Poemas, frases e mensagens de Umav

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Umav

dormem todos e sonham-se despertos

 
dormem todos e sonham-se despertos
toda luta e rotina, passatempos
vaga mente entre água, fogo e vento
acredita dos sonhos estar perto

quanto mais se aproxima, tão mais certo
tudo mude, ruindo entre lamentos
na memória sepulta a exemplo
do que não se fazer para dar certo

recomeços sem fim na noite eterna
seja rei ou escravo, a mente hiberna
procurando por algo onde não há

há papéis que se dão uns para os outros
seja rei ou escravo, nenhum solto
pesadelo sonhando até acordar
 
dormem todos e sonham-se despertos

cicluz

 
neste mundo, neste instante
alguns vivem seu inferno
alguns outros, adiante
vivem gozo, brando e terno

sendo ciclo é eterno
sem sentido que a busca
seja em livros ou cadernos
da palavra que ofusca

um só verbo que traz, brusca
às ideias substância
quanto mais ela se busca
mais distante da infância

tudo é perto na distância
dois pontinhos, anos-luz
se encontrá-la, longe lance-a
um apaga, outro reluz
 
cicluz

inflação

 
o respeito
anda em falta em todo canto
não o encontro no trabalho
no mercado, nas ruas
na internet

foi deposto na calada da noite
entre xingamentos e calão
qual num golpe de estado
pelo despeito

o gratuito despeito
é esbanjado em vias públicas
é espirrado em minha face
é uma revoltante e internacional
catarse

um estado de espírito
transcendente se faz mister:
atravessar o lamaçal dos porcos
é necessidade de providência
não defeito

respeito não brota da terra
respeito não se compra
respeito nasce no peito
admirado
e a outro peito afeito

afoitos por compulsivo coito
o abortam
 
inflação

deste um sentido à vida

 
deste um sentido à vida
e o sentido era leste:
leste, leste toda vida
mas nada leste que preste
 
deste um sentido à vida

meu milésimo soneto será

 
Meu milésimo soneto será
como meu primeiro: amador.
Anos de prática e ainda a dor
de rimas pobres e métrica a errar.

Não há santo que salve, saravá!
Obstinado que sou, com amor
no coração a implorar-me a flor
dos rabiscos, assim será!

Resta-me em tom monocórdio aguardar
a realização da profecia
em 14 versos verídicos.

Mais um soneto estou a contar
e se contas sílabas, com ironia
conto que não é meu este eu-lírico.
 
meu milésimo soneto será

ruelas

 
pessoas em ruínas passeiam por aí, descontraídas
se um dia sonharam, na noite sem lua caminham
a luz torpe dos postes apaga as estrelas
as pessoas assim caminham, sem rumo
sem estrelas não há norte, nem sorte
balbuciam baixinho o azar de perdê-las
entre um pigarro de pinga ou de fumo
mas por sorte, não importa quão perdida
qualquer ruela pela vida leva à morte
 
ruelas

lei

 
lei
 
 
lei

tanto tapa e descontrole

 
tanto tapa e descontrole
rende luta muito ibope
dos vizinhos cai controle
e ao fone chamem o bope

IBOPE - medição de audiência de tv
BOPE - batalhão de operações policiais especiais

um meta-poema de merda e com rimas pobres...
 
tanto tapa e descontrole

pouso sem vôo

 
Há uma ave no fio em frente à janela. Ela dorme, a ave, equilibrada no fio. Esteve aí desde o anoitecer e não aparenta querer voar. Há algo preso em sua pata, um emaranhado de fios, embaixo do fio. Talvez carregue parte de seu ninho e dele não consiga se desvencilhar. Talvez seja obra de algum moleque. Talvez nunca mais voe, presa ao fio elétrico por uma trama de seu passado. Será pássaro entre a vida e a morte, por um fio ligado ao passado.
 
pouso sem vôo

canção do ufanista

 
nasci aqui, no melhor lugar
por um lado é calor, por outro, é mar
nasci aqui, em meio a campeões
driblo adversários e juízes ladrões
nasci aqui, na terra abençoada
se morro de fome, renasço cocada
nasci aqui, onde tudo é melhor
menos é mais, lazer é suor
nasci aqui, terra de povo gentil
esbanjo alegria mesmo frente ao fuzil
nasci aqui, e aqui morrerei
estrangeiro curvado a um qualquer rei
 
canção do ufanista

na rua rio

 
.

na rua, rio -
veloz murmúrio da foz
ao meio fio

.
 
na rua rio

temores

 
solitário vagava eu pela rua
entre poças, putas e abaixo
da bruxuleante luz da lua
de nenhuma pessoa colhi dos lábios
palavras de apreço, perdão ou prece
de nenhuma pessoa bebi olhares
de pinga com limão e sal dos mares
trago em meu ser a fome dos cachos
de seus cabelos e de outros lábios
esses que sussurram à noite e só a ela
tudo o que colhem do que destilo
do prazer dos afagos e dos vapores
noturnos a cobrir consciências
é vago o pensar e largo o pesar
meto o pé na poça e de bela
a lua se desmancha em tremores
 
temores

bronzeado

 
.

pessoas morrem mesmo em dias de sol
o céu azul mascara qualquer escuridão
quem vai de encontro ao mar bravio
traz na face os velhos óculos de sol
parceiros de sorrisos hoje ausentes
frente a faces reticentes
vagar entre as vagas do mar
requer coragem e aceitação
mesmo a mais bronzeada fortaleza
desfeita a cada passo de areia
vê-se frágil frente a nada
além de água a todo lado

.
 
bronzeado

risco de nuvem

 
.

risco de nuvem
avião faz no céu. sem
risco de chuva

.
 
risco de nuvem

precavida

 
quem aqui chega
embrulhado em placenta
ungido por lágrimas
não se apercebe de imediato
da aspereza do mundo

mil cicatrizes depois
já seco e erodido
finca com firmeza
a sola do pé no solo
pois teme partir

e fincando se parte
e parte comigo fica
 
precavida

cartografia

 
leio nas cartas
do mundo todo o relevo
altos e baixos
sulcos inscritos
na fina derme da folha
com cirúrgica precisão

há norte e sul
bem delineados no traçado
e a devida escala
e proporção
e cores de livre escolha
delimitando diferentes áreas
para diferentes povos
em língua e cultura

não leio nas cartas
o que as regiões vastas
de vazia textura
entre os traços
guardam. não me atrevo
ou subscrevo
à rasura
 
cartografia

a vida num sonho

 
coube a mim dar a vida por encerrada
tanto mais cruel pelo tanto de lutas
por glórias aqui se lhe negando injustas
em tramas pelo estreito palco encenadas

fecham-se as cortinas, vai encarcerada
autora de finas rotinas, da arguta
compreensão da humanidade, e escuta
a indiferença da platéia ingrata

vai em silêncio mas nunca forçada
prenhe de idéias, voz amordaçada
ser canonizada por autoridades

e coube a mim este papel perverso
onde carrasco a eternizo em versos
a vida num sonho de posteridade

escrito para uma antologia da Lua de Marfim como fotograma (ou Niuma Pessoa)
 
a vida num sonho

abbababba

 
por que tantas vezes
e tantas vezes quantas
foram as vezes sem conta
que tantas quantas vezes
a quantas anda a conta
das vezes sem conta
que canta tantas vezes
quanto conta às vezes
sobre contas tantas
que às vezes a conta
canta por meses e meses
quantas jantas em conta
sexta-feira treze
traz mais fregueses

às vezes eu às vezes
 
abbababba

lixo na chuva

 
.

lixo na chuva -
enxurrada na estrada
trânsito curva

.
 
lixo na chuva

chuvoso

 
chove
ontem não
hoje sim
amanhã talvez
se toda fúria
contida nos pingos
não findar no solo
de uma só vez

contadas todas
gotas são rios
nas ruas
nas veias
nas telhas
ao contrário
correndo
da insensatez

chave
de caudaloso
arrepio
sobre a morna tez
seu toque frio
dispara sangue
para cima
e razão se reduz
quando mal se comporta
coração
em sua pequenez

como é perigoso
ao insistente
tamborilar
abrir a porta
e encharcada
da chuva
ter o gozo
 
chuvoso