Poemas, frases e mensagens de RenanTempest

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de RenanTempest

"Só eu sei quantas vezes tenho adormecido com o desejo, e até com a esperança de não mais acordar. E no dia seguinte, abro os olhos, torno a ver o sol, e sinto de novo o peso da vida!"
(GOETHE - Os sofrimentos do jovem Werther)

"L'amour qui a fait ça"

 
França, séc. XIX. Em uma taverna, à noite, quatro jovens conversavam:

— Sim, eu amei, amei perdidamente, senhores! Juro por Deus... ou por Satã, caso vós prefirais... E posso dizer-vos que não há nada mais doce e excelso que o amor. Ah! sentir-se acalentado pelo seio recendente duma donzela lânguida, e ouvir os maviosos suspiros emanados de sua alma pura! Vezes tantas desejei morrer de amor. Morreria sorrindo como morrem os anjos...

Isto é o que dizia Eugène aos seus amigos Auguste, Pierre e Victor, que junto a ele bebiam vinho. E estes protestavam:

— Duvido que saibas o que é o amor! — dizia Victor.

— Isto não é amor, é luxúria! — dizia Pierre.

— É, tu és mentiroso e devasso como um padre! — dizia Auguste.

Então, Eugène respondeu:

— Pois bem, senhores: contar-vos-ei, resumidamente, a história de uma donzela que amei, em demasia. Sim, amei-a como Lamartine amou a Graziela, Goethe a Carlota, Dante a Beatriz, Keats a Fanny e Poe a Eleonora. E quando eu terminar... isto é, se eu terminar, cabe a vós jugardes se foi amor ou não, o que senti por Sophie. Sim, é este o nome dela, Sophie...

Então, Eugène começou a história:

"Sophie era bela, oh!, muito bela... mas não era uma beleza comum. Era uma beleza "estranha", que talvez se assemelhasse à Ligéia descrita por Poe.
Inda me lembro da vez primeira em que contemplei os seus olhos negros e lânguidos brilhando: ela estava tão encantadora, porém parecia tão triste, a costurar perto da janela, enquanto eu em frente passava. Nossos olhares se encontraram, e nós dois coramos. A partir desse dia, eu sempre passava por aquele caminho, e sempre nos entreolhávamos.
Aos poucos, eu estava me apaixonando por ela, e ela também parecia estar por mim, apesar de nunca termos trocado uma palavra sequer. Porém, eu não compreendia a melancolia que sempre jazia em sua face celeste... até o dia em que resolvi lhe enviar uma carta em que eu dizia meu nome, e que contia tudo o que por ela eu sentia em meu âmago solitário.
No dia após ao que recebera a minha carta, ela não estava à janela... nem nos dias seguintes... Senti um profundo pesar. Mas certo dia, voltando mais cedo do que de costume, eu a vi. Logo, quando ela me viu, corou e saiu, rapidamente, da janela. Minha alegria recém surgida logo se esvaeceu novamente...
Resolvi perguntar a alguns vizinhos quem era tal jovem que me enlevava a alma e deixava-me ébrio de sonhos e amor. Disseram-me que se chamava Sophie Lescaut, tinha a mesma idade que eu(19 anos), e que dali a seis meses chamar-se-ia Condessa de Berville, pois estava prometida, contra à sua vontade, a Armand Dumas, o Conde de Berville, um velho rico, letrado e cortês.
Ao chegar à minha casa, verti copiosas lágrimas. Havia uma mágoa negra em meu coração... um sofrimento indizível...
Eu já havia perdido todas as minhas esperanças(em relação a alguém que eu nem conhecia, e amava não sabia por que), até que certa vez passando defronte da casa dela, eu a vi. Ela sorriu-me, eu retribuí com um sorriso triste, então, da janela jogou algo para mim e entrou. Oh! era uma carta. Abri-a e a li avidamente. Era uma resposta à carta que eu enviara a ela havia duas semanas. E eu não me enganara... ela me amava! Além de suas palavras que correspondiam com os meus sentimentos, ela marcava um encontro secreto comigo. Dali a dois dias, todos da casa saíriam e ela ficaria sozinha. Pediu-me que fosse às 21 horas.
No dia marcado, eu fui, e ela atendeu-me cortesmente, embora retraída e embaraçada, bem como eu também estava... entretanto, rapidamdnte já estávamos conversando como se nos conhecêssemos há muito tempo. De perto, ela era inda mais inefável. Sua voz era a canção mais doce que eu já ouvira em minha vida! Nem mesmo do piano de Chopin ou do violino de Vivaldi emanava eufonia tão divina... Em certo momento, beijamo-nos. Ela pareceu sufocada... em culpa! Estava mais pálida que eu a vira antes. Então, pediu-me para que eu saísse..."

Neste momento da narrativa de Eugène, ele foi interrompido por uma risada de Auguste, e que logo em seguida disse:

— Eugène, bebeste demais! Estás mentindo como um poeta romântico. Creio que andaste lendo em demasia Pushkin, Musset, Chateaubriand e Byron.

— Que Mefistófeles tome a minha alma se eu estiver mentindo! Deixa-me continuar, Auguste, e não me interrompas novamente... Bem como eu dizia...

E continuou a história:

"E no próximo dia, enviei-lhe outra carta de amor, mais apaixonada ainda que a outra, e Sophie, no próximo dia, respondeu-me, também deveras apaixonada, para nos encontrarmos no Bosque das Flores, às 19 horas, quando ninguém sentiria a sua falta. Oh! Encontramo-nos e nos amamos. Amei como jamais eu amara ou amei depois... Estávamos cada vez mais apaixonados um pelo outro, e após este encontro, seguiram-se, no mesmo lugar, vários outros...
A cada novo encontro, fazíamos mil promessas de amor. Pretendíamos sair de Paris e ir para alguma pequena cidade, onde ninguém nos achasse, e nos casarmos, embora ela às vezes repelisse tal ideia, pensando em Léopoldine Lescaut, sua mãe.
Mas enfim, certo dia, num dos nossos encontros secretos, tomamos decididamente esta resolução, e marcamos de fugir na próxima semana... mas eis que neste dia em que decidíamos a fuga, a mãe de Sophie sentindo a sua falta em casa, ordenou a um criado que a procurasse... e... no Bosque das Flores nos viu, escondido atrás de arbustos, beijando-nos ardentemente, e sorrindo, e conversando. Foi rapidamente contar à Léopoldine...
Naquela noite, ao Sophie(ah!, minha adorada Sophie!) entrar em seu quarto pela janela, sua mãe lá a esperava. Imaginai, meus caros, qual não foi o espanto de Sophie, que não sabia do criado que nos deletara! As duas tiveram uma longa conversa(malgrado Leópoldine ser a única a falar), e decidiu-se que o casamento que aconteceria dali a 3 meses com o Conde de Berville, foi antecipado para dali uma semana!
No dia seguinte, Sophie arriscou-se a me encontrar, e contou-me tudo. O quão imensurável foi a nossa consternação é impossível de exprimir em palavras! Choramos mares de lágrimas ardentes, juntos. Os nossos sonhos pareciam mais distantes, porém não desistimos da fuga, adiantando-a para dali quatro dias, no sábado(o casamento com o Conde seria na terça). Mas o nosso desespero não nos deixou perceber que Sophie havia sido seguida por um criado, por ordem de sua mãe(apesar de ele nada ter ouvido). Léopoldine logo a proibiu de sair de casa, até a data do casamento, deixando-a sob vigilância uma grande parte do dia.
Na quarta-feira, ela bordou quase o dia inteiro, e nos raros momentos só, escreveu uma carta. Na quinta, passei todo o dia escondido, observando sua casa, para ver se eu a via na janela... mas foi em vão. Até que na madrugada de sexta, quase amanhecendo(num dos raros momentos em que não se encontrava sob vigilância), ela apareceu à janela. Na hora, mostrei-me. Ela ficou contente, e jogou algo pela janela para eu pegar, e logo entrou novamente. Era uma carta e um pequeno lenço bordado delicadamente em que havia inscrito "Eugène, amar-te-ei sempre. Sophie."
Na carta havia escrito:

'Querido Eugène,
Minha mãe ficou sabendo do último encontro que tivemos e remarcou o meu casamento com Armand para hoje à noite!
Oh! não sei o que fazer! Confesso que não posso odiar o Conde... ele é um bom homem... porém, também não posso amá-lo...
Só tu, oh!... tu és o único que amo, amei ou hei de amar, Eugène! Prefiro morrer a viver de ti longe... E se este casamento realmente ocorrer... ah!, saibas que meu coração será sempre teu, embora todas as esperanças tenham murchado como flores solitárias e esquecidas. Não há como fugir! Todos por aqui já sabem do que ocorrerá hoje. Peço que venhas às 17:10 h, para nos despedirmos... teremos ao menos dez minutos a sós...
A eternamente sua: Sophie.'

Após ler a carta, desesperei-me! Pensei em me matar, pensei em matar o conde, pensei em arriscar uma fuga com Sophie(embora as condições tornassem impossível tal tentativa, sem que ninguém visse). No fim das contas, tentei acalmar-me, e decidi simplesmente ir lá na hora em que ela marcara.
Ao encontrarmo-nos, quase nos afogamos em tantas lágrimas e beijos. Mas notei que ela estava muito pálida, parecia doente. Ainda assim, era de todas as estrelas a mais bela e brilhosa. E ela disse:

— Serei breve, pois não temos muito tempo. Se eu me casar esta noite com alguém que não seja tu, serei infeliz até que eu morra, e como vês, estou doente, desde quando nos separamos. Sinto que não viverei muito... mas prefiro morrer logo a sofrer ainda nesta vida, sendo obrigada a viver com alguém que não amo. Por isto, peço-te um favor...

— Ah, tudo o que quiseres, Sophie... tudo... — eu respondi, com a face banhada em pranto.

— Pois bem, querido Eugène... então, mata-me! — respondeu ela, mostrando-me um punhal.

— O quê?!

— Mata-me!... Por favor!...

No momento em que ela disse isso, fiquei paralisado, sem saber o que fazer ou dizer; eu apenas negava... Ela pôs o punhal em minhas mãos e implorou para que eu a matasse... mas eu não fazia nada. Eu estava sem força alguma! Parecia que ela controlava o meu corpo... e até hoje não entendo por que...
Ela puxando facilmente minhas mãos onde jaziam o gélido punhal, dentro de alguns segundos perfurou o seu pobre coração! Oh, ela morreu silenciosamente, com exceção de um suspiroso 'adeus' seu,(que eu pelo menos penso ter ouvido)...

E apenas após a sua morte, percebi o que ocorrera: minhas mãos a mataram! Fiquei parado, confuso, atormentado... apenas observando minha Sophie, minha doce amada morta... morta de amor! Oh! Foi o dia mais soturno e sombrio de todos... e ainda sonho com ele, e vejo sangue em minhas mãos... As palavras mais tristes que eu ouvira em minha vida foram ditas naquele momento pelo silêncio da solidão fúnebre da morte! E foi a partir daquele dia que percebi que se não há alguém na vida o qual possamos amar com tudo... com todo o nosso coração e alma... não vivemos, assistimos à vida!

Beijei-lhe os lábios frios pela derradeira vez e saí pela janela, mais pálido e triste do que nunca, plangendo incessantemente. Fui para casa, chorei durante toda a noite: e alguns dias após, fiquei sabendo que uma jovem suicidara no dia em que se casaria. Fiquei semanas sem sair de casa, apenas bebendo vinho e lágrimas no mais profundo e obscuro spleen... e até hoje, cinco anos depois, vou ao cemitério visitá-la..."

Após Eugène calar-se, seus três amigos olharam-no surpresos, até que Auguste quebrou o silêncio, e disse sarcasticamente:

— Ah, meus caros, dizei-me que vós não acreditais nesta história contada por nosso amigo Eugène! Vede como está bêbado! Parece até o Edgar Allan Poe...
Caro Eugène, não me leves a mal, mas acho mais fácil de crer que Marquês de Sade foi um virtuoso do que que sua história é verídica!

Então, Eugène, bem sério, tirou do bolso uma carta que aparentava ter sido lida muitas e muitas vezes. E depois, um lenço em que havia bordado "Eugène, amar-te-ei sempre. Sophie."
E disse:

— Carrego para todos os lugares em que vou...

Os três amigos de Eugène, entreolharam-se estupefatos, e logo, puseram-se a ler a carta, e quando terminaram, estavam mais estupefatos ainda. Então, Auguste disse, seriamente:

— Então, é verdade! E deveras, tu lhe perfuraste o coração?

— Sim... — respondeu Eugène. E neste momento, um suspiro exalou de sua alma e uma grande lágrima escorreu-lhe pela face...
 
"L'amour qui a fait ça"

Lembro-me de ti

 
Acordei ao som da chuva saudosa;
O vento soprou e eu pensei em ti,
E nas lágrimas que tu suspirosa
Plangeste quando eu lúgubre parti.

Oh! meu terso amor, minha triste rosa,
Sinto só nostalgias por aqui!
Quero secar-te a fronte lacrimosa,
E ouvir-te dizer: "Lembro-me de ti!"

Estás longe, mas não estás sozinha,
Meu coração de ti junto caminha,
E assim sempre será o meu desejo...

Lembra! Antes de partir, dei-te um aviso:
Eu viveria pelo teu sorriso
E morreria por teu doce beijo!
 
Lembro-me de ti

Amar-te

 
Quisera dizer-te tão-somente,
Sem abster-te da alegria ou não,
Que a alegria de ter-te inda sente
O meu tão plangente coração;

E também falar-te ternamente
Que em vão beijar-te é amar-te em vão,
E rente sonhar-te eternamente
É somente amar-te em solidão.

Mas não coubera a mim que a amargura
Da lembrança dura que perdura
Perdurasse co'essa agrura triste!

Não, eu não pensara que o passado
Tornar-se-ia um fado nodoado
E o amor o porque que tu partiste!
 
Amar-te

Falsa Crença

 
Crer apenas por crer, e não pensar,
Não é deveras crer, é se prender
A um mundo de escureza e desprazer,
Em que jaz a verdade a se ocultar...

Talvez seja a fé na noite um luar,
Chama muda que nos muda o viver,
Mas tal vela que vela nosso ser,
Despida de razão pode cegar...

Se tu não questionas o que crês,
Não se julgues, dormindo, um dos insones,
Tua crença não é vera e não vês!

Algo sem convicção jamais abones!
Não importa se tu crês ou descrês,
O que importa é que tudo questiones!...
 
Falsa Crença

Meus Sonhos

 
Que leve os meus sonhos a brisa leve
Para um canto seguro, onde haja encanto,
Onde não há de entrar o triste canto
E nem a fria neve a entrar se atreve...

Ah! se é que nesta vida tanto breve
Pode-se resguardá-los sob o manto
Da doce paz e do acalanto santo
Em um mundo em pranto e com o amor em greve...

Sim, é esta a verdade que me invade
A melancólica alma em soledade:
Ah! não quero vê-los morrer tristonhos!...

Não quero que se vão mui solitários
No vão dos falsos sentimentos vários,
Pois não há vida — nem nada — sem sonhos!
 
Meus Sonhos

Musa da Melancolia

 
Ó Lua triste, pálida e sombria,
Amo-te! mas no inverno amo-te mais!
És mais bela nas noites invernais,
Ó doce musa da melancolia!

Contemplo-te da necrópole fria,
Sobre os velhos jazigos sepulcrais,
Entre o ecoar dos silenciosos ais,
Na obscura solidão do fim do dia!

Co'a minha solitária e negra lira,
Canto-te a dor p'la qual mi'alma suspira;
Tu és, para mim, o estro mais sublime!

E em meio a tanto spleen e vã tristura,
Teu fulgor evanescente é a cura
Para a eterna amargura que me oprime!
 
Musa da Melancolia

O Vampiro

 
Aquele que outrora foi execrado
A viver só, nas trevas solitárias,
A olvidar o amor e as belezas várias,
E a nutrir-se de sangue despojado;

Aquele sem porvir e sem passado,
Que vaga pelas campas funerárias,
Procura a morte em noites mortuárias
E é eterna sua dor qual seu fado;

Aquele já afeito à solidão,
À tristeza e à lúgubre escuridão,
Eis o mais tétrico ser: o vampiro!

Ah, e sou tal como ele em minha dor:
Acho a morte o que há mais encantador,
E, por ela, tristemente, suspiro!
 
O Vampiro

Pálida Donzela

 
Oh! Pálida donzela, amo-te tanto!
Esmaece junto ao tétrico chorar
A tristura que jaz em meu olhar,
Quando contemplo teu eterno encanto!

Dissipaste-me o gélido quebranto,
Que por muito habitara como lar
Uma alma que assaz não pudera amar,
Vivendo sempre imersa em triste pranto...

Sonho contigo, e que tenho tua vênia
Para beijar-te a bela face branca,
E sentir o amor que mi'a dor arranca;

Sinto que és a flor duma velha nênia,
Que me surgiste na alva solidão,
P'ra de amor prencher-me o coração!
 
Pálida Donzela