino que se desintegraria em segundos como se nunca tivesse existido. Viver é isto mesmo, aceitar que uma pequena gota de orvalho ou outro pequeno pedaço de quase nada possa comandar-nos, afastar-nos, iludir-nos e fazer-nos cair de uma folha rumo ao chão onde nos desintegraríamos em segundos.
Esperamos que o vento seja ténue, a chuva não venha, o calor não seja tórrido e que a gota de orvalho se mantenha ali, de pedra e cal, intacta, firme, hirta, mas potencialmente destrutiva. Esperamos que ela aguente estoicamente, para que nós heroicamente façamos em conformidade. É isto que esperamos, que a gota de orvalho, tenha um final feliz, como nós. É esta a nossa maior fé, por mais retorcida que ela possa parecer...é ela que nos alimenta e que apetite voraz temos...
 
Pequena Porção de nada...